O homem da continência

John Bolton

José Horta Manzano

Na manhã do dia 29 de novembro de 2018, já eleito mas ainda não empossado, Bolsonaro recebeu em sua casa do Rio de Janeiro um emissário do então presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. O visitante era um senhor de cabelo e bigode brancos chamado John Bolton, assessor de Segurança Nacional nomeado por Trump.

Assim que Mr. Bolton apontou no portão do jardim, um entusiasmado capitão, empertigado na soleira da porta de casa, bateu continência ao visitante(!), aquela saudação que um militar deve obrigatoriamente fazer diante de outro militar de grau mais elevado que o seu.

O primeiro a se surpreender com o gesto deve ter sido o próprio americano, desacostumado a ver as regras militares tratadas com leviandade, mas a mídia brasileira tampouco deixou passar em branco. Os comentários foram de espanto com a atitude do novo presidente do Brasil que, assim, deixou clara sua postura de curvar-se diante dos EUA, representados ali pelo emissário. Pegou supermal.

Nem o suco de caixinha e o pão com leite condensado servidos naquele petit-déjeûner em honra ao hóspede tresnoitado foram capazes de atenuar a sombra de mal-estar que pairava no ambiente. Mr. Bolton entregou a Bolsonaro o convite que Donald Trump lhe fazia para visitar os Estados Unidos.

Os anos passaram, Trump perdeu a reeleição, Bolsonaro terminou seu governo calamitoso e também perdeu a reeleição. Agora, depois de quatro anos atravessando o deserto, Donald Trump conseguiu ser de novo eleito para a presidência. Nas 24 horas que se seguiram à tomada de posse, despejou um balde de decretos carregados de ressentimento, raiva, perseguições, intolerância. Desfez medidas que seu antecessor havia implementado. Atirou a torto e a direito.

Um dos projéteis atingiu John Bolton, seu antigo assessor de Segurança Nacional, aquele que havia sido homenageado com a continência de Bolsonaro. O homem aparentemente caiu em desgraça, não se sabe exatamente por que razão.

O que se sabe é o seguinte. Em 2021, o presidente Joe Biden tinha concedido a Mr. Bolton proteção permanente do Serviço Secreto em razão de ameaças de morte proferidas pela Guarda Revolucionária Islâmica do Irã. Pois ao voltar à presidência esta semana, Trump revogou a proteção policial permanente dada a Mr. Bolton. Supõe-se que tenha feito isso por capricho, só para desfazer o que Biden tinha feito. Veja em que mãos está o governo dos EUA!

Bem, Bolsonaro que se cuide. Assim como ele mesmo faz com seu costume de abandonar amigos e correligionários feridos pelo caminho, Trump leva jeito de fazer igual.

Trump aprecia ganhadores, vencedores, os que ele chama de “winners”. Um Bolsonaro no Planalto podia até interessar Trump, mas um Bolsonaro na rua da amargura, cheio de processos e ameaçado de cadeia, periga ser atirado ao mar para alegria de tubarões e camarões.

E o barco segue.

Internacional reacionária

Viktor Orbán, Giorgia Meloni, Donald Trump, Marine Le Pen, Elon Musk

José Horta Manzano

Duas semanas atrás, num discurso proferido na Conferência dos Embaixadores em Paris, o presidente Macron se referiu a Elon Musk como o homem que “dá apoio a uma nova Internacional Reacionária. Nessa comparação, ele se referiu a duas organizações que realmente existiram: a Internacional Comunista (que viveu de 1919 a 1943) e a Internacional Socialista (fundada em 1951 e que ainda sobrevive).

Essas duas organizações buscavam favorecer a implantação do comunismo (respectivamente, do socialismo) em todos os países. Como sabemos hoje, o objetivo de nenhuma das duas foi alcançado, embora ainda haja muita gente assustada com o “perigo do socialismo”. O próprio capitão, quando conduzia(!) o Brasil, declarou na ONU que tinha livrado nosso país do perigo do socialismo.

Hoje Donald Trump toma posse do cargo que havia perdido quatro anos antes. Volta a ser presidente dos Estados Unidos por um mandato único e não renovável de quatro anos. A tradição americana não inclui convidar políticos estrangeiros para assistir às cerimônias. Assim mesmo, expoentes da extrema direita internacional fizeram questão de anunciar, com antecedência, sua presença.

Assim, os regozijos pela assunção de Trump contarão com o prestígio de três chefes de Estado ou de governo em exercício: Giorgia Meloni (primeira-ministra da Itália), Viktor Orbán (primeiro-ministro da Hungria) e nosso vizinho Javier Milei, presidente da Argentina.

Mas não é só. Eric Zemmour, ex-candidato à presidência francesa já confirmou presença. As francesas Sarah Knafo e Marion Maréchal, ambas deputadas europeias, também vão. Todos os três são conhecidos por suas posições de direita extrema, anti-imigração, isolacionistas, antimuçulmanos.

Há mais figuras peculiares. O espanhol Santiago Abascal, do partido extremista Vox, estará presente. É aquele que gostaria de enforcar os independentistas da Catalunha por crime de traição. Um espírito suave e tolerante, como se vê.

Outro que fez questão de marcar presença é o britânico Nigel Farage, um dos líderes do movimento isolacionista que culminou no (hoje pranteado) Brexit.

Um alto dignitário do partido Alternative für Deutschland estará, naturalmente, entre os políticos europeus presentes. Afinal, Elon Musk declarou que seu partido extremista, o AfD, era o único capaz de “salvar a Alemanha”. Parece mentira, mas é verdade. Faz poucos dias que isso aconteceu.

Não se sabe bem por que razão, a francesa Marine Le Pen estará ausente. Uns dizem que ela não foi convidada. Outros creem que ela procura se resguardar com vistas às próximas eleições presidenciais. Não quer perder pontos aparecendo em má companhia.

Tem um que anda choramingando pelos cantos. Fez besteira grossa e está de castigo sem poder viajar. Ah, e ele gostaria taaaanto de estar naquele clube acolhedor, no meio de tanta gente fina, todos se ajoelhando diante de um mesmo senhor. Perder uma festa dessas é punição pior que uns dias na cadeia. Ah, como Jair Bolsonaro deve estar se sentindo mal. Excluído de uma reunião da Internacional Reacionária! Ai, como dói.

Raiva do Xandão que não deu licença. Saudades do Trump e dos bons tempos de recepção em Mar-a-Lago. Medo de ser superado por Milei no coração de Trump. Tristeza de não poder se encontrar pessoalmente com Orbán para cobrar a verdadeira razão pela qual a embaixada da Hungria em Brasília não lhe concedeu asilo.

Tem nada não, fica pra outra vez. Mas… será que haverá outra vez?

Fique esperto!

José Horta Manzano

Este escriba é do tempo em que produtos alimentícios não eram etiquetados com data de validade. Nenhum artigo tinha data, nem mesmo garrafas de leite fresco. E como é que se fazia pra sobreviver sem se envenenar neste mundo tão cheio de perigos?

Pra começar, o mundo era menos perigoso, pelo menos é a lembrança que guardo. Por seu lado, visto que nunca ninguém tinha ouvido falar de etiqueta de validade, estávamos todos preparados pra resolver esse tipo de problema com nossos próprios meios.

Peixe no mercado ou na feira? Um rápido exame do olho do bicho nos indicava se era fresco ou se já começava a passar. Frutas e legumes? Um exame visual também era suficiente. Congelados? Não havia. De todo modo, ninguém tinha congelador. Leite, manteiga, queijo? Quem detectava o estado do artigo era o nariz do freguês. Uma cheirada bastava para dar o veredicto. Em vez de etiqueta com data, tínhamos o conhecimento familiar, transmitido de mãe para filha (e de pai para filho também).

