Legalização do aborto

Anos 1970
Simone Veil apresenta sua PEC à Assembleia Nacional (Paris)

José Horta Manzano

A legalização do aborto é tema sensível em numerosas sociedades, especialmente por roçar proibições de caráter religioso. Até cem anos atrás, a interrupção voluntária de gravidez não estava legalizada em nenhum país.

A hoje extinta União Soviética (Rússia) foi a pioneira. Já em 1920, Lenin suprime a penalização do aborto voluntário. Poucos anos mais tarde, em 1936, Stalin, o novo ditador, ressuscita a antiga proibição. Foi somente após sua morte, vinte anos mais tarde, que o aborto voluntário voltou a ser aprovado, para pôr freio à mortandade decorrente dos milhares de abortos clandestinos praticados a cada ano.

Timidamente, outros países foram acompanhando o movimento, autorizando a interrupção de gravidez em casos específicos (estupro, ameaça à saúde da mãe, risco de malformação do feto).

Em 1971, o presidente francês Giscard d’Estaing encarregou Simone Veil, sua ministra da Saúde, de defender a legalização diante do Parlamento. A defesa feita pela ministra foi tão veemente que as câmaras aprovaram o texto por folgada maioria. A nova lei, aprovada em caráter experimental por quatro anos, foi confirmada em 1975 e, com algumas adaptações, está em vigor até hoje.

O governo francês tem acompanhado com preocupação a saga vivida estes últimos anos pelos Estados Unidos nesse campo, com retrocessos fomentados pela Suprema Corte e acatados por estados mais conservadores. Para blindar a lei francesa e evitar que o retrocesso americano aconteça na França no futuro, o presidente Macron está atualmente propondo uma solução preventiva.

Trata-se de um projeto de alteração da Constituição (o que nós chamamos PEC – Projeto de Emenda à Constituição). A intenção é inscrever o direito ao aborto voluntário na Constituição, o que servirá como garantia de perenidade.

Enquanto isso, em nosso país, o casamento entre pessoas do mesmo sexo não está nem ao menos escrito em lei. Nem em lei nem muito menos na Constituição.

Até hoje, a coisa funciona com base num arreglo patrocinado pelas autoridades judiciárias. Os parlamentares, eleitos para fazer as leis, preferiram se esquivar e deixar que a Justiça resolva por eles. Enquanto isso, se queixam do STF, a quem acusam de “ativismo”. Vá entender.

Suas Excelências, os parlamentares, não têm tempo para gastar com essas minúcias. Cada um deles continua preferindo se dedicar em tempo integral a encontrar novos meios de cavar dinheiro público para sua própria paróquia.

Por que há guerras?

José Horta Manzano

Artigo publicado no Correio Braziliense de 28 outubro 2023

Apesar de soar meio infantil, a pergunta “Por que há guerras?” também pode ser feita pelos adultos que somos. Por que é que o Homo sapiens continua a escolher o tacape para resolver suas pendengas? Em princípio, a parafernália de que hoje dispomos para nos comunicar deveria ser suficiente para os humanos se entenderem e resolverem conflitos pelo diálogo. É desconcertante constatar que, na hora agá, ainda se opta pela força bruta.

Para nós que, do outro lado do oceano, vivemos distantes do palco dos acontecimentos, essa guerra entre Israel e o Hamas não faz sentido. Por que razão o braço armado do partido Hamas lançou um ataque terrorista e sangrento contra civis israelenses? Imaginavam varrer o país do mapa com foguetes imprecisos, tomada de reféns e golpes de facão?

Tampouco faz sentido os israelenses sufocarem e invadirem a Faixa de Gaza com forças de terra, mar e ar. Pretendem varrer todos os gazeus do mapa a rajadas de metralhadora? No burburinho das vielas, como vão reconhecer os terroristas? Vão abordar cada homem e exigir que prove não ser membro do Hamas?

Como se vê, visto daqui, esse morticínio não faz sentido, por nos parecer dar voltas em torno da questão sem resolvê-la. Fica a impressão de que, por mais que haja matança e destruição, os combates hão de se esgotar um dia e a situação regredirá ao “statu quo ante bellum”, ou seja, ao ponto exato em que estava antes da guerra. Terá sido um enfrentamento inútil.

Os observadores situados longe de Israel e da Palestina não estão necessariamente familiarizados com os fluxos e refluxos da política da região, que funciona na base do ódio mútuo, difuso, antigo e encruado. Isso faz que os espectadores esporádicos que somos não captemos a realidade do terreno, o que nos leva a dar nosso apoio a este ou àquele lado seguindo considerações subjetivas e alheias ao contexto.

Uma vista d’olhos nas análises publicadas estes últimos dias em importantes veículos da imprensa internacional confirma a coexistência de apreciações disparates, que variam muito, sempre baseadas em critérios distantes da realidade local.

O Financial Times considera que “a corrida do Ocidente para dar respaldo a Israel corrói o apoio que os países em desenvolvimento dão à Ucrânia”. Em suma, os esforços feitos durante quase dois anos para convencer países mais pobres a apoiar a Ucrânia estariam sendo jogados no lixo em poucas semanas. O Brasil é apontado como um dos que levantaram objeções ao apoio a Israel.

Outros veículos, como Le Monde, vão pela mesma trilha. O diário francês sublinha a sinuca em que se meteram os países do dito “Sul Global”, que não sabem mais a qual dos lados dar seu apoio. O hong-konguês South China Morning Post ressalta que o presidente Ramaphosa, da África do Sul, apareceu outro dia numa manifestação pública portando nos ombros uma faixa com as cores da Palestina. Outros órgãos da mídia evidenciam detalhes, contudo sem roçar o cerne da questão.

Uma análise do historiador israelense Yuval Harari, publicada no Washington Post e repicada em diversos veículos internacionais, me parece particularmente sagaz. Harari está convencido de que o Hamas, ao desencadear essa guerra, sabia muito bem o que estava fazendo e aonde pretendia chegar. A organização terrorista não tem interesse na paz, visto que só tem chance de sobreviver se a região se mantiver em estado permanente de beligerância.

O objetivo maior do Hamas é destruir Israel e estabelecer na região um califado regido pela xaria, o direito islâmico. Com o ataque de 6 de outubro, venceu batalhas importantes. Ofuscou a guerra na Ucrânia e desviou as atenções do planeta para a região palestina. Abriu nova clivagem entre as nações, que ora se dividem entre as que apoiam Israel e as que defendem a causa palestina.

