Filho de brasileiro, brasileiro é

José Horta Manzano


De  criança, aprendi que filhote de gato que nasce no forno não é biscoito. Pela mesma lógica, filho de brasileiro que nasce no exterior não é estrangeiro.


Embora pareça verdade cristalina, são muitos os que não acompanham esse raciocínio. Vamos olhar de mais perto.

No começo dos anos 1800, quando o Brasil se tornou independente de Portugal, surgiu a necessidade de definir quem era brasileiro e quem era estrangeiro.

Por falta de método mais sofisticado, optou-se pelo país de nascimento. Ficou combinado que era brasileiro quem tivesse nascido no Brasil – os demais eram considerados estrangeiros. Nosso país não foi o único a chegar a esse ponto de inflexão. Todas as novas nações das Américas passaram um dia por aí. E todas fizeram a mesma opção. Era o lugar de nascimento que determinava a nacionalidade.

O sistema funcionou a contento numa época em que viagens transoceânicas eram incomuns. Quanto ao imigrante, tanto podia requerer naturalização depois de viver um certo número de anos em território nacional quanto podia continuar estrangeiro até o fim da vida. Já no que se refere aos brasileiros, visto que eram praticamente todos nascidos aqui, não havia o que discutir.

A segunda metade do século 20, no entanto, deu uma chacoalhada no vespeiro. Mais e mais, os humanos se lançaram em longas viagens, de trabalho ou de lazer. As três últimas décadas assistiram a um movimento de reversão migratória. Enquanto a chegada de imigrantes praticamente cessou, brasileiros – em maioria jovens – se estabeleceram no exterior, principalmente na América do Norte, na Europa e no Japão.

Essa movimentação trouxe à luz uma realidade para a qual não existiam textos de lei. Com filhos de brasileiros nascendo no exterior, a antiga máxima que dizia “quem nasce no Brasil é brasileiro, os demais são estrangeiros” não funcionava mais. Como acolher os filhotes de nossos conterrâneos nascidos fora?

Cheia de nove horas, a Constituição de 1988 e as leis posteriores titubearam. Não pensaram no drama desses pequerruchos nascidos no exterior. Botaram condições estranhas para que eles fossem reconhecidos como brasileiros. Disseram que os interessados tinham de voltar a viver no Brasil, na maioridade, para só então adquirirem a nacionalidade, o que criou uma legião de pequenos apátridas.

É que, na cabeça do legislador sem experiência internacional, basta nascer na Alemanha (ou no Japão ou na Inglaterra ou na Itália) para receber automaticamente a nacionalidade desse país; assim, os brasileirinhos nascidos fora já contariam com uma nacionalidade. Só que não é desse jeito que funciona. Tirando os países das Américas, não conheço nenhum outro que conceda cidadania automática aos filhos de estrangeiros nascidos no país.

Na Alemanha (ou no Japão ou na Inglaterra ou na Itália), a nacionalidade é atribuída pela lei do sangue. Assim, filho de brasileiro é brasileiro. Diante dessa evidência, o legislador brasileiro concordou em “facilitar” a transmissão da nacionalidade dos pais brasileiros aos filhos nascidos no exterior. A cidadania brasileira é reconhecida “desde que” o recém-nascido seja registrado em repartição brasileira no exterior. A meus olhos, essa exigência é um perfeito absurdo. A condição de transmissão da nacionalidade para uma criança nascida no exterior é uma só: que um dos pais seja brasileiro. Mais nada. Esse “desde que” sobra. Mas ele está na lei até hoje.

É difícil convencer legislador sem experiência internacional. Um dia, quem sabe, chegamos lá.

Ministros do Supremo – adendo

José Horta Manzano

Semana passada, escrevi um artigo comentando a fala polêmica de Luiz Inácio em que ele exprimia seu desejo de que os ministros do STF fossem mais discretos. Em razão da pobreza de vocabulário de Lula, as frases saíram mal formuladas, logo mal compreendidas.

Num momento inusual, daqueles que só acontecem a cada morte de papa, alinhei-me com o presidente. No artigo, expus minha visão. Na sequência, me dei conta de que as palavras do Lula tinham levantado uma grita geral. Discretamente, alguns de meus leitores também se mostraram decepcionados com o que eu escrevi.

Acredito que, como Luiz Inácio, também eu não devo ter sido claro. Vamos tentar de novo.

Que se compreenda logo: passa longe de mim o desejo de ver a Justiça do Brasil acolher julgamentos secretos. Tribunais secretos combinam com regimes autocráticos e autoritários, daqueles em que o cidadão é levado para a cadeia para lá apodrecer, sem processo e sem nunca saber a razão do encarceramento. Não é assim que eu gostaria que a Justiça funcionasse em nosso país.

Em dezembro de 2018, escrevi para o Correio Braziliense um artigo exortando os ministros do STF a nunca se esquecerem que o Supremo é um tribunal colegiado. O artigo, que nunca perdeu a atualidade, teve boa repercussão na época. Está aqui para quem quiser dar uma olhada.

O STF não é um tribunal qualquer. É o superior, o maior, o supremo, o nec plus ultra. E, principalmente, é um tribunal colegial. Suas decisões não podem ser atabalhoadas nem muito menos personalizadas. A meu ver, a decisão de cada processo tem de ser evidentemente publicada, mas os debates internos e o voto de cada um dos ministros não deveria ser dado ao conhecimento do público. Essas discussões deveriam ficar consignadas apenas nas atas internas.

Não vejo realmente o interesse em saber quem votou como. O importante é o resultado colegiado.

No tribunal do júri funciona assim, sem que ninguém se abale. Os jurados se reúnem em privado para determinar a culpabilidade ou não do réu. Votam. Ao final, entregam ao presidente do tribunal o resultado final das deliberações. O distinto público jamais ficará sabendo como votou cada jurado. É um bom exemplo de deliberação colegiada. Nenhum jurado periga ser hostilizado na esquina.

No Brasil, estamos acostumados a grande quantidade de decisões monocráticas tomadas pelo STF. Faz poucos dias, um dos magistrados decidiu, de uma canetada, deletar as provas de um processo monstro, que tinha levado anos para ser instruído. Causou comoção nacional.

Como é possível que, num tribunal colegiado cujas decisões só deveriam ser tomadas depois de debate interno entre os membros, um único ministro consiga impor sua vontade assim, de repente, como se tivesse levantado de bom (ou mau) humor? É difícil entender.

