Coitadinho

José Horta Manzano

Leio que o antigo juiz ― de Direito, frise-se ― Nicolau dos Santos, vulgo Lalau, foi solto da penitenciária para onde havia sido despachado para purgar pena de 26 anos de privação de liberdade por motivo de roubo, fuga da Justiça e outras lindezas.

Ladrão

Mais que ladrão: desleal

Está com 85 anos, coitadinho. Coitadinho? Coitadinho uma ova. Roubou o seu, o meu, o nosso dinheiro. Viveu vida de magnata à custa dos idiotas que somos. Como tantos outros novos-ricos, comprou apartamento em Miami. Aproveitou-se à exaustão da nossa boa-fé.

Que um ignorantão tivesse feito isso, ainda que não seja uma justificativa, é circunstância atenuante. Mas… um juiz de Direito? Aquele que tem a prerrogativa legal de julgar e decidir a sorte de seus concidadãos? Além do roubo, resta o crime maior da deslealdade e da traição. Dependesse de mim, apodreceria na cadeia igualzinho ao Madoff. Até o último suspiro.

Fica uma dúvida. Ainda que mal pergunte, onde foram parar os 169 milhões surrupiados na época? Em valores de hoje, estamos falando de um bilhão. Um bilhão! Os jornais não são claros quanto à recuperação da bolada. Daria pra enxugar uma parte do desperdício de dinheiro público que a “Copa das copas” está causando.

Vai ter copa

José Horta Manzano

Anda mal das pernas a imagem de seriedade das instâncias dirigentes do futebol mundial. João Havelange, que foi presidente da Fifa durante um quarto de século, foi discretamente despachado ao ostracismo já faz alguns anos. Um nome a esquecer.

Ricardo Teixeira, que dirigiu a Confederação Brasileira de Futebol durante 23 anos ― por sinal, aparentado com o figurão nomeado mais acima ― foi corrido de seu pedestal a toque de caixa sob acusação de roubo e corrupção da pesada.

2010: Blatter e um figurão catari

2010: Blatter e um figurão catari

Sepp Blatter, atual número um da Fifa, é olhado com desconfiança, embora nenhum caso escabroso tenha vindo a público. Por enquanto.

Talvez no intuito estratégico de adiantar-se às más línguas, Herr Blatter andou declarando, faz algumas semanas, que a designação do Emirado do Catar como sede do Campeonato Mundial de Futebol de 2022 foi um erro.

Erro? Em que sentido? Se a escolha daquela minúscula tripinha de areia desértica foi decidida pelo voto dos delegados de todos os países-membros, onde está o erro? Será que, como se costuma dizer dos eleitores brasileiros, os membros da Fifa também não sabem votar? Coisa mais esquisita.

Ao se dar conta de que seu pronunciamento havia caído mal, Herr Blatter foi mais além e desvelou o fundo de seu pensamento: o voto havia sido um jogo de cartas marcadas. Os donos do Catar ― sim, aqueles miniestados têm dono! ― haviam cooptado delegados mais dóceis e melado a decisão. Pegou mal pra burro.

A denúncia de malfeitos vários envolvendo nossa «Copa das copas» ― superfaturamento, desorganização, atraso, bagunça, descaso, roubo, desleixo, trapaça ― não podem ser atribuídos automaticamente à Fifa. No entanto, é inegável que a instância máxima do futebol mundial sai respingada. No mínimo, aparece na foto como conivente, se não como cúmplice.

A série de acusações continua. O episódio mais recente nos vem pela imprensa britânica deste domingo 1° de junho. Entre outros, o Sunday Times, o Guardian e o Independent trazem artigos acachapantes sobre denúncias de propinas pagas pelo Catar com o objetivo de vencer a disputa pela atribuição da Copa de 2022.

