Operação especial

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José Horta Manzano

Ninguém manda centenas de policiais bem (ou mal) treinados para a frente de batalha sem razão. Se os chefes militares que organizam e coordenam as ações do BOPE (Batalhão de operações policiais especiais) conceberam uma “operação policial especial” da magnitude da que ocorreu ontem no Rio de Janeiro, é porque tinham antes pesado os prós e os contras, medido riscos, avaliado ganhos e perdas, e considerado que a ação fazia sentido e valia a pena.

O balanço oficial – notem bem: oficial, estampilhado pelo governador do Rio – era, até a manhã desta quarta-feira 29, de 64 mortos. Acontece que moradores da região da batalha campal se deram as mãos, foram à mata que faz limite com a zona, e lá recuperaram mais de 50 mortos extras. Um por um, trouxeram os cadáveres até um descampado em meio às ruas estreitas e alinharam todos ao rés do chão.

Esses populares relatam que bom número de mortos apresentavam uma única ferida: um tiro na nuca, prova de que não tinham tombado na luta, mas tinham sido vítimas de execução sumária à moda chinesa. De fato, ao observar várias fotos dos corpos alinhados de costas para o chão, não notei nenhuma marca de ferida. Ou morreram com bala pelas costas, coronhadas ou foi tiro na nuca mesmo.

Até o meio-dia de quarta-feira, apesar da descoberta dessas dezenas de cadáveres que tinham sido abandonados na mata, o balanço oficial continuava inalterado, marcando o mesmo número de vítimas da véspera. Parece que as autoridades, agora constrangidas, não tinham previsto que os corpos largados na mata seriam encontrados tão cedo.

Numa elegante declaração, o governador do Rio elogiou a ação e foi taxativo: “De vítimas lá, só tivemos os policiais”. Em poucas palavras, pôs à mesa um concentrado de seu modo de pensar, que é o mesmo de muitos brasileiros, em especial os fãs de um certo ex-presidente, agora presidiário.

A “operação especial” conseguiu quebrar um sinistro recorde que se mantinha havia 33 anos. Foi, de fato, em outubro de 1992 que uma expedição policial exterminou 111 presidiários na Penitenciária do Carandiru, São Paulo. A carnificina de ontem acaba de provocar mortandade ainda maior.

Supondo que os policiais não fizeram essa incursão à toa, vem a pergunta inevitável: qual era mesmo o objetivo da operação?

Esse objetivo seria:

  • Provocar dezenas, centenas de mortos e dizer que eram todos bandidos?
  • Impor-lhes uma pena capital vetada pelas leis do país?
  • Diminuir o número de integrantes das facções cariocas?
  • Dar um susto nessa “gente morena” e tirar-lhes a vontade de traficar?
  • Mostrar à população que as autoridades estão vigilantes?

Se alguma alma bem-intencionada tiver uma ideia, mande cartinha para a Redação.

PS: Enquanto houver demanda de entorpecentes por parte da população, haverá sempre quem os forneça. Atrás dos eventuais traficantes trucidados, virão outros. E mais outros. E muitos mais.

O extremista caolho

José Horta Manzano

Não sei por onde andavam os extremistas de direita quando os de esquerda explodiam estações de estrada de ferro, sequestravam artesãos e matavam indiscriminadamente nos anos 70 e 80. Isso foi na Europa, mas até no Brasil, num tempo em que a vida andava muito vigiada e reprimida por aqui, esquerdistas extremados empreenderam ações ousadas e mataram gente.

Calada naqueles anos, a extrema direita só deu o ar de sua graça a partir dos anos 2010, coincidindo com a subida ao poder de Trump, Bolsonaro, Orbán e outros colegas europeus. Veio tarde, mas veio com força. Como prova disso, vejam o estrago que tem provocado no Brasil e no mundo. Bem tudo isso mostra que, independentemente da ideologia, a violência pode estar presente, basta cutucá-la com vara curta.

Direitistas extremos têm traços comuns com seus contrapontos da extrema esquerda. O desinteresse pelas grandes causas do país é um deles. O tarifaço de Trump dá mostra interessante. Para efeito de argumentação, vamos passar por cima dos capítulos iniciais da novela. Vamos direto ao capítulo mais recente, o encontro entre Lula e Trump.

O sucesso das tratativas, pelo menos até o momento atual, trouxe um alívio a inúmeros brasileiros. Muitos de nós estávamos assustados e apreensivos com o que estava acontecendo, cada um por um motivo. Uns temiam que sua pequena empresa exportadora fosse à falência, outros receavam perder o emprego, outros ainda se sentiam profundamente incomodados com o ataque intolerável à soberania nacional. Todos se sentiram aliviados de saber que as negociações iam no bom sentido.

Todos, não! A reação de bolsonaristas e de outros integrantes da direita extrema foi esquisita. Calaram-se e submergiram. Pior: tentaram (e continuam tentando) menosprezar e minimizar o que aconteceu na Malásia, que não lhes parece importante.

Ora, esse comportamento demonstra que certas pessoas não têm capacidade de enxergar além da ponta do nariz. Este escriba, que não é petista nem nunca foi, percebe que as tratativas entre EUA e Brasil estão indo no bom sentido. E festeja, porque, do jeito que as coisas vão, o final deve ser bom para brasileiros e americanos.

Não vejo por que razão eu deixaria de aplaudir iniciativas tomadas por políticos com quem nem sempre concordo, mas cuja ação me parece boa para todos. Infelizmente, parece que os extremistas, engessados por uma visão caolha, não têm capacidade de vislumbrar a grandeza de uma visão alargada do mundo. É pena.

Ocidente

Ocidente

José Horta Manzano

No curto espaço de tempo que durou a passagem de Lula por Roma, alguns dias atrás, jornalistas do milanês Corriere della Sera solicitaram e obtiveram entrevista exclusiva com o presidente.

Como costuma se comportar diante de questionadores estrangeiros, Luiz Inácio se mostrou escandalizado. A razão foi exposta numa comparação numérica que, apesar dos ares de tirada ex abrupto, já veio preparadinha e decorada. Lula explicou que o dinheiro que o mundo gastou com armamentos em 2024 foi US$ 2,7 trilhões, sendo que, ao mesmo tempo, 673 milhões de seres humanos padecem com a fome.

Ao menos, essa verdade precisava ser dita por alguém. E dá até um pouco de orgulho que seja o presidente de nosso país que cuida de contar isso ao mundo. Talvez não dê em nada, talvez o mundo continue gastando trilhões em armas enquanto pobres morrem de fome. Mas ninguém poderá dizer que não tinha sido avisado.

Prefiro um presidente pronunciando esse tipo de frase, em vez de um ex-presidente que, quando de uma viagem à mesma Itália alguns anos atrás, teve de bater papo com um garçom, dado que nenhum dirigente queria conversa com ele.

Mais adiante na entrevista, o jornalista abordou a aproximação entre Lula e Donald Trump. Nosso presidente mostrou-se otimista quando à evolução dos contactos e argumentou que lhe parece natural “as duas maiores democracias do Ocidente” manterem relações amistosas.

Quem não concorda? Se alguém tem sido contra essa aproximação, é justamente o próprio Lula, com seu antiamericanismo ginasiano. As sanções trumpianas só vieram dar a estocada final nos “200 anos de amizade cordial”. Agora, passada a tempestade, parece que nos encaminhamos para nova fase de bonança.

Não sei quais são os países que Luiz Inácio inclui em sua noção de Ocidente. O Brasil e os EUA, isso é certo. Quais outros? Inclui a Europa? O Japão? As antigas colônias britânicas da Oceania? Não ficou claro.

Acredito que certas correntes de nossa diplomacia entendam o termo Ocidente como indicação rigorosamente geográfica. Pertencem ao Ocidente todos os países situados a oeste do Meridiano de Greenwich, ou seja, basicamente as Américas. E pronto.

O problema é que esse entendimento excluiria a Europa inteirinha do mundo ocidental. E excluiria também, deixando transparecer certa dose de má fé, uma dezena de países africanos situados totalmente no hemisfério ocidental.

