12 de setembro

Juscelino Kubitschek

José Horta Manzano

No meio de tantos horrores que fermentam no magma da classe política nacional e afloram à superfície durante campanhas presidenciais, é sempre refrescante relembrar coisas agradáveis. São coisas que estão obrigatoriamente no passado visto que, da política atual, não se pode esperar nada de bom.

Faz hoje exatamente 120 anos que nasceu em Diamantina, nas Minas Gerais, um menino que viria a ser um dos dois grandes presidentes que nossa República conheceu desde a redemocratização de 1945. Falo de Juscelino Kubitschek de Oliveira (1902-1976). O outro grande foi Fernando Henrique Cardoso.

Fora esses dois, só estropícios subiram a rampa. E pelo que tudo indica, a desgraça não está perto de acabar. Considerando os dois principais pretendentes ao trono, seja qual deles for eleito, o Brasil vai continuar fazendo parte da periferia do mundo.

Continuaremos sendo um daqueles países folclóricos capazes de produzir soja para engordar gado, mas incapazes de contribuir para o processo civilizatório global.

Email de Buckingham

José Horta Manzano

O jornalista Lauro Jardim informa que os estrategistas da campanha do capitão estão seriamente cogitando enviá-lo a Londres para estar presente nos funerais da rainha Elizabeth II.

Acreditam que o fato de ele aparecer em meio a chefes de Estado de todo o planeta é altamente positivo para passar a imagem de um líder importante. Seria um golpe de mestre, uma cartada simbólica fora do alcance dos demais candidatos, especialmente de Lula.

Na ideia dos estrategistas, o ideal é que Bolsonaro compareça acompanhado da esposa. Só que, por enquanto, estão ainda no estágio da cogitação. Ainda não se tem nem a data do funeral. O Palácio de Buckingham também ainda não mandou convite.

Apelo urgente
Alguém teria o email de Buckingham? Se tiver, mande uma cartinha para a Redação. Vou aconselhar o cerimonial londrino a desistir do convite ao capitão. Pelo bem do Brasil.

Tempos estranhos

Bloqueio da Esplanada dos Ministérios, Brasília

José Horta Manzano

Quase duas décadas atrás, da primeira vez que utilizou a expressão “tempos estranhos” para designar um momento de tensão particular na vida nacional, Marco Aurélio Mello, então ministro do STF, decerto não imaginava que sua definição teria vida tão longa.

A expressão, cunhada nos tempos do Mensalão, entrou de fato para o vocabulário da política nacional e lá se deu tão bem que permanece até hoje. Desde que chegou, ela vem sendo repetida a cada nova barbaridade de nossas autoridades federais.

Nesta execrável era bolsonárica – que ainda há de ser amaldiçoada pelos historiadores do futuro –, a expressão continua válida. E como! Tempos tão estranhos, o país nunca tinha vivido. Nenhum afiado futurólogo do século 20 teria jamais vislumbrado na bola de cristal um período como o atual, mais destrutivo do que muita guerra.

Vejamos então. Faz meses que o capitão açula sua malta a manifestar-se com violência contra o voto livre e secreto e contra a mais alta magistratura do país. Seu DembishDepartamento de Manipulação dos Baixos Instintos do Ser Humano (também conhecido como Gabinete do Ódio) – concluiu que o Sete de Setembro, a data maior da nação, seria excelente momento para deixar explodir a violência que lampeja atrás dos olhos injetados de seus sequazes.

À vista de uma turbulência que imensa maioria da população não aprova e não deseja, autoridades de bom senso tiveram de agir. A inauguração do novo Museu do Ipiranga e as manobras navais previstas na baía de Guanabara viram seu calendário chacoalhado. Para não soprar sobre as brasas acesas pelo presidente, tiveram de afastar-se do dia sete.

Diferentemente da tradicional bonomia dos festejos da Independência, dia de parada e bandeirinha, autoridades de Brasília tomaram decisão drástica: o bloqueio ao tráfego da Esplanada dos Ministérios. Ninguém passa.

Quando a expressão “tempos estranhos” foi forjada, havia monumental roubalheira mas ninguém tinha medo. A situação hoje se agravou exponencialmente. O assalto – declarado ou suputado – aos cofres da nação deixou o estágio das “obscuras transações” de outrora e tornou-se oficial: orçamentos secretos, ao melhor estilo ditatorial, se encarregam de saquear as burras à luz do meio-dia. E em toda legalidade.

O problema maior é que, além de esbulhado pela “elite” política, o povo vive hoje com medo. Instalou-se uma situação de insegurança que o brasileiro não vivenciava desde os tempos sombrios da ditadura. A pobreza, a miséria, a ignorância, a desigualdade perduram, mas agora o temor do amanhã veio se adicionar aos conhecidos males da nação.

À espera do dia em que essa malta rasteira e estridente será desalojada pelo voto, o Brasil pensante se dá as mãos para neutralizar as consequências das decisões malévolas e maléficas do presidente.

E assim vamos, qual cegos em tiroteio, com jogo de cintura, desviando pra cá e pra lá, tratando hemorragia com esparadrapo, fugindo do capitão, de olho num outubro que nos tire do sufoco.

Como seria bom se a expressão “tempos estranhos” caísse logo em desuso.

