Imbecil

José Horta Manzano

O adjetivo imbecil existia em latim sob a forma imbecillus. Na língua dos romanos, seu significado era diferente do que lhe atribuímos hoje. Era usado para indicar fraqueza de corpo. Em vários textos de Cícero, o adjetivo aparece como qualificativo de homem: homo imbecillus = indivíduo fisicamente diminuído.

É daquelas palavras órfãs que não parecem pertencer a nenhuma família. Sua origem é controversa. Alguns cogitam que talvez pudesse ser formada pela partícula in + becillum, uma forma alterada de bacillum, diminutivo de baculum (bastão). Se assim fosse, a palavra imbecil evocaria a imagem do indivíduo que se move apoiado num bastão. Apesar de simpática, a explicação não é geralmente aceita.

As principais línguas latinas utilizam o adjetivo. Até por volta de 250 anos atrás, ele conservava o valor de fraco de corpo. Aos poucos, foi adquirindo o sentido de fraco de inteligência.

Dado que o burro é um animal simpático (e não mais burro que uma galinha, um sapo ou uma girafa), me dói chamar de burro um indivíduo pouco inteligente. Prefiro imbecil, termo que evoluiu até tornar-se hoje perfeito para designar pessoa com forte déficit de inteligência.

Dois dias atrás, pela enésima vez, doutor Bolsonaro avisou que não tomará a vacina contra a covid, seja ela qual for. Logo ele, que tem a pretensão de tornar-se nosso guia!

Seu universo mental é limitado e não lhe permite enxergar a realidade como ela é. Não se dá conta de que sua ostensiva resistência à vacinação vai influenciar boa parte dos cidadãos, que acabarão fugindo da imunização. E os não-vacinados continuarão a infectar-se entre si, prolongando a duração da pandemia. E a economia continuará sem fôlego. Ora, prosperidade econômica é a chave da reeleição! Mas ele não consegue enxergar isso.

O homem está preso a meia dúzia de ideias que vem ruminando há 30 ou 40 anos. São essas e mais nenhuma.

Acredita ter vocação para ditador e acalenta a tola esperança de que o povo se levante numa guerra civil e o consagre como defensor perpétuo da nação. Isso explica sua fixação em distribuir armas à população.

Homem de poucas letras e de cultura geral indigente, tem visão fragmentária do mundo exterior.

De alguma viagem que possa ter feito no passado, reteve algumas imagens que gostaria de aplicar ao Brasil. Isso explica:

  • 1) sua insistência em tranformar santuários marinhos em resorts tipo Cancún;
  • 2) sua vontade de fazer ancorar na minúscula ilha de Fernando de Noronha naves de cruzeiro que lá despejarão 6000 passageiros de uma vez;
  •  3) sua afirmação de que ‘na Europa, não há mais florestas’, quando se sabe que a cobertura vegetal do território europeu é bem superior à do Brasil – excluída a selva amazônica.

Para falta de cultura, existe remédio. Se se esforçar, o indivíduo pode até cultivar o espírito através do estudo. Lula da Silva, um dos predecessores de Bolsonaro, é, de certa forma, um exemplo. Mesmo tendo chegado à Presidência ignorantão e não tendo estudado nada durante o mandato, manteve o espírito aberto e conseguiu absorver algum conhecimento. Deixou a Presidência, digamos, menos chucro.

Já o déficit de inteligência é mais cruel. É o caso de nosso doutor. Chegou à Presidência ignorantão e de lá há de sair ignorantão. É a sina dos imbecis.

Aquele abraço

Fernando Gabeira (*)

Quando William Shakespeare tomou sua vacina no histórico 8 de dezembro, confesso que o invejei. A primeira coisa que me veio à cabeça foi abraçar, depois de tantos meses, minha filha que vive longe daqui. Imaginei imediatamente quantos abraços e beijos estão congelados a 70 graus negativos, esperando o momento da vacina.

Mas aqui, caro Shakespeare, a vacina ainda é sonho de uma noite de verão. Gostaria também de voltar à estrada, passar longos dias no mato, voltar ao escurecer, com os curiangos voando diante do para-brisa, as primeiras luzes se acendendo na periferia da pequena cidade.

Aqui, William, somos reféns de um governo obscurantista, que não só negou a Covid-19, como o governo britânico no início, mas, ao contrário dele, nunca mudou de posição.

Não vou te cansar com detalhes biográficos. Para quem conheceu Hamlet, o nome Bolsonaro e seus dramas acabariam aborrecendo pela vulgaridade.

O fato é que ele acredita mais num remédio do que na vacina contra o coronavírus. Primeiro, importou da Índia insumos para hidroxicloroquina, e ela encalhou nos laboratórios do Exército. Depois, ao lado de um astronauta, investiu milhões em pesquisa sobre um vermífugo chamado Anitta. Fracasso.

Ele escolheu um general para comandar essa guerra. É um especialista em logística que deixa milhões de testes contra Covid-19 adormecidos num galpão de São Paulo.

Esse general talvez fosse um personagem. Ele acha que o inverno brasileiro do Nordeste coincide com o europeu. E promete comprar vacinas se houver demanda, como se nenhum de nós sonhasse com o seu 8 de dezembro, William.

A única preocupação do homem que preside o país é que a vacina não seja obrigatória. Mas como poderia ser, se levaremos mais de um ano para vacinar todo mundo? Como tornar obrigatório algo que não está disponível? A liberdade será preservada.

