O seleto clube dos negacionistas

José Horta Manzano

No momento em que escrevo, nosso Itamaraty – momentaneamente entregue aos delírios persecutórios de um embaixador júnior – ainda não reconheceu a vitória de Joseph Biden nas eleições presidenciais americanas. O clube dos renitentes está cada dia mais seleto.

Agora que a China, meio acanhada, deu os parabéns ao vencedor, ficamos na companhia de: Eslovênia, Rússia, Hungria, México e Coreia do Norte. Não tenho notícias da Mongólia nem da Quirguízia mas, salvo erro ou omissão, todos os demais já levaram a maçã para a professora.

Cada retardatário arrasta o chinelo por um motivo diferente. Vamos ver um por um.

Eslovênia
Eles estão fazendo papelão por motivo fútil, que combina mais com concurso de Miss Universo do que com relações internacionais. Neste pequeno país de 2 milhões de habitantes e área equivalente à de Sergipe, não acontece grande coisa. Um dia, uma modelo internacional natural do país casou-se com um multimilionário americano. O sonho da moça de origem simples ecoou no país inteiro. Pouco tempo depois, o maridão se tornou presidente. Desde esse dia, o pequeno país anda em cima de uma nuvem. É compreensível hesitarem em reconhecer que o sonho acabou.

Rússia e Hungria
Razões diferentes levam os dois países a almejarem o enfraquecimento da União Europeia. Para a Rússia, uma Europa fraca é desejável, pois alavanca o projeto de poder de Moscou. Para a Hungria, cujo governo atual tende para a direita extrema, o raciocínio é ideológico: uma Europa fraca – se possível esquartejada – liberaria seus Estados membros; nesse caso, alguns poderiam até juntar-se à Hungria e reforçar o clube de dirigentes extremistas autoritários. Aos olhos de russos e húngaros, a permanência de Trump no trono de Washington é a melhor receita para despedaçar a Europa.

México
Este caso também é transparente. Depois das promessas de Trump de construir um muro na fronteira entre os dois países, o relacionamento azedou. É compreensível. Por um lado, é humilhante ver um vizinho dizer por aí que vai levantar muro no quintal dele para se proteger de você. Por outro, caso a passagem entre os dois países ficasse realmente vedada, o México teria de hospedar todos os migrantes oriundos da miséria centro-americana.

Coreia do Norte
Bom, essa é fácil de entender. Faz alguns meses, um planeta estupefato viu imagens inimagináveis: um alaranjado Trump a cumprimentar o rechonchudo herdeiro da dinastia que há 75 anos domina a Coreia do Norte. Encantado com as perspectivas que começavam a se abrir para seu país, Kim Jong-Un reluta em aceitar a partida de Trump.

E o Brasil, nesse clube, que pito toca?

Diferentemente da Eslovênia, não temos primeira-dama brasileiro-americana. Aliás, o Brasil costuma mostrar indiferença quanto ao destino de conterrâneos que vivam além-fronteiras. Sei de muita gente que, vivendo no estrangeiro, tem ou teve relativo sucesso nas letras, nas artes ou nas ciências; gente que, no entanto, é desconhecida no Brasil.

Diferentemente da Rússia e da Hungria, não temos interesse em desmontar a União Europeia. Os projetos de poder do Brasil costumam estender-se ao relacionamento com a vizinhança. Aliás, no atual governo, até com os vizinhos andamos emburrados.

Diferentemente do México, não temos ressentimento contra o grande irmão do norte. O desvario de Trump não chegou ao ponto de imaginar construir muro em nossas fronteiras.

Pode parecer curioso, mas nossa motivação para a ausência de parabéns a Biden tem afinidade com a Coreia do Norte.

Para a galeria, a explicação é ideológica: Mr. Trump representa a defesa dos tradicionais valores ocidentais e cristãos. Mas isso é fachada. No duro, a explicação é mais terra a terra.

Não temos (ainda) nenhuma dinastia despótica no poder, mas o clã aboletado momentaneamente no Planalto é candidato forte. Iludidos com a pseudoideologia de Trump, esperavam que o apoio incondicional e servil dado ao americano pudesse servir de rampa de lançamento para se tornarem donos do Brasil pelas próximas décadas.

Apostaram todas as fichas. Perderam. E ficaram sem ficha.

Eleição para prefeito

José Horta Manzano

A cada quatro anos, quando chega a hora de escolher prefeito, volto ao assunto. O modo de eleger o chefe do Executivo municipal revela o descompasso entre o Brasil das grandes metrópoles e o dos municípios menores.