Desde que a data de vencimento passou a ser indicada nos produtos, esses reflexos antigos começaram a se perder. Hoje a gente vai buscar os óculos, torce o pescoço e vira a embalagem de todos os lados até encontrar a data. A ninguém mais ocorre recorrer aos métodos antigos. Talvez o conhecimento milenar legado de geração em geração desde o tempo das cavernas, esteja se perdendo, atropelado pela comodidade da etiqueta de validade, que nada mais é que um nariz alheio cheirando nossa comida.


O planeta anda desacorçoado porque aquele bilionário cujo nome lembra um pão de açúcar, dono de Facebook e Instagram, decidiu abolir, ou pelo menos afrouxar, a restrição de notícias falsas que circularem por suas redes. Muita tinta tem sido gasta em comentários e catastróficas previsões sobre o futuro das redes. Sobreviverão, perguntam-se muitos, ou a rede vai virar uma cacofonia dos diabos, um imenso mercado persa em que todos gritam e ninguém se entende?

Olhe, com ou sem controle de “fake news”, eu diria que o ambiente já é caótico, um universo onde a gritaria é tanta que acaba impedindo a circulação da boa informação.

Muitos dos que estão há tempos mergulhados nesse universo sobreviveram até hoje e já provaram ser capazes de viver na tormenta, com mar revolto e ondas gigantescas. Para esses, a eliminação da censura prévia não fará quente nem frio. De toda maneira, sabiam se virar sozinhos.

Para os que se sentirem perdidos, meu conselho é adotarem o sistema da vovó. Não é complicado, é mais ou menos como expliquei nos primeiros parágrafos. Já que vão eliminar todas as etiquetas de validade, o que nos resta é sopesar cada pedaço de informação e só então aceitar ou rejeitar. É bom se desacostumar a engolir como verdade absoluta tudo o que vem escrito.

O novo esquema nos tira uma comodidade (o material não vem mais depurado de vícios e inverdades) porém nos abre largas possibilidades de desenvolver nosso espírito crítico. Agora podemos julgar por nós mesmos, situação que faz bem ao espírito.

No começo, não vai ser fácil. Uma vez passado o tempo de aprendizado, vai ficando mais fácil distinguir o verdadeiro do falso. No fundo, se os frequentadores das redes aproveitarem a oportunidade para aprender a mastigar a própria comida, o clima de liberou geral das redes terá sido uma dádiva.

Obrigado, Mr. Musk, Mr. Pão de Açúcar e quem mais vier!

Os rebeldes que derrubaram o ditador sanguinário

Síria – estradas de rodagem

José Horta Manzano

Uma boa metade da Síria é desértica, sem plantação, sem mato, quase sem gente. A rede ferroviária é limitada e não permite a circulação de pessoas e mercadorias por todos os rincões. Resta a malha rodoviária, cuja coluna vertebral é um eixo de 500 km, que atravessa todo o país na direção Norte-Sul e interliga as maiores cidades.

Esse eixo principal é constituído de excelentes autoestradas – com duas pistas mais acostamento em cada sentido, separados por um canteiro central. Foi essa estrada que permitiu aos rebeldes libertar, em apenas 12 dias, uma cidade atrás da outra, até chegarem a Damasco, a capital, no sul do país.

Sabe-se que a Rússia mantém bases militares no país incluindo uma base naval, a única que os russos têm no Mediterrâneo, e que lhes permite evitar os estreitos turcos. Sabe-se que a Rússia tem sido forte aliada do extinto regime do clã Al-Assad – aliás, o ditador só se segurou no poder até a semana passada em decorrência do apoio militar russo.

Aí vem o espanto. Como é possível que um grupo de rebeldes armados de simples metralhadoras tenha conseguido a façanha de passar 12 dias viajando de autoestrada aproveitando para libertar todas as grandes cidades do caminho, sem ser jamais incomodado pelo exército russo? Está aí um mistério que talvez um dia venha a ser esclarecido.

Vejo duas hipóteses. A primeira é que tenha havido um acerto prévio, combinado entre russos e rebeldes. (É sempre bom combinar com os russos.) Mas a hipótese me parece pouco plausível, visto que os rebeldes não estavam em condições de garantir aos russos a continuidade da autorização de funcionamento das bases militares. Os russos não abandonariam assim, tão facilmente, as bases instaladas na Síria.

Há uma segunda hipótese, que é a mais provável. A facilidade com que os rebeldes percorreram os 500 km de estrada em menos de 2 semanas, libertando cidades, vilas e vilarejos pelo caminho, só foi possível pelo fato de a Rússia estar impossibilitada de defender a ditadura do aliado Assad. Acompanharam os acontecimentos de braços atados, horrorizados mas impotentes. E por quê?

É que o intenso esforço militar que têm feito na guerra que estourou após terem invadido a Ucrânia os deixou mais diminuídos do que se imaginava. Tropas, aviões, tanques e munições que estavam estacionados na Síria já faz tempo que foram levados à Ucrânia. A atual presença russa na Síria é virtual, baseada numa imagem e não na realidade do terreno.

Com um único avião, a Rússia poderia ter bombardeado a autoestrada à frente dos rebeldes, derrubando duas ou três pontes ou viadutos. Isso teria parado a ofensiva, o ditador continuaria no trono e os russos permaneceriam no comando do país. É permitido supor que não tenham tido à mão esse simples avião bombardeiro.

A conclusão é que o temido exército russo está em condições piores do que se imaginava. Isso é ótima notícia para os ucranianos, num momento em que se aproximam as negociações de paz.

Carrefour

José Horta Manzano

Não é de hoje que as grandes redes de varejo europeias dão sinais de descontentamento com o acelerado desmatamento da Amazônia. O problema está ‘dans l’air du temps’ (em sintonia com a atualidade). Na França, país em que qualquer pequeno acontecimento tem potencial de gerar grande polêmica, esse problema do rápido encolhimento da mata tropical é ressentido com maior intensidade.

Nestes dias em que o tratado entre o Mercosul e a União Europeia parece que vai desencantar – depois de mais de 20 anos! – os agricultores franceses começam a sentir-se ameaçados. O medo deles é difuso, um tanto irracional. Está mais pra temor do desconhecido do que receio de uma ameaça real.

Nenhum deles se preocupou em ler o texto do tratado. O que planta hortaliças tem medo de ver o mercado inundado por salsinha e rabanetes uruguaios a preço de banana. O que colhe abricô está apavorado de perder mercado para os abricôs argentinos. O que está criando uma dúzia de galinhas e três porcos tem pesadelos à noite só de pensar na invasão de carne brasileira a preços de liquidação.

Não fica bem montar no trator e fazer carreatas de protesto, trancando as estradas do país, para reclamar de rabanetes e salsinha. Já a carne é excelente motivo. Inventou-se, não sei por que motivo, a balela de que a carne brasileira é produzida segundo normas de qualidade inferiores às normas francesas, e que os bois são engordados à base de hormônios. O mundo agrícola se agarrou a essa notícia falsa.

Faz semanas que o mundo agrícola francês está em ebulição. Não se passa um dia sem alguma manifestação em algum lugar. Monsieur Alexandre Bompard, diretor-geral do grupo Carrefour, farejou excelente ocasião para ficar bem-visto pelos agricultores e para, ao mesmo tempo, promover sua empresa. Mandou carta aos sindicatos agrícolas e repicou nas redes seu compromisso de não vender carne da América do Sul em seus supermercados.