Nesta altura dos acontecimentos, já temos algumas certezas. A normalização das relações entre Israel e a vizinhança árabe, encetada havia meses, entra em hibernação. A sensação de relativa segurança que reinou estes últimos anos em Israel se dissipou. A paz na região está mais distante do que nunca.

Por que há guerras? A resposta é complicada, mas uma coisa é certa: o pogrom lançado pelo Hamas marcou os espíritos e vai ecoar por décadas.

O combate às milícias

José Horta Manzano

Não sou grande conhecedor do mundo das milícias. Pelo que tenho lido, são organizações paramilitares especializadas em negócios escusos, como por exemplo achaque à população civil a fim de extorquir dinheiro de cidadãos indefesos, extorsão feita sob ameaça de retaliações. Entendo também que são muitos e que estão especialmente presentes na cidade e no estado do Rio de Janeiro.

Às vezes chego a acreditar que jornalistas também possam estar enfronhados nesses assuntos, tal é a familiaridade com que falam do “Abelha”, do “Zinho”, do “Faustão” e de outros milicianos de alto coturno. Como é que se faz pra conhecer o nome dos integrantes de um bando de elementos fora da lei?

Há suspeitas de que nosso ex-presidente Bolsonaro e seus filhos tenham ligações bastante chegadas com milicianos. Nada foi ainda provado, mas a desconfiança permanece. Talvez nunca se venha a saber. Quando figurões estão envolvidos, mais vale uma bela mentira que a feia verdade.

Há mais do que suspeitas da existência de ligações promíscuas entre milicianos, políticos e até militares.Testemunhos reforçam essas conexões. Volta e meia, os próprios fatos se encarregam de corroborar esse convívio – contra a natureza, diga-se – entre delinquentes e os que, em tese, deveriam dar-lhes voz de prisão.

Estes dias, após o assassinato pela milícia de um grupo de médicos que visitavam o Rio para um congresso profissional, a população sentiu o tranco. Enquanto as vítimas são pobretões de quem se extorque uma “comissão” pelo direito de usar água ou eletricidade, a boa sociedade olha para o outro lado e faz que não viu. No dia em que quatro doutores são abatidos com rajadas de metralhadora na porta de um hotel estrelado, a coisa muda.

O governo Lula estuda enviar a tropa para “erradicar” milicianos da paisagem carioca. É permitido, desde já, apostar todas as fichas no fracasso da missão. Não faz sentido.

Em primeiro lugar, tropa não é polícia. Militares são formados para defender nossas fronteiras e para operar na selva, longe do habitado. Resolver crises urbanas não é especialidade deles.

Em segundo lugar, até os mosaicos de pedra portuguesa de Copacabana sabem que será impossível “erradicar” as milícias enquanto elas estiverem contaminadas (e protegidas) por políticos politiqueiros e policiais indignos do uniforme que vestem.

O melhor caminho para a erradicação de grupos milicianos começa pelo combate à promiscuidade que os envolve com políticos de baixa extração e policiais sem caráter. É menos vistoso e bem mais complicado que mandar recrutas, mas é esse o caminho. Sem isso, o envio da tropa será apenas inócua ação de fachada para impressionar a galeria.

Lista telefônica

José Horta Manzano


Será que os mais jovens já viram uma lista telefônica?


Era um livro gordão, pesado, de capa mole, com a lista dos assinantes do serviço telefônico de uma determinada região.

De criança, eu gostava de ler lista telefônica. Passatempo bizarro, né? Podia passar horas folheando aquele calhamaço. Falando nisso, faz tempo que não vejo uma, será que ainda publicam? Hoje, com a praticidade de internet e google na palma da mão, não faz mesmo mais sentido distribuir um catálogo que, ao ser impresso, já está desatualizado.

Numa época em que não havia internet, a lista era ferramenta indispensável. Sem ela, como saber o número de telefone de alguém? Cada assinante de uma linha fixa (todas as linhas eram fixas) tinha direito a um exemplar. Todo ano, vinha um funcionário da companhia telefônica trazer a nova lista e recolher a antiga. Não sei por que razão recolhiam a anterior. Era obrigatório, não deixavam ninguém guardar o volume do ano anterior. Seria pra recuperarem uns centavos com a venda de papel velho?

Nas grandes cidades, havia duas listas de particulares: a de nomes e a de endereços. A primeira trazia os assinantes por ordem alfabética do sobrenome, começando com a família Aadyl e terminando com o clã Zwingli. A segunda lista era organizada por nome de rua, casa por casa, seguindo a ordem numérica. Nas cidades maiores, havia também as “páginas amarelas”, que listavam empresas, lojas e profissionais. Eram organizadas por atividade profissional.

Eu gostava daqueles livrões gordos, rechonchudos, de centenas de páginas impressas em papel-bíblia com letrinhas miúdas.

Eram tempos menos violentos, em que praticamente ninguém se opunha a ver seu nome, endereço e n° de telefone publicados, à vista de todos, à mercê de qualquer mal-intencionado. Figuravam na lista nossos parentes, professores e colegas, mas também políticos, jornalistas, personagens do rádio e da tevê, gente conhecida.

Hoje, isso deve parecer conto da carochinha. Vivemos atualmente num mundo em que figuras conhecidas são obrigadas a viver cercadas de seguranças. Até o cidadão comum, que não dispõe de milhões de seguidores em rede nenhuma, é obrigado a se proteger da criminalidade: mora em casa com aparência de jaula ou em prédio ornado de guarita, sistema de alarme e câmeras de vigilância. E, se puder, manda blindar o carro.

A violência permeia nossa existência. Me pergunto até que ponto o passar das décadas melhorou a vida de todos. Hoje viajamos mais rápido e conversamos (de longe) com montões de amigos. Por seu lado, ninguém mais sabe o que é uma pitanga; para andar a pé, tem de subir na esteira da academia porque na rua é perigoso; o celular tem mil utilidades, mas é melhor não sacá-lo na rua, porque periga ser levado por alguém.

Me pergunto se não se vivia melhor no tempo das listas telefônicas.

Uma rara história feliz

José Horta Manzano

A mídia nacional não deu grande importância à história que vou contar. Pode ser que o preconceito tenha atrapalhado, não sei. Encontrei o relato em numerosos veículos estrangeiros, todos baseados num despacho da AFP – Agência Francesa de Notícias.

É a história de Dyhan Cardoso, 19 anos, preto e pobre. O jovem vive com os pais e uma irmã em Aglomerado da Serra, uma das maiores favelas de Belo Horizonte. Desde criancinha, inexplicavelmente, se encantou pela dança clássica. É verdade que favelado e bailarino clássico são termos que não costumam aparecer juntos.

