O passaporte italiano do Jair

José Horta Manzano

Artigo publicado pelo Correio Braziliense de 25 fevereiro 2023

Como se dizia antigamente, “Continua o sucesso da novela ‘Quando é que ele volta?’, em cartaz há dois meses e seguida do Oiapoque ao Chuí!” A bolsa de apostas está fervendo. Há quem acredite que a volta do capitão será semana que vem; outros juram que ele só retorna em abril; há até quem pense que ele vai acabar fixando residência num paraíso fiscal pra nunca mais voltar.

No vaivém dos capítulos, de vez em quando alguém se lembra de que o ex-presidente e os filhos têm direito a recuperar a nacionalidade italiana. Dois de seus filhos, surpreendidos outro dia na porta da representação italiana em Brasília, não esconderam a razão de estarem ali: tentavam acelerar o processo de reconhecimento de nacionalidade, trâmite que se arrasta há tempos. (Dado o acúmulo de pedidos, processos podem levar anos.)

Entrevistado alguns dias atrás, um senador da República Italiana alegou desconhecer qualquer pedido de reconhecimento de cidadania feito por Jair Bolsonaro. A declaração passou a falsa impressão de que a recuperação da nacionalidade italiana é individual, e que cada membro de uma mesma família tem de abrir seu próprio processo. Não é exatamente assim que funciona.

O objetivo final do processo de reconhecimento de cidadania é a inscrição do requerente na “Anágrafe”, registro italiano em que estão inscritos todos os cidadãos do país. Os fatos civis da população – nascimentos, casamentos, divórcios, óbitos – são todos registrados ali. É um registro civil com “fio condutor”, ou seja, parte do princípio que todo recém-nascido se integra numa linhagem. Uma consulta à Anágrafe permite apurar a árvore genealógica de cada cidadão desde a instituição do registro civil, no século 19.

No caso dos que emigraram no passado, o fio se interrompe. Embora os descendentes nascidos no exterior continuem com direito à nacionalidade italiana, o fato de não estarem registrados na Anágrafe os impede de tirar documentos. No fundo o objetivo do processo de recuperação da cidadania é transcrever certidões estrangeiras de nascimento, casamento e óbito na Anágrafe do município de origem.

A condição para as transcrições é o respeito à ordem das gerações. Jair Bolsonaro é bisneto do último antepassado que figura nos registros italianos. Para ser inscrito, terá de apresentar as certidões que o ligam a essa pessoa, ou seja, documentos de seus bisavós, de seus avós, de seus pais e os seus próprios. Seguindo a lógica, a inscrição de seus filhos – já solicitada por eles – só será possível depois da inscrição de todos os antepassados, incluindo o próprio Jair Bolsonaro.

É aí que mora o truque. É irrelevante o capitão ter ou não ter solicitado a recuperação de sua cidadania. Pela lógica do “fio condutor”, quando seus filhos estiverem inscritos na Anágrafe, ele já figurará automaticamente nesse registro, ainda que nunca tenha solicitado. Isso lhe permitirá tirar o passaporte italiano. Em resumo: inscrito algum dos filhos, o pai também estará inscrito.

Cabe agora uma consideração. A subida de Giorgia Meloni ao cargo de primeira-ministra da Itália levou apreensão aos países vizinhos. Suas antigas demonstrações de apreço por Mussolini, Putin, Trump e Bolsonaro deixaram os demais membros da União Europeia ressabiados. Para limpar a própria imagem e escapar à repulsa inspirada por seus heróis, la Meloni decidiu desradicalizar seu perfil. Abjurou a antiga fé no fascismo, renegou Trump, denunciou Putin, condenou Bolsonaro. Um dia depois da visita de Biden a Kiev, foi de romaria encontrar o presidente Zelenski e anunciar reforço na ajuda militar italiana.

Agora, que a primeira-ministra deixou de assustar o mundo, a última coisa que ela deseja é criar problemas para si mesma e para seu país. Caso o processo de reconhecimento da cidadania de qualquer um dos rebentos de Bolsonaro chegue ao fim, o capitão estará automaticamente inscrito na Anágrafe e apto a receber seus documentos. A essas alturas, ele pode muito bem decidir homiziar-se no país, o que causaria um problema espinhudo caso o Brasil (ou algum tribunal internacional) resolvesse requerer sua extradição.

É de crer que o processo de recuperação de cidadania dos bolsonarinhos não chegue ao fim tão já.

Hitou e flopou

Do jornal O Globo, 20 fev° 2023

José Horta Manzano

Confesso que precisei de alguns segundos de reflexão para entender o significado da chamada. É que este blogueiro é do tempo em que, em vez desses modismos estranhos, se dizia “o que foi sucesso e o que foi fiasco”.

Navios de guerra

José Horta Manzano

IRIS Makran, maior navio de guerra iraniano

Neste momento, o governo brasileiro está embaraçado diante de um dilema. Mas vamos começar pelo começo. Na origem do problema, está o Irã, esse “enfant terrible” do tabuleiro mundial, aquela batata quente que passa de mão em mão e que ninguém quer segurar.

Desde que passou pela revolução de 1979, que o transformou numa teocracia xiita, o Irã passou a trafegar do lado sombrio da rua, sancionado pelos EUA, hostilizado pelos vizinhos, olhado com desconfiança pelos países democráticos. Desde então, a antiga Pérsia vai se virando como pode.

Faz décadas que seu objetivo maior é fabricar uma bomba nuclear. Nem pensar em lançá-la sobre a cabeça de algum país inimigo, que ninguém é besta. A finalidade é puramente dissuasiva. No dia em que conseguirem, terão provado ao mundo que são fortes, que sobrevivem apesar das sanções econômicas, que têm nível superior de tecnologia. Será uma vitória psicológica.

Acontece que o resto do mundo, em especial os países que já possuem a tecnologia nuclear, não estão nada interessados em receber novo membro no clube. Imaginam que quanto mais membros houver, maior será o risco de um dia ocorrer algum acidente ou erro de manipulação de consequências imprevisíveis.

Sem verdadeiros amigos entre os grandes, o Irã procura contacto entre os países de segunda linha. Os iranianos querem mostrar que, apesar de não terem (ainda) a bomba, já contam com imponente marinha de guerra. Com esse fim, despacharam dois navios para uma volta ao mundo. Um deles é a maior nave da frota iraniana, um antigo petroleiro adaptado para portar canhões, lançar mísseis e receber helicópteros. A outra nave é uma fragata de dimensões convencionais, também armada de canhões e mísseis.

