O Brasil pardo detectado pelo IBGE contra o Brasil negro dos identitários

Wilson Gomes (*)

Censo do IBGE
A particularidade do censo do IBGE é que ele não apenas fornece dados, mas os apresenta orientados por teorias e embalados na ideologia dos analistas que trabalham nele.

Segundo as estatísticas geradas, 45,3% dos brasileiros se declaram como uma mistura de duas ou mais opções de cor ou raça, escolhendo entre branca, preta, parda e indígena, conforme o manual do instituto. Quem assim se identifica é pardo. Alvíssaras, o IBGE descobriu o óbvio, o Brasil é um país mestiço.

Como há um dogma dos militantes atribuído ao IBGE que reza que pardos não passam de uma subdivisão de negros, celebrou-se então a superioridade numérica dos negros nesse país. Mas apenas 10,2% se definem como negros.

É que, embora as pessoas tenham o direito de se identificar como desejarem, inclusive tendo a opção de adotar como critério de escolha a cor ou a raça, jornalistas e militantes se concedem o privilégio de ignorar tal autoidentificação e reclassificá-las conforme seus próprios critérios: pretos e pardos são espécies de negros, ponto final.

Ora, se os pardos se considerassem negros, escolheriam a identificação como pretos, como é óbvio supor. Da mesma forma, caso se vissem como brancos, optariam por essa categoria. Mas não o fizeram, assumem-se como mestiços.

Ocorre que no Brasil a escolha da categoria de cor ou raça deve ser considerada séria demais para se permitir que as pessoas decidam o que são por conta própria. A sociologia militante se concede o poder de decidir em lugar dos cidadãos, inclusive desconsiderando suas próprias percepções. Mas o tratamento é exclusividade dos pardos, claro.

A militância
Os militantes da causa negra não demoraram a ressaltar como anos de trabalho árduo dos movimentos resultaram no aumento do número dos autoidentificados como pretos e pardos no Brasil.

Embora isso possa ser verdade, esperemos algum crédito do fenômeno ao fato de que as pessoas vêm se miscigenando no país há mais de 500 anos, bem antes que movimentos negros marchassem com faixas declarando que “miscigenação é genocídio” ou inundassem as redes com denúncias de “palmitagem” de quem se envolveu com pessoas de outra cor.

O cardinalato dos influenciadores que reivindicam falar em nome de todos os negros não iria perder a oportunidade de pontificar sobre o assunto. “É uma vitória termos um Brasil que se reconhece como negro”, afirmou-se. Para depois rematar-se com: “Nunca é demais lembrar que pardos e pretos compõem a população negra do Brasil”.

Pelo visto, ignora-se o fato de que “o Brasil” se reconheceu majoritariamente como pardo, não como negro, branco ou indígena. Nem deveria ser demais lembrar que pardo é alguém que se reconhece mestiço, misturado, miscigenado, não como componente de qualquer outra população, a não ser a brasileira.

Impressionante como a matriz indígena foi esquecida, como se ela não fizesse pardos.
Ora, ocorre o contrário. O norte do Brasil é pardo, a Amazônia é parda. Os dez municipios com maior percentual de pardos estão entre o Amazonas, o Pará e o Maranhão. Como o colégio cardinalício identitário decidiu que todos os pardos são compulsoriamente negros, a origem indígena do Brasil pardo foi apagada.

O pior é que nem isso é para valer. Parafraseando o verso do Rigoletto de Verdi, “il pardo è mobile, qual piuma al vento”. Conforme a conveniência do cardinalato identitário e dos movimentos negros, movem-se os pardos para lá ou para cá.

Nos momentos de fazer volume, pardos são da população negra. Na hora das cotas em concursos ou de dividir cargos, chama-se a polícia racial, ou “comissões de heteroidentificação”, para tirar os pardos.

A autoidentificação dos pardos é desconsiderada; o que não se ignora é a premissa que há sempre um pardo querendo desfrutar de reparação que é só devida aos pretos. Pardos são úteis nos numeradores para se calcular as compensações, mas um estorvo depois do cálculo feito.

Flávio Dino
Vejam Flávio Dino. Alguém tem mais a cara do Brasil do que um caboclo miscigenado do Maranhão, justo onde a Amazônia e o Nordeste se encontram num abraço gostoso?

Pardo, no jargão do IBGE, ou moreno, mulato ou caboclo na língua real do país, Dino tem a cor e a manha da nossa gente.

No Brasil brasileiro, Dino é caboclo inzoneiro, exceto para as autoridades identitárias, que prantearam a sua indicação ao STF alegando que o cargo era para uma pessoa negra. Quando há privilégios e recompensas, pardos não são negros, nem sequer Flávio Dino.
(*) Escritor e professor da UFBA (Universidade Federal da Bahia).

Artigo publicado na Folha de S. Paulo. 

Líder regional

José Horta Manzano

Há quem acredite nessa balela de que nosso país exerce liderança natural sobre a vizinhança e que seríamos o farol predestinado a conduzir todos os hermanos a um mundo melhor.

Impossível, até que não seria. Mas coisas desse tipo não caem do céu, precisa fazer acontecer. E o fato é que, depois que FHC deixou o Planalto, faz mais de 20 anos, os sucessivos governantes não souberam (ou não quiseram) polir nossa faceta de liderança predestinada.

Se bastasse ser um país dotado de amplo território, o Canadá, que é maior que o Brasil, seria um dos maiorais do planeta – mas ele não é. Se bastasse ter população abundante, a Nigéria estaria no pódio dos mandachuvas, o que não é verdade. Longe de ser “natural”, liderança é qualidade que se cultiva e que leva tempo pra alcançar.

Os EUA, ao enviarem tropas à Europa em 1917, liquidaram a Primeira Guerra Mundial. Nem por isso se tornaram o farol do planeta. Foi preciso esperar a passagem de algumas décadas. Foi só ao final da guerra seguinte, em 1945, que os Estados Unidos, que haviam preparado cuidadosamente seu début na cena mundial, assumissem a posição de incontornável guia do Ocidente.

Nas últimas décadas, o Brasil preocupou-se com mil problemas, mas abdicou de toda veleidade de se tornar líder regional. Lula, que governou por mais tempo, desde cedo mostrou apetência por participar de “blocos”, atividade que ele parece considerar de extrema importância. G7, G20, Mercosul, Brics, Unasul, Grupo de Cairns são nomes que ressoam com frequência em suas falas. É pena que ele só utilize essas tribunas para se queixar dos loiros de olhos azuis; e para pedir dinheiro a eles. Quanto a Dilma e Temer, se desinteressaram do tema. Bolsonaro, com seus modos de ignorantão agressivo, foi boicotado pelo mundo, fechou-se na corte palaciana e submergiu.

