Fadiga de material

José Horta Manzano

Sábado 29 de junho, avenida Paulista, meio de tarde ensolarada. Palanque montado, caixas de som tinindo, barreiras de proteção armadas para impedir que alguma autoridade despenque lá de cima. Está tudo pronto para um enésimo show de Jair Bolsonaro, ex-presidente que se recusa a admitir publicamente que seu tempo passou e que a próxima porta que se lhe vai abrir é a da cadeia.

O evento foi marcado para o dia de São Pedro, santo forte, talvez na esperança de ele ajudar a atrair aquele povaréu que costumava coalhar a avenida nos comícios bolsonarianos de antanho. Ah, aquele mar de gente, que quadro inesquecível! Mas nem São Pedro ajudou. Ou, quem sabe, até tentou ajudar, mas o povo, mais realista que o capitão, já entendeu que não vale a pena gastar sola de sapato com causa perdida.

O instantâneo reproduzido acima foi tirado durante a execução do Hino Nacional. A mão sobre o coração, encenada por alguns, confirma. É interessante observar a atitude de cada um. Tendo em vista a forma arredondada dos lábios dos que cantam, o canto deve estar lá pela estrofe que fala dos “raios fúúúlgidos”. Os governadores de RJ, SC e MG, posicionados como um bando solícito que respeita Seu Mestre, todos cantam compenetrados. Já o governador de São Paulo, na terceira fila, o mais bem colocado no bloco de partida para 2026, observa distante e aparentemente silencioso.

No quadrado da direita, entre os ocupantes, nota-se o cidadão Wajngarten, aquele que foi demitido do PL mês passado por ordem de Michelle Bolsonaro, num capítulo que lembra querela de vizinhança. Brios, na política brasileira, fazem parte das mercadorias escassas. Me chamou a atenção um cidadão de óculos, bem à frente dos outros, que entoa o hino com fervor, de olhos fechados.

Boa parte dos presentes veste camisa ou camiseta amarela. Até o cinegrafista posicionado logo atrás de Bolsonaro veio condignamente vestido. Fiquei imaginando que, com o equipamento caro que carrega, não podia arriscar a ser espancado como um herege ao descer do palanque. Logo atrás dele, está Waldemar velho de guerra, ex-presidiário, hoje dono do PL. Eu o imaginava mais alto.

Percebi, enfim, que Bolsonaro vestiu uma camisa amarela, mas encobriu-a com uma jaqueta azul. Numa tarde ensolarada e quente, pra que jaqueta? Pesquei: deve ser para encobrir o colete à prova de bala, acessório que ele costuma vestir desde que levou a facada. Assim mesmo, a jaqueta podia ser amarela. O que mais me impressionou, no entanto, foi a expressão do rosto do capitão. Se você não estiver distinguindo, faça um zoom da imagem. Seu ar acabrunhado é revelador de um mal-estar profundo.

Enquanto isso, bem à esquerda da imagem, na altura do totem que segura o semáforo, é visível a fumaceira de um apartidário churrasquinho de rua (dizem que é sempre de gato, mas pode até não ser). Alheio às lides políticas, o churrasqueiro é sempre o mesmo. Se o comício é de Bolsonaro, veste amarelo. Se for de Lula, vem de vermelho. E vai levando sua vidinha simples, sempre presente na foto.

Baile da saudade

José Horta Manzano

A charge
Achei genial a charge que saiu na Folha de hoje, obra do jovem desenhista João Montanaro (27 anos). É a imagem reproduzida acima.

A seita
Os obstinados que se mobilizam a um simples aceno de Bolsonaro estão mais para sectários (fiéis de uma seita) do que para partidários (companheiros de partido). A obediência absoluta demonstra isso. Partidos, especialmente no Brasil, não exigem fidelidade total de seus membros. Já uma seita só sobrevive da lealdade de seus adeptos.

