Convencer as pessoas

José Horta Manzano

Em nosso sistema político, o presidente da República encarna simbolicamente o povo brasileiro. Quando ele viaja de visita ao presidente chinês, por exemplo, é como se todos os brasileiros estivessem homenageando Xi Jinping.

Por ser incapaz de entender essa dimensão do poder, o capitão passou anos ofendendo duro dirigentes estrangeiros. Cada invectiva que lançou contra a França, a China e os outros foi captada como se o autor do insulto fosse o povo brasileiro. Daí a repercussão planetária.

Nesse aspecto, Lula é mais comedido. Nestes primeiros 3 meses de governo, não fez declaração pública insultante. Houve um dia em que se soltou numa entrevista entre camaradas. Mostrou rancor contra o ex-juiz Moro. Por causa disso, apanhou tanto que deve ter se emendado. Espera-se que continue bem comportado.

Além de procurar manter a decência esperada de um presidente, Lula retomou uma prática desdenhada por seu predecessor. Inteirado das catastróficas inundações no Maranhão, exerceu seu dever de solidariedade e sobrevoou a área. Foi como se o Brasil inteiro tivesse acorrido para demonstrar compaixão.

Só que… ninguém é perfeito. O Lula operário ficou no passado, não atravessou o milênio. Luiz Inácio, que nasceu e cresceu paupérrimo, está há mais de duas décadas acostumado ao bem-bom. Tirando os meses que passou em cela de luxo em Curitiba, tem levado vida de rei, morando em palácio e cercado de serviçais. A persistência dessa existência afastada do povo tem seu lado perverso: vai desconectando o indivíduo da realidade.


“Precisamos convencer as pessoas que não é possível construir uma casa num lugar que a gente sabe que vai dar enchente”


Essa foi a reflexão de nosso presidente ao sobrevoar a zona alagada. Em sua lógica, ‘alguém’ tem de aconselhar cada sinistrado a abandonar sua casa e se virar para construir em outro local. O Lula ativista de outrora, aquele que puxava greve e arregaçava as mangas por seus companheiros parece morto e enterrado. Desconectou.

O Maranhão é um estado de poucos recursos. Perder a casa (ou estar a ponto de perdê-la) é um drama terrível em qualquer lugar. No Maranhão, então, pode ser ainda mais catastrófico. O raciocínio de Lula me fez lembrar a frase atribuída a Marie-Antoinette, rainha da França, quando viu uma multidão pedindo pão. “Não têm pão? Pois que comam brioches!”. Talvez por não ter entendido o mundo que a cercava, a coitada acabou guilhotinada.

Por certo, Lula não arrisca o mesmo destino. Mas parece não mais entender o mundo dos mais humildes, justamente aqueles que garantiram sua vitória. “Essas pessoas” não precisam “ser convencidas” de que vivem num lugar perigoso, cercado de ravinas (voçorocas) e à mercê do próximo alagamento. Convencidas, já estão. E, se pudessem, já teriam ido pra outro lugar.

É que querer nem sempre é poder. O que se espera do presidente do Brasil, homem de poder, é que apresente um esboço de solução ao problema. As pirambeiras que cercam certas localidades são impressionantes. Há gente morando à beira do precipício – ao pé da letra.

Esses cidadãos não têm de ser convencidos, pois conhecem o perigo. Aquelas casas têm de ser interditadas e os habitantes provisoriamente realojados em local seguro. Em seguida, o poder público terá de indenizá-los e encontrar uma solução para construir casas novas em lugar “que a gente sabe que não vai dar enchente”. Bem longe dos despenhadeiros.

“Convencer as pessoas” é muito bom. Dar a mão a quem precisa é melhor.

Clube da Paz

José Horta Manzano

Faz séculos que a Rússia é uma potência imperial. Ao longo do tempo, agiu como a coroa portuguesa em terras brasileiras: foi, aos poucos, se apossando de regiões extensas e pouco povoadas. O Brasil se expandiu para o Oeste, especialmente na Amazônia; a Rússia se espichou para o Leste, pela Sibéria, até chegar às vizinhanças do Japão e da Coreia.

O desmanche da União Soviética, no início dos anos 1990, permitiu que uma dezena de países vassalos encontrassem o caminho da independência. Esse movimento pôs fim à guerra fria e o mundo imaginou que o risco de conflito mundial tinha desaparecido para sempre.

No entanto, a Rússia – país que nunca conheceu regime democrático – assistiu à ascensão de novo ditador, um antigo pequeno funcionário, de métodos mafiosos mas imensamente ambicioso. Vladímir Putin, é dele que estamos falando. Nos primeiros anos em que comandou o país, o mundo não se deu conta de que ele tinha o objetivo de recuperar territórios perdidos e restabelecer o esplendor da Rússia imperial.

Foi só em 2014, quando invadiu e se apossou da região ucraniana chamada Crimeia, que o planeta de repente se deu conta de que o risco de conflito mundial voltava a ser real. A partir desse momento, a Rússia foi objeto de sanções leves, que não entravaram o funcionamento do país.

Mas o que Putin queria mesmo era a Ucrânia inteira. Declarou que a Ucrânia não existia, que era apenas uma criação do espírito, um país inventado que não passava de um pedaço da própria Rússia e que era governado por um bando de nazistas degenerados. Foi com esse estado de espírito que invadiu o país a fim de anexá-lo.

Agora vamos refletir juntos. Vamos lembrar que o Uruguai já foi uma província do Brasil, no começo do século 19, logo depois do Grito do Ipiranga. Foi só durante três anos, depois nosso vizinho ficou independente. Agora imaginemos que um ditador aboletado em Brasília declarasse que o Uruguai é uma ficção, que não existe, que aquele território é parte do Brasil. E que mandasse soldados, tanques e metralhadoras para tomar o país à força. Dá pra imaginar? Pois foi o que aconteceu com a infeliz Ucrânia.

Da noite para o dia, começou uma chuva de bombas e mísseis aniquilando prédios de habitação, pontes, aeroportos, hospitais, creches, escolas. Sem falar dos campos de lavoura, contaminados de minas e bombas não explodidas que ainda vão matar gente daqui a cem anos. Como reagiria o mundo?

Se o Brasil invadisse o Uruguai, o mundo civilizado certamente se posicionaria em defesa do país soberano invadido. Pesadas sanções econômicas seriam aplicadas com o objetivo de prejudicar o funcionamento de nosso país.

É o que aconteceu na sequência da invasão russa. O chamado “Ocidente” (Europa, EUA, Canadá, Austrália, Nova Zelândia e Japão) uniu esforços para amparar o país invadido. Por motivos que dizem respeito a cada um deles, outros países preferiram abster-se, ou seja, ficaram em cima do muro. Esses motivos podem ser de ordem comercial ou política. Ou ambos.

O Brasil está encarapitado no muro porque precisa de fertilizantes russos e também porque seu presidente tem a ilusão de resolver o problema no tapetão e candidatar-se ao Nobel da Paz. Quanto à China, está aproveitando a ocasião para atrair a empobrecida Rússia para sua órbita e transformá-la em país quase-súdito.

Um Lula assoberbado com os conchavos de Brasília delegou a seu assessor Celso Amorim a missão de levar adiante a ideia do Plano de Paz para acabar com a guerra. Amorim voltou estes dias de uma viagem a Moscou, onde foi recebido por Putin em pessoa, com direito a sentar-se àquela folclórica mesa de 5 metros. Em grandes linhas, apresentou sua ideia ao ditador russo, que se mostrou interessado. Ficaram de se reunir de novo.

Mas um conflito tem dois lados. Cumprida a missão do lado russo, Amorim dirigiu-se a Kiev para falar com a outra parte. Parece lógico, não é? Pois não é verdade, não foi o que aconteceu. Apesar de o presidente ucraniano já ter convidado Lula, ao vivo, para visitar seu país, Amorim se fez de desentendido e ignorou a Ucrânia.

