Os golos

José Horta Manzano

Ontem à noite passavam na televisão um jogo de futebol entre Portugal e a Suíça. Com evidente motivação comercial, os cartolas não param de inventar campeonatos. Toda hora tem um novo. Esse de agora se chama Liga das Nações.

Não acompanho como torcedor de verdade. Dou uma espiadinha quando imagino que vai ser um belo jogo. Só que começou a ficar tarde e desliguei a tevê. Hoje de manhã, curioso pra saber o resultado, fui dar uma olhada na imprensa portuguesa. Nossos amigos lusos estão sorridentes: a seleção (deles) ganhou da Suíça por 4 a 0.

Talvez o distinto leitor já tenha lido textos lusos. Costumo dizer que já vêm com sotaque. Não se passam duas linhas sem a gente tropeçar numa palavra. Com frequência, desconhecemos o significado. Pra descobrir, temos de fazer esforço mental ou apelar pro dicionário.

Acho estimulante. Veja algumas frases que colhi hoje na rubrica esportiva da imprensa lusa.

“Depois de ter estado na origem do primeiro tento, o avançado do Manchester United bisou frente à Suíça.”

Tento. Termo pouco usado no Brasil, é da família de talento. Na Roma antiga, talento era uma moeda. No texto é sinônimo de gol.

Avançado. Nós diríamos centroavante.

Bisar. Não usamos com frequência. Significa fazer algo de novo, repetir. Vem de bis.

“O médio do Betis inaugurou o marcador aos 15 minutos, na recarga a uma defesa incompleta do guarda-redes helvético, na sequência de um livre direto de Ronaldo.”

Médio. É o jogador de meio de campo, que dizemos meio-campo ou meio-campista.

Recarga. Para nós, é o rebote.

Guarda-redes. Não usamos essa simpática expressão, mas ela é autoexplicativa. Quem guarda as redes é o goleiro.

Na sequência de. Raramente usada no Brasil, a expressão é importada diretamente da França. É decalque de “à la suite de”. Nós diríamos “como resultado de”, “em decorrência de”, “dando sequência a” ou expressão similar.

Um livre direto. Esse é mais misterioso. Eu sei o que é porque ainda estava assistindo ao jogo quando aconteceu. Um livre direto é uma cobrança de falta em que há possibilidade de mandar a bola por cima da barreira e fazer o gol diretamente. Ontem, Cristiano Ronaldo executou um livre direto, mas o guarda-redes suíço espalmou. A bola quicou. Na recarga, um jogador da equipa lusa chutou e fez o golo.

“Cristiano Ronaldo aumentou para 117 o seu recorde de golos pela seleção, ao bisar na receção à Suíça (4-0).”

Golo. Como é sabido, os portugueses não dizem gol, mas golo.

Receção. Essa me deu dor de cabeça. Estou acostumado a ler sobre recessão, mas descartei por achar que não é exatamente termo futebolístico. Já ia apanhar o dicionário quando veio o estalo. É uma divergência de grafia. Fosse um jornal brasileiro, não estaria escrito receção, mas… recepção! A Suíça era o time visitante, portanto os portugueses receberam os estrangeiros. Fizeram uma recepção.

Essa grafia anômala resulta do famigerado Acordo Ortográfico de 1990, que determinou que letras não pronunciadas deixariam de ser escritas. No Brasil, pronunciamos o P de recepção, por isso ele continua sendo grafado. Já em Portugal, a pronúncia soa a nossos ouvidos como “rr’-cé-ção”. A regra foi impiedosa: baniu o P.

É mais uma mostra dos problemas criados por uma absurda reforma meia-sola, que só serviu para atrapalhar. Deu canseira a muitos e lucro a uns poucos. Por mim, teria ido pro lixo.

Durante o jogo, o presidente da República Portuguesa não estava grudado na tela da tevê. Nem andando de jet ski, nem fazendo motociata. Encontrava-se na Festa do Livro em Belém, manifestação que ele mesmo criou em 2016 e que reúne anualmente editoras, livreiros e autores para diversas conferências e sessões de autógrafos. É como nossa Flip de Paraty.

O dirigente foi efusivo ao cumprimentar a equipa. Disse que “foram quatro golos, podiam ter sido oito…”. E justificou o entusiasmo: “Termos muitos atletas a competir nos melhores clubes do mundo dá-lhes uma forma espetacular”.

Falou como a gente espera que um presidente decente fale. Nada a ver com o esfarrapado que nos dirige. Pô!

Querides amigues

Vivian Cabrelli Mansano (*)

Vamos conversar com a tia. Não sou homofóbica, transfóbica, gordofóbica. Eu sou professora de Português.

Eu estava ensinando um conceito de Português e fui chamada de desrespeitosa. Ué. Eu estava explicando por que não faz diferença nenhuma mudar a vogal temática de substantivos e adjetivos pra ser “neutre”.

Em português, na maioria dos casos, a vogal temática não define gênero. Gênero é definido pelo artigo que acompanha a palavra. Vou mostrar pra vocês:

O motorista – termina em A e não é feminino.

O poeta – termina em A e não é feminino.

Ação, depressão, impressão, ficção – todos os substantivos abstratos com o final ão são femininos, embora terminem com O.

Boa parte dos adjetivos da língua portuguesa podem ser tanto masculinos quanto femininos, sem alteração da letra final. Veja: feliz, triste, alerta, inteligente, emocionante, livre, doente, especial, agradável.

Colocar um E no final de uma palavra não faz com que ela seja neutra.

A alface – termina em E e é feminino.

O elefante – termina em E e é masculino.