Vejo nas redes sociais que seus seguidores temem que a vacina, sobretudo as que trabalham com RNA, possam mudar o código genético. Temem a vacina que você tomou, a da Pfizer, como se depois dela William Shakespeare deixasse de escrever e se tornasse lenhador na cidade de Warwick.

O Brasil talvez seja o único país onde as vacinas têm um peso ideológico. As chinesas são preteridas pelo governo porque são chinesas, têm o olho apertado e podem nos transformar numa multidão de fanáticos do comunismo invadindo as ruas com o livrinho vermelho na mão.

O general que confunde invernos e entraria em mais frias do que Napoleão não se lembrou ainda de comprar as seringas e agulhas, dessas que foram usadas aí, William, nessa terça-feira histórica.

Para não dizer que tudo aqui é cinzento e sem esperança, registro que podemos ver o terno e o vestido que o presidente e sua mulher usaram na posse, em 2019. Eles estão expostos, a entrada é grátis, e foram inaugurados com pompa, discursos sobre estilo e Jesus Cristo, ou como definir as medidas de um enviado dos céus.

Indiferente a tudo, o vírus avança. Nada mais fácil do que enlouquecer um país antes de destruí-lo.

O governo vai amarrar ao máximo o processo de vacinação, simplesmente porque não acredita nele. Em 1904 houve uma revolta contra a vacina. Será preciso uma outra revolta, desta vez para que as vacinas sejam usadas o mais rápido possível.

Será preciso lutar não só para a retomada econômica, mas para que nossas vidas sentimentais sejam reatadas como antes. Isso é até secundário, se considerarmos o número de doentes e mortos que o atraso produz.

Contamos com alguns governadores, o Congresso e o Supremo Tribunal Federal. Não se pode dizer que sejam rápidos ou solícitos para entrar nessa luta. Mas é o que temos. Se for necessário, que se faça uma pressão sobre todos. Pode chegar o momento em que fique claro que não só o vírus, mas a elite burocrática e política brasileira, é um obstáculo de vida ou morte.

Se no combate contra um vírus há tanta hesitação, imagino em casos mais graves como numa guerra. O Exército, que na origem era aliado da ciência, produz um general obscurantista como Pazuello, o presidente que foi escolhido por milhões dedica-se a expor numa vitrine iluminada um terno escuro e o vestido que a mulher usou na posse.

Nem todos os que se sentem mumificados podem entrar num museu. Há critérios: é preciso tempo e história, até para um lugar no museu de horrores.

(*) Fernando Gabeira é jornalista. O artigo reproduzido foi publicado no jornal O Globo de 14 dez° 2020.

O conselho

José Horta Manzano

O aprendizado
O caso se passou no tempo em que eu era funcionário de uma firma. Meu chefe um dia me encomendou um trabalho qualquer. Não me lembro exatamente o que fosse, mas era coisa pouca, um relatório ou algo assim. Eu não estava lá muito disposto a fazer o que ele pedia, então reclamei, disse que tinha muito pra fazer, que o serviço andava acumulado, que aquela semana não ia dar, enfim, enchi de dificuldade.

A essas alturas, benevolente mas sério, ele me fez um sermão: «Olhe aqui, se você não tem vontade de cumprir essa tarefa, está se comportando exatamente como não devia. Com essa insistência em pôr dificuldade, você acaba chamando a atenção para o fato. O resultado é que, amanhã, eu vou me lembrar desta nossa conversa de hoje, e vou cobrar o serviço. E depois de amanhã também. E assim por diante, até que esteja feito. De outra vez que você não quiser fazer algum trabalho, seja esperto: não diga nada, não chame a atenção para o caso. Diga simplesmente que sim, e pronto. Em seguida, se você não executar a tarefa, não tem importância, que eu vou acabar esquecendo.»

O sábio conselho me foi muito útil. Serve tanto para relacionamento entre chefe e subordinado quanto para situações do dia a dia.

Covid na Europa
Tenho acompanhado a evolução da pandemia nos países da Europa. Na maioria deles, o governo tem agido com bom senso. Espertos e bem assessorados, os dirigentes perceberam que o covid era uma excelente ocasião para promover a união nacional. Não deixaram escapar porque, na vida de uma nação, raros são os momentos em que essa união é possível. Acontece quando há ameaça de guerra. Para enfrentar o inimigo externo, o dirigente perspicaz convoca o povo – que passa por cima de diferenças internas e se une no combate ao perigo.

Pois assim foi feito: uma retórica inteligente apresentou a pandemia como poderoso inimigo externo a ser vencido. Os dirigentes que agiram assim cresceram politicamente. Neste momento em que o Reino Unido começa a campanha de vacinação, os habitantes dos demais países europeus, embora ansiosos para estender o braço e receber a picada que salva, não estão em pânico. São gratos a um governo que soube enfrentar a pandemia com transparência e honestidade, e sabem que a vacina virá quando tiver de vir. Têm confiança no governo.

“É tudo histeria e complô!!!”
Charge publicada no jornal alemão Stuttgarter Zeitung

Covid no Brasil
Já em nosso maltratado Brasil, tivemos a desgraça de ter covid e Bolsonaro ao mesmo tempo. É dose cavalar. Desde o início da pandemia, o dirigente-mor não escondeu seus sentimentos: negou a doença, desdenhou dos cuidados básicos de prevenção, tratou o povo de maricas, disse que não era coveiro, incitou os brasileiros à desobediência civil. Para coroar, fez propaganda contra a vacina, pôs medo na cabeça das pessoas, instilou a dúvida.

