Pigmentação

Antes e depois

José Horta Manzano

A falta de mídia especializada anda fazendo falta. Em outras eras, havia jornais que só davam notícia de horrores (assassinato, assalto, atropelamento, incêndio, descarrilamento de trem). Em outros jornais, sentia-se nitidamente uma tendência bem à direita ou bem à esquerda. Hoje em dia, não sei se será impressão minha, os poucos veículos que sobraram se tornaram generalistas. Lembram uma “Folha do Comércio”, que dava a chegada e a partida de todos os navios, o embarque e o desembarque de todas as mercadorias, e assim por diante.

O Globo, como seus congêneres, não escapou. Fala de política com a mesma desenvoltura com que relata crimes (com detalhes), sem esquecer a coluna social. Lá encontrei hoje uma notícia inquietante. Fala de uma influenciadora. Esse é termo que até hoje não decifrei. A moça influencia quem? Como é que se mede influência? A moça, cujo nome já esqueci, é daquelas de rosto reconstruído, que deve ter passado pelo que costumávamos chamar “recauchutagem completa”. Lábios exageradamente grossos, alguns quilômetros de cabelo. E a notícia do dia é que está voltando da França, para onde viajou especialmente para se submeter a uma operação que leva o nome assustador de “keratopigmentação”.

Atrás do nome bárbaro, se esconde uma intervenção ambulatória que altera definitivamente a cor dos olhos. Em 100% dos casos, o cliente pede cor mais clara que a original. Antes da operação, pode-se até escolher a tonalidade desejada. Nossa influenciadora se encantou por uma cor turquesa mares do Sul, um verde transparente que a deixou com olhos de personagem de filme de terror.

O chato é que ela trouxe da França uma companheira que não estava no programa: a dor. Diz a moça que, desde o primeiro dia, padece com dor constante nos olhos, o tempo todo, uma dor penetrante que não cede. Vê-se que não tinha se inteirado dos riscos antes de se operar. Em cinco minutos e dez cliques, consegui saber que a dor pode surgir em alguns casos, que pode ser sinal de inflamção ou até de infecção, e que é muito difícil de debelar. Em vez de correr de volta à clínica, a influenciadora preferiu esperar para consultar um oculista no Brasil. Talvez por um problema de língua.

Cada um faz o que quiser com os próprios olhos, mas acho que a moça foi descabeçada. Nas minhas buscas, só encontrei uma clínica que oferece essa operação: é na França, exatamente onde a moça foi. A intervenção custa a bagatela de 7.300 euros (R$ 47.000), sem contar passagem aérea, hospedagem e alimentação. Precisa ter muita coragem. Uma só clínica na Europa inteira? Eu ficaria com um pé atrás.

E lá foi nossa influenciadora, braço forte e olho aberto, enfrentar o bisturi a laser. O procedimento se faz com micropunturas, como se fossem golpezinhos de acupuntura, com uma agulha que injeta um colorante na íris. É uma espécie de tatuagem da córnea. Só de pensar, dá aflição.

Fiquei sabendo que diversos figurões brasileiros da “influenciosfera” já se submeteram a uma keratopigmentação. Todas as fotos que eu vi correspondem a pacientes que escolheram tons de água-marinha transparente.

Fico realmente surpreso de ver a que ponto essa gente arrisca a própria saúde em prol de um detalhe da aparência – que todos sabem ser artificial. Me parece gente que se enrolou numa teia criada por eles mesmos, da qual não conseguem mais se desvencilhar. Até onde a vaidade pode levar!

Penso que, em vez de influenciadores, são eles os verdadeiros influenciados.

Venha não, Mister!

Correio Braziliense

José Horta Manzano

Durante duas décadas, Vladímir Putin, soberano da Rússia, acostumou-se a embarcar no avião presidencial em Moscou e descer em todas as capitais e todas as sedes de cúpulas e reuniões ao redor do globo. Os inconvenientes da frequente mudança de fuso horário sempre foram compensados pela agradável conveniência de contar com uma “suite privée” no avião, dotada do conforto máximo que um ser humano possa desejar.

Mas não há mal que sempre dure nem bem que nunca se acabe, como dizia minha avó – com um balde de razão. Calma, que ninguém se engane: apesar das sanções econômicas sob as quais vive a Rússia desde que invadiu a Ucrânia, o avião presidencial russo continua no hangar que o abriga de olhos indiscretos. O presidente se serve dele para uma ou outra viagem interna, para ir a Vladivostok, por exemplo, porque o território russo é extenso. Putin levou umas garrafas de vodka para visitar algum vizinho – Mongólia, Casaquistão – mas ao exterior de verdade, exterior no duro, não viajou mais.

O fato é que, desde março de 2023, pesa sobre a cabeça do dirigente russo uma ordem de prisão emanada do Tribunal Penal Internacional. Tirando algumas exceções (EUA, China, Rússia e alguns outros), todos os países do globo são signatários do Estatuto de Roma, que entrou em vigor em 2002. O Brasil, como todos os países das Américas (com exceção de Nicarágua, Cuba, Haiti e Estados Unidos), é signatário. A Europa inteira (com exceção da Rússia e da Bielo-Rússia) está entre os que assinaram.

Ao firmar o estatuto, cada país se compromete a respeitar as ordens de prisão emitidas pelo Tribunal Penal Internacional. Assim sendo, Putin está proibido de viajar para qualquer um dos países signatários do estatuto, sob pena de ser preso e remetido à Haia, na Holanda, sede do tribunal.

Em verde, os países signatários

De modo ignorante e inconsequente, logo no início de seu mandato, Lula declarou que Putin podia vir ao Brasil “sem medo de ser preso”. Causou um rebuliço na mídia. Por mais que seja presidente do Brasil, Lula não tem o poder de passar por cima de tratados e, principalmente, da Justiça do país, a quem cabe tratar casos dessa ordem. A coisa acabou se acalmando e Putin, naturalmente, não veio ao Brasil.

Compreendo que, depois de alguns anos sem se afastar de suas estepes geladas, Vladímir Putin esteja com uma vontade danada de ver, nem que seja da janela do hotel, uma areia branca e fina numa praia cujas palmeiras tropicais, fechando os olhos e fazendo um esforço de imaginação, a gente até consegue enxergar.

Assim mesmo, ainda que o czar de todas as Rússias não seja leitor habitual deste blogue (se bem que… não se sabe nunca), recomendo a ele pensar bem antes de embarcar em seu iate voador em direção a estas terras quentes de praias nuas.

Diferentemente do país dele, no nosso, o Poder Judiciário funciona separado do Executivo. Se há conluios nos bastidores, puede que si, puede que no, mas é melhor não contar com isso. Um improvável juiz de São Julinho da Ribanceira pode expedir mandado de prisão contra o visitante e provocar uma barafunda.

Fosse eu, não embarcaria. Por maior que seja o escândalo de prender um presidente, a palavra dada por nosso país ao assinar o tratado vale mais e tem de ser honrada. Não venha não, Mr. Putin. Se vier, é mais que provável que o senhor seja despachado direto para a Haia e… quem é que vai ocupar a “suite privée” na viagem de volta da aeronave para Moscou?