Sem faixas
Me parece simples. Com receio de ser levado em cana por incitação à sedição, Bolsonaro pediu a seus fiéis que não trouxessem faixas. Resultado: ninguém veio com faixas. Isso expõe a devoção do distinto público a Seu Mestre, ou seja, ao super-homem que lhes dá ordens.

O Brasil já conheceu populistas que, a seu tempo, magnetizavam os fiéis. Getúlio Vargas talvez tenha sido o mais significativo deles. Assim mesmo, assisti a conversas animadas entre getulistas e ademaristas (de Adhemar de Barros) que não terminavam em tiro nem morto estendido no meio-fio.

A diferença é o que eu dizia antes: num caso, temos simpatizantes de um partido; no outro, são fiéis obedientes a um guru. Essa é a diferença entre os de antigamente e os de hoje. Daí a dificuldade de lidar com os ditos “bolsonaristas”.

No espírito de um “bolsonarista”, o chefe tem sempre razão. Não há discussão possível. Se mandou levar faixa, levo; se não mandou, não levo. Se ele diz que é um inocente perseguido por pessoas más, acredito.

Como argumentar? Não adianta nem tentar. Seria como tentar convencer um eleitor argentino de que o “peronismo” já faleceu faz meio século. Ele não concordará.

Resumindo
Isso foi o que mais me impressionou no ajuntamento de ontem: a ausência de faixas. Da meia dúzia de discursos, já se imaginava que não insultariam magistrados, mas do público era mais difícil. No final, vê-se que foi mais fácil adestrar os assistentes do que conter um dos ‘pastores’ discursantes, que chegou a cutucar autoridades superiores a ele.

Trocando em miúdos, temos uma continha de soma zero. Os ‘bolsonaristas’ deram mostras de quem são e do apreço que devotam ao guru. Continuam a apreciar o chefe. Quanto aos ‘não bolsonaristas’, continuam no seu canto, sem precisarem de chefe que lhes diga de que cor têm de se vestir. Os de lá não votam nos de cá e vice-versa. O desfile não fez ninguém mudar de campo. Zero a zero.

Quanto à Justiça, ah, são outros quinhentos! O tempo judicial é mais longo que o tempo do trio elétrico ex-presidencial. Daqui a uma semana, a algazarra suscitada pelo ajuntamento da Avenida Paulista terá sossegado. Mas os processos, implacáveis, continuarão a correr nos escaninhos do Supremo.

Não acredito que choro de Madame amoleça coração de magistrados.

PS
Esperemos que os juízes que vão julgar Bolsonaro não tenham interpretado essa movimentação como demonstração de força ou, pior, como afronta ou provocação. Juiz irritado tem a mão pesada.

Avenida Paulista

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José Horta Manzano

Que é isso? Viva Lula? Viva Bolsonaro? Marcha para Jesus? Viva Getúlio? Abaixo Dilma? Estamos todos com Putin? Greve dos metalúrgicos? Estou com o Congresso e não abro? Queremos o passe livre? Abaixo o STF? Exigimos uma terra plana? Não tomamos vacina nem a porrete? Viva o Imperador?

Não, nenhuma das anteriores. É a Parada LGBT. De memória de paulistano, nunca se viu a Paulista tão coalhada de gente. Melhor assim.

Queremos ou não queremos?

José Horta Manzano

No Brasil, nos tempos da ditadura, era proibido protestar contra o regime. Desfile na Avenida Paulista? Impossível. Protesto na orla de Copacabana? Pior ainda. Passeata em qualquer capital do país? Nem pensar. Vez por outra, alguém até chegou a tentar. Deu um forrobodó dos diabos, com tumulto, presos e feridos. Não tinha jeito. Quem não estivesse de acordo com as condições nacionais tinha duas soluções: deixar o país ou… calar-se.

