Potenzmittel

José Horta Manzano


“Problemas de ereção?
O governo brasileiro aprova remédio contra a impotência para o Exército”


O Frankfurter Allgemeine, jornal alemão de referência, não perdoou. Além da manchete reproduzida acima – ilustrada com sugestiva foto que sugere um Bolsonaro submisso aos fardados –, contou o resto da história.

“Além das acusações de corrupção, o governo do presidente Jair Bolsonaro é alvo de zombaria e de sátiras. O Exército teria adquirido, em grande quantidade e a preços exorbitantes, comprimidos para a virilidade.”

O diário alemão não foi o único a caçoar. A mídia europeia em peso, num espírito situado entre a surpresa e a ironia, também deu a notícia.

O fato é que, nesta parte do mundo em que vivo, nenhum plano de saúde – do mais básico ao mais sofisticado – cobre remédios contra a impotência. Há de ser porque as autoridades da Saúde Pública consideram que disfunções eréteis decorrentes do envelhecimento não são consideradas patológicas, mas simples fatos da vida.

Por aqui, quem desejar revigorar seu desempenho sexual tem de consultar o médico, pedir receita e comprar o remédio pagando do próprio bolso sem direito a reembolso. Não sei se no Brasil os planos médicos são mais camaradas. Parece que, entre nossos fardados, é assim que funciona.

Seja como for, a compra de milhares de comprimidos desse tipo de remédio pelas Forças Armadas da República do Brasil pega mal pra caramba. Dá ensejo a duas reflexões.

Ou os engalonados de mais idade estão usando dinheiro do povo para seu conforto na cama; ou os recrutas, que deviam ser o retrato da virilidade e do vigor das Forças, estão dando precoces e inquietantes sinais de impotência.

Ora, minha gente, as Forças Armadas de um país não somente têm de ser fortes, mas também têm de parecer fortes. Virilidade é termo que combina com força, coragem, destreza, masculinidade. Distribuir à tropa comprimidos para combater problemas de ereção é um baita arranhão na virilidade dos uniformizados. A encomenda desses remédios, feita em escala industrial, passou um rolo compressor por cima da imagem da tropa. Os brios daquela juventude armada deve ter levado um baque.

Agora todos os brasileiros têm o direito de se preocupar. Suponha por um momento que, amanhã, nosso território fosse invadido. Como é que ia ficar? Quem nos defenderia? Um exército de brochas?

Não acredita? Pois até mês e pouco atrás, ninguém no mundo acreditaria na invasão da Ucrânia. No entanto, taí…

Observação
O título faz alusão ao nome carinhoso que a língua alemã dá a esse tipo de medicamento: pílulas de potência.

Ansiedade global

Dorrit Harazim (*)

Raras vezes o sentimento de ameaça esteve tão difundido globalmente. Trata-se de uma ameaça existencial difusa, imaterial, desvinculada de perigo físico, embora também afetada pelo espetáculo dantesco da guerra em curso na Ucrânia.

Emergiu daquela terra invadida, com cidades reduzidas a esqueletos e ruínas, um espécime de líder capaz de se comunicar com os seus por meio de uma linguagem universal que pode ser letal, quando não autêntica: a empatia. Talvez por não ter tido tempo de ensaiar uma estratégia de marketing político para tempos de guerra, o presidente da Ucrânia sob assalto, Volodimir Zelenski, teve de optar por ser quem é, sem retoques.

Acabou matando de inveja e assombro a elite política mundial. Suas falas de compaixão e urgência soam autênticas, parecem confiáveis – a ponto de importar pouco, neste mundo contaminado por extremos, sua real inclinação ideológica.

(*) Dorrit Harazim é jornalista. Trecho de artigo publicado no jornal O Globo de 10 abr 2022.

Até amanhã, se não chover

José Horta Manzano


Até amanhã se Deus quiser
Se não chover, eu volto pra te ver, ó mulher


É quase indecente mencionar versos de Noel Rosa, o grande poeta de nossa música, em tempos de guerra, com gente morrendo e um país sendo destruído.

É que, ao condenar a barbaridade que está sendo cometida pelos russos, a gente se sente do lado certo da história. E quem está do lado certo tem direito a certa licença poética. Na guerra desencadeada pelo orgulhoso Putin, tudo o que puder atrapalhar o exército agressor é motivo de contento.

As terras negras que cobrem a Ucrânia e o sul da Rússia são extremamente férteis. Aqueles vastos espaços onde se planta trigo são responsáveis pela garantia alimentar não somente de russos e ucranianos, mas também de numerosos países ao redor do globo.

Só no norte da África (o Oriente Próximo), o trigo de lá garante o pão de 100 milhões de egípcios, 45 milhões de argelinos, 12 milhões de tunisinos e quase 40 milhões de marroquinos, num total de quase 200 milhões de indivíduos.

As terras negras, férteis e fofas permitem que o arado se afunde fácil e rasgue sulcos generosos, que permitirão a semeadura anual. Essa mesma fofura, no entanto, já causou sérios problemas a exércitos estrangeiros que tentaram invadir a região.

Napoleão, no começo do século 19, foi um dos primeiros a se afundar naquela terra. A região serviu de barreira natural, ao servir de atoleiro para cavalos e canhões. Mais de um século depois, Hitler voltou a cometer o mesmo erro. Imaginando uma conquista fácil, se afundou nas terras russas e ucranianas.

Ao invadir a Ucrânia em fevereiro último, Putin imaginou trilhar uma avenida asfaltada. Acreditava que, em questão de dois ou três dias, Kiev cairia e o exército russo seria acolhido por uma população entusiasmada. Deu tudo errado.

As estradas estavam minadas. As pontes tinham sido explodidas. O exército ucraniano estava emboscado em cada vilarejo, atrás de cada árvore, um pesadelo.

Putin já avisou que está preparando operação militar importante para assenhorear-se da região do Donbas (Leste da Ucrânia). Impassíveis, os serviços meteorológicos informam que temos pela frente uma semana de chuva pesada, que deverá transformar a terra fofa em lama preta. Aliviados, os ucranianos agradecem aos céus.

Imigrantes ucranianos

Reparem que o único a usar máscara que lhe esconde o rosto é um rapaz de aparência jovem.
O Globo, 11 abr 2022.