Com essas e outras, o Brasil fechou-se aos vizinhos sul-americanos. Ressalte-se que, assim agindo, nosso país não fez nada de novo: já nos tempos coloniais, era assim que nos comportávamos, sempre de costas para a vizinhança.

Como ficamos sabendo ontem, o Equador, país-hermano, se encontra em estado de insurreição. Instalou-se no país uma guerra civil que não diz seu nome. A sociedade equatoriana vem passando, há anos, por um acelerado processo de desagregação. O Equador chega a 2024 com um tecido social esgarçado, gangrenado pelo poder paralelo de gangues de traficantes que passam por cima do governo oficial e impõem seu próprio ritmo ao país.

Quanto ao Brasil, não estamos em condição de cantar de galo, que o narconegócio nos atinge também em alta escala, vide o que se passa no Rio. Mas estamos mais bem equipados que o pequenino Equador para amenizar nossa situação e impedir que as gangues tomem as rédeas do país.

O problema é que o Brasil não cultivou, como eu dizia, uma imagem de irmão mais velho, aquele de quem se pode esperar uma mão amiga e protetora nas horas difíceis. Fica agora pouco credível destacar um emissário e despachá-lo às pressas a Quito para perguntar “Em que posso ajudar?”. Aliás, nem sei se o governo Lula pensou em fazer isso.

Líder regional não é somente aquele que, com sua lanterna, mostra o caminho aos vizinhos mais frágeis. É também aquele de quem se espera um braço forte e uma ajuda concreta na hora do pranto.

O Brasil não parece estar preparado para tão excelsa responsabilidade. E isso não tira o sono de ninguém.

Pra quem é, tá de bom tamanho

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Quando eu era criança e havia alguma festinha de aniversário em casa, minha mãe se encarregava de preparar todos os salgadinhos e doces – isso para uma concentração de, pelo menos, 50 convivas. Para agilizar a execução de uma tarefa tão gigantesca quanto essa, ela colocava todas as filhas a postos para ajudar na preparação e fritura/assamento das massas, elaboração dos enfeites, arrumação da mesa e decoração da casa.

A mim era destinada quase sempre a enfadonha e repetitiva tarefa de esticar a massa das empadinhas dentro das fôrmas, talvez por não envolver o uso do fogo ou por permitir supervisão constante. Canhota e desajeitada por natureza, eu tentava de todas as maneiras corresponder às expectativas de confecção de uma camada fina de massa tanto na base quanto nas paredes laterais de modo a não comprometer a degustação do recheio.

A atenção aos detalhes sempre teve importância muito maior para mim do que a rapidez na execução de qualquer tarefa. Minha mãe dizia que eu “bordava” qualquer trabalho que me fosse solicitado. Para garantir um resultado satisfatório com a mão “errada”, eu, de fato, demorava uma eternidade: ia e voltava infinitas vezes pressionando a massa contra o fundo das forminhas até que ela se tornasse transparente, só para constatar mais tarde que ela havia rasgado na base ou que as paredes haviam ficado grossas demais. Daí era engolir em seco e recomeçar do zero. Ansiosa para se dedicar ao preparo dos demais quitutes, minha mãe tentava me apressar, relevando algumas pequenas imperfeições. Quando eu choramingava, exausta por não estar conseguindo alcançar o padrão desejado, ela piscava para mim e acrescentava com uma risada: “Não se preocupe, pra quem é, tá de bom tamanho”.

Essa frase me aturdiu desde a primeira vez que a escutei e a incompreensão pelo tom zombeteiro me assombra até os dias de hoje. Não entendia como minha mãe podia me aconselhar a usar de dois pesos e duas medidas na entrega de um trabalho, conforme o perfil de seu destinatário final. Quer dizer, então, que havia pessoas com paladar requintado o suficiente para perceber que o produto tinha um acabamento gourmet e outras que engoliam despreocupadamente qualquer coisa que lhes fosse oferecida desde que satisfizesse seu apetite? Para mim, essa categorização era inaceitável: significava (e ainda significa) que o capricho na execução da tarefa não é um valor intrínseco ao caráter do executor, mas simples conveniência social.

Cresci tentando exorcizar o caráter antiético dessa ideia, mas não teve jeito: ela nunca me abandonou e acabou sendo incorporada ao meu código pessoal de princípios morais reversos – isto é, das coisas que eu nunca deveria conscientemente tentar fazer. A opinião do usuário final sobre a excelência ou insuficiência técnica do meu trabalho também jamais foi capaz de superar minha ácida crítica interna. Se não estou satisfeita com a qualidade do que me propus a fazer, nenhum elogio tem o poder de compensar a frustração e a sensação de impotência, enquanto as críticas negativas são catalogadas apenas como mais/menos cruéis do que a minha própria.

Graças ao período recente em que fui forçada a ficar de molho por causa de uma queda, pude compreender, como nunca antes, as consequências desastrosas que a adoção de um padrão imaginário de perfeição, inatingível para o comum dos mortais, havia provocado em mim. Entendi que jamais ousei me profissionalizar de fato. Preferi sempre me apresentar como uma amadora de boa vontade, curiosa e disposta a aprender com seus erros. Todos os trabalhos que apresentei eram entregues já com as devidas ressalvas: ‘Olha, esse foi o melhor que pude fazer, mas não creio que tenha encontrado todas as respostas que você buscava’; ‘Como foi a primeira vez que lidei com isso, devo ter deixado escapar algum fator relevante’; ‘Se você me der mais tempo, posso revisar toda a análise, sem custo, e corrigir eventuais distorções’.

Claro que essa pretensa “humildade” estava a serviço de minimizar minha sensação de culpa, desviar a atenção da minha real incompetência e compensar a dor da minha ferida narcísica. Obviamente, a síndrome da impostora que me afligia acabou tendo também um enorme impacto financeiro negativo sobre meus proventos profissionais. Hoje, revendo os acordos orçamentários que me dispus a fazer ao longo da vida, penso nas infinitas oportunidades que perdi de bancar cursos de pós-graduação ou extensão universitária, viagens, ou me dedicar a outras áreas de interesse, especialmente as que não envolvessem apenas o uso do cérebro.