O problema é que o Monsieur não mediu as consequências de sua promessa. Não lhe passou pela cabeça que sua filial brasileira é responsável por quase 25% das vendas do grupo e que a carta enviada aos sindicatos franceses podia vazar e até ecoar no Brasil. Pois vazou e ecoou.

No Brasil, o clamor popular – justificado – foi tal que o CEO logo percebeu a catástrofe que tinha causado. Mais que rápido, curvou-se e mandou uma carta de desculpas a nosso ministro da Agricultura. Na missiva, pede desculpas, elogia a carne brasileira, reconhece que as normas de produção são de Primeiro Mundo, mas não desmente a afirmação que havia feito, de que suas lojas francesas não vão mais vender carne brasileira. Portanto, ficou parecendo pedido de desculpas de mentirinha, só pra enganar ministro.

Outra coisa que Monsieur Bompard não disse é se sua empresa pretende continuar a importar costeletas de carneiro da Nova Zelândia, produzidas não se sabe como, mas que chegam às gôndolas francesas baratinhas, baratinhas.

Vitória da diplomacia brasileira

José Horta Manzano

Leio no jornal de hoje que a cúpula do G20 foi uma “vitória da diplomacia brasileira”. Tenho minhas reservas. Podiam dizer, com mais propriedade, que foi uma vitória da organização do evento, que:

não sofreu nenhum tropeço;

policiou por terra, mar e ar, abatendo drones intrusos;

preocupada com possíveis dificuldades masticatórias ligadas à idade avançada de alguns chefes de Estado, mandou servir-lhes pirarucu (que é peixe) e carne desfiada (que é molinha);

geriu com maestria o alojamento dos milhares de participantes, não deixando nenhum deles ao relento nas areias de Copacabana;

tocou com profissionalismo a complicada tradução multilíngue e simultânea das falas e dos discursos pronunciados em todas as línguas de Babel;

conseguiu convencer os cariocas a esvaziarem ruas e avenidas, sem fazer cara feia, para ceder passagem a alguns dos grandes deste mundo;

coordenar a presença de nossos graúdos com os graúdos de fora que pousavam ou decolavam do Galeão e requeriam uma acolhida à altura da ocasião. Há participantes que vieram de muito longe: alguns estão desde ontem voando de volta a seu país, onde só pousarão nesta quarta-feira à noitinha, hora de Brasília.

Entre outros, que me escapam neste momento, foram esses os pequenos ou grandes detalhes que compuseram a feira de vaidades que o Rio acolheu.

Quanto ao brado ufanista de “vitória da diplomacia brasileira”, acho-o exagerado. Quando o evento se abriu, já fazia dias que assessores e colaboradores tresnoitavam na confecção de um “comunicado final” que agradasse a todos os participantes ou, pelo menos, que não desagradasse frontalmente a nenhum deles.

É obra quase impossível. Em tese, há tantas posições quantos são os participantes. Todas divergentes entre si. Nessas horas, a solução é limar asperezas, aplainar desacordos, arredondar cantos, até que o texto se torne aceitável por todos. O resultado dessa busca de um denominador comum são comunicados finais insossos, pasteurizados, que não comprometem ninguém, que excluem dissensos e pontos de atrito.

Não se falou dos massacres provocados pela invasão da Ucrânia pela Rússia, não se deu importância aos massacres entre árabes e judeus. Sobraram vagas promessas de trabalhar pela erradicação da fome no planeta, arroz com feijão que ressurge a cada cúpula, seja ela qual for.

É o caso de se perguntar para quê servem essas cúpulas. Não tenho resposta exata e cravada, mas eu diria que, no mundo internetizado em que vivemos, não têm mais grande utilidade. Tudo o que se pode discutir em torno daquela imensa mesa, redonda ou em ferradura, pode ser debatido, com vantagem, numa videoconferência. Que, aliás, sai imensamente mais barata.

Nos anos 1970 e 1980, as reuniões do G7 (que já foi G5, G6, G8) eram um acontecimento. Numa era pré-internet, conferências presenciais eram indispensáveis. Naqueles anos, talvez, alguma decisão importante tenha sido tomada na ocasião desses encontros.

Hoje não é mais assim. Há grupos demais, conferências demais, reuniões demais. O que é demais cansa. Cada novo evento desse tipo suga a importância do anterior. Saibam meus caros leitores que, na Europa, não ouvi nem li uma linha sobre esse G20. Nada. Ninguém aqui ficou sabendo da extraordinária “vitória da diplomacia brasileira”.

Quando dois se reúnem, temos discussão séria e pra valer. É um pingue-pongue radical e frutuoso: se houver vontade de entrar num acordo, uma meta comum vai aparecer. Reunião de três participantes pode até funcionar, embora já não seja a mesma coisa. Mais que isso, complica.

Por outro ângulo, quando há uma certa uniformidade entre países participantes (PIB per capita, níveis de pobreza, avanço tecnológico razoavelmente compatíveis), as discussões tendem a ser menos ásperas e mais produtivas.

O chamado G20 é composto por países de grande disparidade de população, nível econômico, sistema de governo. Há democracias e autocracias medievais como Arábia Saudita e Rússia. Há países leigos e outros que se encaminham para tornar-se uma teocracia como Turquia e EUA. Há fortes diferenças em matéria de PIB (o da China é 37 vezes maior que o da África do Sul).

Nenhuma declaração de guerra jamais sairá dessas cimeiras. Nem tratados de paz, que necessitam seleção específica de participantes. Desse tipo de reunião, seja de G20, G7, Brics & congêneres, só podem sair esparadrapos – insuficientes para conter sangrias.

Mas já que divertem o povo e confortam o ego de organizadores e participantes, que se divirtam todos.

O palavreado de Milei

José Horta Manzano

Num aprendizado benfeito, o aprendiz que se aplica de verdade chega, às vezes, a superar o mestre.

Tome por exemplo Donald Trump, presidente eleito dos EUA. Seu palavreado tem feito sucesso entre os que apreciam um governo autoritário. O personagem é mentiroso contumaz, dono de um discurso recheado de lorotas. Um dia, falando em público na época do covid, revelou que tinha o hábito diário de tomar creolina(*) como preventivo contra a doença. Pois sim… (como se dizia antigamente para demonstrar que não dava pra acreditar).

Tremendas mentiras, sim. Apesar delas, Trump não é conhecido por fazer discursos recheados de insultos e palavrões. Pode ser que escape alguma coisinha aqui ou ali, mas não é a tônica.

Nosso Jair Bolsonaro nacional, admirador declarado de Trump, tentou adotar o estilo oratório do ídolo. Só que seu baú de expressões é pobre e sua mente, pouco criativa. Em decorrência, decerto por falta de palavras, não conseguiu elevar o nível de suas invectivas. Seus quatro anos na Presidência escorreram sem que ele fosse além de palavrões rasteiros, daqueles de boteco de beira de estrada. Foi incapaz de estruturar um raciocínio sequer.

Virada a página de Bolsonaro, novo aprendiz apareceu na Argentina. Chama-se Javier Milei. Mais jovem, mais vigoroso e mais instruído que o capitão, conseguiu juntar, em seus discursos, a agressividade de Trump e a vulgaridade de Bolsonaro. Mas não se contentou de apenas continuar vivendo de carona, aboletado no calhambeque dos tutores. Com sua motosserra, alargou a picada a fim de poder trafegar com seu caudal de impropérios.

Assustados com seu palavreado, catedráticos da própria universidade em que Milei se formou vêm publicando artigos no site da instituição, textos que acabam repercutindo na mídia argentina. Karina Galperín, diretora-geral de estudos da universidade, declarou que a luta selvagem de Milei pela desregulamentação atingiu seu discurso político. O jornal La Nación analisou um discurso pronunciado pelo presidente no mês passado e descobriu que, em 70 minutos de fala, o discursante cometeu nada menos que 29 agressões.