A juíza e o juízo

José Horta Manzano

Na sexta-feira 2 de setembro, o site do TSE (Tribunal Superior Eleitoral) passou a exibir a nova regra relativa ao porte de telefone celular na cabine de votação.

O aparelhinho continua proibido, assim como todo dispositivo que permita fotografar, filmar ou registrar o voto. A novidade é que o telefone celular será retido pela mesa eleitoral enquanto o eleitor vota. O cidadão que se recusar a entregar seu aparelho perderá o direito de votar.

A resolução não prevê exceção para cidadãos STC (sem telefone celular), como este blogueiro. Fico a imaginar a cara de espanto dos jovens mesários quando eu lhes contar a exótica verdade. Estou até pensando em tomar um telefone emprestado, só pra não causar mal-estar.

O mui sério e mui oficial site do TSE estampa as novas disposições(1). O trecho mais impressionante é o seguinte:

“Havendo recusa em entregar os equipamentos descritos, a eleitora ou o eleitor não serão autorizados a votar e a presidência da mesa receptora constará em ata(2) os detalhes do ocorrido e acionará a força policial para adoção de providências necessárias, sem prejuízo de comunicação a juíza ou ao juízo eleitoral.(3)

Considero que o confisco temporário do telefone de bolso é medida de bom senso. Inibe tanto o voto comprado quanto o voto de cabresto. O que me incomoda é a redação do comunicado. Vejamos.

(2) Constará em ata
Quem redigiu a frase ignora o significado do verbo constar. Nessa acepção, significa aparecer, ser mencionado. Ora, não é a presidência da mesa que vai aparecer na ata. A obrigação da presidência da mesa será fazer constar na ata. Se preferirem um único verbo, podem dizer que a presidência lançará em ata os detalhes do ocorrido.

(3) A juíza e o juízo
Li, reli e tresli a frase tentando adivinhar a intenção de quem a redigiu. Ainda estou na dúvida. Quem será o juízo? Pensei que talvez estivessem fazendo referência ao juízo eleitoral, ou seja, a instituição judiciária eleitoral. Se assim fosse, que estaria fazendo a juíza na frase?

Reflexão feita, acabei entendendo que o “politicamente correto” passou por ali. O redator devia estar com intenção de se referir à juíza e ao juiz, mas – oh céus! – digitou mal. Saiu “à juíza e ao juízo”. Ninguém releu, e o texto virou lei.

“A juíza e o juízo” me lembra uma historinha infantil em que se perguntava qual era o marido da vaca, e a resposta vinha: “É o vaco”.

(1) Se alguém quiser conferir no site do TSE, é por aqui.

Em dinheiro vivo

José Horta Manzano

Levantamento feito pelo UOL dá conta das atividades do clã Bolsonaro no mercado imobiliário. A família é mais ativa do que muito escritório imobiliário por aí. Nos últimos trinta anos, Jair (deputado, depois presidente), irmãos e filhos transacionaram um total de 107 imóveis. Pra quem não é do ramo, é um currículo apreciável.

Só que tem um particular: entre os imóveis comprados, 51 foram pagos parcial ou inteiramente em dinheiro vivo. Fazendo as contas e atualizando os montantes pela inflação, dá o estonteante total de R$ 26,5 milhões. Em notas, talvez transportadas numa sacola e empilhadas no balcão. Sabe que espaço é necessário pra armazenar R$ 26,5 milhões? Um quarto cheio.

Nestes tempos de judicialização extrema, a imprensa trata o assunto com luvas de pelica. Os textos saem com expressões cautelosas, aspas e verbos no condicional: “suposta lavagem de dinheiro”, “teria sido gasto”, “poderia tratar-se de rachadinha”, e por aí vai.

Dado que Seu Lobo não chega aqui, tiro as aspas, dispenso o condicional e digo o que penso: está evidente que o dinheiro provinha de negócios subterrâneos, que não podem ser expostos à luz do meio-dia. Rachadinha? Pode ser, se bem que os montantes me parecem elevados demais. Cobrança de proteção garantida por milicianos? Vai saber. Extorsão, chantagem ou outros crimes graves? É permitido cogitar.

Bom, não vamos aqui entrar no mérito da questão. De toda maneira, qualquer denúncia será abatida em voo pelo aparato de segurança que (ainda) protege o capitão. Eu queria é comentar a naturalidade com que esse negócio de pagamento em dinheiro ocorre no Brasil, enquanto, em terras mais avançadas, não existe.

Nos países da Europa ocidental, é simplesmente proibido comprar imóvel com dinheiro vivo. O pagamento tem de transitar necessariamente por um banco. Essa regra, em si, já é um grande passo em direção à transparência. Um cheque ou uma transferência bancária deixam rastro indelével. A todo momento, pode-se saber quem pagou e de que conta saiu.

Ainda que o comprador tivesse – pode acontecer – o dinheiro do pagamento armazenado em malas ou em cuecas, não adianta: terá de depositar o montante numa conta bancária e só então mandar fazer a transferência. Só que, nesse caso, surge novo problema. Hoje em dia, é complicado depositar grandes quantias no banco. Tem de justificar, com prova documental, a origem do dinheiro. Se o depositante não conseguir provar a origem, o banco não aceitará o depósito.

