«O mal do governo não é a falta de persistência, mas a persistência na falta»
Apparicio Fernando de Brinkerhoff Torelli, “Barão de Itararé” (1895-1971), humorista gaúcho
«O mal do governo não é a falta de persistência, mas a persistência na falta»
Apparicio Fernando de Brinkerhoff Torelli, “Barão de Itararé” (1895-1971), humorista gaúcho
«(…) O verdadeiro mal da nova geração é que nós não pertencemos mais a ela.»
João Ubaldo Ribeiro, escritor e colunista, in Estadão, 29 dez° 2013.
«Não temos como evitar chuvas. É uma situação que (sic) temos de conviver.»
Gleisi Hoffman, ministra-chefe da Casa Civil, in Portal Brasil, página do site oficial do governo brasileiro.
José Horta Manzano
Agressão só pode suscitar reação inflamada. Os ecoterroristas da (poderosa) Greenpeace ― aquela que, de paz, só tem o nome ― não conseguiram captar essa mensagem em 40 anos de ativismo.
Que ninguém me entenda mal. Sou o primeiro a preconizar a substituição dos combustíveis fósseis por fontes de energia renovável. Tanto porque a queima de gaz e petróleo polui a atmosfera, quanto porque essa riqueza que não se renova é preciosa demais para ser queimada.
O que desaprovo vigorosamente são os métodos dessa organização não governamental. You can catch more flies with honey than with vinegar ― dizem os ingleses ― é mais fácil apanhar moscas com mel do que com vinagre. O modus operandi aplicado pelos dirigentes de Greenpeace está longe de ser meloso. Está mais para vinagre.
Reunir uma trintena de idealistas jovens e ingênuos e mandá-los para a linha de frente pode lisonjear os dirigentes da organização, mas não fará avançar a defesa da «causa». Nem um milímetro.
A infantaria da ong ― falo do grupo de 30 jovens adultos ― foi escolhido a dedo. No intuito de criar um imbróglio internacional, misturaram gente de uma vintena de países diferentes. Nesse particular, conseguiram seu intento: armaram um tremendo quebra-cabeça para as autoridades russas.
Mas, sacumé, russo não brinca em serviço. O navio ― sim, senhor, a opulenta organização dispõe de dois navios ― foi apreendido. Os arrojados ativistas foram direto para o xilindró. E lá teriam permanecido ainda um bom tempo, não fosse um evento internacional do qual, compreensivelmente, pouco se fala no Brasil: os Jogos Olímpicos de Inverno. Daqui a pouco mais de um mês, em 7 fev° 2014, a cidade russa de Sochi será palco da cerimônia de abertura da versão hibernal das Olimpíadas.
Tal como a Copa 14 é importante para a imagem do Brasil, os JOs de inverno são uma vitrina para a Rússia. Estes últimos dias, o governo de Vladimir Putin abriu um pacote de bondades. Liberou o bilionário Mikhail Khodorkovski, inimigo político do atual presidente, que apodrecia num campo de trabalho na Sibéria fazia 10 anos. Soltou também duas daquelas moças que, cabecinhas de vento, tinham tido a bizarra ideia de cantar uma oração punk em plena catedral ortodoxa.
O perdão concedido aos ousados grumetes de Greenpeace se inscreve nessa mesma linha. Tiveram sorte. Não fosse a proximidade dos JOs e a aspiração russa de sair bem na foto, perigavam passar alguns anos pouco calorosos.
O resultado? Pois a poderosa organização conseguiu ser citada pela mída planetária, o que lhe há de granjear apoio e doações ― cada um é livre de doar a quem lhe aprouver. Os 30 incautos que, instrumentalizados, se prestaram a essa palhaçada devem estar-se sentindo heróis.
E o principal, a defesa do Ártico, como é que fica? Pois não saiu do lugar. Ninguém em sã consciência imaginaria um só instante que a gigantesca Gazprom, a Petrobrás russa, renunciasse a suas atividades na sequência de um protesto frouxo e desajeitado.