Hoje, depois de mais de três décadas de democracia e liberdade de expressão, a gente se acomodou. Brasileiros com menos de 40 ou 50 anos de idade não conheceram a repressão. Têm todos a impressão de que a atual paleta de liberdades é natural, permanente, inamovível, um direito adquirido. Reclamam contra as mazelas nacionais ‒ a corrupção generalizada em especial ‒ mas, na hora de demonstrar, negam fogo. Em vez de sair às ruas com faixa e bandeira, paramentados de camisa amarela e bonezinho, preferem refestelar-se diante do domingão da televisão.

Os russos são um povo que nunca conheceu um regime democrático. Passaram direto do absolutismo tzarista para a ditadura comunista e, de lá, para a opressivo arremedo de democracia atual. Em matéria de corrupção, o páreo é duro entre os grandes «emergentes». É difícil apontar o campeão. China, Rússia, Brasil? Fato é que a Rússia é membro importante do clube. A corrupção está presente em todos os escaninhos do Estado.

Como sabemos, Vladimir Putin encontrou um meio de se eternizar no poder. Esperto, soube manejar os instrumentos de cooptação à sua disposição. Há eleições periódicas, mas ele ganha sempre. Por bem ou por mal, em jogo limpo ou fraudado, o vencedor é sempre o mesmo. Acostumado há séculos a aguentar calado, o povo aceita esse estado de coisas.

Ontem, um sobressalto. Milhares de cidadãos decidiram manifestar descontentamento. Marcaram protesto nas ruas. O número de participantes foi estimado em sete mil pelas autoridades oficiais, o que indica que terá sido dez vezes superior. A reação do governo foi uma tremenda repressão, com direito a brucutu e pancadaria. A polícia desceu o pau, prendeu centenas de manifestantes ‒ entre eles, um candidato às próximas eleições presidenciais. O passar dos séculos não mudou o país. Só são admitidas duas categorias de cidadãos: os do sim e os do sim senhor.

O brasileiro não se tem mostrado à altura de ser governado por gente fina. Vota mal. Elege bandido. Não manifesta desagrado. Vota em palhaço e acha uma graça. Elege e reelege corrupto. Come mal, transporta-se mal, veste-se mal e acha que a vida é assim mesmo. Na hora de demonstrar desagrado, prefere ficar no sofá e deixar que outros carreguem o piano.

Pois quando a música tocar, é ele mesmo quem vai dançar.

Passeatas e manifestações

José Horta Manzano

Tive, faz muitos anos, um chefe inglês. Espirituoso, cultivava aquele humor britânico fino e levemente irônico. Quando via um grupinho de funcionários conversando no corredor, costumava dizer: “More than two together is mutiny”(*) ‒ mais de dois juntos é motim. Era seu jeito de dizer “chega de blá-blá-blá, vamos trabalhar”. A referência a um termo militar devia ser resquício da Segunda Guerra, quando tinha combatido na Birmânia.

Motim 1Durante os anos de chumbo que o Brasil atravessou, principalmente na década de 70, reuniões eram proibidas. Como todo regime ilegítimo, a ditadura brasileira sabia que não podia mais contar com o apoio da maioria da população. Em virtude disso, temia a agregação de forças adversárias. Ao exagerar na repressão a concentrações populares, tentava reprimir toda insurreição.

Escrita quando o cadáver da ditadura ainda não havia esfriado, a atual Constituição fez questão de exagerar no sentido oposto. No que tange a reuniões, foi magnânima: liberou geral. O Inciso XVI do Artigo 5° reza assim:

Cabeçalho 5Embora a intenção fosse tranquilizar o bom povo e transmitir sensação de segurança e liberdade, o texto é problemático. Ao determinar que cidadãos podem se reunir independentemente de autorização, deixa implícito que a autoridade não tem poder de proibir reuniões. É desprendimento exagerado. De que serve avisar previamente se a manifestação não pode ser proibida?