Conseguiu uma bolsa e se inscreveu numa escola de balé. Enfrentou preconceito. “Nas aulas, sempre fui o único menino, o único preto e o único pobre. Confortável não era, mas eu não ligava” – foi o que declarou o jovem. É preciso muita coragem e determinação para enfrentar tal situação, especialmente quando se é adolescente.

Dyhan nunca se deixou desanimar. Nem piadas maliciosas, nem associações de dança com “as elites” conseguiram abalá-lo. “Se você tem um sonho, tem que ir atrás e conquistá-lo”, é o que afirma.

A escola de dança fica situada “na parte rica” da cidade. O rapaz conseguiu ser admitido por intermediação de uma cliente do restaurante onde sua mãe é cozinheira.

Mês passado, Dyhan se apresentou para um teste de dança em BH. Sua intenção era só ficar sabendo quais eram seus defeitos e como devia se exercitar para evoluir. A vida lhe reservava uma surpresa.

“Será que estou sonhando?”, foi sua reação ao ouvir a tradução dos elogios feitos a ele, em inglês, por um senhor estrangeiro. Seu físico esguio e privilegiado lhe permite fazer passos muito difíceis com qualidade e beleza estética fora do comum.

Menos de um mês depois, veio o convite. A companhia americana Atlanta Ballet, do estado da Geórgia (EUA), fez uma proposta a Dyhan para integrar seu corpo de bailarinos.

Ele partiu outro dia para os Estados Unidos. Foi com os olhos cheios de estrelas e, no bolso, uma passagem de ida simples, sem data para voltar.

Entrevista de 2 min. concedida pelo jovem bailarino à AFP.

No topo do mundo

O Globo online, 20 out° 2023

José Horta Manzano

Quando li o título da chamada, quase caí da cadeira. Com que então, 1.300 brasileiros estão entre os melhores pesquisadores do mundo? Que notícia estupenda! Nossos complexos de inferioridade logo estarão redimidos.

No entanto, uma curiosidade me fazia cosquinhas: quantos pesquisadores aparecem na lista geral? No finzinho do artigo, vem a resposta.

A lista integral contém exatamente 210.198 cientistas. Fazendo as continhas, os 1.297 brasileiros representam uma porcentagem magrinha: são apenas 0,6% do total.

Ainda não chegou a hora de estourar champanhe.

Carro elétrico

José Horta Manzano

Em 2019, quando Romeu Zema (governador de Minas Gerais) concedeu a cidadania honorária do estado a Jair Bolsonaro, o governo do capitão estava apenas começando. Ainda não se falava em covid, nem em cloroquina, nem em jet ski, nem em pizza na calçada. Era admissível que alguns cidadãos ainda tivessem esperança de ter um governo decente.

Em 2023, encerrada a era bolsonárica, as ilusões já haviam morrido. Não era mais permitido dar ao capitão o benefício da dúvida, porque dúvida já não havia: seu governo havia sido calamitoso.

Senhor Zema, reeleito governador das Gerais em 2022, não precisava dar vexame, mas deu. Com a cumplicidade da Assembleia Legislativa, organizou uma festa em homenagem ao cidadão honorário. Em agosto passado (dois meses atrás), recebeu Bolsonaro com pompa e entregou-lhe o diploma. Não era obrigado a fazê-lo. Podia ter deixado o título honorífico continuar dormindo na gaveta do esquecimento. Se levou o caso até o fim, foi porque quis.

Vê-se que, para Romeu Zema, o 8 de Janeiro, as joias contrabandeadas, a minuta do golpe, a fuga para Orlando, o escândalo da covid, as vacinas sonegadas, a propaganda de remédios falsos, as bíblias negociadas contra barras de ouro – tudo isso não foi suficiente para mudar sua ideia. Para ele, Jair Bolsonaro continua merecedor da honra de ser declarado mineiro.

De um homem com essa mentalidade, pode-se esperar tudo. Até essa barbaridade que aparece no recorte acima.

Assim como a mentalidade estreita de Bolsonaro via no confinamento da covid apenas uma ameaça à economia nacional, Zema vê no carro elétrico “uma ameaça aos nossos empregos”. Sua visão afunilada não consegue vislumbrar o futuro. Não deve estar a par da determinação de numerosos países de simplesmente proibir o emplacamento de veículos com motor a combustão a partir de 2025 ou 2030.

Se estivéssemos no fim do século XV, esse senhor estaria denunciando a perda de emprego dos copistas medievais suplantados pela imprensa de Johannes Gutenberg.

Mas deixe estar. Não será um sabujo qualquer que vai fazer o mundo parar de girar. Quer doutor Zema goste ou não, o futuro da indústria automobilística estende os braços aos veículos elétricos e a hidrogênio. E isso vai acontecer antes do que ele imagina.

Jabuti francês

José Horta Manzano

A Fifa foi fundada em Paris em 1904. Nos primeiros tempos, não era essa potência financeira que conhecemos hoje. Na época, não havia rádio nem televisão, portanto, alguma parca entrada de fundos se limitava aos anúncios fixos que dão a volta ao campo de futebol. Ao final, eram os próprios países membros que financiavam a instituição, e não o contrário, como é hoje.

Depois da quebra da bolsa de Nova York, em 1929, a situação financeira piorou. Para não desaparecer, a Federação aceitou a proposta da Suíça, que oferecia tratamento fiscal favorável. Deixaram Paris e foram para Zurique, onde estão até hoje.

Só que não está gravado na pedra que a sede da Fifa tem de continuar na Suíça por todo o sempre. Faz tempo que a França está de olho no assunto, com muita vontade de trazer a Federação de volta. Os Jogos Olímpicos, programados para o ano que vem em Paris, abriram boa oportunidade.

Ontem, no finalzinho dos debates da Lei Orçamentária de 2024, um grupo de deputados governistas embutiu um jabuti (com perdão do eco). Trata-se de um artigo que prevê um regime fiscal muito vantajoso para federações esportivas internacionais. Concretamente, fica instituída uma exoneração de imposto de renda e de outras taxas menores para toda federação esportiva que vier a se instalar no país.

A valer a partir do ano que vem, a isenção de imposto vale também para todos os funcionários dessas insituições: não pagarão nem um centavo de imposto durante cinco anos (!).

Os benefícios que a instalação da Fifa traz ao país que a hospeda são tantos, que os candidatos, como a França, estão dispostos a fazer concessões impressionantes.

Os deputados que ontem inseriram o jabuti no texto estão hoje meio sem jeito e preferem não dar entrevista.

