Pandeiro e bandolim

José Horta Manzano

Você sabia?

O que é que pandeiro e bandolim têm em comum? São instrumentos que tocam juntos em certos conjuntos regionais. É verdade, mas não é só. A intimidade entre os dois é mais antiga e mais profunda. Vamos ver.

Você já ouviu falar em Assurbanípal ou em Semíramis? Se não ouviu, não tem a menor importância. O nome deles só aparece aqui pra impressionar. São personagens históricos que viveram no Império Assírio, civilização que começou a se desenvolver 5 mil anos atrás, no tempo em que os bichos falavam. No auge de sua expansão, a nação assíria cobria partes do território do Iraque, da Turquia, da Síria e do Irã atuais. O povo falava uma língua do grupo semítico, família representada hoje pelo hebreu e pelo árabe.

Num trabalho de paciência, os linguistas conseguem identificar aqui e ali, nas línguas que falamos atualmente, palavras de origem assíria. Dado que não subsistiram documentos escritos, nem sempre é possível afirmar com certeza.

Estudiosos acreditam que a palavra latina pandura, tomada emprestada do grego, vem da língua assíria. Na antiguidade, designava um instrumento de corda, espécie de alaúde, antepassado do violino e do violão atuais. Tanto o instrumento como a palavra evoluíram.

De pandura, o nome passou por pandore e mandore pra desembocar em mandola (ó). Na Itália, uma mandola de pequenas dimensões chamava-se mandolino. A mandola, instrumento pouco sonoro, desapareceu faz tempo. Mas o mandolino ficou e seu nome deu origem – vocês já adivinharam – ao nosso bandolim.

Como curiosidade, note-se que nossos dicionários ainda hoje trazem a palavra bandurra, a significar antigo instrumento de cordas espanhol. Na origem desse nome, não é difícil identificar a pandura grega.

E o que tem o pandeiro a ver com isso? Joan Corominas, o mais conceituado etimologista das línguas ibéricas (castelhano, português e catalão), dá nosso pandeiro como descendente do pandero castelhano, que, por sua vez, vem do latim pandura. E o círculo se fecha.

O distinto leitor há de se perguntar como é possível que a mesma palavra (pandura) tenha se bifurcado para designar ao mesmo tempo dois instrumentos tão diferentes como o pandeiro e o bandolim. Eu também fico surpreso, mas assim é.

Como confirmação dessas voltas que a língua dá, o Houaiss ensina que a origem de nosso tambor é o étimo árabe at-tanbúr. Acontece que, no original, a expressão at-tanbúr significa guitarra.

Para nós, do século 21, é impossível confundir tambor com guitarra ou pandeiro com bandolim. Para os antigos, parece que a individualidade dos instrumentos não era assim tão importante. Todos eram válidos desde que tocassem.

Bolsonaro na ONU

José Horta Manzano

Assim como eu, o distinto leitor certamente se dá conta da importância da imagem que um país dá ao mundo externo. Os estrangeiros não estão necessariamente a par de tudo o que acontece no Brasil. É capaz de não saberem da crise hídrica, da suspensão da vacina para adolescentes, da situação de miséria crônica em que se debate grande parte do povo, da violência – verbal e física – que se tornou a forma preferencial de expressão do brasileiro.

Também não imaginam que o Lula não era exatamente o “pai dos pobres”, o sujeito bonzinho e injustiçado, que só trabalhou em favor dos desvalidos, e que acabou sendo castigado por ter sido bom. Não sei se já se deram conta de que o governo Bolsonaro é tão recheado de corruptos quanto todos os que antecederam – talvez até pior. Se ainda não acordaram, logo toca o despertador.

Seja como for, a melhor política é não deteriorar a imagem que nosso país projeta. Se nada se pode fazer para melhorar, que pelo menos não se trabalhe para piorar. A começar pelo primeiro escalão da República.

Embora não tenha a visibilidade de uma Copa do Mundo de Futebol, a abertura anual dos trabalhos da ONU é acompanhada ao redor do globo. Bolsonaro não era obrigado a comparecer. Em várias ocasiões, o Brasil já chegou a ser representado por um um ministro, não pelo presidente. Podia também ter optado por mandar um vídeo gravado. Preferiu ir pessoalmente. Nada contra. Só que…

Só que, sacumé, Bolsonaro é Bolsonaro. Ele é sempre igual a si mesmo, nunca muda. De espírito arruaceiro, adora transgredir. Se não pode pescar, ele pesca. Se não pode andar sem máscara, ele vai de cara nua. Se tem de se vacinar, ele não se vacina. E faz isso com muito orgulho. Sua egolatria lhe ocupa todo o espaço mental, sem deixar lugar para outro pensamento.

É por isso que não se dá conta de que não foi a Nova York a turismo, mas como representante de mais de 200 milhões de conterrâneos seus, todos seres humanos como ele. Seus atos e gestos transbordarão da esfera pessoal para serem interpretados como a expressão da vontade dos brasileiros. É o Brasil inteiro que, tendo recusado a vacina, foi barrado no restaurante e obrigado a comer pizza na rua, de pé, sem prato, plantado numa calçada sinistra, com a mão nua segurando o petisco gorduroso.

Agora já é terça-feira, e Bolsonaro acaba de discursar. Assisti ao vivo. Foi uma fala sem importância, saudada por aplausos protocolares vindos de uma plateia mais interessada no discurso seguinte – o de Joe Biden. O pronunciamento do capitão foi o que se esperava: pra inglês ver. Segundo ele, nossa cobertura vegetal está intacta desde o descobrimento. Todos os habitantes do território vivem num país de conto de fadas, felizes, dinheiro no bolso e feijão no prato. E, com a graça de Deus, protegidos contra o perigoso comunismo que bate às portas. De que anda reclamando esse povo venturoso?

Todos sabem que o que o capitão diz não se escreve. Sua palavra vale tanto quanto uma nota falsa. Portanto, o que ele disse, tanto faz como tanto fez. Não vai mudar a visão que o mundo tem de nosso país e de nosso governante. Infelizmente.