Se benzer

José Horta Manzano

A sabedoria popular ensina que ‘cão que ladra não morde’. Com variantes regionais, esse ditado ecoa em todas a línguas. ‘Os cães ladram e a caravana passa’ é uma variante.

Isso dito, tenho observado a atitude de Donald Trump com relação ao Irã. Já faz dias que ele ameaça sem morder. Abandonou a reunião do G7 antes do fim, dizendo que tinha decisão iminente a tomar. A “decisão” não passou de um ultimátum lançado ao Irã ordenando que se rendessem imediatamente e sem condições. Em resposta, os aiatolás deram-lhe uma banana.

Trump voltou a ameaçar lembrando que está cogitando destruir o sítio onde os iranianos enriquecem urânio. Acontece que essas instalações estão enterradas longe do alcance de bombas tradicionais. Trump, por enquanto, continua ladrando sem morder. Por que será?

Há quem diga que está aplicando nos iranianos a estratégia do pavor. Procura atormentar os habitantes com a iminência dos ataques, lembrados diariamente. Pode ser, mas não é o que me parece. A meu ver, o que está emperrando um ataque fulminante é outra coisa.

O Irã é supermontanhoso. Sua orografia acidentada, que percorre praticamente o território inteiro, conta com elevações que ultrapassam 4.000 metros. Ao construir suas instalações subterrâneas, os iranianos sabiam que os EUA possuem esse tipo de bomba perfurante, que pode atravessar 60m de terra, rocha ou até concreto antes de explodir.

Assim sendo, com tanta montanha à disposição, não me parece que tenham optado por cavar uma cova rasa para colocar as centrífugas. É mais simples abrir um túnel no flanco de uma montanha bem alta e, lá no fundo, alargar a galeria e instalar a maquinaria. Dado que a bomba perfurante fura na vertical (e não na horizontal), as instalações estão protegidas pela própria montanha. Quero crer que tenham escolhido esta última solução.

Isso explicaria a longa hesitação de Trump em lançar um ataque. Sacou, tem de atirar – olhaí outra expressão conhecida. Se a tal bomba perfurante for lançada sem sucesso, isto é, se não destruir completamente o sítio nuclear, como é que fica? Trump não pode dar de ombros, virar as costas e tirar o pé fora. Terá de dar continuidade ao ataque. Terá de se meter numa guerra, sem esperança de vencê-la rapidamente.

Entre as promessas de campanha, Trump garantiu que, como adepto da paz, não envolveria mais os EUA em guerras. Uma nova guerra no Oriente Médio desmoralizaria o personagem. Ele perderia o apoio de muitos de seus fãs. Portanto, ele só interviria no Irã se tivesse certeza de vencer em poucos dias e, sobretudo, sem que nenhum soldado americano tenha de pisar o solo persa.

Outro fator pode ajudar a explicar a hesitação trumpiana. Faz muito tempo que o Irã deixou de permitir a entrada de inspetores da Agência Internacional de Energia Atômica. Ninguém é capaz de dizer com exatidão a quantas anda, neste momento, o enriquecimento de urânio. Na última inspeção estava a 60%, mas como estará agora? Sabe-se que, para o fabrico da bomba, o urânio tem de estar enriquecido a 90%.

Assim sendo, supondo que o urânio enriquecido esteja próximo do teor necessário para explosão atômica, quais seriam as consequências de uma bomba perfurante explodindo no recinto em que o urânio enriquecido está estocado? Fica por isso mesmo? Quem garante que a poeira contaminada não vai escapar e se espalhar pela atmosfera? Tendo em mente que o Irã tem uma população de 90 milhões, quem vai assumir a responsabilidade de ter contaminado, pelo ar e pela água, toda uma nação?

Aí estão, a meu ver, as razões da demora de Trump. Em conclusão:

    • Se simplesmente abandonar, ele será visto como pusilânime.
    • Se atirar a bomba perfurante e não conseguir atingir o alvo, será ridicularizado, ele e seu exército.
    • Se lançar a bomba e contaminar milhões, será considerado um genocida de galocha.
    • Se entrar em guerra tradicional, com desembarque de tropas e de tanques, estará abrindo conflito para uma década, com milhares de americanos mortos, sem garantia de vitória.

É um drama em que todas as saídas são ruins. A sinuca é de bico. De bico entortado, com penas pretas por cima. Trump precisa se benzer.

O reclamão

José Horta Manzano

Sabe aquele parente mais pobrezinho, que você convida para um jantar de família na esperança de que ele aprecie e se sinta feliz? Pois é, suponhamos que ele aceite o convite e compareça, sorridente, bem vestido, distribuindo sorrisos tranquilizadores. De repente, quando menos se espera – e sem motivo aparente – o visitante muda bruscamente de atitude. Passa a botar reparo nos móveis, reclamar da comida, se lamentar de só ser chamado raramente em vez de ser convidado fixo. Quando você já está de olhos arregalados de ver tanta petulância e tanta malcriação, a visita vem com mais. Faz beicinho, estufa o peito e se vangloria de que as reuniões do ramo pobre da família se tornaram mais importantes do que os almoços do ramo rico como aquele, por exemplo. Deboche total.

Parece piada de mau gosto, não parece? Pois é assim que nosso presidente Lula costuma se comportar quando é convidado a provar dos comes e bebes no clube dos ricos, o G7. Suas reclamações são um misto de despeito e de amargura. Despeito pelo fato de o Brasil ainda não ser membro titular do clube; amargura por ver chegando o fim de sua jornada política sem vislumbrar a menor possibilidade de nosso país sair do banco e entrar para o time principal.

O site de notícias Poder 360 fez um levantamento das viagens de Lula ao G7 (que já se chamou G8, no tempo em que incluía a Rússia). As primeiras idas foram à França em 2003 e à Grã-Bretanha em 2005. Ainda recatado, Lula comportou-se como visita educada, limitando-se a propor a criação de um fundo de combate à fome. Foi a partir do terceiro convite, em 2006, que Lula começou a botar as manguinhas de fora, como se dizia antigamente. E a partir daí, não parou mais.

Já reclamou da não inclusão do Brasil nas discussões sérias; já afirmou, na cara de pau, que o grupo perdeu importância para o G20; já pediu reforma do Conselho de Segurança da ONU; já se imiscuiu na guerra decorrente da invasão da Ucrânia pelo exército russo. Desta vez, nosso presidente lançou seus gracejos adolescentes antes do início da conversa séria: disse que estava indo ao G7 deste ano “antes que os EUA anexem o Canadá”. No momento em que escrevo, está em pleno voo Brasília – Calgary. O G7 desenrola-se no Canadá.

Não sei o que faria vosmicê se pertencesse ao ramo rico da família e estivesse organizando a reunião. Convidaria o Lula? Eu hesitaria muito em mandar-lhe o convite. Visita que chega com quatro pedras no bolso para atirá-las na hora do almoço é problemática.

