Quando tudo é permitido

Michael Krüger

José Horta Manzano

Michael Krüger (1943-) é um prolífico escritor e tradutor alemão com cerca de 40 livros publicados. É um frasista. Já fez afirmações tais como: “Sobre a literatura universal, paira uma nuvem de álcool” ou “De fato, quando se pensa bem, as pequenas coisas não dão futuro; precisamos de grandeza”.

Entre suas afirmações há uma, bastante conhecida, com a qual não tenho certeza de concordar: “Quando tudo é permitido, há poucos conflitos”. É um dito que pede reflexão. Em certos relacionamentos amorosos, pode até funcionar, dependendo da índole de cada parceiro. En nível universal, quando se estuda a relação entre todos os indivíduos de uma sociedade, a coisa aperta.

Como se sabe, a liberdade de cada um termina onde começa a entrar em atrito com a liberdade do outro. Se tudo for permitido, como propõe Krüger, fatalmente haverá atritos. Em teoria, até a estupidez selvagem do 8 de janeiro na Praça dos Três Poderes seria permitida – um ultraje à vida civilizada.

A esse propósito, lembro uns versinhos antigos, às vezes atribuídos a Winston Churchill. Dependendo do país e da época, a quadrinha circula com versões diferentes. Na atualidade, seria assim:

Na Inglaterra, tudo é permitido, menos o que é proibido.
Na Alemanha, tudo é proibido, menos o que é permitido.
Na Coreia do Norte, tudo é proibido, até o que é permitido.
No Brasil, tudo é permitido, principalmente o que é proibido.

Isso é só pra fazer graça, que, na realidade, não é assim. Ainda bem.

Frasista

José Horta Manzano

A maior parte dos dicionários online de língua portuguesa anotam que a palavra “frasista” designa o indivíduo que aprecia fazer frases rebuscadas mas vazias de sentido. Dos que consultei, o Caldas Aulete é o único que amplia o significado do termo, ao conceder que são frasistas todos os que costumam fazer frases de efeito com ou sem conteúdo significativo.

Quero lembrar hoje aqui um grande frasista brasileiro, desaparecido há mais de meio século. Trata-se do carioca Sérgio Marcus Rangel Porto (Sérgio Porto), que também assinava com um heterônimo: Stanislaw Ponte Preta.

Verdadeiro homem de sete instrumentos, Sérgio Porto exercia como jornalista, compositor, escritor, cronista, teatrólogo, radialista. Tinha fértil veia humorística que ressurgia a cada esquina de sua obra. Bom exemplo são os livros de crítica sutil que escreveu sobre o fenômeno que ele nomeou Febeapá (Festival de Besteiras que Assola o País).

Porto foi abatido pelo terceiro infarto que sofreu. Tinha 45 anos.

Em sua curta existência, mostrou ser fino observador dos costumes de sua época. Sua avaliação está registrada em frases que nos chegam como uma fotografia dos anos 1950 e 1960.

Surpreendentemente, frases que ele criou há mais de meio século continuam atuais como se tivessem sido pronunciadas semana passada. Umas delas é:


“No Brasil as coisas acontecem, mas depois, com um simples desmentido, deixaram de acontecer.”


Foi inspirada na ditadura, mas convenhamos que continua combinando perfeitamente com os dias atuais.

Outra frase de Sérgio Porto vem a calhar para o comportamento abestalhado de nosso presidente sainte (que sai):


“Ninguém se conforma de já ter sido.”


 

Todo brasileiro é um feriado

José Horta Manzano

Certas pessoas têm o dom de bolar tiradas de efeito, um recurso que não está ao alcance de qualquer um. Não é questão de inteligência, nem de estudo, nem de aplicação: é dom. Quem tem, consegue; e quem não tem, não adianta insistir, que não vai dar certo. Quem é bom nessas artes pode ser chamado de frasista – um bambambã na criação de frases.

O pernambucano Nélson Falcão Rodrigues (1912-1980), conhecido simplesmente como Nélson Rodrigues, foi jornalista, cronista, escritor e dramaturgo. Era excelente frasista. Algumas de suas tiradas ficaram na história. O magistral título deste artigo é de sua autoria.

De sua coleção de máximas, extraí algumas que, a meu ver, se enquadram com perfeição no clima de manicômio que nosso atual governo impõe ao país.

E esta vale como sinistra advertência para a marca que essa malta de desajustados deixará na história.