Nossa legislação eleitoral prevê que somente municípios com mais de 200 mil eleitores têm direito a organizar um segundo turno para afinar a escolha do prefeito. Isso dá 95 municípios num total de 5570.

Olhando por outro prisma, constata-se que somente 40% dos brasileiros têm direito a essa segunda votação: são aqueles que residem em municípios populosos. Os demais – que excedem 60% dos habitantes do país – têm de se contentar com o resultado do primeiro turno.

No tempo em que se votava em cédula de papel, essa restrição era compreensível. De fato, além de sair caro, a apuração demandava tempo e mão de obra. Hoje, com a generalização da urna eletrônica, a dificuldade desapareceu.

A Constituição reza que todos os brasileiros são iguais. A gente sabe que, na prática, não é bem assim, mas não vamos exagerar; já há muita desigualdade por aí, não convém criar mais uma. Não é justo que, na hora de escolher prefeito, somente os habitantes de grandes centros tenham direito a afinar o voto, enquanto, para o resto, vai com casca e tudo.

Pra ser eleito, presidente tem de receber mais de 50% dos votos. Governador idem. Prefeito de grande metrópole ibidem. Por que, então, essa discriminação contra moradores de centros menores? Será que são menos brasileiros que os outros?

Nos anos 80, quando não havia ainda segundo turno para eleição nenhuma, uma candidata à Prefeitura de São Paulo foi eleita com apenas 33% dos votos, porcentagem que abala a legitimidade do eleito. Desde que o segundo turno foi instituído, esses sustos deixaram de ocorrer na maior parte dos casos; mas ainda resta o problema dos municípios menores.

A meu ver, estão sendo vítimas de injustiça. No entanto, pensando bem, se eles que são os interessados não reclamam, por que é que eu vou me preocupar? Vamos deixar pra lá.

Volto ao assunto daqui a quatro anos. Se o destino permitir, naturalmente.

Demência de Bolsonaro

Ruy Castro (*)

Para nós que passamos 21 anos de vida adulta (1964-1985) sob a ditadura, os generais eram sujeitos sinistros, de óculos escuros, que nos ditavam quando, se e em quem podíamos votar, o que podíamos ler, ver, escutar, dizer e escrever e, se falássemos em instituições, direitos e liberdade, eles mandavam prender e arrebentar. Eles tinham as armas, as verbas e as canetas com as quais impor sua autoridade. E os porões, instrumentos de tortura e beleguins para aplicá-la. A mera visão de uma farda era intimidadora. Ela nos reduzia moralmente à menoridade, às calças curtas, à fralda.

Aí está algo incompreensível para um brasileirinho de hoje. Ele não entenderá como os militares podiam ter essa força. Para ele, militares são sujeitos que Jair Bolsonaro põe no governo, exibe nas redes sociais e logo começa a depreciar, diminuir, desmoralizar e, por fim, fulmina com a demissão. Em menos de dois anos, já fez isso com 16 generais, quatro brigadeiros e um almirante, e só entre os oficiais de alta patente.

Segundo levantamento da Folha, Bolsonaro demite um desses caciques por mês, até os que, por causa dele, abriram mão de suas promoções. Nada se compara, claro, ao esbofeteamento simbólico a que vive submetendo o general Eduardo Pazuello, pseudoministro da Saúde e seu mais dedicado ajudante de ordens.

Se Bolsonaro trata assim os graúdos, imagine seu apreço pelos 6.000 fardados do segundo time com que entupiu os ministérios, estatais, autarquias e bancos públicos. Só lhe servem para alimentar sua ilusão de que comprou o Exército.

Pode ser psicologia de galinheiro, mas estou certo de que Bolsonaro faz tudo isso para se compensar de humilhações em sua medíocre carreira militar. É uma forma de demência, que parece fascinar os generais – ou não se submeteriam a ela.

O brasileirinho de hoje tem razão. Se eles são assim, como conseguimos passar 21 anos sob suas botas?

(*) Ruy Castro (1948-) é escritor, biógrafo, jornalista e colunista. Seus artigos são publicados em numerosos veículos.

Mais irreversível?