Todo país civilizado permite reuniões, passeatas, manifestações, comícios ‒ demonstração do vigor da democracia. No entanto, toda atividade que se desenvolva temporária ou permanentemente no espaço público tem de ser sujeita a autorização. O fato de ter ‘intenção’ pacífica não é garantia de que a manifestação se desenrolará tranquilamente. O fato de os participantes não portarem arma não impede que depredem o bem comum ou que transformem bancos de jardim em armas.

Manif 2O texto legal diz que uma reunião não se pode realizar no mesmo local onde outro agrupamento já tiver sido convocado. Pois bem, suponhamos que aconteça: o grupo A anuncia às autoridades que vai-se manifestar no mesmo lugar onde o grupo B prevê reunir-se. Tendo em vista que reuniões não podem ser proibidas, a autoridade estará em palpos de aranha. Poderá apenas sugerir ao grupo que escolha outro local. E torcer pra que o pedido seja atendido.

Manif 4Admitamos outra possibilidade. Um coletivo de cidadãos informa as autoridades que vai trancar a Avenida Paulista (ou a Avenida Rio Branco no RJ, ou qualquer outra avenida brasileira de tráfego intenso) às 18h de um dia de semana. Será manifestação pacífica e sem armas. Que pode fazer a autoridade? Pelo texto constitucional, nada. Pode observar o congestionamento de longe, impotente, enquanto dezenas de milhares de cidadãos que nada têm a ver com o peixe são cerceados em seu direito de ir e vir.

A meu ver, o inciso que regulamenta reuniões em local público deveria ser revisitado. Todo ajuntamento, ainda que pacífico e sem armas, deve ser sujeito à aprovação da autoridade competente. Não nos esqueçamos que o ente nebuloso a que chamamos ‘autoridade’ nada mais é que uma das faces da representação popular.

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Etimologia
(*) Mutiny (=motim, amotinamento) vem do verbo francês mutiner, hoje raramente utilizado. A origem mais provável é o verbo latino movere (=mover) por uma presumida forma intermediária movita.

Novilíngua – 2

Chamada do Estadão, 7 nov° 2015

Chamada do Estadão, 7 nov° 2015

José Horta Manzano

Este blogueiro é do tempo em que árvores se plantavam. Aparentemente, hoje se instalam. Há de ser consequência do desmatamento desenfreado.

Voz discordante

José Horta Manzano

Domingo, 16 ago 2015, os passos de centenas de milhares de cidadãos ecoaram em mais de duzentas de cidades – até no exterior.

Os principais jornais brasileiros acompanharam, minuto a minuto, a manifestação de cidadãos. Ponto importante: o encontro tinha sido convocado, não organizado. Nenhum ônibus foi contratado para conduzir os protestantes. Nenhuma merenda lhes foi oferecida. Nenhum pagamento por serviços prestados lhes foi feito.

Lá pelas 19h, o portal dos dois mais importantes jornais paulistas trazia informação contraditória.

Manchete do Estadão 16 ago 2015

Manchete do Estadão online
16 ago 2015

No mundo todo, estimar quantidade de participantes de manifestação de rua é tarefa privativa da polícia. Helicópteros, drones e outros aparelhos sofisticados facilitam a operação.

Pois a firma Datafolha, ligada à Folha de São Paulo, resolveu enveredar por esse caminho. Desprezando centenas de milhares de manifestantes, dedicou-se unicamente à marcha paulista. Já tinha feito isso em recentes manifestações – ontem reincidiu.

É inabitual um instituto de sondagem de opinião dedicar-se a esse tipo de tarefa. Não dispõem dos meios que a polícia tem à mão. Assim mesmo, foram em frente. É interessante notar que a contagem do instituto de pesquisa de opinião tem resultado em número sistematicamente inferior à estimativa policial. Desta vez, exageraram.

