Quarentena

José Horta Manzano

Temos novena para Santo Antônio. Temos dezena (de 10 unidades). Temos trezena para Santa Brígida. Temos quinzena, que corresponde a duas semanas ou, grosso modo, à metade de um mês. Temos vintena, que se usa para exprimir quantidade ao redor de 20 unidades. Temos ainda centena.

As pessoas suspeitas de estarem contaminadas pelo coronavírus devem cumprir 14 dias de confinamento. Todos, sem exceção, dizem que o indivíduo está de quarentena. O ano de 2020 marcará um pico de uso desse termo.

Bem, errado, propriamente, não está. Só que a palavra quarentena, nesse caso, está sendo utilizada por ampla extensão de sentido. Na origem, quarentena é o período de 40 dias, tempo de resguardo estabelecido desde a Antiguidade. No caso de a quarentena durar 14 dias, por que não usar quatorzena (ou catorzena)? O termo exprime exatamente o que tem de exprimir.

O Volp traz quatorzeno (ou catorzeno), um numeral que indica o décimo quarto de uma série. A partir daí, pelo menos foneticamente, a porta está aberta para que se ouse quatorzena (ou catorzena) para o período de resguardo de 14 dias.

Observação
Dizemos: quatro, quarenta, quarentena, quatrocentos, quadrado, quadragésimo, quatriênio, quatrilhão, quarto, quadra, quadrante, quadrar, quadratura, quadriculado, quadríceps, quadrifólio – e muitos outros da mesma família. Como veem, todos começam com qua.

O patinho feio, único a escapar do qua, é o 14. Na hora de dar-lhe nome, damos preferência a catorze, com ca. (Quatorze é forma menos comum.) Curioso, não?

Brasil: objeto de zombaria

José Horta Manzano

Além de governar sem pulso e transformar o Brasil em nau sem rumo a navegar em ritmo de pedalinho, doutor Bolsonaro nos envergonha lá fora. Sua desconexão da realidade – que já está sendo vista como caso psiquiátrico – não passa mais despercebida na mídia mundial.

Os mais antigos hão de se lembrar de Idi Amin Dada, o ditador louco e sanguinário que reinou sobre a pobre Uganda de 1971 a 1979. Do jeito que nosso presidente solta barbaridades, a comparação entre os dois vai se tornando cada dia mais pertinente. Bolsonaro só não é sanguinário porque não tem poder para tanto. Felizmente.

Notícia boa logo sai da pauta; notícia ruim, ao contrário, demora pra ir-se embora da manchete. O vexame que o doutor cometeu domingo passado, quando se jogou nos braços dos fanáticos de sua seita, ainda ecoa no resto do planeta. Nosso presidente tornou-se objeto de sarcasmo; por consequência, o país inteiro também.

Nestes tempos de confinamento, toda notícia ridícula é bem-vinda pra fazer brotar um sorriso, ainda que seja de desdém. Um balançar de cabeça faz bem, em meio a tanta pressão por causa de uma doença que ninguém vê mas que todos temem.

O mundo entende que o Brasil não é uma ditadura. Portanto, se esse homem está na Presidência, é porque seus compatriotas o puseram lá. Vai daí, o reflexo de todas as enormidades que ele comete recai sobre nós todos.

Veja abaixo um florilégio da mídia internacional.

 

 

Clarín, Argentina
Bolsonaro prepara uma festa de aniversário e critica os governadores que impõem medidas emergenciais.

 

 

Stern, Alemanha
“O mundo está enlouquecendo”: Bolsonaro ignora as diretrizes da OMS e fala em histeria corona.

 

 

Le Monde, França
No Brasil, Bolsonaro se esfrega na multidão apesar do coronavírus.

 

 

CNN, EUA
Bolsonaro trata medidas de prevenção contra coronavírus de “histeria”.

 

 

Dagens Nyheter, Suécia
Bolsonaro acredita que o vírus é desculpa para afastá-lo do poder.

 

Eleições na França

José Horta Manzano

Você sabia?