O resultado é que se vai firmando a impressão de termos na Presidência um homem que não gosta do próprio povo. As pessoas se sentem desamparadas. A estúpida guerrinha da vacina, patrocinada por ele e por seu ministro da Saúde, só faz reforçar o sentimento difuso de abandono. Só o clamor popular é que tem feito o presidente retroceder. Ele vai de recuo em recuo, gerando uma situação constrangedora para ele e angustiante para nós outros. Todos nos demos conta de que, caso esperemos sentados, essa vacina só virá no dia de São Nunca.

De estardalhaço em estardalhaço, nosso dirigente-mor deixou o povo convencido de que não se pode contar com ele. Essa situação criou pânico geral. Governadores, prefeitos, autoridades sanitárias e até o STF se metem no assunto da vacina. Se Bolsonaro tivesse sabido congregar a população num esforço coletivo de combate ao vírus, estaria hoje com aprovação nas alturas. E o povo estaria esperando confiante, certo de que a vacina virá quando tiver de vir. Mas – ai de nós! – ele não quis ou não soube fazer isso.

Vê-se que nosso doutor nunca teve um chefe como o que eu tive, nem recebeu conselho que valha. Ou talvez tenha recebido, mas não entendeu. Dá no mesmo.

Mais um sapo

José Horta Manzano

A pandemia pegou o planeta de surpresa – tanto dirigentes, como dirigidos. Até outro dia, epidemia dessas proporções só se via no cinema. Vira e mexe, aparecia um filme de catástrofe, daqueles em que o mundo era contaminado por alguma poeira chegada do espaço.

Falando nisso, nunca entendi por que razão visitantes alienígenas nos visitariam com intenção de extinguir a humanidade. Imagine só: como é que uma civilização adiantada, capaz de construir nave espacial sofisticada e cruzar zilhões de quilômetros, enviaria discos voadores à Terra com o objetivo de brincar de videogame, eliminando seus habitantes. Pode? Que coisa mais sem pé nem cabeça.

Acontece que a covid não é fruto da imaginação de nenhum cenarista criativo. A doença está aí, e seu alastramento está agindo como revelador do patamar civilizatório de cada povo e da engenhosidade de seus dirigentes.

O Reino Unido dobrou pela direita, começou a vacinar e deixou todos comendo poeira. O número de doses atualmente disponíveis no país é pequeno e não dá, nem de longe, para a população inteira. Mas o simples fato de terem começado a injetar a gotinha que salva abriu a válvula de segurança e deixou escapar toda a pressão acumulada. Agora, os britânicos sabem que há uma luz no fim do túnel; se não for hoje, será amanhã, mas todos terão direito à imunização. No final, é capaz de demorarem meses para proteger toda a população. Mas o que vai ficar na memória de todos é a rapidez com que agiram. E a agilidade.

Não devemos nos esquecer que a Inglaterra começou mal. Quando a pandemia se instalou, o país subiu logo ao primeiro lugar entre os mais afectados da Europa, posição pouco invejável. O primeiro-ministro, imprudente, ainda fez pouco caso da ameaça ao declarar que continuaria a «apertar mãos». Não deu outra: apanhou a covid, foi internado e terminou numa UTI. Escapou por sorte e aprendeu a lição. Seu país virou modelo de eficácia no combate à doença.

Do nosso lado do Atlântico, a coisa foi mais problemática. As três maiores economias das Américas (EUA, Brasil e México) tiveram o azar de contar com um negacionista na presidência. Trump, Bolsonaro e López Obrador desdenharam, andaram de costas, relutaram e resmungaram. Além de não ajudar no combate à epidemia, acabaram atrapalhando. O resultado é que os três países continuam a figurar no topo das estatísticas de contágio e morte.

Felizmente nossos países têm estrutura administrativa diferente da maioria dos Estados europeus. Nosso federalismo, que algumas vezes atrapalha, neste caso foi a salvação. Se dependêssemos apenas dos desvarios de nosso doutor presidente, ainda estaríamos navegando às cegas, sem estatística, sem informação sobre a real extensão da epidemia, todos correndo atrás de comprimidos de cloroquina.

Agora, que o governador de São Paulo anunciou que a vacina está quase pronta, é missão impossível doutor Bolsonaro tentar usar uma aparelhada Anvisa para retardar a homologação da vacina do Instituto Butantã. É mais um sapo que o presidente terá de engolir.

Pérfida Albion

José Horta Manzano

O governo britânico acaba de anunciar que a vacinação contra a covid-19 começa semana que vem em todo o reino. O primeiro lote de 10 milhões de doses já está pronto. Ingleses, escoceses, galeses e norte-irlandeses já estão de braço estendido à espera da picada.

Governo e população dos demais países europeus estão espantados e incomodados. Uns, por acharem que é temerário utilizar vacina nova demais, recém-saída do forno. Outros, por se sentirem despeitados de ver a ‘pérfida Albion’ queimando a largada e deixando os vizinhos (e o resto do mundo) a comer poeira.

Meus distintos leitores hão de estar intrigados com o título deste artigo. Que história é essa de ‘Pérfida Albion’? É expressão pejorativa usada na França para designar a Inglaterra.

Albion, tradicional alternativa para nomear a ilha, faz referência à cor das falésias que se erguem abruptas no litoral de Dover, porta de entrada da ilha para quem chega da Europa continental. O adjetivo latino albus/alba significa branco/a. A propósito, entre nós, essa raiz deu alvo, alvura, alvorada, alviverde, albino, albumina.