Na Europa, a abrangência desse termo é diferente. Por Ocidente, subentende-se a Europa inteira (excluindo Rússia, Bielo-Rússia e Ucrânia), o Japão, a Austrália, a Nova Zelândia, os EUA e o Canadá. Mais ninguém. Estou de acordo que é um entendimento meio torto, que junta doze frutas diversas e chama o conjunto de “uma dúzia de laranjas”. Mas é com esse significado que se usa o termo Ocidente, quando se refere ao conjunto de países mais desenvolvidos.

Talvez os digníssimos assessores de nosso presidente concordem que é o momento de fazer uma ligeira correção no discurso do presidente. Em vez de “as duas maiores democracias do Ocidente”, que ele diga “as duas maiores democracias do Hemisfério Ocidental. Não muda quase nada, mas muda tudo.

Quem matou Odete Roitman?

José Horta Manzano

Em 1988, de férias no Brasil, devo ter assistido a algum capítulo da novela Vale Tudo (edição original). Me lembro da forte atração que o folhetim exercia sobre a população. Ninguém falava mais de Plano Cruzado, caçar boi gordo no pasto, ser fiscal do Sarney, essas fixações da época. A empolgação provocada pela novela abafava todo o resto.

Espertos, os autores faziam circular as notícias antes que acontecessem na tela, que era pra dar um spoiler chamativo. De antemão, o Brasil inteiro sabia que a protagonista ia ser assassinada com três tiros em tal capítulo. Apesar disso (ou talvez por isso mesmo), ninguém perdia o tal capítulo. O mesmo estratagema funcionava para desvendar o nome do homicida. O país parou para saber quem tinha sido.

E olhe que os tempos eram difíceis. O ano de 1988 registrou 1.000% de inflação (mil por cento!), valor inimaginável nos dias de hoje. O cidadão que não tivesse grandes posses pererecava para chegar ao fim do mês. Os preços aumentavam diariamente. Salários eram reajustados todos os meses. Lá pelo dia 20, ainda ninguém sabia quanto ia receber no contracheque. Era um verdadeiro sufoco.

Logo, uma novela que tenha impactado a ponto de fazer parar o país era… de se tirar o chapéu. É verdade que, num tempo pré-diluviano em que internet ainda não existia, os divertimentos se resumiam ao domingo no parque e à novela diária.

Quase quarenta anos se passaram. Na política, o Brasil levou uns trancos feios, mas o que mudou mesmo, de lá pra cá, foi a popularização da internet, com telefones celulares e redes sociais. O panorama hoje é bem diferente.

Longe do Brasil, eu imaginava que não fosse mais possível uma novela se tornar popular a ponto de sobrepor-se a assuntos bem mais sérios. E não é que uma Vale Tudo requentada tem provocado os mesmos efeitos da dos anos 1980? Fiquei pasmo. Agora, que o folhetim se aproxima do fim e que a heroína já levou seus três tiros, estão todos em efervescência querendo saber quem é o homicida. Os autores prometem escolher um outro assassino, nem que seja pra variar um pouco e pra manter o suspense.

Soube de um pároco que repreendeu energicamente um fiel que, impregnado da dor que lhe oprimia o coração, pediu ao sacerdote que rezasse uma missa pela alma da defunta Odete. Não sei se a reação do padre foi adequada. Diante de um cristão que navega entre o mundo real e a fantasia, trazê-lo bruscamente à realidade é como revelar a uma criança de 4 anos que Papai Noel não existe. Me parece um ato de violência gratuita.

Soube também que investigadores e delegados de polícia se reuniram numa espécie de competição visando a considerar comos e porquês e, ao final, designar o mais provável assassino. Uma loucura!

E eu que imaginava o brasileiro atual distante desse fervor arcaico. Pensava que a realidade propagada por influenciadores que vendem dicas para maquiagem tivesse curto-circuitado o antigo gosto do brasileiro por peças de ficção. Imaginei que a insistência de discurseiros que debitam loas a este ou àquele político tivesse afastado o público de seu antigo compromisso com a novela das nove.

Aliviado, constato que, apesar das enormes mudanças, no fundo, tudo continua igual. Talvez a diferença maior (e que pouco se nota) é que assistíamos ao folhetim de 1988 dentro de casa, olhos fixos numa telinha de 21 polegadas, janelas abertas para a rua. Já à edição 2025, assistimos sempre em casa, numa telona de 65 polegadas(!), mas com portas e janelas bem trancadas. Vosmecê sabe por quê.

Tanta água!

José Horta Manzano

David Ben Gurion, figura central na história do Estado de Israel e reconhecido como pai-fundador do país, visitou o Brasil em 1963. A viagem, que representou uma importante oportunidade para estreitar laços entre os dois países, passou a ser marcada por um episódio curioso, que até hoje é lembrado em relatos históricos sobre o líder israelense.

Ao voltar para Israel, Ben Gurion, contemplando, pela janela do avião, a vasta e verdejante paisagem brasileira, teria se virado para a esposa e, com semblante pensativo, teria comentado: “Não dá para entender como é possível que um país com tanta água tenha tantos problemas!”. Esse comentário, aparentemente simples, convida a uma reflexão profunda sobre as disparidades entre a abundância natural e os desafios econômicos e sociais que o Brasil enfrentava à época.

A frase de Ben Gurion pode ser lida como metáfora sobre a complexa relação entre os recursos naturais e o desenvolvimento de um país. O Brasil, com suas vastas reservas hídricas — que incluem a Amazônia e as serras brasileiras, com rios que encerram o maior potencial hídrico do planeta — revelam cobiçado tesouro em recursos naturais.

No entanto, ao longo das décadas, nosso país tem-se mostrado incapaz de resolver o desafio da distribuição iníqua da riqueza, a maior barreira ao pleno desenvolvimento da sociedade. A gestão aleatória dos recursos naturais e as distorções na representação parlamentar completam o círculo de correntes que agrilhoam o país e não lhe permitem deixar para trás uma estrutura social que vem dos tempos coloniais.

Em 1963, o Brasil atravessava um período conturbado de instabilidade política, que, aliás, culminaria no golpe militar do ano seguinte. A observação de Ben Gurion, ao admirar as vastas florestas e rios, terá sido uma reflexão sobre como a abundância de recursos naturais não garante, por si só, a prosperidade de um país. A forma como esses recursos são geridos e distribuídos é que é o fator fundamental para o desenvolvimento.

O comentário também levanta questões ambientais, hoje mais relevantes que sessenta anos atrás. De fato, vivemos numa época em que a humanidade aos poucos desperta para o fato de que a natureza depende das pessoas assim como as pessoas dependem dela. É uma via de mão dupla, que assume importância primordial num país como o nosso, cujo imenso território abriga diversidade de frágeis ecossistemas.

O Brasil, com sua sortida biodiversidade e seus vastos reservatórios de água doce, tem papel crucial no equilíbrio ecológico global. No entanto, a exploração desses recursos, muitas vezes sem a devida consideração ambiental, tem gerado problemas sérios de desmatamento, poluição e mudanças climáticas.

A observação de Ben Gurion, feita há mais de seis décadas, permanece relevante até hoje, oferecendo uma reflexão sobre a complexa interdependência entre recursos naturais, gestão política e o bem-estar de uma nação.

O Brasil, apesar de ser um dos países com maior potencial natural do planeta, continua enfrentando desafios significativos para transformar essa abundância em qualidade de vida para todos os seus cidadãos.

Um manda, outro obedece

Pazuello e Bolsonaro

José Horta Manzano

Alguém se lembra dele? É Pazuello, aquele general do Exército do Brasil, que Bolsonaro tratava por “meu gordinho”? É exatamente aquele que explicou um dia, ao estender-se como capacho assumido de Bolsonaro: “É simples assim, um manda, outro obedece. Mas a gente tem muito carinho, viu?”.