Em matéria eleitoral, o mundo político francês está vivendo momento de embaraço. As eleições municipais, que ocorrem a cada 6 anos para escolher vereadores e prefeitos, estavam marcadas para o domingo que passou. Uma semana antes, como o coronavírus já se alastrava pelo país, levantou-se um vozerio sobre a manutenção ou anulação do pleito. De fato, ficava esquisito o governo central determinar que todos evitassem sair de casa e, ao mesmo tempo, encorajá-los a ir votar.

Um comitê de crise foi criado às pressas no mais alto nível. Após se aconselharem com médicos, técnicos, especialistas e todos os que entendem do assunto, decidiram manter a eleição. Mas com algumas condições.

1) Cada eleitor deveria trazer a própria caneta pra assinar a folha de presença;

2) Nas filas de espera, deveria ser respeitada distância de 1 metro entre votantes;

3) Os maiores de 70 anos teriam prioridade;

4) Frascos de álcool gel estariam à disposição para uso de todos.

E assim foi. A votação correu bem, apesar da abstenção recorde de mais de metade do colégio eleitoral. Dos 35 mil prefeitos, 30 mil foram eleitos no primeiro turno – geralmente em municípios pequenos. Para os 5 mil restantes, os eleitores deveriam voltar às urnas no domingo seguinte.

Acontece que, em poucos dias, a propagação da doença foi geométrica. Todos perderam a coragem de enfrentar fila e puxar uma cortininha que dezenas de mãos já haviam puxado. (Na França, não se vota em traquitana eletrônica, mas com tradicionais cédulas de bom papel; daí a cortininha.)

Que fazer? De novo, reuniu-se o comitê de crise. As consultações apuraram que os chefes de todos os partidos estavam de acordo de adiar o segundo turno. A situação era inédita, coisa nunca vista. E como é que fica quem foi eleito no primeiro turno? Anula-se a eleição? A decisão foi salomônica. Os eleitos no primeiro turno têm a vitória garantida. Os demais terão esperar três meses. A nova votação se fará dia 21 de junho – ou mais tarde, dependendo do estado de contaminação do país.

Está armada uma baita confusão. Nos municípios em que o novo prefeito já foi definido, a cerimônia de tomada de posse pode ser, em princípio, programada. Terá de ser virtual, sem público, para evitar alastramento do vírus. Quanto às demais localidades, mandato de prefeito e vereadores terá de ser prolongado por decreto excepcional.

«Aux grands maux, les grands remèdes – a grandes males, grandes remédios».

Fim da fila

José Horta Manzano

Com relação ao coronavírus, o Brasil está desperdiçando a sorte (se é que se pode falar em sorte) de estar no fim da fila. Ásia e Europa estão na linha de frente e tiveram de começar a enfrentar o Covid-19 há semanas ou até meses. O que europeus e asiáticos fizeram de certo e o que fizeram de errado tem de servir de guia do que se deve fazer e do que se tem de evitar.

Atitudes como a do presidente neste último domingo são verdadeiro crime contra a nação. No espaço de uma hora, ele fez tudo o que tem de ser banido, caso se queira conter a expansão do vírus.

Fim da fila

Bolsonaro é importante, mas, por sorte (e aqui se pode falar em sorte), não é a única autoridade no Brasil. Há ministros, parlamentares, cientistas, médicos, influenciadores de todo tipo, que podem (e devem) neutralizar o primitivismo do presidente. Têm de soltar a voz e a pluma, cada um dentro de suas possibilidades.

O importante é agir. Não dá pra continuar de braços caídos à espera de uma orientação segura vinda do Planalto: ela não virá.

Namastê

José Horta Manzano

Os franceses costumam dizer: Il n’est jamais trop tard pour bien faire” – nunca é tarde demais pra fazer benfeito. Ainda dá tempo pra aplicar uma excelente ideia. Nestes tempos de coronavírus, é importante substituir apertos de mão, beijinhos, soquinhos de falanges, tapinhas nas costas, apertos de braço e outras manifestações exuberantes por uma saudação que dificulte a transmissão do coronavírus.