Recepção calorosa

José Horta Manzano

Ah, como é agradável ser bem recebido quando a gente faz uma viagem tão longa! Muita gente fina já teve de entrar pela porta dos fundos algum dia em algum lugar. Acontece, que é o preço da fama.

Quanto a Bolsonaro, ele que se prepare. Onde houver brasileiros não-lobotomizados, pode ir se preparando: vai continuar a utilizar a entrada dos funcionários. Até o fim da vida.

A raiz da crise

Carlos Brickmann (*)

Paulo Guedes, o Imposto Ipiranga do Governo Federal era para ser, dizia Bolsonaro, o grande condutor da Economia brasileira. É ele, efetivamente, quem dá a última palavra em todas as medidas: “Sim”, “Sim, Senhor” e “Pois não, Excelência”.

Guedes acredita que os problemas do país nascem da possibilidade de reeleição. “Aprovar a reeleição”, disse, em entrevista à Rádio Jovem Pan, “foi o maior erro político que já aconteceu no país”. Em sua opinião, “há uma fixação constante dos ocupantes de cargos eletivos na conquista do segundo mandato”.

Muita gente, incluindo este colunista, concorda com Guedes. Só que é ele, e não quem concorda com ele, que trabalha o Orçamento para permitir medidas que facilitem a reeleição do presidente Bolsonaro.

(*) Carlos Brickmann é jornalista, consultor de comunicação e colunista.

Cuspido e escarrado

José Horta Manzano

A Folha de SP publicou um excelente artigo assinado pelo jornalista Mario Sergio Conti. “Bolsonaro é um personagem cuspido e escarrado de Shakespeare” é o título. Se o leitor não é assinante da Folha e gostaria de ler o texto, faça-me saber. Mando por email.

Espirituoso, o título faz menção a uma expressão que se ouve de tempos em tempos. “Cuspido e escarrado”; dito assim, parece meio nojento, não? Usa-se para comentar que uma pessoa se parece muito com outra. A maior parte das vezes, se diz que o filho é o “retrato cuspido e escarrado” do pai. Mais raramente, usa-se também pra comparar pessoas que não são parentes. De onde será que vem essa esquisitice?

Há diversas versões da origem da expressão. A mais comum explica que seria uma corruptela de “esculpido em [mármore de] Carrara”, sabendo-se que a região de Carrara (Itália) é mundialmente conhecida por abrigar afloramentos de mármore de boa qualidade. Embora muitos acreditem nessa explicação, não me parece verdadeira.

Já veremos por quê. Outra versão, mais sofisticada e até apoiada por gente que entende do assunto, ensina que a expressão é corruptela, sim, mas de “esculpido e encarnado”, como a significar que as duas pessoas se parecem tanto que é como se a segunda fosse uma estátua representando a primeira, uma estátua que ganhou alma. Muita gente, como eu disse, só jura por esta segunda hipótese. Sob risco de decepcioná-los, não acredito que seja verdadeira.

Curioso que sou nesse assunto, cogitei durante um bom tempo. Um dia, bobamente, me dei conta de que, em francês, quando alguém – geralmente um filho – é parecidíssimo com o pai, diz-se que ele é le portrait craché de son père – o retrato cuspido do pai”. Vai daí, constatei que o inglês e o italiano têm expressões na mesma linha. O inglês tem spitting image – imagem cuspida” e o italiano, ritratto sputato – retrato cuspido”.

Foi quando a suposta coincidência me pareceu grande demais. Acabei descobrindo que há uma teoria que assimila o ato de cuspir à ejaculação. Uma cuspida seria símbolo da procriação – portanto, da geração de um filho. Pode até ser, mas fico um pouco desconfiado. Não tenho muita tendência a acreditar nisso. Se assim fosse, a expressão só valeria para comparação de um rebento com seu pai, nunca com sua mãe. No entanto, “é o retrato cuspido e escarrado da mãe” se usa também. Ou do irmão, do tio, do primo. Como é que fica, então?

Bem, pouco importam essas minúcias. Acho que é importante saber que a expressão não tem a ver com mármore de Carrara, nem com escultura, nem com encarnação. É de origem muito antiga e está presente em pelo menos 4 línguas europeias: português, francês, italiano e inglês. De outras, não sei.

Expressões costumam ser saborosas. São elas que dão sal e pimenta ao falar de todos nós.

Quem tem medo de Bolsonaro?

Avaliação do governo Bolsonaro
Pesquisa Datafolha publicada em 17 set° 2021

José Horta Manzano

A última pesquisa Datafolha sobre as perspectivas da eleição presidencial do ano que vem traz muitos ensinamentos. Novidades, quase nenhuma – se há, não há nada abracadabrante.

A tendência verificada nas análises publicadas nos últimos meses por todos os institutos sérios é sempre a mesma. O viés de baixa de Bolsonaro é relativamente lento, mas parece inexorável. Já o Lula continua imperial, flutuando sozinho por cima de uma massa de candidatos indefinidos e não-declarados.

No ano passado, muita gente contava com a memória ultracurta do brasileiro. Acreditava-se que, jugulada a pandemia, todos esqueceriam rápido a montanha de mortos e Bolsonaro recobraria popularidade. Não é o que se verifica.

A pademia, jugulada, não está; mas que arrefeceu, arrefeceu. A média de mortos caiu a menos da metade do que foi nos piores momentos. Até a frequência com que se ouvia o epíteto de “genocida”, dirigido ao capitão, diminuiu. Mas, infelizmente para ele, esse esperado esquecimento não se reflete nas pesquisas.

É sinal de que o problema do presidente é mais profundo que isso. A pandemia só fez agravar a situação dele. Até na comunidade neopentecostal, o apoio tem diminuído. Nem perspectiva de nomeação de um juiz “terrivelmente evangélico” para o STF tem ajudado. Os PMs, no feriado do 7 de Setembro, não deram nem um passo, nem um pio.