Aqui estão alguns dos insultos, cuja variedade deixa Trump e Bolsonaro comendo poeira: casta podre, vendidos, kirchneristas, ratazanas, bando de delinquentes, ladrões, excremento humano(!), mentirosos, traidores, covardes, imbecis, ratos miseráveis, bunda suja, degenerados fiscais, esterco imundo(!).

Essa moda de se comportar há de corresponder a uma tendência mundial. Ainda outro dia, a cidade de São Paulo passou pertinho de mandar para o segundo turno um forasteiro aventureiro que parecia ter incorporado o espírito do presidente argentino. Desta vez, foi por pouco, mas ninguém garante que, da próxima, o resultado não seja diferente.

Os argentinos usam um verbo cujo significado, à primeira vista, nos escapa: putear. Em política, se usa para definir um palavreado chulo, rasteiro, recheado de palavrões. A imprensa informa que Milei sempre foi fã desse modo de se exprimir. Só que, enquanto era um personagem obscuro, o problema não era tão grave. Agora, que se tornou chefe do Estado, o eco chega mais longe.

Como se vê, parece que a puteada está se tornando o dialeto habitual dos novos dirigentes autoritários, uma política de comunicação eficiente e aceita pelos eleitores. Os discípulos de Trump estão se saindo melhor que o mestre.

(*) Não me lembro bem se Trump disse creolina, benzina ou querozene. Tanto faz, dá no mesmo: seja qual for o desinfetante, a mentira da afirmação é ululante.

Lembro a meus queridos leitores que “creolina” não tem nada a ver com as palavras hoje proibidas por habitarem no index verborum prohibitorum. Creolina não tem a ver com raça. É marca comercial de um antigo desinfectante e antisséptico feito à base de creosoto, daí o nome. Não sei se ainda é produzido.

Mais quatro aninhos

by Neil Davies, desenhista britânico

José Horta Manzano

Donald Trump vai assumir a Casa Branca a partir de janeiro próximo, isso é uma verdade que não há como mudar. O que, de bom ou de mau, tiver de acontecer durante seu mandato, acontecerá, gostemos ou não.

Contra fatos, não há argumentos. Escolhido por sólida maioria de seu povo, o magnata será presidente pelos próximos quatro anos, salvo se o céu lhe caísse sobre a cabeça, catástrofe que não aconteceu mais desde os tempos bíblicos.

Meu palpite – gratuito e sem compromisso – é que Trump 2 será menos impactante que Trump 1. Primeiro, todo o mundo já conhece a peça e espera dele o pior, portanto não há surpresa. Segundo, o bilionário não tem mais grande coisa a provar. Nasceu em berço de ouro, conseguiu multiplicar a fortuna que recebeu, tornou-se personalidade de projeção nacional devido a sua constante presença na televisão. Depois disso, contra todos os prognósticos, alcançou a Casa Branca, foi na segunda tentativa, ressuscitou e voltou surfando na crista da vontade popular. Pela segunda vez, vai se tornar o homem mais poderoso do planeta.

Que mais pode ele querer? Na idade em que está, o momento de glória máxima é este. Não vejo mais o que pode almejar. Creio que não fará como nossos desajeitados políticos que, depois de um cargo maior, se resignam a descer alguns degraus e aceitar um cargo menor. Ou alguém imagina um futuro Trump deputado?

Eu tinha lembrança de que, nos EUA, presidentes não podem exercer um terceiro mandato. Pra ter certeza, fui pesquisar e encontrei. A 22ª emenda à constituição americana, ratificada sete décadas atrás, é taxativa: ninguém poderá exercer a Presidência do país por mais de dois mandatos (consecutivos ou não).

Assim sendo, a não ser que Donald Trump decida iniciar uma carreira de ditador aos 78 anos de idade – e que obtenha o apoio necessário para tal empreendimento – daqui a quatro anos ele deixará a Presidência. É o consolo que nos resta.

Para nós, minha gente, duro mesmo foi aguentar os quatro anos do capitão. Trump, nóis tira de letra.

Observação
O glorioso ano de 1946 foi o único, até hoje, que deu aos Estados Unidos três presidentes da república: Bill Clinton, George Bush (júnior) e Donald Trump nasceram naquele mesmo ano. Este escriba também.

Pesadelo voltou

José Horta Manzano


Algumas considerações sobre Trump e sua nova eleição (que alguns chamam equivocadamente de “reeleição”)


Nem as preces, promessas, novenas, oferendas e despachos de meio mundo foram suficientes. Os americanos, os verdadeiros donos da bola, votaram como bem entenderam. E mais uma vez elegeram Donald Trump para a Casa Branca. Como é que pode? Para mim e para muitos, aquela mulher simpática, sorridente e diplomada transmite mais confiança que aquele velho pretensioso, grosseiro e ameaçador.

Acredito firmemente que as tradições daquele país – ligadas à força física, à violência, à lei do mais forte, à crença de que vence o que atira primeiro ou o que bate mais forte – falaram mais alto. Não é tão já que entregarão as rédeas do país a uma mulher. E, ainda por cima, de pele escura.

Muitos povos têm fixação em tempos gloriosos que ficaram no passado. Franceses e ingleses vivem a nostalgia da época das colônias, em que viviam num país rico e poderoso.

Em Portugal, esse sentimento é especialmente presente. Fala-se sempre, com certa saudade, do tempo em que o pequenino país tinha importância mundial por ter colônias ultramarinas. Muitos anos atrás. tive um colega de serviço português, que suspirou um dia, balançando a cabeça e, com ar acabrunhado, me confessou sua tristeza: “Ah, e perdemos o Brasil…”.

A partir de 1945 e pelas três décadas seguintes, os EUA viveram seu apogeu. Eram os maiores em todos os pontos: os mais poderosos, os mais ricos, os mais influentes. Todo o mundo respeitava aquele país e gostaria de viver lá. O cinema nos trazia imagens de uma civilização avançada.

Quando Trump insinua que vai fazer com que seu país volte a ser importante (Make America Great Again), está aludindo àquele período. Quem é que não gostaria, não digo de voltar ao passado, mas de reviver uma época dourada, de crescimento, sem desemprego, sem concorrência comercial à altura do país? Um período de dólar forte, que permitia à população viajar à Europa ou ao México com dinheiro farto no bolso.

Pois é esse argumento de dar água na boca que aflora no imaginário do americano comum quando Trump brande seu MAGA (Make America Great Again). Seria difícil perder a eleição.

Cantinho da Candinha
Será que é impressão minha? Pela foto do início deste artigo, parece que Donald Trump abandonou a perturbadora coloração laranja do cocuruto e permitiu a seus cabelos viver uma velhice normal?

Como meus cultos leitores sabem, dona Melania Trump é originária da Eslovênia, pequeno país de dois milhões de habitantes, resultado do despedaçamento da antiga Iugoslávia. Estive hoje dando uma vista d’olhos aos jornais de lá. Como se pode imaginar, estão exultantes com a perspectiva de voltar a ter, por quatro anos, uma conterrânea no posto de First Lady dos EUA.

Por um desses veículos, fiquei sabendo que Barrow Trump, aquele garoto meio desengonçado que aparecia nas fotos durante a primeira presidência do pai, está hoje com 18 anos. Cresceu, cresceu, passou mãe e pai, está com 2,06m. Um assombro! Além do inglês, fala esloveno fluentemente. Fora de casa, só inglês. Da porta pra dentro, só esloveno. Se o pai não estiver, naturalmente.