Mas pode apostar que a lei será aprovada. Se a Fifa vai aceitar o tapete vermelho? Isso é outra história.

Oriente tão próximo

As lágrimas dos dois lados
Folha de SP, 17 out° 2023

José Horta Manzano

Uma visão eurocêntrica dividiu em três as terras situadas para o leste e atribuiu-lhe os nomes de: Oriente Próximo, Médio Oriente e Extremo Oriente.

O Extremo Oriente é fácil de identificar. Todos concordam que inclui a China, o Japão, as Coreias, a Sibéria oriental e os países do sudeste da Ásia.

Já o Oriente Próximo e o Médio Oriente se sobrepõem e não cabem dentro de limites amplamente aceitos. Alguns atribuem a denominação de Oriente Próximo aos contornos do antigo Império Otomano. Outros incluem países do norte da África, como o Marrocos e a Argélia. Outros ainda acrescentam a Península Arábica inteira.

Nessa inconsistência toda, o enorme subcontinente indiano fica sistematicamente de fora. Não se encaixa em nenhuma das subdivisões.

Hoje quero me referir à região da Palestina e de Israel, mas não sei se devo situá-los no Oriente Próximo ou no Médio Oriente.

O que não se consegue decidir, decidido está. O distinto leitor tem o direito de reclamar, mandar cartinha para a Redação e dar sua opinião.

Faz dez dias que o mundo observa assustado os acontecimentos da região. Aquela terra está em permanente conflagração, com episódicas irrupções de violência maior. Mas a irrupção atual não é apenas mais uma, chama a atenção por repentina, sangrenta e de mau agouro.

Repentina porque nada nem ninguém esperava uma explosão dessa magnitude. Sangrenta porque já custou a vida de milhares de humanos, de um lado e de outro do conflito. De mau agouro porque, dure quanto durar o estado de comoção, os tempos futuros hão de se ressentir, e a desconfiança mútua promete se enraizar ainda mais.

O tiro de partida do atual episódio foi dado, de surpresa e no escuro da madrugada, por paramilitares do Hamas – grupo islamista tachado de organização terrorista por dezenas de países.

Numa ação ousada, acobertados por salvas de mísseis lançados da retaguarda, comandos do Hamas penetraram em território israelense, metralharam civis desarmados, assassinaram centenas de cidadãos comuns e sequestraram duas centenas de pessoas cujo único pecado era ter cruzado o caminho dos assaltantes.

Por mais que pareça estranho, também a guerra tem suas regras, definidas pela Convenção de Genebra de 1864 e protocolos adicionais, e referendadas por praticamente todos os países do mundo. Os comandos do Hamas cometeram atos proibidos pela Convenção: ataque a alvos civis e sequestro de inocentes. O mundo civilizado não pode tolerar esse tipo de ações.

Por outro lado, as represálias de Israel tampouco estão “dentro das 4 linhas” das Convenções de Genebra. Cortar o fornecimento de água e eletricidade de um exíguo território onde 2,3 milhões de pessoas vivem apinhadas e, ainda por cima, bombardear alvos aleatórios, noite e dia, sem preaviso – eis outro comportamento proibido pelas regras e considerado crime de guerra.

Um observador desatento dirá que Hamas e Israel se igualam, que ambos cometem crimes de guerra e escancaram seu desprezo pela vida humana. Eu vou mais longe.

Que o Hamas tenha afrontado as regras bélicas e atentado contra vidas civis é atitude atitude altamente reprovável, que só vem reafirmar a inclusão do grupo na categoria de organização terrorista.

Israel, porém, não é um grupo de guerrilheiros selvagens – é um Estado constituído e organizado, membro da ONU, reconhecido no planeta.

Ao assumir atitudes como aplicar castigo coletivo a dois milhões e meio de indivíduos e privar hospitais de energia e água, o Estado de Israel faz pior que os selvagens da organização terrorista que diz combater.

Paraskevidekatriafobia

José Horta Manzano

Tudo tem nome. Até aquelas “multidões de anônimos” que aparecem em fotos de manifestações, no fundo, não mostram indivíduos “anônimos” (sem nome). Cada um deles tem nome próprio e sobrenome. Esses participantes não deveriam ser descritos como “anônimos”, mas como “desconhecidos”: uma multidão de desconhecidos, isso sim.

Hoje é sexta-feira 13. Dia comum, que passa batido para a maioria de nós, é data estressante para muita gente fina. O distinto leitor e a encantadora leitora certamente já ouviram comentários do tipo “Ih, hoje é dia de azar” ou “Pôxa, sexta-feira 13… só falta cruzar com um gato preto”.

Cada um tem suas superstições, ainda que mínimas, insignificantes. Mas o nível de sensibilidade a elas varia de um indivíduo a outro, podendo, em algumas pessoas, atingir extremos intoleráveis.

Numa sexta-feira 13, tem gente que nem põe o pé na rua, de tanto medo de que algo ruim aconteça. Não estão fazendo isso por charme, acredite. Estão passando por um sofrimento real, um nível de estresse sufocante, avassalador. Uma verdadeira fobia.

Pois essas pessoas são vítimas de paraskevidekatriafobia, pavor mórbido de sexta-feira 13. O termo vem do grego paraskevi (sexta-feira) + dekatria (13) + phobia (medo patológico).

Outras fobias também têm nome:

Claustrofobia – medo patológico de estar em espaço fechado
Enofobia – ojeriza ao vinho
Pedofobia – repulsão a crianças

Sabemos que, dois milênios antes de nossa era, os povos da Mesopotâmia já utilizavam um sistema de cálculo de base 12. Nosso sistema de medição de ângulos e de divisão das horas do dia é herança dessa antiga criação. Dá pra entender que, sendo 12 o número perfeito, redondo e que fecha o círculo, o 13 aparecesse como resultado da entrada de um intruso na roda.

O cristianismo recolheu essas antigas crenças e as reforçou. Sexta-feira está associada à crucifixão de Jesus, donde muitos fiéis considerarem essa data infeliz. A Santa Ceia se realizou com Jesus e seus apóstolos, num total de 12. O 13°, que era Judas Iscariotes e acabou traindo o Mestre, bagunçou o coreto. E o número 13 carrega a cicatriz até hoje.

Na cultura britânica, sexta-feira costumava estar associada a execuções de pena capital. Da sexta-feira, diziam que era “o dia dos enforcados”.

