A carapuça serviu

Medo 1José Horta Manzano

Às vezes a gente joga verde pra colher maduro. Falo daquelas insinuações que se lançam ao ar, como quem não quer nada, só pra ver o que acontece. Às vezes, tudo passa despercebido; outra vezes, atinge-se o alvo.

Com toda a pompa e todo o estrondo que o momento requer, a Polícia Federal disparou mais uma fase da operação de caça aos assaltantes de colarinho branco. Visava a pôr em pratos limpos o imbróglio que tem por núcleo um apartamento de alto luxo no Guarujá (SP).

Alguns cidadãos foram presos, outros levados a depor. Em nenhum momento, o nome de nosso guia foi mencionado ‒ nem entre os presos nem entre os convocados. Em princípio, o demiurgo nada tem a temer ‒ desde que não esteja ocultando algum esqueleto dentro do armário, naturalmente.

Chamada do Estadão, 29 jan° 2016

Chamada do Estadão, 29 jan° 2016

No entanto, a cúpula do Partido dos Trabalhadores está alvoroçada. Sem que o presidente de honra tenha sido acusado do que quer que seja, já anunciaram estar preparando ato para defendê-lo. Não faz sentido.

Devem defender-se aqueles que são acusados. Quem arquiteta defesa prévia, antes de qualquer acusação, mostra que tem algo a temer. O anúncio público de que defesa está sendo preparada mostra que a carapuça serviu.

Pra tirar a pedra do caminho

Carlos Chagas (*)

Lula caricatura 2As esquerdas foram para o poder com João Goulart, vendo-se postas para fora pelo golpe militar de 1964. O tempo passou, veio a democracia e o PT acabou de novo no governo, com Lula e, depois, Dilma.

Só que o país se encontra em frangalhos. Arrasado. São negados os princípios e ideais que levaram o PT ao poder. Ao contrário do que pregavam, eles suprimem direitos sociais, comprimem salários, aumentam juros, beneficiam a especulação e as elites, geram desemprego, elevam impostos, degradam serviços públicos, favorecem latifúndios e metem a mão nos dinheiros públicos.

Fizeram o oposto do que pregaram. Logo virá a revolta. E o que vamos fazer? Chamar a direita não dá. Afinal, é a receita dela que os companheiros aplicam.

by Lezio Jr, desenhista paulista

by Lezio Jr, desenhista paulista

Falta ao país um projeto acorde com as necessidades nacionais. Capaz de atender não apenas as massas, mas a classe média e a população em geral. Adianta pouco ficar atrás de outro partido para substituir o PT. São todos iguais, ou seja, incompetentes.

Nossa memória é curta, mas fica impossível esquecer o governo dos tucanos, quando Fernando Henrique ensaiou aquilo que Lula e Dilma, ironicamente, aplicam outra vez.

Que forças disporiam de condições para dar a volta por cima e de governar para a maioria? Não dá para pensar nos militares, já tiveram sua oportunidade e deu no que deu. Melhor pensar rápido ‒ quem sabe acionando as universidades?

Carlos Chagas é advogado, jornalista e radialista. O texto é excerto de artigo publicado no Diário do Poder.

Do futuro, ninguém sabe

José Horta Manzano

Cabeçalho 4Boas surpresas podem surgir de onde menos se espera. Não é corriqueiro, mas acontece. Quando o Lula indicou, para ocupar uma poltrona no Supremo Tribunal Federal, o senhor Dias Toffoli(*), a decisão levantou um bruaá dos diabos. Foi em 2009.

Tirando os admiradores mais entusiastas de nosso guia, a escolha foi recebida com cautela e desconfiança. Desconhecido, jovem demais, antigo advogado do PT, reprovado em exame para a magistratura, alvo de processo por fraude em licitação ‒ foram as acusações que sobressaíram.

É verdade que o moço não se encaixava no perfil do ministro ideal. No entanto, a pouca idade, que parecia fator agravante, dá indícios de se estar transformando em elemento positivo. ‘A adolescência é defeito que os anos corrigem’, como diz o outro.

Dias Toffoli 1Fidelidade e gratidão são propriedades com prazo de vencimento. O fato de ter sido nomeado por este ou por aquele não é, em si, garantia de obediência nem de reverência eterna. A história está cheia de exemplos de criaturas que, com o tempo, se emanciparam do criador. É compreensível. A natureza determina que seja assim, desde animais primitivos até animais políticos.

Contrariando a bolsa de apostas, senhor Toffoli posicionou-se contra os interesses do governo na votação da semana passada sobre rito de destituição de dona Dilma. Alguns dias depois, em entrevista ao Estadão, o ministro pronunciou a frase que pus lá em cima, no cabeçalho. Foi pronunciamento sensato, uma entrevista que vale a pena ler.