White cliffs of Dover: as brancas falésias de Dover

Quanto à perfídia, não é característica geográfica; neste caso, a palavra é pronunciada com entonação de ofensa. Como toda expressão antiga, sua origem se perde na memória. Há conjecturas. Já encontrei longas listas com momentos históricos em que a Inglaterra teria traído a França. Nesse histórico de deslealdade e traição, finco um pé atrás.

Quando há grande permeabilidade entre países vizinhos, é natural que, em momentos da história, haja surgido uma rusguinha aqui, outra ali. Os argentinos, por exemplo, não hão de ter apreciado nem um pouco quando doutor Bolsonaro declarou, mês passado, que a Argentina ‘vai pessimamente mal por causa do comunismo’. Esse foi um ato de deslealdade para com nossos hermanos, uma ofensa gratuita ao povo que, em voto majoritário, elegeu o presidente Fernández.

Desde tempos antigos, a proximidade entre França e Inglaterra tem favorecido as trocas. Trocas de mercadoria, de ideias e… de flechadas. Para o bem ou para o mal, os atritos continuam e hão de continuar por muitos e muitos anos. Excetuando-se uma catástrofe tectônica, os dois países vão continuar sendo vizinhos de parede.

Quanto à vacina, estão todos acompanhando com atenção a evolução da situação em terras britânicas. Se der certo, eles estarão mostrando o caminho a seguir; se der errado, estarão mostrando o caminho a não seguir. Olho neles!

A face sinistra do doutor

José Horta Manzano

Já faz algum tempo que o mundo conhece a personalidade execrável de doutor Bolsonaro – o Trump dos trópicos, como é chamado na Europa. Assim mesmo, sua incompreensível antipatia pelo povo que o elegeu atingiu um pico terça-feira passada. Foi quando demonstrou, ao vivo e em cores, dar importância maior à cruzada que move contra o governador de SP do que à saúde dos duzentos milhões que, em tese, ele devia estar liderando.

A cena de horror não passou despercebida no exterior. Aqui está um trecho do que o portal estatal francês de telecomunicações publicou.

«Alors que le monde entier hier s’enthousiasmait, à tort et à travers, des bons résultats affichés par le vaccin Pfizer contre le Covid-19, alors que les éditoriaux se multipliaient sur “la lumière au bout du tunnel”, “2021 année du vaccin”, etc (on rappellera quand même qu’un vaccin qui doit être conservé à -70° C exclut de facto une bonne moitié de l’humanité qui vit dans des régions reculées et mal équipées d’Asie et d’Afrique), alors donc que le mot vaccin cristallisait tous les espoirs ce mardi, au Brésil, le président Jair Bolsonaro se réjouissait, publiquement, de l’arrêt dans son pays des tests cliniques d’un vaccin de fabrication chinoise.»

«Ontem, enquanto uma onda de entusiasmo varria o mundo inteiro, a torto e a direito, na esteira dos bons resultados da vacina Pfizer contra a covid-19; enquanto os editoriais saudavam “a luz no fim do túnel”, “2021 ano da vacina”, etc. (sem esquecer, assim mesmo, que uma vacina que exige ser armazenada à temperatura de -70°C exclui, na prática, a metade da humanidade que vive em regiões remotas e carentes da Ásia e da África); enquanto o termo vacina cristalizava todas as esperanças nesta terça-feira, pois bem, no Brasil, o presidente Jair Bolsonaro se alegrava publicamente da paralisação em seu país dos testes clínicos de uma vacina de fabricação chinesa.»

Bolsonaro passará – e quanto antes, melhor. Mas, antes disso, ele está tratando de hipotecar o futuro do Brasil. Depois que esse estropício tiver ido embora, vai levar anos pra recuperarmos nossa imagem de país amistoso e bem-intencionado. A desconfiança costuma demorar pra se dissipar.

Mais uma que ganho

José Horta Manzano

Nestes tempos de pandemia, qualquer pessoa sã de corpo e de espírito ficaria eufórica com boas notícias sobre o avanço da pesquisa de vacina. E se sentiria entristecido com notícias más.

Eu disse ‘qualquer pessoa sã de corpo e de espírito’. Não é, à evidência, o caso de doutor Bolsonaro, que festejou a suspensão dos testes de uma das vacinas, determinada em decorrência de um acidente de percurso.

A obsessão de nosso D.Quixote tupiniquim de fugir do perigoso chip comunista, que será inoculado nos brasileiros junto com essa vacina, é maior do que seu empenho em garantir a saúde do próprio povo.

Com um presidente tão amigo, quem precisa de inimigos?

Imagem invertida

José Horta Manzano

Artigo publicado pelo Correio Braziliense em 2 novembro 2020.

Este é um país em que decisões oficiais costumam ter prazo de validade curto. Em outras terras, leis e resoluções que permanecem em cartaz por décadas são a regra; entre nós, são exceção. Não se sabe se seguirá na ribalta o comovente espetáculo com que doutor Bolsonaro nos brindou faz alguns dias, quando açoitou em público seu ministro da Saúde, no sombrio episódio da compra da vacina. Terá sido encenação orquestrada, de caso pensado? Ou passageira explosão de mau humor de um presidente insônico?

Seja como for, quer saia de cena na ponta dos pés, quer termine, barulhento, no palco iluminado do STF, o caso terá sido emblemático desta presidência. Daqui a um século, quando historiadores se debruçarem sobre o ano de 2020, a devastação da pandemia será acareada com o berro do doutor. Berro, sim, pois os códigos da internet estipulam que quem escreve em letras maiúsculas está gritando. Foi o que fez o presidente quando afirmou a seus devotos que não compraria a vacina do Instituto Butantã – que ele chama, com desdém, de «vacina chinesa», por ter sido desenvolvida por laboratório chinês.

