Passaporte italiano

Moggio Udinese, vila de 1.750 habitantes

José Horta Manzano

Vosmecê decerto conhece alguém que obteve, ou está tentando obter, o passaporte italiano. Até o começo deste ano, em matéria de transmissâo da cidadania, a Itália se comportava como verdadeira mãezona. Todo descendente de italiano, ainda que fosse de terceira, quarta, quinta geração (ou mais) tinha direito a recuperar a nacionalidade do antepassado – desde que conseguisse a prova documental da ascendência, o que nem sempre é fácil, quanto mais gerações separassem o aspirante do antepassado que emigrou.

Uma lei, votada no parlamento de Roma, veio dar um basta a essa prática que encantava mais e mais brasileiros. A possibilidade de transmissão da cidadania ficou restrita a filhos e netos do antepassado italiano. Mas por que razão foi esvaziado o antigo pacote de bondades?

Há várias razões. Entre as principais, estão as que cito abaixo.

A extrema direita
A Itália é atualmente governada por uma coalizão de direita, com forte componente de extrema-direita. A primeira-ministra, por exemplo, é Giorgia Meloni, afiliada a um partido com raízes no neofascismo do pós-guerra. Como se sabe, a direita extrema professa ideologia excludente, anti-imigração, antieuropeia, contra tudo o que não for legitimamente italiano.

Os descendentes de italianos emigrados, nascidos no exterior, têm poucas referências de italianidade. Em geral, o antepassado que chegou ao Brasil já faleceu, talvez seus filhos também. Com o tempo, a ligação com o pais de origem vai se esmaecendo. A língua e os costumes se perdem. Muitas vezes, o sobrenome é o único traço que distingue um italiano de terceira geração de um seu conterrâneo que não tenha antepassados italianos.

Além desse ponto, as autoridades italianas tinham chegado a um ponto de saturação com o comportamento de brasileiros aspirantes ao cobiçado passaporte.

Os candidatos
Para obtenção do reconhecimento da nacionalidade, a regra era (e continua sendo) entrar com a papelada no Brasil, por meio do consulado italiano, em seguida aguardar o andamento do processo. Estes últimos tempos, porém, a fila estava comprida e a espera era longa e angustiante.

O brasileiro, pouco afeito a se conformar a regras (que são sempre feitas para os outros, não para ele), procurou – e encontrou – atalhos para furar a fila e passar à frente dos outros.

Um caminho que os mais abonados utilizaram foi entrar com um processo administrativo na Itália exigindo a outorga dos documentos italianos aos quais tinham direito. Pouco acostumada a ver a Justiça sendo usada de atalho, a Itália não pôde deixar de dar seguimento às solicitações e fazer esses requerentes passarem à frente dos outros.

Não preparadas para enfrentar essa montanha de novos pedidos, as prefeituras dos vilarejos, lutando com falta de pessoal, tiveram de tirar funcionários de outras funções e deslocá-los para cuidar da inscrição dos “novos” cidadãos. A grita chegou aos ouvidos dos deputados em Roma.

Vosmecê pode argumentar que a imigração italiana não se dirigiu somente ao Brasil, mas também a outros países. Tem razão, mas os maiores contingentes se deslocaram para o Brasil, a Argentina e os Estados Unidos. Os que foram para a América do Norte não parecem mui desejosos de recuperar a antiga nacionalidade. Os argentinos já descobriram o caminho das pedras há décadas e, hoje, já têm em mãos o precioso documento. Sobram os brasileiros, que só se aglomeraram à porta dos consulados nos últimos 20 ou 25 anos.

Bom, deu ruim, como convém dizer. Quem tem pai, mãe ou avós italianos, está salvo. Mas é bom não facilitar e correr já, porque leis podem piorar a todo momento. Quem só tem bisavô ou antepassado mais distante, pode dizer adeus.

Nossa característica nacional de achar normal passar a perna nos outros para obter vantagem pessoal, ainda que seja por vias ilegais, aprontou mais uma.

O MP da região da Venezia Giulia (norte da Itália) ficou encafifado com o fato de Moggio Udinese, um vilarejo das redondezas, de somente 1.750 habitantes, ter recebido nada menos que 84 solicitações de reconhecimento de cidadania italiana nos últimos 6 anos, todas provenientes de requerentes brasileiros. Todos eles declaravam residir na vila, sempre no mesmo imóvel, com atestado de residência em perfeita ordem, fornecido pela prefeitura. Muito estranho.

Feitas as investigações, descobriu-se que a clientela de brasileiros era presa fácil para qualquer quadrilha, ainda que mambembe. Com atestados falsos, documentação adulterada, cumplicidade de funcionários da prefeitura e, mui provavelmente, anuência do prefeito, estava formada a corrente da felicidade. Pela módica soma de 6.000 euros (37 mil reais), às vezes um pouco mais, o aspirante acabava conseguindo seu passaporte no prazo de um ano. Talvez precisasse apresentar-se uma ou duas vezes pessoalmente na Itália, para comprovar a presença. Se preferisse não ter de vir à Itália, bastava pagar um suplemento.

A notícia saiu hoje nos jornais da região da Venezia Giulia. Não se sabe ainda quais serão as consequências da falcatrua. Por mim, confiscava os documentos italianos dessa turma toda, e mandava cada um para o fim da fila, a esperar sua vez como todos os outros. Se quisessem obter restituição dos seis mil euros, que processassem o chefe do bando.

O lampião do capitão

José Horta Manzano

Circula pela mídia nesta terça-feira um vídeo mostrando uma revoada de repórteres, microfone na mão, todos correndo atrás de um comboio de automóveis de vidros fumês que se dirige à entrada da Polícia Federal de Brasília.

Quando vi a cena, imaginei que tivessem descolado um filmezinho do Bolsonaro sendo preso. Mas logo me lembrei que ele foi levado embora no lusco-fusco matinal de uma Brasília cochilenta, na maior discrição, sem algema e sem fotógrafo.

Atrás de quem estariam aqueles repórteres, então? Seria mais um figurão sendo conduzido para se explicar com o delegado? Olhei até o fim do vídeo. Surpresa: não era novo prisioneiro, era apenas uma visita. Tratava-se de um dos filhos de Bolsonaro, aquele que é senador e que era considerado moderado, até a semana passada, quando decidiu convocar uma prece coletiva para salvar o pai da cadeia. Vinha chegando para visitar o pai encarcerado.

Agora cogito: será que não estarão dando a essa gente uma importância que não têm? Bolsonaro foi eleito em 2017, por um desses golpes de má sorte que a natureza reserva a nosso país. Setenta anos atrás, o lema de Juscelino Kubitschek era “50 anos em 5” – anos de progresso e desenvolvimento, subentendia-se. O lema que se pode hoje atribuir ao governo de Bolsonaro é “40 anos em 4” – anos de destruição e marcha à ré, entende-se.

O capitão, como figura política, está morto e enterrado. Pode até ressuscitar um dia, que nada é impossível em nosso país, mas por enquanto está fora do jogo. A partir daí, não atino com a motivação de quem despacha a revoada de microfones atrás do filho que vem à cadeia visitar o pai condenado. Será a vontade de algumas redações de manter acesa a chama do lampião do capitão? Se não for isso, qual será o motivo de tanto auê?

Nunca serei preso!

José Horta Manzano

É imprudente fazer promessas que a gente está arriscado a ser incapaz de cumprir. Numa época como a nossa, então, em que tudo o que se diz ou faz fica gravado, registrado e arquivado com som e imagem, é duplamente imprudente.

Quem cospe para o alto periga receber a cusparada de volta na moleira. Recebi esse conselho de criança, mas parece que tem gente que não recebeu. Ou nâo quis seguir.

