O bacana

Vai doer, doutor?

José Horta Manzano

A gente está habituado ao linguajar de meliante utilizado pelos membros da família Bolsonaro. ‘Habituado’ é maneira de dizer. Acho que quem tem ouvidos sensíveis e vive distante desses ambientes rasteiros não se acostuma nunca. É um susto a cada novo pronunciamento do clã.

Tem horas em que o palavreado que eles usam em público deixa o cabelo mais arrepiado que de costume. Foi o que aconteceu em 10 de março deste ano. Um dos bolsonarinhos, aquele que é deputado, irritado com a obrigação de portar máscara para proteger a si e aos outros, exprimiu-se no fino linguajar da família e ordenou à nação que “enfiasse a máscara no rabo”. Não se sabe se foi atendido.

Ao se deixar fotografar ontem no momento em que recebia vacina anticovid, surpreendeu a nação. Ninguém imaginava que o bacana fosse aparecer dando o braço a torcer – perdão! – dando o braço a vacinar. Provou que é macho e que não tem medo de agulha. Só um pouquinho.

Ainda por cima, mostrou que é homem de palavra: apareceu sem máscara. Só que a demonstração de coerência ficou pela metade. Por descuido ou por pudor, não instruiu o cinegrafista a filmá-lo de costas, de modo que não ficou confirmado se realmente enfiou a máscara no lugar que ele mesmo tinha sugerido à nação.

A atitude do bolsonarinho inspira nova cantiga de roda. Pra cantar depois que as crianças forem pr’a cama. Chama-se “Onde está a mascarinha?”

Ti-ra, ti-ra,
Tira a cuequinha
Não deve ficar brabo
Queremos ver seu rabo

Rio Tinto

José Horta Manzano

Você sabia?

Quando a gente acha que já viu de tudo, é aí que aparece coisa assombrosa. Olhe, pode parecer, mas hoje não estou falando do Bolsonaro e do espantoso desfile de desajustados que lhe fazem companhia. O capitão é sobressalto diário garantido, mas há coisas que, embora menos nocivas, também surpreendem.

Você já viu um rio de água vermelha? Não estou me referindo a um curso d’água que um dia tenha ficado vermelho por algumas horas em consequência de um acidente de caminhão-tanque(1). Não. Falo de um rio de águas permenentemente vermelhas. Que não mudam de cor há séculos.

Não existe? Não acredita? Pois sim, esse rio existe. Tem 100km de comprimento e fica no sul da Espanha, na província de Huelva. Nasce nas encostas da Sierra Morena e desemboca no Golfo de Cádiz. Não por acaso se chama Rio Tinto. Tinto, em espanhol, quer dizer vermelho. Essa, por sinal, é a razão de chamarmos o vinho vermelho de vinho tinto.

A cor de suas águas provém de uma mina polivalente, conhecida e explorada faz milênios. É rica em cobre e prata. Tem até um pouco de ouro. Essa profusão de metais confere à água um teor muito ácido (pH 2). A cor avermelhada se deve principalmente ao ferro dissolvido.

Não se tem certeza se o tom vermelho escuro foi sempre o mesmo, ou se foi agravado nos últimos séculos, pela exploração mineira. Seja como for, é uma curiosidade imperdível. Se um dia, passada a epidemia, o distinto leitor fizer uma viagem pela região, não deixe de tirar uma selfie(2).

(1) Em Portugal, usa-se mais “caminhão-pipa” ou “caminhão-cisterna”.

(2) O Volp tanto admite “um selfie” quanto “uma selfie”. Escolha. É acertar ou acertar.

Aurora boreal

José Horta Manzano

Outro dia, já estava encerrando o expediente quando dei de cara com essa belíssima foto de uma aurora boreal. Como sabem meus cultos leitores, a chamada aurora boreal é um fenômeno elétrico somente visível nas cercanias dos polos.

Eu disse doS poloS, isto é, elas tanto ocorrem perto do Polo Norte quanto do Polo Sul. Por ser a Antártida um continente habitado somente por cientistas, onde nenhum passa mais que uma temporada limitada, é raro ver fotos desse fenômeno tiradas por lá. Cientistas não costumam viajar àquelas lonjuras a turismo.

Já que o fenômeno ocorre tanto no hemisfério norte (boreal) quanto no hemisfério sul (austral), por que é que sempre nos referimos a ‘aurora boreal’? Acredito que o melhor nome seria ‘aurora polar’. Serviria para os dois casos.

Mas o problema hoje é outro. Releia o título da matéria. Algo não lhe parece fora de lugar? É claro! O verbo está mal conjugado.

Dispor é filhote de pôr. Segue o modelo do pai da família em todos os tempos. Assim:

Ele põe   – ele dispõe
Ele pôs   – ele dispôs
Ele punha – ele dispunha
Ele puser – ele dispuser

Portanto, ganha estadia grátis na Islândia quem se dispuser a fotografar uma aurora boreal. Ou polar, tanto faz. A notícia contém mais uma impropriedade. Em princípio, a palavra estadia é reservada para navio no porto e carro no estacionamento. Para pernoite num hotel, estada fica bem melhor. Vamos corrigir de vez?

Ganha estada grátis na Islândia quem se dispuser a fotografar uma aurora boreal.

Cuba seja aqui

Eduardo Affonso (*)

Você já foi a Cuba, companheiro? Não? Então, vá. Quem fez isso tem muita história para contar.

Fui ávido para mergulhar no Caribe e no comunismo. Encontrei-os em frente ao hotel. Um, aspergindo azul sobre o Malecón; o outro, na forma de um sujeito que veio oferecer charutos desviados das fábricas estatais. No, gracias. Será que eu não queria rum legítimo? Conhecer uma amiga dele? Um amigo, quem sabe? Essa cena se repetiu dezenas de vezes. Mas não era nos tempos de Fulgêncio Batista que o país se tornara o paraíso do contrabando e da prostituição? Cuba e seus paradoxos.

Nas sacadas dos sobrados da Habana Vieja (impossível estar em Cuba e não pensar na Bahia), há lembranças de uma já dilapidada elegância. Numa dessas quase ruínas, a orgulhosa militante faz questão de contar que falta manteiga, mas todos têm pão; que ela não teve boneca, mas a filha é cientista. Quantos no mundo — pergunta, retoricamente — podem dizer isso? Não sei. Adiante, na calçada onde se trocam tampas sem panela por panelas sem tampa, outra mulher, com dólares amarrotados na mão, me pede para comprar, numa loja exclusiva para estrangeiros, açúcar, sabonete, um pedaço de frango. Onde se aceita peso, falta quase tudo.