2010: Atribuição ao Catar do direito de sediar a Copa 2022

2010: Atribuição ao Catar do direito de sediar a Copa 2022

Havelange, Teixeira, Blatter e a «Copa das copas» já causaram estrago considerável à reputação da Fifa. A instituição não sobreviveria à avalanche de denúncias que se anuncia. Daqui até a Copa do Catar ainda faltam 8 anos! O mais provável ― e o mais acertado ― é que a escolha do emirado seja impugnada e que se vote de novo. Não vejo outra maneira de evitar o desaparecimento da Fifa. Se o presidente da entidade declarou que um erro foi cometido, a única saída é corrigi-lo enquanto é tempo.

Quanto à nossa «Copa das copas», infelizmente é tarde demais para enjeitá-la. Sinto muito pelos black blocs, mas… vai ter copa. Sim, senhor.

Poliglotismo

José Horta Manzano

Faltam menos de duas semanas para o apito inicial do primeiro jogo do Campeonato do Mundo de Futebol. O silvo vai ecoar justamente na cidade de São Paulo. Tirando o jogo em si, que, por definição, ainda tem de ser encarado como evento futuro, é razoável esperar que toda a preparação já tenha sido feita.

Surpreendeu-me um artigo do Estadão deste sábado, obra de Adriana Ferraz. A moça informa que os motoristas de táxi de São Paulo que falam algum outro idioma além do português terão selos de identificação colados no para-brisa dianteiro. Reparem no futuro: terão. Donde, conclui-se que, no momento em que os visitantes estrangeiros mais apressados já começam a apontar na esquina, os taxistas paulistanos ainda não dispõem da marca distintiva.

O atraso na identificação dos não monoglotas não estará, imagino eu, ligado à abundância dessas criaturas. Mais acertado será atribuir a demora ao vezo nacional de enfrentar problemas às cinco para a meia-noite do dia do vencimento.

Taxista bilíngue

Taxista bilíngue

Com todos os congressos, simpósios, reuniões, encontros, colóquios internacionais que a maior cidade do País costuma acolher a cada ano ― com «Copa das copas» ou sem ela ― parece-me inacreditável que as autoridades competentes só tenham acordado agora, instigadas por meia dúzia de jogos de futebol.

Essa marca de consideração básica para com o visitante estrangeiro deveria fazer parte da paisagem urbana desde que aportou o primeiro turista vindo de fora do país. E digo mais. Melhor fariam os (assaz raros) taxistas bilíngues se se agrupassem numa associação ou cooperativa. Uma vez sua existência conhecida por hotéis, firmas internacionais e organismos que acolhem estrangeiros, teriam sucesso garantido.

Cada dia mais falado

José Horta Manzano

Se a intenção era projetar o nome do Brasil, o objetivo está sendo alcançado. Estas últimas semanas, nosso país não passa em branco nem um dia na mídia global.

Ainda anteontem, o Wall Street Journal, respeitado órgão focado em aspectos econômico-financeiros, publicava uma enésima reportagem sobre a «Copa das copas» e sua provável influência na economia brasileira. Aqui está um trecho do texto:

Interligne vertical 11a«For many Brazilians, the Cup has become a symbol of the unfulfilled promise of an economic boom for this South American nation. But the boom has fizzled. And now the World Cup’s $11.5 billion price tag—the most expensive ever—and a list of unfinished construction projects have become reminders of the shortcomings that many believe keep Brazil poor: overwhelming bureaucracy, corruption and shortsighted policy-making that prioritizes grand projects over needs like education and health care.»

Traduzindo, fica assim:

Interligne vertical 11a«Para muitos brasileiros, a Copa tornou-se símbolo da promessa não cumprida de boom econômico nacional. O rojão deu chabu. E agora, a Copa do Mundo de 11,5 bilhões de dólares ― a mais cara jamais vista ― e uma lista de obras inacabadas tornaram-se a marca evidente das deficiências que, segundo muitos, perenizam a pobreza do Brasil: burocracia sufocante, corrupção e políticas míopes que privilegiam projetos grandiosos em detrimento de necessidades como educação e saúde pública.»

Bem que podíamos ir dormir sem essa, não?