Com a perspectiva de autogolpe praticamente descartada, evangélicos pulando do barco e PMs sem ânimo de subir a bordo, não se vê, neste momento, o que é que poderia impulsionar a reeleição do capitão.

E o Lula que se cuide. Basta surgir um candidato de terceira via razoavelmente forte pra ele também ficar pra trás. Embora não tão astronômica quanto a de Bolsonaro, a taxa de rejeição do ex-metalúrgico também é elevada.

Os próximos meses dirão. Mas o caminho não está fácil nem para um nem para o outro. Para o capitão, todo esforço parece furo n’água. Quanto ao Lula, ainda vai precisar comer muita buchada de bode pra se fortalecer.

Comentário de um leitor da Folha, ao pé do resultado da última pesquisa Datafolha: “Espero que o Brasil tenha aprendido as consequências de eleger um meme.”

“Estados oposicionistas”

José Horta Manzano

Ô sujeito estranho, esse nosso ministro dos Dinheiros Públicos! É Guedes, um falastrão de marca maior. Preconceituoso até a raiz dos cabelos, já falou mal de empregada doméstica em avião, de filho de porteiro em curso superior. Já insultou a primeira-dama da França. Já prometeu muito, mas entregou pouco.

Faz quase três anos que é desmentido, contradito, menosprezado pelo capitão. Não conseguiu emplacar nenhuma das reformas a que se propunha – quando não é o Congresso, é o próprio presidente que lhe puxa o tapete. E ele aceita bovinamente.

Com um histórico desses – e principalmente tendo a conta bancária abastada, como diz ter – fica difícil entender por que é que ainda insiste em continuar ao lado do capitão. Talvez sofra algum distúrbio de personalidade, um evidente prazer de sofrer humilhação pública, dia sim, outro também. Será que isso existe em psicologia ou ele é um caso sui generis?

A Folha de SP lembra que, 4 meses atrás, Guedes mostrou-se animado com a perspectiva da campanha de reeleição do chefe.

Ontem, doutor Guedes virou a casaca. Sem corar, declarou que a reeleição foi “o maior erro político que já aconteceu no país”. Ah, se o capitão souber da declaração…

E não ficou por aí, que ontem foi um dia premiado. Pela enésima vez, nosso doutor ministro se queixou em público, como é costume seu. Com certa dose de ironia, disse achar curioso que, no governo Bolsonaro, caem precatórios que vão para dois ou três “estados oposicionistas”.

O Globo, 16 set° 2021

As aspas são minhas. Não sei o que significa um “estado oposicionista”. Na história do Brasil e do mundo, tenho visto províncias rebeldes, territórios conquistados, regiões conflagradas. “Estado oposicionista” é noção que me escapa.

No Brasil, estado é uma unidade da Federação. Não é de sua natureza ser ou deixar de ser “oposicionista”. Num mesmo estado, o governador pode apoiar Bolsonaro, enquanto a maioria dos prefeitos se opõem a ele. Ao mesmo tempo, as pesquisas podem indicar que o povo daquele estado está indeciso, dividido ao meio. Como é que fica, então, essa história? Esse será um “estado oposicionista” ou não? Melhor perguntar a doutor Guedes.

Romário, antigo jogador da Seleção, disse um dia que Pelé, de boca fechada, era um poeta. O mesmo se pode dizer de nosso ministro falastrão. Se ele se aposentasse, entregasse o chapéu, viajasse pra bem longe e se instalasse, por exemplo, nas cercanias de Mar-a-Lago (perto de Trump), pouca gente tiraria o lenço pra enxugar uma lágrima.

Amigo da cloroquina

Prof. Didier Raoult, médico francês defensor da cloroquina contra a covid

José Horta Manzano

Já escrevi um artigo, tempos atrás, sobre o doutor Didier Raoult, lombrosiano médico francês adepto da cloroquina e de outras poções mágicas contra a covid-19.

Contam que, na adolescência, ele teria sido testado com um Q.I. de 180. Desde então, o homem se considera um gênio e, como todo gênio, infalível. Já às portas da setentena, continua a se achar digno de figurar na mesma galeria que Albert Einstein, Luis Pasteur e Marie Curie.

Assim que a covid-19 começou a fazer estragos, o doutor fez saber que tinha descoberto o remédio miraculoso que acabaria com a epidemia em três tempos: era a cloroquina. Como prova, afirmou que, no departamento hospitalar do qual era responsável, dos 23 internados com a doença, nenhum tinha morrido. Naturalmente, atribuiu a cura à cloroquina, administrada aos pacientes por sua genial inspiração.

O passar do tempo e a experiência de centenas de milhares de médicos ao redor do globo se encarregaram de contradizê-lo. Uma amostragem de 23 pacientes estava longe de ser estatisticamente significativa para tal conclusão. Não, a cloroquina não previne nem cura a covid.

No entanto, convencido da própria genialidade, Raoult insistiu. Além de bater pé firme na cloroquina, ainda acrescentou ao seu arsenal terapêutico a ivermectina e a ciclosporina. Já perto da aposentadoria, que se deu por compulsória no fim do mês passado, veio com sua última pérola.

Afirmou, com a empáfia que só a cegueira da vaidade lhe permite, que uma leve camada de Vick Vaporub espalhada com o dedo no interior das narinas protege contra o coronavírus. Na falta desse medicamento, parafina ou vaselina substituem. Explicitou que, como não era lobista da firma Vicks, dava seu conselho como contribuição pessoal à saúde pública.

Muita gente recebeu com alívio o anúncio de que doutor Raoult, uma personalidade um tanto ‘espaçosa’, deixava de fazer parte do Hospital Universitário de Marselha a partir de 1° de setembro.

Não sei a quantas anda a fixação de Bolsonaro em cloroquina e outros tratamentos milagrosos contra a covid. Ele parece aceitar qualquer coisa, desde que não seja a vacina. Cá entre nós: é comportamento de quem tem medo pânico de injeção.