Gostariam de lançar âncora em todos os países importantes. O problema é que os portos estão fechados para eles. Nem América do Norte, nem Europa, nem Japão, nem Austrália. Rússia e China fazem de conta que não é com eles. Sobraram potências regionais. Os dois navios já passaram pela Indonésia e agora se dirigem ao Brasil.

IRIS Dena, fragata da marinha de guerra iraniana

A autorização de atracar no Rio de Janeiro está incerta. Num primeiro momento, o Brasil deu seu acordo. Em seguida, em razão da viagem de Lula aos EUA, a licença foi suspensa, dado que o momento não era conveniente. Agora, passada a visita de Lula a Biden, os iranianos insistem em vir. Por trás, os EUA pressionam para que não seja dada autorização de atracar em nenhum porto brasileiro.

Nosso governo está entre a cruz e a espada, num dilema cabeludo. Se autorizar os navios de guerra a lançar âncora no Rio, vai desagradar muita gente fina, como EUA, Europa e demais democracias. Se negar permissão, como é que fica a “neutralidade” da política externa brasileira, que Lula apregoa dia sim, outro também?

Na minha visão, se a neutralidade dá liberdade de comerciar com todos os países, não implica aderir à ideologia nem apoiar as guerras de nenhum deles. Já abrir os portos para receber naves de guerra carregadas de mísseis e canhões é outra coisa. Não tem nada a ver com comércio e pode passar impressão de cumplicidade. Melhor evitar.

Dependesse de mim, a autorização seria negada.

Carnaval visto da Escandinávia

“Turistas se aglomeram na volta da festa de rua no Rio de Janeiro”
“No tempo de Bolsonaro no poder, muitos eram contra o carnaval”

José Horta Manzano

O jornal sueco Dagens Nyheter é o maior e mais importante diário não só da Suécia mas de toda a Escandinávia. Estes dias, seu correspondente permanente no Brasil, baseado no Rio de Janeiro, escreveu um artigo (acompanhado de um vídeo) sobre o carnaval.

A primeira frase da reportagem dá o tom:

“Pela primeira vez desde que a pandemia estourou, o carnaval de rua está de volta ao Rio de Janeiro. Centenas de milhares de pessoas são esperadas para comemorar dançando nas ruas neste fim de semana. Como Bolsonaro não é mais presidente do Brasil, mais turistas vieram.

O resto segue na mesma linha.

Mas que diabos tem Bolsonaro a ver com o carnaval? Na visão de muita gente, o capitão é desmancha-prazeres de marca maior. Sem a presença dele, a festa é mais alegre.

A perna curta

“Segundo mídia brasileira, Bolsonaro foi vacinado contra a covid”

 

José Horta Manzano


Mentira tem perna curta, todo o mundo sabe disso.


E o ditado vale para todos, sem exceção. Quem mente muito acaba desmascarado com frequência.

O capitão Bolsonaro, que um dia governou este país, entra na categoria dos mentirosos compulsivos. Para o ouvinte de cabeça fria, destrinchar o que ele diz e separar o falso do verdadeiro é um desafio.

Desde que se instalou a pandemia de covid, o capitão não deixou escapar nenhuma ocasião para zombar do povo maricas que tinha medo da doença. Assim que surgiu a vacina, montou uma cruzada contra ela. Disse que todos tinham de fazer como ele, que era homem de verdade e que recusava a vacina. Preferia cloroquina.

Muitos adeptos do presidente engoliram essa gororoba, esnobaram a vacina anticovid e ainda proibiram os filhos de se vacinarem contra doenças infantis. Um triste desastre.

Empacado, Bolsonaro jurou de pés juntos nunca ter se vacinado contra a covid. Apesar disso, impôs 100 anos de sigilo aos dados de seu cartão de vacinação. O Brasil ficou com a pulga atrás da orelha. Se é verdade que não se vacinou, por que diabos esconde o cartão? Aí tem treta.

Com o capitão derrotado nas urnas e fugido para o exterior, o mistério é agora desvendado. Por fim, é conhecida a razão do sigilo secular: ele se vacinou sim. Que desmoralização, capitão! O distinto leitor e a simpática leitora poderão argumentar que, pra se desmoralizar, é preciso antes ter moral. Mas essa já é uma outra história.

Homiziado na Florida, Bolsonaro foi obrigado a reagir. Negou com veemência ter se vacinado e alegou que o registro é obra de algum pirata informático mal-intencionado. Exaltado, ameaçou entrar com processo contra o ministro da CGU que desvendou o segredo. Quá!

Realmente, o capitão estava convencido de que ia continuar no poder indefinidamente, com reeleição ou golpe, tanto faz. Imaginava que, enquanto estivesse vivo, ninguém jamais teria acesso a seu registro vacinal.

A reeleição não veio, o golpe gorou, outro presidente está no Planalto. E o mentiroso da perna curta levou um tombo e caiu de boca.

E agora? Como se justificar perante os devotos por seus conselhos furados? Como explicar atitudes do tipo “faça o que eu digo, não o que eu faço”?

Sem problema: seus seguidores acreditam em qualquer historinha, por mais esfarrapada que seja, desde que venha da boca do ex-não-vacinado. Cada um acredita no que quer, não é mesmo?

Lula e os infiltrados

José Horta Manzano


“Nós temo que tirá bolsonarista que está lá escondido há tempo!”


Dá até um friozinho na barriga sentir de novo o clima de guerra fria, uma época em que espiões soviéticos se infiltravam em governos da Europa Ocidental com o objetivo de colher informações para enviar a Moscou. Frisson.

Mas a frase não foi pronunciada por nenhum chanceler alemão, mas por nosso novo presidente – que responde pelo nome de Lula 3. Foi num evento em Santo Amaro (Bahia). A plateia, cativa e domesticada, vibrou.

Eu lembrei da promessa solene de Lula, sacramentada no discurso de vitória: “Vou governar para todos os brasileiros, não só para os que votaram em mim”. E me perguntei se a declaração de Santo Amaro era compatível com a promessa do 31 de outubro. Tenho a sensação de que não é.