Nos EUA, muitos edifícios não têm o 13° andar – passam direto do 12° para o 14°. Na minha visão, o 14° não passa de um 13° (mal) disfarçado. Mas, enfim, se satisfaz ao distinto morador…

Em certos indivíduos, a paúra da sexta-feira 13 é tamanha que assume caráter patológico. Ressentem sintomas como: respiração ofegante, tontura ou vertigem, ritmo cardíaco acelerado, comportamento ritualístico como comer alho e dar 13 voltas no quarto, sensação de morte iminente.

Os conselhos que se podem dar a quem sofre dessa doença são reflexões de bom senso. Acidentes e coisas ruins podem acontecer em qualquer dia da semana ou do mês.

Nos EUA, pra você ver como a coisa lá é levada a sério, há em Las Vegas uma clínica especializada em cuidar dos que sofrem de paraskevidekatriafobia.

Espero que, tirando um restinho de superstição herdado dos pais e avós, nenhum de vocês entre em parafuso a cada sexta-feira 13.

Com todo o respeito devido aos infelizes que estão neste momento debaixo de tiro e bomba no Oriente Médio, vamos nos alegrar de não estarmos na mesma situação.

Nossas balas perdidas já são suficientes pra apavorar e castigar qualquer cidadão.

Uns que vão, outros que vêm

Na volta ao solo pátrio, brasileiros em êxtase por terem escapado à morte.

 

José Horta Manzano

Milhares de cidadãos brasileiros se encontravam em solo israelense sábado passado, quando a investida sangrenta do Hamas começou. A grande maioria é constituída de binacionais. São pessoas que nasceram no Brasil e se transferiram a Israel, mas também indivíduos nascidos em Israel e que conservaram a nacionalidade herdada de pais brasileiros.

Além desses, havia algumas centenas de brasileiros de passagem. Uns estavam em peregrinação religiosa, outros a serviço ou em turismo padrão.

Os que estão sendo repatriados pela FAB pertencem a este segundo grupo: os de passagem, que não vivem em Israel.

A operação de repatriação não se destina a residentes naquele país. Além do mais, os que residem por lá não estão necessariamente interessados em abandonar o país e se refugiar no Brasil.

Ainda ontem, a revista Time publicava o seguinte relato:

“Nestes tempos angustiantes, alguns cidadãos israelenses que vivem no exterior não estão fugindo da guerra, mas para ela. De Atenas a Nova York, estão correndo para os aeroportos e entrando em grupos de bate-papo online atrás de ajuda, desesperados para chegar ao país após o ataque do Hamas.”

De fato, aeroportos fechados e voos cancelados afetam quem quer sair do país mas também quem quer entrar. Os israelenses, conscientes da fragilidade da pátria e condicionados desde a infância a defendê-la, não pensam em se refugiar no exterior numa hora grave como a atual.

A mesma ansiedade que aperta a garganta de turistas impossibilitados de sair, aperta a de cidadãos impossibilitados de voltar. Assim é a vida.

Dicionário é boa dica

O Globo online, 11 out° 2023

José Horta Manzano

Não conheço a moça, mas imagino que deva ser muito importante. Afinal, não é qualquer um que sai no jornal assim, sem mais nem menos.

É urgente aconselhar à jornalista que consulte um dicionário de vez em quando, nem que seja como passatempo. É útil. Réu tem feminino: é .

Pra quem não conhece, pode até parecer esquisito mas – que fazer? – assim é.

Ele é réu.

Ela é .

Nada como um dia após o outro – 2

José Horta Manzano

O mundo dá voltas. Às vezes, a sociedade enfrenta de novo problemas já vividos no passado. É interessante reparar na solução adotada a cada vez. Trago aqui dois exemplos de repatriação de brasileiros por situação de emergência ocorrida no estrangeiro.

 

 

O Globo, jan° 2020

2020 – Covid
No finzinho de janeiro 2020, a epidemia de covid tinha acabado de estourar na China. Naquelas alturas, ninguém imaginava que, em poucos meses, a infecção se tornaria pandemia global.

Um certo número de brasileiros se encontravam em território chinês, prisoneiros da situação. Com aeroportos fechados e voos cancelados, era impossível sair do país. Não vendo solução, pediram ajuda a nossa embaixada em Pequim.

Bolsonaro era então o presidente da República. Com sua conhecida falta de empatia para com a aflição e o sofrimento alheios, fez corpo duro. Não quis saber de mandar uma aeronave à China pra buscar os conterrâneos aflitos. Botou entraves. Declarou que “Custa caro um voo desses”.

Foi só com muita insistência que um avião saiu, semanas mais tarde, para trazer de volta os compatriotas.

 

 

CNN Brasil, out° 2023

2023 – Palestina
O mundo deu algumas voltas e, de novo, o problema apareceu: brasileiros, apanhados numa situação de emergência no exterior, precisam de ajuda do governo para escapar do perigo e voltar à pátria. Estou me referindo à agressão terrorista do grupo Hamas contra Israel.

Desta vez, a sorte é que temos um presidente normal. O governo anda meio desequilibrado, batendo cabeça o tempo todo, se movimentando feito barata tonta. Sem dúvida, não é o melhor governo que já se viu em nossa terra. Apesar disso, quando se trata de amparar filhos da pátria, as decisões que vêm de cima são normais, exatamente como deveriam ser em qualquer democracia civilizada.

O mundo ainda estava atordoado com o massacre dos invasores, quando Lula mostrou que tinha entendido perfeitamente a urgência da situação. Pediu “prioridade absoluta” na busca de compatriotas impedidos de voltar.

 

 

O sorriso dos resgatados

O voo de volta
Observei algumas fotos do repatriamento. Os resgatados aparecem felizes e sorridentes. Aliás, quem não estaria? Escapar daquele inferno e ainda viajar à custa da Viúva.

Um detalhe me chamou a atenção. Todos (ou quase) parecem vestidos como se estivessem se dirigindo a um comício de Bolsonaro. Pode ser coincidência, mas veem-se camisas da Seleção, camisetas com desenhinhos da bandeira nacional, roupa verde-amarela. Repare que, além do preto e do branco, ninguém está vestido com outra cor que não seja verde, amarelo ou azul. Pra coroar, vi foto de gente que, já em Brasília, desceu do avião enrolada na bandeira!

Seriam bolsonaristas retardatários? É difícil afirmar. Mas uma coisa é certa: tiveram muita sorte de o capitão já não estar do Planalto. Se ele lá estivesse, essa gente ainda estaria em Israel recebendo bombas e mísseis no bestunto.