Agora, vamos voltar a nosso terrível exemplo. Suponhamos que o Brasil tenha invadido o Uruguai e continue a martirizar seu povo. Imaginemos também um mensageiro estrangeiro que, a pretexto de pregar a paz entre os que estão em guerra, visitasse somente Brasília, deixando Montevidéu de lado. Falar com uma parte e ignorar a outra. Pode?

Pois foi o que o emissário de Lula fez. Conversou com o agressor e não quis se encontrar com o agredido. É humilhante para a própria Ucrânia, que se sente tutelada por potências estrangeiras, que discutem seu destino sem consultá-la. Curiosa concepção de mediação, essa do governo brasileiro, não?

Que Lula goste ou deixe de gostar, não há muito que conversar para acabar com essa guerra. A condição indispensável para permitir qualquer início de negociação é que a Rússia se retire do território da Ucrânia. Os invadidos não vão sossegar enquanto não expulsarem o derradeiro soldado russo. Afinal, estão defendendo a própria pátria. Antes disso, não faz sentido negociar. Negociar o quê? A entrega ao inimigo de parte do território nacional?

Lula não consegue (ou não quer) entender isso. Talvez esteja sendo empurrado por seu antiamericanismo primário. Talvez ignore a história recente dos países da Europa Oriental. Ou talvez esteja realmente sonhando com o Nobel.

Lula, o caminho não é esse! Chegou a hora de uma correção de rota.

A aposta errada

Folha de SP, 28 março 2023

José Horta Manzano

Alguns integrantes do governo Lula 3 não têm medo de escorregar em público. São daquele tipo de gente que, ao ver uma casca de banana do outro lado da rua, não resiste à tentação: atravessa só pra pisar na casca.

Como é natural, o mais ávido é o próprio chefe, mas ministros não ficam muito atrás. Não sei se se trata de cacoete indesejado que nos vem dos quatro anos de Bolsonaro, mas o fato é que Lula se tem mostrado à vontade pra soltar palavrões em entrevista e pra acusar Moro de malfeitos imaginários. Outro dia, o ministro das Comunicações também se sentiu livre para agredir verbalmente uma jornalista, em entrevista ao vivo pela CNN.

Toda essa energia jogada fora pela janela seria mais bem empregada se canalizada para projetar o Brasil das próximas décadas. Goste-se ou não, o futuro chegará. Visto que o tempo do terraplanismo e da negação acabou, é hora de largar mão de negar a realidade.

Os combustíveis fósseis estão sendo banidos por toda parte. Inúmeras cidades europeias já anunciaram que, já em 2030, veículos com motor térmico serão proibidos de circular. Outras cidades fixaram data ainda mais apertada, como 2025 por exemplo. Poluente e vilão climático, o combustível fóssil está com os dias contados.

Investir para alimentar essa tecnologia é dar murro em ponta de faca. Cada centavo gasto em exploração de petróleo em território brasileiro será um centavo a menos para alavancar o País e trazê-lo ao mundo atual. Ainda que o governo Lula acredite ter mãos de aço, não tem. De tanto dar murros na faca, vai acabar estropiando a mão. Investir em prospecção de petróleo, nestas alturas, é um contrassenso.

Nosso país é ensolarado e ventoso. Temos à disposição, de graça, a matéria prima principal da produção de energia limpa: sol e vento. No mundo, usinas eólicas e parques fotovoltaicos se multiplicam. Na Europa, a invasão da Ucrânia pela Rússia veio acelerar o processo. Na Suíça, por exemplo, tornou-se obrigatório cobrir de placas fotovoltaicas o telhado de toda construção nova.

O que é que o governo Lula pretende? Quer que o Brasil faça concorrência com a Venezuela em matéria de petróleo? Talvez queira também que nosso país siga os passos de Caracas em matéria de decomposição política?

Que deixem o petróleo tranquilo. Um dia, ele pode até vir a ser precioso para aplicações novas, que hoje nem conseguimos imaginar. As futuras gerações agradecerão por não termos queimado essa preciosidade que a natureza levou milhões de anos pra fabricar.

Perguntar não ofende ‒ 9

by Sam Jovana, desenhista mineira

José Horta Manzano

Nas últimas semanas, o Brasil de Lula enviou uma delegação à Venezuela, recusou-se a assinar uma resolução da ONU condenando as violações dos direitos humanos na Nicarágua, permitiu que navios de guerra iranianos atracassem no Rio de Janeiro, recusou-se terminantemente a enviar armas para permitir à Ucrânia se defender da invasão russa.

A pátria inquieta vê surgir no horizonte um Lula bolsonarizado. Além de não desgarrar dos cacoetes do passado, diz palavrões, expõe rancores em público. Tudo vem envolto num bolsonaresco perfume de obstinação.

Para onde ele pretende levar o país?

A armação do Moro

NaniHumor.com

José Horta Manzano

Sabe aquela do tiro que sai pela culatra? Vamos aos fatos.

Houve um momento, faz poucos anos, em que o juiz Sergio Moro era reverenciado por boa parte da população. Tirando petistas de raiz, descontentes com as investigações que mandavam companheiros para a Papuda, os brasileiros estavam animados com a Operação Lava a Jato. Muita gente chegou a acreditar que a “limpa” ia erradicar a corrupção política no país. Moro estava prestes a entrar para o panteão nacional.

Deslumbrado com seu momento de ator, o juiz abandonou a toga e colou em Bolsonaro. Verdade seja dita, a vitória do capitão em 2018 se deve em parte à imagem do Xerife de Curitiba. Muita gente acreditou que Bolsonaro tivesse realmente intenção de enterrar a corrupção. Que nada, enterrou mesmo foi a Lava a Jato.

Escanteado e desprestigiado, o ex-juiz saiu atirando e renunciou à companhia do capitão. Tornou-se ex-ministro. Sua travessia do deserto levou alguns anos. Sem muita esperança, candidatou-se ao Senado em 2022. Foi eleito. Mas o problema é que ele já estava numa espécie de limbo, brigado com Lula e com relação bamba com Bolsonaro.

Tomou posse de seu assento de senador. Não devia estar se sentindo confortável, dado que é hostilizado por lulistas e olhado com desconfiança por bolsonaristas. Estava destinado a passar os próximos anos atolado, uma ex-estrela, um astro apagado.

Eis que de repente, a espuma fria do ódio aflorou à boca de nosso velho presidente. Lula ofereceu a Moro o posto de melhor inimigo. Esta semana, em duas ocasiões declarou em público toda a raiva que ele guarda do homem que o julgou. Como resultado, o antigo astro de Curitiba – que já foi a coqueluche de meio Brasil mas que agora percorria as penumbras do Senado feito alma penada – voltou à ribalta.

Se o Lula continuar a dirigir os holofotes para Sergio Moro (e tudo indica que continuará), dará ao ex-juiz a grande oportunidade de sua vida: eclipsar Bolsonaro e apresentar-se como candidato à Presidência em 2026.

O distinto leitor já imaginou: elegemos o Lula pra tirar Bolsonaro e agora perigamos ter de eleger Moro pra tirar o Lula? Que dança de cadeiras mais extravagante!

Vou ficar bem quando f**** com o Moro

José Horta Manzano

Logo de entrada, vamos relevar o palavreado de botequim (em linguagem moderna: passar pano). No passado, o Lula costumava escorregar de vez em quando, mas Bolsonaro elevou o calão à categoria de linguajar oficial do Planalto.

A pérola que o Estadão destaca na chamada reproduzida acima foi solta pelo presidente em extensa entrevista concedida à TV Brasil 247, rodada em pleno Palácio do Planalto.

