Como se comportar diante da IA?

Discurso de J.D. Vance, vice-presidente dos Estados Unidos
Cúpula de Ação sobre a Inteligência Artifical. Paris 10 & 11 fev° 2025

José Horta Manzano

Por iniciativa do presidente Emmanuel Macron, realizou-se em Paris nos dias 10 e 11 de fevereiro uma Cúpula de Ação sobre a Inteligência Artificial. Especialista em bem receber seus convidados, a França soube dar ares de pompa ao evento a fim de causar boa impressão. O majestoso Grand Palais foi escolhido para abrigar os debates.

Entre outros participantes importantes, estavam o primeiro-ministro da Índia, o vice-primeiro ministro da China, o primeiro-ministro do Canadá. O Brasil mandou Mauro Vieira, nosso chanceler.

Já os Estados Unidos não deixaram por menos: mandaram o vice-presidente do país, ou seja, o número 2 do Executivo. Trata-se de James D. Vance, eleito na chapa de Donald Trump.

Antigo militar de profissão, Mr. Vance é um homem de apenas 40 anos e já tem no currículo alguns anos de carreira política. Ideologicamente, é considerado ainda mais radical que o chefe, defensor daquela imagem ideal dos EUA sonhada por Walt Disney: com habitantes brancos, ricos, sorridentes e felizes.

Na segunda-feira 10, Macron ofereceu um jantar de gala, realizado sem a presença de câmeras e holofotes. Com ou sem jornalistas, fatos interessantes sempre chegam a vazar para o exterior do salão.

Numa atitude talvez ensaiada de véspera, Mr. Vance levantou-se e deixou a sala assim que o representante da China começou a discursar. Em matéria de descortesia e afronta, nem nosso pranteado Bolsonaro faria melhor. Vê-se que Mr. Vance é herdeiro direto do espírito dos caubóis  trombudos, revólver à cinta e espora no tornozelo. Vai encarar?

Terça-feira 10, no salão de eventos, de novo Mr. Vance subiu ao púlpito. Antes de iniciar o discurso, lançou um olhar ao presidente Macron e agradeceu pela acolhida e pelo vinho da véspera. (É de acreditar que o míster não esteja habituado a ver outra bebida à sua frente que não seja aquele líquido amarronzado que espuma e parece vinho mas não é.)

Daí pra frente, despejou tudo o que levava no bolso. Expôs sua ideia de IA. Pleiteou uma tecnologia solta, sem filtro, totalmente livre de controles e de entraves (como um potro desbocado que ninguém pode deter). Disse que todo controle seria prejudicial ao desenvolvimento da técnica. Era o exato contrário do que grande parte dos demais participantes queria ouvir. Afinal, o objetivo da cúpula era justamente encontrar um acordo supranacional para impor regras e limites à IA.

Desnecessário será dizer que os EUA não assinaram a declaração final. Em consequência, o desenvolvimento da IA permanece sem regras mundiais, comuns, claras e firmes.

Trump quer esvaziar Gaza

José Horta Manzano

Em 27 de janeiro passado, está fazendo quase dez dias, escrevi um post ao qual dei o nome de Plaza Strip. Naquele texto, botei no papel uma realidade que me parecia evidente, bastanto juntar duas falas de Donald Trump pronunciadas em momentos diferentes. Eu tinha entendido que o presidente americano, experiente no ramo de promotor imobiliário, enxergava a Faixa de Gaza como excelente localização para implantar um complexo turístico de luxo.

Pelas manchetes que vejo hoje nos jornais do mundo inteiro, fico com a impressão de ter sido o único a ligar as duas falas de Trump. Esse é o lado lisonjeiro. Do lado decepcionante, percebo que nenhum dos líderes globais – Xi Jinping, Macron, Putin nem mesmo Lula – leu meu artigo. Se tivessem lido, já teriam reagido antes dos comentários da multidão. E olhe que não leram de bobeira: aqui não tem anúncio! Enfim, paciência.

As manchetes devem estar fazendo muita gente fina cair das nuvens, todos assustados com o pronunciamento que Trump fez ontem sobre Gaza. Desta vez, ele juntou tudo numa fala só, e foi bem claro. Lançou no ar a ideia de que os EUA devem tomar conta de Gaza, não sem antes tirar de lá os gazeus e reparti-los entre Egito e Jordânia. Em seguida, a faixa de terra será reconstruída e se tornará uma “Riviera” do Mediterrâneo Oriental. (Daí eu ter chamado meu escrito de Plaza Strip, fazendo rima com Gaza Strip, mas numa declinação mais chique e sofisticada, lembrando grandes hotéis de luxo da orla mediterrânea.)

Não precisei ir mais longe que nossa mídia online nacional para encontrar as primeiras reações ao projeto: desumano, limpeza étnica, roubo de território, mundo chocado, projeto truculento, mandar palestinos para onde? (Lula), violação de leis internacionais, genocídio.

Concordo com todas essas expressões. Trata-se de mais um passo no genocídio montado contra os infelizes palestinos, cidadãos cujo triste destino todos lamentam mas que ninguém se anima a convidar pra morar em casa.

Agora vamos mudar de tom. Não se trata de ser cínico, mas realista, questão de ver as coisas como são.

Israel controla a Faixa de Gaza. Ninguém lá entra nem de lá sai sem autorização de Tel Aviv. Desde o começo da guerra, nenhum jornalista estrangeiro pisou o território. Remédio só entra a conta-gotas. Todos os hospitais foram destruídos ou fortemente degradados. Em Gaza City, 90% dos imóveis desmoronaram.

Os Estados Unidos são a maior potência econômica e militar do planeta. São também aliados incondicionais de Israel.

Juntando os dois, Israel e EUA, temos a fome e a vontade de comer. Portanto, não perca dinheiro na bolsa de apostas de Londres: o que Donald Trump quer, se fará. Que  seja chocante ou não, que pareça legal ou não, que o mundo aprecie ou não, dentro de pouco tempo o território será esvaziado dos trapos humanos que o habitam. Alvas construções em estilo brotarão e palmeiras recém-plantadas enfeitarão a borda das piscinas para suavizar o clima desértico. E os primeiros nababos começarão a chegar.

Quem poderá impedir que isso tudo aconteça? Xi Jinping? Putin? A União Europeia? Quem se arriscaria numa guerra contra os EUA?

Como disse, prezado leitor? Pra onde vão os gazeus? Ora, uma parte para a Jordânia e outra para o Egito, exatamente como Trump deseja. E como é que ele vai conseguir que esses países aceitem dois milhões de maltrapilhos? Pela ameaça. Tanto a Jordânia quanto o Egito são tributários de substancial ajuda americana. Todo ano, recebem quantia que não podem perder. Receberão, naturalmente, uma compensação pela gentileza de acolher os refugiados. E vão acolhê-los, sim, senhor.

Mas tem uma coisa. Como se sabe, toda moeda tem duas faces. Na outra face desta, está o precedente que Trump estará abrindo caso insista nessa ideia descabida. Se sua cupidez imobiliária o cegar, estará dando ao mundo prova de que é legítimo intervir de forma truculenta para conquistar territórios estrangeiros.

Daí pra frente, não poderá mais dar um pio se a Rússia intervier militarmente na Moldávia ou na Geórgia ou se a China decidir tomar Taiwan à força dos canhões. O mundo terá regredido aos séculos de antigamente. Estará aberta nova era de conquistas territoriais como nas guerras napoleônicas. Só que agora a espada será substituída por drones incendiários, minas antipessoais e outros bijuzinhos da guerra moderna.

Os onze milhões

 

José Horta Manzano

Uma maluquice incomoda muito a gente
Duas maluquices incomodam muito mais

Duas maluquices incomodam muito a gente
Três maluquices incomodam muito mais

E assim por diante…

Donald Trump entrou de sola no segundo mandato. Desde o primeiro momento, soltou um festival de maluquices que tem assustado muita gente. No entanto, dado que cada maluquice empurra a anterior para a tumba do esquecimento midiático, as primeiras já passaram para segundo plano.