Alguém precisa avisar a esses ecoterroristas que terão muito mais sucesso se fizerem a mesma encenação nas plataformas brasileiras. Na hipótese mais elementar, receberão asilo político, se assim o desejarem. Na hipótese mais optimista, frearão a exploração petrolífera, o que não deixa de ser uma boa herança para os que virão depois de nós.
Esta é do Sigismeno. Depois de ler a Frase do dia ― 64, no post anterior a este, deu-se conta de que, invertido, o raciocínio pode ser aplicado aos suíços.
Está aqui o que ele disse: «A previdência, o planejamento sistemático, a recusa de soluções improvisadas são as características que fazem do administrador um craque e do jogador de futebol, um perna de pau.»
E não é que ele tem razão? As mesmas causas costumam engendrar os mesmos efeitos.
«A pista sobre quem somos de fato, naquele espelho metafórico que a Copa do Mundo erguerá diante de nós, pode muito bem estar à vista de todos no traço mais decantado de nosso estilo: o improviso, a recusa do planejamento, a solução encontrada de estalo. A mesma característica que faz do jogador de futebol um craque e do administrador, um cabeça de bagre.»
Sergio Rodrigues, escritor e jornalista, em seu artigo A Copa e a Copa no país do futebol, publicado na revista Veja.
José Horta Manzano
Dois dias atrás, escrevi sobre o projeto ― já bem avançado ― de implantar um aeroporto em Caieiras, em pleno cinturão verde da cidade de São Paulo. A ideia me pareceu tão fora de propósito, que deixei aos distintos leitores a escolha do adjetivo que melhor lhes conviesse: absurda, contraditória, incoerente, insensata, disparatada.
Pois hoje fiquei sabendo que o desatino pegou nossas autoridades de vez. O espírito predatório que animava os desbravadores de 300 anos atrás permanece firme e forte. O conforto e a conveniência dos endinheirados que se podem permitir voar em jatinhos particulares passa por cima da preservação do meio ambiente. Frise-se que os jatinhos são privados, enquanto o meio ambiente é de todos os seres vivos. A distorção é enorme.
Aqueles cujos haveres lhes permitem encher piscinas e regar gramados com água mineral importada estão pouco ligando para o aperto por que vão passar os que dependem dos mananciais para se abastecer. Nosso infeliz país ― que foi um dia o país do futuro ― descamba indecentemente para se tornar um país sem passado. E privado de futuro.
Artigo assinado por Thiago Borges, pescado no blogue Periferia em Movimento, nos informa sobre o projeto de construção de um aeroporto privado em Parelheiros, no mesmo cinturão verde que rodeia a capital paulista. A região responde por 25% do abastecimento de água da megalópole.
O parágrafo que transcrevo abaixo é edificante.
«O aeródromo (…) tem como sócios os empresários André Skaf e Fernando Augusto Botelho. O primeiro é filho de Paulo Skaf, presidente da Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo), enquanto o segundo é herdeiro da construtora Camargo Correa.»
É de arrepiar. E que ninguém duvide: o aeroporto tem fortes chances de vir a ser construído. Em nome do «bem público», naturalmente. Se alguém não estiver contente, que se mude para Marrakech. Ou para Ushuaia, que é mais pertinho.
Vale a pena dar uma olhada no texto original. São só 350 palavras. Clique aqui.
«Ao propor a fundação da Alba, Chávez disse que a integração latino-americana por ele projetada era vital: “Ou nos unimos ou afundaremos”. Pelo visto, os países bolivarianos estão se afastando da Venezuela justamente para evitar esse abraço dos afogados.»
A fonte chavista secou, editorial do Estadão, 27 dez° 2013
Diego Rebouças (*)
Notícia azeda de tão velha: Brasil não vai conseguir maquiar todos os seus problemas até a Copa do Mundo! Pensando nisso, a Unesco decidiu tombar as «Sete Maravilhas do Caos da Copa do Brasil». Não é o máximo? Agora, os gringos não vão poder reclamar. E nem você, mané! A não ser que queira levar de brinde da PM uma arma que eles chamam de não-letal, mas que mata que é uma beleza. Papel e caneta na mão para a lista:
1) O caos aéreo
Welcome, gringaiada! Primeira parada obrigatória: o aeroporto. Nós temos tanto orgulho de termos aeroportos que nenhum brasileiro passa menos de duas horinhas preso em um. Tanto é que a gente vota na mesma corja que promete ajeitar as coisas e não ajeita nada. Ajeitar pra quê? A gente gosta assim! Filas, malas trocadas, voos superlotados. Se espremam na confusão e welcome!