O analfabetismo foi praticamente erradicado. Mas educação, entendida como diálogo, reflexão, questionamento e construção ativa do conhecimento, isso não há. Há doutrinação — o oposto de preparar para o mundo, de proporcionar a experiência de saber o que existe mais longe.

Na teoria, em Cuba haveria livros a mancheias, edições baratas por causa do papel de baixa qualidade e do pouco- caso com direitos autorais. Na prática, bem fornidas só as prateleiras de marxismo. Mas tive experiências enriquecedoras em livrarias. Com um quê de filme de 007, elas tinham se tornado o lugar perfeito para câmbio ilegal. Trocavam-se olhares, acertava-se a taxa (dez vezes maior que a oficial) com gestos sutis. Pesos cubanos eram deixados entre as páginas ásperas de um volume sobre materialismo dialético, enquanto se encartava a cédula de dólar numa obra em papel-jornal sobre a concentração de capital. Depois, era só devolver os exemplares às estantes, disfarçar, e cada um folhear o livro alheio, recolhendo discretamente o que ali houvesse de valor.

Ensaia-se agora, no verão de lá, uma “primavera de Havana”, com o povo — alegre e generoso como poucos — indo às ruas exigir liberdade, oportunidade, dignidade, comida. Quem derrubou há 62 anos uma tirania saberá como fazer uma nova revolução, trocando “Patria o muerte” por “Patria y vida”.

Estive na Hungria de Kádár, na Tchecoslováquia de Husák, na Iugoslávia de Dizdarevic. No Mianmar de uma junta militar, na Cuba de Fidel. E, para variar, no Chile de Pinochet. Muita sorte teve, muita sorte terá quem andou por lá como viajante, sabendo que as restrições eram por poucos dias, não sem data para acabar.

Na última noite em Havana, me apareceu no hotel a cubana para quem comprei comida e com quem comentei não ter encontrado os livros que queria. Trazia numa sacola todos os de Alejo Carpentier e Nicolás Guillén da sua estante.

Por isso, Cuba seja aqui. Uma gente tão parecida com a nossa, que não quer saber de ditadura. Seja a de Castro, seja a de Ustra.

(*) Eduardo Affonso é arquiteto, colunista do jornal O Globo e blogueiro.

Roubo de areia

Praia Rosa, Sardenha

José Horta Manzano

Me lembro que, de criança, a gente gostava de procurar conchinha na areia da praia. Naquela época, encontrava-se muita concha quebrada. Havia também daqueles caramujos grandes que a gente encostava no ouvido pra ouvir o ruído do mar. Faz tempo que não vou à praia, mas imagino que as crianças de hoje continuem praticando o mesmo esporte.

Conchinha, a gente levava pra casa. Quanto à areia, não me lembro de ter visto alguém levar nem um punhadinho de lembrança pra casa. Dizendo assim, até parece coisa de maluco: com tanta concha pra catar e tanto artesanato pra comprar, quem é que vai ter o mau gosto de botar areia na bagagem de volta?

Pois há lugares do mundo em que isso se faz. As praias cinematográficas da ilha da Sardenha (Itália) são vítimas dos aficionados desse estranho esporte. E não é de hoje. Já faz décadas que forasteiros enchem garrafas, baldes e sacos de plástico com areia e carregam pra casa. Nem sempre se conhece a finalidade do roubo. Há quem faça comércio. Parece até que há anúncios na internet de gente oferecendo 1kg de areia da Sardenha contra 1kg de areia das Bahamas, coisas desse tipo. Não posso garantir, porque nunca comprei.

Tanto fizeram, que o governo provincial resolveu legislar pra dar um basta. Já nos anos 1990, a pequena Praia Rosa (na região de Budelli, Sardenha) foi declarada zona de proteção ambiental, e as visitas, proibidas. É que, se bobeassem, a areia sumiria em pouco tempo. Essa praia tem uma particularidade: a cor rosada de sua areia. Ela é conferida por um microorganismo cor-de-rosa que vive dentro das conchinhas. Com o passar do tempo, os moluscos morrem, as conchas se partem em mil fragmentos que acabam chegando à areia da praia dando-lhe a cor característica. Que se saiba, esse fenômeno não ocorre em outros lugares.

Atualmente, só se pode ver a Praia Rosa de longe, em excursões a bordo de pequenas embarcações controladas e vigiadas. Elas têm permissão de se aproximar a, no máximo, 70m do litoral, mas ninguém pode desembarcar, nem a nado. Na pequena ilha, ninguém entra; lá só mora o vigia do parque natural.

Assim mesmo, turistas desavisados (ou que se fazem de bobos) continuam levando areia de outras praias sardas. É impossível saber a quantidade exata, mas se calcula que toneladas e toneladas são roubadas todos os anos e transportadas para toda a Europa. As bagagens que passam pelo aeroporto são fiscalizadas, mas a maior parte dos turistas vêm de veículos tipo motorhome, trailer ou camping car. Esses escapam quase sempre, dada a impossibilidade de inspecionar cada recanto de cada veículo.

Assim mesmo, não é aconselhável arriscar. Para quem for apanhado em flagrante, o castigo é pesado: multa que varia entre 500 e 3.000 euros (R$ 30 mil a R$ 190.000), dependendo da gravidade e do volume do roubo. A penalidade tem de ser paga imediatamente, por cartão de crédito. Se não houver fundos, veículos e passageiros serão retidos até resolução do problema.

Vinho de enchente

José Horta Manzano

Você sabia?

As inundações que castigaram o noroeste da Alemanha no mês passado destruíram boa parte do vinhedo de Ahr, grande região produtora de vinho tinto. Não só as vinhas foram destruídas, mas a enchente, ao engolfar vilas e vilarejos, levou gente, casas e deixou porões debaixo d’água.

Com a baixa das águas, os sobreviventes descobriram um espetáculo de desolação. Móveis, utensílios e objetos pessoais estão perdidos. Mas os porões conservavam boa reserva de garrafas de vinho intactas, ainda estocadas nas prateleiras onde sempre estiveram. Com um detalhe: estão todas sujas de lodo e de barro seco.