Parece que, apesar do histórico pouco promissor, o rapaz esteja conseguindo se distanciar da ideologia primária e ultrapassada do PT. As declarações que deu na entrevista são animadoras. Mostram que o fato de ter chegado jovem ao Supremo pode ter sido uma vantagem: sua visão de mundo ainda não estava cristalizada.

No meio da escuridão em que está mergulhado o andar de cima, qualquer indício de lucidez é bem-vindo. Qualquer voz que se alevante para preconizar voto distrital e cláusula de barreira terá meu apoio. Ainda que venha de antigo advogado do PT.

Interligne 18h

(*) Curiosidade etimológica
O sobrenome italiano Toffoli é frequente na região do Veneto, principalmente nas províncias de Veneza, Pordenone e Treviso. Provém de uma alteração ‒ que os linguistas chamam aférese ‒ do nome de origem grega Christopholus (=Cristóvão). O caminho é: Christopholus → Christopholi → Cristoffoli → Toffoli.

Frase do dia — 276

«O PT que, quando estava na oposição, prometia enforcar o último político fisiológico nas tripas do último empresário corrupto é o mesmo que franqueou a administração pública a diversas quadrilhas, em troca do pedágio que irrigaria os cofres petistas.»

Editorial do Estadão, 5 nov° 2015.

Os palácios estão desabando

Castelo de cartas 2Fernão Lara Mesquita (*)

Na gravação, Delcídio citou o nome de todos os juízes do STF. Se não mandassem prender, tavam desmoralizados. E isso botou na cara do Senado algo maior que o Senado. Um nó que nem mesmo o imortal Renan Calheiros conseguiu desatar. Xeque-mate de Moro, do Ministério Público e da Polícia Federal! A coisa mudou de prateleira.

Castelo de cartas 1Os palácios estão balançando e vão desabar. O PT foi o primeiro a entender isso. E, como é do DNA do lulismo, apressou-se em atirar Delcídio às feras pra dar a entender que não tem nada com o peixe. Isso pode fazer com que o senador venha a abrir o bico. O bicho vai pegar!

(*) Fernão Lara Mesquita é jornalista, articulista do Estadão e editor do blogue Vespeiro.

Top-top na berlinda

Cláudio Humberto (*)

Brasil e África Crédito: Cebráfrica, UFRGS

Brasil e África
Crédito: Cebráfrica, UFRGS

Os deputados Alexandre Baldy (GO) e Miguel Haddad (SP) entram na CPI do BNDES com requerimentos de convocação de Marco Aurélio Garcia, aspone para assuntos internacionais aleatórios de Lula e agora de Dilma.

O conhecido “Top-top” é suspeito de tráfico de influência na concessão de crédito do banco de fomento do governo federal para o financiamento de ditaduras africanas. A suspeita é de que o BNDES tenha financiado obras em ditaduras, durante os governos do PT, justamente porque nesses países não há órgãos de controle.

Países como Cuba e ditaduras africanas não têm Ministério Público, tampouco tribunais de contas nem auditores fiscalizando obras.

O dinheiro não era fiscalizado nas ditaduras financiadas nem no Brasil: o BNDES negava acesso aos contratos até mesmo ao Tribunal de Contas da União.

(*) Cláudio Humberto, bem informado jornalista, publica coluna diária no Diário do Poder.

Boca torta

Dora Kramer (*)

Os comunistas antigamente diziam-se pautados pela “linha justa”. Os petistas atualmente demonstram se conduzir pela linha injusta. Entre outros exemplos, está a carga pesada feita contra os ministros da Fazenda e da Justiça.

Joaquim Levy e José Eduardo Cardozo desagradam ao PT não pelos defeitos, mas pelas qualidades. Levy segue a direção lógica do ajuste realista na condução de uma política econômica que, embora recessiva, é a única capaz de levar o País à correção do rumo perdido. Cardozo faz o que lhe cabe por dever de ofício e não procura interferir onde não pode: no trabalho da polícia, da Justiça e do Ministério Público.

Sinalização curva 2Na visão petista, quem faz o certo está errado e, por isso, deve deixar o governo. Por essa ótica, o ministro da Fazenda deveria ser irresponsável e o titular da Justiça, transgressor da Constituição.

O partido talvez pense assim por ter-se acostumado ao padrão de irresponsabilidade e transgressão estabelecido desde o governo Luiz Inácio da Silva – modelo este fundado na crença de que é permitido fazer tudo errado acreditando que no fim possa dar certo.