Dependesse de mim, o STF passaria por uma reforma profunda, uma renovação da cabeça aos pés. Decisões monocráticas só seriam admitidas em casos extremos, como por exemplo numa situação de urgência. (Se bem que, sabendo que um processo leva anos até chegar ao STF, não vejo bem qual poderia ser a urgência.) Toda decisão monocrática seria obrigatoriamente liminar, passível de ser referendada pelo pleno.

Em se tratando do Supremo, tem muita coisa que me parece fora do eixo. É absurda essa multidão de cidadãos com foro especial, acima da ralé. Acho que foro por prerrogativa de função deveria ser concedido somente ao chefe de cada Poder da República. Só enquanto estiver no cargo.

Enfim, só pra resumir:


Justiça discreta não é o mesmo que justiça secreta.


O que eu gostaria de ver é a despersonalização dos membros do Supremo, o desaparecimento do estrelismo, o fim dos ataques virtuais e verbais contra este ou aquele ministro, sempre ao sabor de polarizações políticas. E o fim de decisões monocráticas fora de situação de urgência.

Sete de Setembro e o futuro da sociedade

José Horta Manzano

Em artigo publicado no Estadão deste 7 de setembro, o analista William Waack destaca que vivemos numa “sociedade desordeira, sem grande apego a valores de comunidade, carente de lideranças abrangentes e profundamente desconfiada dos sistemas político e de governo”.

Não há como discordar.

  • Ignorando que o cimento que mantém a sociedade unida são as normas que valem para todos, os brasileiros formam uma sociedade avessa a regras e regulamentos.
  • As tensões provocadas pela impermeabilidade entre os diferentes estratos sociais são sentidas no dia a dia. A ausência difusa do sentimento de pertencer a uma comunidade impede a adesão do cidadão a valores comuns.

A mistura desses ingredientes produz uma sociedade bloqueada, que se compraz em carregar seu pecado original sem jamais tentar se lavar dele.

Nessas condições, toda veleidade de conserto vai esbarrar na apatia geral da nação. Complacentes, continuamos eletrizados pela trama da novela da noite – talvez o único fato que recebe apoio geral da população. E o resto não avança.

Quadro desanimador, não é? Impróprio para um Sete de Setembro. Gostaria de trazer alguma notícia alvissareira, mas não encontro.

Nossa data maior resume-se hoje a uma partida de pingue-pingue surreal. Uma vez, é o capitão avacalhando a festa ao conclamar seus discípulos à derrubada do regime. Outra vez, é Luiz Inácio, todo sorrisos, soltando palavreado manso e sem energia, num discurso pronunciado de véspera.

Se encontrar ânimo, volto outra hora pra dar explicações sobre meu artigo de ontem (Ministros do Supremo), que acredito não ter sido compreendido por todos.

Por enquanto, bom feriado aos distintos leitores e às encantadoras leitoras!

Ministros do Supremo

José Horta Manzano

Suponho que todo país democrático, como o nosso, conte com uma corte suprema. Em certas repúblicas, a magistratura suprema é exercidas por duas diferentes instituições.

Na França, por exemplo, a única atribuição da Corte Constitucional é certificar a constitucionalidade (ou não) das leis feitas pelos parlamentares. Em caso de controvérsia, é essa Corte que dá a palavra final.

Em paralelo, há também a Corte de Cassação, que corresponde a nosso tribunal de terceira instância. Na França, sua função não é julgar processos. A primeira e a segunda instâncias são as que julgam. Esta terceira instância, se for provocada, analisa o processo e dá sua aprovação à decisão tomada na instância inferior ou, se for o caso, cassa a decisão da segunda instância – daí o nome de Corte de Cassação. Nesse caso, o processo dá um passo atrás e faz o caminho de volta para ser de novo julgado.

No Brasil, uma mesma instituição – o Supremo Tribunal Federal – exerce as duas funções: corte constitucional e última instância judicial. Com a particularidade de não somente cassar decisões anteriores, mas também, em casos específicos, de agir como tribunal comum e julgar processos.

Nosso sistema não é melhor nem pior que o dos outros, com a ressalva de que essa dupla função representa enorme volume de trabalho para os ministros. Espero (e acredito) que eles estejam sendo bem assessorados.

Nos países com os quais tenho contacto mais chegado (Europa ocidental), não me lembro de ter visto ou ouvido algum membro de corte suprema se pronunciar em público ou dar entrevista. Em geral, a população sequer conhece o nome dos componentes do colegiado.

Já no Brasil, não sei por que razão, todos conhecem os 11 ministros do Supremo, com nome, sobrenome, idade, estado de origem, situação familiar, salário. Também, pudera: dia sim, outro também, os magistrados aparecem na mídia. Dão entrevista, arriscam palpite em assuntos delicados, parecem adorar um palco iluminado. É curioso.

Lula fez hoje um pronunciamento em que abordou o assunto da discrição dos ministros do STF. O presidente gostaria que os votos de cada magistrado fosse emitido discretamente, sem anúncio público, o que evitaria espetáculos selvagens como torcida, apostas, apupos, insultos por rede social.

Olhe, quem me lê sabe que não costumo concordar com Luiz Inácio. No entanto, exceções às vezes acontecem: estou perfeitamente de acordo com ele nessa matéria.

Depois de anos de estrelato por parte de ministros do STF, a população está desorientada. Imagina que o normal seja esse: aplaudir o Ministro X em avião ou agredir o Ministro Y no aeroporto.

É complicado dar ordens a Suas Excelências. Assim mesmo, os gênios da comunicação que se encarregam de propaganda institucional deveriam ser convocados para porem mãos à obra. O povo brasileiro tem de entender que o STF funciona em sistema de colegiado, ou seja, o que conta é o voto final. Como votou cada ministro individualmente é ponto irrelevante, que deveria ficar entre quatro paredes. Não sei se isso pode ser feito sem ferir a Constituição.

Artista de palco, de show e de streaming é uma coisa; ministro do STF é outra. As duas carreiras não se confundem. Precisamos devolver a serenidade ao debate nacional, e isso começa com a discrição de Suas Excelências.

Que Lula anote bem o elogio. Que não se acostume porque é raridade.

Paz familiar

O Globo

José Horta Manzano

Se eu disser que Bolsonaro era (e acho que ainda é) vulgar e desbocado, não será nenhum furo de reportagem. É de conhecimento de todos, até mesmo do mais carola de seus eleitores – fato, aliás, incompreensível.

Sempre me perguntei de onde vem esse vício de rechear a conversa com palavrões e palavras de baixo calão. Será porque aprendeu dentro de casa, desde pequeno, ouvindo conversas entre pai e mãe? Será que se viciou fora de casa, junto aos colegas de serviço ou de farda? Não tenho a resposta.