“Meu gordinho”, militar sem a menor experiência em assuntos políticos, conseguiu o milagre de ser eleito deputado federal por seu estado, o Rio de Janeiro, de primeira, na onda do bolsonarismo triunfante. Não tenho notícias de sua atuação como parlamentar, mas, para o bem do povo fluminense, espero que o personagem esteja se desempenhando melhor do que quando cuidou do Ministério da Saúde, durante a pandemia. Naquele sinistro período, muitos morreram sufocados, sem balão de oxigênio, em consequência das trapalhadas do ministério que ele comandava.

Uma declaração dada estes dias por Mr. Pete Hegseth, ministro da Guerra dos EUA, me fez irresistivelmente pensar no general Pazuello. O maioral americano, um tanto exaltado no palco, diante de uma plateia de fardados das Forças Armadas norte-americanas, declarou enfaticamente estar cansado de ver “soldados gordos” e “até generais e almirantes gordos” Acrescentou que tal situação é inaceitável porque depõe contra a imagem de força e virilidade que o país e o mundo esperam do exército americano.

É verdade que conquistadores, generais e almirantes têm sido representados, em pinturas e estátuas equestres, como homens viris, longilíneos, de feições angulosas e, sobretudo, magros. Isso vale para figuras nossas, como Deodoro, Caxias e o Almirante Tamandaré. Vale também para personagens internacionais, como o general De Gaulle, Simón Bolívar e Francisco Pizarro, aquele que dizimou os incas.

Civis acima do peso, como Churchill e Getúlio, ainda vá lá. Mas militar gordo e vitorioso? É raro. Se acontecer, a história se encarregará de emagrecê-lo.

Em 2020, o TCU contabilizou quase 6.200 militares lotados no Palácio do Planalto, ocupando cargos civis. Bolsonaro, então presidente, se orgulhava de haver “militarizado” o governo. Hoje, olhando com a perspectiva do tempo que passou, é possível entender por que seu governo rodava aos trancos. Botar milhares de militares a ocupar cargos para os quais não haviam sido formados é chamar o desastre.

O levantamento do TCU não estratificou os militares por faixa de peso. Assim sendo, só nos resta conjecturar. Batalhão que luta na linha de frente de uma guerra não tem tempo nem condições de comer leitão pururuca, nem chips com páprica, nem brigadeiro. Tem de se contentar com o rancho que, em princípio, não inclui delikatessen. Já batalhões que trabalham – todos fantasiados de civis, cada um diante de seu computador, com máquina de café à disposição, com pausas e fins de semana livres – esses, sim, tendem a “amolecer”.

Quem amolece se aborrece e… come mais. Bastam poucos anos nessa dieta para formar o pequeno candidato à obesidade. É impossível saber quantos dos militares próximos de Bolsonaro entravam nesse quadro. Também é impossível conhecer o IMC (Índice de Massa Corporal) de cada um.

O que é certo é que milhares de militares foram alocados, contra a natureza, a um trabalho de escritório. Homens treinados para o trabalho físico, ao ar livre, em contacto com a natureza e a selva foram enfurnados em ambientes climatizados e cercados de janelões de vidro. Certamente não era o caminho que esperavam seguir ao se alistarem nas Forças Armadas.

Agora vem a conjectura. E se tiver sido essa espécie de amolecimento forçado uma das principais causas do malogro do tentado golpe de Estado? Boa parte da força armada com a qual Bolsonaro contava estava amolecida e engordada pelo bem-bom de anos de sedentarismo e climatização. Com militar gordo e mole, não se faz guerra. Nem se dá golpe.

França x Brasil: condenados lá e cá

by Kleber Sales

José Horta Manzano

Nicolas Sarkozy foi presidente da França por um mandato de 5 anos, de 2007 a 2012. Faz uns dias, foi condenado a 5 anos de prisão em regime fechado. A sentença estipula que Sarkozy permanece em liberdade por algumas semanas, mas que terá de cumprir a sentença, pelo menos inicialmente, atrás das grades. Um eventual recurso – com o qual o condenado já declarou que vai entrar – não terá efeito suspensivo. Em outras palavras, é cadeia ou cadeia.

A promotoria acusou o ex-presidente de ter recebido dinheiro da Líbia para sua campanha eleitoral. Observe-se que, à época, Muamar Kadafi era ditador do país. No entanto, a acusação não conseguiu provar o recebimento da alegada ajuda financeira. Assim sendo, Sarkozy não pôde ser condenado por corrupção.

Severo, o tribunal julgou que o acusado era assim mesmo culpado de formação de quadrilha, visto que ele tinha se reunido com dois amigos próximos para solicitar e receber o dinheiro vindo da Líbia, ainda que nenhuma transação tenha sido detectada na investigação.

Mesmo sem ser sarkozista, achei que os juízes foram muito severos. Enfim, se Sarkozy tivesse feito tudo certinho, dificilmente teria se encontrado diante de um tribunal. O que fica como marca desse julgamento excepcional são a pena de 5 anos e a obrigação de ser encarcerado imediatamente. Se deixaram algumas semanas de respiro ao condenado, foi em consideração por ele ter sido presidente da República e por já ter 70 anos.

Chamada Folha de S. Paulo
25 set° 2025

Todos nós conhecemos um outro ex-presidente que aprontou horrores, só que fez isso quando já estava na Presidência. Foi Bolsonaro. Como Sarkozy, também tem 70 anos – são do mesmo ano. Duas semanas atrás, Bolsonaro foi condenado, por um tribunal colegiado de 5 juízes, a 27 anos de prisão em regime inicialmente fechado. Apesar desse prontuário, está em “recolhimento domiciliar”, esperando não se sabe bem o quê.

Nosso sistema judiciário tem peculiaridades que o leigo tem, às vezes, dificuldade em entender. Julgado por um colegiado de magistrados da mais alta corte do país, com pena definida, o condenado continua em casa, na poltrona macia, de chinelas, dando ordens à família, à empregada e ao cachorro. Esperando o quê?

Hoje me diz a imprensa que “Bolsonaro toparia redução de penas com garantia de prisão domiciliar”. Toparia? Que quer dizer isso? Será que, antes de encarcerar o condenado, nosso sistema prisional propõe uma negociação? Tipo assim: o senhor quer redução de pena com prisão domiciliar ou prefere cumprir pena integral em regime fechado na Papuda? Francamente, não faz sentido.

Na França, o condenado Sarkozy, que está longe de ser um santinho, terá de provar a sopa rala que lhe servirão na Prison de la Santé ou outra qualquer onde for encarcerado. O camburão virá buscá-lo em casa assim que o juiz mandar. No Brasil, o condenado Bolsonaro, nosso ex-candidato a ditador mequetrefe, continua sentadinho na poltrona macia de sua mansão. Aguarda a garantia de prisão domiciliar. Com redução da pena.

Se, no púlpito da ONU, Lula tivesse lembrado de contar essa peculiaridade de nosso sistema, teria desarmado Trump. Imagine só: o bandido de estimação do presidente americano estará qualquer hora descondenado!

Prato pra cima, prato pra baixo

Estadão, 18 set° 2025

José Horta Manzano

A bem apelidada “PEC da Blindagem”, atualmente em tramitação no Congresso, levanta duas questões. A primeira é a assombrosa quantidade de parlamentares enrolados com a justiça. A segunda é decorrência da primeira: por que razão esses inquéritos todos estão no STF?

O assunto é vasto. Vamos hoje nos dedicar ao primeiro espanto: a quantidade de pendengas judiciais de Suas Excelências.

O Brasil tem 513 deputados + 81 senadores = 594 parlamentares. Entre eles, 108 estão com alguma pendência com a justiça, ou seja, 18% do total, perto de 1 em cada 5 eleitos. A mim, parece um despropósito. Como é possível que 1 em cada 5 parlamentares, eleitos pelo voto popular, vão tropeçar na justiça?

Presumindo que essa contabilidade só inclua enroscos com o STF, excluindo outros que estejam tramitando em instâncias mais baixas, é permitido cogitar que, do jeito que vão as coisas, a banda podre de congressistas, que tem crescido estes últimos tempos, caminha para se tornar majoritária.