A primeira (assustadora) medida que Trump tomou foi garantir que cumpriria ao pé da letra a ameaça de expulsar onze milhões de cidadãos estrangeiros que vivem ilegalmente no território dos EUA. Por mais que soe impossível de cumprir, promessa de presidente costuma ser levada a sério.

Convém considerar que será necessário expulsar uma média de 7.500 clandestinos por dia – dia sim, outro também, sábados e domingos incluídos – para atingir a meta dos onze milhões nos 1.460 dias do mandato. Trocando em miúdos, será necessário mobilizar em permanência entre 100 e 150 aviões das forças aéreas americanas, cada um com capacidade de 100 passageiros em média. Todos farão rotações incessantes, ida e volta, rápida parada para embarque, desembarque, abastecimento e troca de equipagem. Vai sair caro.

Dessa primeira maluquice do presidente-estrela, apesar de ela ser missão impossível, já se fala menos. A atenção do planeta está voltada para a maluquice seguinte, o aumento brutal nas taxas de importação de nações amigas e/ou inimigas, tanto faz. Canadá, México, China entram no mesmo molde. Os outros países estão preocupados na expectativa de serem os próximos da lista.

Especialistas garantem que essa guerra de tarifas alfandegárias vai causar a ruína da própria economia dos EUA. Será uma pena. Trump, veja você, só dura 4 anos. Por seu lado, se a China preencher o lugar dos Estados Unidos declinantes, teremos de viver por décadas sob a lei de Pequim.

Os dez primeiros dias

Trump subindo a escadaria

José Horta Manzano

Dez dias se passaram desde que Donald Trump “subiu a rampa” da Casa Branca para seu segundo mandato. Falei em “subir a rampa” como linguagem simbólica. Bem mais antiga que nosso Palácio do Planalto, a sede do Executivo americano só tem uma rampinha lateral construída em anos recentes. A entrada mesmo se faz pela escadaria, e é por lá que Trump subiu.

É praxe conceder a todo governante iniciante um armistício (ou paz provisória) de 100 dias para permitir-lhe mostrar a que veio. No entanto, pelos tempos frenéticos que correm – especialmente para um governante hiperativo como Trump –, os primeiros dez dias já deveriam mostrar uma tendência. De fato, mostram.

Meus argutos leitores já devem ter reparado que o novo presidente é mais destruidor que construtor, é mais de rasgar que de costurar, é mais de cuspir fogo que de apagar incêndios. Prestem atenção agora. Nestes dez dias, Trump já afrontou dezenas de países (com ameaça de sançôes e, principalmente, com expulsões de imigrantes clandestinos). Me digam se lhes ocorre, entre os países afrontados, algum que seja poderoso ou simplesmente importante.

Não encontraram? Nem eu. Mostrou ao vizinho México quem é que manda no pedaço, mas não se atracou com o vizinho Canadá. Está despachando, com espalhafato, trabalhadores imigrantes clandestinos da América Latina, mas não deu um pio quanto aos ilegais de origem chinesa ou indiana. Vociferou contra os povos mais frágeis do Oriente Médio (no momento, os habitantes de Gaza), mas não fez o mesmo contra Israel. Contra China, Rússia, Índia? Também nem um pio.

Vai ficando claro que Trump escolhe suas vítimas entre os mais fracos, nunca entre os mais fortes. Vai ficando também claro que o presidente se permite gastar dez dias fornecendo manchetes sensacionalistas para os jornais enquanto os verdadeiros problemas de seu país (e do mundo) passam ao segundo plano e continuam à espera.

Trump se preocupou com pessoas trans, assunto que apaixona todo político de extrema-direita, mas cuja discussão deveria ser confiada ao Congresso. Não faz sentido um chefe de Estado preocupar-se com esse tipo de problema de sociedade.

Trump retirou seu país da Organização Mundial da Saúde, abrindo a porta para que a China passe a dominar esse importantíssimo setor da vida do planeta. Também retirou os EUA da Organização Mundial do Comércio – seria cômico se não fosse trágico que o país responsável por uma fatia de quase 10% do comércio mundial renuncie a fazer parte da organização que trata desse assunto. De novo, a porta está escancarada para a China.

Adicione os gestos que acabo de mencionar. Só encontrará afronta a países menores e destruição de políticas estabelecidas de longa data. Destrói-se o que não agrada sem propor substituição, esse parece ser o lema.

Espera-se que o espetáculo ignóbil e indigno da deportação de trabalhadores estrangeiros pobres e algemados chegue rapido ao fim. Se não, em breve não mais haverá no país quem varra as ruas, quem lave a louça, nem quem limpe as latrinas.

Plaza Strip

by Jean Galvão (1972), desenhista paulista
via Folha de São Paulo

José Horta Manzano

Este sábado 25 de janeiro, tive confirmação de minha teoria sobre o perigo dos pronunciamentos que líderes fazem quando estão fora de casa. Quando estão de viagem no estrangeiro ou também no avião que os conduz de um lugar a outro, chefes de Estado e chefes de governo deveriam prestar extrema atenção às palavras que proferem. Políticos de alto coturno já tiveram de encerrar a carreira devido a uma frase imprudente pronunciada em viagem. Há anos escrevi um post sobre o assunto.

Com um impressionante barulho de fundo – eu nâo imaginava que o 747 Air Force One fosse tão barulhento – Trump conversou uns vinte minutos com jornalistas que viajavam com ele, num estilo pingue-pongue (perguntas breves e respostas rápidas).

O assunto principal era a guerra de Israel em Gaza. Donald Trump exprimiu seu desejo de esvaziar totalmente a Faixa de Gaza (2 milhões de habitantes!) e despachar essa população para os países vizinhos, Egito e Jordânia.

Aqui tenho de abrir um parêntese. Convém estabelecer uma correlação entre a espantosa ideia revelada no avião e as palavras que o próprio Trump pronunciou logo depois de ter sido empossado. No dia da posse, o novo presidente disse que Gaza “realmente tem de ser reconstruída de um jeito diferente”. Ele acrescentou que “Gaza é muito interessante por gozar de localização espetacular à beira-mar, no melhor clima, onde tudo é bom. Coisas lindas poderiam ser feitas lá”.

Nesse ponto, é bom sentar, tomar uma respiração profunda e refletir um instante.

Esvaziar? Expulsar aquela ralé? Limpar o terreno? Construir coisas lindas? Vindas de quem enricou no ramo imobiliário e mantém negócios na indústria hoteleira, essas palavras fazem sentido. Não são elucubrações de um qualquer, são projetos com começo, meio e fim, feitos por quem é do ramo. É capaz até de o orçamento estar pronto.

Esses acontecimentos me inspiram pelo menos duas reflexões.

A primeira
Donald Trump mais uma vez passa recibo de absoluta inaptidão para as funções que ocupa. Apesar das lantejoulas e dos paetês, salta aos olhos sua ignorância profunda de História Geral, em especial da História do Oriente Médio. Tampouco sabe como funcionam as relações entre estados. No vácuo de sua cabecinha, cabe a ideia de dar, aos países vizinhos, ordem de abrir a fronteira e aceitar os milhões de infelizes habitantes de Gaza. E pronto, o problema está resolvido.

Ignora que cada país tem sua soberania, seus problemas, seus objetivos em política interna e externa. E que, apesar de receberem ajuda dos Estados Unidos, nenhum deles está disposto a importar milhões de estrangeiros só para agradar Donald Trump. Se o problema é encontrar um pouso para os gazeus, por que é que o presidente não os leva diretamente para os EUA? Por que não lhes daria um pequeno território para viverem tranquilos, longe dos israelenses e das bombas? É feio dar esmola com o chapéu alheio, como Trump está fazendo.