Mas de uma coisa se pode ter certeza: naquela família, nos diálogos entre pai e filhos, a argumentação se exprime através daquele palavreado que, mesmo num botequim, seria bom pronunciar à meia voz.

É o jornalista Lauro Jardim quem dá a informação. Corria o ano de 2017. Bolsonaro era então deputado assim como o filho zero três (o “Bananinha” – carinhoso apelido que lhe conferiu, involuntariamente, o general Mourão).

A cena se passa no plenário da Câmara. Bolsonaro pai assistia à sessão, mas o Bananinha, pelo teor da conversa, parece estar no exterior. Não se sabe fazendo o quê. Pela carraspana pespegada pelo pai, boa coisa não era. Os deputados se preparavam para eleger o presidente da Casa.

Um fotógrafo flagrou a tela do celular de Bolsonaro e imortalizou o trecho de conversa que corria entre o pai e o n° 03. O “Renan” que aparece na conversa é o filho n° 04, meio-irmão do n°03.

Advertência: A partir daqui, espíritos sensíveis devem se abster de continuar a leitura.

Bolsonaro pai
“Papel de filho da puta que você está fazendo comigo. Tens moral para falar do Renan? Irresponsável. Mais ainda, compre merdas por aí. Não vou te visitar na Papuda. Se a imprensa te descobrir aí, e o que está fazendo, vão comer seu fígado e o meu. Retorne imediatamente”.

Filho n° 03 (o “Bananinha”)
“Quer me dar esporro tudo bem. Vacilo foi meu. Achei que a eleição só fosse semana que vem. Me comparar com o merda do seu filho, calma lá.”

Taí uma tocante mostra de puro amor paterno e filial, não é mesmo?

Vale o ditado: “Família que se insulta unida permanece unida”. E pode até terminar na Papuda. Unida.

Esse episódio revela que, mesmo antes de chegar à Presidência, o capitão já temia passar uns tempos na Papuda. Na época, só ele sabia por quê. Hoje sabemos todos.

Minha casa, minha vida

José Horta Manzano

Durante a gestão bolsonárica, o programa de habitação popular “Minha Casa Minha Vida” esteve em hibernação. Estender a mão a quem precisa não era realmente o forte do capitão.

Lula, desde o começo do mandato versão 3.0, prometeu retomar os programas sociais que tinham dormitado por quatro anos – e que são primordiais para quem realmente precisa. Embora tenha vivido, nas últimas décadas, bem acima da carne seca, Luiz Inácio ainda se lembra da infância difícil, quando tudo faltava.

Nunca vi pessoalmente uma implantação do Minha Casa Minha Vida mas já vi fotografias. Que tristeza, minha gente! Aquelas fileiras de casas alinhadas como soldadinhos de chumbo de batalha napoleônica compõem um quadro desanimador.

As casas são todas desesperadamente idênticas. Os terrenos (se é que aquelas minúsculas parcelas podem ser chamadas de “terrenos”) têm rigorosamente a mesma metragem. Até a pintura das casinhas é de um deprimente tom branco sujo. Sujo e uniforme. Não se vê, em todo o loteamento, um arbusto, nem unzinho. Nem grama. Nem um matinho. A impressão é de que falta vida. Nem nossas roupas comuns dependuradas hão de dar jeito.

Acredito que, pra tirar esse aspecto borocoxô, três medidas simples e pouco onerosas deveriam ser tomadas.

Primeiro, que se pense em variar o colorido das casinhas. Basta escolher 5 ou 6 cores e alternar. Vai sumir esse aspecto de acampamento de refugiados.

Segundo, que se plantem árvores ou, pelo menos, arbustos antes de entregar as casas aos contemplados. Não precisa criar uma floresta (se bem que não faria mal), basta uma moita aqui, outra acolá. Com essas manchas de vegetação, o aspecto geral subiria alguns graus.

Terceiro, não é muito complicado acabar com esse aspecto de vila soviética, onde todas as casas são idênticas. Em vez de desenhar uma planta única, que os arquitetos façam o esforço de criar três ou quatro tipos de casa. Que conservem a metragem estipulada, mas que apliquem seu talento a modificar a disposição dos cômodos e os exteriores: uma janela deste lado, uma janela do outro lado, a porta de entrada aqui, a porta de entrada ali. E assim por diante. “Assim, vareia”, como diz o outro.

Não é só porque se destinam ao povão que esses loteamentos têm de ter aspecto de carregação. Vida de pobre já é triste o suficiente. Não vale a pena cultivar a desesperança.

Lítio

Visão dantesca do garimpo em Serra Pelada (Pará) – anos 1980

José Horta Manzano

O lítio é um metal de múltiplas utilidades. Com a irrupção da internet e de seus aparelhos conectados, o lítio tornou-se mais procurado. A perspectiva da fabricação maciça de carros elétricos pressionou o preço desse metal e tem excitado investidores em busca de novos negócios.

Cada vez mais precioso e mais procurado, o lítio, embora raro, é necessário na fabricação de telefones celulares, laptops, câmeras digitais, veículos elétricos, pacemakers, relógios, óculos especiais, certos tipos de cerâmica. Determinadas peças de alta tecnologia da indústria aérea, de bicicletas e de trens-bala também requerem lítio. Ar condicionado e sistemas de secagem industrial também precisam de lítio. Há ainda o uso terapêutico do lítio, usado em psiquiatria.

Na atualidade, a maior parte do lítio extraído da superfície da Terra é destinada às baterias de automóveis elétricos. Só pra ter uma ideia da necessidade desse material no futuro próximo, saiba-se que a União Europeia já proibiu a venda de carros térmicos novos (gasolina/diesel) a partir de 2035. Daí pra frente, todo carro novo terá de ser elétrico. Mais cedo ou mais tarde, o mundo inteiro virá atrás. O ano de 2035 é amanhã.

O Vale do Jequitinhonha (MG) tem chamado a atenção de investidores estrangeiros por conter lítio em suas terras e pela possibilidade de extraí-lo de forma ecológica. A etiqueta “lítio verde” promete uma extração menos agressiva para o meio ambiente.

Semana passada, uma reportagem do Estadão deu ênfase ao lítio das Minas Gerais. A empresa interessada em extrair o metal é uma certa Sigma Lithium, criada no Brasil, registrada no Canadá, inscrita na bolsa americana. Como se vê, puro sangue nacional. Enquanto isso, já outras três grandes mineradoras internacionais estão a instalar-se no mesmo Vale do Jequitinhonha, recriando, 350 anos depois, nova corrida ao “ouro” nas Gerais.

O artigo se encanta com os bilhões de dólares que serão investidos e com os milhares de empregos que serão criados.