2) Trens, metrôs e ônibus superlotados
Conseguiu sair do aeroporto, Gringo? Mas a superlotação continua nos trens, metrôs e ônibus. Esse assunto irritou alguns brasileiros em 2013, muitos foram até pras ruas protestar, dizendo que “Não é só por 20 centavos”, mas a CPI dos Ônibus do Rio de Janeiro morreu, todo mundo esqueceu do assunto e tenta entrar aí no trem, Gringo, com mala e tudo. Não conseguiu? Não tem problema, porque a gente acha que Gringo é tudo rico e por isso temos a honra de apresentar a Terceira Maravilha do Caos da Copa!
3) Taxistas monolingues
Símbolo do nosso folclore, o taxista fala pouco quando você precisa de uma informação crucial e entope os seus ouvidos quando você não está nem aí pra saber a opinião dele sobre como as novelas das 21h prejudicam a educação das crianças. Gringo, saiba desde já uma coisa: seu taxista vai falar pouco. Ou vai falar muito. Mas quase nunca vai falar o que você quer. Ainda bem que isso não importa porque nós temos a Quarta Maravilha do Caos da Copa!
4) Os maxiengarrafamentos
Bem-vindo, Gringo! Seu taxista não diz coisa com coisa e esse táxi bandeira dois não sai do lugar. É que nós, brasileiros, adoramos ficar parados. Em aeroporto, transporte público ou no carro. Tanto que todo ano a gente vota em pessoas que têm até uma cara diferente, mas são financiados pelos mesmos empreiteiros. Que ganham maravilhas fazendo megaviadutos, que tapam a visão e dão uma maquiada no trânsito daqui, só pra meio quilômetro mais na frente afunilar tudo de novo. Isso é que é bacana do Brasil, gringo! Não importa em que cidade você esteja, você sempre estará em Gambiarra City. E olha, que máximo! Enquanto você lia esse item, clic, clic, o precinho do seu taxímetro só fez aumentar. Tá achando ruim? É porque você ainda não viu o próximo item da lista, o…
5) Alagamento pós-chuva
Recapitulemos a sua situação, Gringo: você levou uma surra no aeroporto, está preso numa avenida que não anda, com um taxista que consulta um dicionário cada vez que você pronuncia uma palavra. Eis que começa a chover. Carros começam a buzinar. Uns sobem na calçada, outros sobem no posto e quem não consegue sobe sua prece em direção a Deus. Mais 15 minutos e tudo estará debaixo d’água.
Mas antes temos a Sexta Maravilha do Caos da Copa, a…
6) Violência urbana
Com os carros parados e a chuva caindo, décadas de negligência dos governos municipais, estaduais e federal de todos os partidos dão suas caras: crianças que não tiveram acesso à escola viraram jovens sem acesso ao mercado de trabalho e pior –sem acesso à autoestima. Vão respeitar pra quê, se o Estado brasileiro nunca os respeitou? Eles não estão nem aí. Tanto que estão mandando você entregar sua carteira e sua mala no meio do engarrafamento, antes que a rua alague. E é bom entregar, Gringo.
7) Estádios überfaturados
ÊêÊêÊê!!! Chuva passou, táxi andou, Gringo precisou parar num caixa 24 horas para poder pagar a corrida, mas é hora de comemorar. Sem malas nem carteira, você está muito mais leve. E como o taxista não entendeu onde ficava o seu hotel, então, ele te trouxe para um dos nossos estádios überfaturados. Isso mesmo: über. Afinal, nem a Muralha da China e as pirâmides do Egito JUNTAS custaram tanto. E daí que mais da metade da população brasileira não tem cacife para assistir os jogos da Copa? Se você tem ingresso, Gringo, pode entrar. Por isso, seja muito welcome. Entre no estádio. Ache a sua cadeira-padrão-Fifa, que a partida vai começar.