No governo, os cargos “de confiança” são milhares. Contando os assessores nomeados diretamente pelo presidente e os funcionários nomeados por esses próprios assessores, dá cerca de 20 mil pessoas. É um mundaréu de gente.

Lula parte do princípio de que esse contingente passa o dia de papo pro ar, só aparecendo no trabalho para bater o ponto. O desejo de Lula é dispensar essa massa de inúteis e substituí-la por novo contingente… de inúteis.

Eu acreditaria nas boas intenções do presidente se ele dissesse que vai cortar metade desse mundo de desnecessários. Aí, sim, a gente perceberia sua preocupação com o dinheiro dos brasileiros. Todos aplaudiriam. Agora, dizer que vai dispensar os bolsonaristas [pra substituí-los por petistas, subentende-se] é asneira sem tamanho.

Esse pessoal pendurado em cabide de emprego não tem necessariamente cor política. São como parlamentares do centrão: aceitam qualquer proposta, desde que levem vantagem. Ter sido nomeado durante a gestão Bolsonaro não faz deles bolsonaristas de bandeira enrolada. Pode ser até que sim, mas pode bem ser que não.

O Lula, que antigamente parecia tão esperto, parece que anda perdendo a malícia. Em vez de dizer a bobagem que disse, devia ter ficado quieto. O que ele disse tem o poder de acentuar a clivagem já existente entre bolsonaristas e o resto dos brasileiros. Com essas ideias de acuar os devotos do capitão num canto, Lula acaba obtendo o efeito contrário: o espírito de corpo deles se reforça e os transforma em adversários ainda mais empedernidos.

Com esse tipo de discurso, Lula 3 prepara armadilhas para si mesmo. Que tal um novo 8 de janeiro?

Sem chão embaixo dos pés

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Assistindo às cenas terríveis do resgate de pessoas mortas e de bebês e crianças ainda vivas soterradas no brutal terremoto que atingiu a Turquia e a Síria, fui forçada a reviver uma situação que só posso descrever como paranormal que aconteceu comigo há algumas décadas.

Eu era coordenadora do curso de inglês em uma grande empresa multinacional. Recentemente havia recebido várias reclamações a respeito de um dos professores, um australiano recém-contratado. Os comentários negativos sobre o desempenho dele em sala de aula eram vagos, genéricos. Ninguém o acusava de não ter habilidades linguísticas nem se queixava de sua capacidade didática. O problema aparentemente estava limitado a seu comportamento, descrito apenas como “estranho”, “esquisito”, que fazia lembrar o de um “louco” ou drogado. Fala e gestos lentos, súbitos e longos silêncios, olhar perdido na distância.

Preocupada em entender o que exatamente significava isso e qual impacto negativo teria sobre o aprendizado da turma, resolvi assistir a uma de suas aulas. Sem avisar ninguém e sem me justificar, bati na porta e pedi licença para acompanhar os ensinamentos do dia. A aula já havia começado e o clima entre os alunos e o tal professor parecia sereno. Ele estava de costas para a porta, escrevendo algo no quadro negro. Ao se virar e me ver, no entanto, ele teve uma reação inexplicável: sua fala travou totalmente e seu corpo congelou como o de uma estátua, ainda com o braço suspenso no ar e o giz na mão.

Foram minutos de constrangedor silêncio que me pareceram horas. A classe inteira paralisou à espera dos nossos próximos passos. Sem saber o que fazer, eu também limitei-me a ficar parada e em silêncio, de pé, segurando a maçaneta. Ele olhava para mim com um ligeiro sorriso nos lábios. Seus olhos tinham um estranho brilho, como se ele estivesse tentando contextualizar minha imagem ou se lembrar de alguma coisa. Embora não me conhecesse, parecia estranhamente contente em me ver – ou rever, como descobri mais tarde.

Sem pronunciar uma só palavra, ele lentamente foi descongelando, virou-se novamente para a lousa e escreveu algo nela… só que em indecifráveis (para mim) caracteres da língua hindi. Ao terminar, voltou-se para mim, abriu um largo sorriso e disse candidamente: ‘Este é seu nome”. Cada vez mais assustada e perturbada, perguntei o que aquele nome significava. Ele respondeu apenas: ‘Myrthes!’. Não me lembrava de ter dito meu nome e, mesmo que o tivesse feito, me surpreendia que ele o houvesse absorvido tão rapidamente, com tamanha familiaridade. Àquela altura, eu já estava começando a achar que o caso merecia uma intervenção de ordem psiquiátrica mesmo, mas não quis dar continuidade ao estranho diálogo para não atrapalhar a aula. Sentei-me numa cadeira no fundo da sala e permaneci calada.

Quando a aula terminou, sem outras intercorrências, ele veio conversar comigo. Depois de trocarmos amistosamente algumas informações sobre seu currículo e sobre suas relações com os alunos, novo susto, desta vez de muito maiores proporções. Sem perder sua espontaneidade, ele simplesmente deu início a um relato sobre uma pretensa vida passada minha, algo que me arrepia até hoje: “Você morreu em um terremoto, de fome e de sede, por não ter sido resgatada a tempo”. Absolutamente perplexa, não tive forças para perguntar mais nada, nem quando nem onde aquilo acontecera. Ainda que os temas esotéricos não me fossem desconhecidos e eu já tivesse vivido outras situações estranhas com desconhecidos, eu me recusava a acreditar naquele relato e continuava duvidando da sanidade mental do professor.

No dia seguinte, marquei um encontro com a diretora da escola de inglês. Contei a ela brevemente das reclamações sobre o comportamento do professor, omitindo o relato acima. Ela prontamente me tranquilizou: disse que ele era uma pessoa realmente estranha para os padrões corporativos ocidentais mas uma pessoa nobre, altamente espiritualizada, que havia vivido muitos anos na Índia e se tornado uma espécie de liderança iogue. Tinha vindo ao Brasil com a missão de aqui instalar um centro de ioga voltado à construção da paz universal vinculado à ONU, e que só estava dando aulas de inglês para sobreviver financeiramente enquanto isso não acontecia. Garantiu que conversaria com ele para que ele evitasse discussões não-técnicas com os alunos e adotasse um comportamento mais “dinâmico” (menos zen) em sala de aula, de modo a afastar a possibilidade de novas reclamações.