Quanto a mim, fico pensativo. Os “milhares de empregos” serão, em angustiante maioria, de peão de obra. Quem se lembra do afligente espetáculo da Serra Pelada da década de 1980 tem uma ideia do que pode ser a extração do lítio mineiro. Certamente o retrato vai sair melhor desta vez, com máquinas gigantescas fazendo o trabalho pesado, mas, logo atrás, vêm os auxiliares. Os “milhares de empregos” não hão de ser destinados unicamente a funcionários administrativos.

Por seu lado, fico com a desagradável impressão de que, mais uma vez, nos deslumbramos com a entrada de dinheiro fácil e deixamos de pensar no futuro. Dinheiro grosso vai entrar, naturalmente, com os investimentos. Só que o lítio não é riqueza infinita. Um dia, talvez logo, vai acabar. E aí como fica? Não teremos mais nada para atrair novos investimentos.

Me parece que este é o momento ideal de pensar em adicionar valor a esse lítio. Em vez de vendê-lo de caçamba, poderíamos beneficiá-lo e assim ganhar muito mais. O Brasil tem boa tecnologia. Para atingir o estágio de excelência em produção de baterias para telefone por exemplo, não falta muito. O BNDES ou o Banco do Brics (alô, dona Dilma!) podem perfeitamente financiar o investimento que está faltando para desenvolver essa tecnologia.

Se nada for feito agora, vamos continuar exportando matéria prima para que outros agreguem valor e enriqueçam. E vamos continuar à espera do salvador da pátria, aquele que nos erguerá ao patamar das nações justas, ricas e desenvolvidas.

Zé Gotinha e a vacinação

José Horta Manzano

Desde a Antiguidade até meados do século passado, a poliomielite (paralisia infantil) fez muito estrago. Trata-se de doença infecciosa e contagiosa causada por um vírus específico aos humanos. Em suas formas mais benignas, deixa sequelas de deformação ou paralisia dos membros inferiores; suas formas mais agressivas podem até levar à morte do paciente.

Não se sabe ao certo por que razão, essa doença recrudesceu a partir da urbanização e da industrialização. Desde o início do século 20, surtos de poliomielite passaram a assombrar o mundo, principalmente as grandes cidades. A ciência se debruçou sobre o problema e passou a buscar uma imunização.

Nos anos 1950, as primeiras vacinas eficazes apareceram no mercado americano. Chegaram em boa hora pois, só no ano de 1955, a paralisia infantil tinha contagiado 60 mil crianças americanas. Logo no ano seguinte, teve início a primeira campanha de vacinação, com aplicação da vacina desenvolvida pela equipe do doutor Jonas Salk.

Estranhamente, a adesão popular foi mais baixa do que se esperava. Principalmente entre os meninos: apenas 0,6% deles espicharam o braço. Medo da picada? É bem capaz.

Foi quando o governo americano pensou num estratagema. O artista do momento era Elvis Presley, ídolo de todos os jovens, especialmente dos meninos. O cantor foi convidado a se apresentar no Ed Sullivan Show, popular programa de televisão da época. Um terço dos americanos largaram tudo pra assistir ao show. Quem é que havia de perder uma passagem na tevê de um Elvis na flor de seus 20 anos?

Só que o artista não tinha vindo para cantar, mas para tomar a vacina contra a pólio, ao vivo, diante do país boquiaberto. Sem luvas, como se fazia à época, um médico aplicou a injeção no galã. Seis meses depois, a adesão dos meninos à vacina subiu a 80%.

Em nossa terra, em questão de vacina, Bolsonaro refugou. Mas o Lula, que parece não ter tanto medo de picada, podia aproveitar a ideia. Reforçar o Zé Gotinha com ídolos da garotada (e das mães da garotada também). Elvis Presley já se foi, mas hoje temos um vasto leque de possibilidades. Há “influencers”, cantores, atores de novela, futebolistas.

A proteção da população contra doenças infecciosas passa pela vacina, quando há. É interesse de todos que a meninada cresça com saúde. Traz alegria e alivia os gastos com o SUS.

Cadeia pra quem xingar

José Horta Manzano

Essa história de o governo arquitetar projeto de lei aumentando para 40 anos a pena de prisão para quem for condenado por ter “atacado” o presidente ou algum ministro do STF ou o chefe de uma casa do Legislativo me deixou encafifado.

Em princípio, não se deve legislar na rabeira de um escândalo recente. Em geral, passado o clamor popular, percebe-se que a lei foi longe demais, por ter sido feita sob medida como resposta a um determinado delito. Nem sempre é adequada para todas as situações do mesmo espectro.

A recente agressão denunciada pelo ministro Alexandre de Morais contra sua família num aeroporto de Roma gerou uma onda de reprovação na República. Fica evidente o elo entre o projeto do Executivo e o desassossego criado pelo episódio do aeroporto. Não faz sentido propor uma lei no calor da emoção.

A impressão que me dá é que o lulopetismo está aproveitando o clima de indignação, já levantado pelo 8 de janeiro e agora reforçado pelo ataque ao ministro, para avançar algumas casas na implantação do projeto autoritário do partido.

Se há um ponto em que as ideologias petista e bolsonarista se dão as mãos é exatamente este: a fantasia de um chefe supremo forte, autoritário, inatacável, seguido fiel e cegamente pela totalidade dos súditos. Me parece claro que o objetivo do projeto de lei é, em primeiríssimo lugar, blindar o presidente da República, o chefe soberano.

Com a nova lei, que o protege mesmo de ataques verbais, ele estará tranquilo durante todo o mandato e até depois. A extensão das mesmas garantias aos membros do STF e aos chefes do parlamento parece mero afago a essas instituições.

É precipitado e desnecessário entrar com esse projeto imediatamente. O Brasil tem outros problemas mais sérios a resolver.

A legislação que temos é suficiente para intimidar cidadãos que se dispuserem a atacar figurões de primeira linha. Basta aplicar a lei. Se os três agressores de Roma imaginassem qual seria a repercussão e quais seriam as consequências de seus atos, certamente teriam passado reto pelo ministro, sem ao menos fixá-lo nos olhos.

Esses comportamentos exaltados e incivis fomentados por Jair Bolsonaro estão em nítido declínio. Se ainda pipocam aqui e ali, é por inércia. Mais um pouco de paciência e irão para o baú do esquecimento, lá fazer companhia a seu criador.

Se nossos congressistas estiverem alerta, essa lei não passa. Suas segundas intenções são demais evidentes. Vamos ver se são espertos.