Agora fica fácil entender a motivação da grande maioria de deputados que votou pela aprovação da PEC da Blindagem, texto que visa a dificultar serem alcançados pelos braços da Justiça. É o medo que os motiva. Além dos que já são objeto de inquérito no STF, vem atrás uma procissão de Excelências que votou para se premunir. Homem precavido vale por dois.

Niemayer: croqui original Brasília

A supor que assim se ajeitem as coisas – congressistas sempre com foro especial e PEC da Blindagem aprovada –, resta uma derradeira providência para mitigar o cheiro de queimado que emana daquela dupla de pratos, um virado pra cima, outro pra baixo.

Para candidatos a cargo eletivo – em todos os níveis: federal, estadual e municipal –, há que instituir nova exigência. Além de serem de nacionalidade brasileira e em pleno gozo de seus direitos políticos, que seu prontuário não apresente condenações penais, e que não tenham, no momento da inscrição da candidatura, nenhuma pendenga com a Justiça (nem inquérito, nem pocesso em andamento).

Acredito (e espero) que essa medida – simples, afinal – ajudará a eliminar, pouco a pouco, essa escória que polui o Parlamento nacional e o torna próximo da inutilidade, na medida que vem empurrando, para o Executivo e para o Judiciário, as decisões que deveria tomar.

Ainda dá pra consertar.

É bom já ir

by Marília März
in Folha de S.Paulo

José Horta Manzano

Imaginem uma loja de comércio que pegou fogo. Depois do fogaréu, vem a hora do rescaldo. Limpa-se tudo e separam-se cuidadosamente artigos carbonizados de produtos ainda em estado de ser vendidos: são os salvados de incêndio.

Na semana que termina neste dia 13, o rigor de um julgamento, rígido e preparado nos conformes, foi perturbado pela explosão de vaidade de um dos julgadores que, esquecido de que a palavra é de prata e o silêncio, de ouro, autoimolou-se na fogueira das vaidades. Num surto de verborragia, deitou fora uma solitária fala de quatorze horas, na qual desafiou a lógica, destratou os colegas e insultou a inteligência dos ouvintes. Um despautério. Tentou livrar os réus da condenação, mas foi voto vencido. Há quem diga “voto vendido”, mas há controvérsia.

Entre os salvados do incêndio, está o pequeno Mauro Cid, ajudante de ordens do então presidente Bolsonaro. Coube ao rapaz o papel de bom menino, por ter sido o único a fornecer verdades importantes para a instrução do processo. Embora teoricamente condenado, na prática sai livre e solto. Foi o único.

De aplaudir é também o estoicismo dos julgadores que, apesar da ameaça bem real de Trump de privá-los de visto, de conta bancária e de cartão de crédito, não se encolheram e enfrentaram de peito aberto. (Não foi o caso de Luiz Fux, que preferiu o caminho da desonra.)

Entre os artigos carbonizados, está o próprio Bolsonaro. Por mais que seus defensores reclamem, gritem, esperneiem e se apliquem a requerer habeas corpus, revisão de processo e quejandos, não hão de conseguir mexer na essência. Uma condenação a 27 anos de cadeia, ainda mais pronunciada pelo STF, não é bagatela.

Em termos práticos, Bolsonaro, mesmo sem a sentença ter transitado em julgado, está preso. Em prisão domiciliar, é verdade, mas de lá não deve sair. Trancado e incomunicável, não tem como açular sua malta. Dele, estamos livres. Espera-se que nos deixe tranquilos para sempre.

Vêm aí as eleições. Já sabemos que a urna não emitirá papelzinho (pra ser mostrado ao patrão). Será eletrônica, como estamos acostumados. Tirando os Bolsonaros menos perturbadores, que costumam visar a vereança, não devemos ter nenhum dos dois graúdos na cédula. Um porque está preso; o outro, porque não vai ousar voltar para o Rio, vai continuar nos EUA. Meio sem ter o que fazer, é verdade.

Não se sabe ainda quais serão os nomes que enfrentarão Lula. Em todo caso, três ou quatro governadores, que estão de olho gordo no Planalto, já perderam meu voto. Foram aqueles que defenderam Bolsonaro e, ao mesmo tempo, atacaram o STF. São também aqueles que prometeram conceder indulto presidencial a Bolsonaro. Entre eles, estão Tarcísio, Zema, Caiado, Ratinho Jr.

É bom que apareça alguma figura menos interesseira, se não vamos ter de votar no Lula de novo. Ui!

Fux: desonesto e desleal

STF
Por fora, protegido contra pessoas mal-intencionadas
Por dentro, mal-intencionados estão soltos

José Horta Manzano

O escritor Sérgio Rodrigues argumentou que, no julgamento de Bolsonaro e sua gangue, o combate dos que detestam os carecas tem a oportunidade rara de despertar consciências para o valor de uma cabeça lustrosa, com sua linguagem pelada, em comparação com o dumping de juridiquices pilosas de uma peruca.

Convenhamos que o escritor soube deitar no papel, em letras claras, o que todos comentam à boca pequena.


É raro ver o voto de um magistrado, fosse ele do STF, provocar a unanimidade que a cachoeira de palavras de Luiz Fux provocou. Todas as críticas que li – e li muitas – mostram jornalistas, em maior ou menor grau, indignados.

A estas alturas, vosmicê já deve ter tido acesso a alguns comentários. Excluindo algum bolsonarista puro sangue, todos os brasileiros pensantes estão, se não indignados, espantados e/ou desorientados.

O STF é um colegiado de magistrados, senhores, não um cortiço de analfabetos. Decisões de tamanha envergadura, como a absolvição ou a condenação dos autores de nossa mais recente tentativa de golpe de Estado, devem ser avaliadas pelo colégio de juízes antes da apresentação ao público. O que aconteceu ontem é a prova de que essa fase foi zapeada.

Estivéssemos em tempos normais, as dez horas de fala de Luiz Fux seriam olhadas com condescendência e seriam consideradas um esforço de “ser estrela por um dia”. Uma exaltação da vaidade. A meia hora de glória que seria comentada pelo mundo todo no dia seguinte.

Mas acontece que não estamos em tempos normais – e doutor Fux sabe disso muito bem. Temos o presidente do país mais poderoso de olho nesse julgamento, ameaçando-nos até com sua força militar caso o processo não seja truncado imediatamente. Temos, no banco dos réus, um ex-presidente da República e seus áulicos, entre eles, generais.

Não é num julgamento desse quilate que Fux havia de rodar a baiana e pisar no pé dos colegas na contradança. Se o fez, foi por razões imperiosas. Não é pecado conjecturar.

Na minha visão pessoal, o inesperado refugo de Fux tem outra explicação. Não é fruto do desejo de épater la galerie, de impressionar a distinta plateia. Algo me diz que Sua Excelência agiu assim para sair da mira de Donald Trump.

Por algum motivo, o ministro faz questão de conservar seu visto americano e seu direito de visitar aquele país quando e por quanto tempo desejar.

    • Talvez tenha depositado suas economias numa caixa econômica do faroeste e queira continuar tendo acesso à grana.
    • Talvez esteja planejando uma viagem à Disneylândia em dezembro, no intuito de cumprimentar o Pateta e deixar os netinhos andar de xícara.
    • Talvez tenha dado entrada num apartamento em Miami, como tantos brasileiros, e tenha agora medo de perder o investimento.

Imagino que Fux será cobrado, por seus pares, sobre a razão da guinada. Uma boa explicação vai-lhe evitar ser mandado para a geladeira por alguns anos.

Janus

Janus
by Andrey Kokorin,
desenhista bielo-russo

José Horta Manzano


“A gente está aqui para defender a anistia!”

“Ninguém aguenta mais a tirania de um ministro como Moraes!”

“Nós não vamos mais aceitar que nenhum ditador diga o que a gente tem que fazer!”

“Chega do abuso, chega!”