Os eleitores de Donald, que vivem alienados do mundo, que não leem nada, que não assistem nem ao jornal da tevê, que só se informam pelas redes trumpistas, nunca vão se inteirar do que se passa em Gaza, nome que só conhecem de ouvir falar. Trump pode dizer ou fazer o que bem entender, que seus fãs vão continuar usando um boné vermelho escrito “Make America great again”. E vão continuar votando no Salvador.

A segunda
Mais uma vez, Trump mostra que só se lembra da raça humana em tempos de eleição. Fora isso, para ele, os seres humanos não passam de peões, peças sem grande valor alinhadas num tabuleiro. Tirá-las do caminho ou eliminá-las faz parte do jogo e não lhe causa engulhos. É tão humanista, flexível e empático quanto uma porta de aço. Fechada.

Os EUA não são nenhuma Finlândia, nenhuma Islândia, países onde a distância entre os abastados e os necessitados é pequena. No país de Trump, há amplo contingente populacional de renda baixíssima, que não tem nem como tratar da saúde ou dos dentes. Depois de “limpar” a Faixa de Gaza, o que é que Trump pretende fazer com esses infelizes? Fazer uma limpeza de terreno, tirá-los do caminho e despachá-los para longe da vista, digamos, para a Groenlândia?

Inepto, ignorante e desumano, assim é o miliardário que hoje governa o país mais poderoso do mundo. E certamente assim são os que o cercam, miliardários ou intrometidos. É um clube em que cada sócio puxa a brasa para sua sardinha sem ligar a mínima para as necessidades do populacho.

A continuar nesse passo, daqui a pouco tempo Gaza terá se tornado destino turístico mundial, com palmeiras à beira-mar, livre de árabes pobres, com hotéis, cassinos, “resorts” de luxo e cais especiais para grandes iates. Seu nome será mudado. Em vez de Gaza Strip, será Plaza Strip, um spot internacional de luxo aberto aos nababos de todo o planeta. Naturalmente, os árabes serão acolhidos de braços abertos – desde que sejam endinheirados.

O homem da continência

John Bolton

José Horta Manzano

Na manhã do dia 29 de novembro de 2018, já eleito mas ainda não empossado, Bolsonaro recebeu em sua casa do Rio de Janeiro um emissário do então presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. O visitante era um senhor de cabelo e bigode brancos chamado John Bolton, assessor de Segurança Nacional nomeado por Trump.

Assim que Mr. Bolton apontou no portão do jardim, um entusiasmado capitão, empertigado na soleira da porta de casa, bateu continência ao visitante(!), aquela saudação que um militar deve obrigatoriamente fazer diante de outro militar de grau mais elevado que o seu.

O primeiro a se surpreender com o gesto deve ter sido o próprio americano, desacostumado a ver as regras militares tratadas com leviandade, mas a mídia brasileira tampouco deixou passar em branco. Os comentários foram de espanto com a atitude do novo presidente do Brasil que, assim, deixou clara sua postura de curvar-se diante dos EUA, representados ali pelo emissário. Pegou supermal.

Nem o suco de caixinha e o pão com leite condensado servidos naquele petit-déjeûner em honra ao hóspede tresnoitado foram capazes de atenuar a sombra de mal-estar que pairava no ambiente. Mr. Bolton entregou a Bolsonaro o convite que Donald Trump lhe fazia para visitar os Estados Unidos.

Os anos passaram, Trump perdeu a reeleição, Bolsonaro terminou seu governo calamitoso e também perdeu a reeleição. Agora, depois de quatro anos atravessando o deserto, Donald Trump conseguiu ser de novo eleito para a presidência. Nas 24 horas que se seguiram à tomada de posse, despejou um balde de decretos carregados de ressentimento, raiva, perseguições, intolerância. Desfez medidas que seu antecessor havia implementado. Atirou a torto e a direito.

Um dos projéteis atingiu John Bolton, seu antigo assessor de Segurança Nacional, aquele que havia sido homenageado com a continência de Bolsonaro. O homem aparentemente caiu em desgraça, não se sabe exatamente por que razão.

O que se sabe é o seguinte. Em 2021, o presidente Joe Biden tinha concedido a Mr. Bolton proteção permanente do Serviço Secreto em razão de ameaças de morte proferidas pela Guarda Revolucionária Islâmica do Irã. Pois ao voltar à presidência esta semana, Trump revogou a proteção policial permanente dada a Mr. Bolton. Supõe-se que tenha feito isso por capricho, só para desfazer o que Biden tinha feito. Veja em que mãos está o governo dos EUA!

Bem, Bolsonaro que se cuide. Assim como ele mesmo faz com seu costume de abandonar amigos e correligionários feridos pelo caminho, Trump leva jeito de fazer igual.

Trump aprecia ganhadores, vencedores, os que ele chama de “winners”. Um Bolsonaro no Planalto podia até interessar Trump, mas um Bolsonaro na rua da amargura, cheio de processos e ameaçado de cadeia, periga ser atirado ao mar para alegria de tubarões e camarões.

E o barco segue.

Internacional reacionária

Viktor Orbán, Giorgia Meloni, Donald Trump, Marine Le Pen, Elon Musk

José Horta Manzano

Duas semanas atrás, num discurso proferido na Conferência dos Embaixadores em Paris, o presidente Macron se referiu a Elon Musk como o homem que “dá apoio a uma nova Internacional Reacionária. Nessa comparação, ele se referiu a duas organizações que realmente existiram: a Internacional Comunista (que viveu de 1919 a 1943) e a Internacional Socialista (fundada em 1951 e que ainda sobrevive).

Essas duas organizações buscavam favorecer a implantação do comunismo (respectivamente, do socialismo) em todos os países. Como sabemos hoje, o objetivo de nenhuma das duas foi alcançado, embora ainda haja muita gente assustada com o “perigo do socialismo”. O próprio capitão, quando conduzia(!) o Brasil, declarou na ONU que tinha livrado nosso país do perigo do socialismo.

Hoje Donald Trump toma posse do cargo que havia perdido quatro anos antes. Volta a ser presidente dos Estados Unidos por um mandato único e não renovável de quatro anos. A tradição americana não inclui convidar políticos estrangeiros para assistir às cerimônias. Assim mesmo, expoentes da extrema direita internacional fizeram questão de anunciar, com antecedência, sua presença.

Assim, os regozijos pela assunção de Trump contarão com o prestígio de três chefes de Estado ou de governo em exercício: Giorgia Meloni (primeira-ministra da Itália), Viktor Orbán (primeiro-ministro da Hungria) e nosso vizinho Javier Milei, presidente da Argentina.

Mas não é só. Eric Zemmour, ex-candidato à presidência francesa já confirmou presença. As francesas Sarah Knafo e Marion Maréchal, ambas deputadas europeias, também vão. Todos os três são conhecidos por suas posições de direita extrema, anti-imigração, isolacionistas, antimuçulmanos.

Há mais figuras peculiares. O espanhol Santiago Abascal, do partido extremista Vox, estará presente. É aquele que gostaria de enforcar os independentistas da Catalunha por crime de traição. Um espírito suave e tolerante, como se vê.

Outro que fez questão de marcar presença é o britânico Nigel Farage, um dos líderes do movimento isolacionista que culminou no (hoje pranteado) Brexit.

Um alto dignitário do partido Alternative für Deutschland estará, naturalmente, entre os políticos europeus presentes. Afinal, Elon Musk declarou que seu partido extremista, o AfD, era o único capaz de “salvar a Alemanha”. Parece mentira, mas é verdade. Faz poucos dias que isso aconteceu.

Não se sabe bem por que razão, a francesa Marine Le Pen estará ausente. Uns dizem que ela não foi convidada. Outros creem que ela procura se resguardar com vistas às próximas eleições presidenciais. Não quer perder pontos aparecendo em má companhia.