Na Europa e nos EUA, está se popularizando a saudação tradicional indiana. Chama-se namastê e é excelente pra evitar todo contacto físico. O uso desse interessante cumprimento ‘no touch’ se alastra. Utilíssimo atualmente, está sendo adotado até por chefes de Estado e pela realeza.

Não tenho o endereço de doutor Bolsonaro. Se o distinto leitor tiver, mande uma cartinha a ele pra contar a novidade. Diga que Mr. Trump já adotou. Se nosso doutor adotar e der o exemplo, contribuirá pra evitar muito contágio. E, de quebra, parecerá menos primitivo.

Emmanuel Macron, presidente da França, já adotou

Donald Trump, presidente dos EUA, já adotou

Até o príncipe Charles, herdeiro aparente do Reino Unido, adotou.

Das duas, uma

José Horta Manzano

Não vi as imagens, mas li que doutor Bolsonaro andou de novo fazendo das suas. Foi ontem, por ocasião das manifestações que ele ajudou a convocar, e que serviam a dois propósitos: louvação do próprio convocador (o presidente) e execração dos ‘inimigos’ (que é como extremistas primitivos enxergm todos os que não pensam como eles).

Segundo o Estadão, doutor Bolsonaro teve contacto direto com 272 pessoas, manuseou 128 celulares alheios, apertou a mão de 140 pessoas! Nestes tempos de pandemia e confinamento, é atitude nojenta. Estamos acostumados às extravagâncias do capitão, mas ontem ele subiu mais um degrau da escada da estupidez.

Das duas, uma
Primeira suposição. Doutor Bolsonaro, apesar de usar máscara cirúrgica na última ‘laive’ que fez para seu clube, não acredita na ameaça do coronavírus. Continua certo de que é «invenção da grande mídia». Se assim for, está dando prova de viver num universo paralelo. O terrível exemplo que ele está dando tem o poder de contaminar meio Brasil. Os mais humildes, que viram as imagens, vão se dizer: «Ué, se ele pode, eu também». E a porteira estará aberta para a contaminação exponencial do povo brasileiro.

Segunda suposição. Doutor Bolsonaro sabe que está infectado. Não divulgou porque é contrário a seus interesses. Mesmo sabendo que está potencialmente contagioso, teve contacto voluntário com centenas de pessoas. Se assim for, temos na chefia do Executivo um perigoso delinquente que não merece o trono em que está sentado.

Scherzo

José Horta Manzano

Você sabia?

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Está aqui um quadro interessante. Traz a altura (corporal) de alguns figurões. Não sei quem é o autor, mas merece parabéns pelo esforço. Não é tarefa fácil coletar imagem desse pessoal, todos na proporção justa, alinhá-los, identificá-los. Quanto a mim, só tive de traduzir pés e polegadas em centímetros.

Os personagens antigos (Churchill e Hitler) são figuras históricas que cabem em qualquer comparação. Os demais eram os grandes de então – esse “então” há de ter sido uns dez anos atrás.

Pra que serve o quadro? Pra nada. È uno scherzo – é uma brincadeira. Bom domingo para os que já estão confinados em casa e para aqueles que logo estarão.

SP-2

José Horta Manzano

Os anos 1970 eram tempos de Brasil Grande, militares no poder e pesada intervenção estatal na economia. A importação de bens de consumo era proibida. Com um bocado de restrições, controles e chicanas, até que se conseguia importar algum insumo. Já alimentícios, roupa, automóvel, nem em sonho se podia mandar trazer de fora.

Quando algum conhecido viajava para o exterior – viagens eram raras! – levava uma lista de chateações. Eram as encomendas de amigos e conhecidos, com artigos impossíveis de encontrar no mercado nacional. Um chocolate de tal marca, um livro de certo autor, um disco do artista tal, um accessório qualquer. Não tinha como escapar: era trazer ou perder a amizade.

Dado que a importação de carros estava proibida, compradores eram forçados a escolher entre os modelos nacionais, que eram poucos. Faltava um esportivo com ares do inaccessível Porsche. A Volkswagen do Brasil, que operava então com certa autonomia com relação à matriz, decidiu explorar esse nicho. Lançou a linha SP.