A dimensão bolsonárica de Lula

José Horta Manzano

Ainda na série “Barbaridades pronunciadas por presidente em viagem ao exterior”, vamos comentar hoje mais uma (grave) patacoada dita por Luiz Inácio quando de seu mais recente passeio no estrangeiro.

Foi esta semana, em entrevista coletiva concedida em Bruxelas ao final da cúpula UE–Celac. Instado a dar sua visão da agressão sofrida pelo ministro Alexandre de Moraes no aeroporto de Roma, Lula mandou ver:


“Nós precisamos punir severamente as pessoas que ainda transmitem ódio, como o cidadão que agrediu o ministro Alexandre de Moraes.”


Até aí, Lula emitiu julgamento severo. Mas não deixou de mostrar esperança de que as coisas mudem, ao se referir aos que “ainda” transpiram ódio. Falou do ódio transmitido por certas pessoas como se falasse de um modismo passageiro. Antes fosse.

Continuou:


“Um cidadão desses é um animal selvagem, não é um ser humano.”


Aí, Luiz Inácio se enrolou. O cidadão é, sim, um ser humano – daí a gravidade do fato. Um animal selvagem age por instinto, não tem noção do bem e do mal. Chamar o cidadão de “animal selvagem” é ofensivo a todos os animais selvagens.

Logo em seguida, veio o pior:


“Essa gente que renasceu no neofascismo colocado em prática no Brasil tem que ser extirpada.”


Extirpada, Luiz Inácio? Extirpada? Será que vosmicê conhece o significado do verbo extirpar? É arrancar, abolir, suprimir, eliminar, extinguir, acabar com – uma imagem de extrema violência. Equivale a “Precisa fuzilar a petralhada!”, frase de triste memória pronunciada por Bolsonaro.

Com esses sentimentos violentos, Lulinha, vosmicê está se equiparando aos “neofascistas” cujo renascimento o incomoda. Está mostrando que, neste triste momento que o Brasil atravessa, as duas pontas da polarização são farinha do mesmo saco, ambas encharcadas de violência e loucas pra acabar com o adversário.

Caro presidente, um conselho: procure diminuir o ritmo de suas viagens ao exterior. Depois de seu posicionamento sobre a invasão russa da Ucrânia, seu Nobel da Paz está perdido de qualquer maneira. Seu brilho pessoal empalideceu. Suas excursões, sempre acompanhadas de suas palavras estranhas, não fazem bem ao Brasil.

Deixe a política externa para profissionais, fique por aqui e procure amenizar os graves problemas que temos internamente. Dá mais certo.

Smörgåsbord

José Horta Manzano

Não conheço esse evento que, imodesto, se autodenomina “o maior festival de gastronomia de rua do mundo”. Por seu lado, percebo que seu nome, Smorgasburg, é uma brincadeira com o original smörgåsbord, termo de origem sueca. O final da palavra que dá título ao festival foi alterado para “burg”, provavelmente para evocar hambúrguer.

Nem todos sabem que, além de reis como Pelé e Roberto Carlos, o Brasil tem uma rainha – monarca de verdade, de manto e coroa. É Silvia, rainha da Suécia. Sua Majestade é brasileira pelo direito do sangue dado que sua mãe, Alice Soares de Toledo, era paulista de quatro costados. Além de ter mãe brasileira, a rainha Silvia viveu no Brasil entre os 4 e os 14 anos de idade. Fala nossa língua como nós.

Só mencionei isso porque me ocorreu agora. O assunto de hoje é o “maior festival de comida de rua do mundo”. Não faço ideia de como se apresentará esse festim, mas imagino que não tenha muito a ver com o original sueco. O smörgåsbord original passa longe do que entendemos por “comida de rua”.

Por razões de convivialidade, o sueco aprecia particularmente uma mesa de pratos variados, em geral servidos em temperatura ambiente, da qual cada um pode se servir e levar o prato para comer onde lhe agradar. É um misto de bufê, piquenique e festa de criança. Se alguém o convidar para um smörgåsbord, vá na fé que é refeição de alto padrão.

Smörgås significa sanduíche aberto (smör = manteiga). Bord é mesa. Mas um smörgåsbord é bem mais que uma mesa atapetada de sanduíches abertos. Sobre a mesa, não podem faltar fatias fininhas de salmão marinado, talvez filé de arenque, batatas cozidas (servidas frias ou mornas). Camarão (cozido e descascado) e outros mariscos aparecem frequentemente assim como embutidos fatiados, queijo duro, queijo cremoso e obrigatoriamente queijo azul. A escolha de pães deverá incluir o pão sueco (fino e crocante) e o pão de centeio. O resto fica por conta da imaginação (e das posses) de quem convida.

O princípio de uma refeição preparada apenas para um grupo de amigos é idêntico ao de uma imensa mesa preparada para centenas de convivas, como um bufezão de navio de cruzeiro.

Tecnicamente, o smörgåsbord difere de um bufê ou de nosso restaurante “por quilo” (= por peso). Em geral, no bufê e no restaurante por peso se enche o prato uma vez só. Já na refeição sueca, usam-se pratos menores e os convivas só se servem de pequena quantidade a cada vez; em seguida, voltam buscar mais. O vaivém incessante de comensais faz parte do espetáculo.

Se vosmicê quiser surpreender seus amigos com um smörgåsbord, é melhor adaptá-lo ao gosto nacional. Filé de arenque sobre uma fatia de pão de centeio, além de custar caro, pode não agradar ao distinto público. No fundo, o que conta é que seja bom de gosto e bonito de ver.

Vamos ver se o “Festival Smorgasburg” realmente se parece com o festim do qual tomou emprestado o nome. Tenho cá minhas dúvidas.

Sarnentos

José Horta Manzano

Décadas atrás, chamar alguém de “sarnento” era ofensivo. Não sei se esse xingamento ainda sobrevive no balaio de mimos atuais. No universo dos pré-adolescentes de antigamente, “sarnento” concorria com “leproso” e “peste bubônica”, finezas que evocavam doenças desaparecidas ou em via de extinção.

A sarna animal ainda persiste e ataca cachorros de rua. É doença de pele causada por um ácaro. A região infectada coça intensamente. De tanto se coçar ou se mordiscar, o cão acaba provocando feridas. Dá pena ver. Mas não se assuste: sarna animal e sarna humana são obra de ácaros diferentes. Ninguém pega essa doença de um cachorro. Em nosso país, a melhora nas condições de higiene fazem que a sarna humana esteja pouco a pouco desaparecendo.