Recordar é viver ― 2

José Horta Manzano

O Lula na África ― jul° 2010

O Lula na África ― jul° 2010

No dia 9 julho 2010, o site especializado em esportes do portal Terra tascou uma inequívoca manchete direto de Johannesburgo. «Lula: se o Brasil não tiver (sic) pronto para a Copa, teria de voltar a nado da África.»

Em uma de suas incontáveis viagens internacionais, nosso messias havia elogiado a organização do campeonato mundial de futebol na República Sul-Africana e, aproveitando o embalo que a platéia lhe proporcionava, saiu-se com um punhado de suas costumeiras bravatas.

Surpreso, na certa, de constatar que havia aeroportos por lá e que o apartheid havia desaparecido, indignou-se de que a imprensa não conte essas maravilhas.

O Lula na África ― jul° 2010

O Lula na África ― jul° 2010

É compreensível e desculpável. Nosso líder já confessou, mais de uma vez, que não costuma ler jornais. Donde, sejam quais forem as informações publicadas, ele jamais tomará conhecimento.

Cá entre nós, nosso antigo presidente leva uma vida invejável. Dado que sua única fonte de informação parece ser o jornal televisivo, a vida deve reservar-lhe permanentes deslumbres, o que não deixa de ser extremamente positivo.

Voltando a Johannesburgo, vamos conferir a frase inteira proferida pelo então presidente do Brasil:

Interligne vertical 12«Agora, as dúvidas já começaram com o Brasil. Já começaram as perguntas hoje: será que os aeroportos vão estar prontos? Será que vão (sic) ter corredores de ônibus? Os estádios estarão prontos? Posso dizer que em 2014 se seguirmos assim teremos a quinta melhor economia do mundo… Se o Brasil não tiver condições [para receber a Copa], teria que ir embora a nado da África…»

Da Cidade do Cabo ao Rio de Janeiro, são 6 mil quilômetros. Falta escolher a cor da sunga.

Nem só de grama

José Horta Manzano

Basta abrir qualquer jornal ou ligar em qualquer estação de rádio para ouvir alguém preocupado com os estádios da Copa ― agora transmudados em «arenas», olé! Vai ficar pronto a tempo? Não vai?

Estadio 3A dar crédito ao que se ouve, a única premissa para organizar uma «grande copa» é a construção de estádios. Secundariamente, chegou-se até a pensar no deslocamento de dezenas de milhares de pessoas a esses locais. Alguns meios mecânicos de transporte, trem ou metrô, chegaram a ser cogitados. No entanto, segundo um floclórico ex-presidente da nação, o povo pode muito bem deslocar-se em lombo de burro. O problema da mobilidade, portanto, deixa de existir. Era pura babaquice.

O gargalo, infelizmente, não se limita aos estádios nem aos caminhos que levam até lá. A onda de choque emitida por um evento da magnitude de um campeonato mundial de futebol influencia infinitos meandros da sociedade.

Hello 1Além da construção das «arenas» e das vias de acesso que conduzem a elas, numerosos outros setores são atingidos. A assistência médica e sanitária tem de estar preparada para atender a casos de emergência. Hospitais têm de prever chegada maciça de feridos em tumultos. O transporte, o alojamento e a alimentação de grandes grupos de visitantes tem de satisfazer à demanda. O Poder Público será obrigado a decretar dias feriados ― com a consequente baixa na produtividade anual. E mais uma miríade de respingos acaba caindo sobre a sociedade.

Entre os efeitos colaterais gerados pela concentração de multidões nos estádios, está a conexão de cada telefone individual à rede mundial. Quando 200 mil espectadores se aglutinaram no Maracanã, em junho 1950, para decepcionar-se com um Brasil x Uruguai de triste memória, esse problema não existia. Naquela época, mesmo em casa, poucos eram os detentores de uma linha telefônica. «Cérebros eletrônicos», então, eram peças de ficção.

Celular 3Hoje não é mais assim. Cada um carrega no bolso um minúsculo aparelhinho, não maior que uma carteira, capaz de proezas inimagináveis 70 anos atrás. Só que tem um porém: para funcionar, essa maquineta precisa captar o sinal de uma rede. E é aí que a porca torce o rabo. Imagine você 50 mil ou 60 mil celulares procurando conexão ao mesmo tempo, num mesmo lugar. Cada um vai querer mandar sua mensagem, curta ou longa. Pra comemorar um gol, por exemplo.