Quem disse isso? Jair Bolsonaro? Um dos seus filhos, talvez? Ou, com certeza, algum exaltado pastor de almas num discurso inflamado?

Não, nenhum desses personagens. Engana-se quem ticou uma das opções acima. O autor dessas frases contundentes é, nada mais nada menos, que Tarcísio de Freitas, antigo militar, hoje governador de São Paulo, eleito graças à indicação de Bolsonaro, antigo chefe de quem é pupilo.

Pronunciou essas palavras de guerra aberta contra o Poder Judiciário em comício que teve lugar dias atrás, no 7 de setembro, na avenida Paulista, São Paulo. Foi naquela mesma manifestação em que tremulou uma gigantesca bandeira dos EUA, curioso símbolo de vassalagem a potência estrangeira, assomado bem no dia em que se comemora nossa independência de uma potência estrangeira…

Desde que virou governador, Tarcísio tem se equilibrado na crista do muro estreito que separa o golpismo, entranhado na doutrina bolsonarista, da democracia, almejada por todos os brasileiros de boa fé. Tarcísio ora pende para um lado, ora para o outro. Com bom talento de equilibrista, tem surfado conforme sopram os ventos da atualidade, piscando o olho para o povo de lá, acenando para o de cá.

Janus é o deus romano dos começos e dos fins, das boas escolhas, da passagem e das portas. Deu nome a janeiro, o mês que se situa na passagem entre dois anos; que dá adeus ao ano velho e saúda o novo. É um deus sábio, bastando ver como consegue se desligar do passado e se inserir no presente.

Nosso Tarcísio, calculista que só ele, chegou a um ponto em que foi compelido a tirar a máscara e mostrar a cara. Não havia mais como contemporizar numa situação como a que vive o país. Com o julgamento de Bolsonaro & demais golpistas entrando na fase final, espera-se, de cada um, que assuma sua posição no tabuleiro político – e que a declare, alto e bom som.

Na hora H, o governador de São Paulo deu um salto do muro e escolheu cair do lado do golpismo. Deitou, rolou e se lambuzou. E, ao levantar, revigorado e reembebido da doutrina que professou desde sua fase de aprendizado junto ao clã dos Bolsonaros, pronunciou memorável (e definitiva) arenga, da qual tirei as frases que encabeçam este artigo.

Janus é o símbolo dos começos e dos fins. Preside também às boas escolhas. Tarcísio de Freitas vestiu a máscara do deus romano. Muitos acreditaram que ele tivesse absorvido um pouco da sabedoria da divindade, mas foi ilusão. Na hora H, já se pôs a fazer escolhas erradas e mostrar que não passa de um Bolsonaro 2.0, que já começa mal.

Eleitores do Brasil, tomem cuidado! Quem já começa insultando o STF antes mesmo de se inscrever como candidato à Presidência, está pondo as cartas na mesa. Ninguém vai poder dizer que não sabia. Tarcísio de Freitas tem uma dívida de gratidão para com seu padrinho, Jair Bolsonaro. E pretende pagá-la sendo-lhe fiel nas palavras e nos atos.

É bonito ver a gratidão de um beneficiário! Mostra não ser mal agradecido, o que é um bom traço de caráter. Pena que, neste caso, o padrinho é um pilantra. Agora, todo o Brasil se dá conta de que este futuro candidato a presidente já dá a largada com o rabo preso. E logo com quem…

Passamos quatro anos como espectadores, paralisados diante de uma tensão insuportável entre o presidente da República e os magistrados do STF. Agora que estávamos caminhando para a normalização das relações entre os Poderes, não queremos recomeçar a luta, com um eventual novo presidente que, desde que se candidatou, já mostrou como será a toada.

Xô, gente encrenqueira e oportunista! Já temos o Trump para semear pedras no nosso caminho. Não precisamos de mais um estagiário.

O meu exército

José Horta Manzano

«Nunca vou ser preso», gritou um soberbo Jair Bolsonaro alguns anos atrás, no tempo em que os áulicos eram muitos, solícitos, servis. Ninguém ousou contestar.

O mundo dá voltas. Taí, Bolsonaro está preso. Em casa, é verdade, mas não é mais senhor de seus movimentos. Se quiser ir até o shoppinho tomar um chopinho, não pode. E nem adianta pedir autorização, que não vão deixar.

“Canalha!”, bradou um destemperado e temerário Jair Bolsonaro alguns anos atrás, no tempo dos setes de setembro transformados em comício. O insulto era dirigido pessoalmente a Alexandre de Moraes, ministro do STF. O capitão tinha confiança na docilidade do “seu” exército.

O mundo dá voltas. Outro dia, quando compareceu ao STF, sentou-se ao lado do advogado e frente a frente com Alexandre de Moraes. Ao responder a uma pergunta de Moraes, Bolsonaro tratou-o por “Excelência”. O mundo dá voltas mesmo.

Estamos assistindo a coisas que a gente nunca imaginou presenciar um dia.

Veja o caso do Trump. Nem o Nostradamus mais perspicaz teria imaginado que, no século XXI, o presidente dos EUA se deixaria influenciar por um deputado brasileiro pilantra e, na sequência, se poria a pisar no calo do Brasil e a nos tratar como se fôssemos um povo de categoria inferior.

Veja outro caso, esse convescote que reuniu algumas dezenas de ditadores na China estes dias. Estavam lá os líderes da China, da Rússia, da Coreia do Norte, do Paquistão, da Índia, do Casaquistão, da Bielo-Rússia e outras eminências. Pois o Brasil deu um jeito de enviar um representante. O enviado não se envergonhou de figurar na foto de família em tão excelsa companhia. Era Celso Amorim, aquele amigo do Lula, que se pôs na ponta dos pés para aparecer no retrato.

Outro caso, bem próximo de nós: o julgamento de Bolsonaro. O Brasil se divide atualmente entre os cidadãos que gostariam de ver Bolsonaro condenado e encarcerado, se possível até o fim de seus dias – na Papuda ou em casa, tanto faz. Já outro contingente de eleitores, bem menor do que o alarido das redes deixa supor, gostaria de vê-lo absolvido, solto e sem mais enroscos com a justiça.

O que vou dizer agora, pode chocar alguns: para mim, tanto faz. Tanto faz que seja condenado a 43 anos ou que seja absolvido por insuficiência de provas. A meu ver, a boa justiça não precisa ser necessariamente vingativa. Acho que o importante, o que ficará na história, não é o resultado do julgamento nem o tamanho da pena. O que será lembrado é o julgamento em si.

É admirável que, diferentemente do que ocorreu nos EUA, onde Trump conseguiu escapar à justiça, Bolsonaro foi obrigado a aguentar até o fim, apesar do esperneio. Não adiantou ter escapado para os EUA em 2022, não adiantou o filho pilantra ter conspirado junto à Casa Branca, não adiantou a Lei Magnitsky, não adiantaram os impostos de importação de Trump. Imperturbável, o processo seguiu seu curso até o fim.

Agora, se o STF julgar que o capitão deve ser condenado, que o condene. Se achar que as provas são insuficientes, que o absolva. Seja como for, o Congresso encontrará, de uma maneira ou de outra, modo de lavar sua culpa, por anistia, graça, indulto ou outro nome que soe bonito. Ou então o capitão se livrará por ter idade avançada e uma polpuda lista de enfermidades.

Por minha parte, fico satisfeito de ele ter tido de enfrentar o Tribunal Maior, voz trêmula e peito arfante, com um medo que há de ter-lhe envenenado a existência, pusilânime que sempre foi. Agora vai passar o que lhe resta de vida remoendo o ódio que sente contra os generais do seu exército, que o abandonaram e o atiraram às feras.

Para a pequenez do personagem, já está de bom tamanho.

Golpe?

Proclamação da República

José Horta Manzano

Uma mudança de governo – quando violenta e provocada voluntariamente em afronta às normas vigentes – configura um golpe de Estado. Essa é a teoria, mas na prática nem sempre funciona assim.