(*) Diego Rebouças é roteirista e jornalista. O artigo acima foi publicado pela Folha de São Paulo, 26 dez° 2013.
«Desde maio de 2012, por decisão do Planalto, vigora a pirâmide social redesenhada pelo ministro Wellington Moreira Franco, chefe da Secretaria de Assuntos Estratégicos. Segundo esse monumento ao cinismo, a faixa dos miseráveis abrange quem ganha individualmente até 70 reais. A pobreza vai de R$ 71 a R$ 250. A classe média começa em R$ 251 e a acaba em R$ 850.
Os que embolsam mais de R$ 851 são ricos, e é nessa categoria que se enquadram milhares de seres andrajosos que se plantam de manhã à noite nos principais cruzamentos.»
Augusto Nunes, colunista, em seu blogue alojado na revista Veja, 25 dez° 2013
José Horta Manzano
Como é bom ser grande empresário num país de gente apática! Nossa falta de noção de pertencimento a uma comunidade faz que cada um de nós reaja com um simples dar de ombros a qualquer notícia, seja ela boa ou má.
O máximo que se vê é algum protestozinho mole aqui ou ali ― alguma manifestação que acaba se desmanchando em vandalismo. De estudar, que é bom, não gostamos. De aprender, que é bom, não gostamos. De nos esforçar, que é bom, não gostamos. De dar o melhor de nós mesmos, que é bom, não gostamos. Passamos a vida à espera de que alguém faça alguma coisa. Costumamos ter a nítida impressão de que o problema não é conosco.
Alguns poucos se apercebem dessa generalizada tendência ao descaso, ao «tô-nem-aí». Para desgraça nossa, nem sempre são os mais bem-intencionados. Vai daí, nossas portas estão abertas a aventureiros, predadores, espertalhões, inescrupolosos, aproveitadores. A conjunção deletéria do descaso da população com o oportunismo de uma meia dúzia trava o país. E perpetua o insuportável contraste entre a riqueza indecente de uns contra a miséria negra de outros.
Em seu blogue alojado no Estadão, Marina Gazzoni nos contava, semana passada, que está prevista a construção de novo aeroporto (mais um!) para servir a cidade de São Paulo. O projeto foi apresentado por um consórcio de grandes empreiteiras. A certeza de que seja aprovado sem reticências é tão grande, que as construtoras já compraram até o terreno. Afinal, convencer autoridades públicas é especialidade de grandes empresários…
O adjetivo absurdo, de tão usado, já gastou. Dizer que a ideia é absurda soa banal. Contraditória? Incoerente? Insensata? Disparatada? Que cada qual escolha o termo que melhor lhe convier. Estamos diante de uma estupidez sem nome.
O aeroporto de Guarulhos, que há 30 anos serve a capital do Estado, viu passar 32 milhões de passageiros em 2012. No mesmo ano, o movimento de viajantes registrado nos dez aeroportos mais movimentados do planeta foi o seguinte:
Dubai = 58 milhões
Djacarta = 58 milhões
Dallas = 59 milhões
Paris = 62 milhões
Los Angeles = 64 milhões
Chicago = 67 milhões
Tóquio = 68 milhões
Londres = 70 milhões
Pequim = 82 milhões
Atlanta = 95 milhões (!)
Guarulhos não aparece nem entre os 30 aeroportos mais movimentados do mundo. Como qualquer um pode deduzir, se outros conseguem acolher o triplo dos viajantes atendidos em Cumbica, por que, raios, não seríamos nós capazes de fazer o mesmo? Há maneiras mais práticas, mais baratas, mais eficazes e mais lógicas de melhorar o desempenho da estrutura existente.
Foi um erro ter construído o aeroporto onde se encontra? Muitos dizem que sim. Mas não tem mais jeito: feito está, feito ficará. O que não convém é repetir a asneira.