Como o gênero em português é determinado muito mais pelo artigo do que pela vogal temática, se vocês querem uma língua neutra, precisam criar um artigo neutro, não encher um texto de X, @ e E.

E mesmo que fosse o caso, o Português não aceita gênero neutro. Vocês teriam que mudar um idioma inteiro pra combater o “preconceito”.

Meu conselho é: em vez de insistir tanto na história de gênero, entendam de uma vez por todas que gênero não existe, é um conceito construído pela sociedade.


O que existe é sexo.


Entendam, em segundo lugar, que gênero linguístico, gênero literário, gênero musical, são coisas totalmente diferentes de “gênero”. Não faz sentido mudar gênero de palavras. Isso não torna o mundo mais acolhedor nem menos preconceituoso.

E entendam, em terceiro lugar, que vocês bem que podiam tirar o dedo da tela, parar de falar abobrinha e se engajar em algo que realmente fizesse diferença, em vez de arrumar pano pra manga discutindo coisas sem sentido.

(*) Vivian Cabrelli Mansano é professora de Português.

Soneto premonitório

Eduardo Affonso (*)

Que Nostradamus, que nada! Quem profetizou sobre os eventos neste Brasil do ano da graça de 2022 foi Luís Vaz de Camões, o maior poeta vivo da língua portuguesa (morreu em 1580 apenas para os leitores ingratos).

Está tudo lá, no soneto “Amor é um fogo que arde sem se ver”, publicado há 424 anos sob o disfarce de ser apenas mais um poema a respeito da servidão amorosa.

“Fogo que arde sem se ver” é uma metáfora para Simone Tebet – a senadora sul-mato-grossense que não falta ao trabalho (compareceu a 95% das sessões), não rasga dinheiro público (gastou só cerca de 40% da verba de gabinete e da cota parlamentar), nem responde a processo judicial. Teve atuação firme na CPI da Covid e tem baixa rejeição. Pode crescer e aparecer. A menos que o vice seja o Aécio, porque aí incinera tudo.

“Ferida que dói, e não se sente” é referência a Lula. Responsável pelos maiores escândalos de corrupção da nossa História, há quem acredite que “não tem, nesse país, uma viv’alma mais honesta”. Mas sejamos justos: pelo menos uma vez não faltou com a verdade — foi quando disse que no Congresso havia 300 picaretas. Tanto havia que comprou vários deles, assim que teve oportunidade.

“É um andar solitário entre a gente” remete a Ciro Gomes, que não tem conseguido fazer alianças ou agregar apoios. Com seu destempero e incontinência verbal, parece “querer estar preso por vontade” a uma posição de coadjuvante na disputa.

“É um cuidar que ganha em se perder” alude, obviamente, a Luciano Bivar. Político profissional (não necessariamente na melhor acepção dos termos), neutralizou (e rifou) Sergio Moro e agora pode fazer acordos à direita e à esquerda, acima e abaixo, dentro e fora. Terá R$ 770 milhões para ser fragorosamente derrotado (fará campanha “pró-forma”) e eleger uma megabancada de deputados com poder de barganha. Perde e sai ganhando, seja qual for o futuro presidente.

“É servir a quem vence, o vencedor” descreve João Doria. Levou a melhor nas prévias do PSDB – e só nelas. O partido não o quer e parece que os eleitores também não fazem muita questão. Foi importantíssimo na luta contra a Covid-19, mas a vaidade – como cantou Billy Blanco – põe o bobo no alto e retira a escada.

Em “É ter com quem nos mata, lealdade”, Camões conseguiu retratar, à perfeição, a relação dos bolsonaristas com seu mito. O presidente se opôs à vacinação, ao distanciamento social, ao uso de máscaras – e se a Covid-19 não matou mais foi porque prefeitos, governadores e a população fizeram o que precisava ser feito. Bolsonaro conseguiu ser o pior presidente desde 1889 – o que não é pouca coisa, num país que já teve Sarney, Collor e Dilma.

“Tão contrário a si é o mesmo Amor” fala dos eleitores que tentaram se curar da dilmite tomando Bolsonariol e agora acham que dá para combater bolsonarite com uso de Lulalckmin, um genérico transgênico.

Claro que a profecia camoniana pode ter outras interpretações (quanto mais polissêmica uma previsão, maiores as chances de dar certo). Mas é evidente, ora pois, que Camões (pre)via melhor com um olho só do que Nostradamus com dois.

(*) Eduardo Affonso é arquiteto, colunista do jornal O Globo e blogueiro.

Caldas da Rainha

José Horta Manzano

O Centro Cultural da cidade portuguesa de Caldas da Rainha (que nome simpático!) está expondo neste momento as obras dos participantes de seu concurso anual de ilustração editorial, desenho de humor e caricatura. Os interessados em visitar a exposição têm três meses, até o fim de agosto.

Cerca de 200 ilustradores e desenhistas do mundo inteiro participaram. Os temas mas abordados foram a despedida de Angela Merkel e de Donald Trump, o famigerado vírus da covid e seu “amigo” brasileiro Jair Bolsonaro. (Essa última frase aparece no catálogo da exposição.)

Os vencedores são originários de diferentes países, entre os quais: México, Montenegro, Alemanha, Grécia, Cuba, Espanha, Polônia. Reproduzo abaixo o trabalho dos grandes ganhadores.

 

 

O argentino Matías Tolsá levou o primeiro prêmio com esta caricatura de Angela Merkel.

 

 

O mexicano Victor Solís e o alemão Frank Hoppmann empataram em segundo lugar e condividiram o prêmio.

Este é o trabalho do mexicano.