“Por Deus que está no céu, eu nunca serei preso”

Foi o que declarou um Bolsonaro triunfante em setembro de 2020 e em maio de 2021. Fez isso em plena pandemia, entre um e outro passeio de jet ski. Talvez já pressentisse, com anos de antecedência, o que o destino lhe reservava.

Êta família trapalhona! Só fazem besteira. Parece até que fazem de propósito, um trabalhando contra o outro, só para se atrapalharem mutuamente. Primeiro, teve aquele filho bobão que foi para os EUA, fez o que fez, deixou os juízes do STF mais enfezados do que estavam, prejudicou o pai, e agora, se voltar, vai direto para a Papuda. Estes dias, veio o mais velho, aquele que todos achavam fosse o menos abirutado, marcou uma aglomeração em frente à casa do pai, às vésperas do inevitável encarceramento. Pra coroar, no entrar da madrugada, o pai ainda tentou forçar a tornozeleira. (Não conseguiu, mas o mal estava feito.) Se quisessem forçar o encarceramento do pai, não teriam agido diferentemente. Gente estúpida.

O resultado da aventura é que Bolsonaro pai entrou na cadeia para uma boa temporada. Não faz mais sentido aliviar o regime para uma domiciliar – se isso fosse feito, voltaria o elevado risco de fuga. Não vejo como escapar dessa quadratura do círculo.

Uma sugestão, se me fosse permitido dar, seria bloquear uma pequena ala de um hospital de Brasília e arranjar aí uma cela para Jair Messias. O regime de cela especial da Papuda permaneceria: quarto individual, saleta, banheiro privado, cozinheta, armário individual. Ninguém poderia entrar nessa ala prisional, a não ser pessoas autorizadas.

Com isso, o prisioneiro teria seu direito a ser assistido em sua saúde 24 horas por dia. Se viesse a falecer, não teria sido por falta de hospital. Fora isso, o regime usual na Papuda seria aplicado: número de visitantes, horário das refeições. Nenhuma saída temporária da prisão seria necessária, dado que a assistência já estaria sendo fornecida in loco.

Bem, antes de nos despedir, vamos à moral da história:

Nunca se deve dizer nunca.

COP: o grande evento

José Horta Manzano

Em maio de 2023, quando o Brasil se ofereceu como sede da COP30, me senti um tanto inquieto. A COP é um evento muito importante, com delegações de mais de 150 países, conferências, colóquios, discursos, tradução simultânea. São milhares de delegados, sem contar turistas, jornalistas, repórteres, equipes de televisão. Requer organização perfeita, difícil de ser alcançada.

Em dezembro 2023, na sessão plenária da COP28 em Dubai, a candidatura de nosso país foi confirmada para sediar a COP30, a realizar-se dois anos mais tarde. Lula da Silva, eufórico e sorridente como se tivesse acertado o prêmio grande da Mega Senna, declarou à plateia que Belém, como grande cidade amazônica, estaria perfeita para acolher o evento.

Se o Lula se alegrou, eu fiquei arrasado de vez. (Em vez de arrasado, “devastado”, anglicismo da moda, também serve.) Vamos ter problemas graves, pensei. Não comentei com ninguém, que é pra não parecer ave agourenta. Não é da noite pro dia que se capacita uma cidade inexperiente a acolher tanta gente com tanto aparato. Para uma manifestação desse quilate, não temos no Brasil mais que uma ou duas capitais preparadas a receber.

De fato, Belém pode receber com esmero nossos turistas internos, sejam eles dezembristas ou julhistas. Já uma multidão de estrangeiros vem com outras expectativas. Não se lhes pode servir tacacá e tucupi todos os dias. A estrutura hoteleira de Belém não está armada para receber essa massa de visitantes de uma tacada só. O primeiro desfalque foi a decisão de certas delegações que, ou não vieram, ou diminuíram drasticamente o número de visitantes, o que é pena.

O Estadão publicou as impressões de uma fotógrafa da ONU acostumada a comparecer a eventos de magnitude importante para fazer seu registro de imagens. Em sua conta pessoal no Instagram, a moça, que se chama Kiara Worth, contou o que viu na COP30 de Belém:


“Chuvas torrenciais, inundações, uma invasão ao local, militares em cada esquina, calor sufocante, frio congelante, cortes de água e energia e, hoje, o local estava literalmente em chamas”, escreveu. “É inacreditável. Nunca aconteceu nada parecido.”


Kiara Worth descreveu a COP de Belém como a conferência mais difícil que já cobriu em sua longa carreira. Depois do incêndio, ainda teve ânimo para uma tirada filosófica: “Viemos aqui em busca de um acordo climático, mas talvez a verdadeira lição seja mais profunda. A verdade é que o mundo inteiro está em chamas e temos esta breve janela de oportunidade para escolher o que emergirá da fumaça.”

Quanto a nós, o vexame já foi dado. Vamos ver se, da próxima vez, a escolha leve em conta a capacidade da cidade sede em acolher dignamente os visitantes.

Lula III – 3 anos, 11 meses

José Horta Manzano

Em matéria de governo ruim, Lula 3 decaiu e está empatando com Dilma 2. Até que tinha começado bem, com aquela subida de rampa com direito a alegre convescote multicolorido, até com cachorro abanando o rabinho. Bom, precisa dizer que o alívio de não ver mais Bolsonaro nas paragens – e, principalmente, podê-lo chamar ex-presidente – era tão intenso, que qualquer espetáculo mambembe teria encantado o distinto público.

Mas o espetáculo não foi mambembe. O desfile no Rolls Royce da rainha foi como se deve, com presidente e primeira-dama, sem filho destrambelhado aboletado no banco de trás. Naquele dia, um Brasil aliviado até acreditou que tudo seria diferente dali pra frente. Tolinho…

Transformar água em vinho pode até ser possível, mas precisa de um tempo no caldeirão da feiticeira. Da noite pro dia, só na Bíblia. Portanto, todos deviam ter desconfiado que mudança tão brusca, de um governo tenebroso para um período de sonho, não podia acontecer de um dia pro outro. Como, de fato, não aconteceu.

Hoje, três anos passados e a um ano das próximas eleições presidenciais, a miragem que a alegre subida da rampa nos tinha trazido se dissipou. O sonho não passou de uma escapada passageira. Voltamos agora à realidade, do jeito que as coisas se apresentavam in statu quo ante.

O crime endêmico que gangrena nosso país dá mostras de estar mais organizado que o próprio Estado. Já era assim quatro e oito anos atrás, só que agora está mais forte, mais ancorado, mais diversificado. Enquanto o Estado cochilava (ou colaborava, vá saber…), o crime se profissionalizou.

Se até hoje não surgiu um Eliot Ness pra dar um jeito na criminalidade, a gente vai perdendo a esperança de que apareça um dia. O crime encontra muito respaldo país adentro, no Legislativo, no Judiciário, na indústria, no agropecuário, na banca e na finança. Desalojá-lo vai ficando cada dia mais complicado. Está em votação um projeto de lei dito “antifacção”, como se o crime organizado se desmantelasse por força de lei. Acredite quem quiser.

A um ano das eleições, Lula 3 entrou em modo Dilma. Como dizia Madame, “em tempo de eleição, faz-se o diabo”. Pois o diabo está de novo solto. Contenção de gastos? Teto de despesas? Suspensão na contratação de funcionários? Tudo balela! A gastança corre abalada, desenfreada, chispada. Como de costume, há quem aproveite para tirar uma casquinha. Mas, olhe lá, pequenininha.

Talvez bem aconselhado, Lula diminuiu a frequência de besteiras pronunciadas, especialmente em política internacional e em assuntos dos quais ele tem visão viciada por algum vírus contraído na mocidade. Isso nos ajuda a passar menos vergonha fora do país, mas não diminui nossa taxa de criminalidade nem colabora com nosso ajuste de contas.