José Horta Manzano

Irreversível é qualidade do que não pode ser revertido. Dizer «mais irreversível» ou «menos irreversível» equivale a dizer «mais grávida» ou «menos grávida». É tolice. Irreversível, assim como grávida, é situação absoluta, suficiente a si mesma. Assim como ninguém pode estar ‘meio grávida’, nenhuma situação será ‘meio reversível’. Ou é ou não é. Ou está ou não está.

O general quis dizer que a vitória de Biden está cada vez mais difícil de reverter ou cada vez mais próxima da irreversibilidade. Assim que se tornar irreversível, pronto, acabou, não volta mais.

Na expressão «mais irreversível», o ‘mais’ sobra. Quanto à vitória de Mr. Biden, o general cochilou, mas todos entendemos. E esperamos que ele tenha razão. Let’s keep fingers crossed!

GPS ideológico

José Horta Manzano

No Brasil de Bolsonaro, será que alguém ainda sabe o que é direita e o que é esquerda? Tenho cá minhas dúvidas. Numa sociedade onde ‘direita’ é saudosismo inconfessável,  ‘centrão’ virou insulto e ‘esquerda’ é sinônimo de comunismo, a coisa ficou complicada. De todo modo, entre nós, a posição exata da sensibilidade de cada um no espectro político nunca esteve na ordem do dia.

Na política tradicional brasileira, esse posicionamento sempre foi irrelevante. A personalidade do político costuma contar mais do que sua posição no tabuleiro. Juscelino era de direita ou de esquerda? E Jânio? E Adhemar? E Getúlio? Ninguém se preocupava com isso, nem apoiadores, nem detratores.

Foi nestas últimas décadas, desde que o PT tomou fermento e cresceu até o cargo mais alto, que o grosso da população se inteirou de que aqueles barbudinhos eram de esquerda. (Diferentemente de hoje, deixar crescer a barba não estava na moda, daí a pilosidade dos barbudos chamar a atenção.) No início, eram bem-intencionados, mas o poder é veneno que corrói. Todos sabem no que deu. Como resultado, na cabeça do eleitor médio, cristalizou-se a equação: esquerda = corrupção.

Na última eleição, as portas estavam abertas para a alternância. Em princípio, era vez da direita. Numa sociedade mais organizada que a nossa, é o que ocorreria. Mas nossa falta de traquejo em matéria de posicionamento político falou mais alto. Da equação esquerda = corrupção, o que sobressaiu não foi a esquerda, mas a corrupção. Assim, quem ganhou a eleição de 2018 foi o candidato que encarnou a luta contra a corrupção.

Hoje sabemos que não pode ser arauto da anticorrupção um personagem envolto por uma nuvem de obscuras transações. Para complicar o problema, o homem se diz ‘de direita’. Todo brasileiro pensante há de estar embasbacado. Então, direita é isso? O nó nos miolos é garantido. Estamos chegando a um ponto em que, de tão usadas, certas palavras vão perdendo a força. Direita e esquerda estão entre elas.

Folha de São Paulo: GPS ideológico

Num esforço notável, que deve ter custado um bocado de trabalho, a Folha de São Paulo publicou um estudo sobre a dose de esquerdismo e de direitismo que habita cada um dos 1.800 influenciadores no Twitter em 2020. O trabalho baseou-se num emaranhado de interações tuiteiras do tipo quem segue quem e quem retuíta quem. Como resultado, ficamos sabendo que Moro está à direita, quase colado a doutor Bolsonaro. Verificamos também que Lula está à esquerda mas nem tanto. E outras coisas do gênero.

Fico um pouco desconcertado. Vamos admitir que um jornal importante não perderia tempo caprichando numa matéria se soubesse que seus leitores não estão interessados. Vai daí, me espanta o fato de o brasileiro que lê jornal precisar de um estudo pra ficar sabendo qual é o posicionamento ideológico do tuiteiro que o influencia. Será?

Quer dizer que o eleitor acompanha o pensamento deste ou daquele sem se dar conta de que é um perigoso esquerdista? Ou vai levar um susto quando descobrir que é um execrável direitista? E o que dizer então se o guru escolhido for um centrista – céus, do Centrão?

O distinto leitor não acha esquisito seguir alguém sem saber quem é?

A face sinistra do doutor

José Horta Manzano

Já faz algum tempo que o mundo conhece a personalidade execrável de doutor Bolsonaro – o Trump dos trópicos, como é chamado na Europa. Assim mesmo, sua incompreensível antipatia pelo povo que o elegeu atingiu um pico terça-feira passada. Foi quando demonstrou, ao vivo e em cores, dar importância maior à cruzada que move contra o governador de SP do que à saúde dos duzentos milhões que, em tese, ele devia estar liderando.