Você fala esloveno?

Unrwa

Unrwa – países doadores

José Horta Manzano

A resolução da ONU que repartiu o território palestino entre judeus e árabes criando o Estado de Israel (1948) foi o ponto de partida da desavença que dura até hoje na região. A questão é muito delicada e de difícil solução, por envolver dois povos que reivindicam o mesmo território.

No dia seguinte à criação de Israel, a ONU criou a Unrwa – Agência das Nações Unidas de Assistência aos Refugiados da Palestina no Oriente-Médio. Nestes 75 anos, essa agência vem garantindo assistência e proteção aos refugiados palestinos.

Estabelecidos em Gaza, em Israel (Cisjordânia ocupada), no Líbano, na Síria e na Jordânia, os postos da agência oferecem escolas, cuidados de saúde, ajuda alimentar, microfinanciamento, apoio legal à população desvalida, ou seja, a praticamente todos os árabes da região.

Com o pretexto de que haveria funcionários da Unrwa entre os terroristas do Hamas que atravessaram a fronteira e massacraram civis israelenses em outubro do ano passado, o parlamento de Israel acaba de aprovar o banimento da agência de todo o território do país.

Essa expulsão vale para a Cisjordânia (territórios ocupados) e para toda a Faixa de Gaza (ocupada de facto por Israel). Esses territórios abrigam justamente a população que mais carece de ajuda para sobreviver. Sem o amparo da Unrwa, o que significa sem remédios, sem escolas, sem alimentos, sem proteção contra agressões, há que temer pelo futuro desse povo infeliz.

A Unrwa se apoia numa grande organização de cerca de 27 mil funcionários. São financiados por dezenas de países ao redor do mundo; até o Brasil aparece entre os doadores (veja mapa que encabeça este artigo). No entanto, nem uma agência como esta, sustentada pelos EUA, pela China, pela Rússia, pela Índia e até pelo Brasil, poderá levar um prato de comida a quem tem fome naquele pedaço de mundo se Israel não deixar entrar.

Temos visto a ferocidade com que o exército israelense cuida da destruição de Gaza, prédio por prédio, quarteirão por quarteirão. Temos visto a desumanidade com que atacam escolas, hospitais e campos de civis refugiados. Temos visto a pontaria com que mandam pelos ares ambulâncias e civis que se locomovem em lombo de burro. Temos agora o banimento do único canal de ajuda de que dispunham os palestinos.

Fica um nó na garganta e uma insuportável impressão de estar assistindo a um meticuloso, planejado e organizado genocídio.

Nota
Uma das condições estabelecidas na Convenção de 1948 em que a ONU definiu o crime de genocídio é o item 3°:

“Submissão intencional do grupo [cujo extermínio esteja sendo executado] a condições de existência que lhe ocasionem a destruição física total ou parcial”.

É o caso.

Eutanásia

José Horta Manzano

O caso de Antônio Cícero, homem de letras e acadêmico que atravessou o Atlântico para um encontro com hora marcada com a morte, deixou amigos e conhecidos consternados quando tomaram conhecimento do caminho escolhido por ele.

Morte é matéria sempre desagradável. Quando vem acompanhada da expressão “com hora marcada” (hoje: agendada), choca ainda mais. Apanhada de surpresa, a mídia tratou de compor o obituário. Ao mesmo tempo, soltou manchetes com uma palavra inusitada: eutanásia.

Estamos todos habituados a ouvir falar em eutanasiar bicho, principalmente animais de estimação, mas… eutanasiar gente? Como é que funciona? Talvez eutanásia não seja a melhor opção para descrever o caso aqui tratado.

Do vago significado original de “boa morte”, o termo eutanásia especializou-se em descrever o caso de alguém, geralmente o médico, dar a morte ao paciente por motivo misericordioso, para abreviar-lhe a agonia. Trata-se de gesto que, por ser irreversível, definitivo e passível de questionamento, é rigorosamente enquadrado, nos países que o admitem oficialmente.

Na Europa, região do mundo em que gestos ligados à morte em ambiente clínico e hospitalar estão sendo discutidos há muito tempo, há consenso na classificação das diferentes formas de “eutanásia”, se assim podemos nos exprimir. Vamos à nomenclatura.

 


Eutanásia ativa
É o fato de pôr fim deliberadamente ao sofrimento de uma pessoa. Um médico ou um terceiro, por exemplo, injetará uma substância que causará diretamente a morte do paciente.

Em toda a Europa, somente cinco países (Bélgica, Países Baixos, Luxemburgo, Espanha e Portugal) autorizam a eutanásia humana ativa. É uma prática que tem de ser muito bem enquadrada, para evitar deslizes e desvios de função.


Eutanásia passiva ou indireta
Ocorre quando a equipe médica responsável pelo paciente decide não tomar medidas para prolongar a vida. A morte pode ocorrer por meio da administração de drogas analgésicas ou após a desconexão do respirador.

Uma dúzia de países europeus autorizam a eutanásia passiva, que tende a evitar tentativas obstinadas de manter o moribundo em vida, quando seu mal é incurável e seu estágio, terminal.


Suicídio assistido ou suicídio assistido por médico
Refere-se ao ato de tirar a própria vida com a ajuda de uma pessoa que fornece os meios para isso. No entanto, o gesto final deve imperiosamente ser feito pelo próprio paciente, caso contrário, a prática constituiria eutanásia ativa.

O único país europeu a ter reconhecido e regulamentado o direito ao suicídio assistido é a Suíça, onde a prática é plenamente autorizada. Para seguir esse caminho, três condições dever ser preenchidas: 1) o paciente deve estar plenamente capaz de discernir, 2) é ele quem deve administrar a dose letal sozinho, 3) o médico que assiste não deve estar movido por motivos egoístas (ser um dos herdeiros, por exemplo). Na prática, para ter acesso ao suicídio assistido, é preciso inscrever-se numa das associações que se dedicam a essa matéria.


O arguto leitor e a inteligente leitora já devem ter entendido que Antônio Cícero não foi “eutanasiado”. Na verdade, optou pelo suicídio assistido, ou seja, ele mesmo deu-se a morte. Escolheu dia, hora e lugar. Veio à Suíça porque é o único país europeu em que essa prática é depenalizada.

Requiescat in pace.

Aviso aos agrotrogloditas

As redes gigantes suíças de supermercados

José Horta Manzano

Aqui na Suíça, deu hoje no rádio, na tevê e nos jornais. Greenpeace, a poderosa e respeitada ong internacional, publicou o resultado categórico de uma investigação sobre a origem de certos produtos à base de carne vendidos pelas duas redes de supermercado que dominam o mercado suíço.

A ong fez uma acusação pesada às redes Coop e Migros, que, juntas, respondem por 70% do comércio de alimentos no país. As redes estão sendo acusadas de vender derivados de carne brasileira, como ‘corned beef’ por exemplo, proveniente de zonas desmatadas na Amazônia. Isso faz o efeito de uma pancada na moleira.

Faz tempo que os dois gigantes tinham se comprometido a não comercializar produtos provindos de áreas desmatadas. A investigação, bastante aprofundada, segue o caminho dos produtos incriminados, desde o pasto até as prateleiras dos supermercados. Assim, a acusação é plausível.

As redes de supermercados reagiram imediatamente. Por meio de porta-vozes, produziram explicações um pouco remendadas, dizendo que, veja bem, não é bem assim, há uma inexatidão de contexto, blá, blá.

Exatamente quatro anos atrás, em meados da gestão bolsonárica, eu já tinha escrito um artigo sobre esse fenômeno. Naquele momento, dei como exemplo o caso do azeite de dendê importado da Indonésia, produto acusado por muitos de resultar de uma política de intenso desmate.