Há mais porteiras para cercear o florescimento de uma economia subterrânea, como o caso dos Bolsonaros parece denunciar. No entanto, pra começar a drenar esse pântano em que se movimentam criminosos de toda espécie, as duas primeiras medidas já seriam bem-vindas:

1. Que se proíbam transações imobiliárias em dinheiro vivo.

2. Que se determine aos bancos investigar a origem de depósitos em dinheiro a partir de um determinado montante.

É verdade que estamos caminhando para um mundo desmonetizado, em que notas de dinheiro estão entrando em via de extinção. Daqui a duas décadas, rolos como esse dos Bolsonaros (e de tanta gente mais) não serão possíveis. Mas não custa dar um empurrãozinho no destino e começar desde já a apertar a porca.

Malas e cuecas vão assim voltar a ser destinadas à finalidade para a qual foram concebidas.

Aporofobia

José Horta Manzano


Doutora Adela Cortina (1947-) é uma filósofa espanhola. Na década de 1990, cunhou o conceito de aporofobia para referir-se ao ódio e repúdio à pobreza e aos pobres.


A aporofobia inclui ainda a animosidade, hostilidade e aversão a todos os indicadores de pobreza: bairros carentes, pessoas sem-teto, refugiados, migrantes.

Em sociedades em que diferenças socio-econômicas são quase imperceptíveis, a aporofobia não costuma vicejar. Por seu lado, sociedades como a nossa, com abissais desigualdades, são terreno fértil para a germinação desse ódio.

Nosso desequilíbrio social é tão fecundo que a aporofobia aqui se aclimata e se alastra. O conceito se amplia e se exprime através do ódio racial, religioso e até político.

Foi esse terreno fértil que permitiu o surgimento de um Bolsonaro – aporófobo de primeira – que soube desinibir parte da população e dar a seus devotos a oportunidade de exprimir publicamente suas aversões. Em linguagem clara, aporófobos que costumavam reprimir sua tendência soltaram a franga. Romperam as amarras.

O capitão, que hoje defende a ampliação de benefícios sociais, é o mesmo que, no ano 2000, declarou ter orgulho de se opor a programas de redistribuição de renda, argumentando que deveriam estar associados ao controle da natalidade. Uma visão eugenista da sociedade, com relentos de esterilização forçada. “Se a população pobre deixar de procriar, em breve desaparecerá” – é a lógica que sua mente simplória lhe permitiu conceber.

O empresário periquito
Aquele conhecido empresário amigo do presidente, um baixinho de coco rapado que sempre aparece fantasiado de Zé Carioca, acaba de perder um processo. No mês de maio passado, andou fazendo comentários públicos contra o padre Júlio Lancellotti, ao vê-lo distribuir alimento a moradores de rua que tinham de enfrentar as noites geladas de São Paulo.

“É da turma do Lula. Hipocrisia pura. Temos que ensinar a pescar, e não dar o peixe. Cada dia que passa é mais malandro vivendo nas costas de quem trabalha”, foi o que o periquito escreveu. E continuou: “Quem defende bandido, bandido é”.

Ferido em sua dignidade diante de tamanha petulância, o religioso moveu um processo pedindo reparação. Venceu a causa.

Esse é o tipo de personagem a quem o capitão abriu a porteira. Como esse periquito, há milhões de papagaios que se sentem alforriados para exprimir seus baixos sentimentos.

Ódio, repúdio, hostilidade, aversão, antipatia, enjeitamento, repelência, repulsão, ojeriza & sentimentos afins não precisam mais ser guardados na gaveta. Podem ser expressos por escrito e à luz do dia. Ninguém mais parece se escandalizar.

O mal que Bolsonaro tem feito ao país ainda está para ser contabilizado. Vai ser difícil fechar a porteira que ele escancarou.

Tudo o que é demais…

José Horta Manzano

Estava observando o número de seguidores de certas personalidades da internet. É pra lá de impressionante: chega a ser estonteante. Tem gente – artistas, influenciadores, políticos, esportistas – que exibe incontáveis seguidores. São 60 milhões para fulano, 95 milhões para sicrano, 130 milhões para beltrano.

De repente, a gente pára e faz as contas. Adicionando todas essas centenas de milhões de fãs, chega-se a um total que equivale a muitíssimas vezes a população do país, incluindo recém-nascidos e anciãos. Conclusão: cada seguidor está inscrito em mais de um, quiçá em dezenas de canais.

Agora vem a pergunta: será que cada um desses fãs lê, sem falta, todas as postagens de todos os canais em que está inscrito?

A meu ver, é praticamente impossível. Passar o dia (e a noite) olhos grudados na telinha não seria suficiente pra ler tudo de verdade, sem deixar escapar nada.

Ao fim e ao cabo, conclui-se que tomar como base o número de seguidores de cada personalidade é uma informação que deve ser estudada com grande precaução. Cada postagem daquele que tem 70 milhões de fãs não será necessariamente lida por 70 milhões de assinantes. O número de verdadeiros seguidores assíduos é infinitamente mais baixo.

E isso significa o quê? Significa que o alcance verdadeiro da influência deste ou daquele artista (ou esportista, ou político) é certamente bem mais modesto do que pode parecer à primeira vista.

Além disso, a influência de cada personalidade se dilui no caldeirão onde borbulham tantas influências vindas de tantas bocas. O balanço final das diversas influências periga se anular.

