O fator humano ‒ 2

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Um colega da faculdade de psicologia estava realizando um trabalho de observação do padrão de teias fabricadas por aranhas de diversas espécies, para a cadeira de etologia. Querendo causar boa impressão, ele havia coletado diversas espécies nativas e importado outras, visando a uma análise comparativa. Para facilitar a visualização das teias, acomodou as aranhas dentro de caixas de sapato revestidas com um tecido preto e iluminadas por baixo.

Extremamente preocupado para que nada nem ninguém interferisse no comportamento natural das aranhas, tão logo terminava de fazer suas anotações do dia, ele trancava a porta do quarto. Certo dia, apressado para um compromisso de trabalho, ele saiu e esqueceu a porta aberta. Horas depois, ao voltar para casa, encontrou a faxineira nervosa, sentada no sofá da sala, à espera dele. Sem dar tempo para qualquer reação, a mulher começou a reclamar da falta de confiança e de reconhecimento por parte dele. Falava de seu zelo na manutenção da higiene da casa, do seu orgulho de limpar os cantinhos mais escondidos para se certificar de que tudo estava na mais perfeita ordem, e por aí vai.

Sem entender o que estava acontecendo, meu colega a interrompeu: Onde você está querendo chegar? O que foi que aconteceu de diferente hoje? Com ar horrorizado, a faxineira emendou, triunfante: “Então, hoje eu finalmente consegui limpar aquele quarto que está sempre trancado. O senhor não faz ideia da sujeira que encontrei lá. Tudo empoeirado, cheio de teia de aranha, um nojo! E o senhor nem imagina o monte de aranhas que eu achei dentro das caixas. Quase morri do coração de tanto susto… Mas o senhor não precisa se preocupar. Já matei todas e limpei tudo bem direitinho!”.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

A banalização dos malfeitos

José Horta Manzano

Vidro quebrado 2Todos os jornais, todos os sites de informação, todas as emissoras de tevê, todos os blogues e todas as redes sociais repercutiram a notícia de uma moça que, durante um jogo de futebol, chamou de macaco o goleiro do time adversário.

Não entendo bem por que insultar alguém em razão de sua cor de pele seria mais grave do que injuriá-lo por defeitos morais que não lhe correspondem ― «juiz ladrão!», por exemplo.

No meu entender é tão pesado chamar um preto de macaco como chamar um ruivo de foguinho ou um loiro de branquelo ou descamado. Acusar injustamente o árbitro de ladroagem parece-me tão grave quanto. Pior ainda, é insinuar, aos brados, que a genitora de um jogador é profissional do sexo. Tenho real dificuldade em entender por que umas ofensas passaram a pesar mais que outras. Como dizia o outro: mudou o mundo ou mudei eu.

Todos os jornais, todos os sites de informação, todas as emissoras de tevê, todos os blogues e todas as redes sociais repercutiram a notícia de a ofensora, que se escafedeu, estar sendo aguardada para depoimento. Soube-se também que, com uma tijolada, um vizinho quebrou uma vidraça da casa da xingadora.

Nenhum dos jornais, dos sites de informação, das emissoras de tevê, dos blogues, nem das redes sociais condenou o gesto do irado vizinho. O malfeito passou em branca nuvem, como se legítimo e natural fosse.

Vidro quebrado 1Pois eu não vejo assim. Nosso civilizado ordenamento jurídico faz nítida distinção entre o ato não premeditado (espontâneo, impensado, súbito, inadvertido) e o ato premeditado (pensado, refletido, calculado, planejado).

O grito da torcedora, conquanto seja censurável e mereça sanção, não foi premeditado. Mas o do vizinho enraivecido é pior. Foi fruto de reflexão. A banalização de seu gesto nos aproxima da nefasta Lei de Lynch, em que cada um faz justiça com as próprias mãos.

É ladeira perigosa. Para evitar que a sociedade brasileira descambe, é preciso estigmatizar ambos os malfeitos: o insulto e a vingança.