Dupla cidadania

by Caio Gomez (1984-), desenhista brasiliense

José Horta Manzano

Artigo publicado no Correio Braziliense de 9 outubro 2023

Cheguei a cruzar com alguns imigrantes que, tendo deixado para trás a desesperança de uma Europa arrasada por guerras incessantes, aportavam por estas bandas em busca de um futuro melhor. Naqueles anos 1960 e 1970, os que chegavam já não eram numerosos como os que vieram nos primeiros anos do século 20; é que, com o boom econômico europeu, oportunidades locais foram se abrindo para a juventude, e as migrações transatlânticas foram aos poucos se esgotando.

A década de 1980 marcou o ponto de inflexão das correntes migratórias entre Europa e Brasil. Na mesma medida em que cada vez menos europeus vinham tentar a sorte em nossa terra, cada vez mais conterrâneos nossos ousavam lançar-se à aventura de fazer as malas e partir sem passagem de volta.

A cada período de crise nacional, o contingente dos que se vão tende a engrossar. Crise, entre nós, é o que não falta, a começar pela tragédia da hiperinflação que, por mais de uma década, aniquilou o poder do dinheiro e afetou justamente os que menos possuíam. Desde aquela época, cada vez mais gente tem pensado em ir-se embora – quem pôde, já se foi. O aumento exponencial da criminalidade também tem encorajado a decisão de candidatos à emigração.

Pelos cálculos do Itamaraty, há hoje 4,6 milhões de brasileiros vivendo fora do país. Se esse contingente formasse um estado, ele se situaria pelo meio do ranking nacional: o Brasil tem 15 unidades federativas que não atingem essa população. Trata-se de um número considerável de conterrâneos, aos quais os sucessivos governos nem sempre souberam (ou quiseram) dar a devida importância.

O dinheiro que os expatriados enviam à família significa importante aporte de moeda forte. As entradas anuais já beiram os 3,5 bilhões de dólares (R$ 17,4 bi). Há que lembrar que não se trata de investimento especulativo, daquele que hoje entra, amanhã vai-se embora. É dinheiro bem-vindo, gerado fora do país, que acaba injetado no circuito econômico nacional: lucro líquido e certo.

A reatividade é o próprio da lei. Em princípio, a legislação não cria o fato, antes, reage a uma realidade pré-existente ou pressentida. Nossa legislação está há décadas preparada par regular a atribuição da nacionalidade a estrangeiros que manifestem o desejo. No entanto, o crescente movimento de brasileiros se transferindo para o exterior pegou nosso legislador de surpresa.

Todo cidadão que deixa o país de origem tem a intenção de retornar um dia, mas a vida nem sempre corre como cada um imaginava. Vem o casamento, vêm os filhos, o tempo vai passando e a volta definitiva às origens vai ficando problemática. Enquanto isso, o Brasil continuava apegado a uma legislação de cunho pseudopatriótico, que, sem dizê-lo, trata emigrantes como verdadeiros traidores da pátria.

Por décadas, a aquisição de nova cidadania esteve praticamente vetada aos brasileiros. Os que ousassem fazê-lo, arriscavam a perda do passaporte nacional. Essa rigidez da visão da nacionalidade mostrava o pouco traquejo internacional de um legislador cuja vivência nesse campo raramente vai além de alguma rápida vilegiatura pelo sul da Florida.

Essa falha está sendo sanada. Uma PEC aprovada estes dias, ora em tramitação final para promulgação, corrige uma distorção herdada dos tempos trevosos do “Brasil: ame-o ou deixe-o”. A partir do momento em que a nova redação do Art° 12 da Constituição estiver em vigor, o cordão umbilical da nacionalidade acompanhará todos os expatriados brasileiros. E sua descendência. A aquisição de nova cidadania não mais será sancionada.

Além de reconhecer a forte mobilidade do mundo atual, a resposta dada pela PEC é solução de bom senso. O mundo dá voltas. Não é impossível que, no futuro, a baixa natalidade transforme o Brasil em importador de mão de obra. Se assim for, já teremos nova geração de brasileirinhos nascidos e formados no exterior, com experiência internacional, com noções de língua portuguesa e, ainda por cima, com a cidadania brasileira no bolso. Prontos para ingressar no mercado nacional de especialistas.

Dá gosto ver uma alteração da Lei Maior que corrige injustiças passadas, tira muita gente da clandestinidade e ainda abre boas perspectivas para o futuro.

Israel atacado

Porta de Brandenburgo, Berlim (Alemanha)
iluminada em apoio ao povo israelense

José Horta Manzano

O ataque desfechado pelos dirigentes do movimento islâmico Hamas ao território israelense deixou o mundo de queixo caído. Os israelenses responsáveis pela proteção do território nacional estão até agora se perguntando como foi possível acontecer uma catástrofe dessas proporções.

Ninguém imaginava que um bando, que costuma ser etiquetado “terrorista”, fosse capaz de ir além de ataques suicidas com bombas amarradas na cintura de mulheres e adolescentes.

O ataque organizado se fez por terra, por mar e por ar, coisa de louco. Por terra, na falta de tanques, vieram homens a pé; por ar, na falta de aviação, vieram parapentes. Uma versão de guerra de segunda categoria, mas que estropia e mata do mesmo jeito.

Os que estavam em solo israelense, gozando um dia feriado com temperatura amena, hão de ter levado o maior susto da vida. Deve ser apavorante você estar à toa na modorra e, de repente, ver chover do céu foguetes explosivos e incendiários.

Em outras terras, seria o caso de demissão coletiva do primeiro-ministro e todos os seus ministros. Mas, com Mr. Netanyahu (também conhecido como Bibi), as coisas não funcionam assim.

O homem parece ter sido atarrachado em sua poltrona. De lá, ninguém o tira, nem choro nem decoro, nem grito nem atrito. Ele afronta a Justiça, faz modificar a lei em seu favor e tornou-se o primeiro-ministro mais longevo da história de seu país.

A imprensa internacional informou, em primeira página, que “o Brasil convocou uma reunião de urgência do Conselho de Segurança da ONU”. Algum distraído pode até achar que Luiz Inácio está de novo se metendo onde não foi chamado. Mas não é isso. O fato é que, no sistema rotativo do C.S., nosso país ocupa atualmente a presidência pro tempore. Daí a iniciativa.

A nota oficial brasileira lamentou ainda o ataque do Hamas. Lula confessou estar “chocado”. O texto se ateve a generalidades e, diplomaticamente, evitou apoiar ou condenar um dos lados. Já está de melhor tamanho do que as declarações estabanadas que o mesmo Luiz Inácio havia dado com relação à guerra na Ucrânia, falas tão tendenciosas que o mandaram pra escanteio quanto a eventuais negociações de paz.