O bombardeio de opiniões é superior à capacidade de absorção dos seguidores. Tudo o que é demais enjoa.

Fetichismo

A Folha de São Paulo esqueceu que a cidade do Porto pede artigo. Sempre. Não se deve dizer “em Porto”, mas no Porto”. Quanto à Irmandade, ela não é “vunerável”, mas venerável.

 

José Horta Manzano

Um miocárdio que passou dois séculos mergulhado em formol há de interessar médicos-legistas e estudantes de medicina. Talvez biólogos e estudiosos de paleomedicina também encontrem nele algum encanto. Já para o distinto público leigo, é outra coisa. Eu me pergunto o que move um cidadão que decide sair de casa e fazer fila pra admirar o coração de D. Pedro I, o defensor perpétuo do Brasil, morto há 188 anos.

A prática de arrancar o coração de um cadáver antes de enterrá-lo já me parece um atentado ao respeito que se deve aos mortos, uma idéia estrambótica digna de filme de terror. Ao organizar uma viagem transatlântica dos despojos do imperador – com o único objetivo de animar a festa dos 200 anos de independência –, atingimos os píncaros de um fetichismo doentio.

O costume de prestar reverência a objetos que tenham sido um dia tocados pelas augustas mãos de Sua Majestade Imperial já me incomoda. Pasmar diante de um resto de seu cadáver me parece o fim da picada. Enlouqueceram todos: os que tiveram a ideia de trazer a “relíquia”, os que anuíram em cedê-la e os que vão se abalar a admirá-la.

Guardar as tripas do falecido durante dois séculos e fazê-las atravessar o oceano para exibição aos plebeus? Que fizessem vir a pluma com que D. Pedro escreveu ao pai anunciando que a pátria-mãe acabava de perder as colônias sul-americanas. Isso, sim, seria simbólico. Mas… o coração?

Bolsonaro se engana ao tentar fazer uso político dos destroços do imperador para afagar sua galera neopentecostal. Escapulários, relíquias, ex-votos e quetais são exclusividade da Igreja Católica. Os evangélicos, menos apegados a genuflexões e a práticas fetichistas, perigam não apreciar.

Mudança de alvo

José Horta Manzano

Nós, os brasileiros menos fanáticos e mais esclarecidos, estamos torcendo para que as eleições de outubro devolvam o capitão de volta ao lar de onde nunca deveria ter saído. Isso é ponto pacífico.

Se dependesse de mim, o substituto na Presidência não seria Lula nem Ciro. Boto mais fé na Simone Tebet. Me parece a mais equilibrada e bem intencionada de todos. Mas o resultado não depende de mim, portanto o jeito é continuar torcendo.

Do jeito que as coisas vão, o páreo será decidido entre Lula e o capitão. Há que ser realista: os demais candidatos não parecem ter estofo nem fôlego para aguentar até a meta de chegada.

Nós, que frequentemente comentamos a vida nacional – com ênfase naqueles que nos governam –, temos um motivo a mais para torcer pela derrota do presidente atual. Estou farto de malhar o capitão! E acredito que muitos escribas também estejam.

Afinal, são quatro anos de observação desse horror. No começo, a gente imaginava que o homem fosse apenas um desequilibrado inofensivo, o que se dizia antigamente um “louco manso”. O tempo nos fez entender que, por detrás do desequilíbrio, havia um projeto pra valer. Não vejo a hora que a apuração indique a vitória de outro candidato – que, com grande possibilidade, será o Lula.

Estive fazendo um rápido levantamento dos 5.300 posts que já publiquei neste blogue. Contei o número de artigos em que o nome do Lula foi mencionado nestes últimos anos. No período de 4 anos que corre de 2018 a 2022, seu nome apareceu em 20 artigos, o que dá uma média de 5 vezes por ano.

Em seguida, contei quantas vezes o nome do mesmo Lula foi mencionado unicamente no ano de 2013 (quando já nem mais presidente era). Deu 72 vezes, num ano só, numa média de 6 artigos por mês. Uma festa!

Cansado de malhar o capitão, torço para que o Lula tome seu lugar. As críticas contra o novo presidente vão continuar fluindo, mas uma mudança de alvo é sempre bem-vinda.

Brincando de candidato

José Horta Manzano

Na hora de votar, paulistas e paulistanos são gente pouco preconceituosa. Não costumam ser mesquinhos. A capital já elegeu prefeitos cariocas (Faria Lima, Celso Pitta), uma prefeita vinda da Paraíba (Luíza Erundina), um mato-grossense (Jânio Quadros). Este último, aliás, antes de chegar à Presidência da República, foi governador dos paulistas durante quatro anos, eleito pelo voto direto. Lembremos que Fernando Henrique, o carioca que viria mais tarde a presidir o Brasil, também foi senador por São Paulo durante oito anos.

Paulistas não gostam é de ver gente que só conhece o estado de ouvir falar se apresentando como “profundo conhecedor” da terra dos bandeirantes. Vez por outra, aparece algum político que, não se sabe por que razão, se recusa a subir um degrau após o outro e prefere ser lançado de paraquedas pra pousar logo no topo da escala.