Segundo um despacho da Associated Press, repercutido pelo site da americana revista Time, o governo brasileiro e os concessionários estão de tal maneira mal preparados para a eventualidade que apagões telefônicos ou congestionamento de chamadas de emergência podem ocorrer.

Na hipótese mais benigna, conexões internet serão irritantemente lentas e chamadas telefônicas cairão com frequência. O governo brasileiro tinha-se comprometido a dotar os estádios de tecnologia 4G, mas isso ficou na promessa.

Sarcasticamente, o articulista da Time sugere ao torcedor que telefone a sua namorada antes de cada jogo. É mais garantido.

Que continue!

José Horta Manzano

Mês passado, reportagem do jornal O Globo informou que tinha sido lançada, com pompa e circunstância, uma campanha contra a prostituição infantil. A imprensa internacional repercutiu a notícia ― a exemplo, o jornal colombiano El Tiempo.

Prostituição infantil 1A campanha é focada na «Copa das copas». Tem o apoio de embaixadores do quilate do grande Juninho Pernambucano, de Kaká e de Arnaldo Cezar Coelho, antigo árbitro profissional.

Na Europa, mas não só, o Brasil é conhecido, entre outras características pouco enaltecedoras, pela permissividade da sociedade com relação à prostituição em geral e à exploração infantil em particular.

Cada voo que pousa no Recife, em Fortaleza, em Natal ou até no Rio de Janeiro traz seu lote de turistas peculiares ― escassamente interessados na beleza das praias tropicais mas vidrados nas conquistas efêmeras que a estada em nossas terras lhes promete.

Vamos raciocinar um pouco. Passaria pela cabeça de alguém fazer uma viagem aos EUA, ao Japão, à Alemanha ou à Nova Zelândia com o intuito de encontrar sexo fácil ou contacto carnal tarifado com menores de idade? A resposta é inequívoca: é evidente que não.

E por que essa gente vem ao Brasil? Porque nossas garotas são mais bonitas que alhures? Porque nossas crianças são mais sorridentes? Porque a tarifa sai mais em conta? Pode até ser, mas não é essa a razão que atrai hordas de predadores.

Vêm porque o laxismo de nossa cultura faz que fechemos um olho para essas coisas. Assim como passamos diante de uma favela sem olhar e não nos abalamos com o espetáculo abjecto de uma família alojada debaixo de um viaduto, encaramos com indiferença o destino trágico dessas crianças sem infância. Em nossas plagas, sexo com crianças é abundante, fácil de encontrar, barato e… sem perigo. O risco de ser apanhado e de ter de responder pelo crime é praticamente nulo.

Trabalho infantil 1Sem sombra de dúvida, a campanha merece aplauso. A pergunta que fica no ar é: por que se lhe dirigem os holofotes somente durante a «Copa das copas»? A praga que reserva destino atroz a essas crianças e lhes destrói o futuro não começou ontem nem vai desaparecer, como por encanto, depois da Copa.

A solução terá de passar por um empenho constante, paciente, de todos os dias. E terá obrigatoriamente de contar com o apoio firme e continuado das autoridades, que o problema é cabeludo.

Mas a campanha já é um começo. Oxalá não murche após o apito final de 13 de julho.

Ameaça à vista

José Horta Manzano

Les Echos é a publicação francesa mais reverenciada em matéria de informação econômica e financeira. É o vade-mécum dos investidores e dos grandes capitães de indústria. Principalmente franceses, mas não só. Faz mais de um século que suas análises costumam ser apreciadas e respeitadas.

Esta semana, publicou um artigo bastante contundente sobre o momento atual da economia brasileira. O título já diz muito: «Brasil ― para a economia, a Copa do Mundo se transforma em ameaça».