As tristezas e as mágoas que persistem no coração do presidente são legítimas. O ressentimento que ele guarda contra o juiz que o condenou é compreensível. O Lula tem direito de desabafar com família e amigos. Já falar disso ao grande público é outra coisa.

Quando o presidente revela a todos os brasileiros a sede de vingança que lhe rói a alma, comete uma imprudência e dá um tiro no pé. Sem obter vantagem nenhuma.

A imprudência é a ameaça velada externada contra um hoje senador da República. Não sei que tipo de ameaça se esconde por trás do termo f****, mas coisa boa não é. Se amanhã algo feio acontecer com Moro, muitos olhares hão de se voltar contra Lula.

O tiro no pé é mais grave. Logo no discurso de vitória proferido na noite do segundo turno, Lula prometeu governar para todos os brasileiros (os que votaram nele e os demais) e que era hora de restabelecer a “paz entre os divergentes”. Agora, ao revelar publicamente que carrega um desejo de vingança tão entranhado, o presidente contradiz o lindo pronunciamento inicial e mostra que tudo não passava de palavras vazias escritas por algum discurseiro a soldo.

Ao fim e ao cabo, Lula:

  • mostra uma incômoda proximidade com o antigo presidente, aquela verborragia pesada que muitos gostariam de esquecer;
  • traz de volta o nós x eles, ao alargar o fosso entre dois campos políticos;
  • revela uma faceta inquietante de sua personalidade: tem espírito vingativo.

Além de tudo, Lula perde mais do que ganha. Se a eleição fosse hoje, uma fala desastrada como essa poderia fazê-lo perder sua estreita margem de votos e entregar a vitória ao adversário.

A eleição não é hoje, mas a impressão de ser um presidente rancoroso fica.

Salvo pelo gongo

José Horta Manzano

O culto leitor e a esforçada leitora já tevem ter ouvido a expressão “salvo pelo gongo”. O significado de ‘ser salvo pelo gongo’ é escapar, no último momento, a um perigo ou a uma situação delicada.

Mas… de onde vem essa frase feita? Procurei saber qual é a origem. Nenhuma das fontes tem certeza absoluta da explicação que dá. Mas vamos lá.

Uma das explicações é de arrepiar os cabelos. Recorda que um dos pavores ancestrais da humanidade é ser enterrado vivo. Houve tempos em que, para remediar situação tão sufocante, famílias atavam uma corda ao pulso do defunto, sendo que a outra extremidade era amarrada a um sino (um gongo). Em caso de desconforto, bastava ao enterrado fazer um leve movimento de braço pra tocar o sino, chamar a atenção e ser liberado de tão incômoda situação. De dar medo, não?

Há outras versões. Entre elas, a desventura de um guarda palaciano de Londres que, acusado de dormir em serviço, safou-se relatando que, naquela noite, tinha ouvido o sino desregulado da igreja ao lado soar 13 vezes em vez de 12. “He was saved by the bell” – foi salvo pelo sino (ou gongo).

Todas as explicações são divertidas, mas pouco convincentes. Fico com a que me parece menos fantasiosa. Veja como a edição de 4 agosto 1929 do jornal Folha da Manhã descrevia o final de uma luta de box. (Conservei a grafia e a pontuação do original).


Eugenio e Armandinho abrem a “soirée” com um movimentado combate em quatro assaltos e cuja victoria cabe ao segundo. Juiz foi Cesar. Em seguida sobe Savino e lógo após, Bozzato. Lucta violenta. No terceiro assalto, Bozzato cahe tres vezes por sete segundos cada, tendo sido salvo pelo “gong”.


Foi só nos anos 1920 que a expressão começou a aparecer na imprensa brasileira, sempre relacionada ao pugilismo. Isso parece excluir a medonha explicação medieval. Nas primeiras décadas do século 20, escrevia-se “gong”, grafia fiel à palavra javanesa, provavelmente de origem onomatopaica.

Já a partir da década de 1940, o “gong” foi abrasileirado para “gongo” – que passou a soar também em programas radiofônicos de calouros. Quando o âncora considerava que o candidato era muito ruim, não tinha piedade: tocava o gongo e mandava o infeliz embora.

Hoje em dia, usa-se a expressão pra indicar que um indivíduo escapou por um triz a uma situação cabeluda. O Lula, por exemplo. Com a sorte que o tem acompanhado a vida inteira, está escapando de fininha de um problema espinhoso. Se não, vejamos.

Juscelino dos Santos Rezende Filho, ministro das Comunicações, requisitou jato da FAB sob falso pretexto de comparecer a encontros oficiais quando, na verdade, passeou quatro dias num leilão de cavalos de raça. Recebeu as diárias pelos dias de viagem. Na última declaração, tinha ocultado alguns milhões de reais em patrimônio. Quando deputado, utilizou a verba do orçamento secreto para pavimentar a estrada que conduz a sua fazenda no Maranhão. Enfim, um primor de comportamento. De fazer revirar-se no túmulo o Juscelino original, um dos maiores presidentes que o Brasil já teve.

Seria o escândalo do momento se não tivesse surgido outro de dimensões internacionais: a crise dos diamantes de Bolsonaro. Um escândalo suplanta outro, e o dos brilhantes venceu. A mídia tem se dedicado tanto a escarafunchar o “presente” das Arábias pela frente e pelo avesso, que acabou esquecendo os cavalos árabes do nobre ministro.

Lula foi salvo pelo gongo.

O Brasil está de volta

José Horta Manzano

Ao assumir a Presidência, Lula da Silva proclamou ao mundo: “O Brasil está de volta!”. Depois da maré baixa bolsonárica, que tinha rebaixado nosso país ao status de pária, a fala do novo presidente soou como um bem-vindo tsunami.

Países civilizados (e outros nem tanto) aplaudiram juntos, num coro de aprovação. Feliz, o planeta saudou um Brasil ressuscitado. Luiz Inácio foi convidado por inúmeros países para uma visita. Nesse aspecto, o governo Lula 3 começou com pé direito.

Só que tem uma coisa: embora Lula não pareça estar se dando conta, o mundo mudou muito desde seu primeiro mandato. No tabuleiro global, os atores principais já não ocupam a posição que ocupavam em 2002. A China cresceu incrivelmente e “se empoderou”. Os Estados Unidos continuam na dianteira, permanentemente ameaçados pela China.

A desastrosa invasão da Ucrânia pela Rússia – que Lula qualificou de simples “erro” – desestabilizou o coreto. A Alemanha, maior economia da Europa, abandonou 75 anos de pacifismo e está se rearmando a toque de caixa. Suécia e Finlândia, tradicionalmente neutras, pediram admissão na Otan, uma aliança militar. Os EUA, como haviam feito em guerras do passado, acudiram com forte apoio militar em favor do país invadido. A Rússia, sob pesadas sanções econômicas, dá sinais de estar sentindo o baque.

Até países neutros como a Suíça aderiram às sanções econômicas aplicadas pelos EUA, Canadá, União Europeia, Japão e Austrália. Em Berna, se diz que “neutralidade não rima com indiferença”. A situação é clara. A Ucrânia, um país livre e soberano, com fronteiras mundialmente reconhecidas, foi invadida por um outro país soberano, numa guerra de conquista. Isso contraria as bases da convivência entre nações. Fechar o olho para essa agressão é dar gás à Rússia para seguir invadindo seus demais vizinhos. Quem será o próximo?

Lula não dá mostra de estar entendendo a gravidade da situação. Com sua peculiar visão de política internacional, ele tem mostrado certa incapacidade de entender o mecanismo. Lula consegue distinguir conflitos localizados, como a questão da Palestina, o embargo americano a Cuba, a guerra desencadeada pela Rússia contra a Ucrânia. No entanto, nosso presidente não parece entender que nem todos os conflitos são brigas de rua, que se resolvem com uma boa conversa ou com um jogo de futebol.