 

 

E esta é a obra do alemão.

 

 

Não sei se o distinto leitor teve a mesma impressão que eu, mas me pareceu que o caricaturista se inspirou no troféu da Copa 14.

Ou será que essa associação de ideias entre o capitão e uma derrota acachapante é só birra minha?

 

 

 

Sua Majestade

O Globo online, 3 junho 2022

José Horta Manzano

Por mais alto que seja o pedestal em que está instalada, Sua Majestade é mortal como nós outros. A pergunta não deve ser “se“, mas “quando“.

Corrija-se o texto. Após substituição de “se” por “para quando“, ficará nota cem. (Ou nota mil pela inflacionada escala atual.)

O bicho de muitos nomes

José Horta Manzano

A história do peru é interessante. (Estou falando do peru de Natal, não do país vizinho.) O pássaro é endêmico na América do Norte. Aliás, foi o único bicho voador a ser domesticado na América pré-colombiana.

Os primeiros espanhóis levaram consigo, no regresso, casais dessa ave. Era uma época em que os navegantes não tinham certeza sobre a real localização das novas terras. Os primeiros exploradores acreditavam haver chegado às Índias – daí os nativos terem sido chamados de índios.

Chegando à Europa, a ave, que ainda não tinha nome, foi batizada conforme a lógica de cada país; só que nem todos seguiam a mesma lógica.

França
Os franceses foram provavelmente os mais rápidos a lhe dar nome. Certos de que as novas terras correspondiam à Índia, chamaram a ave de “poule d’Inde” (=galinha da Índia). O nome ficou até hoje. A primeira parte da expressão caiu (poule), mas a segunda ficou. O nome do peru hoje se escreve sem apóstrofo: “dinde”.

Espanha
Os espanhóis hão de ter nomeado o peru mais tardiamente, pois parece que já sabiam que as terras descobertas não eram a Índia. Deram ao bicho voador o nome de “pavo”, em contraposição a “pavo real”, que é o pavão, ave já conhecida.

Inglaterra
Quanto aos ingleses, a história é diferente. Décadas antes da descoberta da América, os portugueses haviam trazido da África um galináceo desconhecido na Europa: a galinha d’Angola. Seu comércio se alastrou pelo norte da África até chegar à Turquia.

Quando o peru apareceu, já fazia tempo que os ingleses conheciam as angolinhas “da Turquia”. Ao ver a nova ave, pensaram que fosse uma variedade de galinha turca. Deram-lhe o nome de “Turkey hen” (galinha da Turquia), posteriormente abreviado para o atual “Turkey”.

Alemanha
Os alemães, provavelmente fascinados pela novidade, não se preocuparam tanto com a origem do animal. Encantaram-se com o som que ela emitia, especialmente quando queria chamar os pintinhos. Aos ouvidos germânicos, o som soou como “put, put”.

Até hoje, usam a forma onomatopaica “Pute” – forma que, para nós, soa francamente bizarra. O animal também é conhecido pelo nome “Truthenne” (=galinha “trut”), sendo que “trut” também é onomatopeia do grito do peru.

Os fãs da Índia
Diversos povos europeus se deixaram levar pela influência francesa. Deram ao peru um nome lembrando a suposta origem. Assim, temos: polonês “indyk”, russo “indeika”, turco “hindi”. Todos eles apostaram numa espécie de galinha proveniente da Índia.

Os mais rigorosos
Alguns procuraram ser ainda mais precisos. Não se contentaram em dar como origem a imensa Índia, mas especificaram a suposta região de origem do bicho.

Com variantes gráficas que refletem as convenções de cada língua, o termo “kalkun” vigora na Holanda e na Escandinávia. Atrás dessa estranha palavra, esconde-se uma região imprecisa, que tanto pode ser Calicute como Calcutá.

Para o europeu da época, tratava-se de uma única cidade. Hoje sabemos que são duas, bem diferentes, situadas a 1.500 km uma da outra, ambas na Índia.

Portugal
Quando os primeiros exemplares da ave foram levados a Portugal, as parcas informações de que se dispunha à época não permitiam identificar exatamente a origem. (No fundo, acredito que ninguém, exceto os importadores, estava muito interessado em saber o caminho e o trajeto da mercadoria.)

O galináceo acabou recebendo o nome do lugar de sua suposta origem: o Peru. Há que lembrar que, naqueles tempos recuados, “Peru” era um nome mágico, designando uma imensa e riquíssima região situada nalgum impreciso lugar da América do Sul.

É curioso notar que a imagem de um lugar fabuloso e abarrotado de ouro e prata persiste numa expressão francesa utilizada até hoje. No francês  coloquial, a exclamação “Ce n’est pas le Pérou!” (= Não é o Peru!) é utilizada quando se quer dizer que algo não é extremamente caro ou valioso.

Pra você ver que o nome daquele riquíssimo país marcou a memória coletiva. Pra nós, é nome de ave. Mas, pelo preço que andam cobrando, faz jus à imagem de riqueza que os antigos lhe atribuíam.

Excesso de precipitação

Carlos Brickmann (*)

O presidente Bolsonaro foi visitar as enchentes de Pernambuco e disse a verdade: que os dirigentes políticos são responsáveis pela tragédia provocada pelas chuvas.

Mas logo voltou ao normal: botou boa parte da culpa na população, “que poderia colaborar também, evitando construir suas residências em locais com excesso de precipitação”.

Ah, esses pobres! Insistem em construir em terrenos ruins. Como preferem comer ossos em vez de uma picanha de R$ 2 mil o quilo. Como fazem questão de morar em lugares sem infraestrutura.