O próprio Lula, por que razão continua aceitando o convite se suas falas se perdem no ar e ninguém lhe dá ouvidos? Vê-se que está sendo convidado por algum outro motivo, não pelo conteúdo de suas falas, que não parecem interessar a plateia.

Outra pergunta é: Por que é que continuam chamando nosso presidente para esses convescotes de ricaços? Talvez seja apenas para animar a festa. Ou quem sabe é para mostrar ao mundo uma abertura de espírito de fachada.

Está aberta a temporada de conjecturas sobre a razão dos repetidos convites feitos ao Lula. Quem tiver mais alguma ideia, mande uma cartinha para a Redação. Obrigado.

Zambelli e os Bolsonaros: sempre juntos

Alfândega italiana

José Horta Manzano

Parlamentares da oposição italiana estão furiosos. Acusam o governo de Giorgia Meloni — ela mesma de extrema direita — de hipocrisia ao permitir a entrada de Carla Zambelli no país. A ex-deputada brasileira, foragida da Justiça, chegou recentemente à Itália via Estados Unidos. A revolta do grupo de oposição ecoou no Parlamento.

O deputado Angelo Bonelli, do Partido Verde Esquerda, numa interpelação ao Ministério do Interior, exigiu explicações sobre pontos obscuros referentes à chegada de Zambelli ao aeroporto de Roma. Segundo ele, sua vinda à Itália era amplamente conhecida — inclusive anunciada por ela mesma dias antes. Ela parecia acreditar que, como cidadã italiana, estivesse protegida de extradição, o que tornaria o país um porto seguro. Bonelli questiona: como é possível que a Justiça italiana não tenha se antecipado? Ainda que a ordem de prisão da Interpol não tivesse sido recebida, o mínimo seria monitorar discretamente seus passos.

“O que não pode acontecer é a Itália virar refúgio de criminosos”, disse Bonelli. “Com ou sem cidadania italiana, um fugitivo é um fugitivo.” Ele também levantou a suspeita de que Zambelli esteja sendo protegida por ordem do alto escalão do governo italiano — que, segundo ele, sabe muito bem onde ela está, mas guarda o segredo.

No mesmo discurso, Bonelli trouxe outro nome à tona: Jair Bolsonaro. Perguntou se o ex-presidente brasileiro também é cidadão italiano. A resposta do Ministério foi evasiva: até o momento, Bolsonaro não solicitou o reconhecimento de sua cidadania. Seus filhos, no entanto, sim — e já foram oficialmente reconhecidos como cidadãos italianos. Flávio, Eduardo e Carlos estão devidamente documentados.


É curioso como, apesar das rusgas, Zambelli e os Bolsonarinhos insistem em subir juntos aos palcos – no presente caso, no Parlamento Italiano…


Mas a informação mais intrigante veio da subsecretária do ministério, que afirmou com naturalidade que os filhos de Bolsonaro têm cidadania italiana, mas não o pai. Como assim? De onde, então, herdaram essa nacionalidade? Se não veio do pai, de onde terá vindo? Acharam na rua?

Pela lei do sangue (ius sanguinis), a cidadania italiana é transmitida por ascendência. Para que os filhos a obtenham, é necessário comprovar a linhagem desde o último antepassado nascido na Itália até o requerente. Isso passa obrigatoriamente pelo pai. Portanto, ele está necessariamente inscrito nos devidos registros italianos. Assim sendo, Jair pode solicitar o passaporte a qualquer hora.

Quem sabe, como italiano de papel passado, Bolsonaro não acaba se juntando a Zambelli para trilharem juntos as espinhosas veredas da fuga e do exílio…

Uma só estratégia: safar-se

José Horta Manzano

Tenho observado de longe a audição, no STF, dos envolvidos nos anos de inconfidência que desembocaram e se revelaram às claras no 8 de janeiro. Alguns momentos são hilários, outros são afligentes, muitos são enervantes, mas um comportamento é comum a todos os depoentes: nenhum deles confessou os crimes de que é acusado.

Falta-lhes aquilo que, mesmo nos momentos mais duros da vida, engrandece o ser humano: a coragem de assumir os próprios atos. Todos se defendem, negam, minimizam, se esgueiram, até ensaiam um magro pedido de desculpa – mas nenhum, até agora, teve a hombridade de declarar: “Sim, senhor ministro, fui eu, reconheço. Hoje estou triste e amargurado por ter feito isso, mas já não há o que fazer. O que está feito, está feito.”

Sorte têm esses réus, todos eles arautos da linha dura de um AI-5 e de um regime militar dos bons. Sorte têm eles de não estarmos mergulhados nas trevas de um regime de exceção. Se estivéssemos na vigência do “pranteado” AI-5, todos eles já chegariam ao STF com a confissão na ponta da língua, contada e repetida pra quem quisesse ouvir. Em matéria de reconhecer crimes, o cidadão que passou pelos porões, paus-de-arara e fios desencapados, aprende rápido que convém confessar logo.

É curioso observar que, no Brasil, se alguma rara confissão de crime ocorre, é geralmente no andar de baixo, com réu preto, pobre, pé de chinelo. Já no andar de cima, é fato pra lá de raro. Assessorado por poderosos (e caros) advogados, o figurão, via de regra, se apresenta como anjo que acaba de escorregar de uma nuvem e que não entende bem o que está fazendo no recinto.

E assim seguimos: entre os que pagam por tudo, até pelo que não fizeram, e os que não pagam por nada — nem pelo que fizeram diante de câmeras e testemunhas. Vamos ver no que dá esse circo montado no STF, com seu espetáculo em capítulos.

Assimetria que já não surpreende

José Horta Manzano

Em meio à avalanche diária de informações, certos fatos passam despercebidos não por serem irrelevantes, mas por nos parecerem normais. A naturalização da anormalidade é um fenômeno perigoso, especialmente quando ela envolve a guerra. Um exemplo disso pode ser encontrado no recorte de jornal estampado logo aqui acima:


“Putin faz maior ataque aéreo e acelera nova ofensiva; Kiev alveja base.”


À primeira vista, parece apenas mais uma atualização sobre a guerra entre Rússia e Ucrânia. Mas, num olhar mais atento, salta aos olhos uma assimetria sutil — e reveladora.

A frase começa com a menção direta ao nome de um líder: “Putin faz maior ataque aéreo”. Não se trata da Rússia, do Exército Russo ou de uma decisão coletiva. É Putin, em pessoa. A manchete atribui a ele, com todas as letras, a responsabilidade direta por uma ação militar de grande escala. Já no segundo trecho, “Kiev alveja base”, a linguagem muda. A capital ucraniana é mencionada de forma impessoal, quase geográfica. O nome de Zelenski, presidente da Ucrânia, sequer aparece.

Por que isso acontece? A resposta talvez seja mais simples — e mais incômoda — do que parece. O mundo já naturalizou a figura de Vladimir Putin como uma espécie de senhor absoluto da guerra, alguém que age conforme a própria vontade, sem freios internos ou externos. A guerra na Ucrânia, nesse imaginário coletivo, não é entre dois Estados, tampouco entre dois projetos políticos. É uma guerra iniciada e sustentada pela vontade de um único homem. E essa percepção está embutida até mesmo nas estruturas linguísticas mais banais, como a escolha de palavras em uma manchete de jornal.