A cena de horror não passou despercebida no exterior. Aqui está um trecho do que o portal estatal francês de telecomunicações publicou.

«Alors que le monde entier hier s’enthousiasmait, à tort et à travers, des bons résultats affichés par le vaccin Pfizer contre le Covid-19, alors que les éditoriaux se multipliaient sur “la lumière au bout du tunnel”, “2021 année du vaccin”, etc (on rappellera quand même qu’un vaccin qui doit être conservé à -70° C exclut de facto une bonne moitié de l’humanité qui vit dans des régions reculées et mal équipées d’Asie et d’Afrique), alors donc que le mot vaccin cristallisait tous les espoirs ce mardi, au Brésil, le président Jair Bolsonaro se réjouissait, publiquement, de l’arrêt dans son pays des tests cliniques d’un vaccin de fabrication chinoise.»

«Ontem, enquanto uma onda de entusiasmo varria o mundo inteiro, a torto e a direito, na esteira dos bons resultados da vacina Pfizer contra a covid-19; enquanto os editoriais saudavam “a luz no fim do túnel”, “2021 ano da vacina”, etc. (sem esquecer, assim mesmo, que uma vacina que exige ser armazenada à temperatura de -70°C exclui, na prática, a metade da humanidade que vive em regiões remotas e carentes da Ásia e da África); enquanto o termo vacina cristalizava todas as esperanças nesta terça-feira, pois bem, no Brasil, o presidente Jair Bolsonaro se alegrava publicamente da paralisação em seu país dos testes clínicos de uma vacina de fabricação chinesa.»

Bolsonaro passará – e quanto antes, melhor. Mas, antes disso, ele está tratando de hipotecar o futuro do Brasil. Depois que esse estropício tiver ido embora, vai levar anos pra recuperarmos nossa imagem de país amistoso e bem-intencionado. A desconfiança costuma demorar pra se dissipar.

Ganhei mais uma!

by Kleber Sales, ilustrador.

Vera Magalhães (*)

Bolsonaro e o almirante Antonio Barra Torres, o bolsonarista no comando da Anvisa, sabotam o combate à pandemia tendo como objetivo atingir um adversário político [João Doria – ndr]. A fala do presidente é prova cabal contra si, e nela há vários indícios de que ele recebeu informações que a agência não poderia lhe fornecer.

O Supremo precisa voltar a conter os ímpetos letais de um presidente atordoado por derrotas políticas, como o péssimo desempenho de seus candidatos a prefeito de norte a sul, o fim do sopro de popularidade do auxílio emergencial, a derrota do “amigão” na América e o agravamento das evidências de crimes variados por parte de seu filho Flávio. É um pacote pesado para quem tem masculinidade frágil, mas descontar na vida da população é crime de responsabilidade.

(*) É jornalista com atuação em numerosos veículos.

Inefável presidente

José Horta Manzano

Pessoas públicas – em especial as que ocupam cargos majoritários, como prefeito, governador e presidente – vivem sob os holofotes. É natural. Se quisessem passar a vida incógnitos e abrigados pela sombra discreta de uma mangueira, não se candidatariam.

Uma vez eleitos, conquistam privilégios e mordomias que não são accessíveis à plebe. Em compensação, sua existência perde a privacidade garantida aos demais mortais. Daí dizermos que são ‘pessoas públicas’. Antigamente bastava dizer homens públicos, mas a a linguagem politicamente correta de hoje quer que se mencionem todos os gêneros, sem deixar nenhum de fora; a palavra ‘pessoa’ cumpre a exigência.

Personagens públicos têm agenda pública, são vigiados da manhã à noite, seus deslocamentos são acompanhados. Até suas férias são esquadrinhadas. Ainda que andem na linha, serão analisados e criticados. Se saírem do bom caminho, então, serão alvo de uma torrente de críticas, que podem tomar o rumo perigoso da destituição do cargo.

Políticos mais espertos, que conseguem ser discretos, escapam desse olhar desconfiado e inquiridor. Já os outros, estabanados, se expõem demais da conta. Nesta última categoria, está nosso inefável(*) presidente da República.

Se fizesse um esforço pra conter a língua, seus defeitos, que são incompatíveis com o exercício do cargo, ficariam na sombra. Ao não se dar conta disso, o moço tropeça em perna de cadeira, procura casca de banana pra escorregar, se aventura de chinelão em solo ensaboado. Resultado: dia sim, outro também, tropica. E se esborracha que dá gosto.