Faz alguns dias, a mídia voltou a falar dos “náufragos do aeroporto”. Refiro-me aos refugiados afegãos que, ao cabo de um roteiro penoso, demorado e perigoso, chegam a Guarulhos – o mais importante aeroporto da América do Sul – e, não tendo para onde ir nem dinheiro para se virar, por lá permanecem encalhados. Adultos, anciãos, crianças são obrigados a dormir no chão, sobre cobertores ou colchonetes puídos. Alimentam-se do que a caridade de funcionários lhes oferece. Não têm como tomar banho nem cuidar da saúde.

Se a triste história daquelas dezenas de infelizes saiu nos jornais é porque estavam começando a representar um perigo para a saúde pública: praticamente todos eles estavam com sarna, doença altamente contagiosa que se transmite por simples contacto.

Me pareceu estranho que tantos refugiados consigam chegar ao Brasil e, em seguida, que o aeroporto seja o fim do caminho, sem perspectiva de seguir adiante. Coisa esquisita, não? Como é que entram no país? Com visto ou sem?

Não foi preciso pesquisar muito. Fiquei sabendo que esses afegãos são titulares de visto humanitário concedido por representação brasileira no exterior. Fiquei sabendo também que o Brasil concedeu mais de mil vistos a afegãos candidatos a asilo. Mas entendi também que a generosidade do Itamaraty é parcimoniosa: fornecem visto aos infelizes mas, para o resto, eles que se virem.

Essa gente teve de vender tudo o que tinha (que não era grande coisa) e lançar-se em aventura complicada. Deixar o Afeganistão já é arriscado; passar fronteiras até chegar a um aeroporto de onde possam voar para o Brasil é programa perigoso, especialmente para quem tem poucos recursos e ainda por cima leva mulher e filhos pequenos.

Para os que conseguem chegar ao Brasil, a “acolhida” é uma pancada na cabeça. Ninguém os espera, não há estrutura de apoio, não há quem lhes dê um teto, não há quem pense em proporcionar-lhes alimentação, curso de língua, cuidados de saúde. Nada. Nothing. Nulla.

A Prefeitura de Guarulhos tem um abrigo, mas alega que está lotado. Assim sendo, os recém-chegados ficam à mercê de algum milagre, num país estranho, com língua estranha, comida estranha, dormindo no chão. E transmitindo sarna uns aos outros.

Na verdade, não acredito que tenham apanhado essa doença em Guarulhos. É muito provável que já a tenham trazido do exterior e que a promiscuidade do acampamento no aeroporto só tenha feito aumentar o contágio.

E pensar que, na virada do século 19 para o século 20, quando aportavam 70 mil imigrantes por ano, o Brasil estava mais bem aparelhado para recebê-los. Embora o país fosse muito mais pobre que hoje, as autoridades se entrosaram e foram capazes de oferecer acolhida digna para os que chegavam. Não se tem notícia de que, por falta de assistência, imigrantes tenham sido obrigados a dormir no cais do porto ou se cobrir com andrajos e se alimentar de doações de almas caridosas.

Depois que a mídia relatou o escândalo, rapidamente as autoridades se mexeram e instalaram os náufragos de Guarulhos numa colônia de férias à beira-mar. Tem afegão que passou 20 dias acampado no aeroporto. Agora estão sendo cuidados – vamos ver até quando. Enquanto isso, novas levas continuam chegando ao Brasil.

Ninguém se refugia em outro país de coração alegre. Se um indivíduo deixa o país de origem e se aventura do outro lado do mundo, num lugar estranho, não é por espírito de aventura juvenil. É porque as coisas estão muito muito feias. Os motivos são diversos: guerra, violência, fome, perseguição religiosa ou étnica.

Se nosso governo federal concede visto humanitário, não deve lavar as mãos e achar que já cumpriu sua obrigação. A acolhida de um refugiado é muito mais que um carimbo num passaporte.

Lá pelos anos 1980, entre os fundadores do Partido dos Trabalhadores, vários haviam conhecido as agruras do exílio. Haviam conhecido na própria pele o drama de chegar numa terra estranha, sem lenço nem documento, empurrado pelo destino.

Seria interessante que os petistas, que atualmente detêm o poder, tornassem a encarnar o espírito universalista de que são herdeiros. Que desçam do pedestal da glória passageira e deem uma mão aos pequeninos.

Lula… ambíguo?

O Globo, 8 jul 2023

José Horta Manzano

Li ontem um artigo que discorria sobre a relação mantida por Lula com ditaduras mundo afora, em especial com as latino-americanas. Não contesto o pensamento do autor, o que me incomoda é o título: “Lula é ambíguo com ditaduras”. Não é descrição adequada.

O dicionário esclarece que “ambíguo” é o que desperta dúvida, que admite interpretações diferentes e até contrárias. O comportamento de Lula com relação a qualquer ditadura não é nada ambíguo – é constante, claro e cristalino. Desde quando ele fundou o Foro de São Paulo, trinta anos atrás, sua posição não se moveu nem um milímetro. Todo regime ditatorial desperta sua simpatia.

Há que partir do princípio de que ditadura é ditadura, sem essa de “ditadura de esquerda” ou “ditatura de direita”. Quando se suprimem o direitos dos cidadãos a escolher seus representantes de forma justa, quando a imprensa livre é cerceada ou suprimida, quando a liberdade de ir e vir é entravada, tanto faz que o ditador se proclame de “direita” ou de “esquerda” – sempre ditadura será.

Lula nunca deu o menor sinal de ambiguidade nesse sentido. Nunca escondeu suas simpatias. Com grande desenvoltura, ele outro dia recebeu em palácio o mandachuva da Venezuela.

Ao regressar do Vaticano, pediu, com indisfarçada hipocrisia, que o ditador da Nicarágua libertasse “o bispo”, transmitindo assim um recado do papa. Digo que foi atitude hipócrita porque o mundo inteiro está sabendo que dezenas de membros do clero estão atrás das grades naquele país, todos perseguidos por serem religiosos. Lula, o falso humanista, só falou do “bispo”, com certo enfado, como se os demais não existissem.

A admiração que Luiz Inácio sente por autocratas é forte. Se ainda não foi visitar meia dúzia deles – Putin, Maduro, Ortega, os sucessores dos bondosos irmãos Castro – é porque assessores devem tê-lo retido pela manga.

Não é possível perceber ambiguidade na simpatia que nosso presidente demonstra por ditadores e autocratas em geral. Os Estados Unidos, por seu lado, são o fantasma que vem assombrando sua vida desde a juventude. A forte antipatia que Lula sente pelo grande irmão do norte é palpável, impregnada, inalienável.

Talvez seu cérebro ressentido veja, na proliferação de ditadores ao redor do mundo, uma forma de abalar o país detestado.