Essa assimetria não é apenas jornalística — ela é política, simbólica e moral. Ao personalizar os ataques russos em Putin, a narrativa constrói uma figura de vilão clássico, quase caricatural. E ao impessoalizar os ataques ucranianos, retira de Zelenski a responsabilidade ativa no conflito, ainda que defensiva. Assim, Putin aparece como o agente solitário da destruição, enquanto Kiev (ou a Ucrânia) surge como vítima reativa, um ente quase sem rosto, que tenta apenas sobreviver.

Não se trata aqui de questionar quem é o agressor e quem é a vítima — para observadores de boa fé, a distinção é clara e óbvia. Trata-se, sim, de observar como, mesmo em detalhes aparentemente neutros, a linguagem revela o quanto já aceitamos certas premissas. A guerra, afinal, não deveria depender da vontade de um homem só.

Sob o risco de ressuscitar os tempos sombrios de Hitler e Stalin, o fato de essa banalização soar hoje natural deveria, no mínimo, nos preocupar.

Patriotas de araque

José Horta Manzano

A fuga da “patriota” Carla Zambelli engrossa o volume de bolsonaristas refugiados no exterior. Já são várias dezenas que escaparam para Argentina, Estados Unidos, Paraguai, Espanha. Um dos bolsonarinhos – até ele! – se “autoexilou” nos EUA.

Vai ficando cada dia mais claro que os membros desse clube são eloquentes no papo, fazem e acontecem da boca pra fora, mas, na hora do vamos ver, abandonam família e companheiros, e “dão no pira”, como se dizia antigamente. Gente fina é outra coisa.

A senhora Zambelli foi julgada e condenada pelo STF a 10 anos de prisão por ter invadido a central informática do Conselho Nacional de Justiça, crime gravíssimo. Quando viu que a coisa estava apertando e já dava pra entrever as grades da prisão, armou um plano caseiro de fuga. Falante como só ela, não conseguiu aguentar até chegar ao que considera seu porto seguro – deu com a língua nos dentes antes.

Deu entrevista por internet contando que estava nos EUA, a caminho da Itália. Declarou:


“Eles vão tentar me prender na Itália, mas eu não temo, por que sou cidadã italiana e lá eu sou intocável. […] Se eu tenho passaporte italiano, eles podem colocar a Interpol atrás de mim, mas não me tiram da Itália. Não há o que possam fazer para me extraditar de um país (de) que eu sou cidadã.”


Lembrei de quando a Operação Lava a Jato estava chegando aos finalmentes, muitos anos atrás. Um após o outro, os cabeças iam tomando o rumo da Papuda. Não tenho nenhuma simpatia por corruptos, mas devo dizer que, no geral, tiveram atitude mais digna que os “patriotas” bolsonaristas fugidos na hora H. Dinheiro, até que tinham suficiente. Mas se entregaram. Que eu me lembre, todos entraram no camburão, menos um.

Foi senhor Henrique Pizzolato, diretor do Banco do Brasil e condenado a quase 13 anos de cadeia por corrupção, peculato e lavagem de dinheiro. Ele se achou mais esperto que os outros. Numa história de filme americano, fez-se passar por um irmão já falecido, usou o passaporte do morto, fugiu para a Argentina e de lá para a Itália. Pizzolato também tinha dupla cidadania, italiana e brasileira, mesmo caso de Zambelli. Como ela, imaginou-se “intocável”. Alegre engano…

Assim que a Justiça brasileira tomou conhecimento do paradeiro de Pizzolato, acionou a polícia italiana e solicitou extradição. O extraditando choramingou, esperneou, bateu o pé, mas não teve jeito. Um belo dia, foi despachado direto de Roma para Brasília, em jatinho da polícia italiana, escoltado e vigiado por policiais. Ao descer, seguiu direto para a Papuda, onde iniciou o cumprimento de sua pena.

Como é possível que tenha sido extraditado? Acontece que a Constituição italiana, diferentemente da nossa, não proíbe a extradição de um nacional. Em raros casos, ela pode ocorrer. Quando um país estrangeiro pede a extradição de um italiano, o caso será estudado pelas cortes daquele país. Se acreditarem que o cidadão teve julgamento justo e se os crimes também forem reconhecidos como tais pelas leis italianas, a extradição pode perfeitamente ser concedida.

Portanto, dona Carla que se cuide. É bom não gargarejar por aí sua pretensa “intocabilidade”. Sua carapaça pode não ser tão resistente como ela imagina. Um dia, vai acabar descobrindo que é de lata barata, e olhe lá, borocochô.

Romaria

José Horta Manzano

No último 21 de maio, o senhor Eduardo Girão, senador pelo estado do Ceará, dirigiu requerimento à Comissão de Constituição e Justiça do Senado pedindo a criação de uma “diligência” para visitar mulheres brasileiras que atualmente se encontram presas em El Paso (Estados Unidos). (Associar a ideia de “diligência” à região de El Paso traz à memória aventuras do Velho Oeste.) Mas isso é pura digressão. Voltemos ao assunto.

A nobre motivação do senador seria daquelas que a gente tira rápido o lencinho e chora junto, não fossem alguns detalhes que turvam suas aparentes boas intenções. Vejamos.

No requerimento, o senador comete uma malandragem capaz de enganar um incauto. Primeiro, chama as mulheres que deseja visitar de “presas políticas”, uma evidente falsidade. Logo em seguida, sem transição, diz que estão “presas em El Paso no Texas”. E diz ser importante “averiguar as condições carcerárias e possíveis violações de Direitos Humanos”.

Parece que a intenção é justamente essa: a de levar um leitor desavisado a crer que estejam presas no Texas por maquiavélica interferência da justiça brasileira quando, na verdade, estão na cadeia por terem entrado em território americano fraudulentamente.

Em nenhum ponto do requerimento, é mencionada a situação de as brasileiras serem imigrantes clandestinas, apanhadas em flagrante pela polícia americana e presas preventivamente à espera de deportação. Primeiro, elas violaram a lei brasileira ao quebrar as tornozeleiras e fugir do país; em seguida, violaram a lei americana ao tentar penetrar sem autorização no território daquele país. Nosso senador omite espertamente a violação da lei americana.

Mais adiante, o requerimento refaz o cenário de um processo que j’a se encerrou. Volta a explicar que, no 8 de janeiro, essas senhoras só entraram nos prédios da Praça dos Três Poderes “para se proteger das bombas que eram ateadas (sic) por helicópteros”. Fica, portanto, esclarecido que só estavam lá a passeio, nada mais. Um domingo no parque, em suma.

A “diligência” requerida pelo senador deve traduzir-se por uma comitiva mais ou menos numerosa de parlamentares – quiçá assessorados pelas digníssimas esposas – que passarão um certo tempo nos EUA. A romaria será custeada com nosso dinheiro, naturalmente. Não há risco de esses romeiros serem encarcerados como clandestinos, dado que não entrarão a pé por El Paso, mas por Nova York ou talvez Miami. Fica a dúvida sobre se consultarão previamente as autoridades prisionais do Texas para saber se há possibilidade de visitar as brasileiras presas. Quem sabe esse detalhe não tem importância para a comitiva.

