Caminho traçado

José Horta Manzano

Em março último, faz exatamente 6 meses, o Estadão passou a publicar um agregador de pesquisas eleitorais. Com metodologia própria, colhe os dados levantados por 14 diferentes institutos e chega a um resultado depurado.

A ferramenta é interessante, visto que atenua imprecisões, distorções e até dados fora da curva que algum instituto individualmente possa ter publicado.

Consulto com frequência esse agregador. Com respeito às pesquisas da corrida presidencial, tenho notado uma surpreendente constância nos resultados.

 


Em 12 de abril deste ano, bem antes do início da campanha oficial, Lula era creditado com 44% das intenções de voto; naquela altura, Bolsonaro estava com 30%.


 

De lá pra cá, tivemos distribuição de dinheiro a rodo via orçamento secreto, milhões torrados na campanha oficial, propaganda gratuita em rádio e tevê, aumento substancial da mensalidade da Bolsa Família, exposição tímida do projeto de cada um, debates entre candidatos, exposição na mídia, posicionamento firme de figurões (cada um apoiando seu candidato). E qual foi o resultado?

 


Na última atualização, publicada ontem, o agregador mostra Lula com 45% e Bolsonaro com 33%.


 

Constata-se que, pouco mais ou menos, ambos oscilaram dentro da margem de erro. Seis meses se passaram e as intenções não arredaram pé. É notável essa estabilidade. Parece que todo esse frenesi e essa gastança de dinheiro público não serviram para nada.

O astral não deve estar muito alto na equipe de campanha do capitão. Ele continua garantindo que vence no primeiro turno, mas a gente se pergunta qual é a receita para mudar em 10 dias um cenário que está congelado há 6 meses.

A menos que uma catástrofe venha chacoalhar o picadeiro – tipo assassinato, morte súbita, terremoto ou bomba atômica – o caminho parece traçado.

Da infidelidade

José Horta Manzano

Da fidelidade, o dicionário diz que é «característica do que é fiel, do que demonstra zelo, respeito por alguém ou algo». Tem razão, mas falta ainda explicar de onde vem esse zelo, quanto dura e por que acaba. Cada caso é um caso.

Quebra de fidelidade amorosa, praticamente todos sabemos o que é. É raro encontrar quem nunca tenha sido autor, vítima ou coadjuvante. Além disso, zilhões de manuais de autoajuda autopsiam a infidelidade.

Fora do círculo amoroso, numerosos outros tipos de infidelidade correm por aí. A maior parte das pessoas depende de alguma atividade para ganhar a vida. É exatamente onde despendem mais tempo – oito horas por dia ou mais. É natural que as mostras mais frequentes de infidelidade ocorram nesse ambiente.

Na área política, os atores costumam estar particularmente excitados. Quanto mais alta a função, tanto mais exacerbado será o nível de infidelidade. Eleitos que abandonam partidos são multidão. Incontáveis são os que, uma vez empossados, ‘se esquecem’ de promessas de campanha. Viração de casaca é corriqueira. Na presidência da República, então, o fenômeno é especialmente agudo.

Não é coisa nova. Nos tempos do imperador, a infidelidade já estava na moda. A deposição de D. Pedro II, por exemplo, foi resultado de tremenda infidelidade dos galonados que haviam jurado defender o chefe de Estado e a Constituição. Presidentes infiéis para com o eleitorado, sempre houve. Ultimamente, no entanto, o problema parece agravar-se.

Logo em seguida à entrada do novo século, Lula da Silva, alavancado pela promessa de ‘acabar com a miséria’, chegou lá. Ainda há quem acredite que ele compriu o prometido. Não é minha análise. O desempenho do ex-sindicalista foi marcado por senso de oportunismo e soberbo desprezo à palavra dada. Ficou com os milhões e entregou migalhas. Seu programa de transferência de renda não passa de assistencialismo – um curral com entrada e sem saída, que transforma os assistidos em dependentes eternos. O Lula foi infiel às ideias e às esperanças dos que o puseram lá em cima. O resultado foi pífio pra tanta empáfia.

O presidente atual não fez melhor. De natureza paranoica, bombardeia todos os que possam representar ameaça – real ou imaginária. Já metralhou muita gente fina, companheiros de longa data, pessoas que o ajudaram a chegar lá. Todos os dias, o Brasil desperta inquieto e curioso pra saber se nova cabeça rolou.

Taí uma parecença entre as duas figuras mais impactantes deste começo de século: a constância na infidelidade. Se é que é permitido exprimir-se assim. Mas é permitido constatar que ambos têm feito um mal danado ao povo sofrido que tinha depositado esperança neles.