Por outro lado, a disponibilidade para me envolver com tarefas que eu desconhecia ou pouco exploradas no mercado acabou agregando um inesperado traço experimentalista à minha imagem profissional. Vários clientes desejosos de conhecer melhor os limites de divulgação de seu produto/marca me abriram as portas para a introdução de novas técnicas projetivas de pesquisa e novos arranjos para o público-alvo. Hoje, olhando para trás, até eu me surpreendo com tantas e tão diversificadas experiências que acumulei – desde atuar como consultora de um centro espírita para descobrir as causas das brigas entre seus médiuns até trabalhar ao lado de redatores publicitários e criativos na identificação de novos apelos mercadológicos.

Nascida e criada em solo brasileiro, no entanto, me é inescapável admitir que acreditar que “pra quem é, tá de bom tamanho” sempre foi um lema consagrado pelos integrantes dos três poderes de nossa combalida República ao elaborar projetos de combate às nossas maiores mazelas. Valores pífios para o aumento do salário mínimo, não-correção da tabela do imposto de renda, fila quilométrica para acesso aos parcos benefícios da Previdência, limitação de recursos para o SUS e para pesquisas nas áreas de educação e saúde, justiça viesada a favor dos poderosos de plantão e empedernida para lidar com as transgressões de ‘pés de chinelo’ convivem placidamente com um fundo eleitoral de 5 bilhões, fundo partidário igualmente bilionário, desrespeito às cotas para mulheres e negros na composição das chapas… a lista é interminável.

Assim, me ocorre deixar um lembrete final para quem pretende votar nas próximas eleições (municipais, estaduais e, principalmente, na presidencial):


“Nada é suficiente para quem considera pouco o suficiente.”
Epicuro


(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Recadinho a Sua Excelência

José Horta Manzano

Prezado Ministro,

Vossa Excelência, ministro Gilmar Mendes, é graduado em Direito pela Universidade de Brasília, além de mestre e doutor pela Universidade de Münster, na Alemanha. Adicione-se a isso a prática adquirida em 35 anos de atividade, dos quais 20 como ministro do STF. Parabéns por ser um dos sobreviventes do tempo em que se escolhia um ministro do STF por seu notório saber jurídico.

Sua tendência a dar pronunciamentos e conceder entrevistas aqui e ali fazem parte do jogo – é assim que arde a fogueira das vaidades. Cidadãos mais recatados podem até se avexar com tal comportamento. Porém, no fundo, que fazer? Na Igreja, é pecado, mas no século passa batido.

Contudo (reparou que tem sempre um mas, um porém, um todavia, um contudo para atrapalhar?). Uma coisa é afagar o próprio ego; outra, bem diferente, é pronunciar-se fora dos autos. Até réu primário, como se vê em filme policial, sabe disso: “só falo na presença de meu advogado”. É que ele entende que palavra lançada ao ar é irrecuperável, não há como voltar atrás. Antes de abrir a boca, máxima prudência é exigida de todo cidadão, em qualquer circunstância.

Contudo, dizia eu, apesar de sua vasta bagagem jurídica, Vossa Excelência declara em praça pública ter convicção formada sobre a culpabilidade de um réu que, muito provavelmente, virá um dia a ser julgado no STF. Isso é um contrassenso. Sergio Moro, ex-Lava a Jato, caiu em desgraça, entre outras escorregadas, por não ter sido imparcial. Vossa Excelência está entrando pelo mesmo túnel. Como vai sair dele?

Um juiz que dá seu parecer antes mesmo do início do processo não está apto a julgar. Se o caso subir até o STF, Vossa Excelência terá de se declarar impedido. Se não se declarar, como é que fica? Teremos de conviver com um Supremo avacalhado, uma casa em que juízes julgam por antecipação, como os esbirros de Putin?

Permita-me a impertinência, ministro. Ouso dizer-lhe que um pouco de recato lhe faria bem. E ao Brasil também.

Saudações de ano novo!

Fim de ano, Lula e extrema direita

Hidra de Lerna
monstro de múltiplas cabeças da mitologia grega

José Horta Manzano

Artigo publicado no Correio Braziliense de 30 dezembro 2023

As pesquisas de opinião revelam um Lula da Silva que vai se segurando apesar de um tropeção aqui ou ali. Ao final de um ano de mandato, sua popularidade não parece ter sofrido desgaste significativo. Entre outras razões, estão duas especificidades.

Por um lado, o turbilhão de fatos políticos nacionais gira com tanta velocidade que as ocorrências não têm tempo de se fixarem na retina. Cada notícia empurra e apaga a anterior, só permitindo que dramas chocantes permaneçam no ar por algum tempo a mais. Por outro lado, Luiz Inácio já deu amplas provas de ser do gênero “político teflon”, aquele em quem manchas e desdouros não grudam, desaparecendo logo.

Até aqui, falamos do Brasil insular, um país cujos habitantes acreditam que, circundados por fronteiras herméticas, vivem isolados do mundo. Na vida real, não é assim. As aves que aqui gorjeiam, trinam por lá também. Frases que Lula costuma tirar do bolso do colete ao dar palpite sobre graves assuntos internacionais podem passar despercebidas ao público brasileiro, mas fazem as manchetes no exterior. E acabam nos prejudicando a todos.

A acolhida fidalga e despropositada que Luiz Inácio, ao tomar posse, ofereceu ao ditador da Venezuela pregou um susto nas chancelarias estrangeiras. Os conceitos fora de esquadro que ele declamou sobre a guerra na Ucrânia e o conflito na Palestina fizeram murchar sorrisos em velhos admiradores estrangeiros. O anúncio, feito durante a recente COP de Dubai, do ingresso do Brasil na Opep+ mostrou que a extravagância de Lula é irrefreável, podendo confinar com a incongruência.

Ao final deste primeiro ano de governo Lula 3, numerosos líderes estrangeiros que muito esperavam dele tornaram-se desconfiados e precavidos. O troco já começou a chegar. Veja-se a maneira nada sutil com que Emmanuel Macron torpedeou o acordo UE-Mercosul. Vai longe o tempo em que o francês se deixava filmar exclamando “Lula, mon ami!”. A fraterna amizade parece não ter resistido aos percalços do primeiro ano de mando lulista.

Talvez por estar ressabiado, Lula abdicou de se expor em duas recentes ocasiões. Primeiro, ao declinar de saudar o ucraniano Zelenski no aeroporto de Brasília, quando este fez escala técnica a caminho de Buenos Aires para a posse de Milei. Segundo, ao recusar-se a viajar até a ilha caribenha em que os presidentes da Venezuela e da Guiana bambeavam entre guerra e paz.