José Horta Manzano


Verás que um filho teu não foge à luta


Em primeiro lugar, quero deixar bem claro que sinto imensa pena do infeliz povo ucraniano, covardemente atacado pelo (que se acreditava ser o) segundo exército do planeta, poderoso e bem armado. Que os agressores não sejam tão treinados nem tão articulados como se imaginava, não muda nada. São mais numerosos e donos de potencial ofensivo de primeira.

O jornal O Globo dá hoje notícia de 74 ucranianos que fugiram da invasão russa e encontraram refúgio em nosso país. O número de abrigados no Brasil é baixo, um nadinha perto dos 4,5 milhões de solicitantes de asilo que já tinham sido contabilizados deixando o país até o meio-dia de ontem. Assim mesmo, é sempre melhor acolher uns poucos do que nenhum.

Acredito que o Brasil tem potencial – e vocação – para receber muito mais gente. Mas o fato é que os que fogem da Ucrânia neste momento saem com intenção de voltar o mais rápido possível. Não são imigrantes como nos tempos de antigamente, que vendiam tudo, escolhiam o destino e vinham com armas e bagagens pra nunca mais voltar.

Os ucranianos só precisam de abrigo temporário; assim que as bombas pararem de cair do céu, querem voltar. Por isso, é compreensível que prefiram não se refugiar a 11.000 ou 12.000 quilômetros de distância de Kiev.

Na notícia d’O Globo, lê-se o seguinte:


“Os homens somam 83% do contingente de imigrantes ucranianos e 46% do total são do sexo masculino na faixa etária entre 25 e 39 anos. As mulheres somam 17% e a maioria delas, cerca de 10% do total de imigrantes, têm entre 25 e 39 anos. Entre homens e mulheres, não houve imigrantes acima de 65 anos e apenas 2% tinham menos de 14 anos na data de entrada no País.”


Fiquei um tanto perplexo. É sabido que os ucranianos do sexo masculino com idade entre 18 e 60 anos estão convocados para a defesa da pátria e, por esse fato, proibidos de deixar o país. Não é opção, é obrigatório.

A todo momento veem-se imagens de jovens que acompanham mulher e filhos pequenos até a fronteira polonesa, e em seguida embarcam de volta no mesmo trem em obediência à convocação.

A torturada redação do texto do jornal não é um primor de clareza. Assim mesmo, entende-se que 83% dos imigrantes acolhidos no Brasil são do sexo masculino e que os 17% restantes são mulheres, o que não deixa de ser lógico (83% + 17% = 100%). Aprende-se também que não há imigrantes com mais de 65 anos.

Agora vem a conclusão: a menos que todos os homens acolhidos em nosso país tenham entre 60 e 64 anos, portanto fora da faixa de alistamento obrigatório, fato bastante improvável, conclui-se que o Brasil está dando abrigo a um contigente de refratários à convocação decretada pelo governo de Kiev.

Pode-se dar um desconto e imaginar que os imigrantes tenham sido declarados inaptos para o serviço militar por serem “portadores” de problemas físicos ou mentais, como se deve dizer atualmente. Parece conjectura altamente improvável.

Resta a hipótese mais provável: o Brasil está concedendo visto humanitário a homens na força da idade, que chegam solteiros a nosso país, por terem se recusado a ajudar a defender a terra que os viu nascer e crescer. E fazem isso justamente na hora em que ela mais precisa deles.

Se assim for, começa a ficar clara a razão de a maioria dos acolhidos ser do sexo masculino. Fica também evidente o porquê de terem buscado refúgio a milhares de quilômetros da terra natal.

Ajudar a Ucrânia a enfrentar o agressor é uma coisa; acolher desertores é outra. Bem diferente.

Seria interessante pedir esclarecimentos ao Conare (Comitê Nacional para os Refugiados). Por fineza, o distinto teria o número de telefone deles?

Ganhar e perder

Carlos Brickmann (*)

Uma característica importante desta eleição é que nem todos têm a mesma concepção do que é ganhar. Bolsonaro e Lula disputam para ganhar a eleição de acordo com o pensamento da maioria da população: quem ganha ocupa a Presidência da República.

Mas vamos combinar: ser presidente é bom (ou não haveria tanta disputa), mas dá trabalho. Enquanto isso, com as leis que prepararam, deputados e senadores ganham excelentes salários (com todos os penduricalhos, muito mais que o presidente), têm férias mais constantes, têm acesso, se quiserem, a diferentes tipos de corrupção, dispõem de assessores que desempenham todo o trabalho (inclusive, conforme o cargo, até recebem para entregar ao patrão), têm passagens aéreas, diárias, etc.

Um vidão! É por isso que tantos partidos preferem buscar aliados diferentes, um em cada estado, pedindo em troca facilidades para ampliar a bancada. Uma boa bancada representa uma boa parcela do dinheiro público para financiar as eleições.

Poder é dinheiro, dinheiro é poder. Não é preciso ser presidente.

(*) Carlos Brickmann é jornalista, consultor de comunicação e colunista.

Butcha

José Horta Manzano

Uma guerra de conquista travada na Europa em pleno século 21, de tão anacrônica e assustadora, não pôde passar despercebida. Repórteres, jornalistas, cinegrafistas do mundo todo estão de olho grudado no desenrolar dos acontecimentos.

Se a intenção de Putin era lançar uma Blitzkrieg (=guerra relâmpago), deu-se mal. Analisando desse ponto de vista, já perdeu. O bumerangue voltou mais rápido e com mais força. Em maior ou menor medida, o planeta inteiro vai sofrer; mas as consequências da insanidade serão ainda mais pesadas para Putin e seu povo.

Filmado por repórteres e sacramentado por imagens de satélite, um massacre foi cometido numa cidadezinha tranquila, situada na periferia de Kiev, povoada por 35 mil pessoas antes da guerra.

Agências internacionais deram a notícia. Como se sabe, despachos vêm em inglês. Sonolentos, alguns encarregados de traduzir para a mídia nacional descuidaram de adaptar para nossa fonética o nome da cidade agredida.

A grafia cirílica Буча, transliterada para o inglês, dá Bucha, sequência de letras que, lida por um inglês, corresponde à pronúncia original. Não sei como o nome está sendo pronunciado pelo rádio e pela tevê no Brasil. O que sei é que boa parte de nossa mídia escrita adotou, sem refletir, a grafia inglesa.