O conflito que estourou ontem é uma guerra assimétrica. De um lado, temos um Israel provido de exército, marinha e aeronáutica de desempenho respeitado. Foram apanhados de surpresa, mas já devem estar se recompondo. De outro, temos um Hamas integrado por homens motivados, sim, mas desprovidos da parafernália que caracteriza as forças armadas modernas.

Além disso – e aqui está o nó da questão – em qualquer guerra, o inimigo deve ser claramente designado. Uma guerra entre Israel e Palestina poderia ser uma etiqueta. Só que há um problema grave: a Palestina não é um Estado independente nem reconhecido no concerto das nações. Oficialmente, a Palestina simplesmente não existe. Como é que se pode guerrear contra um Estado que não tem existência real e só sobrevive na imaginação?

Hamas não constitui um Estado. Como todo grupo sem existência oficial, está geograficamente disseminado por boa parte da região. Alguns dirigentes vivem em território libanês, outros no Egito, outros ramos no Irã.

Pra poder varrê-los do mapa, seria preciso primeiro saber quem são e onde estão. O Hamas não dispõe de um Kremlin, onde se alojam os cabeças do regime. Estão espalhados. Israel vai encontrar tremendas dificuldades para “exterminar” esse grupo.

Na prática, não está claro por que razão o Hamas decidiu fazer esse ataque agora e dessa maneira. Que vantagem Maria leva? O tempo talvez traga a resposta.

Fernando de Noronha

José Horta Manzano

O arquipélago de Fernando de Noronha sempre foi tratado como o que é: um posto avançado da nação, um retalhinho de Brasil espichado a quase 400 km da costa, um confete estratégico que nunca deixou de receber as devidas atenções por parte da autoridade federal. No passado, pelo menos, era assim.

Este blogueiro, nas aulas de Geografia tomadas décadas atrás, aprendeu que Fernando de Noronha era um território federal – ao lado de Acre, Amapá, Rio Branco e Guaporé, com governador nomeado diretamente pelo Poder central. Isso mostra a importância dessas regiões de fronteira.

As décadas passaram e os territórios se emanciparam e viraram estados. Quanto a Fernando de Noronha, ao perder o status de território, foi anexado ao estado de Pernambuco. Essa anexação foi mais simbólica que outra coisa. Geograficamente, o arquipélago continua onde sempre esteve, ocupando um posto avançado como se dissesse ao navegante de passagem: “Aqui começa o Brasil”.

Já faz alguns dias que a mídia publica com insistência a história de um jovem brasileiro com sobrenome de chef francês que, enricado da noite pro dia, ficou bilionário e agora vai se casar. Para isso, o rapaz, com seu ar de adolescente estudioso, decidiu “fechar” o antigo território federal. Requisitou todos os alojamentos para hospedar seus 600 convidados. “Ninguém mais entra na ilha” – parece dizer. “Pelo espaço de um fim de semana, ela é minha.”

Posso parecer implicante, mas esse tipo de comportamento me choca. Há alguns pontos que me incomodam. Acho um acinte, num país em que há gente passando fome, jogar dinheiro pela janela dando uma festa de arromba e ainda sair por aí anunciando de alto-falante. A discrição nunca fez mal a ninguém.

A decisão de “fechar” um antigo território federal também me surpreende. Nem sabia que fosse possível. Soa como se alguém se apossasse de um símbolo da República, digamos, do Palácio do Planalto ou do Museu Paulista, para dar uma festa particular. Fica esquisito.

Ao fim e ao cabo, presenciamos um xilique típico de nouveau riche, de alguém que subiu rápido demais. E cedo demais na vida. Lembra os caprichos de certos futebolistas cujo nome nem preciso citar.

Terão seus méritos, mas me parecem indivíduos um tanto quanto ocos.

Conspiracionismo

José Horta Manzano

Tenho uma amiga que fazia anos que eu não via. Dia desses nos reencontramos. Conversa vai, conversa vem, depois dos patati e patatá, ela solta a pergunta:

– Você se vacinou?

– Vacinou? Contra o quê?

– Contra a covid.

– Ah, claro! Tomei as quatro doses assim que saíram na praça.

– Pois eu não me vacinei – me diz ela.

– Não? E por que não?

– Sou antivacina.

– Hã? Antivacina? Você está brincando, né?

– Brincando nada. Você não percebeu que essa história de covid é um grande engodo? Pra começar, essa epidemia não foi tão séria quanto a mídia quer nos fazer crer, foi bem mais suave. Não morreu tanta gente assim, só pessoas que já tinham doenças graves. Tanto a covid quanto a vacina fazem parte de uma grande conspiração para diminuir a população do planeta!

– Não posso imaginar que você acredita nessas teorias conspiracionistas.

– Veja bem: todos os que se vacinaram acabaram pegando a doença. Quer prova maior?

Estonteante, não? Em pleno 2023, quase quatro anos depois que a epidemia surgiu, tem gente negando que ela tenha existido. E garantindo que tudo não passou de uma tentativa de diminuir a população do planeta. Barbaridade!

Eu sabia que havia algumas bolhas de indivíduos conspiracionistas, mas não imaginei ter um espécime a meu redor.

E olhe que a amiga em questão não é uma pessoa atrasadona. Já está na idade madura, casou, teve filhos, descasou, viajou muito, morou em três ou quatro diferentes países, fala línguas, continua viajando duas ou três vezes por ano para passar uns tempos com uma filha que vive num país da Ásia Central, daqueles que terminam com “istão”.

Considerando esses antecedentes, percebo que ideias conspiracionistas podem germinar em qualquer um. Isso explica a quantidade de gente que segue ideias de extrema direita. Pensamentos estranhos podem ocorrer a gente normal, sem problemas, de boa formação cultural, com diploma no bolso e nome na praça.

Ignoro qual seja o mecanismo que leva a pessoa a negar a existência de fatos evidentes. Mas há muito negacionista por aí. Há quem afirme que as câmaras de gás dos campos de concentração nazistas jamais existiram. Há quem acredite que Getúlio Vargas não morreu em 1954. Há ainda quem jure que o acidente de carro que matou Juscelino Kubitschek em 1976 foi atentado.

Para qualquer fato real, sempre aparecerá quem o negue, ainda que se trate de evidência documentada, fotografada, gravada, comprovada, jurada e sacramentada. Daqui a algumas décadas, ainda é capaz de aparecer que acredite que a guerra na Ucrânia nunca existiu, que tudo não passou de escaramuças de fronteira, combates sem importância.