Idade Média: vassalo prestando juramento a seu suzerano.

Com a perda de seu mentor americano, ficou ‘aborrecido’ – é o que disse a mídia. Tenho a impressão de que o buraco é bem mais profundo que um simples aborrecimento. Para doutor Bolsonaro, a queda de Donald Trump é a notícia mais pavorosa que podia ter ouvido. Ele há de estar se sentindo muito, mas muito, deprimido.

Basta uma rápida comparação para ver que, entre os dois, há numerosos pontos comuns. ‘Falem bem, falem mal, mas falem de mim’ – é o lema de ambos. Os dois não toleram ser contraditos; assessor que não lhes disser amém será demitido. Em matéria de política externa, nenhum deles tem a mais remota ideia do que seja o frágil equilíbrio entre as nações; vai daí, tratam o assunto a bofetadas. Têm ambos a desagradável tendência a só falar para seus devotos, alheios ao fato de terem de governar todo um país. Poderia enfileirar mais uma dúzia de convergências entre eles.

Há, no entanto, um ponto em que divergem: é o olhar que cada um dirige ao outro. Trump sempre guardou altivez no trato com Bolsonaro, mostrando pouco-caso pelo brasileiro e deixando claro quem é que manda no pedaço. Já nosso presidente visitou o colega americano quatro vezes, sendo que, na última delas, ficou hospedado ‘de favor’ na propriedade particular do anfitrião – um cúmulo de despudor. Trump nunca se dignou de vir ao Brasil.

Doutor Bolsonaro sempre se conformou em ocupar posição submissa, de admirador servil, de lambe-botas do americano. Todos se lembrarão do dia em que se fez fotografar quando assistia, orgulhoso, a uma aparição do ídolo na televisão.

É por isso que, muito mais que ‘aborrecido’, Bolsonaro há de estar deprimido, aterrorizado, catastrofado. Como diria o outro, sente-se perdido como cãozinho caído do caminhão de mudança. Deve estar pensando: ‘Se aconteceu com ele, pode acontecer comigo também’. Essa ameaça é de tirar o sono.

Bolsonaro não tem jeito, que fazer? Como dizia o Barão de Itararé, «de onde menos se espera, daí é que não sai nada».

(*) Inefável é aquilo que não pode ser descrito com palavras. O termo é perfeitamente adequado a nosso presidente. A descrição de seu comportamento e de suas falas não cabe em palavras. Embora extenso, o vocabulário da língua portuguesa é finito; a imbecilidade do doutor, infelizmente, é infinita.

O termo inefável pertence a vigoroso tronco com muitas ramificações. Provém do verbo latino fari, que significa falar, dizer, conversar. Além de inefável (que não pode ser descrito com palavras), a família tem outros membros em nossa língua: afável (pessoa de conversa cortês), fama / famoso / famigerado (coisa ou pessoa falada), infante/infantil (que ainda não fala), ênfase (conceito proferido com destaque), fábula (narração inventada), fonético (que é próprio da voz), difamar / infame (falar mal, mal falado). A lista não é exaustiva.

Mais uma que ganho

José Horta Manzano

Nestes tempos de pandemia, qualquer pessoa sã de corpo e de espírito ficaria eufórica com boas notícias sobre o avanço da pesquisa de vacina. E se sentiria entristecido com notícias más.

Eu disse ‘qualquer pessoa sã de corpo e de espírito’. Não é, à evidência, o caso de doutor Bolsonaro, que festejou a suspensão dos testes de uma das vacinas, determinada em decorrência de um acidente de percurso.

A obsessão de nosso D.Quixote tupiniquim de fugir do perigoso chip comunista, que será inoculado nos brasileiros junto com essa vacina, é maior do que seu empenho em garantir a saúde do próprio povo.

Com um presidente tão amigo, quem precisa de inimigos?

Derrota concedida

José Horta Manzano

Uma expressão estrangeira mal traduzida é um problema. Se ela for repetida e repetida, dia após dia até a exaustão, torna-se um problemão.

Donald Trump, o irritante personagem que (ainda) preside o Executivo americano, tanto fez, que acabou perdendo uma reeleição que parecia uma barbada.

Nos EUA, faz duzentos anos que o candidato perdedor, por mais grosseiro que seja, apeia do cavalo, deixa de lado seus modos de caubói e cumprimenta o vencedor, desejando-lhe boa sorte.