O problema é que, em inglês, as duas letrinhas “ch” são pronunciadas “tch” – coisa que a gente aprende na primeira aula. Portanto, para permitir que um leitor brasileiro pronuncie corretamente o nome da cidade, é preciso escrever Butcha, não Bucha.

Sempre alerta, a Folha de São Paulo entendeu.

Folha de São Paulo

Já os outros dois grandes órgãos da imprensa nacional continuam cochilando.

Estadão

O Globo

 

O ditador e o aprendiz

José Horta Manzano

Na Europa, o fim das hostilidades da Segunda Guerra Mundial representou o ponto final de um terror de seis anos, que ceifou entre 60 milhões e 70 milhões de vidas humanas. Entre todos os países envolvidos, a União Soviética pagou o tributo mais elevado. A fatura total, entre civis e militares, passa dos 20 milhões de mortos – um cataclismo.

A rendição incondicional da Alemanha foi assinada em Berlim, às 23h de 8 de maio de 1945. Naquele instante, em razão da diferença de fuso horário, já era 9 de maio em Moscou. Essa é a razão pela qual o День Победы (Dia da Vitória) se festeja nessa data na Rússia.

Por feliz coincidência, o 9 de maio coincide com a chegada da primavera. As árvores folhudas, os campos floridos e a temperatura amena propiciam um clima de festa. O fim da “Grande Guerra Patriótica” é festejado com desfile militar na Praça Vermelha na presença do ditador de turno e dos que estiverem no topo do poder.

Este ano, o 9 de maio reveste importância crucial para Vladímir Putin. É a data-limite para anunciar ao bom povo o êxito e a vitória da “operação especial” levada a cabo na Ucrânia. É impensável deixar passar em branco esse dia de comemorações sem dar a boa-nova que todos esperam.

O ministro de Relações Exteriores da França declarou nesta sexta-feira que “o pior está por vir”. Ele também deve estar pensando no frenesi que se apodera de Putin à aproximação do 9 de maio, o prazo-limite.

O ditador russo, como todo autocrata que se preza, tem dado mostras de que a preservação de vidas humanas não está no centro de suas preocupações.


A propósito, repare em nosso Bolsonaro. Nessa matéria, ele ainda não passou do estágio de aprendiz, mas já segue a mesma linha de pensamento do modelo putiniano. Apesar de ser tupiniquim, o capitão leva jeito para a coisa. Basta recordar sua atitude no auge da pandemia, na época em que, ao ver que compatriotas caíam como moscas, repetia que “todo o mundo tem de morrer mesmo”. Como Putin, ele pertence a essa categoria de indivíduos para os quais a vida (dos outros) tem pouca ou nenhuma importância.


Ao fim e ao cabo, Putin tem necessidade absoluta de exibir ao povo russo algo que possa ser chamado de vitória. Afinal, 9 de maio é o Dia da Vitória! A queda de Kiev está descartada. A ocupação da Ucrânia inteira também foi posta de lado. Que rumo tomará a invasão daqui até a data fatídica?

Ocupará a região do Donbass? Conquistará extensa faixa litorânea? Atacará a cidade de Odessa? Usará armas químicas, bacteriológicas ou até nucleares? Ninguém sabe, talvez nem o próprio ditador. O que se sabe é que ele não hesitará em fazer vítimas civis, como acaba de demonstrar ao bombardear a estação ferroviária de Kramatorsk sexta-feira passada. Muita gente ainda há de morrer.

Putin se meteu numa enrascada. Ele já se deu conta de que as sanções econômicas serão mantidas por muito tempo e, irremediavelmente, vão estrangular seu país. Sabe também que, ainda que mandasse suspender a guerra amanhã, as sanções continuariam em vigor. Portanto, a única coisa que ainda pode fazer é manter a censura aos meios de comunicação e apresentar ao povo boas notícias. Talvez isso baste para permitir-lhe permanecer no poder. Talvez.

Boas notícias para Putin são péssimas notícias para o povo ucraniano. É inacreditável o mal que a mente doentia de um só indivíduo pode causar à humanidade.

Sorte temos nós, no Brasil. Sabemos que nosso pequeno aprendiz não tem – e nunca terá – o poderio do compadre russo.


“Somos solidários à Rússia” (sic)
Declaração dada por Jair Bolsonaro em Moscou, no dia 16 fev° 2022 diante de Vladímir Putin.


 

Conselho de Direitos Humanos

Conselho de Direitos Humanos
Resultado do voto de 7 abr 22 sobre a permanência da Rússia
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José Horta Manzano

O Conselho de Direitos Humanos é o órgão da ONU encarregado de promover e proteger os direitos humanos no planeta. É formado por 47 países-membros eleitos pela Assembleia Geral. Ontem, 7 de abril, as Nações Unidas se reuniram em assembleia geral.

A questão do dia era a exclusão da Rússia do Conselho de Direitos Humanos.

Por alguma razão, uma vintena de países preferiram ausentar-se da sessão na hora do voto. Abaixo está o detalhe da escolha dos 175 que votaram.

93 países votaram SIM (a favor da exclusão da Rússia)
24 países votaram NÃO (contra a exclusão da Rússia)
58 países se abstiveram

Agora vamos a um joguinho de adivinhação.

Pergunta
Cite 5 países que votaram para excluir a Rússia do Conselho de Direitos Humanos.

Resposta
Ora, essa é fácil. Dá pra citar até mais. Basta olhar para os países mais civilizados – ou daqueles que aspiram a entrar para o clube dos civilizados. Entre outros, sem surpresa: Bélgica, Alemanha, Estados Unidos, Canadá, França, Dinamarca, Portugal, Itália, Suíça. Mas também latino-americanos, inclusive vizinhos próximos: Argentina, Uruguai, Paraguai, Chile, Costa Rica, Peru, Colômbia, Equador.

Pergunta
Cite agora 5 países que votaram contra a exclusão, ou seja, que julgam que a Rússia merece permanecer no Conselho de Direitos Humanos.

Resposta
Cuba, China, Coreia do Norte, Irã, Síria, Nicarágua, Bolívia. E a Rússia, evidentemente. Entram ainda nesta categoria os países que orbitam em torno da antiga União Soviética e que dependem de Moscou: Quirguízia, Uzbequistão, Casaquistão, Tadjiquistão.