De fato, algumas semanas depois as queixas cessaram e ele continuou dando aulas normalmente. A partir dali, aproximei-me mais dele e, após ser convidada, fui fazer um curso de Raja Yoga (um tipo de ioga mais propriamente mental) no centro que ele estava construindo. Não posso dizer que nos tornamos amigos, mas os conceitos do hinduísmo que aprendi ali me ajudaram a interpretar com mais tolerância seus estranhos hábitos e relatos.

De alguma forma, a ideia de ter morrido num terremoto começava a fazer sentido para mim. Sempre tive pavor de voar e algumas vezes entrei em pânico até mesmo dentro de elevadores. A sensação apavorante de não ter chão embaixo dos meus pés me acompanha desde que me conheço por gente. Assunto de muitas sessões de terapia, aprendi aos poucos a lidar melhor com o descontrole emocional e esse medo acabou ficando literalmente soterrado em meio às minhas lembranças do passado.

Ontem, entretanto, ouvindo uma sobrevivente dizer que a sensação é a de que você está pisando em um colchão de água e seu corpo oscila violentamente acompanhando as ondas que vêm da terra, não tive como evitar reviver intensamente o terror do chão se abrindo, a sensação de sufocamento, abandono e desamparo. Sim, muito provavelmente eu já vivi essa situação, não importa se em uma vida passada ou dentro do útero de minha mãe na hora do parto.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Bolsonaro no exílio

José Horta Manzano

Fugido do Brasil e autoexilado nos EUA, Bolsonaro sopra o calor e o frio. Um dia, diz que está de malas prontas para voltar; dia seguinte, informa que o retorno não tem data marcada. Ora vem, ora não vem.

Por age assim? Acredito que basicamente é pra mostrar-se vivo. Se, além de sumir de circulação, ficasse quietinho, seria dado por morto e descartado como carta fora de jogo.

É verdade que todos os seus planos foram por água abaixo e não lhe resta nenhum mourão ao qual se agarrar. As Forças Armadas do Brasil não o acompanharam, Trump não quis saber de recebê-lo, seus aliados estão aos poucos saindo de fininha para entender-se com o Lula. A 8.000 km de distância, com medo de voltar, o que é que o capitão pode fazer além de gesticular?

Observe agora a ilustração acima. É uma montagem de fotos extraídas de filmetes feitos por devotos que pagaram pra ouvir uma “palestra” de Seu Mestre num templo evangélico da Florida sábado passado. As imagens foram tiradas de filmezinhos amadores, de baixa qualidade, eis por que aparecem meio desfocadas.

Qualquer um pode notar que o ex-presidente engordou – e muito. Nessas fotos, não me parece que estivesse vestido com colete à prova de balas, como costumava andar no Brasil. O diâmetro do capitão é inteirinho dele mesmo. Imagino que a haute cuisine do Planalto esteja fazendo falta. Nos EUA, sozinho naquele casarão sem terreno onde está homiziado, sem a esposa (que já lançou seu grito de independência e voltou a Brasília), deve estar se alimentando de pizza, hambúrguer, batata frita e maionese em dose dupla.

Ao permanecer nos EUA, Bolsonaro dá sossego a muita gente. A ele, pra começar, que vai pra cama sem o pavor de ser acordado pela PF. Para seus devotos, porque a ausência de Seu Mestre mantém acesa a chama sebastianista de um hipotético retorno. E também para os não-bolsonaristas, que preferem vê-lo pelas costas.

Assim, sua ausência convém a todos. Que ele continue na Disneylândia!

Lula nos EUA

by Gilmar Fraga (1968-), desenhista gaúcho

José Horta Manzano

A imensa vantagem de Lula, em qualquer viagem internacional, é que sua fama chega antes dele. No Brasil, ele venceu a presidencial com 51% dos votos mas, se todos os eleitores dos países democráticos tivessem podido votar, ele teria levado com um placar soviético de 80% ou 90%. Em resumo: no exterior, o demiurgo conta com enorme capital de simpatia.

Em matéria de ideologia, Lula continua o mesmo. (Aliás, ninguém costuma mudar – algum ângulo mais pontudo da personalidade pode até ser limado, mas a essência permanece.) Pelas contas, estamos na versão Lula 3.0, mas o presidente continua empacado no ideário que já adotava nos tempos de líder sindical. O antagonismo entre “nós” e “eles” é marca de sua personalidade. O vitimismo do oprimido que se revolta contra o opressor está na base de sua cartilha.

Ele persevera na ideia de que redistribuição de riqueza se faz por decreto – daí a guerra declarada contra a política de juros do Banco Central. Lula realmente acredita que bastaria baixar os juros para eliminar a carestia. Não entende (ou não quer entender) que a economia não é ciência exata, e que qualquer mexida num dos pilares pode fazer o edifício desmoronar. Com juros baixos, capitais estrangeiros que hoje garantem o funcionamento do Estado brasileiro vão fugir em busca de mercados mais atraentes. Acontecendo isso, o governo trava.

Se Biden tocar no assunto da invasão da Ucrânia pelos russos, o fará por pura formalidade. O presidente americano já conhece a posição de Lula e sabe que não adianta insistir. De todo modo, para os EUA, um Brasil “neutro” é sempre melhor que um Brasil “solidário à Rússia”, como Bolsonaro um dia garantiu a Putin.

Lula adora navegar entre siglas que lhe parecem importantes. Sons como OEA, Mercosur, Celac, OCDE, Unasur são bálsamo para seus ouvidos. O Brics faz parte desses clubes. Aliás Lula acaba de indicar Dilma Rousseff para presidente do Banco do Brics, com sede em Xangai (China). A Rússia também faz parte do Brics. Com sua lógica peculiar, Lula acredita que não fica bem o Brasil por um lado, ser sócio da Rússia, e por outro condenar a invasão da Ucrânia. Prefere prestigiar o companheiro Putin, colega de clube, e dar de ombros para o povo ucraniano, que sofre as penas do inferno.

Nosso presidente dá preferência a manter acordos comerciais enquanto fecha os olhos para o massacre intencional de milhões de seres humanos promovido por Moscou no território de um país soberano. É o mesmo raciocínio que o faz apoiar gente asquerosa como os irmãos Castro de Cuba, Nicolas Maduro da Venezuela, Daniel Ortega da Nicarágua, Bachar El-Assad da Síria, os aiatolás do Irã, ditadores africanos.