Não faz muito tempo, o paranaense Sergio Moro arrumou um endereço fantasma e, numa burla às regras, tentou inscrever-se como candidato ao Senado pelo estado de São Paulo. Foi apanhado e caiu do cavalo. Conhecia pouco ou quase nada do estado.

Temos agora o caso do doutor Tarcísio de Freitas, candidato do bolsonarismo ao governo paulista. Nascido do Rio e tendo passado boa parte de sua vida em Brasília, ele tem tanta intimidade com o estado de SP quanto você, distinto leitor, tem com a Mongólia. Pra quem nunca ouviu falar desse senhor, foi diretor de autarquia nomeado no governo Dilma, em seguida ministro nomeado por Bolsonaro. Costumava aparecer na garupa do presidente em alguns passeios de moto à la Mussolini.

A jornalista Bela Megale relata, em artigo d’O Globo, que senhor Freitas caminhava outro dia pelas ruas de Osasco (grande SP), quando um popular lhe perguntou se conhecia o estado. “Conheço mais que paulista” – foi a resposta, petulante e grosseira, ao melhor estilo bolsonarista.

O artigo nos informa também que, antes de bater o martelo, senhor Freitas relutava em aceitar a candidatura à governança de São Paulo, como lhe exigia o capitão. Em vez de candidatar-se a governador por um estado que não conhece, teria preferido representar o estado de Goiás no Congresso, o que lhe permitiria levar vida tranquila e continuar residindo em Brasília. No final, a pressão presidencial foi tamanha que, bom devoto, cedeu.

Agora chegamos ao ponto. Como eu dizia na entrada, não é questão de mesquinharia nem de rejeição ao forasteiro. O que os paulistas teriam preferido era um candidato com raízes no estado, pouco importando seu lugar de nascimento. Afinal, os 46 milhões de habitantes de São Paulo equivalem à inteira população da Espanha ou da Argentina. Se o estado fosse uma nação independente, seu PIB a situaria entre as 20 maiores economias do planeta.

Diga-me agora se é normal que a governança de uma massa de gente e de bens de tal magnitude seja entregue nas mãos de um indivíduo que, além de mal conhecer o estado, carece totalmente de experiência política? E que, ainda por cima, se candidatou de má vontade, só porque Seu Mestre mandou.

Governar o estado mais importante da União não é função para indivíduos desmotivados, que lá estão só porque o chefe insistiu.

Essa clique que se aglutina em torno da Presidência está tratando cargos políticos como bibelôs, que a gente escolhe na prateleira pensando em combinar com a cor da cortina da sala, manda embrulhar e leva embora. Os brasileiros merecem maior consideração.

Carta aos brasileiros

José Horta Manzano

 

Como é que é? Vosmicê ainda não assinou? Corra, que amanhã já é o dia da leitura oficial da carta. Não deixe passar a oportunidade de fazer parte oficial da História do Brasil.


Neste 10 de agosto,
o total de adesões está batendo nos

850.000  cidadãos!


 

Não sabe onde assinar? É por aqui:

https://estadodedireitosempre.com

Sabonete Lever e… democracia

José Horta Manzano

Quando eu era criança (faz muito tempo), muito anúncio de sabonete aparecia em rádio, jornal e revista. As marcas mais conhecidas – algumas hoje desaparecidas – eram: Palmolive, Eucalol, Gessy, Phebo, Lifebuoy. E também o conhecido Lever, o “sabonete das estrelas”, que um dia passou a chamar-se Lux.

Esse Lever se gabava de ser usado por 9 entre 10 estrelas do cinema. (Que se saiba, o fabricante nunca publicou pesquisa feita por instituto sério para embasar a afirmação.) Já este blogueiro, que nunca teve vocação pra acreditar em tudo o que se diz, ficava a matutar: “Mas qual será a marca usada pela estrela que, numa amostragem de 10, recusa o Lever?”.

Estes dias, tive notícia de uma pesquisa levada a cabo pela Fundação Tide Setúbal. Mais de 400 empresários brasileiros foram entrevistados e responderam a uma lista de questões. Note-se que eles provêm de empresas grandes e pequenas, de todas as regiões do país. Representam toda a paleta: comércio, indústria e serviços. Segue um apanhado da sondagem.

Democracia
Forte maioria deles (82%) concorda que a democracia, ainda que imperfeita, é preferível a qualquer outro sistema de governo.

Tortura
Uma pergunta era concernente à tortura: 82,5% dos entrevistados repeliu o emprego de tal violência, independentemente das circunstâncias.

Autocracia
Indagados se achavam que, em situação de crise, seria justificável que o presidente da República fechasse o Congresso e governasse sozinho, 55% repudiaram vigorosamente essa solução.


Agora vamos voltar à brecha aberta pelo velho sabonete Lever. Como em toda sondagem, uns concordam com isto, outros discordam daquilo. Voltemos à pesquisa em pauta e analisemos o outro lado da medalha.


Democracia
Considerável fatia dos entrevistados (18%) prefere um sistema de governo diferente da democracia. A pesquisa não perguntou qual era esse regime, mas é lícito supor que 18% dos empresários dão preferência a um regime ditatorial. Não está longe de 1 em cada 5 empresários.