Chamados para examinar, laboratórios deram o veredicto: o barro não é tóxico. Portanto o conteúdo das garrafas não está contaminado. O conteúdo está perfeitamente consumível, já que a sujeira se limita à parte externa.

O primeiro impulso foi de limpar as garrafas. Mas alguém teve a ideia de guardá-las tal como estão e fazer uma venda especial em favor dos vinhateiros da região. É bom exemplo do ditado “fazer das tripas coração”. Os vinhos dessa “safra” levam todos o nome de Flutwein – vinho de enchente”(*).

Organizou-se uma espécie de “ação de crowdfunding”, em que cada comprador contribui para ajudar financeiramente os pequenos produtores a se levantarem do baque que os derrubou. Quem contribuir leva de brinde uma garrafa – ou mais de uma, conforme o valor da doação. O preço das garrafas varia de 10 a 500 euros, dependendo da qualidade e da raridade do conteúdo.

Quem se habilitar, que entre em contacto com a União dos Pequenos Vinhateiros da Região de Ahr. Dado que a catástrofe despertou forte sentimento de solidariedade no país inteiro, não garanto que ainda sobrem garrafas. De todo modo, o estoque era limitado.

(*) Flutwein é termo composto de Flut (enchente) + Wein (vinho). Reparem que Flut é cognato do inglês flood, de mesmo significado.

The hole

José Horta Manzano

Primeiro, abro um parêntese. Aquilo que hoje se conhece como droga era chamado de entorpecente algumas décadas atrás. Droga era produto preparado por droguistas e vendido em drogaria, dentro de total legalidade. Cem anos atrás, quando a oferta de remédios de laboratório não era ampla como hoje, era costume o médico “dar a receita”, isto é, escrever num papel os ingredientes e o modo de preparar o medicamento. (Aliás, é por isso que se chama até hoje receita, exatamente como receita de bolo.)

Entregava-se à farmácia o papelzinho, fazia-se a encomenda e um droguista se encarregava de aviar a receita. Salvo caso de emergência, ficava pronta no dia seguinte. Repare que na polícia, até hoje, o departamento que cuida de heroína, cocaína, crac e outros bichos é o Setor de Entorpecentes, nunca um hipotético Setor de Drogas. Vamos fechar o parêntese.

No mundo todo, a todo momento, tem gente se esquivando da própria responsabilidade. É o policial que, após despachar o bandido para o outro mundo, explica que o fora-da-lei atirou primeiro e que ele, policial, só revidou em legítima defesa. É o estuprador que explica que só fez o que fez porque a moça, que era um demônio de saias, atiçou seus baixos instintos e deixou-o impossibilitado de resistir. É o aluno que, apanhado em flagrante quando ‘colava’ a prova do coleguinha da frente, informa que só fez isso porque, tendo o colega se ausentado pra fazer pipi e deixado o papel à vista, foi impossível desviar o olhar. Tratou-se de “cola involuntária”.

Estes dias, as manchetes da França deram, com destaque, a notícia de um adolescente de 14 anos que foi assassinado com uma rajada de metralhadora Kalachnikov. A investigação demonstrou que o jovem estava cumprindo sua missão de vigiar um ponto de venda de droga, à entrada de um conjunto habitacional da periferia de Marselha. Numa briga de gangues, dois desconhecidos encapuzados chegaram de moto, o infeliz acabou levando o tiro, enquanto o resto do bando escapou. E os assassinos fugiram na mesma moto em que tinham vindo.

Dia seguinte, o comentário do prefeito de Marselha foi lapidar. Lamentou-se ele de que “nesta cidade, compra-se uma metralhadora Kalachnikov com a mesma facilidade com que se compra um pãozinho de padaria”. (O “pãozinho de padaria” é invenção minha; no original, é un petit pain au chocolat – um pãozinho de chocolate”, especialidade ultrapopular, apreciada por grandes e pequenos. Mas o efeito é o mesmo.)

Taí um desavergonhado exemplo de alguém que procura se desvencilhar da própria culpa. Em Marselha, como em qualquer lugar do mundo, os pontos de droga são pra lá de conhecidos das autoridades municipais. Se continuam funcionando, é porque têm permissão tácita para fazê-lo.

Quanto ao acerto de contas entre gangues rivais, a culpada não é a Kalachnikov, a arma do crime. O problema não vem da facilidade de aquisição da metralhadora preferida por 11 de cada 10 terroristas. Se fosse difícil comprá-la, qualquer outra arma teria servido: arco e flecha, coquetel Molotov, foice, tacape ou até um modesto bodoque. Se o adolescente morreu, a culpa certamente não é da arma.

The hole is further down (o buraco é mais embaixo).

O Sete de Setembro vem aí

José Horta Manzano

Um passeio por sites bolsonaristas – que há de montão, acredite! – ensina que os devotos estão animados. Prevêem que o próximo 7 de setembro será o 6 de janeiro tupiniquim.

Vamos pôr em termos claros. Os adeptos da seita presidencial entendem que, aproveitando a modorra que o sol do cerrado impõe, o povo armado invadirá a Câmara, o Senado e o STF. Tudo ao mesmo tempo, no Dia da Pátria, num decalque exato do que ocorreu em Washington em 6 de janeiro, quando uma turba ensandecida tentou tomar à força o Capitólio.

O capitão também deve acreditar na patacoada; assim mesmo, prefere pôr um pé atrás. Chegou a declarar, esses dias, que “não quer desfile nem festejos no 7 de setembro”. Com tal atitude, imagina não poder vir a ser acusado de incitar a turba – para o caso de dar tudo errado, naturalmente. Pra reforçar, declarou ontem que, no 7 de setembro, pretente estar na Avenida Paulista. Ninguém pode ter certeza, porque as afirmações do presidente são, digamos assim, flutuantes.

Toda a tecnologia atual, incluindo a I.A. (inteligência artificial) ainda é incapaz de prever, tim-tim por tim-tim, o desenrolar de fatos futuros. Portanto, estamos ainda no estágio de “quem viver verá”. Seja como for, é conveniente tomar pelo menos duas providências.

A primeira é reforçar a guarda desses três centros do poder. Não precisa lotar a praça de brucutus fumarentos nem cercar a cidade com cordão policial. Mas uma vigilância discreta não faz mal a ninguém.