Cá entre nós, há outros brasileiros encarcerados nos Estados Unidos. Há desde criminosos pesados que cumprem prisão perpétua até infelizes pilhados atravessando o Rio Grande de sapato na mão e trouxa na cabeça. Com certeza há dezenas deles nas prisões de El Paso. Será que esses coitados não vão ter a honra de receber um alozinho dos figurões? Pela lei americana, são tão clandestinos quanto as senhoras que passeavam na praça no 8 de janeiro e hoje curtem uma temporada na prisão de El Paso. Estão todos na cadeia por terem violado as leis americanas de imigração.

A autorização de Damares Alves, presidente da CCJ, ainda não veio. Mas nâo há de tardar.

Donald Trump e os limites do poder

José Horta Manzano

by Darío Castillejos (1974-), desenhista mexicano

Nos últimos anos, psiquiatras e psicólogos americanos vêm observando com preocupação um aumento na frequência de episódios que sugerem sinais de confusão cognitiva por parte de Donald Trump. Durante seus discursos, que hoje se estendem por cerca de 82 minutos – quase o dobro da média de 45 minutos registrada na campanha de 2016 –, o ex-presidente muitas vezes demonstra dificuldades de articulação. Há casos em que palavras são pronunciadas pela metade, frases ficam incompletas ou se encerram com terminações inventadas, o que torna suas falas, em vários momentos, desconexas e de difícil compreensão até mesmo para seus apoiadores mais fiéis.

Mais do que simples lapsos verbais, essas manifestações vêm acompanhadas de um padrão preocupante: decisões impulsivas, tomadas sem planejamento estratégico, que muitas vezes são revertidas pouco tempo depois. Esse comportamento errático tem gerado instabilidade tanto na política externa quanto na condução da economia americana. A volatilidade das posições presidenciais cria um ambiente de expectativa constante, em que aliados e adversários se veem obrigados a reagir a movimentos inesperados, dificultando qualquer esforço de governabilidade a longo prazo.

Diante desse cenário, até mesmo figuras influentes do Partido Republicano passaram a se perguntar à boca pequena se Trump estaria fisica e mentalmente apto a exercer a função de chefe de Estado. Embora tais dúvidas ainda sejam tabu em parte do eleitorado, o desconforto é palpável entre especialistas em saúde mental, analistas políticos e líderes institucionais.

Esse ambiente de incerteza, com contornos de pré-catástrofe, tem levado muitos americanos a refletir sobre os limites do poder presidencial. Afinal, será que o modelo criado no final dos anos 1700, com o objetivo de substituir a figura do rei da Inglaterra por um presidente forte e autônomo, ainda é compatível com a complexidade dos tempos atuais?

O sistema presidencialista dos Estados Unidos foi, à sua época, uma inovação. Mas os desafios do século XXI exigem nível mais elevado de equilíbrio entre autoridade e responsabilidade. A atual configuração concentra um volume extraordinário de poder numa única pessoa. Num mundo interconectado e repleto de tensões geopolíticas, um único erro de cálculo – e Trump já cometeu vários – pode ser suficiente para desencadear um enfrentamento bélico de proporções calamitosas.

Talvez seja chegada a hora de um debate nacional mais amplo, não apenas sobre a saúde e a aptidão dos candidatos à Presidência, mas sobre a própria estrutura de comando da maior potência do planeta. Rever as atribuições e os limites do cargo pode ser um passo essencial para proteger a democracia americana de seus próprios excessos – e dos riscos representados por lideranças instáveis.

Para lavar a afronta

José Horta Manzano

Artigo publicado no Correio Braziliense de 27 maio 2025

Houve um tempo em que afronta se lavava com sangue. Era assim entre iguais, entre aqueles que, mesmo em oposição, se reconheciam mutuamente como dignos do duelo. A honra ultrajada exigia reparação imediata, e essa lógica imperava entre nações soberanas quando sua dignidade era colocada em xeque. Mas os tempos mudaram, ao menos para alguns.

Há alguns dias, o Brasil foi alvo de uma afronta insuportável, de dimensões diplomáticas e institucionais alarmantes. O Secretário de Estado dos Estados Unidos declarou ser “muito provável” que o ministro Alexandre de Moraes, integrante da mais alta corte do Judiciário brasileiro, venha a ser sancionado formalmente pelo governo norte-americano. Não se trata de uma crítica. Trata-se de uma ameaça concreta, com consequências graves e pessoais.

A sanção mencionada carrega implicações profundas, não apenas simbólicas, mas materiais: congelamento de bens sob jurisdição americana, bloqueio de cartões de crédito com bandeiras dos EUA, fim da concessão de visto de entrada no país, proibição de negociações com empresas e cidadãos americanos e até a suspensão de perfis em plataformas digitais de empresas sediadas em solo estadunidense, como Google, YouTube e outros serviços da mesma família corporativa. Trata-se, em suma, de uma exclusão sistemática da vida globalizada moderna – um banimento que ultrapassa fronteiras físicas e se infiltra no quotidiano digital.

Ora, qualquer cidadão minimamente atento deveria ter se perguntado: que país é esse que vê seu magistrado supremo, no exercício de suas funções, ser ameaçado de forma tão insolente e explícita, e apenas debate os danos pessoais que a sanção pode acarretar ao ministro?

Porque o cerne do problema não é o indivíduo Alexandre de Moraes, mas o que ele representa. O alvo é o Supremo Tribunal Federal. É o Poder Judiciário. É, por extensão, a soberania do Estado brasileiro e a dignidade institucional de todos os seus cidadãos. A ofensa ultrapassa o homem e atinge a estrutura da República. Através da figura de Moraes, é o Brasil que se vê retratado como indigno, como país sem lei ou ordem legítima, sujeito à tutela moral e política de outra nação.

Não é necessário simpatizar com o ministro, nem endossar todas as suas decisões – o debate democrático permite crítica a qualquer autoridade pública. Mas há uma linha que não pode ser cruzada sem que haja consequências, ao menos morais: a linha da submissão silenciosa a um insulto dessa magnitude. Quando uma potência estrangeira cogita sancionar um membro do Judiciário de outro país por suas ações no exercício da função, o que se está dizendo, de maneira tácita mas eloquente, é que aquele país já não é considerado par. É um satélite, uma colônia errante no século XXI.

No entanto, estamos de mãos atadas. As ferramentas de que dispomos para reagir são poucas e limitadas. Um protesto diplomático, talvez a convocação de nosso embaixador em Washington. Nada que realmente reverta o quadro ou restabeleça o equilíbrio. Entre iguais, lavava-se afronta com sangue. Não é mais o caso entre Brasil e Estados Unidos. Não temos os meios para enfrentar de igual para igual a potência que nos agride. Somos, neste momento, a parte fraca da equação.