Se ele ainda estiver interessado em cercar-se de defensores do “remédio das emas”, que alguém o avise de que o professor francês está disponível. Um cabidezinho sempre há de se encontrar, que as tetas da nação são generosas.

De que cô qué?

José Horta Manzano

Na Suíça, vigora um sistema original de democracia. Dois métodos correm paralelos, ambos destinados à manifestação da vontade popular.

Do lado tradicional do sistema, estão os representantes do povo, deputados e senadores, eleitos pelo voto universal e secreto, com mandato fixo – como em qualquer democracia que se preze.

Por outro lado, menos comum em outras partes do mundo, o método plebiscitário é muito utilizado. Embora a possibilidade também seja prevista pela Constituição de outros países (inclusive a nossa), é raramente utilizada. Não é o caso da Suíça, país onde qualquer cidadão (ou grupo de cidadãos) pode lançar uma coleta de assinaturas, conhecida como “iniciativa popular”. O objetivo é reunir um determinado número de cidadãos que, com sua assinatura, confirmam estar de acordo com a matéria proposta.

Para ser válida, a iniciativa não pode entrar em colisão com a Constituição. Portanto, antes de lançá-la, seu texto será submetido à autoridade competente para análise. Uma vez considerada constitucional, é liberada. A coleta de assinaturas pode ser iniciada e deverá estar terminada dentro do prazo estipulado. Há diferentes modalidades de iniciativa, cada qual com um determinado número de assinaturas necessárias.

Uma vez obtido o número mínimo de assinaturas dentro do prazo, as pilhas de documentos são entregues ao departamento encarregado de validá-las. Cada assinatura será conferida. Se as regras tiverem sido respeitadas e o número de assinaturas válidas tiver sido alcançado dentro do prazo fixado, o governo marcará a data do voto popular.

É um dos aspectos que integram a chamada democracia direta. Em média, o povo suíço vota quatro vezes por ano. O voto não é obrigatório. Cada votação pode reunir duas, três ou mais iniciativas. O eleitor dará sua opinião sobre cada uma delas. Tanto podem ser de âmbito municipal, cantonal ou federal.

Assim mesmo, apesar de já ter esses amplos meios de exprimir sua vontade, a população ainda conta com a possibilidade de manifestar seus desejos (ou, mais frequentemente, suas contrariedades) por meio de passeatas e manifestações ao ar livre. (“Carreatas” ainda não estão na moda aqui. E muito menos “motociclatas”.)

Passeatas, há muitas. Nessas horas, o importante não costuma ser a vestimenta dos manifestantes, mas os slogans escandidos e, principalmente, os cartazes brandidos. O que vai aparecer na mídia e na tevê são justamente os cartazes, a palavra escrita. Vê-se gente vestida de preto, branco, azul, vermelho, amarelo, cor-de-rosa, e quantas mais cores houver. Não há código vestimentar. A mensagem não está na cor da roupa, mas na palavra gritada ou escrita.

É estranho que, nas manifestações de rua do Brasil deste começo de século, a vestimenta fale mais alto que as palavras. Às vezes, penso que essa bizarrice se deve à falta de argumentos – quem não tem o que dizer, veste-se de determinado modo como marca de identificação tribal. Mas posso estar enganado.

Nos tempos do lulopetismo, vinham todos de vermelho. Até o Lula e os acólitos. Vermelho, por acaso, é a cor preferida deste blogueiro, mas isso não vem ao caso; já gostava dessa cor antes que o PT existisse. Agora, desde que o capitão assinou contrato de locação no Palácio do Planalto, a cor dos desfilantes mudou: vêm todos de verde-amarelo.

Quando de grandes movimentos do passado, como as Diretas Já e as Marchas de 1964, o povo não vinha fantasiado. As convicções, boas ou más, estavam dentro das gentes e vinham expressas em cartazes. Por que mudou?

Lula e Bolsonaro são do tipo cabeça-dura. Não lhes viria à ideia sugerir a seus devotos que variassem a cor da indumentária. Então, aproveito a deixa para dizer o que penso. Acho que tanto um lado quanto o outro ganhariam se maneirassem no uso do vermelho, por um lado, e do verde-amarelo, por outro. Do jeito que está, fica caricato. Passa a ideia de rebanho domesticado e amestrado, o que não pega bem pra ninguém.

Dado que as manifestações de rua são marcadas com antecedência e amplamente divulgadas, todos sabem se o desfile é a favor deste ou contra aquele. Por que as cores, então? Fosse eu, daria aos apoiadores instruções para que cada um viesse vestido da cor que mais lhe agrada. Não está escrito em lugar nenhum que esquerdista tem de se vestir obrigatoriamente de vermelho, nem que um neofascista deve usar roupa amarela.

Está ficando ridículo para ambos os lados. Um desfile com um bando de vermelhinhos lembra mais um reclamo de outras eras, de um tempo em que crianças trabalhavam em fábricas e mulheres não tinham o direito de voto. Um desfile com um bando de verde-amarelinhos lembra mais um circo, em que alguns parecem proteger-se enrolados numa bandeira brasileira, como se tivessem medo de sermos invadidos pela Bolívia.

Vamos! Coragem, minha gente! O importante são as ideias e, principalmente, as palavras. A vestimenta não voga.

(*) De que cô qué?
Devo uma explicação sobre o título deste artigo. Este blogueiro, que teve avó mineira de Mariana, se lembra de piadas que deviam parecer muito engraçadas no século 19. Hoje, não tenho certeza de que fariam tanto sucesso. A bizarrice da cega preferência que os manifestantes de hoje demonstram por esta ou aquela cor me lembrou uma delas.

Na empoeirada cidadezinha do interior, um cliente entra na loja de armarinhos e pede um corte de tecido.

Balconista:
– De que cô qué?

Cliente:
– De caqué cô.