O distinto público passou a procurar nas etiquetas se cada produto continha ou não o tal “óleo de palma”. Resultado: os fabricantes que conseguiram reformular seus produtos para deixar de conter esse ingrediente passaram a anotar na embalagem, bem visível: “No palm oil” – Sem óleo de palma.

Está mais que na hora de os agrotrogloditas, como bem os descreve Elio Gaspari, desistam de desmatar para plantio ou criação de gado. Tem gente de olho, acompanhando o abate de cada árvore, para poder botar a boca no megafone e balançar o coreto do lado dos eventuais compradores.

Não vai ser possível plantar e criar gado como se estivéssemos ainda nos séculos de antigamente. O cliente final de hoje quer ter mais informação sobre o que vai pôr no prato. Não se deixa mais engabelar assim tão fácil. Em breve, a legislação vai endurecer e o controle da origem das mercadorias deixará de ser feito na base da boa vontade. Vai ser enquadrado pela lei.

É aí que a porca vai torcer o rabinho.  (Toda alusão à salsicha de porco terá sido mera e fortuita coincidência.)

Endosso

Taylor Swift, “Childless Cat Lady”

José Horta Manzano

Para as pessoas que, como este escriba, têm uma visão nítida do mal que um Trump – se eleito presidente dos EUA – pode causar à humanidade, soa irreal imaginar que algum eleitor americano possa redirigir seu voto, para atender à recomendação de uma celebridade. A gente acredita que trumpistas e kamalistas pertencem, cada um, a um mundo diferente: como água e óleo, não se misturam.

No entanto, pesquisas feitas estes últimos anos revelam que há eleitores que escolhem seu candidato mas, ao mesmo tempo, não se sentem comprometidos com suas ideias. Esse posicionamento entreabre o caminho de uma eventual mudança de voto.

A plataforma The Conversation, que reúne artigos de acadêmicos e jornalistas, lembra o resultado de um estudo feito em fevereiro de 2020 nos Estados Unidos. A pesquisa descobriu que 89% dos adultos não mudariam seu voto mesmo que sua celebridade preferida endossasse a candidatura adversária.

Como de costume, pode-se também ler esses resultados ao contrário. Se 89% dos cidadãos não mudariam seu voto, os restantes 11% confessam que provavelmente acompanhariam a recomendação de um artista ou de alguém conhecido e influente, e mudariam o voto. Entre os jovens eleitores, essa porcentagem é ainda maior: 19% deles estariam dispostos a aceitar a sugestão de seu artista preferido.

Numa eleição presidencial apertada, como a deste ano nos EUA, a recomendação dada por Taylor Swift tem eco especial nessa franja de eleitores. São 283 milhões de seguidores que potencialmente leram seu post de endosso à candidatura de Kamala Harris. Desse mato podem sair coelhos suficientes para dar a vitória à simpática candidata.

Nos EUA, a apuração é lenta, aventurosa e cheia de surpresas. Portanto, na pior das hipóteses, assim que o Natal chegar já estaremos sabendo.

O debate Trump x Kamala

Kamala Harris: expressão corporal durante o debate com Trump

José Horta Manzano

Não assisti ao debate eleitoral americano de ontem. É que, devido à defasagem causada pelo fuso horário, o programa caiu por aqui no meio da madrugada. Mas já li a notícia e mais meia dúzia de artigos de opinião.

Parece que os analistas se puseram de acordo: descrevem o duelo com palavras semelhantes e são unânimes em atribuir a vitória a Kamala Harris. Por pontos, é verdade, mas sempre vitória é. (Aliás, como seria mesmo uma vitória por nocaute?)

Entretanto (ou however, como dizem eles), a história tem um nó. A opinião pessoal dos eleitores de lá anda tão cristalizada, que é difícil que o debate, por mais esclarecedor que seja, abale alguém a mudar o voto. Ao fim e ao cabo, cada eleitor desligou a tevê satisfeito de ver que seu(sua) candidato(a) é de fato superior ao adversário. Afinal, cada um ouve o que quer e retém o que deseja, não é mesmo?

De fato, tenho dificuldade em imaginar um trumpista roxo ter se encantado com a verve de Kamala, a ponto de decidir se tornar kamalista, se me perdoam o neologismo. O mesmo vale para o vice-versa. Ou alguém imagina um fervoroso democrata ter-se tornado trumpista desde ontem?

Logo, para que servem esses debates? Se não servem pra orientar eleitores e fazê-los escolher candidato, qual é a utilidade? Talvez para incentivar eleitores preguiçosos a se levantarem do sofá e se dirigirem ao posto de votação.

E há outro nó. É um pouco complicado de entender para nós, que vivemos numa república onde, na hora de escolher o presidente, todos os votos são iguais. Para nós, um eleitor equivale a um voto; e o chefe da nação será o candidato que obtiver mais votos. Nos EUA é mais enrolado.

Na intenção de dar uma ajuda aos estados menos populosos, os fundadores do país complicaram o sistema. Não tenho a pretensão de explicar aqui como funciona, mas o fato é que, a nossos olhos, o resultado pode ser distorcido. O candidato que tiver o maior número de votos não é necessariamente o vencedor. Acontece com certa frequência que o vencedor do voto popular perca a eleição.

Assim, por mais empolgante que seja – tem gente que perde horas de sono só pra acompanhar – o debate eleitoral americano é jogo que não vira o jogo. Um desastre, como o desempenho de Biden no duelo anterior, tem mais força que um bem estruturado debate de ideias.

Só me resta dar um conselho a nossos leitores americanos (não sei se os há, mas devem ser numerosos).

Votem em quem quiserem, mas não votem em Trump.
Para o bem da humanidade.

É Natal na Venezuela

José Horta Manzano


“Está chegando setembro, e graças ao fato de termos encerrado o mês de agosto com boas perspectivas econômicas, podemos dizer que [o ar] já traz um cheiro de Natal”.


Quem disse isso, em seu programa semanal de televisão, foi o presidente da Venezuela, señor Nicolás Maduro. Até aí, a declaração podia não passar de mais uma autolouvação, comum entre mandatários. Mas ele foi adiante.

Depois de aproveitar a ocasião para açoitar os “sabotadores” e os “fascistas” que tentaram, sem sucesso, atacar a nação, anunciou o prêmio maior: este ano, o Natal venezuelano muda de data. Em vez de ser comemorado no tradicional 25 de dezembro, fica reagendado para 1° de outubro, daqui a um mês.

A mídia do país, que calça luvas para tratar de assuntos ligados à alta cúpula, não disse nem sim, nem não, muito pelo contrário. Ninguém ousou denunciar o tragicômico da situação. Ninguém teve coragem de lembrar que, dado que é festa religiosa católica, só quem tem o direito de modificar a data do Natal é o Vaticano – que, aliás, não mexe no assunto há séculos.

Nas entrelinhas dos veículos, perdido entre comentários de leitores, está o desabafo de um cidadão segundo o qual, num momento em que muitos não têm o que comer, não fica bem decretar que este ou aquele dia é dia de festa. É indecente.

De fato, na terra dos amigos de Lulamorim, cidadãos passam fome. E o tirano que os domina e constrange pelo medo tem delírios dignos de um Musk.

A diferença é que Musk é um rei sem reino, enquanto Maduro é rei com coroa, manto e cetro. E um povo inteiro pra chamar de seu e pra oprimir.

Fim da mídia impressa?

José Horta Manzano

A crise vem castigando, há duas décadas, o que se costumava dizer “a imprensa” e hoje se diz “a mídia impressa” ou “a mídia em papel”.