Pergunta
Cite, pra terminar, 5 países que ficaram em cima do muro. São os que se acovardaram e preferiram se abster mostrando tibieza de posicionamento numa hora grave da humanidade. (A meu ver, optaram pela pior atitude: o não pronunciamento. Os outros países pelo menos tiveram a honradez de exprimir a posição; já os da turma de cima do muro se furtaram à própria responsabilidade.)

Resposta
O Brasil! Mas não estamos sozinhos. Em nossa companhia, estão a Guiné-Bissau, o Bangladesh, o Egito, o Catar, a Arábia Saudita, o Paquistão, a Indonésia.

Diz o adágio que quem cala consente. A não-reprovação da Rússia de Putin equivale a uma aprovação. Ou, pior, à indiferença diante do modus operandi de um país que, se deu grandes nomes à humanidade no passado, está dominado há 20 anos por uma casta de selvagens. E não merece ser admitido entre nações decentes.

Ah, se o Barão do Rio Branco imaginasse que, um século após sua morte, teríamos regredido a um tal estágio de acovardamento!…

A síndica

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Tem gente que se torna praticamente virtuose na arte de manipular emocionalmente outras pessoas. Sua expertise é provocar a fúria de qualquer um que atravesse seu caminho, fazendo comentários desrespeitosos sobre características que a pessoa não tem como controlar (como cor da pele, gênero, deficiências físicas ou mentais), desqualificando moralmente seus oponentes e abalando sua autoestima.

Um dos pontos-chave dessa estratégia é que a ofensa seja feita sempre de forma sorrateira, indireta: é preciso que o agressor pegue o outro desprevenido, seja através de uma postura inicialmente amistosa, seja através de um raciocínio ferino rápido durante a conversação que pareça ocasional, não-intencional. O emprego de um tom de voz contido ou jocoso colabora para que a intenção de causar descontrole emocional no noutro se concretize mais rapidamente. O lado triste é que, quando a vítima finalmente sai do sério, retrucando de forma intempestiva, ela não está dando uma resposta à altura, mas apenas reforçando a eficácia da estratégia e confirmando o poder demolidor do agressor.

As mulheres sabem bem como isso funciona. Acuadas por frequentes comentários discriminatórios a respeito de sua competência técnica ou autoridade para liderar grupos, ou ainda por observações de baixo nível (normalmente de cunho sexual), se reagem chorando ou estapeando o agressor, lá vem a velha cantilena: “Mulheres são instáveis emocionalmente, não têm sangue frio para lidar com situações de tensão, não têm senso de humor”. E o agressor, impune e com presumido ar de espanto, se rejubila com a comprovação na prática de suas teses.

Forçoso é admitir que, para que a estratégia funcione, o agressor precisa possuir algum resquício de inteligência. Precisa saber que não pode levantar acusações diretas aos berros, uma vez que isso demonstraria para os circunstantes que ele também não consegue controlar seus impulsos. Precisa saber identificar com antecedência qual é o posicionamento exato de seu oponente na escala reativa que vai de “sangue de barata” a “pavio curto”. Precisa impedir a qualquer custo que os circunstantes se alinhem com a vítima e saiam em defesa dela. Um caso emblemático desse tipo de expertise é o que eu relato abaixo.

Todo mundo sabe como os síndicos costumam ser malvistos pelos moradores de um condomínio. As razões para esse estereótipo são muitas: postura autoritária, moralismo, tentativas de interferência na vida particular dos moradores, formação de panelinhas no atendimento às demandas dos moradores, suspeitas de apropriação indébita ou de má gestão orçamentária, dentre muitas outras.

No condomínio onde moro não foi diferente. A síndica de ocasião era uma senhora de cerca de 80 anos, que se apresentava como especialista em administração de pessoal, contabilidade, legislação trabalhista e fiscal. O síndico anterior havia sido acusado de desviar dinheiro do condomínio. A eleição dela representava, portanto, a esperança de uma faxina completa nas contas do condomínio.

Era uma pessoa altiva e austera mesmo fora das funções de síndica. Ríspida no trato com moradores e funcionários, logo começou a causar um sem-número de conflitos. Sentia-se à vontade para legislar sobre novas regras de convivência caso a convenção do condomínio fosse omissa nesse sentido. Gritava com crianças e adolescentes que brincavam no jardim do térreo pisando na grama, ou ouviam música alto. Vira e mexe soltava uma circular recriminando hábitos dos moradores que, segundo ela, contrariavam a imagem de um condomínio “de classe”.

Uma das coisas que mais a irritavam era o contato afetivo próximo dos moradores com os porteiros. Alegando questões de segurança, ela passou a proibir que o contato fosse além do ‘bom-dia’. Mandou reformar a portaria, colocando-a num plano mais elevado e revestiu os vidros com filtro escuro. Proibiu os funcionários de se afastarem do posto mesmo que por alguns segundos para ajudar moradores com sacolas de compra ou problemas de locomoção.

Ao longo do tempo, sua especialidade mostrou ser mais especificamente a de tirar os moradores do sério, tratando-os como subordinados. Para isso, ela não economizava adjetivos pejorativos e humilhações em público. Chamou a mãe de uma moradora, de quase 90 anos, de esclerosada. Acusou, sem provas, um morador eletricista de ter feito uma gambiarra na antena de tevê para ter acesso indevido a canais pagos. Certa vez, depois de ter brigado com um morador gay por seu comportamento espalhafatoso, interfonou para meu apartamento, pedindo que eu alertasse a mãe dele de que ele “não valia a comida que a mãe preparava”.

Intimidados, os condôminos deixaram de recorrer a ela para resolver quaisquer pendengas. Temendo serem a próxima vítima de seus maus bofes, limitavam-se a comentar em voz baixa pelos corredores os absurdos mais recentes. A tensão escalou sem controle até o dia em que ela resolveu confrontar um morador que era um ex-militar aposentado por distúrbios psiquiátricos. Como o homem tinha surtos frequentes de agressividade e andava armado, representava um páreo duro para a intempestividade dela. Certo dia, ao passar em frente ao escritório da administração, ele foi questionado sem meias palavras se não se envergonhava de ser “encostado na mulher”, que trabalhava dia e noite para sustentar a casa, enquanto ele levava uma vida fútil, cuidando apenas de sua cachorra.