Os mais antigos talvez se recordem do SP1, do SP2 e do SP3, comercializados de 1972 a 1976. Foram feitos unicamente no Brasil, para o mercado interno. Nunca ficou claro o significado da sigla SP; as más línguas diziam que era “sem potência”. De fato, apesar da aparência simpática, o desempenho deles estava a anos-luz do que se obtém ao volante de um Porsche. Após quatro anos, a montadora deu por encerrada a fabricação. Cerca de 10.000 carros tinham saído da linha de montagem. Um punhado deles chegaram a ser levados à Europa como bens pessoais de estrangeiros de regresso à pátria.

Não sei se ainda circulam muitos SPs pelas estradas brasileiras quase meio século depois de terem sido fabricados. Na Europa, nunca vi nenhum. Fiquei sabendo que um exemplar esquecido nos gelos da Escandinávia está sendo posto à venda como raridade. Trata-se de carro bem conservado, que rodou apenas 16.000 km. Tudo é de origem inclusive os (poucos) accessórios.

O leiloeiro assegura que é um prazer dirigir a baratinha, graças à simplicidade da mecânica VW. O valor estimado é entre 270.000 e 320.000 coroas suecas (de R$ 135.000 a R$ 160.000). Muitos apreciadores suecos estão namorando o carrinho. Se alguém tiver interesse, ainda dá tempo. Aproveite que, no Brasil, já se pode importar carro. Imagine a alegria desse bijuzinho idoso se puder rever as terras tropicais onde nasceu! Favor entrar em contacto com o portal do automóvel sueco.

Lula em Berlim

José Horta Manzano

O quarto em que Lula da Silva esteve acomodado em Curitiba por ano e meio não era nenhuma masmorra. Assim mesmo, não há de ter sido um prazer ter de viver em espaço confinado por tanto tempo. Acima de tudo, faltou a nosso guia o calor de plateias amestradas.

É surpreendente constatar que os presidentes de nossa República, tanto o Lula quanto o atual, recusam contacto com audiência que não esteja pronta a aplaudir e a dizer amém. Ambos temem enfrentar plateia heterogênea. Lula da Silva deixou de se arriscar diante de público normal desde o dia em que foi vaiado nos Jogos Pan-americanos de 2007, faz 13 anos. Quanto a Bolsonaro, é paranoico de nascença. E tudo sugere que vai piorando. Não sai da bolha de jeito nenhum.

Aproveitando que está livre, Lula da Silva foi-se para a Europa. Passou por Paris e Genebra, visitas que renderam quatro artigos neste blogue: Lula no palanque, Lula em Paris, Lula em Genebra e Lula levanta poeira. Em seguida, já que estava em terras europeias, seguiu viagem. Seus admiradores organizaram uma apresentação para 500 pessoas em Berlim.

Nosso guia, exprimindo-se em português para uma plateia entusiasmada, disse o que se imagina que pudesse dizer. Criticou o governo atual mas confessou não achar que o presidente venha a sofrer impeachment – “Temos que amargar Bolsonaro por quatro anos”. Mas garantiu que o povo brasileiro “lutará pela democracia”. Insinuou apoio ao ditador Maduro ao criticar Señor Guaidó, o autodeclarado presidente.

Quanto às eleições de 2022, deixou o suspense no ar: não se declarou candidato. Por enquanto.

E agora?

José Horta Manzano

A epidemia de Covid-19, o novo coronavírus devasta o planeta numa onda que veio do Extremo Oriente, chegou à Europa e ameaça as Américas. Escorado no comportamento fanfarrão de seu ídolo americano, doutor Bolsonaro tem se mostrado nulo. Em vez de agarrar a ocasião pra subir ao palanque e mostrar força e vigor na proteção de seu povo contra o inimigo microscópico, deu de ombros e disse que a epidemia é “invenção da grande mídia”. Que cada um cuide de si. Afligente.