Mas Trump é mais caubói que os outros. Além de tosco, mostra ser pouco inteligente, ao não se dar conta da imagem que deixará nos livros de história. Recusa-se a cumprimentar o vencedor.

Todos os artigos que li na mídia dizem que ele se recusa a «conceder a derrota». Bobeiam feio.

Em nossa língua, o verbo conceder não tem valor idêntico ao que tem em inglês. Não há lógica em dizer “conceder derrota”. O original «to concede defeat» será traduzido por reconhecer a derrota.

Quem preferir, pode usar também: admitir a derrota ou assumir a derrota. Ou entregar os pontos, metáfora esportiva que diz a mesma coisa.

Rachadinha

José Horta Manzano

Em texto publicado no pré-histórico ano de 2006, o jornalista Fernando Rodrigues já tratava do assunto; discorria sobre o nome que se havia de dar ao que hoje conhecemos como rachadinha. No artigo, Rodrigues explica, em detalhe, como funciona a engenhosa variante de peculato criado pela mente gananciosa de suas excelências para fraudar os próprios eleitores e enfiar no bolso nosso dinheiro. Na hora de dar nome ao crime, o jornalista hesita entre rachadinha e rachadão, sem bater o martelo.

É a menção mais antiga que encontrei ao nome dessa prática criminosa. Visto que a surrupiança é antiga, a expressão decerto havia de circular entre os praticantes do assalto. Mas ainda não era de conhecimento do distinto público, que os tempos eram mais pudibundos.

Na época, já frequentava as manchetes a expressão mensalão, criada por Roberto Jefferson, aquele que já foi deputado e mensaleiro, cassado e condenado, preso e liberado, e que hoje voltou ao convívio dos seus e tornou-se bolsonarista. Desde criancinha.

Faz alguns dias, o Ministério Público denunciou um dos bolsonarinhos, aquele que é senador (senador!). Ele é acusado de comandar uma organização criminosa – em outras palavras: chefe de quadrilha. É acusado de lavagem de dinheiro, apropriação indébita, peculato e formação de quadrilha. Coisa da pesada. Mas não está sozinho; no mesmo balaio, o MP põe 17 indivíduos: o bolsonarinho, um certo Queiroz, a esposa de um certo Queiroz e mais 14 elementos.

Quando a acusação atinge tal magnitude, não se pode mais falar em rachadinha, nome que soa inocente, quase infantil. Crime cometido por quadrilha exige nome no grau aumentativo. Recentemente, tivemos o mensalão e o petrolão. Desta vez, não pode sair por menos do que rachadão. Surrupião praticado por quadrilhão não pode ter nome em inha. É rachadão, e estamos conversados. Isso dito, ficamos no aguardo do cadeião para todos.

Chega de intermediários

Carlos Brickmann (*)

O chanceler brasileiro acredita em comunavírus, em perigo amarelo, em perigo vermelho. Talvez tenha de ser substituído por alguém que tema o perigo azul, dos democratas americanos. E que saiba negociar, entre amarelos e azuis, vantagens para o Brasil na implantação da rede 5G.

Trump fazia pressões para manter a Huawei chinesa fora da rede brasileira. Biden, não se sabe. Mas para o Brasil, que tem EUA e China como principais parceiros comerciais, é hora de fazer bons negócios com ambos. Ou, se é por ideologia, chega de intermediários: Olavo de Carvalho no Itamaraty.

(*) Carlos Brickmann é jornalista, consultor de comunicação e colunista.

O fim

José Horta Manzano

A agilidade da informação, porporcionada pela internet, é responsável por profundas mudanças no comportamento dos indivíduos e na organização da sociedade.

É verdade que a Revolução Francesa já tinha mostrado o caminho. Só que não é fácil promover mudança quando se vive sob regime repressivo. Durante os séculos 19 e 20, praticamente todos os povos do planeta viviam sob regime autoritário – uns mais, outros menos. Nas Américas, com exceção dos EUA, golpes de Estado e ditaduras estavam na ordem do dia. Na Europa, o tom foi dado por dirigentes de mão de ferro, como Napoleão, Salazar, Stalin, Hitler, Mussolini, Franco, pra citar os mais importantes.

Atualmente, a impressionante penetração da informação, se não eliminou, pelo menos reduziu o risco de ruptura das instituições e de surgimento de salvadores da pátria.