Gente malvada, esses pobres: fazem isso de propósito para se fingir de vítimas e constranger as autoridades.

(*) Carlos Brickmann é jornalista, consultor de comunicação e colunista.

Livre, justa e solidária

South China Morning Post, Hong Kong (China)

José Horta Manzano

Dou uma vista d’olhos na edição online dos principais veículos da mídia internacional. Em todas as línguas, o mundo continua horrorizado com a tragédia de Pernambuco. Os relatos vêm sempre acompanhados de fotos impactantes e da contagem macabra dos mortos.

Dou uma espiada na edição online dos grandes veículos da mídia brasileira. Na manchete e nas chamadas da página principal, nem um pio sobre as enchentes. Nada. Quem quiser ter alguma informação tem de fazer uma busca. No Brasil, o desastre pernambucano parece assunto encerrado.

Fica a impressão de que, para a mídia nacional, nem Recife nem Pernambuco fazem parte do território brasileiro. É como se a tragédia tivesse acontecido no Nepal ou na Mongólia, num lugar longínquo e pouco interessante.

É verdade que, comparados às seiscentas e tantas mil vítimas da covid, a centena de mortos de Pernambuco parece pouca coisa. Mas não se pode raciocinar assim. Embora “todo o mundo tenha que morrer”, como ensinou nosso capitão, cada um que se vai deixa um rastro de tristeza. Um marido, uma esposa, filhos, amigos, uma família desamparada. Quando não é a família inteira que desaparece ao mesmo tempo.

Fica claro que o Brasil já virou a página dessa tragédia. Eu me pergunto o porquê desse desinteresse. Por que razão esses sinistrados saíram do foco das atenções tão rapidamente? Gostaria que a razão não fosse aquela que estou adivinhando, mas acho que é isso mesmo: porque são pobres.

EuroNews – Edição russa

Não há de acontecer, mas me pergunto se, por hipótese, um desastre semelhante atingisse um bairro de gente fina – como a região da Vieira Souto, da Oscar Freire ou outra equivalente – se a indiferença seria a mesma.

Acredito que todos nós temos a resposta. A olhos estrangeiros, a desigualdade que cinge a sociedade brasileira sobe a níveis inimagináveis. Até tragédias recebem tratamento diferenciado, dependendo da posição social dos atingidos.

O Artigo 3° de nossa Constituição enumera os quatro objetivos fundamentais da República. O primeiro deles é “construir uma sociedade livre, justa e solidária”.

Falta muito pra chegarmos lá. Se é que um dia chegaremos.

Monsieur Pap Ndiaye

José Horta Manzano

Artigo publicado pelo Correio Braziliense de 28 maio 2022

O semipresidencialismo imposto pela Constituição francesa criou um país bicéfalo, em que um presidente (chefe do Estado) convive com um primeiro-ministro (chefe do Executivo). Em teoria, o poder de cada um é equivalente, embora distinto. Na prática, o do presidente é muito maior do que “as quatro linhas da Constituição” lhe atribuem – parodiando expressão em voga em nossas altas esferas. Seu poder é diretamente proporcional à força de sua maioria no Parlamento.

Uma vez reeleito o presidente, a tradição manda que a totalidade dos ministros, incluindo o primeiro-ministro, deem demissão do cargo. O presidente nomeia então novo primeiro-ministro, e a maioria dos ministros são substituídos por caras novas. Foi o que aconteceu estes dias. Entre os estreantes, surgiu um nome vindo da sociedade civil, um cidadão que nunca havia ocupado cargo político. Trata-se de Monsieur Pap Ndiaye, novo titular do Ministério da Educação Nacional.

Sua nomeação provocou uma onda de choque que balançou as estruturas do país. Todos ficaram surpresos, muitos protestaram, alguns se indignaram. Percebe-se até uma não disfarçada revolta proveniente das bordas do espectro político. Faz uma semana que analistas políticos não param de discutir a nomeação. Vamos ver por que razão.

Monsieur Ndiaye é um intelectual brilhante. Seu currículo é de dar inveja a muita gente fina. Ele é diplomado em História pela Escola Normal Superior, o nec plus ultra do ensino universitário nacional. É titular de um doutorado obtido na Escola de Estudos Superiores de Ciências Sociais, onde é palestrante especialista em História dos Estados Unidos e em temas ligados às minorias. É diretor do Museu da História da Imigração. Além disso, seu currículo inclui cinco anos de estudos na Universidade da Virgínia (EUA), onde preparou sua tese de História. É ainda autor de meia dúzia de livros, entre os quais “Obama na América Negra”.

Ninguém contesta a bagagem cultural do novo ministro nem sua capacidade a assumir a elevada função. A grita que se alevanta vem de círculos ultraconservadores (mas não só deles). O problema maior é o seguinte: Monsieur Ndiaye é negro. Sua mãe é francesa e branca, enquanto seu pai é senegalês e negro. O novo ministro nasceu em família atípica. Além de resultar de miscigenação pouco habitual no país, seu pai foi o primeiro negro africano diplomado pela Escola Nacional de Engenharia da França, uma façanha. O ministro se autodefine como “um puro produto da meritocracia republicana”.

Já faz quarenta anos, desde o governo Mitterrand, que a França se habituou a conviver com ministros não-brancos. Já houve ministros da Integração e dos Direitos Humanos negros. Madame Taubira, negra originária da Guiana Francesa, foi titular do cobiçadíssimo Ministério da Justiça durante quatro anos. Nenhum desses personagens foi objeto de rejeição explícita. Por que razão a nomeação do novo ministro da Educação enfrenta uma onda de repúdio tão forte?