Nesta quinta-feira, ao levantar-se, ele há de ter ficado sabendo do que fez Trump durante a noite. O presidente americano deu uma pirueta e mudou radicalmente o discurso. Em tom solene, anunciou haver decretado a proibição de entrada nos EUA de todo estrangeiro que tiver pisado solo europeu nas últimas semanas. Solo chinês pode. A medida só visa a Europa. Mr. Trump encontrou no Velho Continente o inimigo providencial para reforço de sua campanha eleitoral. A medida sem precedentes assustou Oropa, França e Bahia. Bolsas caíram. Aviões voam vazios. Homens de negócio não sabem que fazer. Turistas desacorçoados pousam a mala no chão.

by Luc “O Sekoer” Descheemaeker (1955-), desenhista belga

E agora, doutor Bolsonaro? Como é que fica aquela história de que «esse vírus não é mais que uma gripezinha à toa»? Vai dar uma viravolta também? Agora pode, que Seu Mestre mandou. É nisso que dá viver dentro de uma bolha, cercado de militantes, isolado do mundo. Quem se afasta, como ele, nada aprende, de nada fica sabendo, a nada reage.

Agora doutor Bolsonaro está metido numa saia justa. Se seguir o exemplo de Mr. Trump, a vassalagem vai ficar explícita – um papelão. Se persistir na negação do evidente perigo causado pelo vírus, é o entupimento que vai ficar evidente – um papelão. Dilema é isso: escolha entre duas opções ruins. Quem viver, verá.

A solução

José Horta Manzano

Tenho cá minha teoria para o azedume que reina nas altas esferas da República. Gabinete do ódio, troca de farpas, Executivo que convoca multidões a manifestar-se contra os demais Poderes, STF que abre inquérito contra o Executivo, o Legislativo que instaura CPIs contra o Executivo… ufa! Aquilo está parecendo uma sacola de caranguejos ou um ninho de víboras – é ferroada, é veneno.

Alguma coisa está perturbando a cabeça daquele pessoal. Saem daqui bonzinhos e, quando chegam lá, viram pelo avesso. Uns dirão que é a vertigem do poder, outros assegurarão que é a ganância diante da visão do pote de melado. Minha teoria é outra.

Olhem bem essa foto, onde se espreme meia República. É impossível não sentir desconforto à visão desses rostos torturados, azedos, descompostos. Pra começar, é gente demais em espaço pequeno – nem cabem todos na foto. Mas o problema maior, aquele que oprime essa gente fina é… o pé direito do salão.

Reparem como salas, salões e gabinetes de Brasília têm pé direito baixo. Compare-se com a amplidão, a majestade e os ouros do Kremlin (Moscou), da Moncloa (Madrid), do Eliseu (Paris) ou do Quirinale (Roma). Não sei se o projeto original do arquiteto era esse, mas o resultado atual é oprimente.

Que se alcem os tetos da Praça dos Três Poderes! Presidente, ministros, parlamentares e magistrados precisam respirar. Que se abram janelas. Ar fresco expulsa miasmas e clareia as ideias. Os brasileiros, aflitos, esperam por uma solução. Custa pouco, e os resultados serão espetaculares. Pode crer.

Coronavírus e precauções

José Horta Manzano

Não sei se será impressão minha, mas parece que, no Brasil, a perspectiva de crise econômica está preocupando mais do que a crise sanitária provocada pelo Covid-19. A julgar pelas manchetes e notícias da imprensa, minha impressão é correta. Considerando a área impressa, a recessão mundial que bate à porta ganha de goleada do vírus. Essa atitude é estranha, dado que a recessão é amanhã, enquanto o vírus é hoje.

É verdade que o Brasil não é o terreno de predileção do coronavírus. Não é porque «o vírus morre com o calor», como li outro dia – tolice. A rápida propagação da doença neste fim de inverno do hemisfério norte é simples de explicar. No inverno, faz frio. Com isso, as pessoas tendem a permanecer o tempo todo em locais fechados, abafados, confinados, com ar viciado. Bares, restaurantes e assemelhados são aquecidos e hermeticamente fechados. Transporte coletivo (ônibus e metrô) idem. Pronto, está dada a receita da propagação relâmpago.

No Brasil, dado que costuma fazer calor, há menos ajuntamento em local fechado. Bares e até restaurantes mantêm portas e janelas escancaradas. O vírus não derrete com o calor, mas pode até escapar pela janela.

