Farol da Humanidade

José Horta Manzano

O Lula dá sinais de ter desistido de lutar pra alcançar o almejado posto de “Farol da Humanidade”.

Nos primeiros dois mandatos, seu ego foi acariciado pela boa sorte. Os tempos eram outros, sem Trump, sem um Putin belicoso, sem Xi Jinping. Nem Bolsonaro havia ainda posto as manguinhas de fora. Na política interna, o “terrível” adversário era o suave FHC e seu partido.

Marinheiro de primeira viagem, Luiz Inácio navegou então por águas mansas, com céu de brigadeiro e golfinhos brincando a bombordo e estibordo.

Em 2009, um Obama efusivo apresentou Lula aos presidentes do G20 com um “This is my man, right here! I love this guy.” (Este é o homem, bem aqui! Adoro esse cara.). E acrescentou que Luiz Inácio era “the most popular politician on Earth” (o político mais popular da face da Terra).

Lula deve ter acreditado em cada sílaba. Tanto que, inchado, assumiu o papel de Paladino da Paz e da Justiça. Meteu-se de cabeça no jogo internacional. Aventurou-se até no insolúvel conflito palestino certo de que, com uma partida de futebol, apaziguaria os dois povos. Como se sabe hoje, sua intervenção não foi bem sucedida.

Em versão 3.0, o Lula internacional anda mais travado. Bem que ele tentou, mas falta gás. No espocar da mortífera invasão da Ucrânia pelas tropas russas, deu uma de Salomão: culpou os dois lados igualmente. Levou silenciosa vaia internacional. Na guerra entre Israel e o Hamas, tentou opinar, mas já andava sem ânimo pra essas coisas. Seus vagos pronunciamentos tiveram o condão de irritar ambos os lados do conflito.

Agora, parece ter desistido de vez. Nas últimas ocasiões em que teria podido dar diretivas à humanidade, subtraiu-se. Quando o venezuelano Maduro e seu par, o presidente da Guiana, anunciaram reunião numa ilha caribenha, não quis conduzir os trabalhos. Em seu lugar, mandou Amorim, “assessor especial”.

Outra ocasião foi quando Zelenski, presidente da Ucrânia, a caminho da Argentina para a posse de Milei, teve de pousar em Brasília para reabastecimento. Apesar do convite do ucraniano, Lula preferiu declinar de encontrar-se com ele.

Será por cansaço devido aos anos vividos? Será para não se expor ao risco de novos fracassos? Ele é quem sabe a razão, mas tudo indica que já não se empenhará para tornar-se o Pacificador das Gentes.

Se isso significa que vai dedicar mais tempo e esforço para enfrentar nossos problemas internos, aplaudiremos de pé.

Canetada

José Horta Manzano

Talvez eu tenha perdido um capítulo. Se li direito, um solitário magistrado, unzinho só, numa canetada de palácio, por motivos absconsos, resolve anular uma decisão que já havia sido tomada tempos atrás.

E não estamos falando de briga de comadres: trata-se de uma entrada de 10,3 bilhões de reais (2,1 bilhões de dólares), um caminhão de dinheiro em cima do qual nem um maluco como Mr. Musk cuspiria.

Imagine tudo o que essa fortuna poderia render se entrasse para os cofres da República – e se fosse bem empregada naturalmente. Hospitais, dá pra construir vários. Estradas, dá pra abrir e asfaltar quilômetros e quilômetros. Professores, dá pra aumentar consistentemente o salário de todos eles pelo resto da vida. E quanto mais o distinto quiser imaginar será igualmente possível.

Agora, vem um homem e decide sozinho privar a nação desses fundos? Ressalte-se que é de conhecimento público que a esposa do digníssimo magistrado advoga para os beneficiários da anulação da multa.

Em que mundo estamos? Esse é o tipo de decisão que não pode valer antes de ser ratificada pelo pleno do STF. Por unanimidade se for possível. Me espantaria que a canetada fosse referendada mas, em nosso país, nunca estamos a salvo de surpresas.

Há países em que um caso assim levaria a população indignada às ruas, homens e mulheres, jovens e anciãos. Por aqui, nada. Sai notícia em caracteres pequenininhos.

Será no intuito de manter esse estado de coisas que o andar de cima se interessa tão pouco pela Instrução Pública?

Escrituras no Morro do Alemão

Elio Gaspari (*)

Há duas semanas, como parte do Programa Solo Seguro, a Corregedoria Nacional de Justiça entregou 180 títulos de propriedade a moradores do Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro. (Naquele cenário, em 2011, foi instalado o espetáculo do teleférico que custou R$ 210 milhões. Ficou sete anos parado e seria reaberto no início deste mês. Tudo bem, o que começa como presepada, como presepada se encrenca.).

A regularização dos lotes onde vivem 180 famílias do Alemão custou três meses de trabalho a 17 pessoas: duas da Corregedoria, cerca de 12 da Prefeitura do Rio e três do cartório de registro de imóveis. A impressão das escrituras deve ter saído por uns R$ 2 mil. Só.

(*) Elio Gaspari é jornalista. O texto é parte de artigo publicado em 17 dez° 2023 n’O Globo.

Bill Gates e o SUS

José Horta Manzano

Passou debaixo do radar um artigo que saiu semana passada na Folha de SP. O escrito trata dos comentários feitos por Bill Gates em suas páginas nas redes sociais.