No Brasil de 1889, a queda do regime monárquico foi provocada por um golpe de Estado. Hoje isso nos parece cada vez mais evidente. No entanto, passados quase 140 anos, ainda nos ensinam na escola que o novo regime, a república, foi “proclamada” naquele 15 de novembro. O aluninho entende cada vez menos o significado da tal “proclamação”, mas fica por isso mesmo. Ninguém lhe ensina a história de verdade.

Em 1930, tropas depuseram o presidente eleito e levaram Vargas ao poder. Foi um evidente golpe de Estado que ninguém nunca chamou pelo nome. Entrou para a história como Revolução de 30 e até hoje se chama assim.

O movimento de tropas de 1964 foi outro que, como em 1930, defenestrou o presidente da república e mandou-o para o exílio. Em seu lugar, instalou uma ditadura de generais. Pelo tempo que durou o regime militar, os acontecimentos de 1964 foram chamados de “revolução”. Naquele tempo, se alguém se referisse ao movimento de 64 chamando-o, em público, de “golpe de Estado”, estaria arriscando a pele.

Foi só bem depois do fim da ditadura e com as instalação de governos mais à esquerda que a “revolução” pôde ser chamada pelo nome verdadeiro de golpe.

Contando todos os golpes e tentativas de golpe de que nossa história está coalhada – revoluções, inconfidências, intentonas, etc – é interessante notar que o de 1964 é o primeiro que acabou sendo popularmente qualificado de golpe. Não me ocorre nenhum outro caso, nem mesmo o evidente golpe de 1945 que depôs Vargas.

Para dar continuidade à nova tradição, temos agora a tentativa de “virar a mesa” protagonizada por Bolsonaro entre 2022 e 2023, Não sabemos ainda como estes acontecimentos serão conhecidos no futuro: Golpe de 2022? Golpe de Bolsonaro? Golpe pra derrubar Lula?

O que se sabe é que a tentativa de virada de mesa está sendo (e continuará sendo) chamada pelo nome correto: Golpe Malogrado. Ou Tentativa de Golpe, que dá no mesmo.

Bolsonaro e o filho imaturo

José Horta Manzano

Segundo palavras do próprio Jair Bolsonaro, seu terceiro filho – aquele que se autodegredou para os EUA a fim de atravancar a vida do Brasil – é imaturo. De diagnóstico de pai, quando é elogioso, é melhor desconfiar; mas quando é crítico, convém prestar atenção.

Quando li essa declaração, que o capitão tirou do bolsinho de trás no meio de uma fala qualquer, concordei com ele. Tratá-lo de “imaturo”, aliás, me pareceu quase elogioso. A imagem do rapaz, no dia em que posou para uma foto (ao lado do pai que jazia numa cama de hospital em recuperaçâo de cirurgia), abrindo o paletó e exibindo ostensivamente um revólver grande como os dos capangas de Al Capone, me deu certeza de que algo estava fora de prumo no bestunto do bolsonarinho.

O tempo passou. Um dia, o Zero Três decidiu instalar-se nos EUA. Muitos acharam que estivesse fugindo. Também acreditei, mas hoje não tenho mais tanta certeza. O plano arquitetado para livrar o velho Bolsonaro da cadeia, detalhado pelo zerinho, parecia não passar de ameaça. Quem imaginaria que Trump, apesar dos rompantes ególatras, ia atravessar o Rubicão e aplicar contra o Brasil uma lei feita pra castigar bandidos?

Mas acontece que um Trump, irritado com:

  • o antiamericanismo explícito e persistente de Lula (considerado por Donald Trump um perigoso comunista);
  • o ativismo terceiro-mundista do Brics, que a cada dia mais parece um conclave de ditaduras sanguinárias;
  • os permanentes ataques, proferidos por Lula em particular, contra o predomínio do dólar como moeda de trocas internacionais;
  • as limitações impostas pelo Congresso brasileiro a big techs americanas,

aproveitou o tsunami de “tariffs” para aplicar mais 50% aos impostos de importação que incidem sobre mercadorias vindas do Brasil.

Por seu lado, o zerinho expatriado não passou férias nem folgou: fez o que disse que ia fazer. Tanto chuchou os áulicos de Trump, que conseguiu o que tinha ido buscar: a Lei Magnitsky, em princípio feita para castigar gângster, foi aplicada contra o ministro Moraes, relator dos processos ligados ao malogrado golpe do 8/1.

Mas o pior vem agora. Como espada de Dâmocles, a mesma lei fica como ameaça pendurada sobre a cabeça dos “aliados” de Moraes, ou seja, os que acompanharem seus votos.

As consequências da aplicação da tal lei antigângster são tão temidas, que os demais ministros já parecem amarelar. Barroso já deu a entender que estará se aposentando em breve. Outros dois, Mendonça e Fuchs, já mostraram seu temor, ao pedir vista para atrasar processos.

É bem provável que, como bons brasileiros com finanças mais folgadas, ministros do STF tenham interesses pessoais nos EUA: apartamento em Miami, um filho que estuda lá, uma reserva de dólares aplicada no país, etc. Assim, é compreensível que todos estejam inquietos com a perspectiva de que a espada se lhes despenque sobre a cabeça.

A dosagem dos “tariffs” de Donald contra o Brasil foi tão violenta, que automaticamente afastou toda perspectiva de negociação. Com taxa assim, nem dá pra ensaiar uma conversa.

Mas a “dosimetria”, se assim me posso expressar, de aplicação da Lei Magnitsky, já efetiva para um dos ministros e latente para os demais, foi lance de mestre. Não acredito que essa graduação tenha saído do bestunto “imaturo” (segundo Bolsonaro) do Zero Três. Mas tanto faz.

A história registrará que o rapaz foi lá, cutucou, pediu, argumentou, explicou, e acabou conseguindo o que queria. Poucos meses atrás, ninguém além dele acreditava que fosse dar certo. É chato constatar, mas… parece que deu.

Estamos todos, a nação inteira, à mercê do que vier e, sejamos francos, impotentes diante das rajadas musculosas com que Trump tenta sabotar nossa integridade.

Vamos ver o que o futuro nos reserva.

Seja o que Deus quiser

José Horta Manzano

O Globo relata as consequências que se arrastam até hoje de um triste desastre ocorrido ano passado. Você talvez se lembre. Na madrugada de 31 de março, um motorista de aplicativo, de 52 anos de idade, rodava por uma avenida de São Paulo quando seu veículo foi violentamente abalroado, por trás, por um Porsche Carrera. O bólido, avaliado em R$ 1,3 milhão, trafegava a 136 km/h num trecho onde a velocidade era limitada a 50 km/h.

O motorista de aplicativo morreu antes de ser socorrido. O condutor do veículo de luxo tinha 24 anos de idade e havia bebido e saiu ileso. Apesar da habitual carteirada tentada por sua família, acabou encarcerado, dias depois, na Penitenciária de Tremembé (SP), onde se encontra ainda hoje à espera de ser julgado por um tribunal do júri.

O motorista de aplicativo havia comprado seu carro pelo sistema de leasing, com entrada e 48 prestações. Ao morrer, já havia pagado boa parte da dívida, faltando ainda quitar 18 parcelas.

Para espanto deste escriba, o contrato de leasing não incluía seguro que cobrisse o não pagamento de parte da dívida por razões que escapassem da responsabilidade do condutor. Assim sendo, a destruição do veículo em acidente sem culpa do contratante não estava coberta por nenhuma apólice!

O resultado é que a viúva do motorista de aplicativo recebe diariamente uma dezena de chamadas telefônicas de empresas especializadas em cobrança de dívidas atrasadas. Além dela, os filhos do falecido também começam a ser atormentados.

Como esse litígio vai se resolver, não sei. Advogados poderão dar as respostas que eu não tenho. Mas o que me espanta é que está fazendo quinhentos anos que o Brasil vive na imprevidência, na base do “seja o que Deus quiser”. A religiosidade de nossa gente é admirável e respeitável, mas não convém abusar da Providência Divina.