Linguagem e pensamento crítico

 

Myrthes Suplicy Vieira (*)

O que foi feito de palavras tão úteis e precisas que frequentavam o vocabulário das pessoas antigamente, como cizânia e debacle? Essas duas eram as palavras preferidas de meu pai quando ele queria impressionar seus convidados, ao formarem uma roda para discutir o eternamente conturbado cenário político e econômico brasileiro, depois do jantar.

Hoje em dia, quando penso nos vocábulos mais comuns usados por intelectuais, psicólogos e cientistas políticos para se referirem ao atual quadro de embates irracionais nas redes sociais, como “polarização”, “polêmica”, “discurso de ódio”, …

 

Para ler a continuação, clique aqui.

 

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Lógica tortuosa

José Horta Manzano

Essa chamada estava na primeira página do Estadão digital de hoje. Confesso que não li o artigo, visto que o assunto só me interessa vagamente. Mas duas esquisitices me chamaram a atenção.

Primeira esquisitice
O estagiário escreve que “Bolsonaro cria nova estatal”. Ora, tudo o que acaba de ser criado é necessariamente novo. Ou alguém imagina algo do tipo “Bolsonaro cria velha estatal”? Portanto a palavra nova sobra.

Segunda esquisitice
O distinto leitor há de concordar que, à primeira vista, parece ilógico criar uma estatal para privatizar outra. Pode até ser que, lendo o texto, a enormidade diminua de tamanho. No entanto, assim como está parece coisa de louco ou, quem sabe, esperteza grossa. Estariam criando uma empresa para oferecer cabide novo aos funcionários da que foi privatizada? Desse governo que aí está, pode-se esperar tudo.

Da ponta da praia às quatro linhas da Constituição

Eduardo Mafei (*)

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Artigo escrito em 7 setembro 2021
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Jair Bolsonaro é o pior governante que o Brasil já teve nos 199 anos desde o Sete de Setembro de 1822? Tudo depende da régua pela qual medimos seu desempenho. Se esperamos dele as realizações de um governo comum, como atender às grandes urgências do país ou pôr em prática um plano que nos eleve de patamar como nação, então, sim, Bolsonaro é o pior líder que já tivemos desde o grito do Ipiranga.

Mas e se seu plano for outro? Ou melhor: e se o plano de Bolsonaro for o mesmo desde sempre, aquele pelo qual ele trabalhou em todos os instantes de sua vida em que não estivesse dormindo, comendo, tomando banho, contratando funcionários fantasmas ou ensinando a arte da rachadinha aos filhos? Se enxergarmos em Jair Bolsonaro o propósito de trabalhar firmemente pela destruição da democracia implementada pela Constituição de 1988, documento que ele sempre desprezou por consagrar a derrota da ditadura cuja idolatria é o único sentido de sua vida pública, então Bolsonaro não vai mal. Ao contrário: nunca um presidente foi tão bem-sucedido em corroer as instituições de um sistema constitucional em tão pouco tempo.

Para um presidente que vive de hostilizar a democracia liberal, com as limitações de poder a ela inerentes, a tarde de hoje foi…

Clique para ler a continuação no site da Revista Piauí. Aproveite, que hoje está em promoção especial, com acesso livre.

(*) Rafael Mafei Rabelo Queiroz, professor da Faculdade de Direito da USP.

Se afinou

by Jacques Azam (1961-), desenhista francês

José Horta Manzano

A toda ação, corresponde uma reação oposta e de igual intensidade. Bem simplificada, essa é a terceira lei de Newton, ou “princípio da ação e reação”. Não funciona só na concretude, vale também para fatos da vida de todos os dias, concretos ou abstratos.

Por questões de diferença de fuso horário, este blogueiro já havia encerrado o expediente quando chegou o grande susto do dia. Só fiquei sabendo hoje de manhã. Com que então, o capitão recuou, é? No meu tempo a gente dizia “se afinou”, que era um misto de falar fino e sair de fininho. Sair de fininho é hábito do capitão; todo o mundo sabe como ele costuma escapar a situações incômodas. Já falar fino – em ambos os sentidos da palavra – é novidade. O que prova que a gente nunca conhece perfeitamente uma pessoa. Tem sempre o pulo do gato, que vem de repente e surpreende.

O homem mandou um avião presidencial (custeado por nós) para exumar Michel Temer e trazê-lo a Brasília. O velho ex-presidente aceitou o convite e foi aconselhar o chucro que nos governa. Mas essa história está contada pela metade. Todos sabem que a capacidade mental do capitão é precária. Sozinho, ele não tem condições de entender que a coisa ficou preta pro lado dele depois do que ele aprontou dia 7.

Portanto, alguém (ou alguéns) de seu entourage próximo deve(m) ter-lhe dado conselho de pedir conselho a quem entende do riscado. Bolsonaro agiu como agem os que estão se afogando e imploram por uma boia: agarram-se a ela.

Quem terá sugerido ao capitão aconselhar-se junto a doutor Temer? É difícil saber. Falando em entourage, por onde andam mesmo os bolsonarinhos? Parecem quietinhos. Minha mãe dizia que criança, quando está muito quieta, é sinal de que está fazendo alguma arte.

Pra quem já estava animado com a subida de tom do presidente, na crença de que ele estava a um passo do impeachment (ou de ser internado, de camisa de força, num hospital psiquiátrico), é péssima notícia. Com a afinada, doutor Bolsonaro ganha um respiro. Ainda não é amanhã cedo que o camburão estará esperando por ele à porta do palácio no fim do expediente.

Mas basta ter um pouquinho de paciência. O homem é incorrigível. Como bem lembrou Bernardo Mello Franco em seu artigo de hoje n’O Globo, logo nos primeiros dias do governo Bolsonaro, seu adversário de segundo turno, Fernando Haddad, tinha profetizado: “Antes de defender uma bozoideia, espere 24h. Poupa o esforço de defender o recuo”.