Como se sabe, Mr. Gates é o fundador da Microsoft. Hoje, à beira dos 70 anos, está afastado da firma que criou. Além de bilionário – ou talvez por causa disso –, ele aparece entre os maiores filantropos de todo o mundo.

Em 2000, cedeu 5 bilhões de dólares de sua fortuna pessoal para criar a Fundação Bill & Melinda Gates. Ao longo dos anos, a dotação inicial cresceu até atingir cerca de 35 bilhões de dólares, capital que hoje sustenta a Fundação.

A instituição dedica-se a financiar grandes causas, sobretudo ligadas à saúde mundial. Aids, tuberculose, malária e poliomielite estão entre suas áreas de atuação. Bill Gates soube direcionar sua imensa fortuna para amparar causas que países pobres, sem ajuda, não conseguem cuidar.

Voltemos aos comentários do filantropo. Foram elogios rasgados endereçados ao SUS, o Sistema Único de Saúde brasileiro. “Nenhum país é perfeito, mas o Brasil é a prova do que acontece quando um país investe no cuidado com os mais vulneráveis: o retorno tende a ser grandioso” – foi uma de suas frases, postadas no Instagram. Mr. Gates ainda anexou um gráfico sobre a queda nos índices de mortalidade infantil no Brasil.

E seguiu, admirativo: “Em cerca de 30 anos, o Brasil conseguiu reduzir a mortalidade materna em 60% e diminuiu a mortalidade infantil em 75%, o que supera amplamente as tendências mundiais. Ainda por cima, aumentou a expectativa de vida de seu povo em cerca de dez anos.”

Bill Gates foi mais longe em seus posts. Deu uma rápida visão geral sobre a criação do SUS no fim dos anos 1980. A par disso, saudou a grande ideia de estarem atualmente em atividade 286 mil agentes comunitários de saúde, disponíveis para quase 70% dos brasileiros.

O filantropo, habituado a operar em países em que o Estado é inexistente ou quase, revelou sua admiração pelos programas de transferência de renda, como o Bolsa Família, que ajudam a extrair famílias da miséria negra e que são responsáveis pela diminuição da mortalidade infantil.

Seria o caso de o governo propor a Bill Gates participar de uma campanha institucional do SUS, como tantos programas de autolouvação que costumam ser montados. Talvez ele aceite, não custa tentar.

O artigo original está aqui (para assinantes da Folha de SP).

Imagem roubada

José Horta Manzano

Uma imagem roubada da tela do celular do senador Sergio Moro foi estampada na manchete de toda a mídia. A foto, tirada durante a sabatina de Flávio Dino, eterniza uma conversa entre Moro e um correpondente misterioso identificado como “Mestrão”. (De lá pra cá, já foi identificado, mas não vem ao caso.)

Moro acabava de dar um abraço em Dino diante das câmeras que transmitiam ao vivo. Logo depois, “Mestrão” envia mensagem a Moro para prevenir que “o coro está comendo nas redes” e que não convém publicar declaração de voto a favor do sabatinado, sob pena de espichar o assunto e perder o controle da situação. Foi nessa altura que a foto foi tirada.

Os dois devem se conhecer bem, dado que “Mestrão” chama o senador pelo prenome e o trata por ‘você’. Um detalhe: “Mestrão” põe vírgula depois do vocativo, mostrando que pelo menos completou o ensino médio.

Dia seguinte, diversos articulistas da grande mídia comentaram o ocorrido. “Quem será o Mestrão?” – indaga um deles. “Veja só, o que as redes mandam, Moro faz” – se surpreende um outro. O que cresceu foi a fofoca. Me lembrou os mexericos da Candinha.

Não me lembro de ter visto nenhum articulista preocupado com a licitude da imagem. Tirar uma foto por cima dos ombros de alguém, captar um trecho de conversação particular e espalhar a imagem me parece configurar um ilícito. No mínimo, é violação de correspondência. É como abrir (e ler) a carta do vizinho. (Hoje já ninguém manda carta, mas o princípio continua de pé.)

Quem agiu assim fez exatamente o que se acusa Moro de ter feito: escarafunchar a intimidade de seus investigados para melhor acusá-los.

Não sou fã de Sergio Moro, personagem pouco recomendável a meu ver. Mas uma coisa é uma coisa, e outra coisa é outra coisa.

Neste caso, é outra coisa.

X, antigo Twitter

José Horta Manzano

Só conheço o X (antigo Twitter) de ouvir falar. Não sou de “seguir” gurus nem personalidades; tampouco sinto necessidade de apregoar, a cada instante, os pensamentos que me passam pela cabeça.

Tenho acompanhado a turbulência que sacode a plataforma desde que um multibilionário tornou-se proprietário dela. Pelas notícias que leio, a impressão que me dá é que a curiosa intenção do milionário é destruir a empresa. Ele age aos trancos, um pouco hoje, um pouco amanhã, sempre no modo “tiro no pé”. Difícil de entender.

Alguns meses atrás, o grande golpe foi trocar o nome da empresa. O rapaz jogou no lixo a marca Twitter, implantada e conhecida no mundo todo. Em seu lugar, botou “X”, nome sem graça, banal, que se pronuncia de maneira diferente em cada língua. A meu ver, uma decisão desastrosa.