Em novembro de 1904, está fazendo 116 anos estes dias, a população do Rio de Janeiro se amotinou contra as autoridades. Fazia tempo que a insatisfação inchava. A causa maior eram as obras gigantescas de modernização, que estavam perturbando a vida de muita gente. Na remodelagem da cidade, muitos tinham perdido a moradia. Os péssimos serviços públicos também alimentavam a zanga da população. Mas a gota d’água foi mesmo a imposição da obrigatoriedade da vacina antivariólica.

Naquela época, a situação sanitária calamitosa da capital dava imagem infeliz da jovem República. Até imigrantes europeus, assustados, zapeavam o Rio e preferiam recomeçar a vida em Montevidéu ou Buenos Aires – fato que contrariava o empenho do governo. Outras doenças castigavam o povo, só que, contra a varíola, já fazia um século que havia vacina. Eis por que, na impossibilidade de resolver todos os problemas de uma vez, decidiu-se atacar por esse lado.

Revolta contra a vacina obrigatória – Rio, 1904
by Leonidas Freire (1882-1943)

O pote, já então quase cheio, entornou. A revolta acabou por envolver militares e gente que nada tinha a ver com a vacina. Até tentativa (frustrada) de golpe de Estado houve. As desordens deixaram mortos e feridos. Tão violento foi o movimento, que obrigou o governo a voltar atrás na imposição da vacina. Não se sabe se há relação de causa e consequência, mas o fato é que, quatro anos mais tarde, uma epidemia de varíola deixaria mais de 6 mil mortos.

Agora, cem anos depois, não é o povo, mas o presidente que se insurge, até com violência verbal, contra um reclamo legítimo e urgente da população. A ordem natural das coisas está invertida. O cidadão comum não está montado em cima de uma ideologia, seja ela qual for. Para esse cidadão, convencido de que só a vacinação lhe dará proteção contra o coronavírus, o importante é vacinar-se logo, pouco importando a cor do passaporte dos cientistas por trás da descoberta. Que se pergunte aos 57 milhões que deram seu voto ao presidente atual o que lhes parece mais urgente: estender o braço pra receber a vacinação liberadora, venha ela de que laboratório vier, ou espichar uma tromba, bater o pé e recusar a «vacina chinesa do Dória». Não precisa nem gastar dinheiro com pesquisa.

É significativa a assimetria entre a desavença de um século atrás e a quizila atual. Em 1904, a população se insurgiu contra uma medida imposta de cima para baixo – o que entra na ordem natural das coisas. Motins, sublevações, revoltas e revoluções costumam ocorrer como reação de insatisfação popular diante de medidas vindas de cima e percebidas como opressivas.

Em 2020, o quadro está invertido. Embora importantes, não são o incentivo de governos estaduais, nem a autorização da Anvisa, nem a pontificação do STF que ficarão na história. O que será lembrado é o descaso para com a saúde dos brasileiros patenteado pelo presidente em pessoa. O governo do Brasil de 2020 é a delirante imagem invertida daquilo que um governo teria de fazer por seu povo. Como dizia minha avó, isto aqui está de pernas pro ar.

Esperava mais

José Horta Manzano

Taí a notícia: «Dois em cada três paulistanos discordam de veto de Bolsonaro à compra de vacina chinesa».

Chamada Estadão, 31 out° 2020.

Dito assim, a notícia parece boa. Afinal, consistente maioria de cidadãos da capital paulista censuram o veto que nosso empacado presidente opôs à vacina chinesa. Não concordam com basear-se na nacionalidade dos pesquisadores para descartar um fármaco essencial.

Analisando bem os números, no entanto, descobre-se o lado preocupante. Se 2 em cada 3 rejeitam, quer dizer que 1 cidadão em cada 3 aprova o veto de de Bolsonaro. Um e cada três aprova! Isso dá uma enormidade de gente.

É afligente perceber que, na maior metrópole do país, onde se supõe que a população seja mais esclarecida e tenha bom acesso à informação, 1 cidadão em cada 3 esteja engolindo a fala primitiva que vem do Planalto.

Fica a desagradável impressão de que: 1) ou a pesquisa está errada, 2) ou esse povo é menos esclarecido do que se imaginava.

Imunidade de rebanho

José Horta Manzano

Você sabia?

Muito se tem falado sobre o conceito de imunidade de rebanho, que também pode ser chamado imunidade gregária, imunidade coletiva ou ainda imunidade de grupo. Há muita gente aplaudindo o método sem saber exatamente do que se trata. Imaginam que a tal imunidade é como mágica que cai do céu, um presente concedido pelo chefe bondoso. Não é exatamente isso.

O conceito já tem 200 anos de idade. Desde quando se popularizou a vacinação contra a varíola, começaram a aparecer os efeitos da imunização coletiva. Já em meados do século XIX, cientistas constataram que bastava imunizar parte da população para conter epidemias de varíola. Não era necessário vacinar todos. Para se atingir a imunização de grupo, os cálculos variam. As melhores estimativas garantem que a imunização coletiva será atingida assim que 60% a 85% dos habitantes estiverem imunizados.

O princípio não é difícil de entender. Parte-se da premissa de que é possível entravar o alastramento de uma doença infecciosa numa população, desde que determinada parcela de indivíduos esteja imunizada, seja por vacina, seja porque já teve a doença e se curou.