Tem um que anda choramingando pelos cantos. Fez besteira grossa e está de castigo sem poder viajar. Ah, e ele gostaria taaaanto de estar naquele clube acolhedor, no meio de tanta gente fina, todos se ajoelhando diante de um mesmo senhor. Perder uma festa dessas é punição pior que uns dias na cadeia. Ah, como Jair Bolsonaro deve estar se sentindo mal. Excluído de uma reunião da Internacional Reacionária! Ai, como dói.

Raiva do Xandão que não deu licença. Saudades do Trump e dos bons tempos de recepção em Mar-a-Lago. Medo de ser superado por Milei no coração de Trump. Tristeza de não poder se encontrar pessoalmente com Orbán para cobrar a verdadeira razão pela qual a embaixada da Hungria em Brasília não lhe concedeu asilo.

Tem nada não, fica pra outra vez. Mas… será que haverá outra vez?

Fique esperto!

José Horta Manzano

Este escriba é do tempo em que produtos alimentícios não eram etiquetados com data de validade. Nenhum artigo tinha data, nem mesmo garrafas de leite fresco. E como é que se fazia pra sobreviver sem se envenenar neste mundo tão cheio de perigos?

Pra começar, o mundo era menos perigoso, pelo menos é a lembrança que guardo. Por seu lado, visto que nunca ninguém tinha ouvido falar de etiqueta de validade, estávamos todos preparados pra resolver esse tipo de problema com nossos próprios meios.

Peixe no mercado ou na feira? Um rápido exame do olho do bicho nos indicava se era fresco ou se já começava a passar. Frutas e legumes? Um exame visual também era suficiente. Congelados? Não havia. De todo modo, ninguém tinha congelador. Leite, manteiga, queijo? Quem detectava o estado do artigo era o nariz do freguês. Uma cheirada bastava para dar o veredicto. Em vez de etiqueta com data, tínhamos o conhecimento familiar, transmitido de mãe para filha (e de pai para filho também).

Desde que a data de vencimento passou a ser indicada nos produtos, esses reflexos antigos começaram a se perder. Hoje a gente vai buscar os óculos, torce o pescoço e vira a embalagem de todos os lados até encontrar a data. A ninguém mais ocorre recorrer aos métodos antigos. Talvez o conhecimento milenar legado de geração em geração desde o tempo das cavernas, esteja se perdendo, atropelado pela comodidade da etiqueta de validade, que nada mais é que um nariz alheio cheirando nossa comida.


O planeta anda desacorçoado porque aquele bilionário cujo nome lembra um pão de açúcar, dono de Facebook e Instagram, decidiu abolir, ou pelo menos afrouxar, a restrição de notícias falsas que circularem por suas redes. Muita tinta tem sido gasta em comentários e catastróficas previsões sobre o futuro das redes. Sobreviverão, perguntam-se muitos, ou a rede vai virar uma cacofonia dos diabos, um imenso mercado persa em que todos gritam e ninguém se entende?

Olhe, com ou sem controle de “fake news”, eu diria que o ambiente já é caótico, um universo onde a gritaria é tanta que acaba impedindo a circulação da boa informação.

Muitos dos que estão há tempos mergulhados nesse universo sobreviveram até hoje e já provaram ser capazes de viver na tormenta, com mar revolto e ondas gigantescas. Para esses, a eliminação da censura prévia não fará quente nem frio. De toda maneira, sabiam se virar sozinhos.

Para os que se sentirem perdidos, meu conselho é adotarem o sistema da vovó. Não é complicado, é mais ou menos como expliquei nos primeiros parágrafos. Já que vão eliminar todas as etiquetas de validade, o que nos resta é sopesar cada pedaço de informação e só então aceitar ou rejeitar. É bom se desacostumar a engolir como verdade absoluta tudo o que vem escrito.

O novo esquema nos tira uma comodidade (o material não vem mais depurado de vícios e inverdades) porém nos abre largas possibilidades de desenvolver nosso espírito crítico. Agora podemos julgar por nós mesmos, situação que faz bem ao espírito.

No começo, não vai ser fácil. Uma vez passado o tempo de aprendizado, vai ficando mais fácil distinguir o verdadeiro do falso. No fundo, se os frequentadores das redes aproveitarem a oportunidade para aprender a mastigar a própria comida, o clima de liberou geral das redes terá sido uma dádiva.

Obrigado, Mr. Musk, Mr. Pão de Açúcar e quem mais vier!

Os rebeldes que derrubaram o ditador sanguinário

Síria – estradas de rodagem

José Horta Manzano

Uma boa metade da Síria é desértica, sem plantação, sem mato, quase sem gente. A rede ferroviária é limitada e não permite a circulação de pessoas e mercadorias por todos os rincões. Resta a malha rodoviária, cuja coluna vertebral é um eixo de 500 km, que atravessa todo o país na direção Norte-Sul e interliga as maiores cidades.

Esse eixo principal é constituído de excelentes autoestradas – com duas pistas mais acostamento em cada sentido, separados por um canteiro central. Foi essa estrada que permitiu aos rebeldes libertar, em apenas 12 dias, uma cidade atrás da outra, até chegarem a Damasco, a capital, no sul do país.

Sabe-se que a Rússia mantém bases militares no país incluindo uma base naval, a única que os russos têm no Mediterrâneo, e que lhes permite evitar os estreitos turcos. Sabe-se que a Rússia tem sido forte aliada do extinto regime do clã Al-Assad – aliás, o ditador só se segurou no poder até a semana passada em decorrência do apoio militar russo.

Aí vem o espanto. Como é possível que um grupo de rebeldes armados de simples metralhadoras tenha conseguido a façanha de passar 12 dias viajando de autoestrada aproveitando para libertar todas as grandes cidades do caminho, sem ser jamais incomodado pelo exército russo? Está aí um mistério que talvez um dia venha a ser esclarecido.

Vejo duas hipóteses. A primeira é que tenha havido um acerto prévio, combinado entre russos e rebeldes. (É sempre bom combinar com os russos.) Mas a hipótese me parece pouco plausível, visto que os rebeldes não estavam em condições de garantir aos russos a continuidade da autorização de funcionamento das bases militares. Os russos não abandonariam assim, tão facilmente, as bases instaladas na Síria.

Há uma segunda hipótese, que é a mais provável. A facilidade com que os rebeldes percorreram os 500 km de estrada em menos de 2 semanas, libertando cidades, vilas e vilarejos pelo caminho, só foi possível pelo fato de a Rússia estar impossibilitada de defender a ditadura do aliado Assad. Acompanharam os acontecimentos de braços atados, horrorizados mas impotentes. E por quê?

É que o intenso esforço militar que têm feito na guerra que estourou após terem invadido a Ucrânia os deixou mais diminuídos do que se imaginava. Tropas, aviões, tanques e munições que estavam estacionados na Síria já faz tempo que foram levados à Ucrânia. A atual presença russa na Síria é virtual, baseada numa imagem e não na realidade do terreno.

Com um único avião, a Rússia poderia ter bombardeado a autoestrada à frente dos rebeldes, derrubando duas ou três pontes ou viadutos. Isso teria parado a ofensiva, o ditador continuaria no trono e os russos permaneceriam no comando do país. É permitido supor que não tenham tido à mão esse simples avião bombardeiro.

A conclusão é que o temido exército russo está em condições piores do que se imaginava. Isso é ótima notícia para os ucranianos, num momento em que se aproximam as negociações de paz.

Carrefour

José Horta Manzano

Não é de hoje que as grandes redes de varejo europeias dão sinais de descontentamento com o acelerado desmatamento da Amazônia. O problema está ‘dans l’air du temps’ (em sintonia com a atualidade). Na França, país em que qualquer pequeno acontecimento tem potencial de gerar grande polêmica, esse problema do rápido encolhimento da mata tropical é ressentido com maior intensidade.

Nestes dias em que o tratado entre o Mercosul e a União Europeia parece que vai desencantar – depois de mais de 20 anos! – os agricultores franceses começam a sentir-se ameaçados. O medo deles é difuso, um tanto irracional. Está mais pra temor do desconhecido do que receio de uma ameaça real.