Mais do que nunca, isso nos obriga a uma reflexão incômoda: que imagem temos projetado ao mundo? Que tipo de país somos, afinal, se aceitamos calados o rebaixamento institucional de nossas autoridades? A hostilidade americana não surgiu do nada — é sintoma de uma desordem mais profunda. Um país que se dobra internamente diante de chantagens, desinformação e golpismo não pode esperar respeito externo. De tanto brincar com coisa séria, fomos parar de cabeça pra baixo no centro de um mapa-múndi invertido.

A única atitude que nos resta é seguir adiante com firmeza institucional, sem recuar diante da pressão externa, sem hesitar em cumprir os ritos democráticos. O Supremo Tribunal Federal, encabeçado por ministros designados segundo o devido processo constitucional, precisa manter sua autonomia e levar até o fim o julgamento dos envolvidos na ousadia criminosa do 8 de janeiro. Não se trata de vontade política – trata-se de dever institucional.

A integridade da República está em jogo. E embora não possamos lavar essa afronta com sangue, ainda podemos – e devemos – lavá-la com dignidade, coerência e firmeza democrática.

Djin, djan, tchn

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Ainda não sei ao certo como grafar essa onomatopeia. Algumas vezes o som sai mais parecido com djin e outras como djan ou tchn. Só sei que é automático: toda vez que eu me condeno por alguma coisa – como ter esquecido um compromisso, ter derramado o café ou deixado a comida queimar, perder a cabeça e gritar com minha já assustada cachorra – produzo sem querer esse som.

Estou falando de um estalo de língua involuntário, que lembra mais ou menos aquele tapa na testa que sinaliza esquecimento, vergonha ou arrependimento. Uma voz interna repete: “como você foi fazer isso?”, “como você é idiota, atrapalhada e teimosa”, “você já está velha demais para ainda não ter aprendido autocontrole”.

Acontece também quando quero demonstrar lamento por ter recebido uma notícia triste, quando alguém me nega alguma coisa ou me acusa de algo injustamente, ou ainda quando assisto a alguma reportagem sobre guerras/genocídios, fome, violência contra minorias ou a estupidez de algum governante ameaçando cortar verbas para a educação, cultura, saúde ou assistência social – ou, pior, tentando impor um retrocesso em direitos humanos conquistados a duras penas. Ultimamente, como todos bem podem imaginar, a frequência desses estalos tem sido tão alta que no final do dia minha língua parece estar em carne viva.

Fico sempre extremamente curiosa para saber se mais alguém tem essa mania, ainda que não ouse perguntar pelo medo de estar constrangendo a pessoa ou de ela achar que eu penso que ela é louca. O mais perto que já cheguei de descobrir se há um equivalente desse tique nervoso entre nós ou em outras partes do mundo foi ao ver o famoso tsc, tsc, tsc, facilmente encontrado em gibis, principalmente americanos. Não sei por que esse jeito deles de grafar o som precisa ser repetido três vezes – deve ser por necessidade de enfatizar a discordância, a incompreensão ou por causa da típica mania de grandeza que eles têm, sabe-se lá.

No meu caso, o “djin” ou “djan” ou “tchn” acontece uma única vez a cada lembrança ou sensação de desalento. De qualquer maneira, me parece que a semelhança termina aí. Acredito que o “tsc” elevado ao cubo sinaliza mais propriamente a condenação de terceiros, enquanto meu estalo único indica no mais das vezes autorrecriminação e só eventualmente tristeza ou falta de esperança.

Mas, você pode estar se perguntando, que importância tem isso? Nenhuma, admito. É só a vontade de saber se já posso começar a frequentar as reuniões dos Neuróticos Anônimos ou se alguma outra alma perturbada pode querer me fazer companhia.

Essa coisa de sons onomatopaicos como grafados nas diferentes culturas me intriga desde sempre. Não entendo por qual razão nós juramos de pés juntos que o pato faz “quá, quá, quá” enquanto os americanos e ingleses acham que na verdade ele faz “quack, quack”. Para mim, esse seria logicamente o som de um pato com soluço, não é verdade? O mesmo se aplica ao “au, au” ouvido pelos brasileiros versus o “woof” (que, para mim, é o latido exclusivo de cães de grande porte) ou o “bark” ouvido pelos falantes da língua inglesa.

Outro dia, ouvindo um pássaro cantando claramente “bem-te-vi”, fiquei me perguntando como estrangeiros decodificariam esse som. Corri para o Google e descobri que eles o chamam de “kiskadee”, embora o som traduzido ao pé da letra desse algo como “I saw you well”. Que maluquice! Só falta agora descobrir que o “tsc, tsc, tsc” seja, na verdade, o meu “djin” ou “tchn”, como diriam os cariocas.

Da mesma forma, nunca consegui entender como alguém pede socorro urgente gritando “au secours”. Até terminar de pronunciar a expressão, a vítima já morreu, não é mesmo? É bem verdade que o “help” é mais direto e rápido quando comparado ao nosso “socorro”, mas que se há de fazer? Somos prolixos por natureza.

Isso tudo me ocorre em paralelo quando constato que hoje em dia se deve escrever “ensino a distância”, sem o acento. Para mim, duas frases com significado diferente poderiam ser escritas dessa forma: 1) Eu ensino [o conteúdo] a distância [entre dois polos], e 2) Eu ensino à distância [de longe].

Aliás, dentre todas as regras impostas quando da reforma ortográfica elaborada para aproximar o falar do português brasileiro e o português de Portugal, as duas que mais me incomodam desde sempre são a de “à distância” sem crase e o “para”, do verbo parar, igualmente sem acento – isso sem mencionar que é preciso colocar o chapeuzinho no verbo pôr para diferenciá-lo da preposição. Lembro que no primeiro dia de vigência da nova norma a Folha de São Paulo escolheu como chamada principal a frase: “Passeata para a Avenida Paulista”. Ela poderia ser interpretada tanto como passeata em direção à Avenida Paulista quanto como passeata que interrompeu o trânsito na mesma avenida. Como distinguir entre elas?

Bom, por falta de um assunto mais estimulante, paro por aqui. Se uma pessoa misericordiosa achar por bem se manifestar em meu apoio, e criar coragem para me dizer que ela também passa os dias estalando a língua sem querer, vou ser eternamente grata. Já basta a desesperança de não ter dinheiro suficiente para retomar minha terapia.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Vaca por via aérea

José Horta Manzano

Tudo o que sobe acaba descendo um dia. Não é moral, é física. Cadeias de montanhas altas, como os Alpes, resultam da dança das placas tectônicas, que deslizam sobre o magma do interior da Terra. Essas elevações já foram, num passado geologicamente distante, fundo de mar. De lá, subiram aos poucos e chegaram até onde estão hoje. Mas a lei da gravidade, às vezes, fala mais alto – e um bloco de rocha se desprende lá de cima.

Faz uns dez dias, imensos blocos de pedra começaram a se soltar de um determinado ponto dos Alpes suíços. Se estivesse acontecendo em outro lugar, é possível que não fosse grave nem importante. Mas o caso é que, bem embaixo desse corredor de terra e rochas, está um vilarejo pequeno, de algumas centenas de casas. É pequeno, mas ali mora gente, cada um com seu lote de terreno, umas vacas e umas galinhas.