Tortura
De novo, quase 1 em cada 5 empresários (17,5% dos pesquisados) não vê nenhum inconveniente em empregar a tortura em determinadas situações. A pesquisa não perguntou quem teria o poder de utilizar esse método brutal. O carcereiro na cadeia pra corrigir um preso indisciplinado? O policial na delegacia pra extorquir uma confissão? O dirigente de empresa dentro da fábrica pra dar uma lição nos representantes sindicais? O pai de família no quartinho dos fundos pra corrigir o filho rebelde ou a empregada respondona?

Autocracia
Esta parece pior que as demais. Dos empresários entrevistados, 45% acham normal que, em situação de crise, o Congresso seja extinto e que plenos poderes sejam dados ao presidente da República. Não ficou claro o significado de “situação de crise” mas, seja como for, o Congresso abriga os representantes do povo. Fechar essa instituição equivale a curto-circuitar a população e dar plenos poderes à panelinha que constitui o Executivo. Quase metade dos empresários não vê nenhum mal nisso.


Se a pesquisa tiver sido bem conduzida – e tudo indica que foi – a paisagem do empresariado nacional é aterradora. Porção significativa de grandes e pequenos empresários encara a tortura, a autocracia e a ausência de democracia como situações aceitáveis, pra não dizer desejáveis.


A conclusão a que se chega é que o país vai mal mesmo. Pior do que se imaginava. A disposição do empresariado diante dessas três questões concretas é estonteante. Se a pesquisa tivesse sido feita num reduto de devotos do capitão, não se esperaria outro resultado. Agora, de uma amostragem variada de empresários, é de dar vertigem.

Com um empresariado assim, falta muito pouco pra batermos no fundo do poço.

Áurea

Áurea (RS)

José Horta Manzano

Você sabia?

Duas semanas atrás, a Câmara de uma cidadezinha gaúcha de 3.600 habitantes aprovou uma lei municipal pouco comum no Brasil. Vamos conhecer a história.

A cidadezinha é Áurea, no alto vale do Rio Uruguai, norte do Rio Grande do Sul. O povoado começou a se formar 120 anos atrás, com a chegada de imigrantes poloneses. Seus descendentes constituem hoje mais de 90% da população.

Nos anos 1930, na tentativa de consolidar o advento de um “homo brasilicus” alforriado dos laços que prendiam os imigrantes à pátria de origem, a ditadura Vargas exerceu forte pressão para transformar os recém-chegados de então em brasileirinhos de quatrocentos anos. Em Áurea, o uso da língua polonesa no espaço público foi banido. Também foi proibido o ensino dessa língua em escolas.

Assim mesmo, Áurea resistiu. Não podendo fazer parte do ensino escolar, o polonês foi transmitido de geração em geração por via oral, no seio de cada família. Chegamos ao dia de hoje com boa parte da população – principalmente os mais velhos – “se virando” em polonês. Uns falam bem, outros mais ou menos, muitos entendem mas não falam, uns poucos leem.

Agora vamos à nova lei municipal. Ela institui a língua polonesa como idioma cooficial no município, ao lado da língua portuguesa – como permite o Artigo 216 da Constituição Federal. O objetivo é valorizar o aprendizado e a transmissão dessa língua, além de dar apoio a eventos culturais, artísticos e turísticos que promovam o idioma dos antepassados.

A (quase) totalidade dos habitantes tem sobrenome de origem polonesa, muitas vezes estropiado. Para corrigir essa anomalia, um dos incisos da lei preconiza que esses sobrenomes passem a ser corretamente grafados.

Os vereadores de Áurea estão de parabéns. A iniciativa me parece simpática, justa e oportuna. Nenhum aureense vai deixar de falar português só porque melhorou seu conhecimento da língua dos avós ou bisavós. O conhecimento de uma língua estrangeira, seja ela qual for, desempoeira a mente e alarga o horizonte intelectual. Só traz benefícios.

De carona

O Globo, 7 jul° 2022

José Horta Manzano

Artigo d’O Globo informa que dezenas de candidatos às eleições deste ano para os cargos de deputado estadual ou federal têm bancado anúncios no feicebúqui e no instagrã. Espero que vosmicê saiba como funciona esse sistema de anunciar em rede social. Quanto a mim, não faço a menor ideia. Sou do tempo em que anúncio se punha no jornal. Não frequento “redes”.

Bom, imagino que, como todo anúncio que se preze, essas inserções tenham um custo. É difícil acreditar que os candidatos enfiem a mão no próprio bolso, portanto devem estar se servindo no fundo partidário – aqueles bilhões desviados de nossos impostos e entregues ao apetite da coleção de partidos que compõem o tabuleiro das incongruências desta exótica República.

Resultado do jogo: os anúncios, na verdade, estão sendo financiados por todos nós.

A maioria dos anunciantes da base bolsonarista se dedica a um sistemático exercício de desinformação, seguindo à risca a cartilha do conspiracionismo. As investidas mais recorrentes, como se pode imaginar, vão contra o sistema de voto eletrônico e contra os ministros do STF – os judas favoritos da turma.

O teor dos anúncios intriga. De candidatos normais, se esperaria que se apresentassem ao grande público, que louvassem as próprias qualidades, que dissessem a que vêm. Em vez disso, temos um bando de zumbis, que entram na sala de visitas dos outros para denunciar o sistema que há de elegê-los – ou até, em numerosos casos, que já os elegeu. Por que fazem isso?