A segunda providência é deixar repórteres e jornalistas de prontidão, armados com câmeras de alta definição posicionadas em pontos estratégicos, tanto no exterior quanto, principalmente, no interior dos recintos. Isso permitirá reconhecer os invasores e identificar seus líderes, o que pode ser útil para providências futuras.

Multidões enfurecidas não costumam ganhar guerras nem derrubar regimes. Pra conseguir reviravolta total, precisam do apoio de quem detém a força. Portanto, com multidão ou sem ela, se não houver empenho do Exército, nada muda. Inversamente, se o Exército estivesse interessado e coeso, não precisavam de multidão pra botar tudo de cabeça pra baixo. Já teriam feito.

Destruição de vacinas

José Horta Manzano

Na noite de segunda para terça desta semana, um vacinódromo situado perto de Toulouse (França) foi vandalizado. Foi ataque de tipo clássico, feito por desconhecidos no escurinho da noite. Resultou em vidros partidos, móveis destroçados, prateleiras reviradas, computadores quebrados e, o pior de tudo, 500 doses de vacina anticovid destruídas. Não foram roubadas: foram inutilizadas e deixadas no lugar.

Não é o primeiro ataque a centros de vacinação no país. No começo do mês, um escritório regional da Ordem dos Enfermeiros já havia sido vítima de vandalismo. Em julho, dois vacinódromos instalados em tendas de lona já haviam sido atacados, tendo um deles sido parcialmente incendiado.

Esses ataques são o braço violento dos protestos de rua que estão se tornando habituais no país: todos os sábados, há passeatas animadas e ruidosas nas principais cidades. Participam os “antivax”, aqueles que, por alguma razão, se recusam a receber a vacina.

O problema deles é que, não sendo vacinados, ficam excluídos de boa parte das interações sociais. Não têm direito ao pass sanitaire – a carteira vacinal”. Não tendo o “pass”, não podem entrar em bar, nem restaurante, nem cinema, nem museu, nem piscina pública. Em determinados empregos, como na área de saúde, não têm mais o direito de trabalhar. Daí o mau humor.

Vamos refletir. Caso o distinto leitor – que Deus o livre – tivesse de ser hospitalizado. Gostaria de ser cuidado por uma equipe de gente não vacinada? Médicos, enfermeiros, auxiliares de enfermagem e pessoal de limpeza? Todos expirando dentro do seu quarto os micróbios trazidos de fora?

Até certo ponto, aceito que alguns façam a escolha pessoal de não se vacinar contra a covid. Não entendo por que fazem isso, mas aceito que o façam por convicção pessoal. Levantar faixas de protesto e marchar nas avenidas aos sábados é uma coisa – pode até causar incompreensão, mas não agride nem machuca ninguém. Já vandalizar vacinódromo é coisa bem diferente e inadmissível. É a potencialização do egoísmo, da intolerância e da truculência. Faz lembrar a destruição de livros por parte daqueles que não apreciam determinada literatura. Dá frio na espinha.

A liberdade que o antivax reclama (de não se vacinar) é exatamente igual à do cidadão que deseja receber a vacina. Portanto, assim como o adepto da vacinação não obriga o antivax a estender o braço, o antivax não tem o direito de impedir a vacinação dos outros.

Além do quê, seja por que motivo for, destruir propriedade alheia é crime.

Observação
Acho divertido que os franceses tenham dado ao certificado vacinal o nome de “pass sanitaire”. É assim mesmo que escrevem: “pass”, com dois ss e sem o e final.

A forma “passe” existe em francês, como elemento de composição de inúmeras palavras: passe-partout (=chave mestra), passe-purée (=espremedor de batata), passe-temps (=passatempo), passe-passe (=passe de mágica). Mas “passe” sempre tem um e no final.

Sem e, é novidade. Devem ter feito isso pra parecer mais moderno, pra ficar mais próximo de um hipotético sanitary pass.

Talibã

José Horta Manzano

Nestes dias em que o mundo se surpreendeu com a queda ultrarrápida do governo afegão diante dos talibãs, todos procuram culpados. Como é possível que o país tenha caído com tanta facilidade?

Análise é o que não falta. Há quem aponte a falta de preparação do exército afegão. Há quem diga que as tropas legalistas não eram em número suficiente diante dos revoltosos. Há ainda quem acredite que o exército nacional, além de mal preparado pelos americanos, estava mal equipado.

É possível que todas essas críticas sejam apropriadas – é difícil fazer afirmação definitiva. No entanto, elas ignoram um problema de raiz, que, a meu ver, está na origem dos males atuais: o Afeganistão não é um país. Pelo menos, não é o que costumamos entender como um estado-nação.

Aquela região é um mosaico de etnias, que falam línguas contrastadas e que, muitas vezes, professam religiões antagônicas. As línguas do grupo iraniano são majoritárias (baluche, aimaque, hazara, tadjique, pachtu), mas extensas regiões do país falam línguas do grupo túrcico (turcomeno, uzbeque, quirguiz, todas aparentadas ao turco). Há ainda línguas minoritárias, classificadas fora desses troncos principais. Dê uma olhada no mapa etnolinguístico que reproduzi logo na entrada do post.

Essa diversidade de falares impede a intercompreensão. Em outros termos: ninguém o que diz um habitante de outra região. Para se entenderem, teriam de eleger uma língua comum – uma lingua franca –, objetivo impossível para um povo de poucas letras. Só essa particularidade, de não se entenderem, já é barreira intransponível para a formação de um país.

Imagine o distinto leitor o drama que seria não poder dialogar com os nativos de um Estado vizinho ao seu. Como é que se há de governar uma tal colcha de retalhos? Só se consegue pela força, com mão de ferro. Foi o que fizeram as forças de ocupação durante 20 anos e é exatamente o que os novos donos da região – os talibãs – se preparam a fazer.

Assim mesmo, é bom ter em mente que esse tipo de mosaico transformado em Estado é fonte permanente de tensões. Até países altamente civilizados, como a Bélgica, por exemplo, assistem a confrontos periódicos entre as comunidades que o compõem. No Afeganistão, é certeza: os talibãs nunca poderão se mostrar “bonzinhos” nem afrouxar o regime, sob pena de o país se desagregar.

Taliban? Talibã? Taleban? Talebã?
Tenho visto na imprensa todas essas grafias e ainda mais algumas. Como escrever certo? Vamos começar pelo começo.