E parece que não sou o único a reprovar a troca de nome. No mundo inteiro, em todas as línguas, a mídia, quando se refere a essa plataforma, continua a dizer “X, antigo Twitter”.

Não sei se fazem isso preocupados com a boa compreensão ou se estão mesmo é dando um chute na canela do bilionário. Seja qual for a razão, a conclusão é a mesma: os usuários não aprovaram a mudança.

Vamos ver qual é a próxima extravagância do ricaço.

Os exemplos abaixo foram todos publicados meses após a mudança de nome.

 

 

O Globo, em português

 

 

Der Westen, em alemão

 

 

The New York Times, em inglês

 

 

Ubisoft, em italiano

 

 

Le Journal de Montréal, em francês

 

Os convidados de Milei

by Luis Grañena, caricaturista espanhol

José Horta Manzano

Os sul-americanos
Os líderes mundiais presentes à tomada de posse do novo presidente argentino fazem parte da nata da ultradireita internacional. Como é natural e esperado, compareceram os chefes de Estado dos países próximos, tais como os presidentes do Chile, do Uruguai, do Paraguai e mais alguns. O rei da Espanha é outro que nunca deixa de prestigiar trocas de governo nas ex-colônias.

Os extremistas
Já os demais são personagens da extrema-direita. Começa com nosso conhecido Bolsonaro, figurinha caricata que conhecemos bem. O estranho presidente de El Salvador, aquele que uma vez mandou o exército invadir o parlamento de seu país, não deixou de comparecer. Viktor Orbán, o aprendiz de ditador da Hungria, também estava lá. É de se notar a presença de uma estrela ascendente do movimento europeu de extrema-direita: Santiago Abascal, líder do partido Vox e deputado no Congreso de los Diputados da Espanha.

O perigo das entrevistas
Já devo ter narrado episódios fora do comum criado por dirigentes políticos durante entrevista concedida no exterior. Com declarações fora de propósito, Lula já caiu nessa, Bolsonaro também, Macron idem, o Papa foi outro. Não sei o que acontece com essa gente quando está fora de casa. Parece que a língua se solta e acaba torcendo para o lado errado.

A vítima da vez foi señor Santiago Abascal, o ultradireitista espanhol. Em entrevista ao jornal argentino Clarín, afirmou que os espanhóis estavam fartos do primeiro-ministro, Pedro Sánchez (socialista). Acrescentou que vai chegar o momento em que “o povo vai querer pendurá-lo pelos pés”.

A maldosa alusão ao destino terrível do líder fascista italiano Mussolini, que, já morto, foi pendurado pelos pés e de cabeça pra baixo num posto de gasolina de Milão, calou fundo na mídia espanhola. A violência verbal naquele país ainda não atingiu esse nível. A frase do deputado foi condenada por toda a classe política espanhola. Ficou patente a violência de todos os extremistas.

Lula e a Instrução Pública

José Horta Manzano

Faz poucos dias, Lula foi o participante de honra da cerimônia de credenciamento do Impa (Instituto de Matemática Pura e Aplicada). Na ocasião, o instituto foi promovido a “instituição de ensino superior” – como se fosse indispensável organizar esse tipo de cerimônia para elevar o Impa ao patamar em que qualquer faculdade de beira de estrada está. Só o nome do instituto já informa que, em matéria de estudo, lá não se brinca.

Luiz Inácio, que deve ter ouvido falar do papelão que o Brasil continua a fazer na classificação Pisa (e que se repete a cada ano), resolveu ralhar. (Não sei se esse verbo ainda é conhecido ou se já foi para o arquivo morto.) Ralhar é sinônimo de “passar um pito”, embora com sentido mais intenso. Dizer que “o professor ralhou comigo” significava contar que o mestre tinha me dado “um esculacho” (expressão que, acredito, esteja ainda em uso).

Luiz Inácio, portanto, resolveu dar um esculacho. Não na Matemática, que não ia ficar bem. Preferiu desancar os cursos de Direito assim como os formados nesses cursos. Apoiado em estatísticas (o que mostra que a fala não foi de improviso, mas estava já programada), colocou o Brasil entre os países que mais formam advogados. Disse que nem juntando todos os advogados da China e da Índia, países de volumosa população, se chega ao número de advogados brasileiros.

Parece inadequado um presidente falar mal de um ramo de estudos diante de uma plateia composta por gente de outro ramo. Não é pecado o que ele fez, mas ficou esquisito. Tem até gente achando que nosso presidente é fofoqueiro. Não é minha opinião.

Talvez para suavizar a relhada, Lula acrescentou: “Nada contra formar advogados. Mas é preciso que a gente forme mais em matemática, engenharia, física”. Mais adiante, com a voz trêmula e uma lágrima querendo apontar no canto do olho, Luiz Inácio não resistiu à tentação do autoelogio e lembrou ao distinto público que foi durante seus mandatos que o Brasil “construiu o maior número de universidades da História”.