Visto do exterior, Luiz Inácio termina o ano menor do que começou. É pena, mas é constatação inescapável: o Brasil entra em novo período de refluxo, enquanto o mundo lá fora continua a girar. Esse nosso negacionismo oficial é difícil de explicar.

Dez dias atrás, a Assembleia-Geral da ONU pôs em votação uma resolução condenando a violação de direitos humanos na Ucrânia invadida. A Europa inteira (até a Hungria!) aprovou. Nossos vizinhos Uruguai, Chile e Argentina também. O Brasil se absteve, preferindo fazer companhia ao Iraque, ao Vietnã, à Indonésia, à Etiópia e a outros recalcitrantes. O Itamaraty não se dá conta de que, quando o sofrimento humano está em jogo, seja onde for, a politicagem tem de se curvar e dar passagem à empatia. É doloroso constatar que um governo que se diz progressista cede a ideologias mortas e enterradas, e passa por cima de valores essenciais do humanismo.

Daqui a uma semana, o triste 8 de janeiro de 2023 completará um ano. Alguns veem nessa data o ato final da ópera, com a morte simbólica dos protagonistas. Antes fosse, mas é bom não facilitar. A hidra extremista tem múltiplas cabeças, cada uma representando um público diferente. Libertários, evangélicos, “anticomunistas”, sebastianistas, ultraegoístas, novos-ricos, racistas – cada um deles está associado a uma das cabeças. Embora se desconheçam entre si, esses grupos contribuem, quiçá sem se dar conta, para a perpetuação do extremismo. A existência de tantos ramos disparates explica a resiliência da direita extrema que, em nosso país, é nutrida por um em cada quatro eleitores.

Portanto, olho! Não é hora de baixar a guarda. Se nossa política externa declina, continuemos vigilantes ao que fermenta dentro de nossas fronteiras, que a hidra, embora sonolenta, continua viva.

Feliz ano novo a todos!

Bolsonaro em Buenos Aires

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José Horta Manzano

Gosto de observar fotografias e tirar minhas conclusões que, se não representam a verdade verdadeira, pelo menos são a verdade como eu a sinto.

Esta de hoje mostra os 34 egrégios personagens que compunham a delegação bolsonarista que viajou a Buenos Aires para espairecer e, ao mesmo tempo, prestigiar a tomada de posse de Javier Milei.

Tomei nota de alguns detalhes interessantes. Vamos lá.

  • A cor azul domina incontestavelmente. Se meus cansados olhos não me enganam, todos o homens vestem camisa azul, com a exceção de um senhor de óculos escuros cuja camisa é de um verde desbotado.
  • Na fila da frente, os figurantes parecem estar cobrindo o goleiro na hora do tiro livre direto. Todos lembraram de cruzar as mãos para proteger as devidas partes, menos um distraído. Cuidado! Pode ser jogador infiltrado do time adversário.
  • Num incompreensível privilégio hierárquico, paletó foi exigido de todos, menos dos caciques: Bolsonaro, Tarcísio e Costa Neto.
  • Osmar Terra (que alguns insistem em chamar “Osmar Trevas”) não tinha levado paletó. Correu apanhar a jaqueta. Não ficou muito chique, mas quebrou um galho.
  • Como sói acontecer em toda foto de grupo, teve um que saiu com meia cara. Teve também um baixinho que, esquecido lá no fundo ao lado de altões, teve de ficar na ponta dos pés.
  • Houve também um participante assaz original, que se apresentou ao lambe-lambe ostentando no cocuruto um discreto chapelão de aba larga, cor negro-graúna. Pra mostrar que não está brincando e quer realmente se destacar dos demais, vestiu uma gravata amarelo canário. O modelito ficou superelegante.
  • Dos 34 figurantes, 31 são do sexo masculino. Para demonstrar que os bolsonaristas não padecem de misoginia, 3 mocinhas foram incluídas no grupo, tímidas, recatadas, esquecidas num segundo plano de onde foram obrigadas a entortar a cabeça pra aparecer no retrato. Quem encontrar as três em menos de três minutos ganha um pedaço de pizza fria pra comer de pé na calçada.

Sem dúvida, o grupo é bolsonarista da gema.

Aproveito esta oportunidade para avisar que vou dar uns dias de descanso a meus distintos leitores. Desejo a todos um feliz Natal, boa passagem de ano e um 2024 com muita saúde e sossego. No finalzinho do ano, interrompo o recesso para publicar meu artigo que sai no Correio Braziliense. Até lá!

Farol da Humanidade

José Horta Manzano

O Lula dá sinais de ter desistido de lutar pra alcançar o almejado posto de “Farol da Humanidade”.

Nos primeiros dois mandatos, seu ego foi acariciado pela boa sorte. Os tempos eram outros, sem Trump, sem um Putin belicoso, sem Xi Jinping. Nem Bolsonaro havia ainda posto as manguinhas de fora. Na política interna, o “terrível” adversário era o suave FHC e seu partido.

Marinheiro de primeira viagem, Luiz Inácio navegou então por águas mansas, com céu de brigadeiro e golfinhos brincando a bombordo e estibordo.

Em 2009, um Obama efusivo apresentou Lula aos presidentes do G20 com um “This is my man, right here! I love this guy.” (Este é o homem, bem aqui! Adoro esse cara.). E acrescentou que Luiz Inácio era “the most popular politician on Earth” (o político mais popular da face da Terra).

Lula deve ter acreditado em cada sílaba. Tanto que, inchado, assumiu o papel de Paladino da Paz e da Justiça. Meteu-se de cabeça no jogo internacional. Aventurou-se até no insolúvel conflito palestino certo de que, com uma partida de futebol, apaziguaria os dois povos. Como se sabe hoje, sua intervenção não foi bem sucedida.

Em versão 3.0, o Lula internacional anda mais travado. Bem que ele tentou, mas falta gás. No espocar da mortífera invasão da Ucrânia pelas tropas russas, deu uma de Salomão: culpou os dois lados igualmente. Levou silenciosa vaia internacional. Na guerra entre Israel e o Hamas, tentou opinar, mas já andava sem ânimo pra essas coisas. Seus vagos pronunciamentos tiveram o condão de irritar ambos os lados do conflito.

