Terra em transe

Dorrit Harazim (*)

Desde o início da pandemia, a parte dos brasileiros em condições de optar pelo iluminismo entendeu a seriedade do perigo, adotou medidas protetivas individuais, assumiu sua responsabilidade coletiva. Sempre se manteve decidida a não compactuar com o obscurantismo.

Para que o combate à covid-19 tivesse alguma chance de êxito ou racionalidade, teria bastado convencer o outro Brasil. Esse outro Brasil em estado de mitomania, aguerrido, porém fiel, teria seguido com disciplina religiosa qualquer ordem de distanciamento, uso de máscara ou confinamento emanada da boca do seu líder.

Tamanho poder e privilégio somente o presidente tinha, com tudo à disposição – cadeia nacional de rádio e TV diária, se quisesse, redes sociais, confiança cega de seguidores. Nenhum ministro da Saúde, nenhuma sumidade científica, nenhum acadêmico, celebridade ou vencedor do “BBB” teria, sozinho (nem em conjunto), eficácia semelhante.

O presidente da República preferiu incentivar o descarrilamento de vidas.

(*) Dorrit Harazim é jornalista. Trecho de artigo publicado no jornal O Globo de 11 abril 2021.