(*) Dora Kramer, em sua coluna do Estadão, 25 out° 2015

O legado da nossa miséria

Helio Gurovitz (*)

Machado de Assis 1Machado de Assis encerra Memórias Póstumas de Brás Cubas com um capítulo intitulado “Das Negativas”, em que o narrador elenca tudo aquilo que não fez na vida: não foi ministro, não foi califa, não vendeu seu emplasto, não conheceu o sucesso. Conclui com aquela frase que todos conhecemos de cor: “Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria”. Em vez de proclamar sucessos, o narrador nem sequer lamentava seus fracassos. Machado foi irônico como só ele sabia ser.

Hoje em dia, estamos acostumados a ouvir negativas de outra natureza, como resultado da Operação Lava Jato e de seus desdobramentos.

Interligne vertical 16 3KeDa presidente Dilma Rousseff:
“Meu governo não está envolvido em corrupção”.

Do presidente da Câmara, Eduardo Cunha:
“Não tenho qualquer tipo de conta em qualquer lugar que não seja a conta que está declarada no meu imposto de renda”.

Do presidente do Senado, Renan Calheiros, sobre o lobista Fernando Baiano:
“Não há fato, não conheço a pessoa, nunca vi”.

Do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em depoimento ao Ministério Público Federal a respeito dos contratos firmados pelo BDNES:
“Jamais interferi”.

Do presidente do PT, Rui Falcão, a respeito das denúncias de dinheiro do petrolão na campanha eleitoral:
“O PT desmente a totalidade das ilações de que o partido teria recebido repasses financeiros da Petrobrás”.

Do presidente da Odebrecht, Marcelo Odebrecht:
“Podem investigar à vontade que não acharão nada sobre nós”.

Em alguns países, sobretudo na Ásia, políticos flagrados em escândalos de corrupção chegam até a cometer suicídio. Foi o caso do ministro da Agricultura do Japão, Toshikatsu Matsuoka, em 2007; do ex-presidente sul-coreano Roh Moo-hyun, em 2009; do deputado de Cingapura Teh Cheang Wan, em 1986; do almirante chinês Ma Faxiang, em 2014; e do teatral senador Budd Dwyer, da Pensilvânia, que se matou diante das câmaras em 1987.

Todos esses casos trágicos, presume-se, são resultado de algum conflito moral que a mente dos acusados foi incapaz de resolver. Por aqui, esse conflito – quando existe – costuma ser resolvido na base do cinismo mesmo.

(*) Helio Gurovitz é jornalista e colunista de O Globo. O trecho reproduzido é excerto de um artigo. Para ler na integralidade, clique aqui.

Ladrão? Eu?

José Horta Manzano

Chamada da Folha de São Paulo, 22 out° 2015

Chamada da Folha de São Paulo, 22 out° 2015

Conclusão lógica: os outros podem.

Foi seu mestre quem mandou. Esqueceu-se de que 90% dos brasileiros rejeitam o “modo petista de governar”.

Repare o distinto leitor que nosso guia já se resignou com o fato de correligionários serem adeptos da ladroagem. Só não admite ser tratado como tal por colegas de ofício.

São particularidades destes tempos estranhos.

Lula perdeu

Fernão Lara Mesquita (*)

Explosao 1Dilma manda avisar, a quem interessar possa, que Joaquim Levy fica e que “a opinião do maior partido da coalizão não é necessariamente a opinião do governo”, que a CPMF é imprescindível e coisa e tal…

Ela estava reagindo à entrevista de Rui Falcão à Folha de São Paulo, na qual esse cara que ninguém elegeu diz aos brasileiros como ele quer que o Brasil seja governado. Ficou claro que ele não falava só por ele. Tem as costas mais que quentes.

Essa separação governo ↔ PT é um marco. A gastança não vai recuar, o que seria pedir demais, mas descarta-se inflá-la a ponto de provocar explosão imediata, o que desaguaria inevitavelmente no golpe.

Era o que Lula queria. Lula perdeu.

(*) Fernão Lara Mesquita é jornalista e editor do blogue Vespeiro.

Frase do dia — 262

«Um dos segredos do sucesso de Lula: a falta de princípios.

Poderia repetir a sério o que o comediante norte-americano Groucho Marx afirmou fazendo graça: “Esses são meus princípios. Mas se você não gosta deles, tenho outros”.

Lula por ele: “Sou uma metamorfose ambulante”.

Lula por Hélio Bicudo, fundador do PT: “Ele só está em busca de vantagem para ele e para sua família”.»

Ricardo Noblat em seu blogue alojado no jornal O Globo, 21 set° 2015.

