Não há ateus na política

Eduardo Affonso (*)

Demonstrações oportunistas de fé no Altíssimo e apreço à baixa gastronomia são tão tradicionais nas campanhas políticas quanto a troca de ofensas entre os novos adversários e de afagos entre os ofendidos na eleição passada.

Deus é testemunha de que, no Estado laico em que vivemos, campanha que se preze tem de ter candidato comendo pastel de feira e/ou em pose contrita – sempre de joelhos, se possível de mãos postas –, invocando a intercessão divina para ganhar mais voto do que peso. Pode até haver ateus em aviões que despencam – na propaganda eleitoral, jamais.

Tecnicamente, Estado e Igreja estão separados no Brasil desde 1891. Mas a atual Constituição foi promulgada “sob a proteção de Deus”. Nas cédulas, há a recomendação de que “Deus seja louvado”. O presidente de turno chegou ao poder com o slogan “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos”. É um Deus nos acuda em tempo integral.

Para fazer jus à cidadania brasileira, o Todo-Poderoso teve de se licenciar de suas inefáveis funções e virar cabo eleitoral na peleja de 2022. Ele se sentirá em casa por estar, desde a queda de Lúcifer, engajado nessa luta do Bem contra o Mal. A diferença é que, aqui, o Mal tem o dom da bilocação – está ao mesmo tempo nos dois cantos do ringue.

Michelle Bolsonaro tem dito que “o Brasil é do Senhor”, que “Deus tem promessas para o Brasil”, que “aquele lugar [o Palácio do Planalto] era consagrado a demônios”. Como o inferno são os outros, para Lula, “se há alguém possuído pelo demônio, é esse Bolsonaro”.

O petista atacou o uso da religião por parte de seu oponente: “É heresia falar o nome de Deus em vão como fala esse cidadão (…) que está mais para fariseu que para cristão”. Contudo se permitiu pregar: “A gente tem que olhar a Bíblia e ela tem que ser cumprida”. A que preceitos bíblicos estará se referindo? Aos que punem a homossexualidade e mandam apedrejar mulheres que não chegam virgens ao casamento? Aos mandamentos que condenam o roubo, o falso testemunho? Deve-se obediência coletiva a livros sagrados apenas nas teocracias – o que não é o caso. Porém levantamento feito pelo GLOBO revela que são 902 os candidatos que se declararam sacerdotes ou integrantes de ordem ou seita religiosa – um quarto a mais que em 2018. Majoritariamente evangélicos, vêm reforçar a bancada do dízimo – conservadora e pouco sensível a questões ligadas à laicidade do Estado ou à tolerância para com a fé alheia.

Rezam as feiquenius difundidas por bolsonaristas que, em caso de vitória do PT, “brasileiros serão impedidos de falar em Deus” (restrição que viria a calhar em relação aos que exercem cargos públicos) e que “templos serão fechados”. Interditar estabelecimentos caça-níqueis, que enriquecem os empresários da fé com “doações” obtidas mediante fraude, venda de caneta ungida (para passar em concurso) e de grão de feijão que cura Covid-19 seria uma ação legítima contra o estelionato. Mas, para dar cabo dos vendilhões do templo, só Jesus na causa.

Quando se faz o diabo para conseguir votos, lambuzar-se na gordurama do pastel de feira por puro populismo chega a ser um pecado menor.

(*) Eduardo Affonso é arquiteto, colunista do jornal O Globo e blogueiro.

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