Foi o que bastou: furioso, o homem invadiu o escritório e estapeou a síndica sem dó nem piedade. Pega no contrapé pela primeira vez, ela registrou um boletim de ocorrência, mandou trancar a porta da administração e deslocou um vigia para fazer sua segurança 24 horas por dia. Contratou um advogado e exigiu que os moradores pagassem por seus serviços, alegando que estava no exercício de suas funções quando da agressão. O rebuliço foi total. Logo os moradores se dividiram, uns apoiando uma mulher idosa vítima de agressão e outros justificando a perda de controle de um homem aviltado em sua honra, já sem muitos freios racionais.

Por fim, um grupo de moradores decidiu organizar um abaixo-assinado para a realização de uma assembleia extraordinária, em que se discutiria o afastamento definitivo da síndica em função de tantas polêmicas. Para que ninguém fosse alvo isolado de fúria, ficou combinado que cada morador apresentaria de própria voz as circunstâncias de seu embate pessoal com ela. Informada dessa tática e vendo que não teria como contraditar cada caso, poucos minutos antes do início da assembleia, a síndica apresentou sua renúncia por escrito.

Aprendi com essa mulher que não há uma forma 100% eficaz de reagir a esse tipo de manipulação emocional, nem mesmo o silêncio despeitado. No limite, pode-se respirar fundo, perguntar-se se há um fundo de veracidade no comentário insultuoso e retrucar usando da mesma técnica: a ironia ou o sarcasmo.

Certa vez, quando nos encontramos no corredor e ela pretendeu me ensinar a melhor forma de embalar o lixo para que ele não provocasse mau cheiro, olhei para ela espantada e emendei com toda coragem: “Nossa, me desculpe, devo estar ficando com Alzheimer! Imagine a senhora que eu não me lembro de ter pedido sua opinião…”

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Lula: sem incomodar ninguém

José Horta Manzano

Dias atrás, o Lula esteve presente a um evento na sede da CUT – Central Única dos Trabalhadores. Falando para plateia amestrada, aproveitou para dar instruções aos militantes. Incentivou-os a formar grupos de 50 pessoas para missão especial: cada grupo cuidaria de um parlamentar não-petista. Para isso, os 50 iriam juntos à casa do político-alvo para incomodá-lo e pressioná-lo a entender as propostas do candidato Lula. À força.

Assim mesmo, foi indulgente. Recomendou que ninguém xingasse, mas que conversassem “com a mulher e com o filho” do parlamentar “sem incomodar ninguém”. Não explicou como se faz para enfiar 50 visitantes num apartamento “para conversar com a mulher e o filho” sem incomodar ninguém.

A proposta do ex-presidente traz dois espantos. O primeiro é o surrealismo da sugestão. Imagine o distinto leitor que, de repente, apareçam à sua porta 50 desconhecidos – sem xingar, só pra conversar, naturalmente. Manda entrar ou dá com a porta na cara?

Inteirados da proposta, dois ou três suaves parlamentares bolsonaristas já deixaram claro que, se o grupo ousar bater-lhes à porta, será recebido à bala. Bem explícito, um deputado federal disse isso num vídeo em que acaricia uma pistola. Outra refinada deputada foi pelo mesmo caminho e prometeu “pregar bala” em quem ousasse mexer com seu filho.

Um segundo espanto é perceber que, em décadas de militância política como dirigente sindical, deputado constituinte e presidente da República, o Lula ainda não aprendeu que ações à moda staliniana (ou putiniana) não são as melhores pra convencer. Qualquer promessa que o parlamentar “visitado” pudesse formular diante de 50 invasores de domicílio teria valor nulo. A coação seria facilmente demonstrada. Declaração extorquida sob intimidação não tem valor legal.

Já ouvi, mais de uma vez, certos “influenciadores” aconselharem eleitores a escreverem a seus deputados. Dependendo da idade e do gosto de cada um, vale escrever por carta, telex, fax ou email, tanto faz. O objetivo é simples. Deputado que vê sua caixa de emails repleta com milhares de mensagens de eleitores não vai ficar indiferente. Pode até nem analisar uma por uma, mas vai parar pra refletir, é certeza.

Conselho dado a militantes para que se dirijam em grupos de 50 para uma visitinha à família de parlamentares, confesso, é a primeira vez que ouço. E pensar que essa sandice vem de um homem que já chefiou o Estado brasileiro por 8 anos!

Nota cínica
Lula fala como se acabasse de descobrir a melhor maneira de propagar as virtudes de seu projeto de governo. Ora, em matéria de convencer parlamentares, já faz 20 anos que o lulopetismo descobriu a receita certeira.

Montar brigadas de 50 militantes para visitinhas domiciliares? Qual nada! Isso é ideia romântica, que povoa a cabeça de adolescentes idealistas. Raposa velha como o demiurgo de Garanhuns sabe que não dá certo e que o caminho é outro.

Um mensalão é bem mais simples, discreto e eficaz. Basta escolher os beneficiários e acertar o montante. No escurinho dos gabinetes. Longe dos holofotes. Na moita. Não é Luiz Inacio?

Nota nem tão cínica
Renovo minha sugestão de que todo candidato ao mais alto posto da República seja primeiro submetido a exame psicológico/psiquiátrico. É pra ver se está bem dos miolos.

É verdade que, se minha ideia fosse levada adiante, era capaz de ficarmos sem candidato para outubro. Se acontecer, na hora a gente vê o que faz.

Kremlin

O kremlin de Nijni Novgorod
Situada a 400km de Moscou, a cidade se expandiu e tem hoje 1.300.000 habitantes.
Na época da construção do muro, devia caber inteirinha dentro.

José Horta Manzano

Você sabia?

Para invadir uma cidade nos tempos de antigamente, quando ainda não havia avião, nem tanque de guerra, nem míssil, era preciso avançar a pé.

Em regiões montanhosas, a proteção dos habitantes era mais cômoda. Bastava construir o casario num lugar elevado e de difícil acesso. À menor tentativa de invasão, punham-se enormes pedras a rolar morro abaixo, complicando a vida do agressor. Que, em geral, acabava desistindo.

Na parte europeia da Rússia, montanha é artigo raro. A paisagem é plana e as cidades tiveram de ser plantadas no meio daquela vastidão desguarnecida. Como fazer pra se proteger de ataques? Não houve outro meio se não cercar vilas e povoados com muros de pedra altos e espessos a fim de criar cidadelas fortificadas, que equivaliam a grandes fortalezas.