Caieiras, o município «escolhido» pelos empreiteiros, é localidade encarapitada na Serra da Mantiqueira, a quase 800m de altitude, num dos raros pulmões verdes que ainda sobram à roda de São Paulo. Para coroar o desatino, aquela serra é considerada zona de mananciais. Uma parte do abastecimento de água da megalópole depende da preservação e dos bons cuidados que se dediquem à região. E tem mais: como localidade serrana, Caieiras é tão sujeita a nevoeiros como Guarulhos.
Antes de pensar em novo aeroporto, ainda há muito que fazer no velho. Ligação ferroviária rápida, aumento da capacidade dos estacionamentos, construção de novos terminais, desapropriação de terrenos circunvizinhos, melhora na logística de movimento de carga, aprimoramento da formação de pessoal, reforço da segurança. Tudo isso é mais lógico e sai mais barato do que construir mais uma estação aérea.
Não tem cabimento termos estádios padrão Fifa e continuarmos com aeroportos padrão Uagadugu.
«Na famosa Reserva Extrativista Chico Mendes, a principal atividade atualmente não é o extrativismo, mas a pecuária de corte, de fato proibida pelas normas do Sistema Nacional de Unidades de Conservação. Nem por isso, no entanto, muitos deixam de receber a Bolsa Verde.
Aliás, por essa razão, em outra reserva, no Alto Juruá, o líder da comunidade afirma: “O que mais se produz aqui é menino, pois é o que rende mais” – em referência ao recebimento da Bolsa Família e de outros benefícios, como a bolsa que a mãe poderá pleitear do Programa Brasil Carinhoso.»
Zander Navarro, sociólogo. In Estadão, 25 dez° 2013.
«Renan não é um ponto fora da curva. Ele é a própria curva.»
Elio Gáspari, jornalista, em sua coluna. In Folha de São Paulo, 25 dez° 2013.
Osvaldo Molles (*)
Era uma avenida na paisagem dos Evangelhos, bem na esquina do Novo Testamento.
E apareceu um camelo cor de avelã, servindo coquetel nas tâmaras dos olhos. Na obstinada giba, uma triste cópia da pirâmide. E, o focinho crestado pela iluminação da ribalta sem aplausos do deserto, começou a movimentar-se. E disse:
― Nada de meu tinha para dar ao Menino nascido em Belém. Então transportei os Magos que seguiam o caminho da Estrela. Dei meu fôlego ao Menino.
Veio um boi. Um boi que, segundo o Dicionário de Caldas Aulete, «serve principalmente para trabalhos de campo e para alimentação do homem». Depois disso, que dizer sobre aquele boi que se casou com a escravidão e que trazia, no focinho, a aliança do melancólico conúbio? E o boi disse:
― O frio da Noite Santa era tão áspero que entrei na manjedoura para me aquecer. Mas vi lá um Menino com frio e sua mãe e seu pai… e não pensei mais em mim. Aqueci-O com o que tinha de meu: meu pobre alento.
Veio uma cabra-montesa, rústica como uma mulher livre do campo. Vinha mascando liberdade entre os queixos bravios. E falou pouco:
― Eu Lhe dei o leite de meu filho.
Veio, depois, uma ovelha, macia como reza de criança. No perfil trácio, trazia o desenho da educação sem humildade. Sua cabeça baixa tinha a altivez dos que meditam. E disse :
― Nada Lhe podia dar e me deitei aconchegada ao Menino, para aquecê-lo na noite álgida. Dei-Lhe muito pouco: apenas meu calor.
Veio um jumento sisudo e muito percorrido, desses que já viram quase tudo e que já não querem ver mais nada. Um jumento muito velho e usado que conhece muito bem a História. Disse:
― Quando o rei Herodes mandou decapitar crianças, eu O levei na fuga para o Egito.
Veio o peixe e disse:
― Eu saltei para o barco de Pedro. Eu Lhe dei a fé.
Veio o grão de trigo e falou:
― Eu me multipliquei quando Ele mo pediu. Dei-Lhe a ceia.
Veio a água ingênua e disse:
― Eu me transformei em vinho. Dei-Lhe meu sangue.