Atenção ao Zé

Cláudio Humberto (*)

by Renato L. C. Aroeira desenhista carioca

by Renato L. C. Aroeira
desenhista carioca

Após haver abandonado José Dirceu nos tempos do julgamento do mensalão e não se ter mais preocupado com ele desde então, o ex-presidente Lula recomendou à cúpula do PT, esta semana, “dar atenção ao Zé”, seu antigo ministro da Casa Civil. Ele teme que Dirceu feche acordo de delação premiada para não voltar à cadeia.

Até lulistas “religiosos” concordam: eventual delação de Dirceu pode levar Lula a conhecer o significado de um longo período na Papuda.

(*) Cláudio Humberto, bem informado jornalista, publica coluna diária no Diário do Poder.

Guerreiro do povo brasileiro

José Horta Manzano

Tribunal 8José Dirceu, bravo herói do povo brasileiro, ordenou a seus advogados que entrassem com pedido de habeas corpus preventivo. Fiquei tão comovido! Um homem tão bom descer à humilhação de implorar por clemência. Uma crueldade.

Como sabem meus distintos leitores, não sou do ramo, daí minha ignorância. Tenho dificuldade em entender certas firulas jurídicas. Como é possível um cidadão obter garantia de que não será preso antes mesmo da expedição de mandado de prisão? E sem que se conheça o exato teor de eventual acusação?

É intrigante. Se um ministro caído pode, por que não poderiam seus companheiros de infortúnio? Como é possível que Odebrecht & colegas não tenham pensado nisso antes de serem encarcerados? Estariam livres e soltos hoje. Gente imprudente…

Tribunal 7O requerimento foi impetrado por seis (meia dúzia) dos maiores advogados criminalistas brasileiros. Presumivelmente fazem trabalho voluntário. De fato, o requerimento de 40 laudas argumenta que senhor Dirceu «nunca se pautou por fins mesquinhos ou gananciosos». Acrescentam que «com ele, não encontrarão riquezas escondidas». Afirmam ainda que «dele, não acharão contas no exterior».

Discorri, mês passado, sobre a diferença entre titular e beneficiário de conta bancária em paraíso fiscal. Que clique aqui quem quiser refrescar a memória. O homem forte da era Lula não há de ser titular de conta nenhuma no exterior, que bobo não é.

O que mais me comoveu no pedido de clemência foi a alegação de que o impetrante está hoje «no crepúsculo de sua vida», que já foi «processado, condenado, preso». Como tem apanhado da vida, esse infeliz…

Tribunal 9Fugindo à verdade rigorosa, o documento alega ainda que o requerente está com 70 anos de idade. Admito que número redondo soe melhor, mas José Dirceu acaba de completar 69 anos, o que não faz dele propriamente um ancião. Marín, de 83 aninhos, continua enjaulado em Zurique. Sem habeas corpus.

Enfim, ficamos aqui na torcida para que o egrégio tribunal seja sensível ao drama daquele que já foi agitador de massas, prisioneiro, exilado; um homem que mudou de nome e que se casou sem revelar à esposa a verdadeira identidade; um santo, que não fez outra coisa na vida senão dedicar-se à redenção da miséria dos brasileiros, sem jamais pedir nada em troca. Um franciscano.

Interligne 18b

Observação:
Desiludido com os novos caminhos do partido, o petista histórico Hélio Bicudo, homem de cultura e fundador do PT, desfiliou-se em 2005, à época do mensalão. Tempos mais tarde, revelou a intenção verdadeira da implantação da bolsa família. O vídeo, de um minuto e meio, está aqui.

Frase do dia — 249

«Já se sabe que, entre os interesses nacionais e a aliança com chavistas e bolivarianos – parentes ideológicos – o PT fica com chavistas e bolivarianos. Lembre-se que, na expropriação de uma refinaria da Petrobrás pela Bolívia de Evo Morales, o então presidente Lula nada fez.»

Editorial do jornal O Globo, 20 jun 2015.

Criar novo

José Horta Manzano

Blabla 6O Lula discursou nesta segunda-feira em seu comitê, aquele escritório político curiosamente chamado de instituto. Não fosse o homem um personagem sabidamente esperto, a gente ficaria com a impressão de que ensandeceu, pirou de vez. Atenção ao adjetivo: eu não disse culto nem inteligente, mas esperto.

«Estamos querendo salvar nossa pele e nossos cargos ou criar um novo projeto?» foi a frase emblemática que pronunciou. Pra não complicar, vamos deixar barato o pleonástico «criar novo projeto» – quem conseguiria criar um velho projeto, não é mesmo? Isso dito, a resposta à pergunta do discursante é mais que evidente: estão, sim, todos empenhados em salvar a pele e os cargos.