Nas línguas eslavas, o termo kreml (em caracteres cirílicos: кремль) designa esse tipo de cidadela. Na Idade Média, todas as cidades russas, pequenas ou maiorzinhas, viam-se obrigadas a dispor de algum tipo de fortificação. Em alguns casos, o espaço ao interior dos muros era tão vasto, que dava para abrigar todas as casas.

Até hoje, algumas cidades mais antigas guardam vestígios de seu respectivo kreml. Algumas conservam as fortificações intactas. Entre estas últimas, está Moscou, capital da Federação da Rússia. O kremlin de Moscou é um espaço imenso, com superfície equivalente à de 20 campos de futebol. A Unesco inclui o conjunto entre as obras que compõem o patrimônio da humanidade.

A atual metrópole moscovita, que é imensa, cresceu em volta da antiga cidadela. Por metonímia, a mídia às vezes utiliza o termo kremlin com o significado de “o poder russo”. Nesse caso, convém grafar com inicial maiúscula: Kremlin, como fazemos nós quando nos referimos, por exemplo, a um decreto emitido pelo Planalto ou a uma decisão da Casa Branca.

Uma pancada no soft power russo

Alexander Malofeev, jovem pianista russo

José Horta Manzano

O assunto é espinhudo. Em razão de Vladímir Putin ter declarado guerra à Ucrânia e invadido o país, a imagem da Rússia no exterior levou um golpe. Independentemente de quem venha a ser o vencedor do confronto – se houver –, um perdedor está desde já confirmado: a Rússia.

A simpatia ou antipatia que se tem por um país representa um papel importante. A categoria dos que se apresentam no exterior é peça central desse soft power. A dimensão internacional dos artistas e dos esportistas russos é significativa, bem maior do que os 145 milhões de habitantes do país poderiam fazer supor.

Desde que a primeira bomba estourou na Ucrânia, faz pouco mais de um mês, o contingente de russos que se apresentam fora do país passou a ser olhado com desconfiança. Essa suspeição é mais forte justamente nos países em que eles costumam se apresentar com maior frequência.

Cada país tem lidado com o problema a seu modo, sem acerto com aliados e parceiros. No mês passado, os festivais de cinema de Estocolmo (Suécia) e de Glasgow (Escócia) anunciaram ter retirado filmes russos da programação. As películas sofriam de um pecado original: tinham recebido subvenções do Estado russo.

Por seu lado, a Orquestra Sinfônica de Montreal (Canadá) anulou as três apresentações de Alexander Malofeev, pianista-prodígio russo nascido em 2001. O mesmo azar coube a Roman Kosyakov, outro jovem pianista, excluído do Concurso Internacional de Piano de Dublin (Irlanda) pelo fato de ser russo. Em razão da nacionalidade, também os para-atletas russos foram excluídos dos Jogos Paraolímpicos de Pequim.

Embora os artistas e esportistas russos que dão com a cara na porta sejam numerosos, o grande público nem sempre fica sabendo, visto que só os mais conhecidos aparecem na mídia. A lista dos excluídos é bem mais longa do que os que mencionei.

Agora vem a pergunta: é justo fazer pagar, a quem não tem nada a ver com o peixe, o preço da brutal estupidez de Putin? A arquitetura de nosso Direito exclui a expiação coletiva – a culpa é sempre individual, não cabendo a ninguém pagar por crime alheio.

A intenção dos que vetam a apresentação de artistas e esportistas russos carece de eficacidade. Os que impõem a proibição esperam que ela force os prejudicados a tomar partido e condenar publicamente a guerra. Mas acontece que, logo no começo de março, entrou em vigor na Rússia uma lei que permite condenar a até 15 anos de cárcere qualquer um que se posicione contra a Guerra de Putin. O veto aos artistas e esportistas os deixa num beco sem saída. Ainda que, no fundo, fossem contra a guerra, não ousariam declará-lo em voz alta.

Além dessa lei, as consequências para os infelizes podem ser ainda piores. Sob Putin, a Rússia se tornou um Estado ditatorial tão pesado e violento como na era soviética. Nenhuma discordância é tolerada. Toda oposição é reprimida com brutalidade. Caso um artista (ou um esportista) decida declarar-se contrário ao regime, correrá grande risco. Não adianta nem passar a residir no exterior e não mais retornar ao país: os membros de sua família que tiverem ficado na Rússia podem sentir a mão pesada do regime.

Não tenho a pretensão de trazer a solução do problema. A sinuca é de bico. O ideal seria que a Rússia se livrasse do ditador e se tornasse, pela primeira vez em sua longa existência, uma nação democrática. Mas aí já estamos pedindo demais.

Palavras têm peso

José Horta Manzano

Apesar do descontrole que reina nas redes sociais, terreno em que cada um se sente autorizado a dizer qualquer besteira a qualquer momento, palavras têm peso.

Apesar do descontrole que reina na mente de Bolsonaro, e que o faz sentir-se livre de dizer tudo o que lhe passa pela cabeça a todo momento, palavras ainda têm peso.

Apesar do descontrole que reina no miolo de muitos políticos, e que lhes permite atacar, insultar e tentar “cancelar” qualquer um a todo momento, palavras continuam tendo peso.

Bolsonaro, que vem sendo eficientemente blindado por correligionários por ele mesmo instalados em postos-chave da República, tem escapado a toda sanção. E vai continuar escapando até o dia em que cair do coqueiro. Como se sabe, tudo o que sobe acaba caindo um dia; e, quanto maior o coqueiro, maior o tombo.

Estes dias, um deputado federal do campo bolsonarista me fez lembrar o Zé Grandão Bobo, personagem de HQ da minha infância. Era um urso, sempre desenhado armado de porrete. Era grandalhão e espalhafatoso mas inofensivo.

O deputado foi condenado a portar tornozeleira eletrônica. Num ato de grande coragem, convocou a mídia e passou 24 horas refugiado na Câmara para escapar ao vexame. Pois o rapaz tem as características do antigo personagem: é grandalhão, é bobo e não passa de um zé qualquer.

Se está nessa sinuca é porque não se deu conta de que as palavras têm peso. Insultou, em mais de uma ocasião, magistrados do STF, uma temeridade para quem goza de foro especial e sabe que, se for julgado um dia, seus juízes serão… os magistrados do STF.