Lula é considerado humanista. Pois é estranho que um humanista dê preferência a sacrificar um povo inteiro no altar das boas relações entre companheiros, mas a realidade é essa. Parece que a máscara de “pai dos pobres” de Lula é só pra inglês ver.

A viagem a Washington, por seu lado, não vai resultar em grandes avanços nem fortes recuos. Para Biden, será a ocasião de mostrar que o Brasil continua um grande aliado, não armado e não belicoso. Para Lula, vai marcar um início de mandato com pé direito, sendo recebido com honras pelo chefe de Estado mais poderoso do planeta. E os ucranianos que se danem.

Não foi ideia minha!

José Horta Manzano

Sou assinante de um portal de língua espanhola que me manda, entre outros temas, interessantes informações de etimologia. Cada post vem ilustrado com uma imagem que evoca o assunto.

A “Palabra del día” de hoje era energúmeno, que tem a mesma grafia e praticamente a mesma pronúncia em espanhol e português. Para ilustrar, os autores escolheram uma sugestiva foto do ex-presidente Bolsonaro. Devem ter achado que era a tradução mais fiel do sentido de energúmeno.

O post no site original está aqui.

Frase que não deveria ter sido pronunciada

José Horta Manzano

O presidente Lula da Silva afirmou nesta segunda-feira que os atos golpistas de 8 jan° representaram

“a revolta dos ricos que perderam a eleição”.

A frase, que ressuscita um “nós x eles” de triste memória, não serve a nenhum público.

* Os que votaram em Bolsonaro não vão passar a apreciar Lula.

* Dos que não votaram em Bolsonaro, a maior parte não vê “ricos” nos vândalos da Praça dos Três Poderes. Ao contrário, enxerga uma tropa de indigentes – físicos e mentais.

* Os que não se encaixam nas categorias acima são os que não costumam ler jornal nem seguir as falas do Lula.

Portanto, a frase faz mais mal do que bem. Parodiando Romário, o Lula calado é um poeta.

Resenha – 4

by Pedro Silva, desenhista português

José Horta Manzano

Descartável
Doutor Anderson Torres, que foi ministro da Justiça aos tempos de Bolsonaro, foi colhido pela PF ao desembarcar de voo que o trazia de volta de suas ‘férias’ em Orlando. Foi então conduzido a um destacamento da Polícia Militar de Brasília onde está preso há três semanas.

Ontem, o doutor deu depoimento. Indagado sobre a minuta de decreto golpista encontrada entre seus guardados, declarou que considera a dita minuta “totalmente descartável” e, mais que isso “sem viabilidade jurídica”.

O doutor não explicou o que é que um papel “totalmente descartável” fazia entre os documentos conservados em sua residência. Se era descartável, deveria ter sido descartado. Por que não o foi?

Ao declarar que o decreto golpista é “sem viabilidade jurídica”, o doutor chove no molhado. Golpe de Estado significa exatamente a quebra de ordem jurídica. Dizer que ele é “sem viabilidade jurídica” é uma evidência, um truísmo.

Em matéria de esclarecimento, o depoimento foi de soma zero.

Do porão
Assustado com as múltiplas tentativas de golpe de Estado que permearam os últimos meses da gestão bolsonárica, doutor Gilmar Mendes (STF) declarou que “a gente estava sendo governado por uma gente do porão”.

Se qualquer um de nós, cidadãos comuns, fizéssemos esse comentário, o mundo não viria abaixo. Mas quando Gilmar Mendes, conhecido como “o ministro que mais solta bandido”, faz a mesma observação, vale o dobro. Fica patente que essa gente é do porão mesmo.

Italiano
Bolsonaro disse que é italiano e que, se quiser tirar os documentos, basta solicitá-los, que a burocracia não será pesada. Tem razão o ex-presidente. O que ele não disse, talvez por não saber, é que a Itália não é o porto mais seguro para fugitivos da lei. Nenhuma lei do país impede a extradição de nacionais.

Já tivemos um caso famoso, o de Henrique Pizzolato. Binacional, o condenado na Lava a Jato se homiziou na Itália. O governo brasileiro solicitou extradição e, depois de uma batalha judicial, a Itália acabou entregando Pizzolato à PF, que o levou direto de Roma para a Papuda.

Portanto, a nacionalidade italiana pode ser útil para cidadãos brasileiros comuns. Para um Bolsonaro condenado, não é destino recomendável.

Enquanto isso
Inconformado ao ver que uma das mais importantes instituições da República escapa ao seu controle, Lula dá sinais de querer “rever” a autonomia do Banco Central. Para não chacoalhar o mercado, diz que a ideia só será posta em prática após o término do mandato do atual presidente do banco.

Lula não tem jeito. Com os pés cravados nos anos 1970, não consegue (ou não quer) entender que a absoluta independência do banco emissor é ponto importante no sistema de pesos e contrapesos de uma democracia vigorosa. É assim que funciona em todos os países democráticos.

Doutora em Ginecologia
Uma cirurgiã-ginecologista francesa, que oficia no hospital de Bordeaux (sul da França), gosta de cantar. Já na sala de operações, antes de iniciar o procedimento cirúrgico, canta para tranquilizar a paciente.

Embalados por sua bela voz, os “gospels” têm feito sucesso desde que foram publicados nas redes. Veja aqui.

Free flow

Prepare-se: o Free Flow vem aí!

José Horta Manzano

Alguns chamam esta tendência de “complexo de vira-lata”, expressão que prefiro não utilizar por me parecer pesada e injuriosa. Seria até bom encontrar opção menos agressiva. Estou falando do fascínio que tudo o que vem do estrangeiro exerce sobre nossa população.

Deve ser fenômeno antigo, visto que, de memória, recordo que sempre foi assim. Artigo estrangeiro sempre foi valorizado. Mas a lógica nos ensina que, logo nas primeiras décadas do descobrimento, os produtos desta terra é que devem ter sido valorizados na Europa. Imagine o pasmo de um europeu dos anos 1500 diante de um abacate, de um abacaxi ou de um animal desconhecido no Velho Continente. Não sei quando é que o encanto mudou de mão.

“Nacional ou importado?” – é pergunta que se pode ouvir em comércios do Brasil, tanto de alimentos como de roupas, de azulejos, de relógios, e de inúmeros outros artigos. Pressupõe-se que o importado é necessariamente de melhor qualidade, o que justifica preço bem superior.