Com o passar dos dias, o agravamento da queda de pedras começou a ameaçar seriamente o vilarejo. Assim, as autoridades ordenaram a evacuação imediata. Todos tiveram de juntar alguma roupa, objetos pessoais e, o mais importante, seus animais. Vacas são dóceis. Bastou pôr uma na estrada, e as outras seguiram atrás como num cortejo.

Mas uma delas não conseguia acompanhar as outras. Descobriram que estava ferida numa pata. Ficar de pé e dar uns passinhos, até que conseguia, mas não aguentava longas caminhadas. O jeito foi chamar o resgate. É isso mesmo! Na Suíça, não é a primeira vez que se chama um helicóptero para transportar o animal. Precisa ter em mente que uma vaca pesa por volta de meia tonelada!

No final, salvaram-se todos. O povoado foi evacuado de gente e de animais. Uns moradores foram pra casa de parentes, outros procuraram hotel. Todos partem com a esperança de, na volta, encontrar a casa intacta. E de poder voltar logo. Parece que os céus atenderam aos apelos. A massa rochosa decidiu rolar montanha abaixo em pequenos blocos, sem soterrar as casas. Mais da metade já desceu.

É possível que, logo logo, os habitantes possam voltar. Com as vacas, naturalmente.

 

Um videozinho de 50 segundos mostra o transporte da vaca, que devia estar bem assustada. É interessante, não perca.

Com dois TT

José Horta Manzano

De criança, eu achava um charme ter letra dupla no nome. Dois zz, dois mm, dois ff – qualquer letra valia. Só não valia dois ss ou dois rr, que eram letras comuns demais e não dariam graça ao nome. Infelizmente, meu nome não tinha letras duplas. Tive de me conformar e passar a vida inteira sem o que me parecia o “charme do nome”.

Constato hoje que a ideia de charme evoluiu. O povo não parece mais vidrado em letra dupla, como era meu caso. Nestas décadas mais recentes, a moda é acrescentar ao prenome (digo bem acrescentar, nunca eliminar) letras ao acaso, como um jogo em que dadinhos são lançados ao alto e… onde caírem, caíram.

Eu disse “letras ao acaso”, mas tenho de clarear a explicação. Nessa curiosa ideia de lançar dadinhos com letrinhas, não se usa todo o alfabeto. Só umas poucas letras são utilizadas: H e Y principalmente.

Assim, tenho visto Jhonny, Jhonatan, Davyd, Alyce, Olyvia. Apesar de tudo, letras duplas ainda chegam a encantar. Já vi Weslley, Ellyana.

Dessa sopa de letrinhas, tem saído um duo milionário. Quando usado em dupla, o T, uma letra que está mais pra jogo da forca do que pra baú de Ali Babá, pode ser o gatilho para a entrada de dinheiro na vida de uma pessoa.

Gusttavo Lima e Anitta, ídolos comparáveis a Francisco Alves e Linda Batista de nossos tempos, são a demonstração do poder midiático do T. (Quando digo “poder midiático”, não penso na mídia, mas no rei Midas, aquele que transformava em ouro tudo o que tocava.)

Nossos dois personagens, duplamente tezados, passaram do nada à riqueza bilionária em função da duplinha TT, à qual tudo devem. E pensar que, no original, nenhum dos nomes – nem Gustavo nem Anita – aceita o duplo TT. Gustaf (ou Gustav) é nome masculino escandinavo. Oito reis suecos, incluindo o atual, levavam esse nome. E nenhum deles precisou acrescentar um T ao nome. Será porque já nasceram ricos.

Já Anita é diminutivo de Ana, nome feminino velho como a Bíblia. O que Ana costuma ter é duplo NN (Anna), inclusive no Brasil pré-reforma ortográfica de 1943. A rigor, nossa moderna Linda Batista poderia ter escolhido Annita, com dois NN, forma que não chocaria. Na hora do lance, o dadinho deve ter escorregado para o lugar errado.

Hoje fiquei conhecendo mais uma jovem iniciante na carreira, que adotou o duplo TT. Trata-se de bonita moça que responde pelo exótico nome de Anttónia Morais, outra jovem que deve ter acreditado no poder “midiático” da duplinha mágica. Ela parece ter entrado com pé direito no caminho da glória: vestiu joias de R$ 800 mil pra pisar o tapete vermelho de Cannes.

Da próxima vez que eu for criança, vou transformar meu Horta em Hortta. Será caminho certeiro para a riqueza bilionária. Desta vez, já ficou tarde.

Crioulo

Árvore genealógica

José Horta Manzano

O mundo parece gostar de se surpreender com o novo papa. A cada dia, surge nova informação, nova faceta de sua vida e de sua trajetória, incitando à curiosidade por seu passado. Como nos velhos tempos, cada um parece estar correndo atrás de um pequeno retalho de batina, de fáscia ou de peregrineta para fazer uma relíquia. Esse fascínio pelo chefe da Igreja já se registrava nos primeiros papados mas, com a visibilidade das redes sociais, está se tornando mais intenso e globalizado.

Já se disse que o Papa Leão XIV nasceu nos Estados Unidos e passou cerca de 20 anos no Peru, o que torna sua trajetória ainda mais interessante. Não foi alguém que permaneceu na retaguarda, longe da ação; pelo contrário, ele se envolveu ativamente como missionário e percorreu diversas regiões, espalhando sua fé e vivenciando culturas distintas. Esse papel de missionário é um reflexo do dinamismo que caracteriza sua personalidade, sempre buscando se conectar o mundo que o circunda, um traço que tem sobressaído desde que ascendeu ao papado.

Uma questão particularmente interessante diz respeito à análise das suas origens, um fator carregado de sensibilidade, especialmente em sua terra natal, um país cuja história está entrelaçada com questões de raça e identidade. As origens de Leão XIV, longe de serem meramente um detalhe biográfico, oferecem uma chave de leitura para a compreensão da história contemporânea, na qual o Papa surge como uma figura que atravessa fronteiras culturais e étnicas.

Em artigo publicado há dias no The Conversation, Chelsea Stieber, historiadora e pesquisadora, traça um retrato mais detalhado das descobertas feitas por uma genealogista a respeito de Robert Francis Prevost, nome de batismo do novo papa. De acordo com Stieber, do lado materno, o Sumo Pontífice tem origens ‘creoles’, um termo que, na língua inglesa, pode gerar confusão, dada sua ambiguidade. Tradicionalmente, a palavra “creole” é usada para se referir a indivíduos de ascendência europeia, descendentes dos primeiros colonizadores franceses ou espanhóis nas Américas. No entanto, esse termo também pode se referir a indivíduos mestiços, fruto da união entre colonizadores e negros, particularmente nas vizinhanças da antiga América Francesa, a atual Luisiana.

O artigo de Stieber, no entanto, não esclarece com precisão de que categoria de ‘creole’ Leão XIV descende. Numa possível interpretação, ele poderia descender de “gens de couleur libres” – expressão histórica utilizada para descrever escravos alforriados, que viviam à margem da sociedade colonial. Documentos de pesquisa indicam que o avô materno do papa, Joseph Norval Martínez, nasceu no Haiti, o que adiciona uma camada fascinante à genealogia do pontífice.