A primeira explicação, que me parece evidente, é não terem nada de substancial a contar sobre a própria personalidade, suas convicções e seu plano de trabalho.

A segunda razão, que decorre da anterior, é que, não tendo nada de interessante a apresentar, tomam carona no bonde do capitão, na esperança de recolher o voto de um punhado de seus devotos mais medrosos.

Em seguida, vem a dúvida. O que pretende essa gente? Será que não se dão conta de que, com esse comportamento, estão jogando um grão de areia na engrenagem bem azeitada da votação eletrônica, consagrada há um quarto de século? Será que não percebem que, ao contribuir para eventual tentativa de golpe, correm o sério risco de serem tragados por ele?

Se – que Deus nos livre e guarde – golpe houvesse e fosse bem sucedido, a primeira providência seria fechar a Câmara Federal e as Assembleias estaduais. Por duração indeterminada, Suas Excelências seriam mandadas de férias sem vencimentos. Talvez fosse organizada nova eleição, talvez não. Em regime autocrático, tudo depende dos caprichos do autocrata, de suas fobias e de sua paranoia.

Com ou sem golpe, esse punhado de candidatos-zumbis já nos dá um antegosto do nível intelectual e moral da nova leva de parlamentares, todos afiados e prontos para se aboletar no bem-bom.

750.000 adesões!

José Horta Manzano

Me lembro de uma velha tia que costumava mostrar, com muito orgulho, seu certificado de doadora de 1932. O diploma era conferido àqueles que houvessem doado alguma joia de ouro para contribuir com o esforço comum em prol da Revolução Constitucionalista.

Passados noventa anos, chegou minha vez de receber meu certificado. Desta vez, não foi preciso doar ouro nem enfiar a mão no bolso. Bastou botar a mão na consciência e dar, com minha assinatura, modesta contribuição para deter o descalabro que tomou conta de nosso país. Convém agir enquanto é tempo.

No momento em que escrevo, madrugada de sexta-feira 5 de agosto, já somos mais de 750.000 aderentes à Carta aos Brasileiros. Ela será lida oficialmente dia 11 de agosto, quinta-feira que vem. Se você não assinou, ainda dá tempo. É simples como dar bom-dia.

Coragem, gente, que o bicho não vai comer! O leão ruge, mas é covarde e desdentado.

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O que a pesquisa revela

José Horta Manzano

A análise de uma pesquisa eleitoral traz muitos ensinamentos. É claro que seu objetivo maior é vislumbrar o(s) vencedor(es) da disputa, mas as informações vão além. A sondagem diz muito mais do que simplesmente quem deve ganhar ou quem deve perder. Vamos ver.

Faz uns dias, saiu a mais recente edição da pesquisa DataFolha, que afere a temperatura da campanha para as presidenciais de outubro. Faltando só dois meses, o Brasil começa a prender a respiração à espera do veredicto das urnas. Eletrônicas, of course.

Uma das técnicas dos sondadores é perguntar ao eleitor, de chofre, a quem ele pretende dar seu voto. Nenhum nome de candidato é sugerido. Eleitoralmente, o valor desse capítulo da pesquisa é relativo, visto que a campanha ainda não começou pra valer, e o nome dos candidatos ainda não foi martelado no ouvido de cada um.

Essa pesquisa, chamada espontânea, apreende o “voto de coração” do eleitor. Se a pergunta fosse, por exemplo, “Pra que time você torce?”, não haveria necessidade de apresentar lista de nomes de clube – cada torcedor traz na ponta da língua o nome de seu time favorito. Na pesquisa presidencial, funciona igualzinho. Os que têm um candidato de coração declaram sem hesitar.

Na espontânea da Datafolha de julho, quando não foi apresentada nenhuma lista, 41% dos pesquisados declararam voto em Lula, enquanto 17% disseram ter intenção de votar em Bolsonaro. A meu ver, esses números dão boa indicação do cerne do eleitorado de cada um – os eleitores fiéis até debaixo d’água.

Que leitura se pode fazer dessa constatação? Salta aos olhos que o candidato que conta com a fidelidade de 41% do eleitorado tem mais chances de vencer o jogo do que seu adversário, que só tem 17% de adeptos. Mas há uma outra verdade, ainda que menos charmosa.

O candidato mais apreciado pelo distinto público já presidiu o país por 8 anos. É aquele que detém o triste primado de ser o primeiro ex-presidente que amargou ano e meio de cadeia por crime de corrupção – julgado, confirmado e reconfirmado por 3 diferente tribunais.

O candidato que vem em segundo lugar já presidiu o país por quase 4 anos. Sob sua batuta, o coro desafinou e o Brasil está à beira do descarrilamento. Por culpa dele, milhares de infelizes foram largados ao deus-dará, sem cuidados médicos e sem respiradores, nas horas mais sombrias da pandemia. O personagem ainda não passou uma temporada de vilegiatura na prisão, mas, ao término do mandato, será difícil deixar de responder por seus crimes.

No final, percebe-se que 58% dos brasileiros (41 + 17) se derretem por dois personagens que já deveriam estar há muito tempo na lata de despejo, junto com os outros detritos da República. Essa constatação é aterradora. Ela significa que corrupção e ineficiência não são freios ao louvor popular. Que o postulante à Presidência roube o dinheiro do povo, minta, maltrate o povo, minta, suborne representantes do povo, minta, zombe do povo, minta – não desencoraja grande maioria dos eleitores.