Talibã é palavra afegã inspirada no termo árabe taleb, que quer dizer estudante. No começo, a palavra designava os estudantes de teologia que, nos anos 1990, tomaram conta do país. Radicais, impetuosos e despreparados para governar, fizeram um desastre. Foram contidos pelas forças de ocupação de uma coalizão encabeçada pelos EUA e coadjuvada por países europeus. Só que a presença estrangeira não resolveu os conflitos seculares. Mal os ocupantes começaram a se retirar, tudo está voltando ao que sempre foi.

Agora, que sabemos de onde vem a palavra talibã, como aportuguesar a grafia? Dado que quem faz a língua é o falante, as coisas vão se acomodar com o tempo. Por enquanto, é muito cedo. Cada jornalista escreve como imagina ser correto. Eu escreveria assim, como pronunciamos nós: talibã. Com inicial minúscula e ã no final, que é nossa maneira de aportuguesar (Irã, Omã, Amsterdã).

Em nenhum caso eu poria inicial maiúscula. Assim como democracia, monarquia, fascismo, getulismo e janismo levam inicial minúscula, talibã também deve levar. Eu evitaria o coletivo “o Talibã”. Melhor falar no “regime talibã” ou, no limite, “regime dos talibãs”.

Mas isso é o que este escriba acha. É possível que o uso imponha outras normas. Se assim for, seguiremos o cortejo.

Trilha com sabor de chocolate

José Horta Manzano

Você sabia?

Os suíços sentem muito orgulho por seu país não ter sido invadido por tropas alemãs nem italianas na Segunda Guerra Mundial. É realmente surpreendente que a pequena Suíça não tenha sido engolida, com casca e tudo, pelos exércitos do Eixo. Afinal, excluindo um minúsculo trecho que a separa do Principado do Liechtenstein, a Suíça estava completamente cercada por nações em guerra. Tinha (ainda tem) fronteira com a Alemanha, a Itália, a França (ocupada pela Alemanha) e a Áustria (anexada à Alemanha). No país helvético, muita gente atribui essa não intervenção à força de dissuasão representada pelo poderio militar suíço.

Bunker disfarçado de chalé de madeira

Há quem sorria ao ouvir essa explicação. Seja como for, tanto Berlim quanto Roma sabiam que seria bastante complicado dominar e ocupar um território montanhoso como este. Sabiam também que os suíços estavam muito bem armados e equipados, além de serem conhecidos como combatentes aguerridos.

Toblerone de verdade

Hitler e Mussolini devem ter feito a conta duas vezes. Chegaram à conclusão de que não valia a pena perder tempo, dinheiro, esforço e vidas humanas para conquistar um território pouco industrializado e totalmente desprovido de riqueza mineral. De qualquer maneira, não saberemos nunca o que realmente passou pela cabeça dos dois ditadores.

Linha dos toblerones

Linha dos toblerones

Eu acrescentaria mais uma razão. Numa Europa conflagrada, interessava a todos respeitar a neutralidade de um pequeno território, situado bem no centro geográfico do conflito. Era um lugar seguro, de onde não se receava que viesse nenhuma ameaça. Mais que isso, era um lugar onde todos podiam guardar, na confiança, seus dinheiros, seus ouros, suas obras de arte e suas joias. Mais ainda: um lugar superconveniente para eventuais encontros secretos e confabulações discretas e confidenciais. Todas essas razões hão de ter contribuído para que o país fosse poupado.

Isso hoje faz parte da História. Como diz o outro, «Depois que aconteceu, qualquer um é profeta; difícil mesmo é adivinhar o futuro». Naqueles anos 1930, um bafo de guerra soprava no continente, embora ninguém soubesse de que lado nem com que força viria a tempestade. As autoridades suíças não podiam cruzar os braços e apenas torcer para que o país não fosse invadido. Todos tinham de estar prontos para repelir tropas inimigas.

Linha dos toblerones, hoje utilizada para caminhadas a pé

A inteligência militar planejou um complexo sistema de defesa. Naqueles tempos, a referência mais próxima era a Primeira Guerra (1914-1918), durante a qual os ataques se faziam por via terrestre, com tanques e blindados. Foi pensando nisso que bolaram o sistema defensivo suíço, basicamente terrestre àquela época. Incluía numerosos pontos, alguns dos quais são hoje conhecidos do grande público, enquanto outros ficarão secretos para sempre. Talvez seja melhor assim.

Todas as pontes do país estavam minadas. Ao menor sinal, as vias de comunicação seriam interrompidas, o que dificultaria tremendamente o avanço de tropas inimigas. A região de Genebra, fronteiriça com a França, trazia um problema espinhoso para os militares. Por ser constituída de terrenos planos e pela ausência de rios, foi considerada indefensável. Tomou-se a decisão tática de dar a cidade como perdida e implantar o sistema de defesa uns 30km mais para o interior do país.

Villa Rose Fortaleza disfarçada de casa de campo

Villa Rose
Fortaleza disfarçada de casa de campo

Construíram-se fortalezas com aparência de pacíficas casas de campo. Foram levantados bunkers com aspecto externo de inofensivos chalés de madeira. Instalaram-se discretos postos de observação em pontos mais elevados ― naqueles tempos não havia street view nem espionagem por satélite. Para completar, uma verdadeira obra de arte defensiva foi construída, uma versão helvética da muralha da China. Ficou conhecida popularmente como Ligne des toblerones, a linha dos toblerones.

O que era e por que lhe deram esse nome?
Era – e ainda é – uma linha de 10km de blocos de concreto que impossibilitam a passagem de tanques de guerra. São quase 3000 blocos monstruosos de 9 toneladas cada um. Têm forma peculiar de tetraedro que lembra um pedaço de chocolate Toblerone, daí o apelido.

Villa Rose Janela com cortina falsa

Detalhe da Villa Rose: janela com cortina falsa

Não se tem notícia de que nenhum tanque tenha jamais tentado superar o obstáculo. A guerra acabou faz muito tempo. A Suíça não foi invadida. Mas os toblerones continuam lá até hoje. Quem é que vai arrastar aqueles imensos blocos? E o que fazer com eles depois? Assim, foram deixados onde estavam e, aos poucos, acabaram se tornando atração turística. Uma trilha própria para caminhadas a pé serpenteia por quilômetros, dentro da floresta, ao longo da barreira de concreto. É conhecida hoje como o Sentier des Toblerones, a Trilha dos Toblerones.

Taí uma obra militar que soube envelhecer. Em escrupuloso respeito ao espírito atual, não foi atirada a um lixão mas acabou reciclada.