Agora, parece ter desistido de vez. Nas últimas ocasiões em que teria podido dar diretivas à humanidade, subtraiu-se. Quando o venezuelano Maduro e seu par, o presidente da Guiana, anunciaram reunião numa ilha caribenha, não quis conduzir os trabalhos. Em seu lugar, mandou Amorim, “assessor especial”.

Outra ocasião foi quando Zelenski, presidente da Ucrânia, a caminho da Argentina para a posse de Milei, teve de pousar em Brasília para reabastecimento. Apesar do convite do ucraniano, Lula preferiu declinar de encontrar-se com ele.

Será por cansaço devido aos anos vividos? Será para não se expor ao risco de novos fracassos? Ele é quem sabe a razão, mas tudo indica que já não se empenhará para tornar-se o Pacificador das Gentes.

Se isso significa que vai dedicar mais tempo e esforço para enfrentar nossos problemas internos, aplaudiremos de pé.

Canetada

José Horta Manzano

Talvez eu tenha perdido um capítulo. Se li direito, um solitário magistrado, unzinho só, numa canetada de palácio, por motivos absconsos, resolve anular uma decisão que já havia sido tomada tempos atrás.

E não estamos falando de briga de comadres: trata-se de uma entrada de 10,3 bilhões de reais (2,1 bilhões de dólares), um caminhão de dinheiro em cima do qual nem um maluco como Mr. Musk cuspiria.

Imagine tudo o que essa fortuna poderia render se entrasse para os cofres da República – e se fosse bem empregada naturalmente. Hospitais, dá pra construir vários. Estradas, dá pra abrir e asfaltar quilômetros e quilômetros. Professores, dá pra aumentar consistentemente o salário de todos eles pelo resto da vida. E quanto mais o distinto quiser imaginar será igualmente possível.

Agora, vem um homem e decide sozinho privar a nação desses fundos? Ressalte-se que é de conhecimento público que a esposa do digníssimo magistrado advoga para os beneficiários da anulação da multa.

Em que mundo estamos? Esse é o tipo de decisão que não pode valer antes de ser ratificada pelo pleno do STF. Por unanimidade se for possível. Me espantaria que a canetada fosse referendada mas, em nosso país, nunca estamos a salvo de surpresas.

Há países em que um caso assim levaria a população indignada às ruas, homens e mulheres, jovens e anciãos. Por aqui, nada. Sai notícia em caracteres pequenininhos.

Será no intuito de manter esse estado de coisas que o andar de cima se interessa tão pouco pela Instrução Pública?

Escrituras no Morro do Alemão

Elio Gaspari (*)

Há duas semanas, como parte do Programa Solo Seguro, a Corregedoria Nacional de Justiça entregou 180 títulos de propriedade a moradores do Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro. (Naquele cenário, em 2011, foi instalado o espetáculo do teleférico que custou R$ 210 milhões. Ficou sete anos parado e seria reaberto no início deste mês. Tudo bem, o que começa como presepada, como presepada se encrenca.).

A regularização dos lotes onde vivem 180 famílias do Alemão custou três meses de trabalho a 17 pessoas: duas da Corregedoria, cerca de 12 da Prefeitura do Rio e três do cartório de registro de imóveis. A impressão das escrituras deve ter saído por uns R$ 2 mil. Só.

(*) Elio Gaspari é jornalista. O texto é parte de artigo publicado em 17 dez° 2023 n’O Globo.

Bill Gates e o SUS

José Horta Manzano

Passou debaixo do radar um artigo que saiu semana passada na Folha de SP. O escrito trata dos comentários feitos por Bill Gates em suas páginas nas redes sociais.

Como se sabe, Mr. Gates é o fundador da Microsoft. Hoje, à beira dos 70 anos, está afastado da firma que criou. Além de bilionário – ou talvez por causa disso –, ele aparece entre os maiores filantropos de todo o mundo.

Em 2000, cedeu 5 bilhões de dólares de sua fortuna pessoal para criar a Fundação Bill & Melinda Gates. Ao longo dos anos, a dotação inicial cresceu até atingir cerca de 35 bilhões de dólares, capital que hoje sustenta a Fundação.

A instituição dedica-se a financiar grandes causas, sobretudo ligadas à saúde mundial. Aids, tuberculose, malária e poliomielite estão entre suas áreas de atuação. Bill Gates soube direcionar sua imensa fortuna para amparar causas que países pobres, sem ajuda, não conseguem cuidar.

Voltemos aos comentários do filantropo. Foram elogios rasgados endereçados ao SUS, o Sistema Único de Saúde brasileiro. “Nenhum país é perfeito, mas o Brasil é a prova do que acontece quando um país investe no cuidado com os mais vulneráveis: o retorno tende a ser grandioso” – foi uma de suas frases, postadas no Instagram. Mr. Gates ainda anexou um gráfico sobre a queda nos índices de mortalidade infantil no Brasil.

E seguiu, admirativo: “Em cerca de 30 anos, o Brasil conseguiu reduzir a mortalidade materna em 60% e diminuiu a mortalidade infantil em 75%, o que supera amplamente as tendências mundiais. Ainda por cima, aumentou a expectativa de vida de seu povo em cerca de dez anos.”

Bill Gates foi mais longe em seus posts. Deu uma rápida visão geral sobre a criação do SUS no fim dos anos 1980. A par disso, saudou a grande ideia de estarem atualmente em atividade 286 mil agentes comunitários de saúde, disponíveis para quase 70% dos brasileiros.

O filantropo, habituado a operar em países em que o Estado é inexistente ou quase, revelou sua admiração pelos programas de transferência de renda, como o Bolsa Família, que ajudam a extrair famílias da miséria negra e que são responsáveis pela diminuição da mortalidade infantil.

Seria o caso de o governo propor a Bill Gates participar de uma campanha institucional do SUS, como tantos programas de autolouvação que costumam ser montados. Talvez ele aceite, não custa tentar.

O artigo original está aqui (para assinantes da Folha de SP).

Imagem roubada

José Horta Manzano

Uma imagem roubada da tela do celular do senador Sergio Moro foi estampada na manchete de toda a mídia. A foto, tirada durante a sabatina de Flávio Dino, eterniza uma conversa entre Moro e um correpondente misterioso identificado como “Mestrão”. (De lá pra cá, já foi identificado, mas não vem ao caso.)