No primeiro turno das presidenciais, não sei ainda a quem darei meu voto. Mas no segundo, caso se enfrentem Lula e um outro, vai depender. Se esse outro me parecer um pouco menos pior do que os que estão por aí, leva minha preferência. No entanto, se for um dos que se comprometeram a indultar um Bolsonaro hoje condenado e encarcerado, não há dúvidas: voto no Lula.

Que remédio?

Aporofobia 2: Guarujá

Grand Hôtel, Guarujá
Primeiras décadas do século XX

José Horta Manzano

Faz poucos dias, fiquei indignado com a iniciativa da Prefeitura de Florianópolis de obrigar, a todo depenado que chegasse, fazer meia-volta antes que tentasse fincar pé na cidade. Me pareceu expressão violenta de aporofobia – repulsa a pobre.

Infelizmente, as classes dominantes (não só no Brasil, mas em todo o mundo) nem sempre são compostas por almas altruístas. Não costumam enxergar os infelizes que precisam de ajuda. Talvez vosmecê se lembre do dia em que Bolsonaro negou a existência da fome no Brasil: “Mas no Brasil ninguém passa fome!”, disse ele. Fez como fazem os que acreditam que a solução do problema consiste em negar sua existência.

Estes dias, de novo, fiquei sabendo de ocorrência de aporofobia explícita – a crer que tais fatos estão se tornando mais frequentes, com a liberação de sentimentos antes represados, mas agora permitidos, pela ascensão da extrema direita.

Guarujá, estação balneária situada no litoral do estado de São Paulo, já foi chique e livre de pobres, mas hoje, com as atuais facilidades de transporte, é cada dia mais procurada. Um século atrás, a estação era realmente para um punhado de famílias endinheiradas, que se hospedavam no Grand Hôtel para uma temporada de dois, três ou quatro meses.

Esse tempo passou. A partir dos anos 1950, prédios começaram a enfeiar a bucólica paisagem. Hoje o Guarujá se despersonalizou. Tornou-se uma fileira de edifícios sem alma, encavalados uns nos outros, com diferentes perfis, cores e alturas, a mostrar que nas orlas mal construídas nem sempre é feriado nacional.

É essa paisagem modernosa que tem atraído visitantes domingueiros, com certeza vindos da aglomeração paulistana em ônibus pretado. São turistas de poder aquisitivo modesto, que trazem a própria refeição e pisam a praia só para pegar uma cor e poder fazer inveja à vizinhança na segunda-feira.

A governança do município não tem apreciado nem um pouquinho essa moda. Impôs, a peruas e ônibus, a obrigação de pagar o que chamam “taxa de turismo” entre R$ 926 e R$ 4.630. Os visitantes indesejados, considerando os montantes exagerados, apelaram para a justiça. O tribunal acaba de publicar seu julgamento dando razão aos visitantes: os valores cobrados são incompatíveis com o o objeto da cobrança.

Concedo que, num domingo de sol (ou sem sol, dá no mesmo) é desagradável espreguiçar-se na areia ao som de um potente alto-falante que toca músicas que você não teria escolhido. Só que o remédio contra isso é mais simples do que impor taxas tão escandalosamente dirigidas contra visitantes pobres. Basta o município proibir que se toque música com alto-falante na praia. Hoje em dia, todos têm um celular e um par de fones de ouvido, pois não?

Esses domingueiros gesticulam, riem, brincam e falam muito alto? Pois acredite que não estão alegres porque são pobres – há muito bacana que, embora sizudo e mal-humorado, solta palavrão o tempo todo. Em voz bem alta, o que incomoda do mesmo jeito.

Quem considerar essa convivência insuportável, tem outra opção. Aos domingos, em vez de ir à praia no Guarujá, dê uma esticada até São Sebastião e combine com um barqueiro que o leve até uma praiazinha deserta, do outro lado da ilha, lugar paradisíaco onde dá pra sonhar que se está em Tahiti.

Mas, se quiser voltar inteiro, não se esqueça de levar um bom repelente contra mosquitos, pernilongos e muriçocas.

COP30: os zigues e os zagues

José Horta Manzano

Vamos fazer de conta que a COP30 é um zigue-zague. Vamos combinar as regras do jogo? Digamos que o zigue é o positivo, o que vai pra frente, são passos que seguem as regras do jogo. Já o zague é o negativo, o que vai pra trás, são decisões que contrariam as regras e fazem o jogo fracassar.

Quinta e sexta, nos preliminares da COP de Belém, presenciamos muito oba oba. Dirigentes do mundo todo, reis e rainhas, Macron tietado na avenida, o Príncipe de Gales, mão no coração, declarando-se encantado com o Brasil. Mas o tapete vermelho durou só dois dias. As excelências se foram e entregaram a arena aos que aqui vieram para o trabalho de salvar a vida no planeta da autoextinção que se aproxima.

Zigue
Foi num arroubo, provavelmente irrefletido, que o presidente Lula propôs que a COP30, atribuída ao Brasil, se realizasse em Belém. Segundo ele, o propósito desse tipo de reunião combinava com um ambiente amazônico.

Zague
No entanto, ao propor Belém, Lula deu mostra de que, como muitos conterrâneos, não se dá plenamente conta da utilidade de um congresso desse tipo. Ele parece imaginar que ali se discute unicamente a preservação da floresta equatorial e mais nada. No entanto, o tema é bem mais amplo. O abandono da utilização de combustível de origem fóssil é tão premente quanto o fim do desmate.

Problema colateral não previsto por Lula ao designar Belém: a cidade não está capacitada a abrigar tantos hóspedes estrangeiros ao mesmo tempo. Falta infraestrutura decente, falta alojamento, faltam restaurantes, falta quem pelo menos balbucie inglês. Simpatia é bom, mas não basta.

Zigue
O Brasil tem mostrado aplicação no sentido de que o saldo desse congresso seja positivo e resulte em avanço real da causa. É sempre importante que o anfitrião abrace o tema que estará sendo debatido.

Zague
Continua um mistério o fato de os barões do agronegócio brasileiro não estarem implicados na luta contra as mudanças climáticas. Eles estão entre os maiores interessados. Tanto na agricultura quanto na pecuária, o regime de chuvas é essencial. Sem precipitações regulares, que caiam na temporada certa e em quantidade razoável, não é possível obter boa colheita nem criar gado saudável. Sabendo-se que o gradual desaparecimento da floresta amazônica já está modificando o clima brasileiro, com longas secas e enchentes catastróficas, cruzar os braços para o clima e divertir-se num rodeio é suicídio programado.

Zigue
Bom de bico que sempre foi, o presidente Lula tem feito belíssimos discursos, que incluem até ousados beliscões em Donald Trump.

Zague
A escutar nosso presidente, ninguém diria que ele não vê a hora de fazer os primeiros furos de prospecção de petróleo na margem equatorial. Ele me faz lembrar o bêbado e a equilibrista, sendo que, no caso, o bêbado e o equilibrista são o mesmo personagem. É difícil exercício de equilibrismo entre a proteção do clima e a candidatura do Brasil à OPEP.

Um Zigue para resumir
Está passando da hora de os brasileiros aprenderem, desde a escola elementar, que a proteção do meio ambiente começa em casa, nos pequenos gestos do quotidiano. Plantar uma mudinha no Dia da Árvore é bonito, mas não basta. A água que escorre sem necessidade da torneira, o pão de ontem que, em vez de ser jogado fora, pode ser guardado num saco plástico e esquentado no forno ou na chapa. Há mil e um conselhos que se devem dar a todos para se conscientizarem de que a natureza não está só na distante Amazônia, mas também aqui. Somos todos parte da mesma natureza.