É que o ultradiplomado ministro possui duas características incompatíveis aos olhos de muita gente: é negro e pensa, o que é imperdoável. Se tivesse sido nomeado somente para dar um verniz de diversidade ao conjunto de ministros e acrescentar um pingo de cor à foto de grupo, ninguém reclamaria. Mas o homem pensa, e todos sabem disso. Um negro que pensa – e que vai cuidar da Educação Nacional – assusta.

Monsieur Ndiaye é conhecido e respeitado nos círculos universitários. Todos conhecem seus trabalhos e seu posicionamento em defesa dos imigrantes e das minorias. Uma vista d’olhos ao título de seus livros dá uma ideia: “Os negros americanos: da escravidão a Black Lives Matter”, “A condição negra: ensaio sobre uma minoria francesa”, “Os negros americanos: a caminho da igualdade”.

Os que o rejeitam provavelmente nunca leram suas obras. Pouco importa. Um negro dotado de ideias próprias aceitar comandar o Ministério da Educação lhes parece de uma petulância insuportável. No Brasil, essa polêmica parece um exagero, coisa de gringo. Mas há que tomar cuidado. A persistir a palavra de ordem do “nós x eles”, instaurada pelo lulopetismo e insuflada pelo bolsonarismo, em pouco tempo estaremos como a França.

As férias do presidente

Jornal online Fórum, de tendência lulopetista

José Horta Manzano

O autor da manchete tropeçou na concordância(*), mas acertou na petulância.

Estou me referindo à petulância de um presidente que faz questão de mostrar que trabalha pouco. Deve achar bonito.

Em outras terras, presidentes e figurões de alto coturno costumam ser bastante discretos na hora de sair de férias. Não querem jornalistas nem fotógrafos por perto. Nem dão informações, nem publicam foto em rede social.

Nosso presidente, petulante, não vê problema nenhum em divulgar seu pouco apego ao batente. Numa terra em que tem gente batalhando duro, de sol a sol, pra poder sobreviver!

(*) As regras de nossa língua pedem que, quando o sujeito estiver no plural, o verbo acompanhe. O sujeito da frase é viagens. Portanto, a forma verbal deveria ser fizeram e não fez.

E eu com isso?

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Quando a polícia carioca, mesmo contra a determinação do STF, intensificou as operações contra o tráfico de drogas nas favelas que resultaram em dezenas de mortes de moradores e pessoas que não tinham nada com isso, fiquei chocada com a violência desmedida mas não protestei porque não moro no Rio de Janeiro nem em comunidades de morro.

Quando a polícia paulista introduziu desafiadoramente blindados e atiradores de elite nas recentes incursões na Cracolândia, fiquei aterrorizada com a possibilidade concreta de reação armada dos traficantes e consequente morte indiscriminada de passantes e moradores, mas segui em frente cuidando dos meus afazeres porque não sou viciada, nem tenho parentes e amigos nessa condição, e também não moro nas adjacências.

Quando a polícia rodoviária federal de Sergipe jogou gás de pimenta e gás lacrimogêneo dentro de uma viatura matando um esquizofrênico negro cujo único deslize era estar pilotando uma moto sem capacete, fiquei indignada com a inadmissível barbárie, mas acabei me distraindo com a necessidade de cuidar da minha própria sobrevivência: afinal, os preços dos alimentos estão pela hora da morte, os planos de saúde já são impagáveis e ninguém consegue encontrar estabilidade financeira, nem empregos mais bem remunerados.

Quando chuvas torrenciais ocasionaram centenas de mortes em diversos estados brasileiros, fiquei, é claro, entristecida diante de tanta dor e sofrimento, mas lembrei que isso é consequência inevitável do aquecimento do planeta – e que, portanto, resta muito pouco para nossas autoridades fazerem para evitar a repetição dessas tragédias. Além disso, não moro em área de risco e respeito o meio ambiente, fazendo coleta seletiva.

Quando bandidos disfarçados de entregadores de moto passaram a assaltar e, por vezes, matar pedestres desavisados para roubar seus celulares, comecei a me sentir um tanto insegura, mas logo espantei as sombras porque não uso celular em público e nunca ando sozinha à noite. É bem verdade que tenho irmãos, sobrinhos e amigos que se expõem a esse risco, mas sei que eles estão um pouco mais protegidos por não circularem em bairros de periferia e morarem/trabalharem em áreas onde há maior presença de forças de segurança.

Quando o número de casos de violência doméstica, feminicídio e pedofilia começou a crescer em função do confinamento na pandemia, roguei a Deus que ela terminasse o mais rápido possível e que nossas autoridades encontrassem algum jeito de serem mais efetivas no combate a esses males; mas não me incomodei tanto, uma vez que moro sozinha e não tenho filhos.

Em suma, sei e sinto que involuímos como sociedade, que a realidade brasileira adquiriu tons surreais e macabros e que não há perspectivas concretas de construirmos um futuro promissor para nossa pátria. No entanto, mesmo perplexa com tantas catástrofes, permaneço fiel a meus princípios democráticos: sou uma cidadã de bem, cumpridora dos meus deveres sociais, pago meus impostos regularmente, sou instruída, bem-informada politicamente, temente a Deus e não me meto na vida das pessoas. Se ao menos meus compatriotas entendessem que a cada ação corresponde uma reação, as coisas seriam muito mais fáceis de administrar, tenho certeza.

Sou a favor das liberdades individuais: cada um que cuide do seu próprio nariz e evite como puder colocar-se em situações de perigo e confronto social, racial, religioso, político e de classe.