Moro acabava de dar um abraço em Dino diante das câmeras que transmitiam ao vivo. Logo depois, “Mestrão” envia mensagem a Moro para prevenir que “o coro está comendo nas redes” e que não convém publicar declaração de voto a favor do sabatinado, sob pena de espichar o assunto e perder o controle da situação. Foi nessa altura que a foto foi tirada.

Os dois devem se conhecer bem, dado que “Mestrão” chama o senador pelo prenome e o trata por ‘você’. Um detalhe: “Mestrão” põe vírgula depois do vocativo, mostrando que pelo menos completou o ensino médio.

Dia seguinte, diversos articulistas da grande mídia comentaram o ocorrido. “Quem será o Mestrão?” – indaga um deles. “Veja só, o que as redes mandam, Moro faz” – se surpreende um outro. O que cresceu foi a fofoca. Me lembrou os mexericos da Candinha.

Não me lembro de ter visto nenhum articulista preocupado com a licitude da imagem. Tirar uma foto por cima dos ombros de alguém, captar um trecho de conversação particular e espalhar a imagem me parece configurar um ilícito. No mínimo, é violação de correspondência. É como abrir (e ler) a carta do vizinho. (Hoje já ninguém manda carta, mas o princípio continua de pé.)

Quem agiu assim fez exatamente o que se acusa Moro de ter feito: escarafunchar a intimidade de seus investigados para melhor acusá-los.

Não sou fã de Sergio Moro, personagem pouco recomendável a meu ver. Mas uma coisa é uma coisa, e outra coisa é outra coisa.

Neste caso, é outra coisa.

X, antigo Twitter

José Horta Manzano

Só conheço o X (antigo Twitter) de ouvir falar. Não sou de “seguir” gurus nem personalidades; tampouco sinto necessidade de apregoar, a cada instante, os pensamentos que me passam pela cabeça.

Tenho acompanhado a turbulência que sacode a plataforma desde que um multibilionário tornou-se proprietário dela. Pelas notícias que leio, a impressão que me dá é que a curiosa intenção do milionário é destruir a empresa. Ele age aos trancos, um pouco hoje, um pouco amanhã, sempre no modo “tiro no pé”. Difícil de entender.

Alguns meses atrás, o grande golpe foi trocar o nome da empresa. O rapaz jogou no lixo a marca Twitter, implantada e conhecida no mundo todo. Em seu lugar, botou “X”, nome sem graça, banal, que se pronuncia de maneira diferente em cada língua. A meu ver, uma decisão desastrosa.

E parece que não sou o único a reprovar a troca de nome. No mundo inteiro, em todas as línguas, a mídia, quando se refere a essa plataforma, continua a dizer “X, antigo Twitter”.

Não sei se fazem isso preocupados com a boa compreensão ou se estão mesmo é dando um chute na canela do bilionário. Seja qual for a razão, a conclusão é a mesma: os usuários não aprovaram a mudança.

Vamos ver qual é a próxima extravagância do ricaço.

Os exemplos abaixo foram todos publicados meses após a mudança de nome.

 

 

O Globo, em português

 

 

Der Westen, em alemão

 

 

The New York Times, em inglês

 

 

Ubisoft, em italiano

 

 

Le Journal de Montréal, em francês

 

Os convidados de Milei

by Luis Grañena, caricaturista espanhol

José Horta Manzano

Os sul-americanos
Os líderes mundiais presentes à tomada de posse do novo presidente argentino fazem parte da nata da ultradireita internacional. Como é natural e esperado, compareceram os chefes de Estado dos países próximos, tais como os presidentes do Chile, do Uruguai, do Paraguai e mais alguns. O rei da Espanha é outro que nunca deixa de prestigiar trocas de governo nas ex-colônias.

Os extremistas
Já os demais são personagens da extrema-direita. Começa com nosso conhecido Bolsonaro, figurinha caricata que conhecemos bem. O estranho presidente de El Salvador, aquele que uma vez mandou o exército invadir o parlamento de seu país, não deixou de comparecer. Viktor Orbán, o aprendiz de ditador da Hungria, também estava lá. É de se notar a presença de uma estrela ascendente do movimento europeu de extrema-direita: Santiago Abascal, líder do partido Vox e deputado no Congreso de los Diputados da Espanha.

O perigo das entrevistas
Já devo ter narrado episódios fora do comum criado por dirigentes políticos durante entrevista concedida no exterior. Com declarações fora de propósito, Lula já caiu nessa, Bolsonaro também, Macron idem, o Papa foi outro. Não sei o que acontece com essa gente quando está fora de casa. Parece que a língua se solta e acaba torcendo para o lado errado.

A vítima da vez foi señor Santiago Abascal, o ultradireitista espanhol. Em entrevista ao jornal argentino Clarín, afirmou que os espanhóis estavam fartos do primeiro-ministro, Pedro Sánchez (socialista). Acrescentou que vai chegar o momento em que “o povo vai querer pendurá-lo pelos pés”.

A maldosa alusão ao destino terrível do líder fascista italiano Mussolini, que, já morto, foi pendurado pelos pés e de cabeça pra baixo num posto de gasolina de Milão, calou fundo na mídia espanhola. A violência verbal naquele país ainda não atingiu esse nível. A frase do deputado foi condenada por toda a classe política espanhola. Ficou patente a violência de todos os extremistas.

Lula e a Instrução Pública

José Horta Manzano

Faz poucos dias, Lula foi o participante de honra da cerimônia de credenciamento do Impa (Instituto de Matemática Pura e Aplicada). Na ocasião, o instituto foi promovido a “instituição de ensino superior” – como se fosse indispensável organizar esse tipo de cerimônia para elevar o Impa ao patamar em que qualquer faculdade de beira de estrada está. Só o nome do instituto já informa que, em matéria de estudo, lá não se brinca.

Luiz Inácio, que deve ter ouvido falar do papelão que o Brasil continua a fazer na classificação Pisa (e que se repete a cada ano), resolveu ralhar. (Não sei se esse verbo ainda é conhecido ou se já foi para o arquivo morto.) Ralhar é sinônimo de “passar um pito”, embora com sentido mais intenso. Dizer que “o professor ralhou comigo” significava contar que o mestre tinha me dado “um esculacho” (expressão que, acredito, esteja ainda em uso).

Luiz Inácio, portanto, resolveu dar um esculacho. Não na Matemática, que não ia ficar bem. Preferiu desancar os cursos de Direito assim como os formados nesses cursos. Apoiado em estatísticas (o que mostra que a fala não foi de improviso, mas estava já programada), colocou o Brasil entre os países que mais formam advogados. Disse que nem juntando todos os advogados da China e da Índia, países de volumosa população, se chega ao número de advogados brasileiros.