Palavras que se usam numa única expressão

Aldo L. Bizzocchi (*)

Vocês já devem ter notado que o português tem várias palavras ou expressões que se usam num único contexto e por isso mesmo estão dicionarizadas junto a esse contexto, não é?

Palavras como tona, toa, léu, dentre outras, só ocorrem em expressões como “vir à tona”, “estar à toa”, “andar ao léu”… Além dessas, temos “à queima-roupa”, “por um triz”, “em riste” (referindo-se unicamente a “dedo”), “breca” (só nas expressões “com a breca”, hoje desusada, e “levado da breca”), “caramba” (só em “pra caramba” e na exclamação “Caramba!”), “de soslaio”, “às pressas”, “de esguelha”, “de supetão”, “às arrascas”, “tintim por tintim”, além dos antiquados “à socapa”, “à sorrelfa”, “sem tir-te nem guar-te”, “de truz”, “à mancheia” e “aos borbotões”.

Muitas dessas palavras eram de uso corrente no passado (por exemplo, truz significa “ruído de queda, estrondo”), mas caíram em desuso, ficando cristalizadas apenas em expressões que usamos no dia a dia, as mais das vezes sem sequer suspeitar de seu significado ou sua origem.

Tona é a superfície da água, logo “vir à tona” é emergir até a superfície. Só que (quase) ninguém diz: “Tenho medo de me afogar, por isso não mergulho, só fico boiando na tona da piscina”. Uma curiosidade: tona, do latim tunna, significava originalmente “casca de árvore, pele fina”; foi daí que surgiu a metáfora de designar a superfície da água de tona.

Do mesmo modo, toa, do inglês tow, era a corda que amarrava um navio a outro; hoje, “andar à toa” é “andar a esmo, sem destino”. Quem está à toa na vida, como na canção de Chico Buarque, está sem fazer nada, sem propósito; quem diz coisas à toa é porque não tem o que dizer.

E léu? Vinda do occitano, língua do sul da França que foi muito importante na Idade Média e legou muitos vocábulos ao português, essa palavra quer dizer “ócio”. “Estar ou andar ao léu” é não ter nada para fazer (quem me dera!).

Queima-roupa, palavra composta que só ocorre em “atirar à queima-roupa” e, metaforicamente, em “dizer ou perguntar à queima-roupa”, é autoexplicativo: quando se atira em alguém de muito perto, a pólvora da bala queima a roupa da vítima. Logo, “à queima-roupa” é usado em diversas situações em que se age agressivamente e sem rodeios.

E por falar em atirar, quando se diz que “a bala passou por um triz” ou que “Fulano escapou por um triz”, a ideia é que faltou muito pouco para que algo muito ruim acontecesse. Triz, do grego thrix, “fio de cabelo”, é um quase nada. Um fio de cabelo é a distância entre a trajetória da bala e o corpo do alvo.

Já que falamos em triz, vamos ao truz. Como disse mais acima, trata-se de uma onomatopeia para ruído de golpe ou queda. Só que “pessoa de truz” é pessoa notável, distinta, de valor. Será que pessoas assim fazem esse ruído?

Na Idade Média, riste, do espanhol ristre, era o suporte em que os cavaleiros repousavam a lança em posição horizontal. Daí o “dedo em riste”, uma analogia com a posição horizontal da lança e seu formato retilíneo e agudo. Hoje, quando não há mais cavaleiros nem justas medievais em que se usam lanças, o significado original de riste se perdeu.

Breca, “cãibra”, passou a ser uma das denominações do Diabo (como cão, tinhoso, cramulhão, etc.). Daí que a exclamação “Com a breca!” é equivalente a “Com os diabos!” e subentende a imprecação “Vá com os diabos, vá para o Inferno!”. Pela mesma razão, uma criança “levada da breca” é um pimpolho cuja alma foi levada pelo Diabo, portanto uma criança endiabrada.

Caramba, de origem sânscrita, mas que nos chegou pelo espanhol, denota admiração, mas passou a ser usado como eufemismo para um termo chulo de sonoridade parecida, o qual originalmente era apenas uma estaca ou mastro de navio, que, por sua forma ereta, se tornou metáfora para “pênis”.

Também do espanhol, soslaio é “posição oblíqua”, donde “olhar de soslaio” é “olhar de esguelha”, outra palavra de pouco e restrito uso.

A expressão “de supetão” contém a palavra de uso único supetão, corruptela de subitâneo, derivado de súbito; por sinal, paralelamente a súbito, temos em português os adjetivos populares súpeto e súpito.

Arrascas, da expressão “às arrascas”, vem do verbo espanhol arrascar, forma popular de rascar, “raspar” (daí falar-se de uma voz rascante). Fazer algo às arrascas é fazer à força, como que raspando.

Tintim é onomatopaico e representa o ruído de copos de vidro colidindo — é por isso que, ao brindarmos, dizemos “Tintim!”. Mas “tintim por tintim” é “nos mínimos detalhes”; nesse caso, tintim é sinônimo de detalhe, pormenor.

Bem, faltou falar daquelas expressões que hoje não se usam mais, mas com as quais nos deparamos ao ler os clássicos. “À socapa” significa “às escondidas” (por sinal, escondidas só se usa nessa expressão, assim como pressas em “às pressas”, cujo termo usual é pressa). Sua origem é a expressão sob capa, isto é, oculto sob uma capa. Já “à sorrelfa” remete a sorrelfa, “disfarce para enganar”, portanto o sentido é o mesmo de socapa.

“Sem tir-te nem guar-te” quer dizer “sem cerimônia, repentinamente, sem aviso prévio”. Trata-se de uma corruptela da antiga expressão “sem tira-te nem guarda-te”, isto é, sem que a pessoa pudesse tirar-se ou guardar-se, logo proteger-se de algum ataque.

Mancheia vem de “mão cheia, punhado”. Quem lembra destes versos de Castro Alves:

“Oh! Bendito o que semeia livros,
livros à mancheia.
E manda o povo pensar!
O livro caindo n’alma
é germe que faz a palma,
é chuva que faz o mar.”?

Talvez poucos lembrem, já que livros hoje em dia têm tido pouca chance de germinar palmas e, por conseguinte, fazer pensar, não é?

Mas “livros à mancheia” é o mesmo que “livros aos borbotões”. E borbotão é um forte jorro d’água, como o de uma grande cascata. A metáfora com a ideia de “grande quantidade” é óbvia, não? É uma pena que essas expressões, que contam séculos de história da língua, estejam morrendo (algumas já estão mortas e sepultadas).

(*) Aldo L. Bizzocchi é doutor em Linguística, palestrante e blogueiro.