Nenhum deles se preocupou em ler o texto do tratado. O que planta hortaliças tem medo de ver o mercado inundado por salsinha e rabanetes uruguaios a preço de banana. O que colhe abricô está apavorado de perder mercado para os abricôs argentinos. O que está criando uma dúzia de galinhas e três porcos tem pesadelos à noite só de pensar na invasão de carne brasileira a preços de liquidação.

Não fica bem montar no trator e fazer carreatas de protesto, trancando as estradas do país, para reclamar de rabanetes e salsinha. Já a carne é excelente motivo. Inventou-se, não sei por que motivo, a balela de que a carne brasileira é produzida segundo normas de qualidade inferiores às normas francesas, e que os bois são engordados à base de hormônios. O mundo agrícola se agarrou a essa notícia falsa.

Faz semanas que o mundo agrícola francês está em ebulição. Não se passa um dia sem alguma manifestação em algum lugar. Monsieur Alexandre Bompard, diretor-geral do grupo Carrefour, farejou excelente ocasião para ficar bem-visto pelos agricultores e para, ao mesmo tempo, promover sua empresa. Mandou carta aos sindicatos agrícolas e repicou nas redes seu compromisso de não vender carne da América do Sul em seus supermercados.

O problema é que o Monsieur não mediu as consequências de sua promessa. Não lhe passou pela cabeça que sua filial brasileira é responsável por quase 25% das vendas do grupo e que a carta enviada aos sindicatos franceses podia vazar e até ecoar no Brasil. Pois vazou e ecoou.

No Brasil, o clamor popular – justificado – foi tal que o CEO logo percebeu a catástrofe que tinha causado. Mais que rápido, curvou-se e mandou uma carta de desculpas a nosso ministro da Agricultura. Na missiva, pede desculpas, elogia a carne brasileira, reconhece que as normas de produção são de Primeiro Mundo, mas não desmente a afirmação que havia feito, de que suas lojas francesas não vão mais vender carne brasileira. Portanto, ficou parecendo pedido de desculpas de mentirinha, só pra enganar ministro.

Outra coisa que Monsieur Bompard não disse é se sua empresa pretende continuar a importar costeletas de carneiro da Nova Zelândia, produzidas não se sabe como, mas que chegam às gôndolas francesas baratinhas, baratinhas.

Vitória da diplomacia brasileira

José Horta Manzano

Leio no jornal de hoje que a cúpula do G20 foi uma “vitória da diplomacia brasileira”. Tenho minhas reservas. Podiam dizer, com mais propriedade, que foi uma vitória da organização do evento, que:

não sofreu nenhum tropeço;

policiou por terra, mar e ar, abatendo drones intrusos;

preocupada com possíveis dificuldades masticatórias ligadas à idade avançada de alguns chefes de Estado, mandou servir-lhes pirarucu (que é peixe) e carne desfiada (que é molinha);

geriu com maestria o alojamento dos milhares de participantes, não deixando nenhum deles ao relento nas areias de Copacabana;

tocou com profissionalismo a complicada tradução multilíngue e simultânea das falas e dos discursos pronunciados em todas as línguas de Babel;

conseguiu convencer os cariocas a esvaziarem ruas e avenidas, sem fazer cara feia, para ceder passagem a alguns dos grandes deste mundo;

coordenar a presença de nossos graúdos com os graúdos de fora que pousavam ou decolavam do Galeão e requeriam uma acolhida à altura da ocasião. Há participantes que vieram de muito longe: alguns estão desde ontem voando de volta a seu país, onde só pousarão nesta quarta-feira à noitinha, hora de Brasília.

Entre outros, que me escapam neste momento, foram esses os pequenos ou grandes detalhes que compuseram a feira de vaidades que o Rio acolheu.

Quanto ao brado ufanista de “vitória da diplomacia brasileira”, acho-o exagerado. Quando o evento se abriu, já fazia dias que assessores e colaboradores tresnoitavam na confecção de um “comunicado final” que agradasse a todos os participantes ou, pelo menos, que não desagradasse frontalmente a nenhum deles.

É obra quase impossível. Em tese, há tantas posições quantos são os participantes. Todas divergentes entre si. Nessas horas, a solução é limar asperezas, aplainar desacordos, arredondar cantos, até que o texto se torne aceitável por todos. O resultado dessa busca de um denominador comum são comunicados finais insossos, pasteurizados, que não comprometem ninguém, que excluem dissensos e pontos de atrito.

Não se falou dos massacres provocados pela invasão da Ucrânia pela Rússia, não se deu importância aos massacres entre árabes e judeus. Sobraram vagas promessas de trabalhar pela erradicação da fome no planeta, arroz com feijão que ressurge a cada cúpula, seja ela qual for.

É o caso de se perguntar para quê servem essas cúpulas. Não tenho resposta exata e cravada, mas eu diria que, no mundo internetizado em que vivemos, não têm mais grande utilidade. Tudo o que se pode discutir em torno daquela imensa mesa, redonda ou em ferradura, pode ser debatido, com vantagem, numa videoconferência. Que, aliás, sai imensamente mais barata.

Nos anos 1970 e 1980, as reuniões do G7 (que já foi G5, G6, G8) eram um acontecimento. Numa era pré-internet, conferências presenciais eram indispensáveis. Naqueles anos, talvez, alguma decisão importante tenha sido tomada na ocasião desses encontros.

Hoje não é mais assim. Há grupos demais, conferências demais, reuniões demais. O que é demais cansa. Cada novo evento desse tipo suga a importância do anterior. Saibam meus caros leitores que, na Europa, não ouvi nem li uma linha sobre esse G20. Nada. Ninguém aqui ficou sabendo da extraordinária “vitória da diplomacia brasileira”.

Quando dois se reúnem, temos discussão séria e pra valer. É um pingue-pongue radical e frutuoso: se houver vontade de entrar num acordo, uma meta comum vai aparecer. Reunião de três participantes pode até funcionar, embora já não seja a mesma coisa. Mais que isso, complica.

Por outro ângulo, quando há uma certa uniformidade entre países participantes (PIB per capita, níveis de pobreza, avanço tecnológico razoavelmente compatíveis), as discussões tendem a ser menos ásperas e mais produtivas.

O chamado G20 é composto por países de grande disparidade de população, nível econômico, sistema de governo. Há democracias e autocracias medievais como Arábia Saudita e Rússia. Há países leigos e outros que se encaminham para tornar-se uma teocracia como Turquia e EUA. Há fortes diferenças em matéria de PIB (o da China é 37 vezes maior que o da África do Sul).

Nenhuma declaração de guerra jamais sairá dessas cimeiras. Nem tratados de paz, que necessitam seleção específica de participantes. Desse tipo de reunião, seja de G20, G7, Brics & congêneres, só podem sair esparadrapos – insuficientes para conter sangrias.

Mas já que divertem o povo e confortam o ego de organizadores e participantes, que se divirtam todos.

O palavreado de Milei

José Horta Manzano

Num aprendizado benfeito, o aprendiz que se aplica de verdade chega, às vezes, a superar o mestre.

Tome por exemplo Donald Trump, presidente eleito dos EUA. Seu palavreado tem feito sucesso entre os que apreciam um governo autoritário. O personagem é mentiroso contumaz, dono de um discurso recheado de lorotas. Um dia, falando em público na época do covid, revelou que tinha o hábito diário de tomar creolina(*) como preventivo contra a doença. Pois sim… (como se dizia antigamente para demonstrar que não dava pra acreditar).

Tremendas mentiras, sim. Apesar delas, Trump não é conhecido por fazer discursos recheados de insultos e palavrões. Pode ser que escape alguma coisinha aqui ou ali, mas não é a tônica.