Publicado originalmente em 28 nov° 2013.

15 de agosto

José Horta Manzano

Em alguns países de tradição católica, 15 de agosto é dia feriado. Festeja-se a Assunção(*) – a subida ao céu de Maria. Segundo a tradição, a mãe de Jesus não teria realmente morrido, como um mortal qualquer. Chegada ao final de seu percurso terreno, apenas fechou os olhos por um momento para, em seguida, reabri-los e ser levada, de corpo e alma, ao reencontro familiar: Pai, Mãe e Filho.

Em Portugal, descreve-se esse momento como “Dormição de Maria”. Sempre achei curioso os alemães utilizarem a palavra viagem para descrever a Assunção: Mariä Himmelfahrt – A viagem ao céu de Maria”. Enquanto costumamos dizer, mais poeticamente, “subida aos céus”, o alemão é mais realista. Talvez seja implicância minha, mas a palavra viagem traz lembranças bastante físicas que quebram o encanto e o mistério do fenômeno.

Ao sentir que, em pleno século 20, estava ficando complicado fazer o povo acreditar candidamente nessa narrativa, o papa Pio XII resolveu utilizar a mão pesada. Numa bula de 1950, impôs a Assunção de Maria como dogma de fé, ou seja, verdade indiscutível, daquelas que o fiel tem de aceitar sem protestar.

Pelo ensinamento da Igreja, o destino de todos os fiéis, no final, será o mesmo de Maria. Ela simboliza esse futuro comum a todos. A diferença é que ela foi pela via expressa; quanto aos outros, cada qual vai seguir o próprio caminho, que pode ser mais (ou menos) pedregoso. Bom, tem aqueles que vão parar no inferno, mas essa já é uma outra história, que fica para uma outra vez.

Em Portugal, o 15 de agosto é feriado nacional. Quanto aos vizinhos espanhóis, têm tantas festas municipais e regionais, que o dia praticamente pode ser visto como feriado nacional. No Brasil, talvez já tenha sido dia de festa nos tempos de antigamente, mas não encontrei menção. Atualmente, apenas alguns municípios, como Belo Horizonte e Fortaleza, festejam esse dia.

Na Itália, a data é uma das mais marcantes do calendário. Tem até nome especial: chama-se Ferragosto, uma corruptela da locução latina “Feriae Augusti – o Repouso de Augusto”. Oficializada pelo imperador Augusto na base de antiquíssimas festividades, a data marcava o início do período de descanso que se seguia ao fim da parte mais pesada do trabalho nos campos. Os arados (e os animais de carga que os puxavam) podiam repousar.

Hoje em dia, o arado não é mais puxado por animais, mas a tradição festiva continua, reforçada pelo fato de o 15 de agosto cair no meio das férias de verão, no período mais quente do ano, em que multidões aproveitam o feriado para tirar alguns dias de descanso.

Em toda a península, aeroportos e estações de estrada de ferro ficam apinhados – em modo covid, naturalmente. Na era pré-internet, muita gente mandava cartão de Bom Ferragosto, assim como quem deseja Feliz Natal. Há quem continue firme na tradição, só que hoje vai por uótisápi. O simbolismo religioso do feriado passou para segundo plano.

Essa tradição de deslocamento populacional foi inaugurada e intensificada durante o período fascista, nos anos 1920 e 1930, com a criação das “excursões populares” incentivadas pelo governo central. Como ainda ninguém tinha tido a ideia de dar prêmios ao povão do tipo bolsa família, foi a maneira bolada pelos dirigentes da ditadura de proporcionar panem et circenses – pão e [jogos] circenses” ao povão.

Ignaros e distantes dessas chatices históricas, nossos atuais dirigentes, que parecem todos ter fugido da escola, descuidaram essa prática milenar de adubar o povo. Em vez de pão, entregam inflação. Em vez de jogos circenses, distribuem bofetadas e insultos diários. Desventurado Brasil!

(*) Apesar da vaga semelhança fonética com “ascensor”, o termo assunção não tem a ver com elevador. Pertence a outra família. Deriva do verbo latino assumere, cujo sentido primeiro é tomar para si, presumir, escolher. Assim, a assunção de Maria é a declaração de que a eleita é ela.

Consumir, assumir, presumir e assunto são membros da família. Presunto também é, só que, em nossa língua, o danadinho tomou outro caminho. Em vez de “presunto assassino”, temos de dizer “presumido assassino”. Presunto, como todos sabem, é outra coisa.

Essas palavras que tropeçam e saem da linha são o sal e a pimenta das línguas.

Quanto recebe um medalhado olímpico?

José Horta Manzano

Você sabia?

Faz só uma semana que se encerraram os Jogos Olímpicos de Tóquio, mas parece que faz um tempão. É que eventos marcantes arrebatam a atenção no momento em que ocorrem mas, assim que acabam, desaparecem da memória cansada.

Estive colecionando dados sobre o prêmio em dinheiro que cada comitê nacional destinou a seus campeões. Não foi fácil. Tive de catar um aqui, outro ali, que cada um fala do seu sem se preocupar muito com os demais.

As conclusões são interessantes, inesperadas e, às vezes, surpreendentes. Os montantes dados pelos países a seus atletas variam muito. Vão desde Singapura e Taiwan – generosíssimos – até países extremamente sovinas como a Grã-Bretanha e a Suécia.

Um singapuriano ou um taiwanês medalhado com ouro ganhou um amortecedor confortável para o resto de seus dias: voltou para casa com 3.800.000 reais no bolso. Além disso, os taiwaneses, ainda que não tenham conseguido o pódio mas tenham chegado, por exemplo, em 7° ou 8° lugar na prova final, foram premiados em dinheiro.

Para Singapura, a vistosa política até que saiu em conta, visto que o país não conseguiu nenhuma medalha. Já para o comitê taiwanês, a conta saiu salgada: seus atletas ganharam 12 medalhas, sendo 2 de ouro.

Nos esportes individuais, o Brasil pagou 250 mil reais a cada atleta dourado, 150 mil aos prateados e 100 mil aos de bronze. Os prêmios oferecidos por nosso país se encaixam na média dos vizinhos latino-americanos. Para o ouro, a Colômbia dá 300 mil reais, o Peru oferece 316 mil, o Chile presenteia com 289 mil. Mais generosa que o Brasil, a Bolívia propõe 262.500 reais a todo boliviano que chegue ao ouro; assim mesmo, nunca obtiveram nenhuma medalha.