O mundo parece estar se dando conta dessa lacuna de Lula. Esta semana, tivemos dois exemplos que convergem para esse ponto.

Tomemos o caso do par de navios de guerra iranianos alegremente amarrados no cais do Rio de Janeiro. Sob o pretexto de que “o Brasil conversa com todas as partes”, o governo autorizou a estadia das embarcações em porto brasileiro. Os EUA já tinham solicitado que o Planalto não permitisse que os barcos acostassem. O Brasil deu de ombros. Agora é Israel, país que os aiatolás declaram ter intenção de destruir, que se dirige a Brasília solicitando que a permissão de amarração seja retirada.

Realmente, fica esquisito um país como o Brasil, que se esforça de promover a igualdade entre todos os sexos, acolher navios de guerra do Irã, país onde mulheres não têm nem o direito de sair sozinhas de casa, e perigam ir parar na cadeia se ajeitarem mal o véu obrigatório. Além disso, o Irã é bom fornecedor de uma parte das armas com que os russos castigam os ucranianos.

Outro caso recente é a conferência de vídeo que se realizou entre Lula e Volodímir Zelenski, a pedido deste último. Vendo que Lula não dá sinais de haver percebido a importância de apoiar a Ucrânia nessa guerra calamitosa, Zelenski convidou seu homólogo de Brasília para fazer uma visita a Kiev. As dezenas de dirigentes estrangeiros que já desfilaram por lá não esperaram convite: foram por achar que era importante. Até Joe Biden foi.

Lula agora não tem desculpa. Até convite oficial já recebeu. Que vá à Ucrânia o mais rápido possível. E que escute com atenção o que o presidente ucraniano tem a lhe dizer e mostrar.

Embora meio atolado em ideologias do passado, Lula já declarou ser “uma metamorfose ambulante”. Chegou a hora de provar. Que escolha seu lado numa disputa em não é permitido ficar em cima do muro. Ou se apoia a democracia ou se apoia a barbárie.

Baía de Guanabara

Lado a lado, IRIS Dena e IRIS Makran
navios de guerra iranianos atracados no Rio de Janeiro

José Horta Manzano

Dias atrás, contei a história dos dois navios de guerra iranianos que percorriam os oceanos à cata de algum porto de certa importância onde lançar âncora e pavonear-se do poderio bélico da república islâmica.

Na Europa, América do Norte, Austrália ou Japão, nem pensar – a porta está trancada. A Rússia e a China, embora mantenham algum tipo de diálogo com Teerã, preferiram que os barcos fossem se exibir em outras plagas. Países pequenos e de pouca reverberação não servem à finalidade a que a marinha iraniana se propõe.

Sobraram as potências médias. A Indonésia permitiu a atracação dos dois navios. Depois disso, o Irã solicitou autorização para entrar em algum porto da América Latina. O Chile recusou. Afim de não criar ruídos com os EUA, o governo brasileiro não quis resolver antes da volta de Lula de Washintgon. Os Estados Unidos pediram que o Brasil não acolhesse os navios, que não têm nada que fazer por aqui.

Aqui entra em ação uma incrustada tendência do socialismo latino-americano, há tempos incorporada pelo lulopetismo: convém rejeitar tudo o que vem dos Estados Unidos. A diretiva é clara e não deixa margem a interpretação. Apesar de estarmos em plena reconstrução da relação Brasil-EUA, esgarçada por Bolsonaro, Lula não resistiu. Preferiu deixar uzamericânu falando sozinhos. Deu autorização aos barcos.

O almirante da miniesquadra iraniana deve estar muito feliz. Afinal, embora não seja a mesma coisa que Nova York ou Rotterdam, o Rio de Janeiro é uma cidade grande, importante, belíssima e conhecida no planeta inteiro. Atracar na Baía de Guanabara não é pra qualquer plebeu.

Os navios já lançaram âncora no Rio ontem, domingo, logo de manhã cedinho. A estadia prevista é de sete dias, até sábado 4 de março. Os barcos, que tinham passado as últimas semanas feito zumbis, vagando por águas internacionais enquanto aguardavam resposta do Brasil, finalmente encontraram um porto de prestígio para atracar. Lula da Silva preferiu alfinetar Biden enquanto dava palco e holofotes à teocracia islâmica, aquela terra simpática em que mulher que não usar o véu obrigatório vai para a cadeia.

Não há de haver grandes consequências, mas é legítimo perguntar se não teria sido mais razoável alfinetar Teerã em vez de Washingon.

Lula nos EUA

by Gilmar Fraga (1968-), desenhista gaúcho

José Horta Manzano

A imensa vantagem de Lula, em qualquer viagem internacional, é que sua fama chega antes dele. No Brasil, ele venceu a presidencial com 51% dos votos mas, se todos os eleitores dos países democráticos tivessem podido votar, ele teria levado com um placar soviético de 80% ou 90%. Em resumo: no exterior, o demiurgo conta com enorme capital de simpatia.

Em matéria de ideologia, Lula continua o mesmo. (Aliás, ninguém costuma mudar – algum ângulo mais pontudo da personalidade pode até ser limado, mas a essência permanece.) Pelas contas, estamos na versão Lula 3.0, mas o presidente continua empacado no ideário que já adotava nos tempos de líder sindical. O antagonismo entre “nós” e “eles” é marca de sua personalidade. O vitimismo do oprimido que se revolta contra o opressor está na base de sua cartilha.

Ele persevera na ideia de que redistribuição de riqueza se faz por decreto – daí a guerra declarada contra a política de juros do Banco Central. Lula realmente acredita que bastaria baixar os juros para eliminar a carestia. Não entende (ou não quer entender) que a economia não é ciência exata, e que qualquer mexida num dos pilares pode fazer o edifício desmoronar. Com juros baixos, capitais estrangeiros que hoje garantem o funcionamento do Estado brasileiro vão fugir em busca de mercados mais atraentes. Acontecendo isso, o governo trava.

Se Biden tocar no assunto da invasão da Ucrânia pelos russos, o fará por pura formalidade. O presidente americano já conhece a posição de Lula e sabe que não adianta insistir. De todo modo, para os EUA, um Brasil “neutro” é sempre melhor que um Brasil “solidário à Rússia”, como Bolsonaro um dia garantiu a Putin.

Lula adora navegar entre siglas que lhe parecem importantes. Sons como OEA, Mercosur, Celac, OCDE, Unasur são bálsamo para seus ouvidos. O Brics faz parte desses clubes. Aliás Lula acaba de indicar Dilma Rousseff para presidente do Banco do Brics, com sede em Xangai (China). A Rússia também faz parte do Brics. Com sua lógica peculiar, Lula acredita que não fica bem o Brasil por um lado, ser sócio da Rússia, e por outro condenar a invasão da Ucrânia. Prefere prestigiar o companheiro Putin, colega de clube, e dar de ombros para o povo ucraniano, que sofre as penas do inferno.

Nosso presidente dá preferência a manter acordos comerciais enquanto fecha os olhos para o massacre intencional de milhões de seres humanos promovido por Moscou no território de um país soberano. É o mesmo raciocínio que o faz apoiar gente asquerosa como os irmãos Castro de Cuba, Nicolas Maduro da Venezuela, Daniel Ortega da Nicarágua, Bachar El-Assad da Síria, os aiatolás do Irã, ditadores africanos.

Lula é considerado humanista. Pois é estranho que um humanista dê preferência a sacrificar um povo inteiro no altar das boas relações entre companheiros, mas a realidade é essa. Parece que a máscara de “pai dos pobres” de Lula é só pra inglês ver.