Os desbravadores desta terra não tinham a quem recorrer se não à esperança e ao trabuco. Mais que nunca precisamos conservar a esperança, mas está na hora de pendurar o bacamarte na cristaleira da sala. Desarmado, of course. Muitos litígios nem surgiriam caso os envolvidos se precavessem contratando uma apólice de seguro.

No caso do veículo vendido em sistema de leasing, é inconcebível que o contrato não tenha incluído, logo de saída, um seguro cobrindo a perda total do veículo em determinadas circunstâncias. Um cretino pode acabar com o carro (como aconteceu), uma árvore pode cair em cima, uma enchente pode levar o veículo e arrastá-lo para o mar ou para um rio.

Mas não só automóvel em leasing tem seus riscos. Uma casa ou um apartamento pode ser destruído pelo fogo, vítima de acidente doméstico ou de propagação do incêndio do vizinho. Um pequeno comércio ou indústria estão expostos aos mesmos riscos que uma casa. Em caso de incêndio, que fazer?

O vaso de gerânio que vosmicê colocou no beiral dá umas flores lindas. Mas um dia, uma de suas crianças (ou uma visita, ou o gato ou o cachorro) pode relar nele e derrubá-lo lá embaixo. Por desgraça, cai em cima de um senhor e o manda para o hospital. O cidadão, pai de quatro filhos menores, é posto em coma artificial durante meses. Como é que fica? Quem paga? Quem é que assume?

Vivo num país em que todos os cidadãos têm um seguro de responsabilidade civil. Não é obrigatório, mas ninguém é louco de não ter. Esse seguro – que, imagino, existe no Brasil – cobre danos que o contratante possa causar a terceiros ou a objetos pertencentes a terceiros. Vale a pena consultar a disponibilidade aí.

Há seguro para praticamente todas as atividades humanas. No Brasil, não estamos acostumados a prevenir. Espera-se que o mal aconteça, para só então pôr as mãos na cabeça e descobrir que… é tarde demais.

Com espontaneidade e elegância, a linguagem “wok” traduz assim:


Um homem(uma mulher) prevenido(a) vale por dois(duas).


 

Maracanazo

“Maracanazo” – 16 jul° 1950

José Horta Manzano

Señor Ghiggia
O dia 16 de julho tem lugar garantido na História do Brasil. Em 1950, marcou a derrota da seleção brasileira de futebol. Fosse um jogo amistoso, o 2 x 1 em favor do Uruguai teria sido derrota banal, logo esquecida por todos. O drama é que era uma final de Copa do Mundo e, pra mal dos pecados, jogada no Maracanã, com 200.000 espectadores espremidos nas arquibancadas. Nosso país perdeu o caneco.

Em 2015, sessenta e cinco anos depois do jogo, señor Alcides Ghiggia, autor do decisivo gol uruguaio, faleceu. Exatamente num 16 de julho. Durante 64 anos, tinha sido chamado de “algoz” do Brasil. Mais recentemente, um certo 7 x 1 relativizou as coisas. Señor Ghiggia pode descansar em paz.

Maracanazo
Tenho ouvido ultimamente que o Brasil perdeu a Copa de 1950 “no episódio que ficou conhecido como Maracanazo”. A afirmação não é verdadeira. Nunca jamais se utilizou, no Brasil, essa expressão para qualificar o desastre. Foi criação platense e por lá ficou.

A primeira vez que a palavra apareceu no Estadão, jornal brasileiro de referência, foi em 1977, vinte e sete anos depois do jogo. E, assim mesmo, como citação de publicação estrangeira.

Na verdade, foi o traumatizante 7 x 1 que, apelidado de Mineiraço, ressuscitou a expressão Maracanazo (ou Maracanaço) e a espalhou do Oiapoque ao Chuí.

Bolsonaro, Trump e o teatro da prisão domiciliar

Clã Bolsonaro

José Horta Manzano

A prisão domiciliar de Jair Bolsonaro, longe de ser um acidente político ou uma mera consequência judicial, parece ter sido provocada de forma deliberada. Tudo indica que o ex-presidente, em conjunto com membros do seu clã familiar, esticou a corda conscientemente, de caso pensado, e “cavou” essa prisão domiciliar como parte de uma estratégia que vai além das fronteiras nacionais. O objetivo? Despertar a atenção – e a ação – de Donald Trump.

Trata-se de uma jogada desesperada, mas alinhada com a lógica que rege o bolsonarismo desde o início: a crença de que a realidade pode ser moldada a partir de narrativas delirantes e alianças simbólicas. Essa movimentação, por mais absurda que soe (pode até ser confundida com roteiro de novela), segue um raciocínio próprio da bolha em que o bolsonarismo se aninha. É, em essência, a ingenuidade bolsonarista levada ao paroxismo.

Nesse contexto, até Donald Trump – com todo seu histórico de absurdos – passa a parecer um dirigente equilibrado, se comparado à atuação tresloucada dos Bolsonaros. A família revela um egoísmo sem limites. Ao que tudo indica, não haveriam de hesitar em ver o país ruir se isso significasse a salvação pessoal do patriarca. Se a única saída fosse um bombardeio atômico que destruísse o Brasil, a escolha seria óbvia para eles: que se dane o país, desde que o pai se salve.

O que parece estar em curso, neste momento, é uma tentativa explícita de provocar Trump. Os Bolsonaros querem ser vistos como vítimas de um sistema judicial “perseguidor”, esperando que isso alimente o discurso populista e conspiratório do ex-presidente americano. Com isso, esperam que Trump amplie as sanções contra o STF e contra o Brasil.

O problema dessa estratégia é que ela desconsidera uma realidade simples: nem o STF, nem o governo brasileiro, estão dispostos a se curvar diante de pressões externas. As instituições brasileiras seguem com firmeza o caminho que lhes traçou a Constituição de ‘88. Para um grupo que passou anos governando o país sem demonstrar qualquer apreço por valores como brios, pudor ou responsabilidade, há de ser incompreensível descobrir que ainda existem líderes com vergonha na cara.

Em certas cabeças, a esperança bolsonarista de escapar das consequências jurídicas depende menos de fatos e mais da construção de uma narrativa internacional de martírio político. O plano, no entanto, está fazendo água e parece cada dia mais deslocado da realidade.

Enquanto isso, o Brasil segue seu curso, enfrentando as turbulências deixadas por um governo que jamais colocou os interesses nacionais acima dos seus próprios.

A ingenuidade bolsonarista: entre bravata e realidade

by Darío Castillejos
desenhista mexicano

José Horta Manzano

Sempre que vêm a público, figuras preeminentes do bolsonarismo dão involuntária demonstração de suas qualidades. Tais virtudes revelam-se menos admiráveis do que imaginam. Sobressai um traço comum a muitos: uma surpreendente e persistente ingenuidade – disfarçada, às vezes, com tintas de coragem, ousadia ou patriotismo.

A retórica do ataque substitui o argumento racional. A crítica vira insulto. E, quando a realidade não se curva às expectativas do grupo, ela é simplesmente negada. Se algo dá errado, a culpa nunca é do autor, mas sempre de terceiros: da mídia, do Supremo, do “sistema”, ou de inimigos imaginários cuidadosamente cultivados.

Há também um traço de fé no inacreditável. Uma crença quase infantil na própria impunidade, como se bastasse dizer-se “patriota” para tornar-se imune. E há sempre a compulsão à mentira – não como instrumento estratégico de convencimento, mas como pilar de uma construção paralela, em que a verdade é moldada ao gosto do freguês.

Vejamos alguns exemplos concretos.

Daniel Silveira, ex-deputado, ficou famoso por seus ataques virulentos ao Supremo Tribunal Federal. Em vídeos nas redes sociais, insultou ministros, ameaçou-os fisicamente e tentou posar de herói nacional. Estava convencido de que sua imunidade parlamentar o protegeria de qualquer consequência. Não perdeu por esperar. Acabou preso, processado e condenado. Pagou caro por sua ilusão de invulnerabilidade. Ironicamente, pagou com privação da liberdade que tanto dizia defender.