Eu disse “autoelogio”? Deveria ter acrescentado “o que Lula acha que é autoelogio”. Luiz Inácio, que sofre de um (pequeno) complexo de sem-diploma, não costuma perder ocasião para ressaltar que saiu do nada e, sem ter feito estudos formais, chegou à Presidência – o que lhe parece motivo de orgulho. Talvez para compensar essa falta de estudo, Lula se empenhou, sobretudo no primeiro e no segundo mandatos, na criação de faculdades de ensino.

Faculdade pública, por oferecer ensino gratuito, atrai muitos alunos. Os cursos de Direito, que têm fama de serem menos puxados que os demais, atraem mais gente ainda. Dado que não existe um controle nacional do tipo “numerus clausus”, para limitar o acesso a carreiras já superconcorridas, as escolas de Direito formam, sim, muitos bacharéis. Como prova de que a maioria não alcança o nível de conhecimentos que se espera de um futuro advogado, sabe-se que nove entre dez formados são reprovados no exame da Ordem.

Há advogados demais no país? Não sei, é possível. Se já há quem reclame agora, fico a imaginar como seria o quadro sem o exame da Ordem. Sem exame, o número de profissionais seria multiplicado por dez.

Lula está terminando seu nono ano como presidente do Brasil. Nove anos é muita coisa. De 1889 pra cá, só o ditador Vargas conseguiu ficar tanto tempo assim no topo. Com essa bagagem toda, é surpreendente que Luiz Inácio não tenha entendido que o problema maior da Instrução Pública no Brasil não se encontra no ensino superior.

O nó que impede os brasileirinhos de avançar é o baixo nível da escolaridade obrigatória. Podem-se abrir dúzias e dúzias de institutos de Matemática que não vai adiantar. Enquanto o estudo Pisa continuar jogando na nossa cara que, em Matemática, nosso país foi classificado em 59° lugar entre 73 pesquisados, raros serão os jovens a desenvolver gosto por essa ciência.

É verdade que, ao se autoagradar lembrando que foi o presidente que mais criou faculdades no Brasil, Lula tem certeza de que a História lhe reservará um lugar especial.

E a avaliação Pisa, Lula? Pfff, isso não conta! É coisa de países ricos que tentam nos rebaixar e humilhar! Vamos continuar abrindo faculdades!

Lula na Cúpula do Mercosul

José Horta Manzano

Lula acolheu os chefes de Estado dos países integrantes do Mercosul para um encontro no Rio de Janeiro. Foi no dia 7 de dezembro. Gostaria de saber quem teve a luminosa ideia de marcar o convescote para essa data.

É de conhecimento público que o novo presidente da Argentina, escolhido mês passado pelas urnas de seu país, tomará posse do cargo no dia 10 de dezembro. No regime presidencial das repúblicas sul-americanas, o chefe do Executivo tem forte influência sobre políticas públicas, particularmente sobre a política externa. Por que, diabos, a cúpula foi marcada para 3 dias antes da posse do novo presidente dos hermanos?

Pode ter sido por distração. Ninguém se deu conta de que, três dias depois, a Argentina teria novo presidente. Será?

Pode ter sido uma homenagem ao presidente que deixa o cargo, como a festinha que se faz para o colega de trabalho que se aposenta. Será?

Pode ter sido para evitar acolher, sob o mesmo teto e junto com os outros dirigentes mersossulinos, señor Javier Milei, novo presidente argentino, que já declarou que retiraria seu país do Mercosul. Será?

Tenho tendência a acreditar na terceira possibilidade. Lula, o anfitrião, deve fechado as portas a seu novo colega, o autodeclarado “anarcocapitalista”. Lula deve ter raciocinado: “Ah, está desdenhando de nós? Pois então vá ficando fora desde já!”.

É atitude infantil, de criança mimada que fecha a porta ao coleguinha bagunceiro. Tivesse 7 anos de idade, Luiz Inácio estaria desculpado. Mas ele tem mais que isso. Já perto dos 80, Lula não só está distante da infância, como também é chefe de Estado de um país grande. Nessa situação, não se fica de mal dando o dedinho.

No dia seguinte à eleição, Milei já abriu o jogo: grande parte do que havia declarado em campanha era pra ser esquecido. Declaração de palanque não se escreve, que não é pra valer. E Lula sabe bem disso.

Costuma-se falar em “lobo em pele de cordeiro”. Pois o figurino de Milei parece corresponder mais ao de um “cordeiro em pele de lobo”. Eleito, desvencilhou-se da fantasia de lobo que o atrapalha e tenta agora mostrar que, lá no fundo, dorme um cordeirinho de cartão de Natal.

Lula recebeu convite pessoal e especial para a posse. Milei mandou ainda sua futura ministra de Relações Exteriores visitar Lula em Brasília enfatizar o convite. Luiz Inácio preferiu não ir. É escolha sua.

Mas seria de bom alvitre pelo menos ouvir o que o argentino tem a dizer. Será que mudou mesmo? Será que continua firme na intenção de bombardear o Mercosul? Se voltar as costas aos vizinhos, vai comerciar com quem? Na igreja, o padre costuma escutar a confissão do fiel antes de condená-lo ou dar-lhe absolvição. Lula bobeou feio ao não marcar a cúpula para depois da posse.

Pra piorar, Lula aproveitou a cúpula para confessar estar pessoalmente triste com o fim do mandato do presidente argentino que se vai. A frase que dirigiu a Fernández, “Acho que você merecia melhor sorte. A economia poderia ter melhor sorte”, foi óbvia flechada endereçada ao novo presidente.