Nosso Jair Bolsonaro nacional, admirador declarado de Trump, tentou adotar o estilo oratório do ídolo. Só que seu baú de expressões é pobre e sua mente, pouco criativa. Em decorrência, decerto por falta de palavras, não conseguiu elevar o nível de suas invectivas. Seus quatro anos na Presidência escorreram sem que ele fosse além de palavrões rasteiros, daqueles de boteco de beira de estrada. Foi incapaz de estruturar um raciocínio sequer.

Virada a página de Bolsonaro, novo aprendiz apareceu na Argentina. Chama-se Javier Milei. Mais jovem, mais vigoroso e mais instruído que o capitão, conseguiu juntar, em seus discursos, a agressividade de Trump e a vulgaridade de Bolsonaro. Mas não se contentou de apenas continuar vivendo de carona, aboletado no calhambeque dos tutores. Com sua motosserra, alargou a picada a fim de poder trafegar com seu caudal de impropérios.

Assustados com seu palavreado, catedráticos da própria universidade em que Milei se formou vêm publicando artigos no site da instituição, textos que acabam repercutindo na mídia argentina. Karina Galperín, diretora-geral de estudos da universidade, declarou que a luta selvagem de Milei pela desregulamentação atingiu seu discurso político. O jornal La Nación analisou um discurso pronunciado pelo presidente no mês passado e descobriu que, em 70 minutos de fala, o discursante cometeu nada menos que 29 agressões.

Aqui estão alguns dos insultos, cuja variedade deixa Trump e Bolsonaro comendo poeira: casta podre, vendidos, kirchneristas, ratazanas, bando de delinquentes, ladrões, excremento humano(!), mentirosos, traidores, covardes, imbecis, ratos miseráveis, bunda suja, degenerados fiscais, esterco imundo(!).

Essa moda de se comportar há de corresponder a uma tendência mundial. Ainda outro dia, a cidade de São Paulo passou pertinho de mandar para o segundo turno um forasteiro aventureiro que parecia ter incorporado o espírito do presidente argentino. Desta vez, foi por pouco, mas ninguém garante que, da próxima, o resultado não seja diferente.

Os argentinos usam um verbo cujo significado, à primeira vista, nos escapa: putear. Em política, se usa para definir um palavreado chulo, rasteiro, recheado de palavrões. A imprensa informa que Milei sempre foi fã desse modo de se exprimir. Só que, enquanto era um personagem obscuro, o problema não era tão grave. Agora, que se tornou chefe do Estado, o eco chega mais longe.

Como se vê, parece que a puteada está se tornando o dialeto habitual dos novos dirigentes autoritários, uma política de comunicação eficiente e aceita pelos eleitores. Os discípulos de Trump estão se saindo melhor que o mestre.

(*) Não me lembro bem se Trump disse creolina, benzina ou querozene. Tanto faz, dá no mesmo: seja qual for o desinfetante, a mentira da afirmação é ululante.

Lembro a meus queridos leitores que “creolina” não tem nada a ver com as palavras hoje proibidas por habitarem no index verborum prohibitorum. Creolina não tem a ver com raça. É marca comercial de um antigo desinfectante e antisséptico feito à base de creosoto, daí o nome. Não sei se ainda é produzido.

Mais quatro aninhos

by Neil Davies, desenhista britânico

José Horta Manzano

Donald Trump vai assumir a Casa Branca a partir de janeiro próximo, isso é uma verdade que não há como mudar. O que, de bom ou de mau, tiver de acontecer durante seu mandato, acontecerá, gostemos ou não.

Contra fatos, não há argumentos. Escolhido por sólida maioria de seu povo, o magnata será presidente pelos próximos quatro anos, salvo se o céu lhe caísse sobre a cabeça, catástrofe que não aconteceu mais desde os tempos bíblicos.

Meu palpite – gratuito e sem compromisso – é que Trump 2 será menos impactante que Trump 1. Primeiro, todo o mundo já conhece a peça e espera dele o pior, portanto não há surpresa. Segundo, o bilionário não tem mais grande coisa a provar. Nasceu em berço de ouro, conseguiu multiplicar a fortuna que recebeu, tornou-se personalidade de projeção nacional devido a sua constante presença na televisão. Depois disso, contra todos os prognósticos, alcançou a Casa Branca, foi na segunda tentativa, ressuscitou e voltou surfando na crista da vontade popular. Pela segunda vez, vai se tornar o homem mais poderoso do planeta.

Que mais pode ele querer? Na idade em que está, o momento de glória máxima é este. Não vejo mais o que pode almejar. Creio que não fará como nossos desajeitados políticos que, depois de um cargo maior, se resignam a descer alguns degraus e aceitar um cargo menor. Ou alguém imagina um futuro Trump deputado?

Eu tinha lembrança de que, nos EUA, presidentes não podem exercer um terceiro mandato. Pra ter certeza, fui pesquisar e encontrei. A 22ª emenda à constituição americana, ratificada sete décadas atrás, é taxativa: ninguém poderá exercer a Presidência do país por mais de dois mandatos (consecutivos ou não).

Assim sendo, a não ser que Donald Trump decida iniciar uma carreira de ditador aos 78 anos de idade – e que obtenha o apoio necessário para tal empreendimento – daqui a quatro anos ele deixará a Presidência. É o consolo que nos resta.

Para nós, minha gente, duro mesmo foi aguentar os quatro anos do capitão. Trump, nóis tira de letra.

Observação
O glorioso ano de 1946 foi o único, até hoje, que deu aos Estados Unidos três presidentes da república: Bill Clinton, George Bush (júnior) e Donald Trump nasceram naquele mesmo ano. Este escriba também.

Pesadelo voltou

José Horta Manzano


Algumas considerações sobre Trump e sua nova eleição (que alguns chamam equivocadamente de “reeleição”)


Nem as preces, promessas, novenas, oferendas e despachos de meio mundo foram suficientes. Os americanos, os verdadeiros donos da bola, votaram como bem entenderam. E mais uma vez elegeram Donald Trump para a Casa Branca. Como é que pode? Para mim e para muitos, aquela mulher simpática, sorridente e diplomada transmite mais confiança que aquele velho pretensioso, grosseiro e ameaçador.

Acredito firmemente que as tradições daquele país – ligadas à força física, à violência, à lei do mais forte, à crença de que vence o que atira primeiro ou o que bate mais forte – falaram mais alto. Não é tão já que entregarão as rédeas do país a uma mulher. E, ainda por cima, de pele escura.

Muitos povos têm fixação em tempos gloriosos que ficaram no passado. Franceses e ingleses vivem a nostalgia da época das colônias, em que viviam num país rico e poderoso.

Em Portugal, esse sentimento é especialmente presente. Fala-se sempre, com certa saudade, do tempo em que o pequenino país tinha importância mundial por ter colônias ultramarinas. Muitos anos atrás. tive um colega de serviço português, que suspirou um dia, balançando a cabeça e, com ar acabrunhado, me confessou sua tristeza: “Ah, e perdemos o Brasil…”.

A partir de 1945 e pelas três décadas seguintes, os EUA viveram seu apogeu. Eram os maiores em todos os pontos: os mais poderosos, os mais ricos, os mais influentes. Todo o mundo respeitava aquele país e gostaria de viver lá. O cinema nos trazia imagens de uma civilização avançada.

Quando Trump insinua que vai fazer com que seu país volte a ser importante (Make America Great Again), está aludindo àquele período. Quem é que não gostaria, não digo de voltar ao passado, mas de reviver uma época dourada, de crescimento, sem desemprego, sem concorrência comercial à altura do país? Um período de dólar forte, que permitia à população viajar à Europa ou ao México com dinheiro farto no bolso.

Pois é esse argumento de dar água na boca que aflora no imaginário do americano comum quando Trump brande seu MAGA (Make America Great Again). Seria difícil perder a eleição.

Cantinho da Candinha
Será que é impressão minha? Pela foto do início deste artigo, parece que Donald Trump abandonou a perturbadora coloração laranja do cocuruto e permitiu a seus cabelos viver uma velhice normal?