Durante muito tempo, segundo o texto, o Brasil contou com a Copa do Mundo para dar um empurrão a sua economia. Hoje, essa esperança deu lugar ao receio de que a convulsão social assuste os investidores e deteriore, por muito tempo, a imagem do país.

Les EchosO governo de Dilma Rousseff espera que o Mundial acrescente meio ponto percentual ao PIB nacional e crie mais de um milhão de empregos. Segundo pesquisa da Reuters, contudo, economistas independentes são mais prudentes e miram a um magro aumento de 0,2 ponto.

Sete anos atrás ― continua a análise ― quando a organização da Copa foi atribuída ao Brasil, o governo de então acariciou a ideia de poder afirmar o novo estatuto nacional de potência econômica de primeiro plano. Era também ocasião propícia para uma profunda transformação da infraestrutura de transportes.

Mas hoje a conta não fecha. Dos 11,7 bilhões de dólares de investimento previsto, nada mais que 7 bilhões foram aplicados ― uma discrepância que observadores atribuem a mau planejamento e a entraves burocráticos. Somente 36 dos 93 grandes projetos previstos foram entregues.

Essas falhas não impedirão que o campeonato se desenrole, mas, em vez de destacar a força do país, o evento periga desnudar suas fraquezas e a falta de vontade política para tocar grandes projetos.

GlandO artigo prossegue com uma grande interrogação: «Os 600 mil turistas esperados… virão?».

A reportagem fecha citando Antenor Barros Leal, presidente da Câmara de Comércio do Rio de Janeiro, que se declara muito preocupado com a imagem do país.

Barros Leal afirma que não podemos assumir o risco de perder nenhum investimento num momento em que nossa economia vai mal. Acrescenta que «todo sinal de instabilidade poderia atemorizar investidores dispostos a investir dinheiro no Brasil».

Interligne 18g

Da semente imperfeita que foi plantada estes últimos sete anos, dificilmente brotarão bons frutos.

Bundeskanzlerin

José Horta Manzano

Você sabia?

Despacho do Der Spiegel anuncia que Frau Angela Merkel, a chanceler federal (Bundeskanzlerin) alemã, conta assistir de corpo presente ao jogo Alemanha x Portugal, previsto para 16 de junho em Salvador, válido pela “Copa das copas”. Vai verificar in loco o que é que a baiana tem.

Sepp Blatter & Angela Merkel

Sepp Blatter & Angela Merkel

A chefe do governo alemão é grande apreciadora de ludopédio(*). Ela não confirma, mas garantem que seu jogador favorito é o bávaro Bastian Schweinsteiger.

Interligne 18e

(*) Ludopédio, termo pouco utilizado, é o outro nome do futebol. Combina as raízes latinas ludus (brincadeira, jogo, diversão) e pedis (pé).

Recordar é viver ― 1

José Horta Manzano

«A ministra Dilma Rousseff (Casa Civil) afirmou nesta quarta-feira (3) que o trem-bala ligando Campinas ao Rio de Janeiro ficará pronto para a Copa do Mundo de Futebol de 2014, que acontecerá no Brasil, pelo menos no trecho entre São Paulo e Rio de Janeiro.

Ela reafirmou que o governo não pretende gastar recursos em estádios e que o foco dos investimentos públicos será em mobilidade urbana nas cidades escolhidas para sediar o evento, definidas no domingo passado (31/05).»

Artigo de Eduardo Bresciani, publicado no site do jornal O Globo, em 3 junho 2009.

Quem acreditou se estrepou.

Visão panorâmica

José Horta Manzano

Aproveitando o fim de semana, vamos dar uma espiada em torno pra ver o que é que andam dizendo de nós.

Le Brésil reste sur un chaudron social
O Brasil continua em cima de um caldeirão social
Manchete do diário argelino Liberté, num apanhado da convulsão social que sacode o país-sede da «Copa das copas».

Interligne 28aBrasilien: protester mot VM-2014 växer
Brasil: protestos contra Copa-14 crescem
Manchete do site A Voz da Rússia, em sua versão em língua sueca. Traz um relato dos protestos do dia 15 de maio.