A natureza somos nós!

Aporofobia explícita (e inconstitucional)

José Horta Manzano


“Chegou sem emprego e local para morar, a gente dá a passagem de volta”


A frase, clara como o sol do meio-dia, foi pronunciada pelo prefeito de Florianópolis (SC). Não há como não entender a mensagem: não queremos pobres importados, basta os que temos aqui. Ou há outra tradução?

O nobre alcaide informou que um posto de ‘Assistência Social’ está sendo montado na estação rodoviária. O objetivo não é exatamente prestar assistência aos que chegam atordoados com o burburinho da metrópole. A intenção é barrar ali, na raiz, a entrada de forasteiros indesejados. Os que chegarem sem emprego e sem ter onde ficar serão gentilmente convidados a dar meia volta. De brinde, a Prefeitura oferece a passagem de volta. Não está claro se o infeliz escorraçado terá direito a uns trocados para um pf no Sujinho.

Segundo reportagem do Estadão, o prefeito já negou acolhida a 500 indesejados e os devolveu ao lugar de onde tinham vindo. Seu diagnóstico é cortante: “Não podemos impedir ninguém de tentar uma vida melhor em Florianópolis, mas precisamos manter a ordem e as regras. Quem aqui desembarca deve respeitar as nossas regras e a nossa cultura. Simples assim”.

Aporofobia é termo cunhado por uma filósofa espanhola nos anos 1990. É o medo das pessoas pobres e a rejeição a elas. Em outras palavras, é a hostilidade e a aversão contra os desamparados e os que têm poucos recursos.

A decisão do prefeito de Florianópolis – que suponho tenha sido validada pela Câmara – é ao mesmo tempo aporófoba e xenófoba. Rejeita o pobre e o forasteiro. A desculpa que ele dá, de que os chegantes devem “respeitar nossa cultura” não faz sentido. Se o indivíduo nem bem desceu do ônibus em que viajou, como acusá-lo de “não respeitar nossa cultura”? É desculpa esfarrapada do prefeito.

Não precisa muita imaginação para adivinhar que o prefeito é simpatizante da extrema direita, inclinação política conhecida por pregar a exclusão dos que não se assemelham a um determinado ‘homem ideal’, que varia conforme o país e o período histórico. Na Alemanha dos anos 1930, eram os judeus que destoavam. Em certos pontos do Brasil atual, são os pobres que representam o papel de indesejados. A Florianópolis atual ousou inscrever nas regras a rejeição com que muitos sonham.

PS
O Artigo n° 5, por certo o mais importante de nossa Constituição, reza, em seu parágrafo LXVIII (68): “Conceder-se-á habeas corpus sempre que alguém sofrer ou se achar ameaçado de sofrer violência ou coação em sua liberdade de locomoção, por ilegalidade ou abuso de poder”.

Um advogado esperto que instalasse sua banca ao lado do posto de ‘Assistência Social’ faria fortuna. De fato, a justiça teria de conceder habeas corpus a cada um dos escorraçados, visto que estão sofrendo coação em sua liberdade de locomoção.

“Faria fortuna” é modo de dizer. Infelizmente para o causídico, os rejeitados não têm condições de pagar.

É assim que todos perdemos

Sérgio Rodrigues (*)

O que aconteceu no Rio de Janeiro na última terça-feira (28) devia ficar em nossa história como um marco, “o 28 de outubro”. O dia em que chegou a um patamar inédito de clareza e dor – o Rio sempre na vanguarda – a tragédia da segurança pública no Brasil.

Esse promete ser um dos grandes temas da eleição presidencial do ano que vem, dizem, e parece justo que seja. O que não é necessariamente uma boa notícia. Se precisamos nomear bem as coisas antes de resolvê-las, “segurança pública” é um pântano semântico.

Com muita facilidade esquecemos ou fingimos não ver aquilo que, de tão óbvio, se torna elusivo – que o problema tem raízes na forma como nossas elites sempre delegaram a instituições violentas, das milícias do Império às atuais polícias militares, a tarefa de lidar com a massa de despossuídos fermentada em séculos de escravidão.

Educar, empregar, incluir? Nem pensar. Bater, confinar e matar, isso sim. A “segurança pública” no Brasil nasceu como a segurança de quem tinha posses – a dimensão “pública” era sua inimiga. Sendo desmedida nossa desigualdade social, descomunal tinha de ser a violência empregada na tentativa de domar seus efeitos.

Só que essas coisas não são domáveis. A brutalidade primordial antipreto e antipobre que foi uma das vigas mestras da nação brasileira começou a inflamar, a infeccionar, e evoluiu para uma sepse. Hoje as palavras soam como eufemismos covardes: açougueiros são chamados de governadores, e um massacre com 120 mortos em um só dia, de “operação policial”.

A rotina de violência para a qual desenvolvemos uma tolerância doentia, incompatível com qualquer projeto nacional decente, virou solo fértil para que prosperassem modelos amalgamados de bandidagem, negócios e poder político, a tal ponto que o mal se entranhou no tecido da sociedade – empresas, instituições, governos, parlamentos.

Eis por que uma eleição presidencial pode não ser o melhor foro para debater a questão. Fixada naquela injustiça social originária, a esquerda tem imensa dificuldade de sequer enunciar o problema, enquanto a direita, sempre dobrando a aposta na exclusão e no extermínio com fins eleitoreiros, está condenada a agravá-lo.

(*) Sérgio Rodrigues é escritor e jornalista.

Texto integral
(para assinantes da Folha de S.Paulo).

O sucesso da atrocidade

José Horta Manzano

Ainda não consegui me despedir do drama que se desenrolou num conjunto de favelas cariocas em 28 de outubro. Notem que, por coincidência, foi no dia de São Judas Tadeu, o padroeiro das causas desesperadas. É o santo a quem os devotos se voltam em momentos de grande aflição. Temo que o mal, de tão grande que é, já esteja fora do alcance do santo, que deveria ter sido invocado anos atrás.

O Rio de Janeiro atual cimentou em duas letrinhas – CV – a expressão de um dos polos do crime na cidade. No outro polo, estão as milícias. Entre os dois, se esgueira a população da cidade, quem de carro blindado, quem sacolejando num trem de subúrbio, todos em permanente estado de alerta.

Os que acompanharam as notícias da última semana (e como se havia de escapar?) sabem hoje um pouco mais sobre o funcionamento das duas facções: a miliciana e a dos entorpecentes.

O problema é que hoje em dia todos se acham especialistas em qualquer assunto e se permitem dar opinião em temas que não conhecem. Isso causa cacofonia inútil. Ao final, ninguém avança, ninguém aprende e a ignorância generalizada fica como dantes. Melhor ouvir quem sabe do que está falando.

Gabriel de Santis Feltran é pesquisador brasileiro, professor, mestre, doutor e pós-doutor das áreas de Ciências Políticas e Ciências Sociais. É escritor, poliglota, palestrante e pesquisador junto a Sciences Po (França), Goldsmiths College (Grã Bretanha), Instituto Humboldt (Alemanha). Há vinte anos estuda o funcionamento das organizações criminosas brasileiras, e tem livros publicados sobre o assunto.

Gabriel Feltran foi entrevistado pela Folha de São Paulo. Cito aqui abaixo um trecho da fala dele.

Não há mais tabu em reivindicar explicitamente, e em linguagem popular, o sucesso fulgurante da atrocidade mais cruel. Governantes e secretários inflamados, unidos em uma espécie de gozo doentio, mostraram-se para as câmeras ao final da operação.