Quer o capitão renegue amanhã o recuo, quer não renegue, há duas excelentes notícias. A primeira – muito importante – é saber que tem gente que, embora muito próxima a ele, consegue botar a cabeça pra fora da bolha, ler os jornais, sentir a temperatura, apreciar se o momento é adequado para isto ou aquilo e, se houver perigo, dar o alerta. Neste caso, o alerta deve ter tocado fortíssimo, tipo fff. É reconfortante saber que, embora goste de manter pose de “imorrível, imbroxável e incomível”, o personagem não é tão blindado quanto quer parecer.

A segunda boa notícia – igualmente importante – é saber que, entre os integrantes da cúpula militar do Brasil, os apoios com que o capitão pode contar estão longe de ser suficientes para dar-lhe sustentação na sonhada aventura de tomar o poder pela força. Ingênuo, ele acaba de dar a prova final dessa realidade.

Portanto, ânimo, minha gente! A cada recuo do presidente, é o Brasil que ganha um ponto. Ganha o Brasil e ganhamos nós todos.

Neologismo

José Horta Manzano

“Trumptruppen”

Neologismo surgido na imprensa italiana em janeiro passado, logo em seguida ao assalto que os apoiadores incondicionais do presidente em fim de mandato deram ao Capitólio de Washington.

A formação da palavra é deliciosamente híbrida. O primeiro elemento (Trump), evidentemente, é o sobrenome do presidente americano. Já a segunda parte (truppen) não vem da língua inglesa, tampouco da italiana. Vem do alemão. Truppen é o plural de Truppe, que significa tropa.

Portanto, “Trumptruppen” dá nome àquela horda de gente fina que tomou de assalto o Congresso dos EUA em 6 de janeiro passado. São as tropas de Trump. Essa repetição de “tr” torna o som da expressão cortante como rajada de metralhadora. Combina com Trump, um personagem pesadão.

Além de provocar uma onomatopeia estimulante, o alemão Truppen soa mais belicoso que o inglês troops.

O sonho de nosso capitão tupiniquim é incentivar a criação de um similar nacional que possa repetir, em Brasília, a façanha da tropa original americana. Não será fácil.

Forjados pelo clima rude e pelo vento cortante das grandes pradarias, os integrantes das “Trumptruppen” são aguerridos. Já nossos devotos, moldados pelo mormaço tropical, são menos convictos que os originais.

Não precisa ter bola de cristal. Pode-se apostar que não veremos nunca as “Bolsonarotruppen” em ação.

Deu chabu

by Lezio Júnior, desenhista paulista

José Horta Manzano

Nesta quarta-feira 8 de setembro, acordei ansioso. Estava curioso pra ver com que olhos a imprensa europeia tinha observado as passeatas que Bolsonaro convocou em louvor de si mesmo. Logo de manhã, ao ligar o rádio, um calafrio me fez imaginar que pudessem estar em edição especial anunciando com voz grave um golpe de Estado no Brasil.

Não estavam em edição especial. Sintonizei as rádios suíça e francesa. Fui para a internet. Dei uma olhada nos títulos da BBC. Perpassei as manchetes do Corriere della Sera e as chamadas do Figaro. Olhei ainda duas ou três mídias menos importantes. Nada. Na respectiva primeira página, cada um estava preocupado com as próprias mazelas.

A BBC, sempre atenta ao que ocorre no exterior, dá prioridade a notícias do novo governo do Afeganistão. O Corriere della Sera está preocupado com intrigas da política interna italiana e com o passaporte sanitário – que lá se chama “green pass”. Na França, discute-se também o “pass sanitário”, mas o grande assunto do dia é a abertura do alentado processo que julga 20 acusados de participar do ataque terrorista desferido na boate Bataclan em 2015, assalto que deixou 130 mortos, centenas de feridos e um país traumatizado. O suíço Le Temps comenta a nova regra que limita a velocidade da circulação a 30 km/h, que vai vigorar em todo o perímetro urbano da cidade de Lausanne, de 22h a 7h da manhã. Uma lei aprovada no México, para destravar o aborto voluntário, era outro tema.

Enfim, cada um com suas preocupações. De Brasil, muito pouco, quase nada. Alguma coisinha aparecia lá no fundo, bem abaixo dos títulos, em clara sinalização do pouco interesse que o assunto desperta nos leitores daqui. Por que será? Acredito que se deva atribuir ao cansaço de ouvir sempre os mesmos acontecimentos, que, de tão repetidos e previsíveis, já não encantam nem surpreendem.

Este é um blogue de respeito. Portanto, não tem cabimento ficar repetindo palavrório pesado que a gente usava na adolescência. (É verdade que presidente da República hoje fala pior que adolescente, mas essa já é outra história.) O que eu queria dizer é que, com seu chove e não molha, Bolsonaro me lembra a frase que a gente soltava quando alguém ameaçava, ameaçava, sem nunca se decidir a partir para a ação. Em termos próprios “para senhôras”, era algo como: “ou resolve logo ou sai de cima”. Se é que me entendem.

A jornada com que o presidente nos brindou ontem deixou um gostinho de chabu. Tudo era pra ser grandioso e definitivo, mas não passou do nível habitual de discurso de bêbado de botequim: rasteiro, com ameaças, insultos e palavrões, mas vazio de efeito. Nem a PM, que parecia amaciada e pronta pra pegar carona na carroça do chefe fazendo “arminha” com as mãos, deu as caras. Como o presidente deve ter se sentido desamparado…

Dos salvados do incêndio, sobram dois restos – ambos desagradáveis. O primeiro, desagradável para o presidente, é que ele queimou todos os cartuchos. Sua “revolução”, anunciada com antecedência e data marcada, munida de ordem de marcha e financiada com dinheiro (público) às pencas, simplesmente não deu certo. O dia terminou exatamente como tinha começado, com a única diferença que o capitão, ainda mais fraco que antes, arrumou mais algumas dúzias de inimigos e atiçou o Congresso para apressar o lançamento desse processo de impeachment antes que seja tarde. Bolsonaro está desarmado e desacreditado como um leão sem dentes. Tudo o que vier pela frente não passará de mais do mesmo. Seus truques, conhecidos de todos, já não assustam ninguém.