De fato, quanto mais aumentar a proporção de pessoas imunizadas, menor será o risco de um não-imunizado apanhar a doença. A partir de um certo ponto, o risco será tão baixo que é mais provável um B-747 cair na cabeça do cidadão do que ele se contaminar. Ao fim de um determinado tempo, a epidemia se extinguirá por si mesma.

Dito assim, é tentador. A gente se pergunta por que é que a maioria dos países está impondo medidas de proteção à população. Ora, que sejam todos deixados à vontade até que se atinja o ponto estatístico a partir do qual o risco de contágio praticamente desaparece! Por que não?

Há uma razão para que as autoridades não tenham decidido assim. É que a implementação do método de ‘abrir as porteiras já’ colide com uma visão humanista da sociedade. Nossa Constituição garante, a todos os habitantes do território, igualdade perante a lei. Nenhum dispositivo legal, portanto, pode contrariar essa pretendida igualdade. Ora, para atingir a imunidade de rebanho, será preciso morrer muita gente. Como assim?

Não é difícil entender. Se soltarmos todos, à vontade, num clima de ‘liberou geral’ antes da chegada da vacina, a imunização não virá por milagre. Será preciso passar muito tempo – meses ou anos – até que se chegue aos 60% ou 85% de cidadãos imunizados. Mas, daqui até lá, é garantido: muita gente vai morrer. Quem? Em primeiro lugar, as populações que correm maior risco: idosos e pobres.

Os idosos formam um grupo de risco porque este coronavírus, ninguém sabe realmente por que, parece ter especial predileção por eles. Quanto aos mais humildes, são os que mais se expõem dado que raramente podem teletrabalhar e todos os dias passam horas e horas espremidos em condução lotada. Portanto, as ‘vítimas colaterais’ do caminho preparatório para a imunidade de grupo são essas: idosos e pobres.

Temos de agradecer aos céus o fato de as determinações de proteção (máscara, distanciamento social, lavagem das mãos, lockdown) terem sido ditadas pelos governadores. Se essas decisões tivessem sido deixadas nas mãos de doutor Bolsonaro, estaríamos caindo feito enxame de pernilongos borrifado com Detefon. À espera de atingir a imunidade coletiva, naturalmente.

A cegueira de nosso presidente sobre esse caminho doloroso que leva à imunidade coletiva sem vacina ficou patente. Sua alardeada religiosidade provou ser só de fachada. Na fé cristã, os valores de caridade e compaixão são básicos – e doutor Bolsonaro mostrou não comungar com eles. Ele tem agido como se presidisse outra nação, não a nossa, castigada pelo maior desastre sanitário dos últimos 100 anos.

Em sua longa e didática fala de 28 de out°, Emmanuel Macron, presidente da França, delineou como será a vida de sua população até dia 1° de dezembro, neste novo período de confinamento para enfrentar a segunda onda de covid. Aproveitou para rejeitar explicitamente esse caminho da imunidade de rebanho por ser ‘contrário aos valores de nossa República’. Concordo com ele.

No Brasil também, o caminho já está traçado. Antes da chegada da vacina, seja o que Deus quiser. Assim que a vacina chegar, cidadãos esclarecidos se imunizarão. Devotos renitentes, se forem coerentes, rejeitarão a vacina. Muitos deles morrerão. É o preço a pagar por esta aplicação tardia das doutrinas eugenistas do século 19: os fracos ficam pelo caminho, enquanto os fortes seguem adiante. Assim, passo a passo, com a colaboração de devotos renitentes, a imunidade coletiva se espalhará pelo país.

Vacina obrigatória?

José Horta Manzano

Em matéria de saúde, cabe ao poder público informar, orientar e aconselhar a população; em seguida, com a informação no bolso, é a vez de cada um decidir por conta própria.

Tirando menores de idade, impotentes e pacientes com problemas mentais, nenhum cidadão deveria ser submetido a nenhum procedimento médico contra sua vontade. Em tese, é assim que funciona em país civilizado.

Por esse princípio, ninguém deveria ser obrigado a tomar vacina. Acontece que, na prática, a teoria é outra. No Brasil, a colossal desigualdade social faz que a informação não atinja com a mesma precisão todas as camadas da população.

O cidadão esclarecido entende facilmente que a vacina – “chinesa” ou não – é a única tábua de salvação disponível contra a epidemia. Já no cidadão humilde, o pavor da injeção pode superar o medo da covid; fugirá da picada e continuará exposto a ser contagiado e contagiante.

Assim, soluções que funcionam em sociedades homogêneas podem não dar certo entre nós. Em alguns países altamente civilizados, vacinação não costuma ser obrigatória. É o caso da Suíça, por exemplo, onde cada um decide por si. No Brasil, deixar total liberdade a todos os cidadãos é caso complicado.

O problema já existia antes da internet, mas o advento das redes sociais e de toda a cacofonia que ela difunde agravou a situação. Hoje, basta um indivíduo – mal informado ou mal intencionado – soltar um boato sobre supostos perigos da vacina, e pronto: logo uma multidão de “fólouers” sai por aí repetindo a mesma asneira. Quando esse indivíduo mal informado (ou mal intencionado) é o presidente da República, a difusão do pânico é mais abrangente.

Agora vem a parte irônica da situação. Quanto mais o presidente esperneia, mais seus devotos repicam o boato e mais gente foge da vacina. Nesse ritmo, o resultado será o alastramento da doença, o que concorre para a superlotação de UTIs e a falência do sistema hospitalar – situação que não interessa a ninguém.