E você?

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

No Sergipe?

José Horta Manzano

O nome de alguns estados brasileiros deve ser precedido por artigo, mas Sergipe, certamente, não é membro desse clube.

Por um lado, temos os que pedem artigo:
o Amazonas, o Rio Grande do Sul, o Ceará, o Acre. E diversos outros.

Por outro, há o clube dos que rejeitam artigo:
São Paulo, Santa Catarina, Pernambuco, Rondônia, etc. E, naturalmente, Sergipe.

Que ninguém jamais escreva o Sergipe” como na chamada do jornal. Nem por decreto do papa. Pega mal.

A Colômbia e o sonho de Bolsonaro

Cédula eleitoral colombiana

José Horta Manzano

Hoje se vota na Colômbia. Escolhe-se o presidente da República. Ao que parece, as autoridades do país são como nosso presidente gosta: rejeitam a modernidade. Não aceitam o que ela traz de bom, essas coisas que facilitam a vida de todos. Urnas eletrônicas entram nesse grande balaio de rejeições. Xô!

Na Colômbia, vota-se à moda antiga, voto em papel, facilmente auditável. Ao chegar à seção, o eleitor vai receber um “tarjetón”, que é o nome dado à cédula eleitoral. É uma folha de papel tamanho A4 dividida em nove campos, cada um contendo a foto de uma dobradinha de candidatos – à Presidência e à vice-Presidência.

Cada campo contém ainda o nome dos candidatos e o logo da coalizão que os apoia. O resultado é uma folha atraente, cheia de cores. As fotos até que ajudam eleitores de poucas letras que pudessem ter dificuldade em encontrar o preferido.

Ao chegar ao posto de votação, o eleitor recebe uma cédula. Vai para a cabine e faz uma marca na dobradinha de candidatos preferidos. Se preferir votar em branco, vai encontrar um campo pensado justamente para isso.

Pode ser qualquer marca, desde que seja visível. Recomenda-se, no entanto, que o eleitor faça um grande xis no quadrado desejado. Se quiser votar em branco, que faça o xis no último quadrado.

Toda cédula que apresentar marcas em mais de um campo, inclusive no de voto em branco, será considerada nula. Fico a imaginar que a quantidade de votos nulos deve ser grande.

Ah, se um eleitor se enganar na hora de fazer o xis, não tem problema: basta voltar à mesa e pedir nova cédula. Sai de graça.

Excluindo o fato de que não há urna eletrônica, o ato de votar até que se parece com o nosso. A diferença grande vem na hora da apuração.

Procurei saber como se desenvolve a contagem dos votos. É um esquema complexo. Cada seção eleitoral abre sua urna e conta os próprios votos. Em seguida, preenche uma ata com a totalização. Essa ata será transmitida a uma entidade centralizadora que, por sua vez, se encarregará da totalização geral.

Imagine os riscos de fraude existentes em cada etapa do processo. Basta um dos mesários cooptar os colegas oferecendo, por exemplo, recompensa em dinheiro. A partir daí, estando todos de acordo, tudo é permitido. Dois subterfúgios são simples de executar: 1) Substituição de cédulas verdadeiras por cédulas trazidas já preenchidas; 2) Anulação de votos destinados a um candidato não desejado – para anular, basta fazer uma marca em mais de um quadrado.

Tanto o Lula quanto o capitão conseguiram comprar o Centrão, que representa meio Congresso. Pra quem fez isso, comprar mesário é aquele tipo de coisa que se faz com um pé nas costas. Mais fácil ainda quando é feito com nosso dinheiro.

Vendo isso, dá pra entender por que razão nosso presidente reclama de nosso sistema eleitoral, dia sim, outro também. É que o esquema brasileiro é hermético, sem manipulação possível, não oferecendo nenhuma porta de entrada para gente mal-intencionada.

Um presidente normal veria nas eleições colombianas uma excelente oportunidade comercial para o Brasil. É a possibilidade de vender nosso know how e urnas made in Brazil ao país vizinho. Mas nosso presidente não é normal. Sua grande preocupação neste momento é que, segundo as pesquisas, um candidato esquerdista está bem colocado para disputar o segundo turno colombiano.

Já pensou se ele vencer a eleição? A Colômbia, nossa vizinha de parede, será dirigida por um esquerdista! Será que esquerdismo é contagioso? Será que pega? Será que pode ressuscitar o comunismo? Será que pode nos transformar em jacaré?

Matriz e filial

Chamada Estadão, 28 maio 2022

José Horta Manzano

Não se pode dizer que quem escreveu a chamada do Estadão tenha escrito bobagem. Errado, não está. Mas está esquisito. Dizer que a Igreja Ortodoxa da Ucrânia era “afiliada” a Moscou soa estranho.

Deve-se evocar afiliação quando se fala de clube, de partido, de firma comercial. Uma igreja séria não tem “filiais”. Quando há uma relação hierárquica entre ramos da mesma organização eclesiástica, melhor será dizer que uma é subordinada à outra, ou que está assujeitada, ou ainda que vive sob tutela da principal. Ex:

“Igreja Ortodoxa da Ucrânia, subordinada ao patriarcado de Moscou…”
“Igreja Ortodoxa da Ucrânia, assujeitada ao patriarcado de Moscou…”
“Igreja Ortodoxa da Ucrânia, sob a tutela do patriarcado de Moscou…”

O termo “ruptura”, utilizado na chamada, não está errado. Mas existe uma palavra específica para a dissidência de um ramo com relação ao tronco. É cisma, substantivo masculino. Quem fez um pouquinho de História Geral talvez se lembre do grande Cisma do Oriente (do ano 1054), que dividiu o cristianismo em dois grandes ramos: o catolicismo e a ortodoxia.