Manchete da Folha de São Paulo 16 ago 2015

Manchete da Folha de São Paulo online
16 ago 2015

A polícia afirma que 350 mil cidadãos marcharam na Avenida Paulista. Enquanto isso, o instituto garante que só contou 135 mil cabeças. Trocado em miúdos, onde a polícia viu 100 pessoas, o Datafolha só enxergou 38,5. Bizarro, não? «Something is drastically wrong» – algo está terrivelmente errado, como dizem os ingleses.

Se a diferença já é, em si, chocante, mais inquietante é constatar que o resultado do referido instituto é – sistematicamente – inferior ao oficial.

Enfim, as coisas estão nesse pé. Para publicar números tão discordantes, o instituto paulista deve ter particular interesse. Não se costuma abalar uma reputação por dez merréis.

Comprimento e largura

Carlos Brickmann (*)

Biblioteca 2História sem fim
Os casos vão longe. Numa reportagem de Turismo, fala-se num hotel-biblioteca para hóspedes que apreciam leitura. Esses hóspedes – e leitores – são submetidos logo na entrada da matéria a uma legenda, “Amantes de livros nunca vai para a cama sozinhos”. Sozinha, no singular, abandonada, só mesmo a concordância.

Mas continua: informa que no hotel há um ‘lounge’ chamado “Refúgio do Escritor”, que “à noite serve drinques com nomes ligados à literatura”.

Notável: o ‘lounge’ , que em português significa algo como sala de estar, é tão inteligente e prestativo que até serve drinques. Que maravilha!

E o leitor que aprecia livros, que gosta de leitura, que é que achará desse texto?

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Vício de origem
Lembra daquele documento que vazou da Secom, Secretaria de Comunicação do Governo Federal, e derrubou o ministro Thomas Traumann? No documento, defendia-se a interferência partidária no noticiário da Agência Brasil. Pois é. Em 3 de abril, às 11h46, matéria publicada pela Agência Brasil sob o título “Primeiro-ministro de Israel diz que Irã tem como único objetivo a bomba atômica”, era assinada pela Agência Lula.

Errinho bobo, nada além disso. O correto seria “Agência Lusa”. Mas imagine-se o que andava pela cabeça do redator para cometer esse errinho bobo.

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Estudante 2Estudar é preciso
O grande Percival de Souza, já na época um dos maiores repórteres policiais do país, chegou à conclusão de que não poderia aperfeiçoar suas matérias sem aperfeiçoar-se em Direito. Entrou na faculdade e se formou. Em suas matérias, o juiz não “pede”, determina. Mandado é mandado, e mandato é mandato. A polícia prende, mas cumprindo ordens do juiz, que é quem expede o mandado. Incomum: ainda outro dia, um jornal de tevê de uma grande rede informava que a Polícia Federal estava “expedindo mandados de prisão”. Nesse turbilhão de operações, o que sai de informação incorreta é uma festa.

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Retalhos
● De um grande portal noticioso, ligado a grande grupo jornalístico:
“40% das policiais mulheres do país já sofreram assédio”
Se a frase fala das policiais, não fica claro que são mulheres?

Avião 7● De um importante portal noticioso, sobre chegada ao Brasil de novo modelo de jato de passageiros:
“O aparelho tem 64 metros de largura por 67 de comprimento”.
Ou seja, é praticamente quadrado. O primeiro avião do mundo com formato de caixote. (1)

● De importante coluna informativa de um grande jornal impresso:
“A ‘operação padrão’ dos agentes fiscais de rendas do Estado de São Paulo (…) provocou queda de 14% no número de autos de infração e de multas no primeiro trimestre. Foram 3.367 autuações por dívidas com impostos, ante 2.891 no mesmo período do ano passado”.
Este colunista é do tempo em que 3.367 era número maior que 2.891.

 

Rir 5Frases
● Da internauta Ludmila Rodrigues:
Acredito que a preguiça pode ser uma coisa boa. Se não fosse ela, eu estaria lá na cozinha quebrando a dieta.

● Do jornalista Sandro Vaia, sobre a rala manifestação da CUT em São Paulo no dia 7 de abril:
Hoje na Paulista, um transeunte distraído perguntou: o que é isso, jogo da Lusa?