Em política externa, Lula tem seus rasgos de Bolsonaro. Tanto um como o outro acreditam que amizade e sintonia pessoal entre dirigentes contam mais do que os interesses próprios dos países. Não é assim que funciona na vida real. Sintonia pessoal ajuda, sem dúvida, mas não é essencial. O interesse nacional nem sempre coincide com a amizade entre os presidentes.

A esse propósito, veja-se o caso atualíssimo dos arroubos de Maduro contra a vizinha Guiana. Apesar da “amizade fraterna” que une Lula e Maduro, os interesses nacionais brasileiros divergem totalmente das intenções belicosas do dirigente venezuelano. Apesar da simpatia que os une, Lula deverá (ou deveria?) dar um basta na brincadeira perigosa do compañero bolivariano.

Quer Lula queira, quer não, Brasil e Argentina são maiores do que Lula e Milei. Governantes passarão, mas os países continuarão vizinhos de parede até que, talvez um dia, as placas tectônicas resolvam nos separar. Daqui até lá, periga levar alguns milhões de anos.

Milei quer que toda propriedade seja privada

Ricardo Araújo Pereira (*)

Tem sido dito que o presidente eleito da Argentina preza a liberdade, o que talvez não seja exato. Na verdade, Javier Milei nunca diz “viva la libertad”, mas “viva la libertad, carajo”.

Ora, uma coisa é a liberdade. Outra é a “liberdade, ‘carajo'”. São conceitos bem diferentes.

O “carajo” costuma transformar as coisas, torná-las mais brutas. Para perceber isso, basta fazer a experiência de dizer à nossa querida mãe “não vou querer sobremesa” ou “não vou querer sobremesa, ‘carajo'” e ver o que acontece a seguir à mesa.

Em uma entrevista concedida no ano passado, Milei afirmou que um governo seu legalizaria a venda de órgãos humanos. Ele parece já ter vendido um dos seus. Aquele que habitualmente fica no crânio.

É que Milei alega conversar com o seu cão morto, através de um médium, pelo que talvez haja boas razões para desconfiar que tenha transacionado o órgão em questão.

Mas, lá está, legalizar a venda de órgãos é uma ocorrência de “liberdade, ‘carajo'”. Parece uma lei igual para todos, mas não é. Quem tem dinheiro nunca irá vender os seus órgãos. Poderá adquirir alguns, caso necessite, e agora saberá a quem comprá-los, mas não vai querer vendê-los.

Ao que parece, além de manter conversas com o seu cachorro morto, Milei também fala diretamente com Deus. Foi, aliás, o próprio criador que o incumbiu da importante missão de comandar a Argentina em direção à prosperidade.

Sendo Milei uma pessoa tão educada e ponderada, não é difícil supor que Nosso Senhor tenha tirado algum do tempo que dedica à administração do universo para pedir ao novo presidente que tomasse conta da Argentina. O programa de governo é o que Deus, ao que tudo indica, defende: a extinção dos ministérios de Saúde, Educação, Cultura, Ciência, Obras Públicas e Transportes e a privatização de todas as empresas estatais.

Haverá os hospitais e as escolas que o setor privado bem quiser, nos locais em que derem lucro, e a preços sem controle do Estado. Se forem necessárias estradas ou pontes ao país, caberá à iniciativa privada construí-las e mantê-las, desde que sirvam os interesses de alguns, e não de todos.

Milei quer que toda – mesmo toda – propriedade seja privada. Embora ele prefira viver despojado dos bens mais banais possíveis.

Por exemplo, um simples pente. É óbvio que Javier Milei não tem um à disposição.

(*) O português Ricardo Araújo Pereira é jornalista e escritor.

Rockefeller

Folha de SP, 5 dez° 2023

José Horta Manzano

Não é Rockfeller. O nome correto é Rockefeller, com um e no meio da palavra. É nome de origem alemã, provavelmente um topônimo a indicar que o patriarca da estirpe era originário de um vilarejo chamado Rockenfeld, hoje desaparecido.

A família emigrou da Alemanha para os EUA em 1710. Um século mais tarde, nasceu John D. Rockefeller, que viria a se tornar o homem mais rico, não só dos EUA, mas do mundo moderno. Fez fortuna na exploração de petróleo. Foi um grande filantropo, fundador de três universidades, entre elas a de Chicago.

Medo de vaia

Folha de SP, 5 dez° 2023

 

José Horta Manzano

É incrível ver como, passados dezesseis anos daquele fatídico 13 de julho de 2007, o Lula ainda empalidece a cada ocasião em que sente o risco de levar vaia.

Pra quem não se lembra, era a cerimônia de abertura dos Jogos Pan-Americanos, espetáculo que só se realiza de quatro em quatro anos. Era a vez do Brasil, e a cerimônia tinha lugar no Maracanã.

Lula, então presidente da República, estava sentadinho ao lado da esposa, antegozando a ovação que havia de receber daquelas dezenas de milhares de populares.

Estava previsto que Luiz Inácio fizesse um breve discurso e declarasse abertos os Jogos. Assim que seu nome foi pronunciado e que ele foi chamado ao palco, em vez de ovação, o que se ouviu foi uma longa, terrível e acabrunhante vaia. O estádio inteiro – ou quase – desabou naquele interminável apupo.