O papado de Leão XIV, que acaba de começar, abre um vasto campo para investigações. Genealogistas e estudiosos têm diante de si boa oportunidade de desenterrar documentos, consultar cartórios, registros de paróquias e arquivos esquecidos. No entanto, é importante destacar que essas descobertas, ainda que interessantes, não passam de curiosidade. No fundo ninguém é responsável por seu passado longínquo.

O que realmente importa, e o que permanecerá para a história, são os fatos e gestos de Leão XIV. O que virá a partir de agora é mais importante do que qualquer descoberta genealógica ou fofoca de rede social.

Quem viver, verá.

A herança e a pontuação

José Horta Manzano

Talvez o distinto leitor e a graciosa leitora já tenham ouvido esta historinha. Mas sempre vale a pena ver de novo.

Um homem rico agonizava em seu leito de morte. Pressentindo o fim próximo, pediu papel e caneta, e escreveu:

DEIXO MEUS BENS A MINHA IRMÃ NÃO A MEU SOBRINHO JAMAIS SERÁ PAGA A CONTA DO PADEIRO NADA DOU AOS POBRES.

Mas morreu antes de fazer a pontuação. Para quem o falecido deixou a herança? Os pretendentes mencionados no testamento eram quatro.

1. A irmã foi a primeira a chegar. Pediu uma cópia do papel e pontuou assim:
Deixo meus bens a minha irmã, não a meu sobrinho. Jamais será paga a conta do padeiro. Nada dou aos pobres.

2. O sobrinho veio em seguida e refez a pontuação:
Deixo meus bens a minha irmã? Não! A meu sobrinho. Jamais será paga a conta do padeiro. Nada dou aos pobres.

3. Chegou o padeiro e pediu cópia do original. Foi sua vez de pontuar:
Deixo meus bens a minha irmã? Não! A meu sobrinho? Jamais! Será paga a conta do padeiro. Nada dou aos pobres.

4. Por último, vieram os pobres da cidade. Um deles, sabido, fez esta pontuação:
Deixo meus bens a minha irmã? Não! A meu sobrinho? Jamais! Será paga a conta do padeiro? Nada! Dou aos pobres.

A historieta mostra a importância da pontuação. Sem pontos, exclamações, vírgulas & companhia, o texto pode ficar ambíguo ou até confuso.

A historinha da herança, que corre há anos pelas redes, foi bolada justamente para divertir. A intenção do autor foi por certo provocar umas risadas do leitor.

Meu bom amigo Aldo Bizzocchi, que é doutor em Linguística e amante das letras, me enviou uma historinha que lembra a do testamento. Só que… é verdadeira! A chamada foi recortada do site de notícias G1. Aqui está:

De tão mal escrita, a frase pode até dar a entender que quatro filhos da infeliz senhora tenham sido mortos no tribunal. (Com a ousadia típica dos executantes ligados ao nascente narcoestado brasileiro, um quádruplo assassinato praticado dentro do Palácio de Justiça já não mataria ninguém de susto.)

Descartada a hipótese do acerto de contas na base da faca e da asfixia, resta ler e reler o texto para entender a intenção do autor. Na realidade, ele quis contar o caso todo em uma frase só – uma perda de tempo. Nem vou arriscar reescrever a chamada. Sob risco de criar uma frase incompreensível, é sempre melhor partilhar as ideias em duas ou três frases menores.

Sugere-se ao autor da chamada que pense nisso da próxima vez.

Ídola

Chamada de O Globo

José Horta Manzano

Respeitada por seus próprios pares, a sorridente Rebeca Andrade é uma grande ginasta. Sua atuação nos Jogos Olímpicos de Paris foi magistral, coisa de deixar saudade. Mas daí a tratá-la de “ídola”, vai uma distância que não convém percorrer.

“Ídola” é gêmea idêntica de membra e de mascoto. Podem sair os três por aí, de mãos dadas, cantando ‘Mamãe eu quero’. Vão abafar.

Brincadeiras à parte, vamos lembrar que há substantivos bonzinhos, que tanto aceitam ser do gênero masculino quanto do feminino. Personagem é um deles. Pode-se dizer tanto o personagem quanto a personagem. É acertar ou acertar. Omelete é outro que se encaixa nos dois gêneros.

Mas há outros nomes que não oferecem essa flexibilidade. Têm um gênero só. É o caso das palavras membro (sempre masculina), mascote (sempre feminina) e, naturalmente, ídolo, que fica arrepiado se alguém ousar mandá-lo para o feminino. Em português, ídolo é masculino e ponto final. Não existe ídola”.

A frase da chamada do jornal está tão mal formulada que não vale a pena tentar corrigir. Pra remediar, será melhor descartar a palavra ídola e substituí-la por famosa. Faz o mesmo efeito e não ofende o ouvido (nem a sensibilidade) do leitor.

As derrotas de Trump

Tambores rufando

José Horta Manzano

Apesar de ter descido à arena com passos duros e rufar de tambores, Donald Trump, personagem grandioso e teatral, está murchando estas últimas semanas.

Prometeu expulsar 11 milhões de imigrantes clandestinos. Fiz as contas: com aviões de 200 lugares, seriam necessários 55 mil voos. Suponhamos uma frota de 10 aeronaves dedicadas exclusivamente à missão, cada uma fazendo um voo de ida e volta por dia, de domingo a domingo, feriados e dias santos incluídos. Seriam necessários 5.500 dias – cerca de 15 mandatos presidenciais. Mesmo os menos afeitos à matemática (como este escriba) percebem que a meta é uma miragem. Uma promessa de palanque que não resistiu à aritmética. Derrota, portanto.

Depois veio o plano mirabolante de quebrar a espinha dorsal da economia chinesa com pesados impostos de importação, como se a China fosse uma loja de esquina em crise. Imaginou que o “Império do Meio” se ajoelharia. Não se ajoelhou. Em um país de governo centralizado, acostumado a ordens verticais, a população seguiu em silêncio. Quem cedeu foi Trump, que engoliu em seco e aceitou a mediação suíça. O leão rugiu, mas acabou se afinando. Mais derrota, portanto.

A bufonaria de entregar pastas de governo a Elon Musk, um parvenu com aspirações a Messias digital, teve vida breve. O corte em instituições, o descontentamento geral e a gritaria nas redes dissolveram rapidamente a “grande aliança”. Musk está fora – ou quase. Mais uma derrota para o currículo.

Há outras, menores, internas, administrativas, que se acumulam como entulho. Mas o quadro geral é claro: por trás do gestual arrogante e da retórica grandiloquente, o messianismo de Trump está em processo de derretimento. A cada bravata, nova fissura. A cada promessa não cumprida, fiasco mais evidente.

A verdade é que o presidente, que se pinta como salvador do mundo, parece hoje mais um personagem trágico de ópera bufa: ruidoso, solitário e, sobretudo, declinante.