Sturmabteilung

Sturmabteilung – uniformes

José Horta Manzano

Nesta segunda-feira pós-voto, acordei com um gosto amargo na boca. Não é o amargor da derrota, mas a aflição de entrever um Brasil correndo desabalado para o precipício. Me sinto em Berlim, na virada dos anos 1920 para os anos 1930, quando multidões de alemães se puseram a enxergar em Hitler o salvador da pátria, e a espichar o braço para saudar sua passagem.

Como os alemães de cem anos atrás, os brasileiros que ontem deram seu voto a candidatos da extrema direita parecem agir pensando somente em antipatias e problemas de hoje, como se não houvesse amanhã. Não parecem se dar conta do alcance de seu voto, nem imaginam estar contribuindo para o desastre de amanhã.

Tenho certeza de que boa parte dos que votaram na direita radical sofrem de um déficit de informação. Estarão sendo movidos por antipetismo, influência das redes, apego a uma religião rigorosa, ou outro motivo desse jaez. Ainda há cidadãos que, ao votar em candidatos ultradireitistas, acreditam estar dando voto aos “mais puros” e aos “não corruptos”, indiferentes ao fato de todos eles estarem afiliados a um partido (PL) cujo dono é um dos grandes corruptos deste país, presidiário na época do mensalão.

Há quem acredite em alguma possibilidade de Lula vencer Fávio B. no segundo turno. Não acredito em milagres, portanto, não creio. No fundo, ainda que Lula conseguisse a façanha de alcançar o contendor, o mal já está feito. O PL de Valdemar Costa Neto e dos Bolsonaros conseguiu eleger:

  • a maior bancada da Câmara dos Deputados,
  • a maior bancada do Senado,
  • o deputado mais votado do Brasil (Nikolas Ferreira, de MG),
  • a “bancada Bolsonaro” composta por irmãos de Flavio B., madrasta, tios, mãe & agregados.

Como se vê, esse partido extremista está com a faca e o queijo nas mãos. Têm força para impichar quem quiserem, inclusive (e principalmente) ministros do STF. Têm força para alterar a Constituição. Têm força até para modificar nosso regime político. Com ou sem Lula, o pior já aconteceu, acredite quem quiser.

Para formar nossa Sturmabteilung (Divisão de Assalto), como na Berlim dos anos 1920, só falta convocar integrantes e organizar seminários iniciáticos. Em seguida, nossa extrema direita já estará capacitada para perseguir e violentar oponentes. Quanto a nosso uniforme, já faz tempo que está em vigor: não é a sinistra camisa parda, mas a antes simpática camiseta amarela. Logo virá o gesto de saudação ao Guia Maior.

Fique ligado nas redes. A chamada será logo anunciada.

Ex-primeira-dama

José Horta Manzano

Li hoje um artigo que me pôs a par das últimas peripécias de Michelle Bolsonaro. O nome dela dispensa apresentações mas, se alguém devesse não a conhecer, é a esposa de nosso ex-presidente Jair Bolsonaro.

Fiquei sabendo que, longe de se resignar ao papel de rainha do lar, como convém a toda esposa de marido “conservador nos costumes”, dona Michelle desenvolve atividades múltiplas. A ex-primeira-dama vende sapatos, uma função diferenciada, como se costuma dizer hoje em dia.

Nos tempos de antigamente, vendedor de sapatos tinha de se ajoelhar diante de cada cliente e quase cheirar-lhe os pés, postura humilhante que não combina com a imagem que a Senhora Bolsonaro deseja projetar. Imagino que ela fique atrás do caixa, deixando que se ajoelhem os outros.

Além desse trabalho árduo, Madame está matriculada na Universidade Estácio de Sá, setor de Letras, modalidade EaD. Aprendi que a sigla EaD indica opção pelo ensino a distância. A informação que tenho é de que ela costuma estudar na própria sede do PL. Com certeza, ao estudar no partido, está buscando economizar o valor da assinatura a um provedor de sinal de internet; dessa forma, não paga internet nem energia.

Acho que é digna de aplauso toda iniciativa, seja de quem for, que tenha o objetivo de aprender e aumentar a própria bagagem de conhecimento. Que felicidade se todos os brasileiros seguissem os passos da antiga primeira-dama. A nação daria um salto adiante. (Não falo dos sapatos, mas dos estudos.)

Dizem que o sonho de dona Michelle é tornar-se senadora da República. Seria uma ascensão vertiginosa para quem jamais exerceu mandato nem função pública. E que, além disso, ainda frequenta os bancos da escola.

Ambição é bom mas, quando é demais, deslumbra o dono. E o dono periga tropeçar no próprio deslumbramento.