Não sei qual é a origem dessa macabra recusa a enterrar cadáveres políticos. Em terras mais civilizadas, uma disputa entre um ex-presidiário e um provável futuro presidiário não teria razão de ser. Ainda que fossem autorizados a se candidatar, não teriam chance. Será ingenuidade do eleitor brasileiro? Ignorância? Alienamento? Falta de percepção das grandes questões nacionais? Ideologia? Salvacionismo?

Visto isso, sabe quando é que virá a “salvação” do Brasil? No dia de São Nunca.

Carta aos brasileiros

José Horta Manzano

 

 


No momento em que escrevo,
o total de adesões ultrapassa

meio milhão de cidadãos


 

Você, que ainda não assinou, está fazendo falta! Não deixe passar a oportunidade de inscrever seu nome na História do Brasil. Vai ter o que contar pros netinhos.

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Carta aos brasileiros

José Horta Manzano

 

 


No momento em que escrevo,
o total de adesões ultrapassa

398.000 cidadãos


Quando tiveram a ideia, os organizadores da carta da USP em defesa da democracia acharam que, se chegassem a coletar umas trezentas assinaturas, já estaria de bom tamanho.

Hoje, poucos dias após o lançamento da carta aberta, as adesões continuam crescendo exponencialmente. É uma enxurrada de cidadãos que guardavam o grito preso na garganta e encontraram um poderoso meio de soltá-lo e se fazerem ouvir.

Nove ministros eméritos do STF assinaram a carta. Centenas de personalidades do Ministério Público, da Receita Federal, da Polícia Federal, dos Tribunais de Contas, da Abin, da Defensoria Pública também firmaram o documento.

A lista de assinaturas continua com milhares de nomes do meio universitário, empresarial, intelectual, econômico, cultural, artístico, financeiro, diplomático, jurídico, advocatício e ambiental.

Uma avalanche de adesões de cidadãos comuns – desconhecidos do grande público, mas sensatos e de boa vontade – completa a lista.

Nem com seu exército de computadores fantasmas mais uma ajudazinha de hackers russos o capitão conseguiria tal proeza.

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Em defesa do Estado de Direito

José Horta Manzano

Não é costume deste blogueiro fazer manifesto político. Em princípio, me contento em dar minha opinião. No entanto, por culpa de um presidente desonesto e desequilibrado, nosso país vive uma situação excepcional e perigosa que ninguém deve ignorar. Não é possível ficar comendo pipoca, na posição de espectador, pra ver a boiada passar. Se continuarmos de braços cruzados, ela passará.

Até poucos anos atrás – como vimos em 2013 – o povo demonstrava insatisfação saindo às ruas em imponentes passeatas. Não se vê mais. Não sei se terá sido por causa da covid ou por influência do trabalho à distância, o fato é que passeata saiu de moda. Deixou de ser o modo de expressão de descontentamento do cidadão.

Em lugar dela, manifestos virtuais vêm ganhando força. Em reação aos desmandos do pior presidente que o Brasil já conheceu, um grupo de figurões sensatos preparou uma resposta. Trata-se de uma carta aos brasileiros afirmando sua fé na democracia.

Os primeiros signatários são magistrados, procuradores, advogados, empresários, banqueiros. Dois dias depois de lançada, a carta já se aproxima de 200 mil signatários. E está aberta ao distinto público.

Proponho a todos que se manifestem. Vamos engrossar o coro? Eu já assinei. Dê uma passadinha pelo site – vai lhe tomar 2 minutos. O link está aqui:

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E passe a dica a seus contactos! Quanto mais numerosos formos, maior será o impacto.

O Brasil decente agradece.

Brasil e suas violências

José Horta Manzano

É interessante notar que um observador afastado, independente e não envolvido emocionalmente com nosso país consegue ter uma visão desapaixonada do drama que enreda o povo brasileiro. Para nós outros, que estamos envolvidos emocionalmente, é praticamente impossível fazer um julgamento neutro e imparcial.

O JDD (Journal du Dimanche) é um jornal semanal francês. Seu forte são entrevistas e artigos de fundo. A mais recente edição traz uma entrevista de Maud Chirio, historiadora francesa especializada em analisar a realidade brasileira.

Ela começa discorrendo sobre o aumento da violência:

“É violência urbana, mas há também uma explosão de violência feminicida, homofóbica e transfóbica e um aumento da violência política.”

E dá sua avaliação do momento político:

“O Brasil não é um país sob um regime ditatorial. É um regime baseado na desconstrução do Estado, que permite que a violência social floresça e seja incentivada na sociedade.”

E prossegue:

“Se Jair Bolsonaro for reeleito, o que é extremamente improvável, ou se ele manipular ou pressionar as eleições, estaremos em um ponto de inflexão. O Brasil poderia sair completamente do caminho democrático.”

Até chegar à impiedosa conclusão de sua análise:


“O Brasil é um país que está embrutecendo.”


É de arrepiar. E pensar que o capitão imagina poder contar suas lorotas aos quatro ventos sem que ninguém se dê conta da feia realidade. Temos um bobão no Planalto. Um bobão perigoso.