Parece inadequado um presidente falar mal de um ramo de estudos diante de uma plateia composta por gente de outro ramo. Não é pecado o que ele fez, mas ficou esquisito. Tem até gente achando que nosso presidente é fofoqueiro. Não é minha opinião.

Talvez para suavizar a relhada, Lula acrescentou: “Nada contra formar advogados. Mas é preciso que a gente forme mais em matemática, engenharia, física”. Mais adiante, com a voz trêmula e uma lágrima querendo apontar no canto do olho, Luiz Inácio não resistiu à tentação do autoelogio e lembrou ao distinto público que foi durante seus mandatos que o Brasil “construiu o maior número de universidades da História”.

Eu disse “autoelogio”? Deveria ter acrescentado “o que Lula acha que é autoelogio”. Luiz Inácio, que sofre de um (pequeno) complexo de sem-diploma, não costuma perder ocasião para ressaltar que saiu do nada e, sem ter feito estudos formais, chegou à Presidência – o que lhe parece motivo de orgulho. Talvez para compensar essa falta de estudo, Lula se empenhou, sobretudo no primeiro e no segundo mandatos, na criação de faculdades de ensino.

Faculdade pública, por oferecer ensino gratuito, atrai muitos alunos. Os cursos de Direito, que têm fama de serem menos puxados que os demais, atraem mais gente ainda. Dado que não existe um controle nacional do tipo “numerus clausus”, para limitar o acesso a carreiras já superconcorridas, as escolas de Direito formam, sim, muitos bacharéis. Como prova de que a maioria não alcança o nível de conhecimentos que se espera de um futuro advogado, sabe-se que nove entre dez formados são reprovados no exame da Ordem.

Há advogados demais no país? Não sei, é possível. Se já há quem reclame agora, fico a imaginar como seria o quadro sem o exame da Ordem. Sem exame, o número de profissionais seria multiplicado por dez.

Lula está terminando seu nono ano como presidente do Brasil. Nove anos é muita coisa. De 1889 pra cá, só o ditador Vargas conseguiu ficar tanto tempo assim no topo. Com essa bagagem toda, é surpreendente que Luiz Inácio não tenha entendido que o problema maior da Instrução Pública no Brasil não se encontra no ensino superior.

O nó que impede os brasileirinhos de avançar é o baixo nível da escolaridade obrigatória. Podem-se abrir dúzias e dúzias de institutos de Matemática que não vai adiantar. Enquanto o estudo Pisa continuar jogando na nossa cara que, em Matemática, nosso país foi classificado em 59° lugar entre 73 pesquisados, raros serão os jovens a desenvolver gosto por essa ciência.

É verdade que, ao se autoagradar lembrando que foi o presidente que mais criou faculdades no Brasil, Lula tem certeza de que a História lhe reservará um lugar especial.

E a avaliação Pisa, Lula? Pfff, isso não conta! É coisa de países ricos que tentam nos rebaixar e humilhar! Vamos continuar abrindo faculdades!

Lula na Cúpula do Mercosul

José Horta Manzano

Lula acolheu os chefes de Estado dos países integrantes do Mercosul para um encontro no Rio de Janeiro. Foi no dia 7 de dezembro. Gostaria de saber quem teve a luminosa ideia de marcar o convescote para essa data.

É de conhecimento público que o novo presidente da Argentina, escolhido mês passado pelas urnas de seu país, tomará posse do cargo no dia 10 de dezembro. No regime presidencial das repúblicas sul-americanas, o chefe do Executivo tem forte influência sobre políticas públicas, particularmente sobre a política externa. Por que, diabos, a cúpula foi marcada para 3 dias antes da posse do novo presidente dos hermanos?

Pode ter sido por distração. Ninguém se deu conta de que, três dias depois, a Argentina teria novo presidente. Será?

Pode ter sido uma homenagem ao presidente que deixa o cargo, como a festinha que se faz para o colega de trabalho que se aposenta. Será?

Pode ter sido para evitar acolher, sob o mesmo teto e junto com os outros dirigentes mersossulinos, señor Javier Milei, novo presidente argentino, que já declarou que retiraria seu país do Mercosul. Será?

Tenho tendência a acreditar na terceira possibilidade. Lula, o anfitrião, deve fechado as portas a seu novo colega, o autodeclarado “anarcocapitalista”. Lula deve ter raciocinado: “Ah, está desdenhando de nós? Pois então vá ficando fora desde já!”.

É atitude infantil, de criança mimada que fecha a porta ao coleguinha bagunceiro. Tivesse 7 anos de idade, Luiz Inácio estaria desculpado. Mas ele tem mais que isso. Já perto dos 80, Lula não só está distante da infância, como também é chefe de Estado de um país grande. Nessa situação, não se fica de mal dando o dedinho.

No dia seguinte à eleição, Milei já abriu o jogo: grande parte do que havia declarado em campanha era pra ser esquecido. Declaração de palanque não se escreve, que não é pra valer. E Lula sabe bem disso.

Costuma-se falar em “lobo em pele de cordeiro”. Pois o figurino de Milei parece corresponder mais ao de um “cordeiro em pele de lobo”. Eleito, desvencilhou-se da fantasia de lobo que o atrapalha e tenta agora mostrar que, lá no fundo, dorme um cordeirinho de cartão de Natal.

Lula recebeu convite pessoal e especial para a posse. Milei mandou ainda sua futura ministra de Relações Exteriores visitar Lula em Brasília enfatizar o convite. Luiz Inácio preferiu não ir. É escolha sua.

Mas seria de bom alvitre pelo menos ouvir o que o argentino tem a dizer. Será que mudou mesmo? Será que continua firme na intenção de bombardear o Mercosul? Se voltar as costas aos vizinhos, vai comerciar com quem? Na igreja, o padre costuma escutar a confissão do fiel antes de condená-lo ou dar-lhe absolvição. Lula bobeou feio ao não marcar a cúpula para depois da posse.

Pra piorar, Lula aproveitou a cúpula para confessar estar pessoalmente triste com o fim do mandato do presidente argentino que se vai. A frase que dirigiu a Fernández, “Acho que você merecia melhor sorte. A economia poderia ter melhor sorte”, foi óbvia flechada endereçada ao novo presidente.