Portanto, o esperneio do presidente surte efeito contrário ao que ele deseja: acaba reforçando a necessidade de impor a vacinação obrigatória, a fim de evitar o colapso da rede nacional de saúde.

É irônico. Mais ainda, é afligente que ele não se dê conta disso.

Visto da China

José Horta Manzano

O inacreditável papelão cometido por doutor Bolsonaro ao declarar, alto e bom som, que não permitiria a compra da “vacina chinesa do Dória”(*) continua levantando ondas muito fortes.

Leio hoje um artigo postado na edição em linha (BR=online) do portal chinês Global Times. O título já dá uma indicação do estado de espírito: Brazil politicizes vaccines, may hurt ties with Beijing – Brazil politiza vacinas, o que pode prejudicar laços com Pequim”.

Entrevistado pelo jornal, o diretor do Centro de Estudos Latino-Americanos da Universidade de Xangai declarou que o principal motivo que leva Bolsonaro a opor-se à vacina desenvolvida na China é o desejo de esmagar um concorrente potencial. Acrescentou que a recusa de Bolsonaro de aceitar a vacina serve também para alimentar sua malta de devotos.

Chamada Global Times, Pequim

Essa leitura não bate exatamente com a que fazemos nós no Brasil, vejam como são as coisas. A gente põe esse ruído todo na conta da falta de educação do presidente e de sua compulsão de abastecer a turba fanatizada. Não nos passa pela ideia que ele tenha, lá no fundo do bestunto, intenção de eliminar a concorrência chinesa. Primeiro, porque ele não nos parece capaz de um raciocínio tão complexo; segundo, porque não vemos de que modo uma grande indústria farmacêutica estrangeira poderia concorrer com o Brasil – afinal, tirando pérolas como Butantã e Fiocruz, todos os laboratórios que consideramos ‘nossos’ são estrangeiros.

Veja o perigo que umas palavras irrefletidas podem representar. Na sequência das desastradas palavras presidenciais, a China já está imaginando que o governo brasileiro teme a concorrência do gigante asiático e, pior ainda, que estamos tentando prejudicar o desenvolvimento do perigoso rival. Quanto mal-entendido! A cabecinha de doutor Bolsonaro é que não é suficientemente desenvolvida pra elaborar raciocínio arrematado como esse.

Mário Quintana disse: “A gente pensa uma coisa, escreve outra, o leitor entende outra, e a coisa propriamente dita desconfia que não foi dita”.

Parafraseando o poeta, podemos imaginar que: “O doutor pensa uma imbecilidade, escreve outra, os chineses entendem outra, e a imbecilidade propriamente dita desconfia que não foi dita”.

(*) Essas são as palavras elegantes de que o doutor se serve para se referir à vacina anticovid, desenvolvida pelo respeitado laboratório chinês Sinovac em colaboração com o Instituto Butantã de São Paulo.

De vacinas

José Horta Manzano

Lê-se a todo momento que a vacina contra a covid está para sair. Russos, chineses, americanos, europeus e até indianos dedicam-se seriamente ao assunto. Cada semana, aparece notícia animadora sobre a vacina: a russa está no ponto; na China só falta o derradeiro teste; os americanos afirmam que a deles estará no mercado antes do Natal. E assim por diante. Tanto falam nisso, que a gente acredita que, sim, um dia virá a vacina.

Algo me escapa, porém. A covid é causada por vírus, um bichinho minúsculo que até sob as lentes potentes de um microscópio eletrônico aparece como uma mancha embaçada, não é? A aids também é dano causado pour outro terrível vírus, pois não? Ora, esta última enfermidade se espalhou pelo mundo inteiro a partir do fim dos anos 70, ou seja, 40 anos atrás. Desde então, muitos laboratórios de pesquisa vêm se dedicando a fabricar uma vacina. Passados 40 anos, não conseguiram.

Como é que é possível ter tanta certeza de que estará disponível, em um ano, vacina eficaz contra a covid, quando se sabe que, no caso da aids, não se conseguiu em quarenta anos?

Faço votos para que encontrem rapidamente (mesmo porque, pessoalmente, no teste de múltipla escolha dos grupos de risco, assinalo três ou quatro quadradinhos). Assim mesmo, sem querer ser profeta de desgraça, fico dubitativo. Vamos torcer.

O vírus vem do morcego?

José Horta Manzano

Você sabia?

O professor Luc Montagnier foi agraciado em 2008 com o Nobel de Medicina por seus trabalhos que, em 1983, tinham levado à descoberta do VIH, o vírus da aids.

Espírito turbulento, o professeur é chegado a uma polemicazinha. Volta e meia, apoia alguma tese ousada, daquelas que encontram resistência por parte da ciência oficial. No começo dos anos 2000, por exemplo, emprestou seu prestígio à defesa de um cientista francês que afirmava que a água tinha uma espécie de memória – realidade difícil de ser comprovada. Naturalmente, a tese foi rechaçada com vigor por uma indignada comunidade científica. É por isso que convém desconfiar quando o professeur vem com mais uma das suas.

Um site francês dedicado à medicina publicou em 16 de abril uma entrevista com Luc Montagnier, na qual ele dá opinião ousada sobre a origem do SARS-CoV-2, nome técnico do coronavírus que assola o planeta. Fala com a autoridade de quem já dirigiu um instituto de pesquisa em Xangai, na China.