A viagem a Washington, por seu lado, não vai resultar em grandes avanços nem fortes recuos. Para Biden, será a ocasião de mostrar que o Brasil continua um grande aliado, não armado e não belicoso. Para Lula, vai marcar um início de mandato com pé direito, sendo recebido com honras pelo chefe de Estado mais poderoso do planeta. E os ucranianos que se danem.

Frase que não deveria ter sido pronunciada

José Horta Manzano

O presidente Lula da Silva afirmou nesta segunda-feira que os atos golpistas de 8 jan° representaram

“a revolta dos ricos que perderam a eleição”.

A frase, que ressuscita um “nós x eles” de triste memória, não serve a nenhum público.

* Os que votaram em Bolsonaro não vão passar a apreciar Lula.

* Dos que não votaram em Bolsonaro, a maior parte não vê “ricos” nos vândalos da Praça dos Três Poderes. Ao contrário, enxerga uma tropa de indigentes – físicos e mentais.

* Os que não se encaixam nas categorias acima são os que não costumam ler jornal nem seguir as falas do Lula.

Portanto, a frase faz mais mal do que bem. Parodiando Romário, o Lula calado é um poeta.

Resenha – 4

by Pedro Silva, desenhista português

José Horta Manzano

Descartável
Doutor Anderson Torres, que foi ministro da Justiça aos tempos de Bolsonaro, foi colhido pela PF ao desembarcar de voo que o trazia de volta de suas ‘férias’ em Orlando. Foi então conduzido a um destacamento da Polícia Militar de Brasília onde está preso há três semanas.

Ontem, o doutor deu depoimento. Indagado sobre a minuta de decreto golpista encontrada entre seus guardados, declarou que considera a dita minuta “totalmente descartável” e, mais que isso “sem viabilidade jurídica”.

O doutor não explicou o que é que um papel “totalmente descartável” fazia entre os documentos conservados em sua residência. Se era descartável, deveria ter sido descartado. Por que não o foi?

Ao declarar que o decreto golpista é “sem viabilidade jurídica”, o doutor chove no molhado. Golpe de Estado significa exatamente a quebra de ordem jurídica. Dizer que ele é “sem viabilidade jurídica” é uma evidência, um truísmo.

Em matéria de esclarecimento, o depoimento foi de soma zero.

Do porão
Assustado com as múltiplas tentativas de golpe de Estado que permearam os últimos meses da gestão bolsonárica, doutor Gilmar Mendes (STF) declarou que “a gente estava sendo governado por uma gente do porão”.

Se qualquer um de nós, cidadãos comuns, fizéssemos esse comentário, o mundo não viria abaixo. Mas quando Gilmar Mendes, conhecido como “o ministro que mais solta bandido”, faz a mesma observação, vale o dobro. Fica patente que essa gente é do porão mesmo.

Italiano
Bolsonaro disse que é italiano e que, se quiser tirar os documentos, basta solicitá-los, que a burocracia não será pesada. Tem razão o ex-presidente. O que ele não disse, talvez por não saber, é que a Itália não é o porto mais seguro para fugitivos da lei. Nenhuma lei do país impede a extradição de nacionais.

Já tivemos um caso famoso, o de Henrique Pizzolato. Binacional, o condenado na Lava a Jato se homiziou na Itália. O governo brasileiro solicitou extradição e, depois de uma batalha judicial, a Itália acabou entregando Pizzolato à PF, que o levou direto de Roma para a Papuda.

Portanto, a nacionalidade italiana pode ser útil para cidadãos brasileiros comuns. Para um Bolsonaro condenado, não é destino recomendável.

Enquanto isso
Inconformado ao ver que uma das mais importantes instituições da República escapa ao seu controle, Lula dá sinais de querer “rever” a autonomia do Banco Central. Para não chacoalhar o mercado, diz que a ideia só será posta em prática após o término do mandato do atual presidente do banco.

Lula não tem jeito. Com os pés cravados nos anos 1970, não consegue (ou não quer) entender que a absoluta independência do banco emissor é ponto importante no sistema de pesos e contrapesos de uma democracia vigorosa. É assim que funciona em todos os países democráticos.

Doutora em Ginecologia
Uma cirurgiã-ginecologista francesa, que oficia no hospital de Bordeaux (sul da França), gosta de cantar. Já na sala de operações, antes de iniciar o procedimento cirúrgico, canta para tranquilizar a paciente.

Embalados por sua bela voz, os “gospels” têm feito sucesso desde que foram publicados nas redes. Veja aqui.

Os disparates de Lula

by Sam Jovana, desenhista mineira

José Horta Manzano

Os disparates de Lula parecem suaves se comparados aos de Bolsonaro. Assim mesmo, embora pronunciados em linguagem decente, não deixam de ser disparates. Tenho às vezes a impressão de que Lula nunca antes atravessou um período de graça como o momento atual.

Aquele meio Brasil que viu na sua eleição uma luz no fim do túnel está aliviado e leniente com suas primeiras besteiras. Esse contingente de brasileiros tende a ser condescendente com as escorregadelas do novo presidente. São eleitores que reagem como se o Lula fosse um iniciante na política, um eleito de primeiro mandato.

Quanto à outra metade do Brasil – os eleitores que votaram em Bolsonaro – é de imaginar que o comportamento do ex-presidente derrotado não tenha agradado. O Datafolha ainda não publicou nenhuma pesquisa a respeito, mas Bolsonaro deve ter deixado um contingente de decepcionados. Sua fuga para o exterior é um crime de abandono de incapazes.

Tanto faz que o chefe seja chamado de Führer, Duce, Conducător, Caudillo, Comandante ou Mito – o próprio de uma seita extremista é a devoção incondicional ao messias. Ele concentra todos os atributos: a sabedoria, o discernimento, a força e a coragem. Um Führer que fraqueja, foge, se esconde no exterior, e deixa os devotos ao deus-dará é uma paulada na moleira. Um contrassenso. Um golpe duro. Um tranco capaz de abalar toda a paróquia.

Isso me faz acreditar que, frustados com o comportamento do líder, muitos dos que votaram nele estão atualmente menos propensos a se opor com veemência a Lula. O Mito fugido nem ao menos apresentou uma boa desculpa para a atitude. Se estivesse sob mandado de prisão, por exemplo, seria compreensível. Mas não há, por enquanto, nenhuma medida decretada contra ele. Se não volta, é porque não quer.

Voltemos agora ao período de graça do Lula. Acho que ele, inebriado com a renovada sensação de poder, não está percebendo que o tempo passa rápido e o tempo de bonança está escorrendo por suas mãos. A ampulheta é implacável.

Ele já disse que respeitar regras fiscais é bobagem. Já levantou o espantalho de nova moeda a ser compartilhada entre Brasil e Argentina. Já tratou seu antecessor de genocida, igualando-se a ele em despudor. Já prometeu financiamento para a exploração de gás na Argentina, quando o Brasil tem milhares de obras paralisadas. Mais de uma vez, já chamou Temer de ‘golpista’. Já repetiu que o impeachment de Dilma foi ‘golpe’, uma distorção da verdade histórica.

Eu me compadeço de um Lula que, aos 75 anos, culpado ou não, purgou 580 dias de cárcere. Compreendo que essa privação de liberdade tenha deixado ressentimentos. Mas não acredito que seja este o melhor momento para esconjurar velhos rancores. Os brasileiros, que anseiam por um ar puro e livre de miasmas, não merecem ser bombardeados com patacoadas.

Presidente, não estrague essa “janela de oportunidades” – como se diz hoje em dia – com declarações ruidosas e desnecessárias. Chega de poluição declaratória. Vá direto ao ponto. Dê aos brasileiros o que eles estão precisando receber.

Como se dizia antigamente: “Ô Lula, aproveita enquanto o Brás é tesoureiro, que essa sopa vai acabar!”(*)

(*) Em outras versões desse sábio ditado, o polivalente Brás é carcereiro.