Em política externa, Lula tem seus rasgos de Bolsonaro. Tanto um como o outro acreditam que amizade e sintonia pessoal entre dirigentes contam mais do que os interesses próprios dos países. Não é assim que funciona na vida real. Sintonia pessoal ajuda, sem dúvida, mas não é essencial. O interesse nacional nem sempre coincide com a amizade entre os presidentes.

A esse propósito, veja-se o caso atualíssimo dos arroubos de Maduro contra a vizinha Guiana. Apesar da “amizade fraterna” que une Lula e Maduro, os interesses nacionais brasileiros divergem totalmente das intenções belicosas do dirigente venezuelano. Apesar da simpatia que os une, Lula deverá (ou deveria?) dar um basta na brincadeira perigosa do compañero bolivariano.

Quer Lula queira, quer não, Brasil e Argentina são maiores do que Lula e Milei. Governantes passarão, mas os países continuarão vizinhos de parede até que, talvez um dia, as placas tectônicas resolvam nos separar. Daqui até lá, periga levar alguns milhões de anos.

Milei quer que toda propriedade seja privada

Ricardo Araújo Pereira (*)

Tem sido dito que o presidente eleito da Argentina preza a liberdade, o que talvez não seja exato. Na verdade, Javier Milei nunca diz “viva la libertad”, mas “viva la libertad, carajo”.

Ora, uma coisa é a liberdade. Outra é a “liberdade, ‘carajo'”. São conceitos bem diferentes.

O “carajo” costuma transformar as coisas, torná-las mais brutas. Para perceber isso, basta fazer a experiência de dizer à nossa querida mãe “não vou querer sobremesa” ou “não vou querer sobremesa, ‘carajo'” e ver o que acontece a seguir à mesa.

Em uma entrevista concedida no ano passado, Milei afirmou que um governo seu legalizaria a venda de órgãos humanos. Ele parece já ter vendido um dos seus. Aquele que habitualmente fica no crânio.

É que Milei alega conversar com o seu cão morto, através de um médium, pelo que talvez haja boas razões para desconfiar que tenha transacionado o órgão em questão.

Mas, lá está, legalizar a venda de órgãos é uma ocorrência de “liberdade, ‘carajo'”. Parece uma lei igual para todos, mas não é. Quem tem dinheiro nunca irá vender os seus órgãos. Poderá adquirir alguns, caso necessite, e agora saberá a quem comprá-los, mas não vai querer vendê-los.

Ao que parece, além de manter conversas com o seu cachorro morto, Milei também fala diretamente com Deus. Foi, aliás, o próprio criador que o incumbiu da importante missão de comandar a Argentina em direção à prosperidade.

Sendo Milei uma pessoa tão educada e ponderada, não é difícil supor que Nosso Senhor tenha tirado algum do tempo que dedica à administração do universo para pedir ao novo presidente que tomasse conta da Argentina. O programa de governo é o que Deus, ao que tudo indica, defende: a extinção dos ministérios de Saúde, Educação, Cultura, Ciência, Obras Públicas e Transportes e a privatização de todas as empresas estatais.

Haverá os hospitais e as escolas que o setor privado bem quiser, nos locais em que derem lucro, e a preços sem controle do Estado. Se forem necessárias estradas ou pontes ao país, caberá à iniciativa privada construí-las e mantê-las, desde que sirvam os interesses de alguns, e não de todos.

Milei quer que toda – mesmo toda – propriedade seja privada. Embora ele prefira viver despojado dos bens mais banais possíveis.

Por exemplo, um simples pente. É óbvio que Javier Milei não tem um à disposição.

(*) O português Ricardo Araújo Pereira é jornalista e escritor.

Rockefeller

Folha de SP, 5 dez° 2023

José Horta Manzano

Não é Rockfeller. O nome correto é Rockefeller, com um e no meio da palavra. É nome de origem alemã, provavelmente um topônimo a indicar que o patriarca da estirpe era originário de um vilarejo chamado Rockenfeld, hoje desaparecido.

A família emigrou da Alemanha para os EUA em 1710. Um século mais tarde, nasceu John D. Rockefeller, que viria a se tornar o homem mais rico, não só dos EUA, mas do mundo moderno. Fez fortuna na exploração de petróleo. Foi um grande filantropo, fundador de três universidades, entre elas a de Chicago.

Medo de vaia

Folha de SP, 5 dez° 2023

 

José Horta Manzano

É incrível ver como, passados dezesseis anos daquele fatídico 13 de julho de 2007, o Lula ainda empalidece a cada ocasião em que sente o risco de levar vaia.

Pra quem não se lembra, era a cerimônia de abertura dos Jogos Pan-Americanos, espetáculo que só se realiza de quatro em quatro anos. Era a vez do Brasil, e a cerimônia tinha lugar no Maracanã.

Lula, então presidente da República, estava sentadinho ao lado da esposa, antegozando a ovação que havia de receber daquelas dezenas de milhares de populares.

Estava previsto que Luiz Inácio fizesse um breve discurso e declarasse abertos os Jogos. Assim que seu nome foi pronunciado e que ele foi chamado ao palco, em vez de ovação, o que se ouviu foi uma longa, terrível e acabrunhante vaia. O estádio inteiro – ou quase – desabou naquele interminável apupo.

Assustado, Lula desistiu do discurso. Foi o presidente do COB quem fez o discurso de abertura. Apesar dos anos que escorreram de lá pra cá, Luiz Inácio fez fixação no apuro por que passou aquele dia – e que jurou nunca repetir.

Javier Milei, que havia ofendido Lula durante a campanha, deu-se conta de que, eleito, tinha de descer do palanque e se comportar como presidente.

Mandou convite a Lula para assistir à posse, numa simbólica oferta de cachimbo da paz. Para reforçar, mandou a Brasília sua futura chanceler visitar nosso presidente. Durante semanas, Lula hesitou. E parece que agora bateu o martelo: não fará a viagem até Buenos Aires. Vai mandar nosso ministro de Relações Exteriores representá-lo na cerimônia.

Não é por receio de ser mal acolhido. Tampouco é por receio de lá se encontrar com Bolsonaro. O pavor, na verdade, é de receber uma sonora vaia em algum ponto do caminho: aeroporto, saída do hotel, entrada nos palácios portenhos. As ocasiões de risco são inúmeras. Melhor não ir.

É pena que, além de ter medo de vaia, ele também não tenha pavor de falar besteira. Se sentisse medo de passar ridículo quando fala de improviso, calaria a boca mais frequentemente e nossa política externa estaria em melhor estado.