Mas não pense que é assim por toda parte. Me lembro de um dia, muitas décadas atrás, em que eu fazia umas comprinhas numa feira-livre aqui na Suíça. Numa banca de legumes e verduras, vi duas caixas de tomates muito parecidos, mas com preços diferentes. Apontei para os mais caros e perguntei a razão do preço. A resposta veio natural: “Ah, estes custam mais caro porque são tomates suíços! Os outros são importados.”.

Com o tempo fui aprendendo que aqui, em princípio, artigo nacional custa mais caro que o estrangeiro. No começo, deve ter me parecido uma estranha tendência, nem lembro mais. Com o tempo, me acostumei.

Por que é que contei essa história? Foi justamente para mostrar que o que ocorre no Brasil não é tendência universal. Talvez nossa admiração por artigos importados venha do período colonial, do tempo em que nosso território era isolado do mundo, longe de tudo, sem fábricas, sem jornais, sem escolas superiores. Naquela época, o importado era necessariamente melhor, visto que nacional não havia.

Hoje essa admiração sistemática pelo que vem de fora – cujo efeito perverso é a depreciação sistemática de tudo o que é nacional – não tem mais razão de ser. O mundo mudou, o Brasil já não é uma província isolada, situada quase fora do mapa. Aqui há coisas boas e más, como em toda parte. Ainda bem que é assim, se não a Embraer não seria uma das grandes construtoras mundiais de aviões.

Enquanto nossa estranha tendência não arrefece, é bom irmos nos acostumando com o mais recente barbarismo. É o recém-anunciado “free flow”, sistema que permite passar pelo pedágio rodoviário sem parar. Não sei como funciona, mas pouco importa porque não é esse o objetivo deste artigo. Acho simplesmente que importar a expressão em língua inglesa e servi-la assim – crua, sem cozinhar, sem ao menos descascar – é um despropósito.

Sem cancela”, “Passa rápido”, “Vamos em frente”, “Cuca fria”, “Sinal verde”, “Passe livre”, “Sem problema”, “Sai da frente”, “Pedágio simples”, “Via livre – seriam nomes possíveis para substituir o barbarismo. Rápida sondagem entre futuros usuários daria mais centenas de opções. Mas foi mais simples pegar a expressão estrangeira tal e qual. É uma tremenda falta de criatividade.

Fica tão mais sofisticado quando a expressão vem de fora, não é mesmo?

A democracia resiste

by Marcos “Quinho” de Souza Ravelli (1969-), desenhista mineiro

 

José Horta Manzano

Artigo publicado pelo Correio Braziliense de 28 janeiro 2023

Há sinais de recuperação da democracia ao redor do globo. Embora tímidos, acanhados e quase imperceptíveis, apontam para o lado positivo. Vamos a alguns deles.

A China, entre os países importantes, é o que tem o regime mais controlado e hermético, apesar de ser mais autoritário que comunista. Na comparação, a vida na Rússia – país onde até o vocabulário do cidadão é escrutado pra vigiar que nunca associe o nome ‘Ucrânia’ à palavra ‘guerra’ – parece solta e jovial.

Pois foi essa China que nos deu, no fim do ano passado, inesperada mostra de que o rigor das regras sociais pode ser afrouxado pela pressão popular. Quase três anos de confinamento estrito, por motivo de covid, estavam fazendo mal à economia e, sobretudo, à população. Parece que a transmissão dos jogos da Copa do Mundo deu origem à ira popular. A visão de estádios cheios de gente sorridente e sem máscara foi a gota d’água. Manifestações de indignação se alevantaram nas metrópoles chinesas, com coro de “Fora, Xi Jinping!” – afronta insuportável. Poucos dias bastaram para o rigoroso regime de “covid zero” ser abolido.

No Irã, faz meses que a população manifesta seu desagrado com o rigor da ditadura dos aiatolás. O triste destino de uma jovem que morreu enquanto detida pela polícia da moralidade pelo motivo de não usar direito o véu obrigatório foi o estopim da revolta popular. Dia após dia, a obstinada e corajosa juventude iraniana manifesta nas ruas sua insatisfação com o regime. A dura repressão já deixou centenas de cadáveres, mas a ira da população tem se mostrado à altura da mão pesada do governo. Em mais de quarenta anos de regime teocrático, é a primeira vez que o povo se queixa com tal intensidade. Pode bem ser o primeiro passo para a queda da ditadura.

Nos EUA, o campo antidemocrático liderado por Donald Trump sofreu profundo revés nas eleições de “mid-term”. Quando todos já se resignavam de assistir a uma arrasadora onda de eleitos trumpistas, o eleitorado democrata deu um sobressalto e limitou as perdas. A volta do bilionário à Presidência ficou um pouco mais problemática.

Na Itália, a primeira-ministra Giorgia Meloni vem se saindo melhor que o figurino. Ao assumir a chefia do governo, abjurou Mussolini e o fascismo, regime pelo qual havia demonstrado simpatia no passado. Juntou-se aos demais países da Otan e deu seu apoio ao envio de armas para que os ucranianos defendam seu território contra o invasor russo. Em uma palavra, a Signora Meloni civilizou-se. Fez desaparecer o lado assustador da extrema-direita. Caminha na boa direção.

No Brasil, as últimas semanas de 2022 e as primeiras deste ano foram turbulentas. Jair Bolsonaro, quando presidente, passou anos prevenindo o distinto público de que, se não fosse reeleito, se insurgiria contra o resultado das eleições. Numa preparação do que estaria por vir, chegou a avisar, ao corpo diplomático lotado em Brasília, a vulnerabilidade de nossas urnas eletrônicas.

Quando as eleições chegaram e o capitão foi derrotado, forte apreensão tomou conta da população não fanatizada. E agora? Será que o perdedor nos condenará a regredir a uma era de botas na calçada e brucutus no asfalto?

Em outros tempos, talvez a pólvora tivesse assumido o protagonismo e o país tivesse de novo mergulhado nas trevas. Numa mostra de que o horizonte nacional já está desanuviado de aventuras desse tipo, Bolsonaro emburrou, enclausurou-se no palácio e lá ficou dois meses – calado para o público externo, mas certamente ativíssimo na preparação do sonhado golpe.