Governadores de outros cinco estados manifestaram imediatamente sua cumplicidade política, acolhida na grande imprensa e na opinião pública dominante como uma organização legítima, que em seguida leva adiante sua proposição legislativa imediata de exceção: garantir na lei o extermínio já praticado, transformando qualquer um que seja qualificado como traficante ou membro do crime organizado em “terrorista”.

Basta essa classificação para que se amplie enormemente o contingente das pessoas expostas ao extermínio sumário, em institucionalidade que protege sua fachada democrática. Assim os “narcopesquisadores”, os “narcojornalistas” e o “narcopresidente” podem igualmente ter o mesmo destino dos “narcoterroristas” mortos na favela.

A turma do “eu prendo e arrebento”, assim como os adeptos do “deixa essa meninada em paz” deveriam parar de falar bobagem, e refletir um pouco sobre o que está por trás das manchetes de jornal e das palavras de ordem das redes.

Entrevista integral (para assinantes da Folha)

A assombração da Rússia

Artigo publicado no Correio Braziliense de 29 outubro 2025

José Horta Manzano

Todo país com pretensões ao status de potência global tem de seguir o receituário tradicional, do qual não é possível escapar.

Em primeiro lugar, é preciso ter uma superfície que lhe garanta massa crítica. Se, ao longo da história, países de território pouco imponente chegaram a se impor em campanhas bélicas, a série de vitórias não sobreviveu à escassez de alimentos e matérias primas decorrente da falta de châo.

Em seguida, o candidato a potência tem de investir na indústria bélica. É o que sempre fizeram países tradicionalmente poderosos, e é o que tentam fazer candidatos prejudicados pela pouca extensão territorial, como a Coreia do Norte e o Irã.

Em terceiro lugar, toda potência mundial que se preze tem de contar com população importante. Veja-se o caso da China, cuja população, após décadas de “política do filho único”, decidiu adotar política natalista. Países que miram ao status de potência global não podem se permitir conviver com decréscimo populacional.

A Rússia de Vladimir Putin, herdeira da grande, forte e temida União Soviética, vem empenhando todas as forças na recuperação do prestígio de antanho. De fato, o desmonte da URSS, no início da década de 1990, deu lugar a anos conturbados, durante os quais saltaram à vista as enormes dificuldades que a competição forçada com o Ocidente havia provocado no país.

Em seu reinado, que já dura um quarto de século, Putin se propôs dois objetivos primordiais: 1) permanecer no poder e 2) restabelecer a grandeza do antigo império russo. O boné MAGA de Trump, uma vez transliterado, cairia bem como mote putiniano para a Rússia de hoje, algo como Make Russia Great Again.

Se tivesse vislumbrado o desastre que a campanha da Ucrânia estava por ocasionar, Putin talvez tivesse deixado a ideia de molho para momento mais propício. Na luta para recobrar o status de potência global, perdido há 35 anos, o ditador russo conta com dois aliados fiéis: a imensa superfície e o potencial bélico de seu país. Da área, não se discute, visto que se trata do maior país do mundo. Da indústria bélica, tampouco, visto o poder de dissuasão de seu arsenal nuclear.

Mas essa conta não fecha. Para complementá-la, um forte contingente populacional está faltando. Se a Rússia já assistia a um declínio de seu número de habitantes estas últimas décadas, a agressão contra a Ucrânia e a guerra que daí decorreu vêm agravando a crise. Um levantamento vazado do ministério russo da Defesa no começo do mês informa que, entre os combatentes, 280 mil perdas teriam sido registradas só nos primeiros nove meses deste ano. Note-se que os mortos são em geral homens jovens, na faixa dos 25 a 39 anos, idade em que se entra de pé firme na vida ativa de trabalho.

Sangria adicional está ocorrendo em outra camada da população, na classe média superior. Os homens em idade de ser recrutados fogem do país e emigram para países da vizinhança ou até para o sul da Ásia ou para a Europa. Algumas projeções estimam essa emigração a um milhão de cidadãos só nos primeiros dois anos da guerra.

Um cruel círculo vicioso está formado. Quanto mais tempo dura a guerra, maior será o fluxo emigratório e mais dramáticas serão as perdas humanas. Uma guerra de trincheiras, como essa, precisa de carne de canhão, o que tende a causar maior morticínio entre os conscritos e a encorajar a emigração. A seguirem as coisas como estão, não é tão já que Putin porá fim ao espectro do despovoamento de seu país.

A voluntariosa entrada de tanques de guerra russos em direção a Kiev nos primeiros dias da invasão botou medo em muita gente. Muitos imaginaram rever o grande exército vermelho, aquele que tinha fincado a bandeira da URSS no topo do Reichstag, em Berlim, em 1945. No entanto, contrariando todos os prognósticos, os corajosos ucranianos conseguiram a proeza de repelir os tanques e salvar a capital de seu país.

A força bélica da Rússia reside em seu arsenal de mísseis e de ogivas. A imagem que se tem das tropas de solo saiu meio arranhada depois da campanha (e da retirada) de Kiev.

O melhor impulso que Putin poderia dar a seus sonhos de grandeza seria decretar já o fim das hostilidades, equipar e treinar melhor seus soldados e adotar uma política de abertura do país à imigração. Sem essas medidas, sua quimera de reaver a grande Rússia estará cada dia mais distante da realidade.

Operação especial

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José Horta Manzano

Ninguém manda centenas de policiais bem (ou mal) treinados para a frente de batalha sem razão. Se os chefes militares que organizam e coordenam as ações do BOPE (Batalhão de operações policiais especiais) conceberam uma “operação policial especial” da magnitude da que ocorreu ontem no Rio de Janeiro, é porque tinham antes pesado os prós e os contras, medido riscos, avaliado ganhos e perdas, e considerado que a ação fazia sentido e valia a pena.

O balanço oficial – notem bem: oficial, estampilhado pelo governador do Rio – era, até a manhã desta quarta-feira 29, de 64 mortos. Acontece que moradores da região da batalha campal se deram as mãos, foram à mata que faz limite com a zona, e lá recuperaram mais de 50 mortos extras. Um por um, trouxeram os cadáveres até um descampado em meio às ruas estreitas e alinharam todos ao rés do chão.

Esses populares relatam que bom número de mortos apresentavam uma única ferida: um tiro na nuca, prova de que não tinham tombado na luta, mas tinham sido vítimas de execução sumária à moda chinesa. De fato, ao observar várias fotos dos corpos alinhados de costas para o chão, não notei nenhuma marca de ferida. Ou morreram com bala pelas costas, coronhadas ou foi tiro na nuca mesmo.

Até o meio-dia de quarta-feira, apesar da descoberta dessas dezenas de cadáveres que tinham sido abandonados na mata, o balanço oficial continuava inalterado, marcando o mesmo número de vítimas da véspera. Parece que as autoridades, agora constrangidas, não tinham previsto que os corpos largados na mata seriam encontrados tão cedo.

Numa elegante declaração, o governador do Rio elogiou a ação e foi taxativo: “De vítimas lá, só tivemos os policiais”. Em poucas palavras, pôs à mesa um concentrado de seu modo de pensar, que é o mesmo de muitos brasileiros, em especial os fãs de um certo ex-presidente, agora presidiário.

A “operação especial” conseguiu quebrar um sinistro recorde que se mantinha havia 33 anos. Foi, de fato, em outubro de 1992 que uma expedição policial exterminou 111 presidiários na Penitenciária do Carandiru, São Paulo. A carnificina de ontem acaba de provocar mortandade ainda maior.

Supondo que os policiais não fizeram essa incursão à toa, vem a pergunta inevitável: qual era mesmo o objetivo da operação?

