Cambalhotas na língua

Ruy Castro (*)

Quando escuto a primeira sílaba, meus ouvidos já entram em alerta. Alguém vai dizer a palavra “especificamente”. É um dos advérbios mais em voga no momento, e cada pessoa o acentua numa sílaba diferente. Alguns carregam no “fi”: especiFIcamente. Outros fazem a língua dar uma cambalhota e põem o peso no “pe”: esPÉcificamente. E há quem tenha de dar um salto mortal sem rede para pronunciar ÉSpecificamente. Só os puristas acentuam direito o “ci”: espeCIficamente.

Outra tendência da nova fala brasileira é a desmoralização do sujeito. Lembra-se dele nos seus tempos de cartilha? O sujeito era aquele termo da oração que formava com o verbo e o predicado uma espécie de Trio Maravilhoso Regina da língua – sabonete, água de colônia e talco. Mas parece que o sujeito, ele não é mais suficiente na frase. As pessoas, elas agora o acoplam a um pronome. O resultado, ele fica assim como você está lendo. Temo que, em breve, os escritores, eles passem a fazer o mesmo em seus textos. E, quando isso acontecer, o leitor, ele vai se dar conta da monotonia da coisa. Aliás, essa monotonia, ela acontece também na língua falada. Mas as pessoas, elas ainda não acordaram para isso.

E a palavra “robusto”? No passado, robustas eram as meninas que tomavam Toddy. Hoje, abundam robustas acusações contra os bolsonaros e não acontece nada. E quem ainda tolera o “simples assim”? Nos anos 80, só os leitores de Paulo Francis, introdutor dessa expressão na língua, a usavam. Agora qualquer pazuello faz uma cara beócia e vasovagal e a emprega para explicar que um manda e outro obedece.

Por sorte, clichês agonizantes como “reto e direto”, “sem querer interromper e já interrompendo”, “zona de conforto”, “ponto fora da curva” e “tudo junto e misturado” já saíram de moda, e só os desinformados ainda os usam.

Claro que a fala do dia a dia, ela é meio assim, tudo junto e misturado, não?

(*) Ruy Castro (1948-) é escritor, biógrafo, jornalista e colunista. Seus artigos são publicados em numerosos veículos.

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