Assustado, Lula desistiu do discurso. Foi o presidente do COB quem fez o discurso de abertura. Apesar dos anos que escorreram de lá pra cá, Luiz Inácio fez fixação no apuro por que passou aquele dia – e que jurou nunca repetir.

Javier Milei, que havia ofendido Lula durante a campanha, deu-se conta de que, eleito, tinha de descer do palanque e se comportar como presidente.

Mandou convite a Lula para assistir à posse, numa simbólica oferta de cachimbo da paz. Para reforçar, mandou a Brasília sua futura chanceler visitar nosso presidente. Durante semanas, Lula hesitou. E parece que agora bateu o martelo: não fará a viagem até Buenos Aires. Vai mandar nosso ministro de Relações Exteriores representá-lo na cerimônia.

Não é por receio de ser mal acolhido. Tampouco é por receio de lá se encontrar com Bolsonaro. O pavor, na verdade, é de receber uma sonora vaia em algum ponto do caminho: aeroporto, saída do hotel, entrada nos palácios portenhos. As ocasiões de risco são inúmeras. Melhor não ir.

É pena que, além de ter medo de vaia, ele também não tenha pavor de falar besteira. Se sentisse medo de passar ridículo quando fala de improviso, calaria a boca mais frequentemente e nossa política externa estaria em melhor estado.

O plebiscito de Maduro

Território reivindicado pela Venezuela representa 2/3 da superfície da Guiana. Repare que a área disputada respeita rigorosamente as fronteiras do Brasil. A Venezuela não pretende reivindicar nem um centímetro nosso, que ninguém é besta.

José Horta Manzano

No momento em que escrevo, nossos vizinhos venezuelanos estão votando no plebiscito de Maduro. Terão de responder a cinco perguntas em torno do tema da soberania da Venezuela sobre um imenso território de mata virgem que atualmente é parte integrante do país vizinho, a Guiana. O enunciado de cada uma das cinco questões do plebiscito (redigidas em puro juridiquês) é bastante longo. Mas não tem importância, que ninguém vai precisar ler no escurinho da cabine. Todos os cidadãos já estão amestrados: precisam responder 5 x Sim.

Na verdade, não é bem a mata virgem que interessa à Venezuela, visto que, nesse particular, já está bem servida: mais da metade de seu território é coberto pela Floresta Amazônica. Caracas está de olho é nas reservas de petróleo ao largo da costa litorânea do vizinho, uma riqueza imensa que dorme sob as águas. Se conseguir abocanhar o território, fica com as jazidas de petróleo e gás também.

Esse pedação de mata virgem está sendo contestado pelo menos há 150 anos, desde o tempo em que a Guiana era colônia britânica, conhecida como Guiana Inglesa. Em 1899, um laudo arbitral deu a posse das terras à Inglaterra, dona da Guiana. Pouco antes da independência da colônia inglesa, nos anos 1960, Venezuela e Grã-Bretanha assinaram novo acordo que não aclarou totalmente a questão. Dá margem a dúvida. Venezuela se baseia nesse acordo e garante que ele lhe dá a posse das terras. Só que, tendo em vista que 60 anos se passaram sem que a Venezuela tenha tomado posse da área, a Guiana o considera caduco. Assim sendo, continua valendo o laudo de 1899.

Sentindo diminuir seu domínio sobre o povo venezuelano, Maduro resolveu desengavetar essa luta patriótica. Nada como um inimigo externo para solidificar o patriotismo da nação em torno de um líder máximo. O ditador decidiu dar o passo que deram os generais ditadores argentinos em 1982, quando mandaram a tropa conquistar manu militari as Ilhas Malvinas (Falkland). Naquela ocasião, as Forças Armadas argentinas perderam feio para a Inglaterra. Pouco depois, veio a consequência: o regime argentino desmoronou e os ditadores foram parar na prisão.

Maduro está dando um passo arriscado. Todo o mundo sabe que “sacou, tem de atirar” e “ajoelhou, tem de rezar”. Pois é, o ditador venezuelano está arriscando seu trono. Ele deveria levar em conta o fato de poder haver outros dirigentes mundiais de olho no petróleo guianense. Ele pode não ser o único.

O resultado do plebiscito de hoje não deixa grande margem para a dúvida: o “sim” deve vencer por boa maioria. Depois disso, Maduro terá de tomar uma decisão. Se ele ousar atacar militarmente os guianenses com a intenção de despossuí-los de 2/3 (duas terças partes!) da superfície do país, a coisa periga não ficar por isso mesmo.

O Brasil de Lula é gigante adormecido. Nosso Guia é capaz de lavar as mãos e dizer que “isso é problema interno deles, não podemos intervir”. Já alguma outra potência pode não reagir da mesma maneira. O exército da Guiana, comparado às bem equipadas forças venezuelanas, ainda vive na era do bodoque de mamona. “Não dá nem pro começo”, como se costuma dizer.

Era exatamente o que se dizia quando a Rússia invadiu a Ucrânia. O mundo imaginou que, em três tempos, a pequena Ucrânia seria varrida do mapa pelo poderoso exército de Putin. Só que outras nações não foram da mesma opinião. Armaram a Ucrânia, e o resultado está aí: três anos se passaram, o prestígio da Rússia encolheu, centenas de milhares de russos e ucranianos já morreram, a guerra estagnou, e nenhum dos lados pode parar de lutar.