O resto, todo o mundo sabe. Bolsonaro fugiu, e o 8 de janeiro viu o “Exército da Loucura” em ação. Quebraram vidros, mas não quebraram a lealdade de uma maioria de fardados responsáveis. Derrubaram peças de arte, mas não derrubaram a Lei Maior. Subiram no alto de palácios, mas não atingiram o topo do poder. O Brasil balançou mas não cedeu.

Agora, o espetáculo que nos proporcionam um ex-presidente homiziado no exterior, invasores rastaqueras na cadeia e financiadores acuados traz uma lufada de ar puro a nossa nação. É a prova de que, na hora agá, nossa democracia não se rompeu.

Os disparates de Lula

by Sam Jovana, desenhista mineira

José Horta Manzano

Os disparates de Lula parecem suaves se comparados aos de Bolsonaro. Assim mesmo, embora pronunciados em linguagem decente, não deixam de ser disparates. Tenho às vezes a impressão de que Lula nunca antes atravessou um período de graça como o momento atual.

Aquele meio Brasil que viu na sua eleição uma luz no fim do túnel está aliviado e leniente com suas primeiras besteiras. Esse contingente de brasileiros tende a ser condescendente com as escorregadelas do novo presidente. São eleitores que reagem como se o Lula fosse um iniciante na política, um eleito de primeiro mandato.

Quanto à outra metade do Brasil – os eleitores que votaram em Bolsonaro – é de imaginar que o comportamento do ex-presidente derrotado não tenha agradado. O Datafolha ainda não publicou nenhuma pesquisa a respeito, mas Bolsonaro deve ter deixado um contingente de decepcionados. Sua fuga para o exterior é um crime de abandono de incapazes.

Tanto faz que o chefe seja chamado de Führer, Duce, Conducător, Caudillo, Comandante ou Mito – o próprio de uma seita extremista é a devoção incondicional ao messias. Ele concentra todos os atributos: a sabedoria, o discernimento, a força e a coragem. Um Führer que fraqueja, foge, se esconde no exterior, e deixa os devotos ao deus-dará é uma paulada na moleira. Um contrassenso. Um golpe duro. Um tranco capaz de abalar toda a paróquia.

Isso me faz acreditar que, frustados com o comportamento do líder, muitos dos que votaram nele estão atualmente menos propensos a se opor com veemência a Lula. O Mito fugido nem ao menos apresentou uma boa desculpa para a atitude. Se estivesse sob mandado de prisão, por exemplo, seria compreensível. Mas não há, por enquanto, nenhuma medida decretada contra ele. Se não volta, é porque não quer.

Voltemos agora ao período de graça do Lula. Acho que ele, inebriado com a renovada sensação de poder, não está percebendo que o tempo passa rápido e o tempo de bonança está escorrendo por suas mãos. A ampulheta é implacável.

Ele já disse que respeitar regras fiscais é bobagem. Já levantou o espantalho de nova moeda a ser compartilhada entre Brasil e Argentina. Já tratou seu antecessor de genocida, igualando-se a ele em despudor. Já prometeu financiamento para a exploração de gás na Argentina, quando o Brasil tem milhares de obras paralisadas. Mais de uma vez, já chamou Temer de ‘golpista’. Já repetiu que o impeachment de Dilma foi ‘golpe’, uma distorção da verdade histórica.

Eu me compadeço de um Lula que, aos 75 anos, culpado ou não, purgou 580 dias de cárcere. Compreendo que essa privação de liberdade tenha deixado ressentimentos. Mas não acredito que seja este o melhor momento para esconjurar velhos rancores. Os brasileiros, que anseiam por um ar puro e livre de miasmas, não merecem ser bombardeados com patacoadas.

Presidente, não estrague essa “janela de oportunidades” – como se diz hoje em dia – com declarações ruidosas e desnecessárias. Chega de poluição declaratória. Vá direto ao ponto. Dê aos brasileiros o que eles estão precisando receber.

Como se dizia antigamente: “Ô Lula, aproveita enquanto o Brás é tesoureiro, que essa sopa vai acabar!”(*)

(*) Em outras versões desse sábio ditado, o polivalente Brás é carcereiro.

Kintsugi

Prato de Rosina Wachtmeister após restauro Kintsugi

José Horta Manzano

Um dia um prato que estava pendurado na parede da cozinha despencou e se espatifou no chão. Eu gostava muito da peça, uma porcelana pintada pela artista austríaca Rosina Wachtmeister, especializada em retratar gatos estilizados.

Rosina teve um percurso de vida peculiar. Nascida na Áustria em 1939, emigrou para o Brasil, junto com a família, quando estava com 14 anos. Passou a adolescência e o início da vida adulta em Porto Alegre, onde aprendeu Pintura e Escultura na Escola de Belas Artes. Aos 28 anos, casou-se com um italiano e voltou para a Europa. Estabeleceu-se na Itália, onde vive até hoje. Está com 83 anos.

Chateado com o prato espatifado, fui à internet pra ver se conseguia encontrar outro igual. Nada feito, era uma série limitada. Nesses sites em que particulares vendem velharias, encontrei pratos semelhantes, mas nenhum tão bonito como o meu. De repente, não me lembro onde, li um artigo que falava de Kintsugi.

Trata-se de uma técnica japonesa de restauração de objetos de porcelana e cerâmica quebrados. Os japoneses são um povo que não despreza a velhice, antes, respeita e valoriza pessoas e coisas antigas.

A filosofia nipônica parte do princípio que peças antigas têm grande valor por carregarem uma longa vivência. Quando se quebram, devem ser restauradas. E as cicatrizes não precisam ser disfarçadas, ao contrário, devem ser acentuadas para mostrar que o objeto é antigo e tem valor. O reparo é feito com cola misturada com ouro em pó, de maneira que as cicatrizes fiquem bem aparentes.

Meu prato quebrado não tinha tanto valor, ao ponto de merecer ser consertado com pó de ouro. Numa loja de bricolagem, encontrei a cola e um pó dourado, feito não sei de quê, mas de cor bonita e preço abordável. Não foi difícil consertar o objeto, que voltou a ser dependurado exatamente no mesmo lugar de onde havia despencado.

Lembrei desse episódio estes dias, quando vi foto dos caquinhos a que ficaram reduzidos vasos chineses vandalizados nos palácios da República pelos discípulos de Seu Mestre. Os restauradores vão ter muito trabalho. Não acredito que venham a recorrer ao kintsugi.