Resenha – 2

José Horta Manzano

Por que parou? Parou por quê?
O frisson do momento fica por conta dos escritos que a PF encontrou ao esquadrinhar os guardados de Anderson Torres, ministro de Bolsonaro, ora refugiado nos EUA.

Pelo jeitão do documento, não se trata de “rascunho”, como tenho lido. As letras impressas e o juridiquês caprichado revelam que o texto não é um devaneio rabiscado em papel de padaria ao fim de uma noite de uísque abundante. Longe disso, é a prova de que havia trama para revirar o resultado das urnas, e que o projeto estava em estado adiantado. O “rascunho” é, na verdade, uma minuta pronta para ser impressa em papel timbrado e assinada pelo capitão.

Discute-se sobre a autoria. Discute-se sobre a constitucionalidade do frustrado decreto. Discute-se sobre o peso que a descoberta vai exercer na culpabilidade de Bolsonaro. Todas essas questões são válidas e justas. No entanto, a meu ver, uma pergunta paira no ar, intrigante e sem resposta:

Por que é que a minuta foi descartada sem nunca virar decreto?

Responder a essa pergunta equivale a esclarecer o mistério.

Caçoar do Lula
O jornalista e escritor português Ricardo Araújo Pereira é conhecido por seu afiado senso de humor. É dele a fala seguinte (que já vem com sotaque):

“Agora, é tempo de caçoar do Lula. Sem medo de que este governo vá falhar. Até porque vai falhar. Já agora, aproveito para dar essa novidade. O governo brasileiro vai falhar por dois motivos: primeiro, por ser um governo; segundo, por ser brasileiro. É uma combinação que costuma ser fatal.”

Ironia do destino
O destino costuma espalhar cascas de banana na estrada para apanhar incautos. Ai de quem não prestar atenção.

Dia 5 de janeiro, uma empertigada primeira-dama convocou a Rede Globo para narrar o “estado de ruína” em que os Bolsonaros haviam deixado o Palácio do Planalto. Uma ponta de tapete esfiapada, uma quina de móvel esgarçada, um estofado rasgado – coisas desse jaez.

Não se sabe exatamente qual era a intenção da boa senhora, se era acusar os locatários antigos de serem selvagens ou se era para embasar futura requisição de verba para reforma.

Mal sabia a primeira-dama que, apenas três dias depois, nada mais restaria do mobiliário do palácio. O que lhe tinha parecido “ruína” tinha sido apenas aperitivo da desolação que viria depois.

KFC
No começo do mês, o canal de tevê TF1, o de maior audiência na França, não deixou passar em branco a imagem insólita. Enquanto Lula recebia as honras de presidente e assumia suas funções em Brasília, um solitário ex-presidente, despejado do poder e homiziado nos EUA, comia uma fritura no KFC. Com as mãos, como é de lei.

Fuga inútil
Contropiano, jornal comunista italiano online, repica o que afirmaram veículos da mídia brasileira e revela que Bolsonaro pensa em homiziar-se na Itália para evitar possível prisão no Brasil.

Dois meses atrás, lembrei a meus distintos leitores a triste e decepcionante história de Henrique Pizzolato, diretor de marketing do Banco do Brasil nos tempos do Petrolão e da Lava a Jato. Titular de dupla nacionalidade – brasileira e italiana – o cidadão, enrolado com a justiça brasileira, julgou que refugiar-se na Itália seria excelente ideia. Depois de muitas peripécias, terminou extraditado pela Itália e recolhido diretamente à Papuda, onde cumpriu a pena imposta.

Nos dias de hoje, está cada vez mais difícil escapar ao próprio destino. Incluído na lista vermelha da Interpol, nenhum réu tem mais sossego. Não estou aqui para dar pistas a Bolsonaro, mas ele que se lembre que, uma vez inculpado, não adianta fugir porque será perseguido até seus últimos dias. Onde quer que esteja, inclusive na Itália.

Digital
Em certos aspectos, o universo petista continua a se comportar como se estivéssemos nos anos 1980, na era pré-internet. A esse propósito, o jornalista Pedro Dória publicou um artigo pertinente do qual um trecho vai aqui abaixo.

“Este governo, o governo Lula, é um governo terrivelmente analógico. E, num momento de democracia em risco, o governo não pode se dar ao luxo de ser analógico.”

Poderia ter sido pior

José Horta Manzano

Artigo publicado pelo Correio Braziliense de 31 dezembro 2022

Virada de ano é o momento de dar uma parada, olhar pra trás, olhar pra frente e buscar, na euforia efêmera do espocar dos fogos, ânimo pra seguir adiante.

Cada um tem a idade que tem, não há como evitar. Se fosse um carro, este escriba, que já rodou mundo, contaria muitos quilômetros no odômetro. Me lembro dos ensolarados anos 60 e 70, quando o futuro nos pertencia e um fusquinha era nosso objeto de desejo. Mas os anos passaram e o panorama mudou. As cidades brasileiras se estufaram e engoliram, em congestionamentos crônicos, nossos ingênuos objetos de desejo. Quanto ao futuro, já nem temos certeza de que nos pertença. Entre crise climática, pandemia e ameaça nuclear, nem sabemos se futuro haverá.

Constato, consternado, que nosso fluxo migratório se inverteu. Meio século atrás, o número dos que escolhiam o Brasil para se estabelecer e recomeçar a vida era muito superior ao de brasileiros que se iam. Na atualidade, cresce a cada ano o contigente de brasileiros desiludidos, que abandonam nosso país em busca de um futuro melhor em outras terras. O país do futuro já não atrai aquele mundaréu de gente e já não cativa nem seus próprios cidadãos. Dá dó assistir impotente a essa fuga de braços e de cérebros, gente que, no futuro, só voltará para as férias.

Hoje à meia-noite (se o mundo não acabar daqui até lá), teremos tirado o pé de 2022, um ano agourento. No nível mundial, a invasão da Ucrânia nos fez retroceder oito décadas a um período em que Herr Hitler, julgando que faltasse Lebensraum (espaço vital) a seus súditos, armou suas tropas e invadiu países soberanos. Era um tempo que, até outro dia, todos acreditávamos superado, morto e esconjurado. Putin nos ensinou que nenhuma verdade é eterna e que não convém baixar a guarda.

Essa ressurgência da guerra tem infligido horrores ao povo agredido. Até países que, embora distantes da cena bélica, dependem dos grãos ucranianos estão em estado de insegurança alimentar. Assim mesmo, os russos poderiam até ter invadido algum país da Otan, o que acenderia o braseiro de uma guerra mundial. Felizmente, não o fizeram. No fundo, poderia ter sido pior.

Nosso capitão, que vive hoje seu último dia de mandato, foi outro que aprontou. Não chegou a cogitar invadir o Paraguai nem recuperar o Uruguai, mas um dia ousou ameaçar os Estados Unidos (!), explicando a Biden que “Quando acabar a saliva, tem que ter pólvora”. Mas, para alívio de nossas angústias, ficou no blá-blá. Não despachou tropas em direção ao grande irmão do Norte. Veja você que, no fundo, poderia ter sido pior.

O negacionismo científico do presidente, que tinha se manifestado já no estouro da pandemia com a sonegação de vacina e oxigênio, continuou firme e adentrou 2022. Verbas foram negadas a tudo o que, de perto ou de longe, estivesse no campo da ciência. Universidades federais e bolsistas viram sua dotação fortemente diminuída ou até suprimida. Talvez o capitão tenha tido ganas de mandar fechar universidades em todo o território nacional e acabar de vez com esses “perigosos ninhos de comunistas”. Não o fez. Veja você que, no fundo, poderia ter sido pior.