Quem garante que alguma potência não veja aí uma oportunidade de virar “sócia” da Guiana (e de seus campos de petróleo)? A melhor maneira de conseguir isso seria ajudando o pequeno país a se defender dos venezuelanos. Pronto: se algo desse tipo acontecer, teremos instalada uma guerra sangrenta às portas de nosso país.

Pode ser que o que acabo de dizer não passe de delírio. Espero que assim seja. Mas também pode não ser. Se eu fosse o Lula, não lavaria as mãos nem consideraria que se trata de “problema interno” dos dois países. O Brasil é o único que faz fronteira com ambos os contendores. O melhor é agir com firmeza nos bastidores e tratar de apaziguar essa gente antes que a guerra comece.

Depois que for dado o primeiro tiro, já será tarde demais.

Gaza: antes e depois

by Patrick Chappatte (1966-) desenhista suíço

José Horta Manzano

A trégua acertada entre Hamas e Israel durou pouco. Já desandou, cada parte atribuindo à outra a quebra do acordo e a retomada das hostilidades.

Aquele bombardeio contínuo, de dia e de noite, que as imagens nos mostram não é efeito especial de filme de guerra. É pra valer. A estimação é que 100.000 (cem mil !) prédios já tenham sido derrubados parcial ou inteiramente.

A britânica BBC publicou algumas fotos tiradas por satélite mostrando o antes e o depois em certas zonas da castigada Faixa de Gaza – território exíguo que abriga mais de dois milhões de pessoas, é bom ter em mente.

Achei bastante instrutivas as imagens em que se pode arrastar um marcador pra ver ANTES e DEPOIS dos bombardeios. Até as escassas plantações estão sendo devastadas.

Se as bombas parassem de cair hoje, anos se passariam até que as culturas fossem reconstituídas. Se já era o caso antes, hoje os gazeus dependem mais ainda da caridade de organizações estrangeiras, sob forma de ajuda alimentar.

Para ver as imagens de satélite, clique aqui.

O penteado

A partir do alto à esquerda, em sentido horário:
Geert Wilders (Hol.), Javier Milei (Arg.), Donald Trump (EUA), Boris Johnson (UK)

José Horta Manzano

As redes sociais de língua espanhola estão fervendo com uma descoberta. Trata-se de fato evidente, mas ninguém tinha ligado uma coisa à outra. Os líderes de extrema-direita parecem ter especial predileção por penteados extravagantes.

Donald Trump e Boris Johnson deram o sinal de partida à nova moda. O topete alaranjado do americano e o “cabelo assanhado com muito cuidado”(*) do inglês surpreenderam o mundo. Lá no fundo, cada um de nós pensou: “Como é que pode um presidente (um primeiro-ministro) se apresentar com uma cabeleira esquisita dessas?”. Mas pouca gente ligou uma coisa à outra.

Este mês, de repente, com poucos dias de intervalo, são eleitos dois novos membros da tendência ultra-direita populista. Na Holanda, é Geert Wilders, e na Argentina, nosso já familiar Javier Milei. Ambos ostentam o que, décadas atrás, se conhecia como “cabeleira de maestro”. De fato, não se costumava ver ninguém assim, exceto os diretores de orquestra.

Com mais esses dois na lista, não dá mais pra esconder. É por isso que as redes de língua espanhola estão excitadas. No Brasil, imagino que a empolgação seja bem menor, afinal nenhum dos personagens nos é conhecido e familiar – quem já ouviu falar de Geert Wilders?

Sigismeno, um amigo meu que, na juventude, foi cabeleireiro de dama, me garante que o cabelo de Bolsonaro, apesar do aspecto emplastado e descurado, é tingido. Tintura feita nos conformes, nada de trabalho caseiro com pincel e bacia sobre a mesa da cozinha, e a esposa ajudando. Como prova, Sigismeno aponta a meia dúzia de fios brancos que surgem ao lado da orelha do capitão, um embranquecimento lentíííssimo que não avançou um fio em seis anos, desde que o político se tornou conhecido.

Fico meio assim. Se bem que é verdade que, quando presidente, Bolsonaro mais de uma vez se deixou fotografar sentado numa cadeira de babearia de aspecto chinfrim. Será que não passava de disfarce pra desviar a atenção do distinto público?

Voltemos aos ultradireitistas cabeludos. No tempo dos Beatles, quando todos os jovens começaram a deixar crescer o cabelo, as vovós costumavam resmungar: “Cabelos compridos, idéias curtas”.

Trump e Johnson já deram sua contribuição para confirmar o resmungo das velhinhas. Vamos ver se os recém-chegados ao clube – o holandês e o argentino – conseguem fazer uma boa gestão e, assim, desmentir a maldição.

José Irimia Barroso, escritor hispano-venezuelano, tuitou: “Se vierem os extraterrestres, vão achar que ‘populismo de ultra-direita’ é algo relacionado com o penteado…”.

(*) “Cabelo assanhado com muito cuidado” é trecho da música Mocinho Bonito, do compositor Billy Blanco. O samba foi lançado no fim dos anos 1950, gravado por Isaura Garcia e, em seguida, por Doris Monteiro.