Os comitês olímpicos de Hong Kong e da Indonésia também tiveram de levar a mão ao bolso pra pagar os prêmios prometidos. A Indonésia tinha oferecido 1.800.000 reais por ouro; seus atletas levaram um total de 5 medalhas, sendo uma de ouro. O mesmo aconteceu com Hong Kong. Um feliz vencedor “dourou” e embolsou a fabulosa soma de 3.400.000 reais por sua medalha; outros 5 colegas receberam prêmios menores com suas pratas e seus bronzes.

O paupérrimo Bangladesh propôs um megaprêmio de quase 1.600.000 reais por medalha dourada e um pouco menos para as prateadas e bronzeadas. Mas o risco de empobrecer era pequeno, visto nunca ter ganhado medalha antes. E não foi desta vez que ganhou.

A Estônia, país de espírito previdente, não dá prêmio tipo mega-sena. Talvez para evitar que o jovem, de cabeça avoada, jogue o dinheiro pela janela, faz proposta diferente. Os campeões passam a receber imediatamente uma pensão anual vitalícia de 4.600 euros, que será complementada por uma ajuda especial assim que chegarem aos 65 anos, a idade da aposentadoria.

A Polônia segue caminho semelhante, com um acréscimo generoso. Seus atletas dourados recebem, logo de cara, um prêmio de 310 mil reais. Bem mais tarde, quando chegarem ao 40° ano de vida, passarão a receber uma renda livre de impostos equivalente a 60% do salário médio nacional. Todos os meses, até o fim da vida! Atenção: não é o salário mínimo, mas o salário médio do país. Nada mal, não?

No fim da lista, estão os países de espírito pão-duro, aqueles que julgam que os atletas, treinados e financiados durante anos com o dinheiro dos contribuintes, não fazem mais que a obrigação quando vencem competições. Os jovens estarão assim devolvendo uma parte do que receberam. Sem dúvida, é uma maneira de enxergar o funcionamento da sociedade. Bem diferente da nossa criação, que nos faz acreditar que tudo nos é devido.

Entre os que não dão nenhum prêmio a seus vencedores, estão a Grã-Bretanha (65 medalhas), a Nova Zelândia (20 medalhas), a Suécia (9 medalhas), a Noruega e a Croácia (8 medalhas cada uma). Como se vê pelo número de medalhas recebidas pelos que ficaram chupando dedo, não é o vil metal que move essa juventude corajosa. O importante é competir.

Observação
Os montantes mencionados são resultado da conversão aproximada dos valores originais, expressos em moeda local.

Paraskevidecatriafobia

José Horta Manzano

Em dezembro de 1993, o British Medical Journal, órgão respeitado nos meios científicos, publicou um estudo feito por um colegiado de autores que levava título sugestivo: Is Friday the 13th bad for your health? – Sexta-feira 13 é dia ruim para a saúde?”.

Para evitar ao distinto leitor o trabalho de ler o artigo inteiro, dou logo a conclusão: parece que sim. No levantamento feito pelos autores, parece que acidentes rodoviários, por exemplo, ocorrem com maior frequência numa sexta-feira 13 do que em outras sextas-feiras. É verdade que não é tão complicado fazer com que estatísticas confirmem a tese que o autor queria demonstrar. Seja como for, mais vale ficar com um pé atrás.

E hoje é justamente sexta-feira 13. E 13 de agosto, ainda por cima! Para nós, brasileiros, o fato de o 13 de agosto cair numa sexta-feira reforça a maldição. Logo mais adiante, explico.

O palavrão que dá título a este post foi composto a partir de raízes gregas. Decompõe-se assim: Παρασκευή (Paraskeví=sexta-feira) + δεκατρία (decatría=treze) + φοβία (fobía=fobia). Juntando as pontas, fica: Pavor de sexta-feira treze. Muita gente fina faz parte do clube dos que detestam esse dia, acredite. Há gente que evita até pôr os pés fora de casa.

A origem da superstição é religiosa. A tradição cristã ensina que Jesus foi crucificado numa sexta-feira, no dia seguinte à última ceia, refeição compartilhada por 13 comensais. O número 13 foi, portanto, um mau presságio que anunciou um desenlace trágico.

Já a implicância com o mês de agosto não vem da tradição cristã. É coisa nossa. Alguns acontecimentos dramáticos atingiram a política brasileira em agosto.

Getúlio Vargas suicidou-se num 24 de agosto, enquanto Jânio Quadros renunciou num 25 de agosto. O ex-presidente Juscelino Kubitschek e o canditato à presidência Eduardo Campos morreram em agosto, ambos em acidente trágico. Dilma Rousseff foi destituída da Presidência num 31 de agosto. A maldição de agosto também atingiu o general presidente Costa e Silva, que teve um ataque cerebral e foi afastado do cargo em 31 de agosto de 1969. Até Carmen Miranda, que não estava na política mas era a estrela maior da música brasileira, faleceu num 5 de agosto.

Antes de toda essa mortandade, não sei por que razão, agosto já era conhecido como “mês do desgosto”. Minha avó dizia ainda que “agosto é mês de cachorro louco”. Não sei se haveria base científica, mas assim falavam os antigos.

Portanto, quando o 13 de agosto cai numa sexta-feira, todo cuidado é pouco! Ainda mais com covid na praça e, pior que tudo, com Bolsonaro de timoneiro. Valei-nos, São Benedito!

Sem luz no fim do túnel

Guadelupe, joia francesa do Caribe

José Horta Manzano

Do antigo império colonial francês, sobraram alguns retalhos, coisa pouca perto do que havia antes. Nas Américas, o maior território é a quase despovoada Guiana Francesa, nossa vizinha de parede, lindeira com o Amapá. Interessa a Paris sobretudo por abrigar um centro de lançamento de foguetes.

Junto à costa do Canadá, sobrou ainda um minúsculo arquipélago – Saint Pierre et Miquelon –, batido pelos ventos, lambido por ondas violentas e habitado por menos de 6 mil almas, quase exclusivamente pescadores.

Mas a verdadeira joia são a Martinica, Guadelupe e Saint Martin, pequenos grupos de ilhas situadas nas verdes águas do Caribe, um paraíso muito apreciado por hordas de turistas que vêm especialmente da metrópole comer siri e tostar ao sol. Saint Martin é uma ilha minúscula, que a França compartilha com a Holanda.