Como meus cultos leitores sabem, dona Melania Trump é originária da Eslovênia, pequeno país de dois milhões de habitantes, resultado do despedaçamento da antiga Iugoslávia. Estive hoje dando uma vista d’olhos aos jornais de lá. Como se pode imaginar, estão exultantes com a perspectiva de voltar a ter, por quatro anos, uma conterrânea no posto de First Lady dos EUA.

Por um desses veículos, fiquei sabendo que Barrow Trump, aquele garoto meio desengonçado que aparecia nas fotos durante a primeira presidência do pai, está hoje com 18 anos. Cresceu, cresceu, passou mãe e pai, está com 2,06m. Um assombro! Além do inglês, fala esloveno fluentemente. Fora de casa, só inglês. Da porta pra dentro, só esloveno. Se o pai não estiver, naturalmente.

Você fala esloveno?

Unrwa

Unrwa – países doadores

José Horta Manzano

A resolução da ONU que repartiu o território palestino entre judeus e árabes criando o Estado de Israel (1948) foi o ponto de partida da desavença que dura até hoje na região. A questão é muito delicada e de difícil solução, por envolver dois povos que reivindicam o mesmo território.

No dia seguinte à criação de Israel, a ONU criou a Unrwa – Agência das Nações Unidas de Assistência aos Refugiados da Palestina no Oriente-Médio. Nestes 75 anos, essa agência vem garantindo assistência e proteção aos refugiados palestinos.

Estabelecidos em Gaza, em Israel (Cisjordânia ocupada), no Líbano, na Síria e na Jordânia, os postos da agência oferecem escolas, cuidados de saúde, ajuda alimentar, microfinanciamento, apoio legal à população desvalida, ou seja, a praticamente todos os árabes da região.

Com o pretexto de que haveria funcionários da Unrwa entre os terroristas do Hamas que atravessaram a fronteira e massacraram civis israelenses em outubro do ano passado, o parlamento de Israel acaba de aprovar o banimento da agência de todo o território do país.

Essa expulsão vale para a Cisjordânia (territórios ocupados) e para toda a Faixa de Gaza (ocupada de facto por Israel). Esses territórios abrigam justamente a população que mais carece de ajuda para sobreviver. Sem o amparo da Unrwa, o que significa sem remédios, sem escolas, sem alimentos, sem proteção contra agressões, há que temer pelo futuro desse povo infeliz.

A Unrwa se apoia numa grande organização de cerca de 27 mil funcionários. São financiados por dezenas de países ao redor do mundo; até o Brasil aparece entre os doadores (veja mapa que encabeça este artigo). No entanto, nem uma agência como esta, sustentada pelos EUA, pela China, pela Rússia, pela Índia e até pelo Brasil, poderá levar um prato de comida a quem tem fome naquele pedaço de mundo se Israel não deixar entrar.

Temos visto a ferocidade com que o exército israelense cuida da destruição de Gaza, prédio por prédio, quarteirão por quarteirão. Temos visto a desumanidade com que atacam escolas, hospitais e campos de civis refugiados. Temos visto a pontaria com que mandam pelos ares ambulâncias e civis que se locomovem em lombo de burro. Temos agora o banimento do único canal de ajuda de que dispunham os palestinos.

Fica um nó na garganta e uma insuportável impressão de estar assistindo a um meticuloso, planejado e organizado genocídio.

Nota
Uma das condições estabelecidas na Convenção de 1948 em que a ONU definiu o crime de genocídio é o item 3°:

“Submissão intencional do grupo [cujo extermínio esteja sendo executado] a condições de existência que lhe ocasionem a destruição física total ou parcial”.

É o caso.

Eutanásia

José Horta Manzano

O caso de Antônio Cícero, homem de letras e acadêmico que atravessou o Atlântico para um encontro com hora marcada com a morte, deixou amigos e conhecidos consternados quando tomaram conhecimento do caminho escolhido por ele.

Morte é matéria sempre desagradável. Quando vem acompanhada da expressão “com hora marcada” (hoje: agendada), choca ainda mais. Apanhada de surpresa, a mídia tratou de compor o obituário. Ao mesmo tempo, soltou manchetes com uma palavra inusitada: eutanásia.

Estamos todos habituados a ouvir falar em eutanasiar bicho, principalmente animais de estimação, mas… eutanasiar gente? Como é que funciona? Talvez eutanásia não seja a melhor opção para descrever o caso aqui tratado.

Do vago significado original de “boa morte”, o termo eutanásia especializou-se em descrever o caso de alguém, geralmente o médico, dar a morte ao paciente por motivo misericordioso, para abreviar-lhe a agonia. Trata-se de gesto que, por ser irreversível, definitivo e passível de questionamento, é rigorosamente enquadrado, nos países que o admitem oficialmente.

Na Europa, região do mundo em que gestos ligados à morte em ambiente clínico e hospitalar estão sendo discutidos há muito tempo, há consenso na classificação das diferentes formas de “eutanásia”, se assim podemos nos exprimir. Vamos à nomenclatura.

 


Eutanásia ativa
É o fato de pôr fim deliberadamente ao sofrimento de uma pessoa. Um médico ou um terceiro, por exemplo, injetará uma substância que causará diretamente a morte do paciente.

Em toda a Europa, somente cinco países (Bélgica, Países Baixos, Luxemburgo, Espanha e Portugal) autorizam a eutanásia humana ativa. É uma prática que tem de ser muito bem enquadrada, para evitar deslizes e desvios de função.


Eutanásia passiva ou indireta
Ocorre quando a equipe médica responsável pelo paciente decide não tomar medidas para prolongar a vida. A morte pode ocorrer por meio da administração de drogas analgésicas ou após a desconexão do respirador.

Uma dúzia de países europeus autorizam a eutanásia passiva, que tende a evitar tentativas obstinadas de manter o moribundo em vida, quando seu mal é incurável e seu estágio, terminal.


Suicídio assistido ou suicídio assistido por médico
Refere-se ao ato de tirar a própria vida com a ajuda de uma pessoa que fornece os meios para isso. No entanto, o gesto final deve imperiosamente ser feito pelo próprio paciente, caso contrário, a prática constituiria eutanásia ativa.

O único país europeu a ter reconhecido e regulamentado o direito ao suicídio assistido é a Suíça, onde a prática é plenamente autorizada. Para seguir esse caminho, três condições dever ser preenchidas: 1) o paciente deve estar plenamente capaz de discernir, 2) é ele quem deve administrar a dose letal sozinho, 3) o médico que assiste não deve estar movido por motivos egoístas (ser um dos herdeiros, por exemplo). Na prática, para ter acesso ao suicídio assistido, é preciso inscrever-se numa das associações que se dedicam a essa matéria.


O arguto leitor e a inteligente leitora já devem ter entendido que Antônio Cícero não foi “eutanasiado”. Na verdade, optou pelo suicídio assistido, ou seja, ele mesmo deu-se a morte. Escolheu dia, hora e lugar. Veio à Suíça porque é o único país europeu em que essa prática é depenalizada.

Requiescat in pace.

Aviso aos agrotrogloditas

As redes gigantes suíças de supermercados

José Horta Manzano

Aqui na Suíça, deu hoje no rádio, na tevê e nos jornais. Greenpeace, a poderosa e respeitada ong internacional, publicou o resultado categórico de uma investigação sobre a origem de certos produtos à base de carne vendidos pelas duas redes de supermercado que dominam o mercado suíço.

A ong fez uma acusação pesada às redes Coop e Migros, que, juntas, respondem por 70% do comércio de alimentos no país. As redes estão sendo acusadas de vender derivados de carne brasileira, como ‘corned beef’ por exemplo, proveniente de zonas desmatadas na Amazônia. Isso faz o efeito de uma pancada na moleira.

Faz tempo que os dois gigantes tinham se comprometido a não comercializar produtos provindos de áreas desmatadas. A investigação, bastante aprofundada, segue o caminho dos produtos incriminados, desde o pasto até as prateleiras dos supermercados. Assim, a acusação é plausível.