A chamada do jornal contém mais uma imprecisão. Não é correto falar em “ruptura com a Rússia”. A ortodoxia ucraniana não é um Estado, portanto a afirmação não faz sentido. A Igreja Ortodoxa Ucraniana não rompe com a Rússia (país), mas com o patriarcado (ortodoxo) de Moscou.

Portanto, a chamada do jornal estará mais bem escrita assim:

Igreja Ortodoxa da Ucrânia, subordinada ao patriarcado de Moscou, anuncia cisma.

ou

Igreja Ortodoxa da Ucrânia, assujeitada [ao patriarcado] de Moscou, anuncia cisma.

Viva o Brazil!

Brasil em 1821, às vésperas de se tornar independente.
Repare que o nome do futuro país se escrevia com Z

José Horta Manzano

Já vi gente irritada por ter visto a palavra Brazil grafada com Z em textos escritos em inglês. Há quem reclame e quase se ofenda com isso. Se pudessem, exigiriam que o nome de nosso país fosse sempre escrito com S.

Sem ranzinzice nem histeria, vamos ao fundo da questão.

Foi no século 19 que as colônias espanholas e portuguesas da América alcançaram independência. Foi uma atrás da outra. Naquela altura, o resto do mundo teve de lidar com o nome de países novos: Argentina, México, Peru, Nicarágua e muitos outros.

Entre eles, estava o nosso. Só que tem uma coisa. Nossa grafia daquele tempo não era normatizada (engessada) como hoje. Eram poucos os que sabiam escrever, e cada um deles grafava como lhe parecia adequado.

Mas o nome do país era unanimidade: todos grafavam com Z (Brazil).

Nosso primeiro nome oficial por extenso foi Imperio do Brazil; em seguida, tivemos os Estados Unidos do Brazil. O mundo viu, anotou, copiou e escreve até hoje Brazil com Z.

Nos dois séculos que decorreram desde a independência, nós mexemos na ortografia oficial inúmeras vezes. Faz já algumas décadas que ficou combinado que o nome do país deve se escrever com S.

Mas como fazer para avisar ao resto do mundo que nossa ortografia mudou?

Pensando bem… será que vale a pena explicar que limpeza é com Z, mas despesa é com S?

Não é moleza… (Com Z)

Observação interessante
Em qualquer texto em inglês, o nome da capital, Brasília, aparece sempre com S. Por quê será?

A razão é simples: Brasília, que então tinha o apelido de Novacap, foi apresentada ao mundo em 1961 grafada com S. Cada língua adaptou o original a sua escrita própria. Muitas ficaram com o S mesmo; entre elas, o inglês.

Falta ensinar aos ingleses que nossas atuais regras mandam acentuar o i do meio. Ou quem sabe será melhor esperar até a próxima reforma ortográfica? Assim, evita-se ficar incomodando o tempo todo.

O camburão

Pesquisa Datafolha, 26 maio 2022

José Horta Manzano

Pesquisas de intenção de voto, há muitas. Mas ninguém pode negar que, nestes tempos de campanha para a Presidência, a mais ansiosamente aguardada no país é a Datafolha. A mais recente saiu quentinha do forno ontem, dia 26.

Dá Lula na cabeça seja qual for a configuração. Nosso guia bate com folga qualquer adversário. Aliás, “qualquer adversário” é força de expressão. Espremida a fruta, constata-se que os candidatos são só dois: Bolsonaro e o Lula.

Se a eleição fosse hoje, como a prudência manda dizer, teríamos uma disputa entre dois nomes. Salvo o milagre de a terceira via tomar fermento e crescer rapidinho, o panorama vai permanecer assim até outubro.

Daqui até lá, o capitão vai continuar esperneando, distribuindo dinheiro a parlamentares do Centrão, loteando a máquina federal, discursando raivoso, trocando ministros e presidentes da Petrobrás, tratando com benevolência matadores e desmatadores. Também vai continuar a praticar seu esporte favorito: dar um tiro no pé diariamente. Portanto, sua pontuação no eleitorado não tende a subir.

Daqui até lá, o Lula vai continuar fazendo o que sabe fazer melhor: reuniões com este e com aquele, conchavos, confabulações, jantares com endinheirados, discursos raivosos, promessas, promessas promessas. Vai dar seus tirinhos no pé também, que ninguém é de ferro. Resultado do páreo: sua pontuação tende a continuar estável.

Portanto, se tudo continuar como está – e parece que assim será –, o Lula é bem capaz de levar no primeiro turno. A partir daí, o roteiro é o de um filme de ficção política. Cada um pode imaginar o seu. Este blogueiro criou um script muito bom, um pitéu capaz de ganhar o Festival de Cannes.

  • Inconformado, Bolsonaro ensaia um golpe de Estado.
  • É apoiado por um punhado de generais palacianos e por um sargento aqui, um cabo acolá.
  • Fracassa.
  • É preso.
  • Desce a rampa – que digo! – sai discretamente por uma porta lateral em frente à qual um camburão está à espera.
  • Atrás dele, vai a meia dúzia de generais palacianos, em fila indiana.
  • Em 48 horas, o filme termina.
  • Dia 1° de janeiro, o Lula assume.

Observação final
Que o Lula não saia dessa muito enfatuado, achando que ganhou por mérito próprio. As coisas não são bem assim. Se ele for eleito, seu grande cabo eleitoral terá sido o capitão. Se o presidente fosse outro – qualquer outro –, o Lula não ganhava de jeito nenhum. Xô!