O outro salvado do incêndio é desagradável para a população brasileira, que ficou privada do 7 de Setembro, seu feriado maior. Isso não se faz. Em vez de visita de convidado de honra estrangeiro na tribuna de honra, damas de longo e cavalheiros empertigados, desfile de gente fina nos saguões do Planalto, o que tivemos? Uma tribuna mequetrefe, com crianças fantasiadas de bandeira do Brasil. Após passagem rápida e protocolar pela cerimônia brasiliense, o capitão correu pra participar de uma festa mambembe, que não deixou nada a dever ao animado estilo dos trios elétricos lulopetistas. Participantes havia às pencas, só que, desta vez, os ônibus estacionaram longe; o sanduíche de mortadela e a cloroquina(*) foram distribuídos dentro dos veículos, longe das câmeras, que é pra não dar na vista.

Tem nada não. No próximo 7 de Setembro, teremos nossa festa tranquila, risonha e descontraída. E, oxalá, sem Bolsonaro.

(*) Foi o próprio capitão a afirmar que o povo “de esquerda” toma tubaína, enquanto o “de direita” engole cloroquina.

O 8 de setembro

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Estamos todos apreensivos com as manifestações programadas para o 7 de Setembro. Se não fosse por outras razões mais, digamos assim, vexaminosas como o último desfile de tanques no Planalto, assusta o fato de que, paradoxalmente, nem o amor à pátria nem o amor a Deus estarão na pauta dos atos convocados para Brasília e São Paulo. Dentro e fora do país, imprensa e autoridades alertam continuamente para o risco de embates violentos nas ruas, uma vez que a motivação pressuposta para aderir à chamada para as ruas é a de dar um “ultimato” ao STF e ao TSE.

Eu não sou exceção. Acompanho diariamente o noticiário, as falas bravateiras dos protagonistas, as análises dos especialistas políticos e dos responsáveis pela segurança pública, a temperatura mais alta dos pronunciamentos oficiais. Sou catastrofista crônica assumida e, só de pensar na possibilidade de ruptura institucional e da volta dos anos de chumbo, meu diafragma fica mais tenso que corda de violino.

Anteontem, no entanto, comecei a sentir uma brisa mais leve soprando ao ver as imagens das rodovias superlotadas, das aglomerações nas praias e o clima geral de festa popular nos bares e restaurantes. Parece que, mais uma vez, nossa população está mais interessada em curtir o feriado, experimentar o alívio de estar de novo ao ar livre, em confraternização com a família e os amigos – e pretende deixar para quem não pôde viajar ou não tem nada melhor a fazer o entediante encargo de defender os ameaçados valores da pátria (leia-se do presidente).

Foi só então que me dei conta de que a política tende a ser sentida entre nós como coisa “dos hómi lá de cima”, um assunto estimulante só para quem entende dela, algo que não diz respeito ao cidadão comum que tem de empregar todas as suas energias para sobreviver com o mínimo de dignidade possível. É assim, sempre foi assim, por exemplo nos dias de eleição. O negócio é encarar a fila de votação (já que o voto é obrigatório) o mais cedo possível para, depois de cumprido o dever pseudamente patriótico, pegar o carro e cair na estrada, empanturrar-se com um bom churrasco regado a muita cerveja e pagode. Alegria já, o amanhã pode esperar.

É bem verdade que nos últimos dois anos o interesse pelo debate político-ideológico escalou, alimentado pelos discursos de ódio nas redes sociais e regado pelos delírios persecutórios de militares, congressistas, evangélicos e policiais militares. E promete ser exatamente a obediência devida aos pastores e comandantes de tropa o estopim para a ocorrência de um gigantesco e virulento protesto no Dia da Independência.

Por outro lado, também é verdade que o mar não está para peixe para o restante da população. A motivação para participação de um maior número de segmentos sociais esbarra inevitavelmente no aumento do preço dos alimentos da cesta básica, do gás de cozinha, da gasolina, da energia elétrica, entre outros, e ainda conta com o auxílio luxuoso da crise sanitária, da crise hídrica, do desemprego, do congelamento de salários, do extermínio de direitos trabalhistas e da falta de perspectivas de ascensão social para incrementar o desânimo em avalizar manifestações de grande porte em favor do presidente.

Não há, portanto, muito o que fazer, qualquer que seja a orientação político-ideológica de cada um, a não ser aguardar o desenrolar dos acontecimentos. Uma coisa é certa, porém: haja o que houver, no dia 8 as coisas voltarão ao “normal”. Entre mortos e feridos, salvar-se-ão todos e os combatentes cansados voltarão para suas casas, com o rabinho entre as pernas. As bandeiras serão novamente enroladas e jogadas num fundo de gaveta, os cartazes de papelão servirão como combustível nos fogões a lenha, as camisetas amarelas serão lavadas e reservadas para os jogos da Seleção de futebol e a principal preocupação voltará a ser cuidar do próprio umbigo. O noticiário voltará ao cardápio rame-rame da pandemia, temperado com notas picantes e ácidas de confrontos entre o Executivo e novas atuações preventivas do Judiciário.

Como assim? Não é que eu não acredite na garra do povo brasileiro para lutar por liberdade. É apenas que preferimos que tudo aconteça sem a necessidade de grande esforço pessoal. Se dá para negociar, nosso jeitinho de fazer revoluções sem sangue prevalecerá. Vamos examinar com cuidado as possibilidades.

Se os protestos forem realmente gigantes, restará comprovado que o presidente tem forte poder de mobilização… dos seus apoiadores de sempre, mas continua tendo baixíssimo poder de persuasão para mudar a disposição emocional do restante do eleitorado. Além disso, alguém acha realmente que o STF vai se deixar intimidar pela multidão nas ruas e recuar na sua decisão de enquadrar o incendiário em um sem-número de transgressões da ordem legal?