As redes de supermercados reagiram imediatamente. Por meio de porta-vozes, produziram explicações um pouco remendadas, dizendo que, veja bem, não é bem assim, há uma inexatidão de contexto, blá, blá.

Exatamente quatro anos atrás, em meados da gestão bolsonárica, eu já tinha escrito um artigo sobre esse fenômeno. Naquele momento, dei como exemplo o caso do azeite de dendê importado da Indonésia, produto acusado por muitos de resultar de uma política de intenso desmate.

O distinto público passou a procurar nas etiquetas se cada produto continha ou não o tal “óleo de palma”. Resultado: os fabricantes que conseguiram reformular seus produtos para deixar de conter esse ingrediente passaram a anotar na embalagem, bem visível: “No palm oil” – Sem óleo de palma.

Está mais que na hora de os agrotrogloditas, como bem os descreve Elio Gaspari, desistam de desmatar para plantio ou criação de gado. Tem gente de olho, acompanhando o abate de cada árvore, para poder botar a boca no megafone e balançar o coreto do lado dos eventuais compradores.

Não vai ser possível plantar e criar gado como se estivéssemos ainda nos séculos de antigamente. O cliente final de hoje quer ter mais informação sobre o que vai pôr no prato. Não se deixa mais engabelar assim tão fácil. Em breve, a legislação vai endurecer e o controle da origem das mercadorias deixará de ser feito na base da boa vontade. Vai ser enquadrado pela lei.

É aí que a porca vai torcer o rabinho.  (Toda alusão à salsicha de porco terá sido mera e fortuita coincidência.)

Endosso

Taylor Swift, “Childless Cat Lady”

José Horta Manzano

Para as pessoas que, como este escriba, têm uma visão nítida do mal que um Trump – se eleito presidente dos EUA – pode causar à humanidade, soa irreal imaginar que algum eleitor americano possa redirigir seu voto, para atender à recomendação de uma celebridade. A gente acredita que trumpistas e kamalistas pertencem, cada um, a um mundo diferente: como água e óleo, não se misturam.

No entanto, pesquisas feitas estes últimos anos revelam que há eleitores que escolhem seu candidato mas, ao mesmo tempo, não se sentem comprometidos com suas ideias. Esse posicionamento entreabre o caminho de uma eventual mudança de voto.

A plataforma The Conversation, que reúne artigos de acadêmicos e jornalistas, lembra o resultado de um estudo feito em fevereiro de 2020 nos Estados Unidos. A pesquisa descobriu que 89% dos adultos não mudariam seu voto mesmo que sua celebridade preferida endossasse a candidatura adversária.

Como de costume, pode-se também ler esses resultados ao contrário. Se 89% dos cidadãos não mudariam seu voto, os restantes 11% confessam que provavelmente acompanhariam a recomendação de um artista ou de alguém conhecido e influente, e mudariam o voto. Entre os jovens eleitores, essa porcentagem é ainda maior: 19% deles estariam dispostos a aceitar a sugestão de seu artista preferido.

Numa eleição presidencial apertada, como a deste ano nos EUA, a recomendação dada por Taylor Swift tem eco especial nessa franja de eleitores. São 283 milhões de seguidores que potencialmente leram seu post de endosso à candidatura de Kamala Harris. Desse mato podem sair coelhos suficientes para dar a vitória à simpática candidata.

Nos EUA, a apuração é lenta, aventurosa e cheia de surpresas. Portanto, na pior das hipóteses, assim que o Natal chegar já estaremos sabendo.

O debate Trump x Kamala

Kamala Harris: expressão corporal durante o debate com Trump

José Horta Manzano

Não assisti ao debate eleitoral americano de ontem. É que, devido à defasagem causada pelo fuso horário, o programa caiu por aqui no meio da madrugada. Mas já li a notícia e mais meia dúzia de artigos de opinião.

Parece que os analistas se puseram de acordo: descrevem o duelo com palavras semelhantes e são unânimes em atribuir a vitória a Kamala Harris. Por pontos, é verdade, mas sempre vitória é. (Aliás, como seria mesmo uma vitória por nocaute?)

Entretanto (ou however, como dizem eles), a história tem um nó. A opinião pessoal dos eleitores de lá anda tão cristalizada, que é difícil que o debate, por mais esclarecedor que seja, abale alguém a mudar o voto. Ao fim e ao cabo, cada eleitor desligou a tevê satisfeito de ver que seu(sua) candidato(a) é de fato superior ao adversário. Afinal, cada um ouve o que quer e retém o que deseja, não é mesmo?

De fato, tenho dificuldade em imaginar um trumpista roxo ter se encantado com a verve de Kamala, a ponto de decidir se tornar kamalista, se me perdoam o neologismo. O mesmo vale para o vice-versa. Ou alguém imagina um fervoroso democrata ter-se tornado trumpista desde ontem?

Logo, para que servem esses debates? Se não servem pra orientar eleitores e fazê-los escolher candidato, qual é a utilidade? Talvez para incentivar eleitores preguiçosos a se levantarem do sofá e se dirigirem ao posto de votação.

E há outro nó. É um pouco complicado de entender para nós, que vivemos numa república onde, na hora de escolher o presidente, todos os votos são iguais. Para nós, um eleitor equivale a um voto; e o chefe da nação será o candidato que obtiver mais votos. Nos EUA é mais enrolado.

Na intenção de dar uma ajuda aos estados menos populosos, os fundadores do país complicaram o sistema. Não tenho a pretensão de explicar aqui como funciona, mas o fato é que, a nossos olhos, o resultado pode ser distorcido. O candidato que tiver o maior número de votos não é necessariamente o vencedor. Acontece com certa frequência que o vencedor do voto popular perca a eleição.

Assim, por mais empolgante que seja – tem gente que perde horas de sono só pra acompanhar – o debate eleitoral americano é jogo que não vira o jogo. Um desastre, como o desempenho de Biden no duelo anterior, tem mais força que um bem estruturado debate de ideias.

Só me resta dar um conselho a nossos leitores americanos (não sei se os há, mas devem ser numerosos).

Votem em quem quiserem, mas não votem em Trump.
Para o bem da humanidade.

É Natal na Venezuela

José Horta Manzano


“Está chegando setembro, e graças ao fato de termos encerrado o mês de agosto com boas perspectivas econômicas, podemos dizer que [o ar] já traz um cheiro de Natal”.


Quem disse isso, em seu programa semanal de televisão, foi o presidente da Venezuela, señor Nicolás Maduro. Até aí, a declaração podia não passar de mais uma autolouvação, comum entre mandatários. Mas ele foi adiante.

Depois de aproveitar a ocasião para açoitar os “sabotadores” e os “fascistas” que tentaram, sem sucesso, atacar a nação, anunciou o prêmio maior: este ano, o Natal venezuelano muda de data. Em vez de ser comemorado no tradicional 25 de dezembro, fica reagendado para 1° de outubro, daqui a um mês.

A mídia do país, que calça luvas para tratar de assuntos ligados à alta cúpula, não disse nem sim, nem não, muito pelo contrário. Ninguém ousou denunciar o tragicômico da situação. Ninguém teve coragem de lembrar que, dado que é festa religiosa católica, só quem tem o direito de modificar a data do Natal é o Vaticano – que, aliás, não mexe no assunto há séculos.

Nas entrelinhas dos veículos, perdido entre comentários de leitores, está o desabafo de um cidadão segundo o qual, num momento em que muitos não têm o que comer, não fica bem decretar que este ou aquele dia é dia de festa. É indecente.

De fato, na terra dos amigos de Lulamorim, cidadãos passam fome. E o tirano que os domina e constrange pelo medo tem delírios dignos de um Musk.

A diferença é que Musk é um rei sem reino, enquanto Maduro é rei com coroa, manto e cetro. E um povo inteiro pra chamar de seu e pra oprimir.