● Do jornalista Luiz Weis, citando texto do ensaísta Charles Simic publicado em 1993 na revista americana The New Republic:
A atitude da mídia diante da complexidade dos assuntos é a mesma da Inglaterra vitoriana diante da sexualidade: uma coisa da qual as pessoas precisam ser protegidas.

● Do presidente da Câmara, deputado Eduardo Cunha, sobre as dificuldades do governo para aprovar o ajuste fiscal:
Responsabilidade fiscal é igual a sapato branco. Só é bonito no pé dos outros

Tres patetas 1● Do jornalista Palmério Dória:
Pepe Vargas está credenciado a compor um quadro como o quarto dos Três Patetas.

● Do jornalista Cláudio Humberto
O projeto nem foi aprovado, mas Dilma fez questão de ser a primeira a aderir à nova proposta de terceirização. Terceirizou a economia para o ministro Joaquim Levy e a política para o vice, Michel Temer.

(*) Carlos Brickmann é jornalista, consultor de comunicação. Publica a Coluna Carlos Brickmann em numerosos jornais. O texto aqui reproduzido é fragmento da coluna.

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(1) Nota deste blogueiro
O jornalista citado por Brickmann atirou no que viu e acertou no que não viu. A distância que vai da ponta da asa de um avião à ponta da asa oposta não se diz «largura», mas envergadura. O mesmo vale para pássaros, que, por sinal, também têm asas.

Memória histórica

José Horta Manzano

Reportagem da Folha de São Paulo nos revela que, após a demolição de um casarão dois dias atrás, restam quatro palacetes na avenida Paulista, em São Paulo.

Desses quatro, dois estão tombados pelo órgão que cuida do patrimônio histórico, o que faz que, em princípio, nenhuma alteração do exterior desses imóveis seja permitida.

Estranhamente, dos dois outros sobreviventes, um só está parcialmente resguardado e o último, livre e desimpedido, continua sob risco de desaparecer a qualquer momento para dar lugar a um estacionamento ou a um prédio.

Casa das Rosas, projeto Ramos de Azevedo Avenida Paulista, São Paulo

Casa das Rosas, projeto Ramos de Azevedo
Avenida Paulista, São Paulo

Pelo que o artigo explica, o órgão protetor do patrimônio histórico segue uma estranha lógica para chegar a suas decisões. Não considera a região, o bairro, nem mesmo a avenida como um todo. Singelamente, baseia-se na idade de cada imóvel: os que datam do começo do século XX terão de ser preservados, ao passo que os que datam dos anos 60 podem ser destruídos.

Raciocínio peculiar. Não lhes passa pela cabeça que, daqui a mais 50 anos, as construções dos anos 60 também serão centenárias? Não se dão conta de que podem vir a ser cobrados por seus bisnetos pelas tolices de agora?

Em terras mais civilizadas, quando se deseja alterar o aspecto exterior de um imóvel, nem que seja minimamente, uma autorização da prefeitura se faz necessária. Ainda que seja unicamente para mudar a cor da pintura da fachada ou para substituir uma veneziana de madeira por uma de alumínio.

Nesses casos, considera-se que o interesse coletivo prima sobre conveniências particulares. Da porta para dentro, o proprietário é livre de dispor de seu bem como lhe apraz ― ressalvadas as obras que possam afetar a estrutura do imóvel, casos em que uma autorização é necessária. Já da porta para fora, considera-se que a casa não está sozinha no mundo. Faz parte de um conjunto arquitetônico sujeto a regras comuns de urbanização.

O Ipiranga

José Horta Manzano

Os numerosos anos que já vivi me permitiram presenciar ou tomar conhecimento de muita coisa. Fatos raros, fatos corriqueiros. Acontecimentos bonitos, outros menos. Não me lembro de nenhuma ocorrência com as características do que se passou na madrugada de domingo na Avenida Paulista, em São Paulo.