Blabla 4Projeto? Se em algum momento o tiveram, foi enterrado no exato dia em que, com vista à eleição presidencial, nosso guia assinou a Carta aos Brasileiros. O documento despejava uma pá de cal sobre o ideal que, por mais de vinte anos, havia norteado o partido. Sem choro, nem vela.

Alcançada a presidência, ele e os seus deram adeus definitivo aos princípios, à ética, ao comedimento, à fidelidade, à virtude. Que não nos venha agora com esse ar estupefato de quem não entende o que está acontecendo. O homem sabe muito bem. Afinal, a guinada não ocorreu ao tempo dos sumérios, mas apenas uma dúzia de anos atrás. E o instigador é o próprio, exatamente esse que hoje se surpreende com as consequências dos próprios atos.

Blabla 5Analisando mais atentamente a fala do Lula, vê-se que ele confessou, sem se dar conta, que o «projeto», fosse qual fosse, fracassou. Conclamar correligionários para «criar novo» significa que o antigo não deu certo. Ou não?

Blabla 2Nosso demiurgo orgulha-se de nunca ter lido um livro sequer. Em virtude dessa lacuna, não deve saber que, antes dele, outros já tentaram erguer casa nova sobre alicerces podres. Tivesse usado parte de seu tempo para se instruir, saberia que é obra impossível.

Os cem dias de Napoleão, durante os quais o imperador caído tentou reconstruir a glória estilhaçada, se extinguiram na derrota melancólica de Waterloo. A Comunidade de Estados Independentes, erigida sobre as cinzas da União Soviética, gorou: teve duração efêmera e se desmanchou no ar. A história está repleta de exemplos do mesmo naipe.

Blabla 7O melhor que nosso guia poderia fazer é sair de cena. Com o dinheiro que tem e os ricos amigos que lhe restam, não terá dificuldade em levar vida de luxo e opulência nalgum paraíso tropical.

Quanto menos aparecer, melhor será. Para ele e para todos nós. Que siga o exemplo daquele aliado que ele qualificou de homem incomum. Quem? Ora, distinto leitor, falo do senhor Sarney.

Desde que o maranhense se afastou da política, sumiu do radar. Vive tranquilo, sem risco de ser alvo de condução coercitiva a Curitiba.

Quem avisa amigo é.

Tempos difíceis

José Horta Manzano

Os tempos andam complicados para todos – mais para uns que para outros. Para o partido que dominava a cena política federal até poucos meses atrás, o momento é mais que espinhoso. Depois que perderam a hegemonia, seus afiliados estão tentando colar os cacos.

O instantâneo tomado ontem no Congresso Nacional do PT deixa perceber que, por detrás de sorrisos de triunfo, há muita preocupação. Vejamos dois detalhes:

Dilma 12Interligne vertical 14A bancada oficial é ornada pelas bandeiras do Brasil, da Bahia e do partido. Detalhe sintomático: a bandeira nacional ocupa a posição central, jogando a do partido pra escanteio.

Nos tempos áureos, teriam vindo todos de roupa vermelha. Hoje, dado que o partido está irremediavelmente associado à roubalheira e à bandidagem, o vibrante vermelho-revolução – marca registrada da agremiação – foi substituído pela sem-gracice do traje de todos os dias. Alguns até de camisa pra fora da calça, composição pra lá de chique.

Pra finalizar, fato singular, importante e inquietante: a presença da presidente da República. A pessoa que acumula as duas funções maiores – chefe do governo e chefe do Estado brasileiro – deve ter a sabedoria de pairar acima de partidos. No momento em que foi eleita, dona Dilma deveria ter passado a distanciar-se de comemorações e festejos partidários. Faz parte da liturgia da função.

Dilma e Lula 2A presidente não fez mera visita de cortesia. Foi parte integrante e figura capital do convescote. Dado que nunca foi vista em convenção de nenhum outro partido, fica a certeza de que não é a presidente de todos os brasileiros, mas somente do partido do «nós». O «eles» fica de fora.

No fundo, é melhor assim.

Frase do dia — 240

«Temos que reconhecer: chegamos ao fim de uma era. O PT vive seu outono. Melhor voltar para o pátio da fábrica onde nasceu e de onde nunca deveria ter saído.

Há que haver certa grandeza mesmo no pecado. O desejo de poder é o pecado máximo de toda política, e o PT se revelou incapaz até de pecar com elegância.»

Luiz Felipe Pondé, médico, filósofo e escritor. O texto integral está aqui.