Na Suíça, por enquanto, não há confinamento. Mas o jornal televisivo, que dura meia hora, gasta 15 minutos com notícias do vírus. Por seu lado, o governo federal lançou campanha de prevenção, com folhetos publicitários em 12 línguas.

Um dos ‘flyers’ editados pelo governo federal suíço. (O português é lusitano.)

Na Itália, saiu hoje ordem do governo: confinamento obrigatório em todo o território nacional. Sair de casa passa a ser permitido somente por razões de trabalho ou necessidade justificada. Estão fechadas, até o mês que vem, escolas, creches, faculdades. Casamentos e homenagens fúnebres estão proibidos. Até futebol, paixão nacional, se joga em estádios sem público.

Na França, o vírus já pegou um ministro e três parlamentares da Assembleia Nacional. O entorno do presidente está sendo cuidadosamente protegido. Banidas as coletivas de imprensa, as viagens, as entregas de condecoração. Confinamento obrigatório está em vigor somente nas regiões mais atingidas do território – por enquanto.

Espero que, no Brasil, as autoridades tomem consciência rapidamente. Não convém brincar com coisa séria. Deixado à solta, sem que se tomem precauções, o Covid-19 que saiu pela janela pode voltar pela porta e fazer estragos.

Lula levanta poeira

José Horta Manzano

A vinda de Lula da Silva a Paris continua levantando poeira. Tanto seus admiradores quanto seus críticos estão em ponto de bala. Do lado dos admiradores, está, em primeiro lugar, a prefeita de Paris. Madame Anne Hidalgo foi autora do convite e idealizadora da outorga da cidadania parisiense honorária ao ex-presidente do Brasil. O convite feito ao Lula é interesseiro: no final, é ela a grande beneficiária da popularidade que ele ainda goza na Europa.

É curioso que, na cabeça da maioria dos europeus, tenha ficado marcada a imagem de um Lula benevolente, caridoso, justo, pai dos pobres. O outro capítulo da novela – o assalto ao erário e as condenações – ainda não passou por aqui. Por que isso acontece? Para mim, é um enigma.

Há quem atribua a magia à máquina de propaganda do lulopetismo. Não acredito. Essa máquina não era forte a ponto de manter o herói no pedestal apesar de todo o infortúnio que se abateu sobre ele desde que deixou a presidência.

Como se sabe, a mente humana é seletiva: digere as verdades que lhe interessam e repele as que lhe são incômodas. Na minha visão, a opinião que europeus têm de Lula da Silva se encaixa nessa mecânica. Registraram a parte boa e rejeitaram os podres. Talvez o identifiquem com a figura tragicômica daquele que rouba mas faz. Trocado em miúdos, o raciocínio do europeu fica assim: naquele país, roubar, todos roubam; este, pelo menos, pensou nos mais pobres.

Fenômeno semelhante aconteceu com Mikhail Gorbatchev, respeitado e paparicado no exterior, mas malvisto em seu país. Sua gestão levou liberdade ao povo russo, razão suficiente para mantê-lo no pedestal dos europeus. Já os russos estão do outro lado do espelho. Por lá, a popularidade do antigo mandatário é sofrível; ele é visto como aquele que fez o império russo virar pó.

Madame Hidalgo não para de falar do Lula. É “Lulá” pra cá, é “Lulá” pra lá. O partido dela, o PS (Partido Socialista) está em declínio acentuado há uma década. Nas últimas eleições presidenciais, conseguiu apenas 6,4% dos votos. A estratégia de Madame é encobrir o nome do partido, omitir os podres de sua gestão como prefeita, e mostrar só coisas boas – como a presença do Lula, por exemplo.

É raro, mas acontece
O jornal francês Valeurs Actuelles, ancorado fortemente à direita, quase escorregando para a direita extrema, não vê o Lula como ‘pai dos pobres’. Fabricou hoje uma manchete assassina e mandou ver: «Lula: tentativa frustrada de ressurreição de um condenado por corrupção – com o apoio de Hidalgo, Hollande e Sarkozy».