Speranza

José Horta Manzano

É provável que o distinto leitor e a graciosa leitora já tenham lido algum dia a frase


Lasciate ogne speranza, voi ch’intrate (*)
Abandonai toda esperança, vós que entrais


É o 9° verso do terceiro canto do Inferno, parte da obra A Divina Comédia, escrita por Dante Alighieri há 700 anos. A frase terrível está gravada na porta do inferno, aconselhando aos recém-chegados que percam as esperanças – estão entrando ali para nunca mais sair, que o castigo é eterno.

A frase é frequentemente usada como citação, como paródia ou como metáfora. Usa-se a frase, por exemplo, quando nos referimos a uma situação tão complicada que é melhor não insistir porque não há solução possível.

Lembrei disso hoje ao observar os altos e baixos da política externa do Brasil, inconstante como uma montanha russa de parque de diversões. Aliás, mais inconstante ainda. Uma montanha russa, apesar dos sustos que prega nos viajantes, tem percurso delineado, balizado, fixo, previsível. Ao término da sessão, costuma-se desembarcar inteiro, são e salvo. Já nossa política exterior não tem mostrado ser balizada nem previsível.

Lula, que imaginava ser candidato prioritário ao Nobel da Paz, tem bombardeado a própria candidatura com inacreditável frequência. Não falo tanto das ações internas, que essas têm visibilidade pequena para quem está fora. Falo das tomadas de posição do chefe do Estado brasileiro em assuntos internacionais, o melhor termômetro para aqueles que, de Estocolmo e de Oslo, observam, selecionam e julgam os candidatos finalistas para a premiação do Nobel.

Em disputas internacionais, Luiz Inácio parece fazer de propósito: coloca-se sistematicamente do lado que choca o mundo civilizado – justamente aquele que lhe poderia atribuir o almejado Nobel. Quando assumiu o trono, deu honras especiais ao ditador da Venezuela, recebido 24h antes dos demais e paparicado à beça. Quando a Rússia invadiu a Ucrânia, pôs-se ao lado da Rússia. Quando o grupo terrorista Hamas atacou populações civis em Israel, condecorou o embaixador da Palestina em Brasília. Parece ou não parece que ele faz de propósito?

A cada pronunciamento, mormente se for espontâneo, sem script, pode se preparar porque lá vem alguma enormidade.

Dizem, com razão, que a mentalidade de Lula estacionou nos anos 1970 e de lá nunca mais saiu. Há quem tenha esperança de que, com o tempo, ele consiga tirar os pés da areia movediça em que se enfiaram e assim arejar a mente e adaptar seu pensamento ao mundo do século 21.

Quanto a mim, não boto fé. Lula está a dois dedos de completar 80 anos. Nessa idade, falo de cátedra, não se muda mais. O que tinha de mudar, já mudou. O que está, é pra ficar. Seu antiamericanismo infantil está cristalizado. Encruou, não tem mais jeito. Já foi presidente por 9 anos, já viajou mundo, já conversou com reis, rainhas, presidentes, chefes de Estado e de governo. O que tinha de aprender, já aprendeu.

Não tem remédio: continua preferindo ditadores e chefes de regime fechado e autoritário. E não vai mudar. Continuará assim até o último suspiro.

Lasciate ogni speranza!

(*) Essa é a grafia original proposta por Dante. Em italiano moderno, escreve-se Lasciate ogni speranza, voi ch’entrate.

Aproximação

José Horta Manzano

A chamada d’O Globo me chamou a atenção.


Em viagem, Lula busca aproximar Brasil dos países árabes


Dizem que a ordem dos fatores não altera o produto. Pois bem, se essa frase fosse uma continha de vezes, a inversão de fatores faria uma sutil diferença sim, senhor. Veja só.


Em viagem, Lula busca aproximar os países árabes do Brasil


Então, deu pra notar?

Dizer que o Lula está se abalando de Brasília até as Arábias para tentar aproximar o Brasil dos países do Médio Oriente me incomoda um pouco. Me faz pensar no conhecido “complexo de vira-lata”. Fica a impressão de estarmos batendo à porta dos milionários e pedindo pra nos aceitarem. “Você me aceita no seu grupo?”. Humilhante.

O que Lula deveria estar fazendo – e na certa é o que vai fazer – é marquetear o Brasil. Mostrar aos estrangeiros as vantagens que eles podem conseguir caso invistam aqui, mandem seus dólares, abram empresas, construam casas de veraneio aqui, paguem impostos aqui, comprem mais frango.

O fato de não haver pendências nem contencioso entre Brasil e países árabes é uma bênção. Lula tem de dar carona a uma equipe de camelôs de luxo, com prática em vender o que o cliente nem sempre quer comprar.

Vamos fazer com que os países árabes se aproximem do Brasil e descubram as vantagens que essa aproximação vai lhes trazer. É o que se quer.

Visita secreta

José Horta Manzano

Um segredo, no instante em que é tornado público, deixa de ser secreto.

Podiam fantasiar um pouco: “visita surpresa”, “visita inesperada”, “visita fora da agenda”, “visita não anunciada”. Mas visita registrada em foto e publicada na mídia? Não pode ser descrita como “secreta”.