Esse objetivo seria:

  • Provocar dezenas, centenas de mortos e dizer que eram todos bandidos?
  • Impor-lhes uma pena capital vetada pelas leis do país?
  • Diminuir o número de integrantes das facções cariocas?
  • Dar um susto nessa “gente morena” e tirar-lhes a vontade de traficar?
  • Mostrar à população que as autoridades estão vigilantes?

Se alguma alma bem-intencionada tiver uma ideia, mande cartinha para a Redação.

PS: Enquanto houver demanda de entorpecentes por parte da população, haverá sempre quem os forneça. Atrás dos eventuais traficantes trucidados, virão outros. E mais outros. E muitos mais.

O extremista caolho

José Horta Manzano

Não sei por onde andavam os extremistas de direita quando os de esquerda explodiam estações de estrada de ferro, sequestravam artesãos e matavam indiscriminadamente nos anos 70 e 80. Isso foi na Europa, mas até no Brasil, num tempo em que a vida andava muito vigiada e reprimida por aqui, esquerdistas extremados empreenderam ações ousadas e mataram gente.

Calada naqueles anos, a extrema direita só deu o ar de sua graça a partir dos anos 2010, coincidindo com a subida ao poder de Trump, Bolsonaro, Orbán e outros colegas europeus. Veio tarde, mas veio com força. Como prova disso, vejam o estrago que tem provocado no Brasil e no mundo. Bem tudo isso mostra que, independentemente da ideologia, a violência pode estar presente, basta cutucá-la com vara curta.

Direitistas extremos têm traços comuns com seus contrapontos da extrema esquerda. O desinteresse pelas grandes causas do país é um deles. O tarifaço de Trump dá mostra interessante. Para efeito de argumentação, vamos passar por cima dos capítulos iniciais da novela. Vamos direto ao capítulo mais recente, o encontro entre Lula e Trump.

O sucesso das tratativas, pelo menos até o momento atual, trouxe um alívio a inúmeros brasileiros. Muitos de nós estávamos assustados e apreensivos com o que estava acontecendo, cada um por um motivo. Uns temiam que sua pequena empresa exportadora fosse à falência, outros receavam perder o emprego, outros ainda se sentiam profundamente incomodados com o ataque intolerável à soberania nacional. Todos se sentiram aliviados de saber que as negociações iam no bom sentido.

Todos, não! A reação de bolsonaristas e de outros integrantes da direita extrema foi esquisita. Calaram-se e submergiram. Pior: tentaram (e continuam tentando) menosprezar e minimizar o que aconteceu na Malásia, que não lhes parece importante.

Ora, esse comportamento demonstra que certas pessoas não têm capacidade de enxergar além da ponta do nariz. Este escriba, que não é petista nem nunca foi, percebe que as tratativas entre EUA e Brasil estão indo no bom sentido. E festeja, porque, do jeito que as coisas vão, o final deve ser bom para brasileiros e americanos.

Não vejo por que razão eu deixaria de aplaudir iniciativas tomadas por políticos com quem nem sempre concordo, mas cuja ação me parece boa para todos. Infelizmente, parece que os extremistas, engessados por uma visão caolha, não têm capacidade de vislumbrar a grandeza de uma visão alargada do mundo. É pena.

O fim do dólar

by Gilmar Fraga (1968-), desenhista gaúcho

José Horta Manzano

O que Luiz Inácio já deu de declarações estapafúrdias não está escrito – como se diria em linguagem coloquial. Por ignorância, por excesso de autoconfiança, por entusiasmo momentâneo incontrolado, ou seja lá qual for a razão, já foram dúzias e dúzias de falas machistas, fora de contexto, ofensivas, errôneas, incompreensíveis.

Uma delas, que certamente deixou o interlocutor sem jeito. Foi em 2007, quando George Bush (filho) estava de visita por aqui. Desinibido, Lula quis dizer que as conversações entre Bush e ele estavam avançando bem. Usou os termos seguintes: “Estamos andando com muita solidez para encontrar o chamado ponto G e para fazermos alguma coisa”. Acompanhou as palavras de uma risadinha maliciosa. Bush esboçou um vago sorriso e ninguém ficou sabendo se ele entendeu a pesada alusão. O público americano certamente não entendeu, mesmo porque o locutor da transmissão omitiu esse trechinho.

Estes dias, em Djacarta, às vésperas de um possível encontro em tête-à-tête com Donald Trump previsto para ocorrer em Kuala Lumpur (Malásia), Luiz Inácio fazia um discurso ao lado de seu anfitrião, o presidente da Indonésia. Entre os afagos e as flores, Lula voltou a bater na tecla do abandono do dólar nas transações externas do Brasil, um de seus cavalos de batalha.

Não era o momento e nada exigia botar o assunto sobre a mesa, mesmo porque não consta que a aposentadoria do dólar esteja entre as prioridades indonésias. Mas Lula fez questão de levantar o tema, resoluto como de costume.

Nas redes, não sei se houve eco, mas os analistas que li e ouvi estavam contrariados. Reclamaram todos que não era hora de falar nisso, especialmente a poucos dias do encontro com Trump. O presidente americano é frontalmente contrário a toda tentativa de contornar o dólar e uma vez alertou os incautos que, se insistissem, perigavam receber tarifas de 100%.

Sei que Luiz Inácio é impulsivo. Sei também que o funcionamento do mundo não é exatamente sua especialidade. Assim mesmo, sei que não é tonto. Aliás, neste particular, se distingue do ex-presidente Bolsonaro. Assim, acredito que, se introduziu em seu discurso considerações aparentemente fora de contexto, não foi por descuido, mas com intenção.

Acrescentar mais uma camada aos diferendos entre o Brasil e os EUA bem às vésperas de encontrar o “ogro” pode ser uma estratégia. Ousada, sim, temerária até, mas calculada. Funciona assim.

Em toda negociação, como a que vai haver, há sempre trocas tipo toma lá dá cá. A abolição do dólar como moeda das trocas internacionais é muito mais uma birra pessoal do Lula do que um objetivo do comércio exterior brasileiro. Dado que não é moeda conversível, o real não pode ser usado como moeda internacional. Portanto, que seja o dólar, o yuan, o euro ou o franco suíço, será sempre necessário adquirir moeda estrangeira para comerciar.

Na hora do toma lá da cá, é interessante ter na pauta alguns itens que atrapalham nosso interlocutor, mas que não são realmente importantes para nós. Assim, poderemos sempre nos comprometer a não mais reclamar o fim do dólar em troca desta ou daquela concessão da parte adversa. Por exemplo, podemos prometer tirar de pauta nossa birra contra o dólar em troca do abandono, por parte de Trump, de sanções contra autoridades brasileiras.

Se a inclusão da fala sobre dólar no discurso de Djacarta tiver seguido essa estratégia – e espero que assim tenha sido –, foi boa ideia. Mostra que há esperança sempre, e que o governante de espírito empedernido sempre acaba aprendendo.

Os imigrantes e o pilantra

Donald Trump by Donkey Hotey

José Horta Manzano

Já antes de assumir o mandato, Donald Trump tinha prometido limpar os Estados Unidos de todos os imigrantes ilegais. Muitos imaginaram que não passasse de bravata, que o sistema funcionaria em rotação contínua: cada ilegal expulso seria rapidamente substituído por novo imigrante.

No entanto, as investidas do governo contra comunidades ibero-americanas têm sido tão incisivas, que o fluxo de clandestinos rapidamente diminuiu; hoje não se ouve mais falar em “invasão” de gente morena e pobre.

Na época em que se declarou hostil a todos os imigrantes pobres, Trump argumentou que eram todos assassinos, ladrões e estupradores. Quando alguém chamou sua atenção para o fato de nem todos serem fora da lei, Trump teria respondido que alguns eram, e que, ao expulsar todos, os bandidos também seriam expulsos.