Docteur Montagnier formula a hipótese de que a epidemia tenha tido início com o escape acidental de uma cepa de vírus que estava sendo manipulada num laboratório de Wuhan no âmbito de uma pesquisa de vacina contra aids.

Visto o histórico de tomadas de posição polêmicas do professeur, a mídia francesa não deu grande importância; e a internacional, menos ainda. Assim mesmo, a hipótese não deve ser descartada sem análise. Se bem que a missão é quase impossivel, dado que, ainda que a tese fosse verdadeira, Pequim dificilmente reconheceria o acidente. Transparência não é o forte de nenhum regime autoritário.

Quem havia de ficar feliz com a notícia são os bolsonarinhos e os associados do gabinete do ódio. A tese fortalece a narrativa de um “vírus chinês”, (que é como eles se referem ao coronavírus), criado e espalhado pra dar uma rasteira no mundo e impulsionar a dominação chinesa. Mas nenhum deles vai ler . Estão demais ocupados a arquitetar ruindades e tuitar boçalidades.

O vírus e o pão

José Horta Manzano

O surto de coronavírus assusta. Dizem que pegou o mundo de surpresa. Pudera! Alguém estaria suficientemente escolado pra encarar um pesadelo desses sem surpresa? O susto vira pânico quando se descobre que não há remédio contra a infecção.

Estamos acostumados a ter medicamento pra tudo. Tuberculose, sífilis, lepra, poliomielite, sarampo e outros males que flagelaram a humanidade por séculos hoje têm cura e, em certos casos, até vacina imunizante.

De repente, surge um bichinho desconhecido, sorrateiro, oportunista; e todos passam a desconfiar de todos. Se passa alguém de máscara, logo imaginamos que esteja doente. Se alguém tosse ou dá um espirro, logo se afastam todos à sua volta – e ainda olham feio.

Aqui onde vivo, nos supermercados, os pães estão às moscas (força de expressão). Pão sobra mas, em compensação, não se encontra mais fermento. Há duas razões para isso. Por um lado, o confinamento deixa o povo sem ter que fazer; ir para a cozinha amassar pão é excelente remédio contra o tédio. Por outro, muitos preferem agora fazer pão em casa por receio de contaminação; nunca se sabe: alguém pode ter tossido em cima do pão na gôndola.

Não sei se ainda se acha fermento no Brasil neste momento. Se houver, sugiro ao distinto leitor tentar a experiência de amassar e assar o próprio pão. É simples, basta respeitar as regras. Receitas há, aos montes: basta passear pelo youtube. Bom apetite.

Mal de raiz

José Horta Manzano

Tudo indica que o risco oferecido pelo Brasil a investidores ‒ nacionais ou estrangeiros ‒ se esteja agravando. Importante agência de classificação acaba de rever sua apreciação. Considerando que a situação das finanças nacionais se deterioraram de alguns meses para cá, o instituto rebaixou a nota brasileira a um patamar mais próximo do fundo do poço.

Assalto 9Isso é mau porque importantes capitais ‒ cruciais para um país de baixa poupança interna ‒ tendem a migrar para outras plagas. Toda a mídia nacional captou o perigo. De ontem para hoje, o rebaixo da nota foi a manchete mais saliente em todos os jornais brasileiros.

Na imprensa estrangeira, no entanto, outro fato nacional ocupa espaço maior: o assassinato de turista argentina em Copacabana. Em inglês, francês, alemão, italiano ou espanhol, a notícia deu volta ao mundo.

O fato em si já é alarmante e comovente. Era uma turista estrangeira, pessoa de recursos limitados, cuja grande aspiração era conhecer o Rio. Enfrentou viagem de onze horas de ônibus desde sua recuada província argentina até São Paulo. Mais uma hora de ponte aérea e o antigo desejo se tornou realidade.

Chamada do argentino Clarín, 18 fev° 2016

Chamada do argentino Clarín, 18 fev° 2016

O sonho, no entanto, virou pesadelo quando energúmenos, no que se supõe fosse tentativa de assalto, trucidaram a moça a facadas. Estava a poucos metros do hotel Copacabana Palace, emblema da acolhida de nível internacional que o Brasil costumava oferecer.

Situação financeira evolui. Basta os analistas enxergarem uma luzinha no fim do túnel para que a nota de avaliação retorne a níveis mais comportados. O mundo das finanças sobe e desce, é gangorra cíclica, nenhum país tem garantia contra sobressaltos.

Assalto 5Já as incivilidades, a violência e a criminalidade não são cíclicas ‒ muito pelo contrário. São permanentes, constantes, progressivas, crescentes. Criam raízes cada dia mais profundas e resistentes sem que ninguém dê grande importância.

Brasileiros se desassossegam com a coincidência de epidemia de zika com os Jogos Olímpicos deste ano. Não é a melhor combinação de fatores, concordo. No entanto, há que lançar visão mais ampla.

Num futuro próximo, vacina terá sido encontrada contra essa doença. E o problema estará resolvido. Bem mais difícil será, desgraçadamente, encontrar vacina contra a criminalidade. É problema mais profundo que não se resolve botando grade e cadeado na frente de casa.

Frase do dia — 124

«É sabido que os americanos vivem em estado de alerta contra doenças transmitidas por bichos. Lá, as vacinas antirrábicas de cachorros valem por três anos. No Brasil, valem só por um ano. Ou os cachorros brasileiros são viciados em vacinas ou o vício é outro.»

Elio Gaspari, em sua coluna in Folha de São Paulo, 30 mar 2014.