Carla Zambelli talvez tenha levado a ingenuidade a um novo patamar. Envolveu-se com um estelionatário autodenominado “hacker”, com o objetivo de invadir sistemas da Justiça Eleitoral. Uma iniciativa ousada – temerária até, de qualquer ponto de vista. Após processo e condenação, fugiu do país, acreditando que sua cidadania italiana a blindaria de toda punição e lhe garantiria driblar o encarceramento. Durante a fuga, não resistiu à tentação de provocar o Judiciário brasileiro pelas redes sociais, vangloriando-se de ser “intocável”. Resultado: acabou localizada e presa. Hoje divide cela com outras três detentas numa prisão romana. Em vez das regalias a que certamente teria direito em cárcere tupiniquim, enfrenta a realidade crua do sistema penitenciário europeu, enquanto espera o julgamento do pedido de extradição feito pelo Brasil.

Eduardo Bolsonaro, por sua vez, optou por um exílio voluntário nos Estados Unidos. Não para fritar hambúrguer, como em sua fase anterior, mas para fazer lobby junto a aliados de Donald Trump. Seu objetivo: punir o inimigo número um da família, o ministro Alexandre de Moraes. Esqueceu, porém, que o STF é um órgão colegiado, dotado de forte espírito de corpo. Imaginou que, ao pressionar um único magistrado, poderia amedrontar os demais. Erro de cálculo. O Supremo não cedeu, e o tiro saiu pela culatra. A retaliação não veio contra o ministro, mas contra o agronegócio brasileiro, com o aumento de tarifas americanas que atingiu diretamente exportadores. Para completar, Eduardo dificilmente voltará ao Brasil sem enfrentar alto risco de ser preso.

Conclusão
Esses casos revelam um padrão inquietante: a bravata bolsonarista cresce à sombra de uma suposta proteção – seja a imunidade parlamentar, a cidadania estrangeira ou o distanciamento geográfico. Quando a rede de proteção falha, sobra desespero, vitimização e surpresa diante das consequências, como se o mundo real não funcionasse com regras claras.

O mais intrigante, porém, é que, antes do malogrado golpe do 8 de janeiro, muitos bolsonaristas agiam como se o sucesso da empreitada já estivesse garantido. Comportavam-se como personagens de um roteiro em que o final feliz – a tomada do poder – era inescapável e estava sacramentado. Essa confiança cega tem origem no convívio fechado dentro de uma bolha ideológica. Nela, informações circulam sem contestação, e mentiras repetidas ganham status de verdade absoluta.

Em última análise, a ingenuidade não é apenas um traço de personalidade de alguns indivíduos, mas um componente estrutural do bolsonarismo. Alimentada por desinformação, reforçada por lideranças irresponsáveis e sustentada por uma fé peregrina na própria narrativa, ela transforma cada erro de avaliação em tragédia pessoal – e, por vezes, em dano coletivo.

Enquanto permanecerem presos a essa bolha, seus integrantes continuarão a cometer os mesmos erros: superestimar suas forças, subestimar a inteligência alheia e mal avaliar as consequências. Nesse jogo de ilusões, a realidade sempre chega – e costuma ser implacável.

Carla está presa

Carla Zambelli
by Jeribeto (via Twitter)

 

José Horta Manzano


La signora Carla Zambelli è stata arrestata a Roma.
A senhora Carla Zambelli foi detida em Roma.


Se vão extraditá-la para ser encarcerada no Brasil, se vai cumprir pena na Itália mesmo ou se será solta, tanto faz. O importante é que, diferentemente do que imaginava, foi alcançada pelas garras da lei. Talvez esteja entendendo agora que ela não é melhor que ninguém e que deve explicações à sociedade.

De pouco valeu ser casada com militar, ter sido unha e carne com o capitão, gozar de imunidade parlamentar. Exibiu um passaporte vermelhinho, correu, mas o bicho acabou pegando. Assim como vai pegar todos os trapaceiros que, como ela, se imaginaram mais espertos que o povão.

O povo italiano não está nada de acordo com a ideia de transformar o país num depósito de foragidos da justiça. Em matéria de imigração, preferem receber gente de bem, não bandidos. O fato de o delinquente ser titular de um passaporte nacional não lhe confere mais direitos, antes, acentua o fato de que descendentes de italianos só requerem a nacionalidade dos antepassados para obter vantagens, como entrar nos EUA sem visto ou refugiar-se na pátria para escapar à justiça .

Esse tipo de transgressor não é bem-vindo na Itália.

Violência e sedentarismo

José Horta Manzano

Num artigo de Andressa Lima, o Estadão destacou, faz alguns dias, a curiosa (e estreita) correlação entre violência urbana e sedentarismo no Brasil. Deve-se creditar essa descoberta a cientistas brasileiros da UFG e da Unifesp. O estudo mostra que, no mundo, 31% da população não atinge os níveis recomendados de atividade física, enquanto, no Brasil, o índice dos ociosos é de 59,5%. Trocado em miúdos, 3 em cada 10 terráqueos, em média, são adeptos da sombra e da água fresca. Enquanto isso, aqui em nossas terras tropicais, 6 em cada 10 brasileiros estão no mesmo caso. Dá pra desconfiar que nossa sombra e nossa água fresca sejam ainda mais refrescantes.

Não é, como o título deste meu escrito poderia sugerir, que o ócio esteja na raiz da violência que nos atormenta. Estranhamente, os cientistas descobriram que o mecanismo funciona ao contrário. A violência que nos atormenta é que está na raiz do ócio que nos confere prejuízos à saúde tais como moléstias cardiovasculares, diabetes tipo 2, obesidade, hipertensão, câncer, depressão, ansiedade. A OMS (Organização Mundial da Saúde) adverte que o Brasil é o país mais sedentário da América Latina e o quinto do mundo.

Como assim? Pois a razão desse caminhão de misérias é uma só: o medo que o brasileiro tem de sair à rua. Por consequência, quem não sai à rua fica na impossibilidade de praticar exercícios que demandam grandes espaços ao ar livre: corridas, passeios, longas caminhadas, jogos em quadras, ginástica com barras fixas, ciclismo, dança ao ar livre. E certamente outras que não me ocorrem neste momento.

Quem tem condições de pagar a mensalidade de uma academia está com sorte. Mas essa é uma despesa não está ao alcance de todos, embora todos precisem se exercitar. Que fazer então? No Brasil desvairado em que vivemos, a questão fica sem resposta neste momento.

O que vou dizer agora não estava no artigo que citei – fica por minha conta.

Me pergunto até que ponto o medo de sair às ruas não estaria criando uma geração inteira de brasileiros com tendências associais, incapazes de interagir com seus semelhantes. Uma faixa de população que, embora já adulta e, em princípio, preparada para a vida em sociedade, reage como nossos ancestrais que viviam em cavernas, agrupados em reduzidos grupos. Qualquer desconhecido era tratado como intruso, portanto, perigoso. E tome flechada!

Esse comportamento de desconfiança selvagem deve poder explicar notícias que surgem dia sim, outro também, de brigas de tráfego que terminam em tiroteio com mortos. É que muitos cidadãos saem hoje às ruas armados como se vivêssemos na Idade Média. Naquela época, carregava-se a espada e a clava, hoje leva-se arma de fogo – desembainhada mais facilmente que o porrete de mil anos atrás.

O eixo violência <—> sedentarismo é mais que simples relação de causa a efeito. Na verdade, se estendemos o raciocínio ao exposto acima, temos um círculo vicioso, em que a violência favorece o sedentarismo, o sedentarismo favorece comportamentos associais, e comportamentos associais reforçam a percepção de violência.

Violência —>  Sedentarismo —> Associabilidade —> Violência

E a corrente está formada, um caminho em que cada elemento alimenta o seguinte, formando um círculo fechado, autoalimentado e difícil de ser rompido: um círculo vicioso.

Nada é impossível, mas a ruptura desse esquema infernal periga não acontecer a curto prazo.