Algum tempo atrás, um Brasil meio constrangido ficou sabendo das estrepolias de um aventureiro, filho de brasileiros mas nascido nos EUA, que se içou ao posto de deputado federal por Nova York. George Santos é o nome do rapaz, hoje com 37 anos. Já eleito, os podres de seu passado começaram a aparecer.

No Brasil, mentiras, declarações falsas e malversações com dinheiro de campanha eleitoral podem parecer de menor gravidade, mas, nos EUA, são imperdoáveis. Além de perder o mandato, o moço foi julgado e ganhou uma sentença de sete anos de cadeia.

Quinze meses se tinham passado desde seu encarceramento quando Mr. Santos, espertalhão escolado, decidiu escrever carta aberta ao presidente Trump. O texto, escrito em linguagem melosa e bajuladora, pedia clemência ao chefe do Estado. Parece mimimi de brasileiro, mas, comportamento raro nos EUA, impressionou o presidente. E acabou dando certo.

Donald Trump escreveu uma mensagem na sua rede social Truth Social com o texto seguinte:


“Ele era meio pilantra, mas há muitos pilantras em todo este país que não são condenados a cumprir sete anos de prisão. Pelo menos, Santos teve a Coragem, a Convicção e a Inteligência de SEMPRE VOTAR NOS REPUBLICANOS! Na prisão, George esteve no isolamento por longos períodos e, segundo todos os relatos, foi terrivelmente maltratado. Portanto, acabei de assinar um indulto, libertando George Santos da prisão IMEDIATAMENTE. Boa sorte, George, tenha uma linda vida!”


Desta vez, Trump inverteu o raciocínio que havia utilizado com relação aos imigrantes clandestinos. Para os imigrantes, ainda que a grande maioria fosse de gente boa e bem intencionada, expulsavam-se todos, assim os bandidos iam embora também. Já no caso de George Santos, é o contrário. Já que não dá pra mandar todos os pilantras para a cadeia, solta-se o pilantra preso, pois é injusto manter um preso e deixar tantos soltos.

Raciocínio esquisito? Também acho. Mas vamos em frente, que atrás vem um montão de gente.

Ocidente

Ocidente

José Horta Manzano

No curto espaço de tempo que durou a passagem de Lula por Roma, alguns dias atrás, jornalistas do milanês Corriere della Sera solicitaram e obtiveram entrevista exclusiva com o presidente.

Como costuma se comportar diante de questionadores estrangeiros, Luiz Inácio se mostrou escandalizado. A razão foi exposta numa comparação numérica que, apesar dos ares de tirada ex abrupto, já veio preparadinha e decorada. Lula explicou que o dinheiro que o mundo gastou com armamentos em 2024 foi US$ 2,7 trilhões, sendo que, ao mesmo tempo, 673 milhões de seres humanos padecem com a fome.

Ao menos, essa verdade precisava ser dita por alguém. E dá até um pouco de orgulho que seja o presidente de nosso país que cuida de contar isso ao mundo. Talvez não dê em nada, talvez o mundo continue gastando trilhões em armas enquanto pobres morrem de fome. Mas ninguém poderá dizer que não tinha sido avisado.

Prefiro um presidente pronunciando esse tipo de frase, em vez de um ex-presidente que, quando de uma viagem à mesma Itália alguns anos atrás, teve de bater papo com um garçom, dado que nenhum dirigente queria conversa com ele.

Mais adiante na entrevista, o jornalista abordou a aproximação entre Lula e Donald Trump. Nosso presidente mostrou-se otimista quando à evolução dos contactos e argumentou que lhe parece natural “as duas maiores democracias do Ocidente” manterem relações amistosas.

Quem não concorda? Se alguém tem sido contra essa aproximação, é justamente o próprio Lula, com seu antiamericanismo ginasiano. As sanções trumpianas só vieram dar a estocada final nos “200 anos de amizade cordial”. Agora, passada a tempestade, parece que nos encaminhamos para nova fase de bonança.

Não sei quais são os países que Luiz Inácio inclui em sua noção de Ocidente. O Brasil e os EUA, isso é certo. Quais outros? Inclui a Europa? O Japão? As antigas colônias britânicas da Oceania? Não ficou claro.

Acredito que certas correntes de nossa diplomacia entendam o termo Ocidente como indicação rigorosamente geográfica. Pertencem ao Ocidente todos os países situados a oeste do Meridiano de Greenwich, ou seja, basicamente as Américas. E pronto.

O problema é que esse entendimento excluiria a Europa inteirinha do mundo ocidental. E excluiria também, deixando transparecer certa dose de má fé, uma dezena de países africanos situados totalmente no hemisfério ocidental.

Na Europa, a abrangência desse termo é diferente. Por Ocidente, subentende-se a Europa inteira (excluindo Rússia, Bielo-Rússia e Ucrânia), o Japão, a Austrália, a Nova Zelândia, os EUA e o Canadá. Mais ninguém. Estou de acordo que é um entendimento meio torto, que junta doze frutas diversas e chama o conjunto de “uma dúzia de laranjas”. Mas é com esse significado que se usa o termo Ocidente, quando se refere ao conjunto de países mais desenvolvidos.

Talvez os digníssimos assessores de nosso presidente concordem que é o momento de fazer uma ligeira correção no discurso do presidente. Em vez de “as duas maiores democracias do Ocidente”, que ele diga “as duas maiores democracias do Hemisfério Ocidental. Não muda quase nada, mas muda tudo.

Quem matou Odete Roitman?

José Horta Manzano

Em 1988, de férias no Brasil, devo ter assistido a algum capítulo da novela Vale Tudo (edição original). Me lembro da forte atração que o folhetim exercia sobre a população. Ninguém falava mais de Plano Cruzado, caçar boi gordo no pasto, ser fiscal do Sarney, essas fixações da época. A empolgação provocada pela novela abafava todo o resto.

Espertos, os autores faziam circular as notícias antes que acontecessem na tela, que era pra dar um spoiler chamativo. De antemão, o Brasil inteiro sabia que a protagonista ia ser assassinada com três tiros em tal capítulo. Apesar disso (ou talvez por isso mesmo), ninguém perdia o tal capítulo. O mesmo estratagema funcionava para desvendar o nome do homicida. O país parou para saber quem tinha sido.

E olhe que os tempos eram difíceis. O ano de 1988 registrou 1.000% de inflação (mil por cento!), valor inimaginável nos dias de hoje. O cidadão que não tivesse grandes posses pererecava para chegar ao fim do mês. Os preços aumentavam diariamente. Salários eram reajustados todos os meses. Lá pelo dia 20, ainda ninguém sabia quanto ia receber no contracheque. Era um verdadeiro sufoco.

Logo, uma novela que tenha impactado a ponto de fazer parar o país era… de se tirar o chapéu. É verdade que, num tempo pré-diluviano em que internet ainda não existia, os divertimentos se resumiam ao domingo no parque e à novela diária.

Quase quarenta anos se passaram. Na política, o Brasil levou uns trancos feios, mas o que mudou mesmo, de lá pra cá, foi a popularização da internet, com telefones celulares e redes sociais. O panorama hoje é bem diferente.

Longe do Brasil, eu imaginava que não fosse mais possível uma novela se tornar popular a ponto de sobrepor-se a assuntos bem mais sérios. E não é que uma Vale Tudo requentada tem provocado os mesmos efeitos da dos anos 1980? Fiquei pasmo. Agora, que o folhetim se aproxima do fim e que a heroína já levou seus três tiros, estão todos em efervescência querendo saber quem é o homicida. Os autores prometem escolher um outro assassino, nem que seja pra variar um pouco e pra manter o suspense.