Se, montado no já encilhado cavalo militar e empolgado com o sucesso de seus planos de poder absolutista, o presidente resolver desembainhar a espada para declarar uma “nova independência” e fechar o Supremo (ou substituir os 11 ministros por outros mais compassivos e lenientes), sabe que enfrentará forte resistência, tanto no plano interno quanto internacional. Com a economia em frangalhos e sem o apoio maciço dos segmentos que contam, periga assistir à deterioração final do seu capital político em poucas semanas, se muito. Muita gente está pulando do barco antes mesmo da primeira gota de água entrar, só de pensar na inabilidade do capitão para encontrar o rumo de um porto seguro.

Coincidentemente, algumas das manchetes da semana passada informam que o TSE já estuda a possibilidade de decretar sua inelegibilidade para 2022, algumas igrejas evangélicas já estão apelando para seus fiéis não participarem do evento, lideranças de caminhoneiros dizem desconhecer o autoproclamado líder bolsonarista que ameaçou parar o país, alguns líderes do Centrão já ameaçam cair fora para não comprometer suas chances de reeleição, etc. A turma do ‘deixa disso’ é engrossada ainda por sanitaristas e epidemiologistas, preocupados com a disseminação da variante delta.

Se, ao contrário, as manifestações forem minguadas e deixarem claro que as palavras de ordem do “meu povo” [Intervenção militar com Bolsonaro no poder, Volta do AI-5, Eu Autorizo] não representam de maneira alguma os anseios da maioria esmagadora da população brasileira, restará a ele muito pouco arsenal para novas ameaças minimamente críveis, assim como para se manter sentado no trono até outubro de 2022.

Ainda é preciso considerar que novas manifestações estão sendo planejadas pela oposição para o dia 12. Dependendo do resultado das aguerridas demonstrações de força do dia 7, é provável que o clima de tensão piore, que sangue corra pelas ruas durante o protesto. Mas, guerra civil? Não acredito. Dizem que as pessoas só mudam quando se cansam – e eu posso apostar que até mesmo os bolsonaristas de raiz estão exaustos com tanta turbulência.

Claro que o bom senso indica a necessidade de não botar a mão no fogo, apostando na racionalidade e moderação dos combatentes de ambos os lados. Mas, se conheço bem o caráter brasileiro de perseguir resultados imediatos e não se comprometer com nenhum processo longo de transformação da realidade, vaticino que o 7 de setembro que se avizinha será uma impensável e colorida mistura autolimitada de Marcha para Jesus com Micareta Fardada.

Façam suas apostas.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Todos iguais

Carreata carnavalesca de Bolsonaro
na imaginação de Patrick Chappatte (1966-), desenhista suíço

 

José Horta Manzano

Dizem que, fora um detalhe aqui, outro ali, somos todos iguais. Pode ser, só que parece que uns são mais iguais que outros. Nós, os do andar térreo, podemos até ter nossas opiniões, achar isto ou aquilo, pensar assim ou assado. Mas, por recato ou por estar conscientes de nossa pouca importância, guardamos nossas opiniões para um restrito círculo de amigos. Ou para um diário íntimo. Falando nisso, será que alguém ainda escreve diário?

Já os do andar de cima – ou os que acreditam estar lá instalados para sempre – agem diferente. Não guardam opiniões no bolso nem são discretos. Ao contrário: assim que enxergam uma plateiazinha, já vão soltando o verbo.

E olhe que não é fenômeno exclusivamente brasileiro. Viagens ao exterior oferecem momentos especialmente propícios a esse tipo de escorregão. Me lembro do caso de um primeiro-ministro francês que pretendia candidatar-se à Presidência. Na volta de uma longa viagem, estava dentro do avião,  rodeado por uma plateia de jornalistas. Conversa vai, conversa vem, animou-se e acabou dando um escorregão: referiu-se ao então presidente da República Francesa com palavras muito desrespeitosas. Foi o que bastou. Perdeu a eleição. Analistas políticos concordam que a derrota foi consequência daquele pronunciamento.

Entre outros, até papa Francisco já andou se excedendo durante um voo transcontinental, algum tempo atrás, quando disse coisas de que deve ter se arrependido.

Só que há diferença entre referir-se a alguém com pouco respeito e cometer atentado contra a inteligência do eleitor. Nossos inquilinos de cima são mestres na arte de mostrar prepotência. Deixam transparecer que realmente se julgam ungidos por Júpiter. Acreditam ser inalcançáveis, superiores aos demais. Têm certeza de estar por cima da carne seca, como o povo esperto costuma dizer.

Lembro aqui três falas que me impressionaram particularmente. (Quase) nada mais impressiona na política nacional, mas certas coisas são tão enormes, tão exóticas, tão esdrúxulas, que sobressaem.

Lula
Em 18 set° 2010, num comício em que dava uma força à candidatura da doutora Dilma, Lula não hesitou:
“Nós somos a opinião pública”

Bolsonaro
Em 20 abr 2020, em cima da caçamba de uma caminhonete estacionada à frente de um quartel do Exército, Bolsonaro ousou:
“Eu sou a Constituição”

Lorenzoni
Faz 3 dias, em 3 set° 2021, foi a vez de Onyx Lorenzoni, acólito excepcionalmente longevo de Bolsonaro, visto que está aboletado ao lado do capitão desde o início do mandato, coisa rara. Num discurso diante de uma plateia amestrada, sublinhou a ogeriza que o chefe tem contra o STF e afirmou, com voz trêmula e aos prantos:
“Supremo é o povo brasileiro”

O papa e os políticos franceses que me perdoem mas, enquanto eles vão indo, nossos aplicados dirigentes tupiniquins já estão voltando. Os nossos não vivem no andar de cima. Moram na cobertura.

Observação
A prudência manda lembrar que é bom ter em mente que nada é eterno. Quando o Lula mostrou sua soberba ao dizer que ele era “a opinião pública”, estava longe de imaginar que, poucos anos mais tarde, passaria ano e meio na cadeia.

Bolsonaro e seus acólitos erram feio ao desdenhar dessa lógica elementar. Nada é eterno. As coisas podem mudar rapidamente.