A queda de Donald Trump, derrubado graças à resistência da grande imprensa e à circulação da informação pelas redes sociais, serve de alerta para todos os candidatos a ditador, sejam eles quais forem. Se caiu Trump – figura marcante que exalava autoconfiança e infundia segurança –, qualquer um pode cair.

Restolho

A derrota do exótico dirigente americano deve-se, sim, ao vigor das instituições de seu país; mas teria sido praticamente inviável se ainda estivéssemos meio século atrás, num tempo em que a informação circulava a passo de tartaruga.

É um alívio constatar que o surgimento desse tipo de personagem mal-intencionado está ficando cada dia mais difícil. Quanto mais adiantado for o país, menor será o risco. Trump já se foi, assim como o italiano Salvini já tinha ido. A Rússia e a China não têm jeito. São países que nunca conheceram a democracia; vai demorar.

Aqui no Brasil, sobrou um restolho(*). O risco de uma guinada autocrática desse estropício fica cada dia mais distante. Aos poucos ele vai se esbagaçar. Com o passar dos meses, vai revelando ser apenas um péssimo governante que faz malabarismos para escapar da cadeia. Já vimos esse filme e sabemos como acaba. The End.

Nota 1
(*)Restolho, palavra pouco utilizada atualmente, aparece há mil anos em textos portugueses. É termo ligado à agricultura, atividade que, a nossa civilização urbana, parece distante. Restolho é a palha seca que sobra no campo depois de terminada a ceifa. Vem de um hipotético latim vulgar *restuculum, através do espanhol restojo.

Foi usada aqui em sentido metafórico com o sentido de o resto, o que não tem serventia, o que não serve mais pra nada. É sinônimo de rebotalho.

Casa com telhado de colmo (restolho)

Nota 2
Não é verdade que restolho não sirva mais pra nada. Durante milênios, serviu para cobrir a casa dos camponeses. Ainda hoje, há muito cottage e muito chalé charmoso coberto com essa palha. Na função de telhado, o restolho se diz colmo.

Carolina do Norte e Niterói

José Horta Manzano

Para quem está acostumado com o esquema 1 eleitor = 1 voto, o sistema eleitoral americano parece surpreendente. Como é que é? Não é o mais votado que vence? Pois é, não é necessariamente o mais votado que vence. Em cinco ocasiões, ao longo da história americana, aconteceu de o vencedor ser o candidato que tinha ficado em segundo no voto popular. Da última vez, foi justamente em 2016, quando competiam Donald Trump e Hillary Clinton. Para nós, é desnorteante. É o famoso “ganha, mas não leva”.

Tudo tem um porquê. Nos tempos de antigamente, quando o sistema foi instituído, o mundo era outro. Não havia internet, nem tevê, nem rádio, nem fax, nem telex, nem telefone. Não havia nem mesmo estrada de ferro. Ainda que o território fosse menos vasto que o de agora, os EUA já eram um país enorme. Viagens eram demoradas e penosas, por estradas poeirentas ou nevadas, em veículo a tração animal.

Por essa razão, ficou combinado que, a cada 4 anos, na hora de escolher o presidente do Executivo, os eleitores de cada estado federado escolheriam, por voto popular, uma comitiva de grandes eleitores, cujo papel era representar os eleitores do estado. No dia marcado, cada unidade da federação enviaria seu grupo de grandes eleitores à capital do país. Cada grupo levava o resultado do voto de seu estado. Na época, a solução era excelente: evitava transportar papéis, borderôs, livros ou urnas.

O tempo passou, muita coisa mudou. Hoje há rádio, tevê, telefone, internet. Viaja-se de trem, de carro, de avião. As mulheres têm (já faz tempo) o direito de votar. No entanto, acomodados com um sistema secular, os americanos hesitam em alterá-lo. A cada vez que a apuração se espicha e ameaça terminar nos tribunais, volta-se ao assunto. Em seguida, as coisas se acalmam e o assunto morre. Até a próxima eleição.

by Adam Zyglis (1982-), desenhista americano

Outra particularidade da eleição americana, surpreendente para um país avançado, é a lentidão da apuração. Neste ano de pandemia, a razão da demora foi o fato de grande parte do eleitorado ter dado preferência ao voto enviado por correio em vez de se arriscar a apanhar um vírus qualquer num local apinhado.