Falo do ciclista atropelado. Meus leitores que moram no Brasil certamente sabem do que estou falando. Em atenção aos muitos que, como eu, vivem longe de Pindorama, deixo o endereço de duas páginas, uma do Estadão e outra da Folha de SP. Primeiro leiam aqui, em seguida aqui. Depois conversamos.

.:oOo:.

Já leram? Agora estamos todos a par. Não tenho nenhum detalhe a acrescentar, não sei mais do que aquilo que os jornais publicaram. E já é o suficiente. Tivesse um figurão político sofrido um atentado, tivesse uma grande estrela do cinema caído no Vesúvio, tivesse nevado em Manaus, nenhum desses acontecimentos teria provocado o choque que essa notícia me assestou.

Imaginaram a cena? Cinco horas da madrugada, um jovem volta da balada ao volante de seu carro. Não se sabe ainda por que razão, atropela um operário que, de bicicleta, seguia para seu emprego. A vítima tem seu braço arrancado ― sim, extirpado, desarraigado, separado do corpo. O membro fica agarrado ao para-brisa do automóvel. O motorista não se detém para prestar socorro à vítima desmembrada.

E não é só. O jovem universitário ― universitário! ― continua seu caminho com o braço sanguinolento teimosamente colado ao vidro dianteiro. Não lhe passa pela cabeça que todo braço é irrigado por artérias e que a vítima, que naquele momento se esvazia de seu sangue, há de estar precisando de ajuda. Não lhe ocorre que uma chamada de emergência pode ser feita de seu próprio celular. Não se preocupa nosso universitário em ao menos devolver à vítima o braço decepado.

Quem conhece a cidade de São Paulo sabe que, da Avenida Paulista até a Avenida Ricardo Jaffet, vão bem uns 15 minutos. Quando o tráfego está livre, naturalmente. Portanto, afaste-se a ideia de uma reação tresloucada, impensada, tomada sob momentânea e violenta emoção. O que nosso universitário fez foi, como se diz, de caso pensado. Pensado, pesado e arquitetado. Teve um bom quarto de hora para sopesar o que tinha feito e o que se preparava a fazer.

E o que fez? Parou seu veículo às margens do riacho Ipiranga ― sim, exatamente aquele do Hino Nacional ―, atirou lá o membro decepado e foi-se embora tranquilo, na certeza de nunca ser desmascarado.

Neandertal

Sabe-se que, 50 mil anos atrás, os Neandertais já tinham assimilado a noção de solidariedade. Quando a doença, um acidente, a velhice impedia que um deles continuasse a dar sua contribuição ao grupo, os demais o amparavam e provinham ao seu sustento. É uma das características que marcam a diferença entre humanos e animais. Há que reconhecer que algum resquício troglodita ainda resiste nas profundezas da alma.

O que ocorreu na Avenida Paulista às 5h da manhã deste domingo é para mim mais chocante e mais preocupante que todos os arrastões que entopem as páginas policiais de nossos jornais.

Mais do que se preocupar com dividendos de um hipotético pré-sal ou com o resultado de futuras eleições, nossos mandachuvas deveriam tomar a temperatura do desastre que a impunidade crônica está preparando para os que comandarão o país dentro de 20 anos.

De minha parte, não posso fazer grande coisa além de apontar o que me parece errado. Que aqueles que detêm o poder cumpram seu dever e façam o necessário. E urgentemente. A quase garantia de impunidade tem de ser erradicada da paisagem tupiniquim. O Brasil tem de voltar a ser um país normal. A continuar como está, nossos netos voltarão ao estado selvagem.

As margens do Ipiranga, que um dia foram plácidas, estão tingidas de sangue. De sangue e de vergonha. De 1822 para cá, elas já se tinham habituado a receber poluição e detritos, mas não estavam preparadas para dar guarida ao produto de atrocidade tão covarde.