Multas

José Horta Manzano

Jair e Eduardo, os dois membros do clã Bolsonaro que mais amam afrontar a lei, pintaram e bordaram durante os quatro anos em que Jair permaneceu no topo do poder. A cada oportunidade que se apresentou, pai e filho carteiraram: ignoraram regulamentos, prescrições e leis. Foi como se as regras que organizam a vida em sociedade tivessem sido criadas só para a ralé. Eles, gente acima da carne seca, estavam isentos de se curvarem.

O pai, escorado em suas prerrogativas de função, fez mais que o filho. Desafiou mundos e fundos. Não se passou uma semana sem que deixasse marca de incivilidade, no limite da selvageria. Sem máscara (quando seu porte era obrigatório), espalhou perdigotos e carregou crianças no colo. Sem capacete, liderou “motociatas”. Se não zombou mais da lei é porque não teve ocasião.

O capitão foi vítima do mal que castiga toda pessoa de poder: a (ilusória) sensação de onipotência e de imunidade eternas. Como sabemos hoje, ele persistiu nessa crença até seu último dia de mandato. Decolou para os EUA na certeza de que seu poder se prolongaria, que seus antigos comandados se rebelariam e que ele voltaria nos braços do povo, Ou na garupa de um blindado das Forças Armadas, tanto faz.

Furou. Não sei se a ficha já caiu, mas o clã perdeu. E perdeu feio. Não só o sonho de um futuro de poder e imunidade desabou, como também estão chegando as cobranças de um passado delituoso. Com a condenação à inelegibilidade, o ex-presidente já levou a primeira pancada. Outras vêm por aí.

A Justiça do estado de São Paulo está tratando de cobrar as multas que os Bolsonaros acumularam por desprezar o uso da máscara no tempo da covid. Consolidada e atualizada, a conta do capitão chega a um milhão de reais. A do filho desordeiro é mais modesta: 130 mil reais. Os dois contestam naturalmente. Não sei se vão conseguir alguma clemência, imagino que não. Agora o capitão virou cidadão comum e o n°03, embora continue deputado, não tem mais pai presidente.

Acho excelente que a Justiça não tenha deixado pra lá. Acho melhor ainda que estejam insistindo na cobrança. E espero que levem o processo até o fim. Sei que os dois personagens estão escudados pela robusta fatia de fundo eleitoral que toca ao partido deles e imagino que, no fim da aventura, o boleto acabe sendo pago pelo próprio partido.

Assim mesmo, a cobrança é exemplar. Por um lado, serve para mostrar aos Bolsonaros que realmente perderam, e que mais vale se recolherem a sua insignificância. Por outro lado, serve de aviso para incautos que possam imaginar que um eventual momento de poder os blindará pelo resto da vida. É ilusão.

Mas – que fazer? – dizem que o ser humano é o único animal capaz de repetir os próprios erros.

Militância de sofá

José Horta Manzano

Bolsonaristas não são militantes políticos no sentido tradicional. O asfalto não é seu terreno. Preferem o conforto de um sofá macio de onde possam mexer os dedinhos, navegar por redes sociais e juntar-se a “patriotas” que pensam todos igual. Slogans e invectivas não são lançados pela boca, mas dedilhados no celular. É bem mais maneiro; desfilar debaixo de sol ou chuva é coisa de pobre. (Disclaimer: é ironia.)

Banido de todo cargo eletivo aos 68 anos, Bolsonaro está praticamente fora do jogo político para sempre. Só poderá voltar aos 75 anos, idade em que quase todo cidadão costuma estar em casa curtindo reumatismo e artrose de chinelo e pijama. Se a cabeça estiver funcionando, naturalmente.

Este escriba não frequenta redes sociais. Não por desamor, mas por achar que não são da minha idade. Um artigo do jornal O Globo publicado na esteira da condenação do capitão informa o seguinte: “um monitoramento interno do TSE, que acompanha eventuais ameaças à integridade dos ministros do tribunal, constatou um ambiente de calmaria nas redes bolsonaristas.

É de causar espanto a ausência de reação dos devotos diante da condenação do “mito”. Parecem ter baixado os braços. Não se vê movimentação nem nas ruas nem nas redes. É de deixar encafifado. Se o apoio dos partidários de Bolsonaro é assim tão frágil e superficial, como é possível que tenham armado aquela batalha campal do 8 de janeiro? Terão sido realmente adeptos ou quem sabe se tratava de militância remunerada? (Essa é pra pensar em casa.)

Mas há males que vêm pra bem. A constatação de que a fidelidade dos apoiadores do ex-presidente é curta e frágil dá aos tribunais superiores uma dica de como agir na análise da pilha de processos que o capitão carrega nas costas. Se as reações ante a condenação pelo TSE foram tão minguadas, não há por que hesitar quando vier a hora de abrir-lhe as portas da Papuda.

Até algum tempo atrás, temia-se que eventual prisão de Bolsonaro pudesse provocar comoção nacional. Vê-se hoje que não é bem assim. O máximo que seus fãs saberiam fazer é armar tempestade dentro das redes. Nas ruas, nem um pé. O bicho é manso. As coisas mudaram. Ou teremos sido nós que, por prudência, havíamos exagerado nossos temores?

Podem jair preparando o camburão.

Inelegibilidade

by Kleber Sales

José Horta Manzano

Talvez o distinto leitor e a encantadora leitora se recordem de um caso escabroso, ocorrido uns dez anos atrás, envolvendo um médico que acabou condenado a quase 300 anos de prisão por abusar sexualmente de pacientes. Paralelamente, o Conselho de Medicina decidiu anular seu direito de exercer. Seu registro de médico foi definitivamente cassado.

Um caso mais recente envolveu outro médico, um anestesista, filmado enquanto estuprava uma paciente anestesiada – uma história abjecta. Também esse perdeu definitivamente o direito de continuar a exercer. Pode até sair da cadeia um dia (certamente sairá), mas terá de procurar outra profissão.

É longa a lista de profissionais, não só da área médica, que perderam o direito de exercer em consequência de terem desonrado a profissão.

Jair Bolsonaro está sendo julgado por flagrante desvio de conduta cometido enquanto exercia a Presidência do país. O caso mais notório foi aquele “brienfing” para o qual convocou dezenas de embaixadores lotados em Brasília para “revelar-lhes” que o sistema eleitoral brasileiro era um jogo de dados viciados, verdadeira roleta fraudada.

O veredicto ainda não saiu no momento em que escrevo, mas observadores acreditam que o ex-presidente será julgado culpado, e que a pena será a perda de seus direitos políticos. Trocado em miúdos, talvez continue a ter o direito de votar, mas não poderá ser votado. O curioso é que a pena é limitada no tempo: vale somente por 8 anos.