E veio o homem. O homem sábio ― o único entre os animais que possui o segredo da Eternidade. O homem que é o rei da Criação e proprietário do livre arbítrio. E o homem disse:
― Eu Lhe dei a cruz.
(*) Osvaldo Molles (1913-1967) era paulista de Santos. Seu percurso foi eclético. Deixou rastro como escritor, romancista, contista, cronista, jornalista, radialista, compositor, letrista, roteirista. Soube captar, com olhar lírico, a alma da gente simples de seu tempo. Foi parceiro e amigo de Adoniran Barbosa, com quem compartilha a autoria de Tiro ao Álvaro (1960), gravada pelos Demônios da Garoa e por Elis Regina.
O conto aqui transcrito foi publicado no livro Piquenique Classe C ― Crônicas e flagrantes de São Paulo, lançado em 1962 pela Boa Leitura Editora. A obra, com 63 crônicas, traz ilustrações de Clóvis Graciano e prefácio de Hermínio Sacchetta. Reúne textos esparsos que o autor havia publicado em meia dúzia de periódicos, entre eles a Folha de São Paulo, a revista Manchete, o jornal Diário da Noite.
Àqueles que quiserem conhecer um pouco mais sobre Osvaldo Molles, recomendo uma visitinha ao site Cifrantiga. Aqui.
Todos os desenhos deste post são de autoria de Ivan Cabral, desenhista, caricaturista, chargista e cartunista potiguar.
Muitas outras obras estão no endereço do artista:
www.ivancabral.com
«Dentre os destinos possíveis para o americano desterrado, o Brasil desponta como ecossistema promissor. Afinal, é um portento entre os emergentes, democrático e dono de uma diplomacia independente. Respeita a liberdade de expressão e nutre um certo dissabor frente ao poderio americano. Tanto que o Palácio do Planalto parece até teleguiado por Snowden, que se manifesta pela caneta do jornalista Glenn Greenwald.»
Mac Margolis, colunista dominical do Estadão e editor do site Brasilinfocus.com, discorrendo sobre Mr. Snowden e a sinuca em que se meteu. In Estadão, 22 dez° 2013.
Observação natalina: neste começo de estação, a temperatura em Moscou anda anormalmente clemente: estacionou no zero grau faz alguns dias. Mas a previsão é de que, nas próximas semanas, volte ao costumeiro e desça uns 10 ou 15 graus. O inverno moscovita pode tardar, mas não falha nunca, que diabos!
José Horta Manzano
Semana passada, o Hospital Georges Pompidou, de Paris, realizou uma façanha sem precendentes. Implantou, num paciente com insuficiência cardíaca terminal, um coração artificial permanente.
Já houve casos de enxerto de coração artificial. Mas todos eles eram provisórios, solução de curta duração, à espera do órgão de um doador falecido. Esta foi a primeira vez que um coração artificialmente fabricado foi introduzido em caráter permanente em lugar do órgão doente. A mídia francesa tocou todos os sinos e todas as buzinas do país. No Brasil, curiosamente, a notícia não foi divulgada pelos grandes jornais. No entanto, se der certo, terá sido um grande passo no campo da cirurgia torácica.
Milhares de pessoas morrem a cada ano à espera de um transplante de coração. Ficam na fila, mas sua vez não chega a tempo. Doadores são raros, a compatibilidade não é automática, a distância e as condições de transporte entre a retirada do órgão e a inserção no doente podem representar uma barreira. Um feito como o da semana passada não dá voto a ninguém, mas representa uma esperança de sobrevida para muita gente.
Este coração artificial é recoberto por uma membrana ― o pericárdio ― que «tapeia» o organismo e reduz o risco de rejeição. O órgão é inteiramente controlado por computador capaz de detectar momentos em que o ritmo das pulsações deve ser acelerado e, ao contrário, períodos em que a frequência precisa ser diminuída ― durante o sono, por exemplo.
Há ainda um lado psicológico importante. Ao carregar prótese feita de material artificial, o transplantado não sofre o peso emocional de abrigar um pedaço do cadáver de um falecido. Não é difícil imaginar que isso possa ser, para certas pessoas, um fardo dificil de arrastar.