Soube de um pároco que repreendeu energicamente um fiel que, impregnado da dor que lhe oprimia o coração, pediu ao sacerdote que rezasse uma missa pela alma da defunta Odete. Não sei se a reação do padre foi adequada. Diante de um cristão que navega entre o mundo real e a fantasia, trazê-lo bruscamente à realidade é como revelar a uma criança de 4 anos que Papai Noel não existe. Me parece um ato de violência gratuita.

Soube também que investigadores e delegados de polícia se reuniram numa espécie de competição visando a considerar comos e porquês e, ao final, designar o mais provável assassino. Uma loucura!

E eu que imaginava o brasileiro atual distante desse fervor arcaico. Pensava que a realidade propagada por influenciadores que vendem dicas para maquiagem tivesse curto-circuitado o antigo gosto do brasileiro por peças de ficção. Imaginei que a insistência de discurseiros que debitam loas a este ou àquele político tivesse afastado o público de seu antigo compromisso com a novela das nove.

Aliviado, constato que, apesar das enormes mudanças, no fundo, tudo continua igual. Talvez a diferença maior (e que pouco se nota) é que assistíamos ao folhetim de 1988 dentro de casa, olhos fixos numa telinha de 21 polegadas, janelas abertas para a rua. Já à edição 2025, assistimos sempre em casa, numa telona de 65 polegadas(!), mas com portas e janelas bem trancadas. Vosmecê sabe por quê.

Glanage

José Horta Manzano

Cada terra com seu uso, cada roca com seu fuso – assim reza antiquíssimo provérbio português. É verdade. O youtube está cheio de vídeos filmados, às vezes, por marinheiros de poucas águas, mostrando particularidades e curiosidades daqui e dali. Hoje vou falar de uma prática comum na França, sobre a qual ainda não assisti a nenhum vídeo. Talvez a prática esteja em vigor também em outros países, não tenho certeza. Vou falar do que sei.

Como já sabem meus atentos leitores, os franceses têm palavra para tudo. E usam. Já nós somos menos rigorosos nesse particular. Portanto, na ausência de “similar nacional”, vou usar a palavra francesa e explicar o significado. Vai aqui um glossário dos substantivos (todos masculinos em francês):

Glanage: ato de catar restos que a colheita deixou para trás
Maraudage: ato de furtar antes da colheita
Grappillage: ato de colher no pé ou na planta alheia
Râtelage: ato de colher em terra alheia com uso de ferramenta

Não sei quando começou a ser regulamentado o glanage, mas é prática antiquíssima. Acredito que estivesse codificado já na Idade Média. Trata-se da prática de catar restos da colheita, deixados para trás. As colhedeiras modernas são eficazes, mas sempre deixam cerca de 1% de restos não colhidos. Num plantio de batatas, por exemplo, numa gleba que produz 100 toneladas, ainda restará na terra uma tonelada de tubérculos não colhidos. Vale a pena procurar.

Num belo domingo ensolarado de fim de outubro, quando a colheita da batata já terminou, vale a pena gastar algumas horas com a família (especialmente com as crianças, que vão adorar) remexendo a terra à cata de batata. Quem tiver paciência volta para casa com um saco cheio. Para famílias de poucas posses, é uma economia e tanto.

Condições para o glanage legal

Para ser legal, o glanage tem de respeitar os seguintes pontos:

  •  Após a colheita: Só é permitido “glanear” os produtos que tenham caído ao solo (ou ficado enterrados no solo) ao fim da colheita principal.
  •  À mão: O uso de ferramentas (p.ex: rastelo) é proibido, pois transforma o glanage em râtelage, uma prática não permitida.
  •  Durante o dia: O glanage deve ser realizado durante o dia, à vista de todos.
  •  Em terreno não cercado: É proibido “glanear” em campos fechados com cerca, pois trata-se de propriedade privada.
  •  Respeitar os decretos municipais: Verificar com a prefeitura se algum decreto proíbe o glanage no município.

O que é proibido:

  • Maraudage/grappillage: Colher frutas ou legumes diretamente do pé ou da planta não é glanage, é furto.
  • Uso de ferramentas: O râtelage é proibido.
  • Glanage à noite: É proibido.
  • Terrenos cercados: É proibido entrar em propriedades privadas cercadas.

Recomendações importantes:

  • Peça autorização: Embora a lei permita sob certas condições, é sempre bom solicitar a autorização do proprietário ou do responsável pela terra antes de começar a “glanear”, para evitar mal-entendidos ou conflitos.
  • Respeite as quantidades: O espírito do glanage é recolher o que foi deixado para trás em quantidades correspondentes ao consumo familiar, nunca para comercialização.

Pronto, vosmecê já sabe como funciona na França. Mas não recomendo tentar “glanear” no Brasil. Garruchas, trabucos e carabinas correm soltas por aí. Prudência!

Tanta água!

José Horta Manzano

David Ben Gurion, figura central na história do Estado de Israel e reconhecido como pai-fundador do país, visitou o Brasil em 1963. A viagem, que representou uma importante oportunidade para estreitar laços entre os dois países, passou a ser marcada por um episódio curioso, que até hoje é lembrado em relatos históricos sobre o líder israelense.

Ao voltar para Israel, Ben Gurion, contemplando, pela janela do avião, a vasta e verdejante paisagem brasileira, teria se virado para a esposa e, com semblante pensativo, teria comentado: “Não dá para entender como é possível que um país com tanta água tenha tantos problemas!”. Esse comentário, aparentemente simples, convida a uma reflexão profunda sobre as disparidades entre a abundância natural e os desafios econômicos e sociais que o Brasil enfrentava à época.

A frase de Ben Gurion pode ser lida como metáfora sobre a complexa relação entre os recursos naturais e o desenvolvimento de um país. O Brasil, com suas vastas reservas hídricas — que incluem a Amazônia e as serras brasileiras, com rios que encerram o maior potencial hídrico do planeta — revelam cobiçado tesouro em recursos naturais.

No entanto, ao longo das décadas, nosso país tem-se mostrado incapaz de resolver o desafio da distribuição iníqua da riqueza, a maior barreira ao pleno desenvolvimento da sociedade. A gestão aleatória dos recursos naturais e as distorções na representação parlamentar completam o círculo de correntes que agrilhoam o país e não lhe permitem deixar para trás uma estrutura social que vem dos tempos coloniais.

Em 1963, o Brasil atravessava um período conturbado de instabilidade política, que, aliás, culminaria no golpe militar do ano seguinte. A observação de Ben Gurion, ao admirar as vastas florestas e rios, terá sido uma reflexão sobre como a abundância de recursos naturais não garante, por si só, a prosperidade de um país. A forma como esses recursos são geridos e distribuídos é que é o fator fundamental para o desenvolvimento.

O comentário também levanta questões ambientais, hoje mais relevantes que sessenta anos atrás. De fato, vivemos numa época em que a humanidade aos poucos desperta para o fato de que a natureza depende das pessoas assim como as pessoas dependem dela. É uma via de mão dupla, que assume importância primordial num país como o nosso, cujo imenso território abriga diversidade de frágeis ecossistemas.

O Brasil, com sua sortida biodiversidade e seus vastos reservatórios de água doce, tem papel crucial no equilíbrio ecológico global. No entanto, a exploração desses recursos, muitas vezes sem a devida consideração ambiental, tem gerado problemas sérios de desmatamento, poluição e mudanças climáticas.

A observação de Ben Gurion, feita há mais de seis décadas, permanece relevante até hoje, oferecendo uma reflexão sobre a complexa interdependência entre recursos naturais, gestão política e o bem-estar de uma nação.

O Brasil, apesar de ser um dos países com maior potencial natural do planeta, continua enfrentando desafios significativos para transformar essa abundância em qualidade de vida para todos os seus cidadãos.