Quando tudo é permitido

Michael Krüger

José Horta Manzano

Michael Krüger (1943-) é um prolífico escritor e tradutor alemão com cerca de 40 livros publicados. É um frasista. Já fez afirmações tais como: “Sobre a literatura universal, paira uma nuvem de álcool” ou “De fato, quando se pensa bem, as pequenas coisas não dão futuro; precisamos de grandeza”.

Entre suas afirmações há uma, bastante conhecida, com a qual não tenho certeza de concordar: “Quando tudo é permitido, há poucos conflitos”. É um dito que pede reflexão. Em certos relacionamentos amorosos, pode até funcionar, dependendo da índole de cada parceiro. En nível universal, quando se estuda a relação entre todos os indivíduos de uma sociedade, a coisa aperta.

Como se sabe, a liberdade de cada um termina onde começa a entrar em atrito com a liberdade do outro. Se tudo for permitido, como propõe Krüger, fatalmente haverá atritos. Em teoria, até a estupidez selvagem do 8 de janeiro na Praça dos Três Poderes seria permitida – um ultraje à vida civilizada.

A esse propósito, lembro uns versinhos antigos, às vezes atribuídos a Winston Churchill. Dependendo do país e da época, a quadrinha circula com versões diferentes. Na atualidade, seria assim:

Na Inglaterra, tudo é permitido, menos o que é proibido.
Na Alemanha, tudo é proibido, menos o que é permitido.
Na Coreia do Norte, tudo é proibido, até o que é permitido.
No Brasil, tudo é permitido, principalmente o que é proibido.

Isso é só pra fazer graça, que, na realidade, não é assim. Ainda bem.

Resenha – 3

by Guy Valls (1920-1989), desenhista francês

José Horta Manzano

A queda
Quando o cidadão está lá em cima, forte e poderoso, é cortejado por todos. Já quando desce do pedestal, vai aos poucos escorregando para o ostracismo. O caso de Bolsonaro é mais grave ainda. Dado que, quando presidente, exorbitou, ofendeu, insultou, extrapolou e magoou, sua queda dramática o transforma em indivíduo tóxico. Todos o abandonam e ninguém quer ter o próprio nome ligado a ele. A queda é vertiginosa.

Nos EUA, numerosos parlamentares fazem pressão sobre Joe Biden para que dê um jeito de impedir a estada do capitão em território estadunidense. Que seja expulso o mais rápido possível.

Na Itália, parlamentares horrorizados com os acontecimentos de Brasília também se insurgem contra o capitão. Ele não se encontra na Itália (por enquanto), mas sua figura paira como mancha indesejada. É que em novembro de 2021, em sua passagem pela Itália, Bolsonaro recebeu uma homenagem por parte da prefeita da cidadezinha de origem de seus antepassados. Concederam a ele a cidadania honorária do município de Anguillara Veneta. Depois do golpe de Estado fracassado do 8 de janeiro, diversos eleitos pressionam a prefeita para que anule o título concedido. Não querem ver o nome da cidadezinha associado ao do “Trump dos trópicos”.

Na minha visão, é uma bênção que Bolsonaro esteja no exterior. A cada dia longe da pátria, sua fama de fujão vai se afirmando e sua aura vai empalidecendo. Dependesse de mim, faria tudo para que ele nunca mais pisasse solo brasileiro. Quanto mais longe estiver, melhor será. O homem é nocivo e perigoso demais.

Ecos do 8 de janeiro
Encontrei na imprensa alemã as expressões mais veementes para descrever os terríveis acontecimentos de nosso 8 de janeiro em Brasília.

A malta que invadiu os palácios foi chamada de “Armee des Wahns”, ou seja, Exército da Loucura. Excelente definição.

Li também a afirmação seguinte: “Die Wut der Massen entstammt dem Gift des Populismus”, que se traduz por “A fúria das massas tem origem no veneno do populismo”, uma verdade histórica.

Parafraseando movimentos como a “Internacional Socialista” e a “Internacional Operária”, a mídia alemã tascou outra boa etiqueta para a turba:
“Die Internationale der Verschwörungsgläubigen”, que é
“A Internacional dos Crentes da Conspiração”.

Avaliação Lula x Bolsonaro
Pesquisa do Ipec apura que 55% dos brasileiros acreditam que o governo Lula será melhor que o governo Bolsonaro. Deduz-se que os demais, ou seja 45% dos brasileiros, são de outra opinião. Os números (55% x 45%) se aproximam do resultado do segundo turno (51% x 49%). Em outros termos, quem votou no Lula acha que o novo governo será melhor que o anterior. E quem votou Bolsonaro persiste em acreditar que bom mesmo era antes. Nem precisava de pesquisa.

Roraima
Bolsonaro passou quatro anos hostilizando a Venezuela, fechou embaixada, tirou pessoal diplomático, diabolizou o regime. Esbravejou e cantou de galo em cima do desprezível vizinho. Mas não se preocupou em conectar a rede de energia elétrica roraimense à rede brasileira. Roraima é o único estado da Federação cuja rede elétrica é desconectada do resto do país. Até hoje, é a Venezuela que fornece energia ao estado.

O capitão bradava: “Que ninguém ouse botar a mão na Amazônia!”, enquanto entregava a segurança energética de um vasto pedaço de nossa Amazônia aos caprichos de um ditador estrangeiro. Mais uma vez está feita a prova de que o nacionalismo dele é só de fachada, pra inglês ver.

Surpreendente
Em carta escrita nesta quarta-feira 18 janeiro 2023 e endereçada aos dirigentes do mundo inteiro, que estão atualmente reunidos no Fórum Econômico de Davos (Suíça), mais de 200 bilionários provenientes de 13 diferentes países afirmam que querem pagar mais impostos. Estudos especializados indicam que o patrimônio dos ultrarricos aumentou em 50% nos últimos dez anos.


“Vocês, nossos representantes no mundo, têm de aumentar nossos impostos, e isso tem de começar agora. Trata-se de uma medida simples e de bom senso.”

Trecho da carta


Na lata, ao tomar conhecimento da carta, o ministro francês da Economia convidou todos a irem morar na França. Explicou que se tratava de um dos países onde se pagam mais impostos no mundo e completou: “Saberemos cobrar de todos vocês”. Bem-vindos!