Parece coisa de débil mental. Como resultado evidente, o deputado não contou com a indulgência dos juízes. Vai ter de usar a algema eletrônica, queira ou não queira. Mostrou fazer jus a minha observação: é zé, é grandão e é bobo.

O mundo inteiro descobriu ontem cenas de horror provenientes da Ucrânia. Em peso, a mídia mostrou as atrocidades cometidas pelo exército russo na pequena cidade de Butcha, abandonada pelos invasores coalhada de cadáveres de civis executados a sangue-frio.

Chocados com o que viram, alguns dirigentes não pesaram as próprias palavras e falaram em genocídio. Zelenski, o presidente da Ucrânia, foi o primeiro a usar esse qualificativo para o que se passou naquela cidadezinha da periferia de Kiev. Sendo ele o presidente do país agredido, dá pra relevar o deslize.

Fica mais difícil dar o mesmo desconto aos primeiros-ministros Pedro Sánchez (Espanha) e Mateusz Morawiecki (Polônia), que utilizaram o mesmo termo de genocídio. Estão enganados.


Genocídio é palavra relativamente recente, criada nos anos 40 e oficializada por convenção da ONU de 1948. A definição é oficial e rigorosa: é a exterminação sistemática de um grupo humano por motivos de raça, língua, nacionalidade ou religião. Corresponde, portanto, a limpeza étnica – um ato extremado levado a cabo por motivos étnico-religiosos ou por loucura.


Aconteceu na Bósnia-Herzegovina nos anos 90, quando batalhões sérvios cuidaram de eliminar sistematicamente populações inteiras de muçulmanos.

Fica fora de esquadro falar em genocídio de russos contra ucranianos. Os dois povos compartilham a história e a religião; falam línguas muito próximas; têm entrelaçamento familiar: grande parte dos ucranianos têm parentes russos e vice-versa. Difícil mesmo é encontrar russos ou ucranianos “de raça pura”.

Pode até ser que, lá no fundo da cabeça de Putin, esteja a ideia de “cancelar” o povo ucraniano, talvez até de partir para a eliminação física. No entanto, enquanto isso não for comprovado, não convém usar o termo genocídio. Que se diga crime de guerra, expressão que não será contestada por ninguém.

Baseada no que aconteceu em Butcha, a acusação de genocídio tem pouca chance de ser recebida pelo Tribunal Penal Internacional.

Atrocidade, brutalidade, crueldade, barbaridade, massacre, selvajaria, bestialidade, desumanidade são termos de bom tamanho. Exprimem julgamento de valor e não entram em colisão com nenhuma definição oficial.

Destalinização

José Horta Manzano


Não se fazem mais guerras como antigamente.


As guerras de antigamente eram sinônimo de morticínio em grande escala. Só a Segunda Guerra (1939-1945) deixou um rastro de desolação estimado entre 70 milhões e 80 milhões de mortos, barbaridade difícil de imaginar.

Estas últimas décadas, vem se aperfeiçoando a técnica de guerra à distância, em que um indivíduo fica comodamente acomodado numa poltrona em frente a um monitor e, de lá, aciona um míssil para um “ataque cirúrgico” a ser desfechado a milhares de quilômetros de distância, visando a atingir unicamente determinado objetivo, sem deixar vítimas colaterais. A falácia é evidente, visto que todo bombardeio, por mais “cirúrgico” que seja, deixa vítimas.

Não se pode negar que as guerras modernas causam menos mortes civis e militares do que os horrores do passado. Mas não se pode esquecer tampouco um dado importante: conflitos de antigamente tinham vencedor e perdedor. A distinção era nítida entre quem ganhou e quem perdeu a guerra. Rendição ou capitulação eram o final esperado de todo conflito.

Hoje a distinção ficou bem mais difícil. Nesse arranca-rabo entre Rússia e Ucrânia, por exemplo, sabe-se desde já que não haverá vencedor. A guerra só pode ser encerrada por meio de acordo. Pra não perder a face, as duas partes vão cantar vitória, mas todo o mundo sabe que ambas terão perdido. Uma Ucrânia semidestruída vai demandar anos de trabalho duro pra ser reconstruída – mas vai poder contar com ajuda do mundo civilizado.

Quanto à Rússia, vai continuar se estrangulando aos poucos. Além de ter angariado a antipatia do mundo, suas exportações de petróleo e gás tendem a minguar. Uma Europa assustada, que se deu conta de sua dependência energética para com a Rússia, está mexendo os pauzinhos para acelerar o passo em direção a energias renováveis.

Três anos depois da morte de Stalin, a União Soviética denunciou seus crimes e deu início ao grande movimento de destalinização, que funcionou para cancelar o antigo ditador, como se diria hoje. Não seria espantoso se, num futuro bastante próximo, os crimes de Putin fossem denunciados e a Rússia virasse a página e cancelasse o antigo ditador. O único caminho que a Rússia tem para se eximir de culpa é jogá-la inteirinha no ditador atual.

E passar algum tempo tranquila até que novo aventureiro se apodere do Kremlin.

Festejar o 31 de Março?

José Horta Manzano

A história dos países é marcada por uma sucessão de deslealdades, golpes e revoluções. Não há outro meio de empurrar (ou emperrar…) a história de um povo. Se nunca tivessem ocorrido desvios da ordem estabelecida, ainda estaríamos nos cobrindo de peles e desenhando bichos na parede de acolhedoras cavernas úmidas. Talvez até estivéssemos engolindo comida crua, por não termos domado o fogo.

Todos os Estados carregam um histórico de cambalhotas. A meu conhecimento, nenhum escapou, nem menos nosso Brasil, apesar de ser visto como nação pacífica. Grandes passos da humanidade foram resultado de grandes golpes contra a ordem então vigente.

A Revolução Francesa, golpe pesado e magistral no sistema em vigor, foi um marco no processo civilizatório da humanidade. A Revolução de Outubro de 1917, que instaurou o regime comunista na Rússia, pautou a vida do planeta durante 70 anos.

Vamos agora ser cínicos (mas realistas). A partir de que momento um golpe contra a lei vigente se torna legal? Ou, em outra abordagem: Qual é o nome da lavanderia que aceita roupas manchadas de ilegalidade e, depois de lavar e passar, devolve as peças imaculadas, com virgindade refeita, prontas pra serem cultuadas?