Já Guadelupe e a Martinica são maiorzinhas e inteiramente francesas. Todos esses resquícios do antigo império perderam, há tempos, o estatuto colonial. Fazem oficialmente parte do território nacional, com deveres e direitos idênticos aos dos territórios metropolitanos, exatamente como Paris ou Marselha.

A pandemia de covid-19 está mais ou menos controlada na Europa. Digo “mais ou menos” porque, com essas novas variantes, focos ressurgem aqui e ali a toda hora. No entanto, nos territórios franceses do Caribe a coisa está bem pior. A situação está pra lá de feia. Guadelupe e Martinica, que, levando em conta os turistas, perfazem um total de quase um milhão de pessoas, estão pulando miudinho.

Os hospitais estão abarrotados. Acabo de ouvir no rádio o testemunho de médicos de hospital que confessam que, a cada nova entrada de paciente, estão tendo de fazer terrível triagem e decidir quem tem mais chance de sobreviver e quem tem menos. Exatamente como aconteceu em Manaus, estão faltando bombonas de oxigênio.

Quem tiver mais chance de sobreviver, vai receber alguma assistência; quanto aos demais, serão entregues à própria sorte. Hoje de manhã, no principal hospital de Guadelupe, já havia 17 pacientes de covid, todos em estado gravíssimo, acomodados em macas nos corredores, sem oxigênio e sem assistência respiratória. Por falta de alternativa.

Atenção: não estamos falando do Bangladesh, mas da França! O responsável por essa situação infernal é a nova cepa de covid, a variante Delta, que pegou firme por lá. As autoridades da Martinica determinaram que os turistas abandonem a ilha o mais rápido possível. O toque de recolher, que já estava em vigor nas duas ilhas, foi ampliado. Agora é proibido sair de casa entre as 19h e as 5h da manhã. Mesmo fora desse horário, ninguém tem o direito de se deslocar num raio mais amplo que 5km em volta de sua residência.

Não me cabe dar conselho às autoridades sanitárias brasileiras. Afinal, esses funcionários são pagos para isso e supõe-se que estejam mais capacitados que eu. Mas a meus distintos leitores, que são todos gente fina, insisto: continuem a respeitar os gestos que salvam. São os mesmos que todos já conhecemos.

  • Fora de casa, use máscara, até (e principalmente) no elevador.
  • Cumprimente de longe, sem beijinhos e apertos de mão.
  • Evite, sempre que possível, lugares apinhados
  • Se puder fazer suas compras fora do horário de maior afluência, melhor será.
  • Não se preocupe se o álcool em gel resseca as mãos: use e abuse.
  • Quando chegar da rua, procure lavar cuidadosamente as mãos, o rosto, os óculos e, se possível, o cabelo.

No fundo, é questão de bom senso. A epidemia ainda não se foi. A variante Delta é da pesada, capaz de fazer estrago grande. Ninguém pode ainda garantir que a vacina seja eficaz contra essa cepa.

Se você sobreviveu até aqui, pra que facilitar? Güenta mais um pouquinho!

Variante Lota

José Horta Manzano

Faz uma semana, postei um artigo sobre as novas (e perigosas) variantes de covid-19 que têm aparecido com assustadora frequência. Expliquei que, no começo, cada uma tinha sido batizada com o nome do lugar ou do país onde tinha sido identificada pela primeira vez. Assim, tivemos a variante britânica, a brasileira ou de Manaus, a indiana, a sul-africana.

Só que a OMS – Organização Mundial da Saúde achou que não era boa ideia deixar que novas cepas recebessem nome de lugar ou de país. Esse costume podia acabar estigmatizando regiões inteiras do planeta e, como consequência extrema, podia até levar à não-notificação de novas variantes, de medo de que o nome do país ficasse malvisto.

Ficou então decidido atribuir uma letra grega a cada nova cepa. A antiga britânica virou Alfa; a sul-africana passou a chamar-se Beta; a de Manaus tornou-se Gama; a indiana, a mais perigosa até o momento, é hoje conhecida como variante Delta.

Contei também que outras variantes menos virulentas, das quais pouco se ouve falar, já estavam catalogadas, todas com letras gregas. Já se conhecem a Épsilon, a Zeta, a Eta, a Teta, a Iota, a Kappa e até a Lambda.

Certas matrizes de artes gráficas (popularmente conhecidas como fontes) têm a incômoda característica de usar exatamente o mesmo símbolo para o I maiúsculo e para o L minúsculo. As fontes da família Arial, amplamente utilizadas, têm essa peculiaridade. Veja só: ao deparar o símbolo l, não se pode afirmar de cara, sem examinar o contexto, se se trata de i maiúsculo ou de ele minúsculo.

É o que deve ter acontecido como o funcionário que redigiu um artigo provavelmente traduzido do inglês e publicado n’O Globo. Tanto a manchete quanto o corpo do artigo falam de uma certa variante “Lota”. Se vê que não leram meu post. Ou, se leram, não prestaram atenção. Lota não é letra grega, portanto, não pode ser nome de variante de covid-19. O nome da nova cepa é Iota, com I inicial.

Iota, variante surgida nos EUA, recebeu por nome a nona letra do alfabeto grego, ancestral de nosso jota. Por enquanto, as letras gregas ainda estão dando pro gasto. O problema vai se complicar quando for identificada a variante Ômega, última letra do alfabeto. Depois dela, como é que fica?

Observação
No caso da manchete do jornal, deve ter havido um primeiro escriba a grafar Lota, com L inicial. Na sequência, dúzias de veículos simplesmente copiaram a informação, ipsis litteris, sem tirar nem pôr, com erro e tudo, sem que ninguém se preocupasse em conferir.

É sinal dos tempos. É exatamente assim que se propagam as notícias falsas: com multidões repetindo o que ouviram, sem que nenhum cristão pare um instante pra refletir se a ave-maria é legítima.

Humilhação internacional

The Guardian, Londres

José Horta Manzano

Esta é do jornal britânico The Guardian, em artigo que descreve o fumarento e carnavalesco desfile de ontem, que misturava veículos de guerra e carros de passeio, como se vê na foto.

Os carros particulares parecem exasperados tipo “Ô, sai da frente, seu Tartaruga, que eu quero passar!”. Ou não?

A expressão “banana republic” dispensa tradução.