Os estados têm bastante autonomia para fixar as regras da apuração. Alguns deles só validam as cédulas que forem recebidas até o dia do voto nacional – o que me parece correto. Já outros reconhecem votos que cheguem mais tarde; a Carolina do Norte, um caso extremo, aceita votos que deem entrada até 12 de novembro (9 dias depois da eleição). Essa medida é uma maçada, na medida que trava a proclamação do resultado nacional.

Não acredito que o esquema de eleição indireta venha a ser modificado tão cedo. Mas ouso esperar que, com o objetivo de evitar a angústia deste 2020, as normas de aceitação de votos antecipados seja revista. Dependesse de mim, só os votos recebidos o mais tardar 3 dias antes do pleito seriam validados. Assim, a comissão de apuração já poderia começar a trabalhar antecipadamente, de modo que, no dia do voto final, o resultado final sairia rapidinho.

O que eu disse acima não passa de visão de espírito, pura opinião pessoal. Como diziam os gaiatos no Rio de antigamente: ‘não sou daqui, sou de Niterói’(*).

(*) São palavras de um samba de Ataúlfo Alves e Wilson Batista, lançado em 1941 por Aracy de Almeida. No youtube aqui.

Katastrophale Corona-Politik

José Horta Manzano

Nossa percepção do som de línguas estrangeiras não é uniforme. Cada uma delas nos deixa uma impressão diferente. Em assunto técnico, por exemplo, o inglês é insuperável. Já uma história de amor, se contada em francês, fica mais picante. Se ela terminar em festa de casamento, com família e amigos em torno de uma longa mesa ao ar livre, será descrita em italiano. Se, no entanto, houver traição e vingança, convém passar para o espanhol. Acontecimentos fortes, impactantes, trovejantes, serão descritos com perfeição em alemão.

Bolsonaro: A catastrórica política do coronavírus
Der Standard, Áustria

Convenhamos que «Jair Bolsonaros katastrophale Corona-Politik» soa como bordoada e dispensa tradução. É o título de artigo publicado pelo diário austríaco Der Standard. Conta de onde vem a fixação bolsonárica pela cloroquina. Aqui estão os primeiros parágrafos.

O presidente brasileiro e seu grande modelo, Donald Trump, são responsáveis por dezenas de milhares de mortes por anunciarem uma droga ineficaz.

Em 7 de março, o presidente brasileiro Jair Bolsonaro visitou seu homólogo americano, Donald Trump, em Mar-a-Lago. Ele havia cancelado viagens planejadas para a Itália, Polônia e Hungria a conselho de seu ministro da Saúde, mas o populista de direita não queria deixar escapar a importância midiática de ser visto ao lado de seu grande modelo.

Trump deu-lhe uma caixa do medicamento antimalárico hidroxicloroquina, como o próprio Bolsonaro relatou com orgulho. “A partir daí”, lembra o ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta, demitido em abril, “ele não levou mais a sério as recomendações dos cientistas”.

Ao retornar dos Estados Unidos, 22 integrantes da delegação brasileira deram positivo.

Clique aqui quem quiser ler o artigo na íntegra (em alemão).

Make America Great Again

José Horta Manzano

Tirando toda a antipatia que me inspira o fato de os Estados Unidos se terem apoderado do nome do continente onde nasci, o slogan da candidatura Trump me surpreende.

Make America Great Again (=Faça os EUA voltarem a ser grandes) era o grito de guerra soltado pelo candidato quatro anos atrás. Foi eleito, bem ou mal governou, fez o que devia (e também o que não devia), plantou simpatias, espalhou inimizades. Chega agora ao crepúsculo do mandato. Quer ser reeleito. E qual é o slogan da nova campanha?

Você sabe. É Make America Great Again. Não é curioso? Fica a impressão de que, em quatro anos no poder, não conseguiu o intento. Sua “America” continua small. A meu ver, é confissão de fracasso.

Tinha de ter tomado o cuidado de desempoeirar o brado e transformá-lo em algo do tipo Let’s keep America great – Vamos conservar a grandeza dos EUA”. Ou coisa parecida. Transmitiria a ideia de que um passo imenso já tinha sido dado e de que agora era só questão de não deixar a peteca cair. Até candidato a vereador de Brejo Alagado costuma ser mais criativo.

Se o slogan de Trump continua o mesmo, é sinal evidente de que o objetivo não foi alcançado. Vale então a pergunta: se ele não conseguiu no primeiro mandato, que garantia dá a seus eleitores de que conseguirá no segundo?