A resposta é realista (mas cínica). Legal é a revolução que deu certo. Revolução que deu certo é o ponto inicial de nova etapa de uma civilização. Golpe que teve sucesso é marco de novo ordenamento de uma sociedade. Grandes fases de nossa história tiveram início como um ataque contra a ordem então vigente.

O 14 de Julho da Revolução Francesa é comemorado até hoje, enquanto que todas as datas da Revolução Russa desapareceram do calendário oficial daquele país. É a prova evidente do sucesso da primeira e do fracasso da segunda.

O Brasil-colônia tornou-se independente da metrópole em virtude de um golpe familiar, uma obscura deslealdade de filho pra pai, um golpe palaciano que reafirmou nosso sistema clânico de governança, já então em vigor. Tendo dado certo, o Dia da Independência é lembrado e festejado até hoje.

O Império do Brasil virou República em virtude de um golpe militar, uma desleal revolução de palácio. Tendo dado certo, também o Dia da República é lembrado e festejado até hoje.

A Revolução de 3 de Outubro de 1930 marcou o fim da República Velha e instaurou a ditadura de Getúlio Vargas. O novo regime durou 15 anos. Com a redemocratização do país, o movimento que levou Vargas ao poder perdeu o qualificativo de “revolução” e passou a ser chamado de “golpe”. É natural, visto que não se eternizou. Com o fim do regime, o 3 de Outubro deixou de ser comemorado e caiu no esquecimento.

A Revolução de 31 de Março de 1964 marcou o fim do período democrático que tinha tido início com a queda de Vargas, e instaurou nova ditadura – militar, desta feita. Durou 21 anos. Com a queda da ordem militar e a redemocratização do país, o 31 de Março deixou de ser comemorado. Pela ordem natural das coisas, seu destino deveria ser o esquecimento, que é o fim de todas as mudanças que não perduram. O que se costumava chamar de “revolução” passou a ser conhecido como “golpe”.

Curiosamente, no entanto, o finado regime continua sendo cultuado por uma franja estreita de sebastianistas barulhentos que parecem ter fixação num passado que muitos deles nem vivenciaram. Esse culto tem sido potencializado desde que a Presidência foi assumida por Bolsonaro, ele mesmo saudosista doentio.

Ainda esta semana, o general Braga Netto, ministro da Defesa, declarou que a ditadura imposta pelo regime militar “fortaleceu a democracia”(sic) e foi um “marco histórico da evolução da política brasileira”(sic sic).

Soou tão fora de esquadro quanto a declaração de Putin de que a invasão da Ucrânia visa a “desnazificar” o país. Coisa de manicômio.

Um ou outro político de segunda grandeza resmungou. E a imprensa, distraída e ainda fascinada com o estapeio do Oscar, publicou o resmungo como nota de pé de página.

E assim vamos banalizando o absurdo.

Ucrânia: os refugiados

Fluxo de refugiados que deixam a Ucrânia
Crédito Infográfico: Alto-Comissariado da ONU para Refugiados

José Horta Manzano

Na terça-feira 29 de março, a contagem oficial dos ucranianos que deixaram o país em busca de refúgio no exterior atingiu a marca simbólica e impressionante de 4 milhões. Pela contagem do Alto-Comissariado da ONU para os Refugiados, exatamente 4.019.287 pessoas tinham atravessado a fronteira.

A imensa maioria de solicitantes de asilo é constituída de mulheres, crianças e anciãos. De fato, todos os homens com idade entre 18 e 60 anos foram convocados pelo Ministério da Defesa. Não podem partir. Têm de ficar para defender a pátria agredida.

Embora todas as mulheres tenham permissão para ir-se, muitas delas preferiram ficar para ajudar como podem. Enfermeiras, parteiras, médicas e outras terapeutas estão nesse caso. Mas outras, ainda que não estejam familiarizadas com funções médicas nem paramédicas, contribuem na logística, na preparação de refeições para os combatentes, na confecção de peças de camuflagem e em outras atividades que não exijam extraordinária força física.

Mais da metade dos ucranianos que buscam refúgio no estrangeiro se dirigiram à Polônia. Exatamente 2.336.800 pessoas entraram no país, segundo o governo polonês. Há duas razões para isso. Em primeiro lugar, entre as fronteiras da Ucrânia com países ocidentais, a polonesa é a mais extensa. Em segundo lugar, a Polônia sofre com falta crônica de mão de obra, provocada pela emigração de muitíssimos poloneses que partiram em busca de trabalho mais bem remunerado em outros países da Europa.

Os países europeus – incluindo a Suíça, que não é membro da União Europeia – decidiram, em conjunto, conceder gratuidade de transporte a todo titular de passaporte ucraniano. Os requerentes de asilo podem viajar de ônibus ou de trem sem pagar. Quando passa o controlador, basta exibir o passaporte. É medida simbólica, simpática e extremamente útil. Muitos deles deixaram tudo pra trás e não têm mais que a roupa do corpo.

Faz muito tempo que a Europa não assistia a uma onda de solidariedade tão intensa. A última vez tinha sido em 1956, quando a Rússia (sempre ela!), que se chamava então União Soviética, mandou suas tropas à Hungria para esmagar no nascedouro um levante popular contra o autoritarismo do regime comunista, vassalo de Moscou. Os refugiados húngaros de então se espalharam por toda a Europa ocidental. Mas dois grandes fatores fazem a grande diferença entre os civis que fugiram da Hungria em 1956 e os ucranianos de hoje.

O primeiro é uma simples questão de volume; os húngaros eram “apenas” 200 mil, ao passo que os ucranianos já passam de 4 milhões – 20 vezes mais. Em seguida, o que talvez seja a diferença mais importante. Os húngaros deixaram o país natal em família (homens, mulheres, crianças e até anciãos), ou seja, saíram para não mais voltar. Já os refugiados ucranianos são praticamente só mulheres e crianças; as famílias estão separadas. Todos têm em mente a ideia fixa de reunir a família e retomar a vida de antes.

Assim, prevê-se que a maioria dos ucranianos expatriados retornará ao país natal assim que as coisas se acalmarem e que o ogro russo tiver voltado a hibernar nas neves da Sibéria. Até despertar de novo.