Ainda bem que o vice é Geraldo Alckmin. O Lula já tem idade, nunca se sabe o que pode acontecer. Com Alckmin, pelo menos, dificilmente teríamos censura à mídia e apoio a ditadores sanguinários, uma obsessão do Lula.

O dia seguinte

José Horta Manzano

24 maio 2022
Uvalde (Texas), EUA
Um adolescente que carregava pouco bestunto e muita raiva no coração resolveu se vingar a esmo de uma sociedade que lhe parecia opressora. Armou-se como verdadeiro Rambo e atirou na própria avó. Em seguida, dirigiu-se à escola que havia frequentado até outro dia e atirou às cegas. Adicionando crianças e adultos, matou mais de vinte. Foi abatido pela polícia.

Rio de Janeiro, Brasil
Operação policial de extrema violência levada a cabo na Vila Cruzeiro (Complexo da Penha, Rio de Janeiro) deixou um rastro sangrento de 25 mortos. Segundo relatos, bom número dentre os metralhados são “vítimas colaterais”, gente cujo único crime era estar no lugar errado, na hora errada. Ressalte-se que nosso ordenamento jurídico proíbe justiça expeditiva, execuções sumárias e atos de tipo miliciano-mafiosos como esse.

25 maio 2022
Washington (DC), EUA
Joe Biden, presidente da República, fez declaração emocionada sobre o massacre da véspera. Declarou-se “sick and tired” (= enojado e cansado) com a multiplicação desse gênero de ocorrência. A bandeira nacional que ondula sobre a Casa Branca foi baixada a meio-pau. O presidente acrescentou que, nos próximos dias, viajará ao Texas para uma visita pessoal às famílias das vítimas da tragédia.

Brasília, Brasil
Jair Messias Bolsonaro, presidente da República, utilizou o Tweeter para dar parabéns aos “guerreiros”(sic) do batalhão policial que “neutralizaram”(sic) marginais. O presidente não declarou ter intenção de fazer visita de consolo às famílias das vítimas – pessoas que ele deve considerar sub-humanas. Em Brasília, a bandeira nacional não foi baixada a meio-pau.

Os espanhóis dizem: “Más vale vergüenza en cara que mancha en el corazón” (= Mais vale vergonha na cara que mancha no coração). Há os que preferem a mancha. Por não sentirem vergonha. Ou talvez porque lhes falte o coração.

Peruada

Correio Paulistano, 29 março 1935

José Horta Manzano

Até os anos 1930, peruada estava para os perus como galinhada estava para as galinhas: designava um bando de perus, nada mais. É um tanto controversa a razão pela qual os estudantes da Faculdade de Direito da USP dão esse nome aos desfiles e às brincadeiras que organizam uma vez por ano.

Há quem diga que, certa feita, os rapazes furtaram perus de um parque da cidade e os transformaram em alimento digno de saciar a fome de muitas bocas. Outros dizem que não é bem assim e que a tradição já vem dos tempos do imperador.

As primeiras menções de peruada como nome dos festejos estudantis aparecem na imprensa dos anos 1930. No Correio Paulistano de 29 de março de 1935, o comitê organizador publica um comunicado com as regras do trote – chamado ‘peruada’. Avisam que o couro cabeludo de todo calouro será rapado. Acrescentam que ainda será cobrada de todos uma “modesta” quantia de 20$000 (vinte milréis, valor considerável para a época, equivalente ao preço de venda de 100 jornais).

Numa demonstração de que não é de hoje que as classes abastadas gozam de privilégios inalcançáveis para os mais modestos, o comitê informa que, mediante pagamento de 200$000 (duzentos milréis, soma astronômica, correspondente ao preço de 1.000 jornais), o calouro será poupado e poderá conservar as melenas.

É muito triste constatar que, passados noventa anos, o país continua empacado. Continuamos vivendo numa sociedade dividida entre os que têm e os que não têm.

Não é chocante que haja desnível financeiro entre cidadãos. O que choca é o exagero. A enorme riqueza não assusta; o que horroriza é a extrema pobreza. Não me parece escandaloso que um indivíduo possua bilhões; já a existência de cidadãos que passam fome é a demonstração de que a sociedade é disfuncional.

Em nosso país, há os que não têm teto, há os que passam fome, há os que têm de trabalhar para sustentar os próprios estudos, há os que são obrigados a ter mais de um emprego para sobreviver, há famílias vivendo debaixo de viadutos, há iletrados e analfabetos.

Enquanto isso, um presidente anda de jet ski e um ex-presidente dá festa de casamento para 200 convidados. Ambos são candidatos nas próximas eleições. São muito bons na hora de insultar-se mutuamente, mas quando vem a hora de apresentar um plano consistente para fazer o país avançar, o que se vê é o nada e o que se ouve é o silêncio ensurdecedor.

Algo enguiçou no país, e ninguém parece muito preocupado em desenguiçar.

Aborto x armas

José Horta Manzano

A polêmica atualmente em cartaz nos EUA entre os que aprovam e os que desaprovam a proibição do aborto voluntário levanta uma interrogação sobre uma flagrante contradição.

Os favoráveis à proibição do aborto, que organizam passeatas, levantam bandeiras, acusam profissionais da área da saúde e protestam porque vidas estão sendo ceifadas por um ato criminoso, são os mesmos que se declaram favoráveis à liberação, venda livre e disseminação de armas, cuja finalidade é exatamente ceifar vidas.

Um dia, eles terão de se decidir. Não podem ser a favor da vida num caso e contra ela no outro.