O golpismo, característica inerente ao capitão, manteve-se empinado. A cada ocasião que lhe pareceu propícia, Bolsonaro avivou a chama. Jamais deixou cair a peteca. A ideia fixa que o atormenta desde os tempos da caserna não enfraqueceu. Queria porque queria dar um golpe de Estado. No caso dele, seria um “autogolpe”, variante tipicamente latino-americana já testada por numerosos governantes de nossa região. Talvez por não se sentir escorado pelas Forças Armadas, Bolsonaro não ousou ir às últimas consequências. Tivesse ido, estaríamos vivendo um caos que a imaginação mais fértil não consegue avaliar. Veja você que, no fundo, poderia ter sido pior.

De susto em susto, de tranco em tranco, de solavanco em solavanco, chegamos ao fim de um ano que não deixará saudades. Amanhã acordaremos aliviados por ver o fim de um ciclo atroz, mas também apreensivos por ver a volta de Luiz Inacio ao poder. Nós, os que escrevemos sobre política nacional, baixaremos enfim a arma. Mas Lula que se cuide: nossa metralhadora é rotatória. Que ele não bobeie, se não “vai ter pólvora”.

Feliz ano novo a todos.

Na antevéspera do gozo – 2

Brasília: Praça dos 3 Poderes em construção

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Há mais de cinco anos detectei pela primeira vez uma sinistra coincidência entre momentos de pré-júbilo nacional e a ocorrência de alguma tragédia ou reviravolta frustrante na vida institucional brasileira. Dei a esse fenômeno inusitado o nome de “antevéspera do gozo” e desde então comecei a me perguntar das razões para seu surgimento.

Analisando alguns acontecimentos históricos ligados a momentos de grande mobilização cívica interrompidos abruptamente – como a rejeição da emenda das Diretas Já depois de 21 anos de ditadura e após expressivas manifestações de rua da sociedade civil, a morte de Tancredo Neves antes de assumir o cargo presidencial e consolidar a transição para a volta do regime democrático, o acidente aéreo fatal que atingiu Eduardo Campos, a principal novidade da campanha ao lado de Marina Silva, a poucos meses da eleição presidencial de 2014, e até a morte do ministro do STF Teori Zavascki, o único que poderia enquadrar os desvios éticos de Sérgio Moro e conduzir a Operação Lava Jato com segurança jurídica e imparcialidade até o final -, cheguei à conclusão que temos, como cultura, um caráter evidentemente histérico.

Com isso quero dizer que estamos perpetuamente surfando na crista de uma onda de excitação coletiva que jamais encontra descarga completa e impede que seja zerada a tensão política acumulada. Quando sentimos que se aproxima o momento do gozo final, algo em nós inexplicavelmente se assusta, se tranca e recua. E, quando se bloqueia a energia libidinal, ela por assim dizer “apodrece” qual água estagnada e contamina outras áreas do psiquismo. A incapacidade de entrega amorosa plena termina gerando desprazer e frustração, o que, por sua vez, deriva para a formação de irracionalidades, perversões, neuroses, fanatismo, misticismo, etc. A potência orgástica se perde e se divide em uma série de gratificações secundárias.

Se confirmado, esse traço cultural histérico explicaria ainda outras duas tendências com as quais venho trabalhando para entender a brasilidade: o baixíssimo comprometimento da população com processos (de qualquer tipo, mas especialmente os de construção democrática) e a ânsia de obter resultados praticamente imediatos, ou expectativa de mudança mágica da realidade. Em segundo lugar, a bipolaridade estrutural que nos faz oscilar entre momentos de eufórica autoestima {como acontece quase sempre no futebol e no carnaval) e outros de depressão (síndrome do vira-lata) e autocondenação (principalmente em períodos pós-eleitorais, com a sistemática repetição da crença de que brasileiro não sabe votar).

Ainda não sei quais e quantos outros fatores estão em jogo, mas posso apostar que a recusa em juntar forças para o atingimento de um orgasmo-cidadão está ligada ao eterno confronto entre nossas raízes africanas e indígenas de valorização da coletividade e a herança conservadora e individualista de nossos colonizadores portugueses. Aparentemente, isso se deve às pesadas noções de culpa e pecado da tradição judaico-cristã herdada deles que interferem em nosso caráter original de afetividade despudorada, espontaneidade e liberalidade sexual.

Pois bem, parece que está prestes a acontecer de novo. Desde 30 de outubro, nem um dia se passa sem que ouçamos a profecia: “O ladrão não vai subir a rampa”. Como, desta vez, Deus parece ter optado por não chamar para seu reino nenhum dos candidatos finalistas nem a figura mais odiada do bolsonarismo, Alexandre de Morais, as deserdadas viúvas do Mito resolveram tomar nas próprias mãos a tarefa de desconstrução final do estado democrático de direito. Depois dos emocionantes manifestos em favor da democracia que reuniram mais de um milhão de assinaturas, o que deveria ser uma festa popular de regozijo com a vitória da esperança de reconquistarmos credibilidade internacional e de recuperar nosso já devastado meio ambiente foi brutalmente interrompida com bloqueio de estradas federais, manifestações abertamente golpistas na frente de quartéis, ações de caráter explicitamente terrorista e nazifascista e até aberrações de cunho religioso messiânico, como a de clamar por intervenção extraterrestre através de celulares.

Embora nada de mais terrível tenha acontecido até este momento, seja por obra e graça da incompetência e planejamento amadorístico das ações dos golpistas ensandecidos ou por pura conivência mal dissimulada das autoridades de plantão, temos de convir: nada impede que acordemos horrorizados no dia 1º de janeiro de 2023 ao assistirmos ao vivo e em cores a um atentado contra o novo presidente em plena Praça dos Três Poderes. Garanto que muita gente já perdeu o sono revivendo mentalmente as cenas dantescas de partes do cérebro de John Kennedy voando longe ou, mais recentemente, da morte em público do primeiro-ministro japonês Shinzo Abe.

A parte moralista do nosso Eu coletivo, que chafurda cada dia mais no fundamentalismo religioso mais rastaquera, entra novamente em campo para alertar: esse parceiro que nos está sendo reapresentado como salvação de nossas fraquejadas libidinais não é confiável, já abusou de nossa confiança anteriormente, não dá para nos entregarmos de mão beijada a ele sem contarmos com alguma forma de salvaguarda contra seus ideais liberalizantes nos costumes. E se ele achar que não somos moças de família por cedermos ao desejo? E se gostarmos da experiência e quisermos repeti-la, como ficará nossa imagem pública? Emancipação para quê? Não, melhor nos mantermos dentro das 4 linhas do patriarcado cristão heteronormativo!

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Quem vai enfaixar o presidente?

José Horta Manzano

Nosso bizarro presidente será, com certeza, bizarro até o último dia. É grande a possibilidade de ele se recusar a passar a faixa ao sucessor. Como dizia o humorista Barão de Itararé, de onde menos se espera, daí é que não sai nada. Se a birra do capitão se confirmar, como é que fica?

Com aquele seu jeito espandongado, o general Mourão, o vice, já declarou que não entrega faixa a ninguém. Argumenta que essa incumbência não lhe assenta, visto que, segundo ele, faixa é coisa de presidente, não de vice. Mostra que se conformou com a ideia de ter sido um vice meramente decorativo.

Escanteado o vice, sobra a interrogação: quem vai enfaixar Lula?

Surgiu a ideia – dizem que é realmente do presidente eleito – de reunir um grupo de cidadãos para a cerimônia. Caberia a eles trazer a faixa numa bandeja e entregá-la ao empossando.

Imaginar que qualquer grupo de cidadãos represente o povo brasileiro é ideia distorcida e carregada de naftalina populista. Os parlamentares, gostemos ou não, são os representantes da população legitimados pelas urnas. Atrás de cada um deles, está o homem, a mulher, o índio, o preto, o LGBT, o ancião, o incapaz. E até o devoto e o golpista. Não faz sentido rejeitar os representantes que todos elegeram e substitui-los por um grupo selecionado pela equipe de transição.