É compreensível. Com a profusão de informações e a atratividade do que desfila na telinha, só os muito aferrados continuam a ler jornal impresso. Ou os que não têm telinha à disposição – como é o caso deste escriba. Mas somos um grupo declinante e em via de rápida extinção.

O drama da mídia impressa não atinge somente os jornais brasileiros. Tirando os supergrandes como The New York Times e mais um ou outro dessa categoria, os outros andam pulando miudinho. No mundo inteiro.

Volta e meia, a cada vez que um periódico fecha as portas e sai do mercado, ressurge a velha polêmica de o Estado encampar publicações em dificuldade financeira. Parece ser boa ideia, mas é um caminho pedregoso.

De fato, jornais controlados pelo poder público perigam servir de canal de propaganda para o governo de turno, o que desvirtuaria o objetivo da imprensa, que tem vocação a ser livre de amarras oficiais.

É difícil imaginar se, daqui a duas ou três décadas, ainda haverá jornais, se ainda subsistirão quiosques ou bancas de jornal. Talvez não sobrevivam.

Nos lugares em que as autoridades estão realmente preocupadas com a população, ideias construtivas são aplicadas enquanto ainda é possível.

O governo da cidade de Genebra, na Suíça, pôs em prática um expediente interessante. Todo cidadão que atinge a idade de 18 anos recebe de presente da municipalidade uma assinatura de um ano de seu jornal preferido, edições digital e impressa.

A ideia é criar no jovem adulto o hábito de ler e, ao mesmo tempo, fidelizá-lo a um veículo de informação. O hábito de ler só traz vantagens a qualquer um. A fidelização a um jornal contribui para sua perenidade. Levando em conta a considerável utilidade pública desse programa, seu custo é mínimo.

Bem que uma pequena parte desses bilhões em emendas que têm sido encomendadas por Suas Excelências podia ser reservada para a mesma finalidade em nosso país. Deixaria muita gente feliz. O leitor, que podia até se habituar a ler jornal; o jornal, que receberia contente essa nova clientela caída do céu.

Em Genebra, que é cidade organizada, os cidadãos estão cadastrados na Prefeitura, com nome, endereço e todos os dados. O programa, portanto, se põe em movimento automaticamente.

No Brasil, a coisa é menos fluida. Mas não tem erro, basta espalhar a novidade e cada jovem adulto se apresentará onde tiver de se apresentar, documento na mão, pra receber sua fatia desse bolo de modernidade.

Venezuela: não dá mais tempo

Manifestação anti-Maduro em Londres, 4 ago 2024
credit: Marcio Manzano

José Horta Manzano

Para os cidadãos venezuelanos, os maiores interessados nesse quiproquó, o horizonte está longe de desanuviar. O céu continua carrancudo e carregado. Do jeito que as coisas vão, não é desta vez que vão se resolver. Não é desta vez que o país volta aos trilhos da normalidade democrática. Não é desta vez que remédios vão voltar às farmácias, que comida vai voltar aos supermercados, que a inflação vai dar sinal de arrefecer.

Se algo tinha de acontecer, era nos dias que se seguiram imediatamente ao anúncio do resultado do pleito. Invasão de exército estrangeiro, golpe militar interno, gigantescas manifestações no-stop de entupir Caracas – fosse qual fosse o caminho da redenção, o remédio tinha de ter sido aplicado antes que a nomenklatura e os apparátchiks pudessem reagir. A ação tinha de ter sido rápida, pegando aos donos do regime de calças curtas, sem lhes dar tempo de levantar os suspensórios.

Assim não foi feito. Hesitação de alguns governos como o brasileiro e resoluto apoio de países autocráticos como a China, a Rússia e o Irã deram fôlego a Maduro (que, mesmo sem isso, não estava nem um pouco disposto a ceder).

Como é fácil de entender, se o governo venezuelano cedesse e entregasse o poder à oposição, que venceu as eleições, iam todos parar na cadeia: desde o casal Maduro até o porteiro do Palacio Miraflores; do general mais agalardoado até o cabo mais obscuro.

A cada dia que passa, mais pedregoso fica o caminho dos que gostariam de entregar o bastão ao verdadeiro vencedor da eleição. Depois de mandar prender centenas de cidadãos a esmo, Maduro já conseguiu o que queria: calou o populacho. Ninguém mais é louco de marchar pelas avenidas carregando cartazes. Señor González, o mais que provável ganhador do pleito, já não ousa se proclamar vencedor. A Venezuela volta a ser estrangulada por uma atmosfera de desconfiança mútua, medo de ser agredido e pavor de ser denunciado.

Tenho a impressão de que, por anos ainda, o Brasil terá de encarar um afluxo reforçado de migrantes venezuelanos. A diáspora venezuelana vai engrossar e se espalhar ainda mais. Famílias vão vender o pouco que possuem pra pagar coiotes e tentar penetrar nos EUA. A miséria vai continuar se alastrando no país.

O petismo esteve no comando de nosso país durante 14 longos anos. Naquela época, ainda teria dado pra estancar o processo de deterioração da democracia venezuelana. Por que nossos petistas, de espírito tão humanista, que sempre tiveram bom trânsito em Caracas, não agiram? Porque, ingênuos, não se deram conta da gravidade da evolução. Agora, que o panorama apodreceu, ficou difícil, quase impossível.

Venezuela, uma narcoditadura, nossa vizinha de parede.

Troca de prisioneiros

Desde a Guerra Fria, a ponte Glienicke, em Berlim, foi apelidada de “Ponte dos Espiões”. Era o local onde se faziam trocas de prisioneiros. Cada preso liberado saía caminhando de um lado, encontravam-se no meio da ponte e, sem uma palavra, continuavam a pé ao encontro dos seus.

 

José Horta Manzano

A Agência Bloomberg acaba de informar que uma múltipla troca de prisioneiros está em curso neste momento. Estão envolvidos quatro países: Rússia, Estados Unidos, Alemanha e Bielo-Rússia. Não foi publicado o rol de todos os envolvidos, mas sabe-se que o jornalista americano Gershkovitch e seu compatriota Whelan, antigo militar, fazem parte dos que serão libertados para cumprir o trato.

O jornalista americano Evan Gershkovitch trabalhava na cidade de Ekaterinburg (Rússia) quando foi detido em março 2023. Acusado de crime de espionagem, está preso até hoje. Mês passado, foi condenado a 16 anos de encarceramento em regime severo. Tudo indica que seu julgamento foi apressado para permitir a conclusão final do acordo de troca.

Outro envolvido é o jornalista e político russo-britânico Vladímir Kara-Murza, que cumpre pena de 25 anos de prisão na Sibéria por ter manifestado publicamente sua oposição à guerra na Ucrânia.

Pode-se supor que os EUA e a Alemanha estejam libertando cidadãos condenados por espionagem em favor da Rússia, ora entregues em troca dos ocidentais que estão deixando os gulags russos.

Trocas de prisioneiros eram relativamente frequentes na Guerra Fria. Volta e meia, espiões de um lado eram liberados em troca de espiões do outro lado. O fim da União Soviética significou boa diminuição desse fluxo. Mas, embora sem o cerimonial do passado, ele continua, bastando ver a múltipla troca atual.

Esse escambo de condenados até que poderia ser uma solução para o desenlace do atual drama político venezuelano. Só que não vai dar, pois Maduro & asseclas provavelmente não aceitariam ser trocados e terminar em cárceres no “Império”. De toda maneira, não estão presos, portanto não faz sentido falar em troca de condenados.