O mundo ficou boquiaberto quando, em dezembro de 1967, ficou sabendo que um certo doutor Christiaan Barnard (1922-2001), médico sul-africano, havia feito o primeiro transplante cardíaco. Foi um abalo equivalente ao pouso de um astronauta na Lua ― fato que só se daria um ano e meio mais tarde.
Para apurar remédios imunuodepressores, foram necessários muitos anos. Hoje, embora sejam bem mais eficazes que 45 anos atrás, ainda representam um peso para todo transplantado. Limitar seu uso é uma vantagem considerável.
Resta esperar que as pesquisas continuem e que, dentro de breve tempo, doentes não precisem mais passar anos à espera do falecimento de um doador compatível.
Artigo do jornal Le Monde (em francês)
Artigo de Radio France Internationale (em português do Brasil)
Outro dia andava ele muito pensativo. Veio me contar o problema que o estava atormentando. O pobre Sigismeno acha que eu tenho resposta pra tudo. Enfim…
Ele me confiou seu pensamento ― que, no fundo, tem certa lógica. Ele lembrou que, até não muitos anos atrás, era impensável que o titular do Ministério da Defesa fosse um civil. Inimaginável, fora de cogitação. Aliás, algumas décadas atrás, o nome da instituição era explícito: Ministério da Guerra. Como tantas outras expressões, essa denominação tornou-se politicamente sensível depois da hecatombe 1939-1945. Pouco a pouco, todos os países adaptaram o nome do ministério aos novos tempos.
Em 2003, o presidente de nossa República editou, de afogadilho, a Medida Provisória número 111, que instituía a Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial. Alterada, adaptada e burilada, a medida foi mais tarde tranformada em lei. Seu titular é equiparado a um ministro de Estado e goza das mesmas prerrogativas que seus pares. Responde diretamente ao presidente da República.
Nestes quase onze anos de existência, o Ministério da Igualdade Racial teve três titulares, Sigismeno os contou. Primeiro foi a paulista Matilde Ribeiro, seguida pelo fluminense Elói Ferreira Araújo. A ministra atual é a gaúcha Luiza Helena de Bairros. Pra dizer a verdade, eu nem sabia. Há que reconhecer que não são os nomes mais conhecidos do pletórico gabinete de dona Dilma.
Sigismeno me contou sua grande descoberta: todos os três são afro-brasileiros. Eu perguntei onde estava o problema. E ele: «Será que é condição obrigatória para ocupar esse elevado posto? Quando veremos um asiático-brasileiro, um euro-brasileiro ou mesmo um brasileiro ab origine (*) na chefia desse ministério?»
Fiquei meio embasbacado. E não é que Sigismeno tem razão? É de crer que a cartilha do partido (atualmente) dominante permite que centenas de milhares de militares de carreira sejam encabeçados por um civil, mas não admite que um não africano dirija o Ministério da Igualdade. Será possível que não exista nenhum índio, nipo-brasileiro, euro-brasileiro, médio-oriental-brasileiro à altura da tarefa?
Resolvi brincar com Sigismeno. Disse a ele que talvez esse ministério tenha sido criado só para acalmar a galeria. Seria como se dissessem: «Estão vendo? Tem até ministro preto. Que mais vocês querem?».
Pela cara que ele fez, tive a forte impressão de que Sigismeno ― que não brinca em serviço ― não apreciou a gracinha. Virou as costas e foi-se embora abanando a cabeça.
(*) Ab origine é expressão latina que designa aquele ou aquilo que está ali desde o início. No texto acima, faz referência, naturalmente, aos habitantes primitivos de Pindorama: os índios.
«Negros que usam o chicote para bater em outros negros não são meus irmãos. O Joaquim Barbosa não é meu irmão.»
Edson Santos, deputado federal, ministro da Igualdade Racial do governo do Lula, em pronunciamento feito durante festa no Presídio da Papuda. O deputado deixou claro que até igualdade racial tem seus limites. Só vale para companheiros. In Folha de São Paulo, 20 dez° 2013.