Esse homem deu provas, durante quatro longos anos, de não estar apto para exercer a Presidência do país. Se está recebendo essa pena, não é por castigo – é o país que se protege contra um indivíduo que atentou durante seu inteiro mandato contra as instituições. O capitão não é culpado por ter escorregado uma vez, quiçá sob efeito de uma qualquer medicação. Seu problema é incrustado, permanente e incurável.

Sabe-se que, ainda nos longínquos tempos de capitão da ativa, já planejava explodir instalações do Exército. Durante seus anos na Presidência, fez o que pôde para explodir o Estado brasileiro. Seu caso não tem solução. Afastá-lo por 8 anos dá alívio temporário mas não resolve. Ele periga voltar para chacoalhar o coreto em 2030.

Imagine você se, no caso dos médicos indignos, fosse dado um “castigo” de 8 anos. Seria apenas uma suspensão temporária. Findo o prazo, eles voltariam à carga com todo o risco que isso comporta. A cassação do direito de exercer não deve ser vista como punição, mas como medida de proteção da sociedade.

No caso de um ex-presidente, permitir que ele um dia possa voltar ao lugar do crime para cometer as mesmas barbaridades pelas quais foi condenado é temeridade. Seus direitos políticos teriam de ser cassados definitivamente. Para sempre. Em seu caso, não há esperança de remissão.

IPVA

José Horta Manzano

Os adjetivos automotor, automotivo e automóvel são sinônimos. Veículo automotor (ou veículo automotivo ou ainda veículo automóvel) é aquele cujo movimento é gerado por motor próprio. Sendo assim, com a exclusão de patinete tradicional, bicicleta sem motor, barco a vela, triciclo infantil e mais alguns outros, os veículos que povoam nossas estradas, nossas águas e nosso ar são todos automotores.

IPVA (Imposto sobre a Propriedade de Veículos Automotores) é, como seu nome indica, o imposto que deve pagar todo proprietário de um veículo automotor.

Li outro dia que o projeto de reforma tributária que está atualmente em discussão propõe que jatinho (private jet) e barco a motor entrem para a lista de veículos sujeitos ao pagamento de IPVA.

Perdi o fôlego. Como é que é? Quer dizer então que, até esta data, proprietários de private jet e de jet ski sempre estiveram livres de pagar o boleto do IPVA?

Tudo indica que sim. Vê-se que essas normas foram estabelecidas pelos do andar de cima, os que fazem as leis do país. Todos, por coincidência, grandes entusiastas de jatinho privado e de lancha veloz.

E assim vai o Brasil, uma república em busca de leis republicanas.

Burrice?

José Horta Manzano

Advertência
Este artigo foi escrito antes do pedido de desculpas feito no domingo pelo capitão.


 

Quando a burrice é demais, a gente desconfia que alguma coisa está errada.

Bolsonaro passou seus quatro anos de mandato escancarando sua ignorância e sua lentidão mental. Em certos momentos, sua lerdeza de raciocínio pareceu tão exagerada que muita gente acreditou que ele estivesse forçando a caricatura. Não estava. As revelações sobre sua trama de dar golpe de Estado para permanecer no poder provam o contrário: não havia intenção de parecer mais burro do que era; o que ele desejava ardentemente era tomar as rédeas do país à força.

Só que, como diria o outro, aquilo foi o “antes”, e agora estamos no “depois”.

Com parte da curriola atrás das grades e generais varridos do primeiro plano, a realidade aparece em sua crueza: golpe, não haverá. O ex-presidente poderá se considerar premiado se conseguir escapar à Papuda. Não há mais motivo para se fingir de bobo.

Ora, bem. A cinco dias de um julgamento crucial para ele, o capitão continua surpreendendo adeptos e detractores. Numa cerimônia partidária realizada em Jundiaí (SP), Bolsonaro declarou:

“Agora vocês vão cair pra trás. A vacina de RNA tem dióxido de grafeno, tá. Onde ele se acumula segundo a Pfizer que eu fui lá ver aquele trem lá, no testículo e no ovário. Eu li a bula.”

Esclarecimento
A vacina de RNA da Pfizer é uma das que estão sendo utilizadas no Brasil. Sua bula não menciona nenhum composto de grafeno.

Logo, a declaração é mentira cabeluda, daquelas de fazer o nariz crescer daqui até a esquina. Qual é a intenção do capitão? O julgamento da semana que vem tem por objeto aquele malfadado dia em que Bolsonaro convocou embaixadores do mundo todo para contar-lhes uma baciada de mentiras sobre o funcionamento das urnas brasileiras. Se o tribunal concordar com a tese de que o então presidente espalhou feiquiníus que causaram dano à imagem do país, a pena será a cassação de seus direitos políticos (não poderá votar nem ser eleito por 8 anos).

Sua burrice, por mais arraigada que seja, não o impede de perceber que está na corda bamba. Se ainda tem esperança de escapar à condenação, o mínimo a fazer seria não provocar os magistrados que vão julgá-lo.

Em vez disso, Bolsonaro deu mais um giro na morsa que lhe estrangula o futuro político. Por quê?

Tenho cá minha ideia. Talvez o capitão esteja se projetando nas eleições presidenciais de 2026. Talvez entenda que, com as correntes que arrasta, será quase impossível ser de novo eleito. Pra não passar vergonha, prefere que lhe cassem o direito de ser candidato desde já, assim permanecerá como eminência parda de seu partido, sem ter a obrigação de passar pelas urnas para demonstrar força.

Se for isso, até que não é má ideia. Vai continuar recebendo polpudo salário do partido (mais as aposentadorias que acumula), vai continuar residindo em palacete protegido e vigiado, vai continuar usufruindo as regalias de ser ex-presidente. E não precisará provar que é bom de voto. Não é um futuro de paxá?


Nova conclusão
No dia seguinte à declaração, Bolsonaro veio às redes pedir desculpas pelo que disse. Alegou que, sendo ele entusiasta do grafeno, acordou com um nó na cabeça. Acabou misturando algo de que gosta (o grafeno) com algo que odeia (a vacina). E deu no que deu.

Com a ressalva de o ex-presidente ter feito seu pronunciamento sob “efeito de medicamentos”, como já alegou no passado, a nova conclusão é inescapável: o homem é burro mesmo. De uma burrice profunda, congênita, paralisante e afligente.

Eu não imaginava que seu déficit de raciocínio chegasse a esse ponto, mas sinto que não tem jeito. O homem é de uma burrice irremediável.