Se a pressão interna e externa aumentar ao ponto de se tornar insuportável, não há lugar para acordos na Venezuela. Só resta aos atuais mandatários a solução do exílio. No mundo atual, poucas opções se oferecem ao narcoditador. Terá de escolher entre Cuba e Nicarágua, se quiser ficar perto da pátria, no mesmo torpor equatorial.

Se não se importar de atravessar o oceano, sempre pode ir para a Rússia. Mas parece que o clima de lá nem sempre permite sair à rua de chapéu de boiadeiro e camisa vermelha.

Além do que, no dia em que Putin for apeado do poder, como é que fica? Melhor o Caribe acolhedor.

Eleições venezuelanas

by Darío Castillejos (1974-), desenhista mexicano

José Horta Manzano


Palavra do dia: fraude.

É termo panromânico, disseminado das praias lusitanas à beira do Mar Negro. Aparece também em inglês, holandês e até indonésio (via holandês).

Herdamos essa palavra do latim fraus/fraudis, substantivo da 3ª declinação. O significado de fraude é próximo ao de cilada e de emboscada. Um detalhe importante, porém, marca a diferença de sentido.

A cilada e a emboscada atentam contra a vida ou a integridade física da vítima, enquanto a fraude tem por única finalidade satisfazer aos interesses de quem a pratica.


Nicolás Maduro, de tantas que aprontou, não tem outra saída que não seja agarrar-se ao poder para permanecer a salvo até o fim de seus dias. Ficará “presidente” até que seja apeado pela força. Se for obrigado a abandonar o osso, a “menos pior” das soluções seria um acordo que concedesse ampla anistia a ele e a seus cúmplices.

Anos de má gestão empobreceram o país e exauriram suas reservas em ouro e seu capital de credibilidade internacional. O povão paga a conta dos desmandos da camarilha que se instalou no topo do Estado. Os milhões de refugiados que constituem a diáspora venezuelana, espalhada pelo mundo, bem que gostariam de voltar à pátria, mas a total ausência de oportunidades os desencoraja.

Em dez anos no poder, para segurar-se no posto máximo, Maduro cooptou todos os que, de perto ou de longe, teriam poder para ameaçá-lo. Generais e outros militares de alta patente, procuradores e juízes vêm todos comer na mão do caudilho. São todos “comprados” com dinheiro da petroleira estatal e com nepotismo, favores, benesses e sinecuras inconfessáveis.

Executivo, Legislativo e Judiciário estão mancomunados e devoram as riquezas nacionais como urubus circulando em roda da carniça. Esses milhares de apóstolos cooptados dão ao governo firme sustentação. Sabem que, caso Maduro caia, o destino de todos eles será provavelmente a cadeia. Ou pior ainda: uma extradição para os EUA.

Quem espera que o ditador seja desalojado com um movimento à maneira regular, com eleição, alternância e pressão de baixo pra cima pode ir tirando seu cavalinho da chuva. Não vai acontecer. A camarilha vai sempre fazer uma mágica com os números e declarar que venceu.

Portanto, vejo mal, neste momento, por qual milagre Maduro seria desalojado. Não vai servir para nada Lula da Silva fazer beicinho e dizer que “está assustado”.

O chavismo se impôs pela força e só pela força será derrubado. Quando digo “força”, não digo necessariamente tanques na rua; mas será necessária uma força bem maior que o voto de um povo que, aliás, os chavistas desprezam copiosamente.

Não adianta balançar o coqueiro, que Maduro ainda não está maduro para a queda.

Fluctuat nec mergitur

by Fernando Botero (1932-2023), pintor colombiano

José Horta Manzano

Tanto anunciaram, que fiquei com vontade de assistir à transmissão do espetáculo de abertura dos JO de Paris. Fiz bem em ligar a tevê sexta-feira passada. A bela apresentação foi realmente diferente do que se costuma ver nesse tipo de manifestação esportiva.

Até as Olimpíadas de Tóquio (2021), a representação de abertura sempre se fez num estádio. Cantos e danças eram programados para a parte central enquanto as delegações desfilavam dando uma volta olímpica. O espetáculo de Paris desempoeirou essa tradição. Fazendo jus à divisa da cidade, que é a frase latina “Fluctuat nec mergitur” (Flutua, não afunda), o tema central foi o Rio Sena, curso d’água às margens do qual a cidade cresceu.

O desfile das delegações seguiu a ordem protocolar. A primeira a desfilar é sempre a Grécia, país de origem dos JOs da era moderna. Em seguida, vêm as nações, na ordem alfabética seguindo a língua do país sede, país este que é sempre o último a desfilar.

Tirando a chuva, que embaçou um pouco o ambiente festivo, o entretenimento estava bem dosado. Certas minúcias, dirigidas mais ao público interno do que à plateia internacional, escaparam aos observadores estrangeiros.

Um assunto que anima conversas e está entre os temas principais dos partidos da extrema direita identitária, como o Agrupamento Nacional de Madame Le Pen, é a chegada à França de migrantes originários de antigas colônias, como Argélia, Marrocos e países da África negra.

Os “filósofos” desses partidos nutrem a esperança de terem sido os últimos a entrar na barca. Gostariam que a entrada fosse barrada a todos os que quiserem entrar. Na peculiar fantasia desse pessoal, a França continuará para sempre pura, branca, católica, livre de LGBTs, de africanos, de estrangeiros em geral. E fora da União Europeia.

O fio condutor do espetáculo foi justamente a diversidade da França moderna, que já deixou há muito tempo de ser uma sociedade exclusivamente branca e cristã.

A cantora Aya Nakamura, francesa de pele escura e origem africana, ganhou destaque na festa – afinal, é a cantora de língua francesa mais ouvida no mundo todo, com zilhões de seguidores nessas plataformas preferidas pela juventude.

A responsabilidade de cantar A Marselhesa, hino nacional francês, foi confiada a uma mezzo-soprano negra.

A tarefa de ser porta-bandeira da delegação francesa foi atribuída a uma atleta negra.

Por um instante, num dos quadros do espetáculo, alguns passos de dança fizeram um aceno mais que evidente a um trisal que se compõe em cena e se tranca num aposento.

Um dos quadros do espetáculo evocou a Santa Ceia, superconhecida obra de Leonardo da Vinci. A apresentação, no entanto, não se fez num ambiente de piedade religiosa. Foi, antes, no gênero burlesco, em que personagens escapados de um quadro de Fernando Botero fizeram que a contrição fosse substituída pela comicidade.

Enxerguei nesse quadro um aceno a cidadãos muçulmanos, que são legião no país. Os maometanos mais ciosos, como se sabe, não permitem que esposa e filhas saiam à rua sem o véu islâmico; tampouco admitem alusões jocosas à sua religião. No meu entender, brincar com símbolos religiosos cristãos foi como dizer aos islâmicos rigoristas: “Estão vendo, com a nossa religião, podemos brincar! Está na hora de vocês fazerem como nós e adaptarem suas práticas religiosas ao mundo moderno!”. Foi assim que entendi.

Como vocês podem imaginar, essas piscadelas em favor da quebra de barreiras entre os franceses antigos e os de imigração recente provocou um forrobodó nos ambientes de extrema direita. Os políticos mais exaltados se precipitaram nas redes para denunciar o espetáculo “woke” e indigno de uma edição francesa das Olimpíadas.

Parece que até no Brasil, ainda que não tenham nas mãos as chaves para resolver o problema, nossos frágeis (mas barulhentos) extremistas também se manifestaram. De todo modo, esses grupelhos são constituídos de bagunceiros profissionais. Não costumam se dar ao respeito, o que é um convite para serem tratados com desrespeito.

Deixe estar. Podem ladrar à vontade, que a caravana continua a flutuar. Sem nunca afundar.