A solução cogitada pelos que orbitam ao redor de Lula é engraçadinha mas, a meu ver, é simples tapa-buraco. Depois de quatro anos com um presidente que tentou por todas as maneiras destruir ritos e tradições, não acho que seja de bom augúrio já começar o novo governo com improvisações.

A República não pode ser modulada ao gosto do freguês como cardápio de restaurante fino. Seus ritos, baseados na Constituição ou na tradição, têm de ser respeitados. Chega de desrespeito às normas!

A linha de sucessão presidencial está prevista na Constituição. O primeiro na linha é o vice-presidente; em seguida vêm, na ordem: o presidente da Câmara, o presidente do Senado, o presidente do STF.

Por analogia, a mesma linha de sucessão deve ser aplicada na hora de passar o adereço. Pra não ficar esquisito, a autoridade que entregar a faixa não deve vir vestida com ela. A faixa será trazida sobre uma bandeja, e o empossando se vestirá sozinho ou eventualmente auxiliado por um ajudante de ordens.

Improvisação só caberia se todas as quatro autoridades da linha de sucessão se recusassem a entregar a faixa. Mas isso não deve ocorrer.

É importante mostrar que o Brasil está voltando a ser um país normal.

O público e o privado

José Horta Manzano

Artigo publicado pelo Correio Braziliense de 26 novembro 2022

Monsieur Pierre Maudet é um político suíço. Talentoso, aos 33 anos já era prefeito de Genebra. Poucos anos depois, chegou ao posto máximo de seu cantão, o de presidente do Executivo colegiado. Muitos já vislumbravam para o jovem prodígio um posto de primeira gandeza no plano federal.

Em 2015, ele aceitou convite do príncipe herdeiro de Abu Dabi para passar três dias no emirado. Durante a visita, Maudet encontrou-se com dirigentes do país, inclusive com o emir. O episódio passou despercebido até que, três anos depois, o MP de Genebra abriu inquérito sobre o passeio. Queria saber se a viagem era privada ou de cunho político.

Monsieur Maudet jurou que tinha sido viagem de lazer com despesas pagas de seu próprio bolso. Mas nosso mundo digital não perdoa: tudo fica gravado e a verdade acaba vindo à tona. O inquérito prosseguiu e acabou descobrindo que o político estava mentindo: ele tinha viajado a convite do emir – e com todas as despesas pagas, inclusive o voo em primeira classe.

A carreira do promissor político estancou. Foi expulso do partido. O Tribunal Federal, última instância judiciária do país, acaba de confirmar sua condenação definitiva. Ele é culpado de ter aceitado favores indevidos, pouco importando a existência ou não de contrapartida aos mimos recebidos.

Outro dia, Lula da Silva, nosso presidente eleito, tomou a iniciativa de ir ao Egito para a Cúpula do Clima. Embarcou no jato particular de um empresário. O detalhe incômodo é que este último, enroscado na Lava a Jato, fez acordo de delação e devolveu 200 milhões ao erário.

A imprensa sentiu o cheiro de queimado. Indagado, o presidente eleito não se mostrou constrangido e informou com candura: “Não pedi o avião, foi ele quem me ofereceu. Não foi empréstimo, foi carona.”. Em outros tempos ou em outras terras, esse passo em falso teria potencial de ofuscar a totalidade do mandato, podendo até justificar o impedimento do recém-eleito.

Mas não estamos em outros tempos nem em outras terras. Em nosso leniente Brasil, em geral dá-se um jeito. Assim mesmo, há momentos em que fica difícil dar jeitinho. Os destituídos Collor e Dilma estão aí para provar. Assim como os condenados na Lava a Jato. E também os bolsonaristas enredados na justiça. Lula que tome cuidado.

O novo presidente vai governar num cenário diferente do de mandatos anteriores. Em vez de parlamentares bonachões, terá diante de si uma oposição do tipo “quatro pedras no bolso e faca entre os dentes” – uma espécie de PT ao quadrado, feroz, pronto a agarrar qualquer pretexto para tocar trombone e bater panela. Não terá a vida fácil.

Com razão ou não, a imagem de Lula no papel de chefe de quadrilha está cristalizada na mente de muitos eleitores. A justiça julgou, penas foram purgadas, mas o estigma ficou. Se todo homem público tem de escolher com atenção as pedras em que pisa, Lula tem de tomar cuidado redobrado, que há muita gente de olho em seu primeiro escorregão.

Na equipe de transição, já há um grupo de trabalho para o combate à corrupção. A preocupação com o tema é louvável. A ideia deveria ser levada adiante, quiçá com a criação de uma secretaria permanente. No entanto, por mais que uma secretaria cuide de apontar e coibir casos de corrupção, ela será sempre consituída de funcionários subordinados ao governo. No frigir dos ovos, temos funcionários do governo que tentam controlar o próprio governo. Como se sabe, certas verdades costumam ser edulcoradas para agradar ao chefe.

O ideal será que essa secretaria seja complementada por um Observatório da Corrupção, organismo independente, composto de conselheiros maduros e de ilibada reputação. Podem ser juristas, ex-juízes, ex-parlamentares, professores, cientistas, empresários, gente de bom senso. É vital que não sejam remunerados. Farão trabalho voluntário e serão apenas ressarcidos de despesas. Só um controle externo como esse tem o poder de chegar direto à Presidência, sem preocupação de agradar ou desagradar ao chefe.

O Observatório da Corrupção seria o órgão adequado para convencer o presidente a não mais mesclar o público com o privado, como na viagem ao Egito. Contra uma oposição feroz, todo cuidado é pouco.

Prognóstico

Corriere della Sera, 24 nov° 2022

José Horta Manzano

“O líder da direita [Bolsonaro] contabilizou o apoio de Neymar e fez duas promessas: “Eu vou ganhar as eleições e ele, a Copa”. A primeira aposta frustrou-se. Quanto à segunda, hoje começa o baile.

E se, no final, a seleção que mais títulos já recebeu na história devesse chegar de novo ao topo, provavelmente Lula vai esquecer a brincadeirinha de Neymar e vai abraçá-lo como um filho predileto. Porque essa é a democracia, e sobretudo esse é o futebol (não somente) no Brasil.”

Equipe efêmera

José Horta Manzano

Na noite de 30 de outubro, quando foi declarado vencedor, Lula sacou do bolso de trás um discurso de meia hora, com começo, meio e fim. Disse tudo o que tinha de ser dito, agradeceu, louvou, prometeu e comoveu. Um pronunciamento daqueles não se improvisa. Vê-se que foi fruto de profunda reflexão, de erros e acertos, de trabalho conjunto, de polimento. A preparação há de ter consumido dias, talvez semanas.

Vencida a corrida presidencial, veio o momento de anunciar a composição da equipe de transição, que funcionará até o fim do ano, num total de 61 dias.

Considerando que o discurso de vitória foi montado com antecedência e com tanto zelo, seria de esperar que o esqueleto da equipe de transição também já estivesse planejado.

A realidade mostra que não era bem assim. Já se passaram 17 dias, e a montagem da equipe ainda não terminou. A cada dia, aparecem nomes novos. Sem estar totalmente formada, a equipe não tem como funcionar. Falta articulação. É como um veículo que, para rodar, precisa estar completo – se faltar uma roda, não anda.

Será que a intenção dos escolhidos é realmente delinear a ossatura da futura governança? Está mais parecendo um convescote entre companheiros, uma vitrine de vaidades do tipo: “Tchau, mãe! Ói eu aqui!”.

Vamos ver se conseguem terminar a montagem daqui até o Natal. Se conseguirem, ainda sobra uma semana pra trabalhar, entre Natal e o réveillon.