Interligne 28aBrasilien im Chaos ― Vier Wochen vor der WM: Panzer am Strand!
Brasil em caos ― Quatro semanas antes da Copa: tanques de guerra na praia!
Reportagem do sensacionalista Bild, o jornal de maior circulação na Alemanha. Conta o que aconteceu quando da greve de policiais no Recife.

Interligne 28aMundial en Brasil, ¿una pesadilla para los viajeros?
Copa no Brasil: um pesadelo para os turistas?
Artigo do Forbes (edição mexicana) sobre os desafios que os turistas que visitarem o Brasil durante a Copa deverão enfrentar.

Interligne 28aIl Brasile rischia di perdere le Olimpiadi 2016
O Brasil está arriscado a perder as Olimpíadas de 2016
Artigo intrigante do Il Secolo XIX, tradicional diário de Gênova, Itália. Revela rumores de que, à vista do atraso na preparação da infraestrutura, o CIO (Comitê Internacional Olímpico) estaria estudando um plano B: a transferência dos jogos de 2016 do Rio para Londres.

Interligne 28aLe Mondial de tous les dangers
A Copa de todos os perigos
Artigo do jornal francês L’Alsace. Dá uma visão dos acontecimentos recentes e diz textualmente: «Infelizmente, a um mês do início da competição, a escolha do Brasil para acolher a Copa aparece como aposta de alto risco, transformando esta edição no «Mundial de todos os perigos».

Interligne 28aBrasilien: Fußball statt Schule
Brasil: futebol em vez de escola
Manchete de reportagem da rede de televisão Euronews (versão alemã). O texto descreve a comoção que toma conta do Brasil. O título sintetiza.

Copa das copas 2Quando «lutaram» para que a organização da Copa fosse atribuída ao Brasil, nossos medalhões tinham duas intenções:

Interligne vertical 141) dar uma dentadinha (ou dentadona, depende do apetite) onde fosse possível;
2) mostrar ao mundo a imagem de um Brasil evoluído, rico, poderoso, harmônico, feliz.

Ninguém tem dúvida quanto à primeira intenção: foi amplamente alcançada. Já quanto à segunda… ai, ai, ai.

Mas os figurões devem estar se lixando. Já levaram seus trocados. A vergonha fica para nós.

Olhar italiano

José Horta Manzano

A ANSA ― Agenzia Nazionale Stampa Associata ― é a mais importante agência italiana de notícias. Seu site apresentou, alguns dias atrás, um retrato cru dos preparativos para a «Copa das copas». Cru, mas verdadeiro, não há que contestar.

Crédito: Guilherme Bandeira www.olhaquemaneiro.com.br

Crédito: Guilherme Bandeira
olhaquemaneiro.com.br

Começa contando que, a um mês do apito inicial do campeonato, o Brasil já ganhou a copa dos atrasos e do desperdício. Refere-se a obras previstas e nunca realizadas como o trem-bala Rio-SP ou o futurístico monotrilho do centro de Brasília ao estádio. Há ainda obras inacabadas, como três dos doze estádios. A isso tudo há que adicionar os custos faraônicos, que superam amplamente o que se gastou com a copas da Alemanha e da África do Sul reunidas.

O artigo pondera que, no pesado balanço, ainda tem de ser debitada a perda de nove vidas nos trabalhos de construção. Diz também que esse conjunto de trapalhadas suscitou um vasto descontentamento em muitas camadas da sociedade, gente que teria preferido ver esses fundos utilizados para melhorar serviços de saúde, instrução e transporte.

O autor explica que, quando festejou a atribuição da Copa ao Brasil, sete anos atrás, o Lula pretendia mostrar ao mundo o progresso econômico e social do País. Não podia prever a série interminável de incidentes e de acontecimentos negativos que acabaram projetando ao exterior a imagem do Brasil como gigante de pés de barro, incapaz de programar e de organizar um evento de alcance mundial.

Copa 14 logo 2Referindo-se à Copa das Confederações de 2013, o texto assinala que a competição será pouco lembrada pelo futebol e muito mais por causa das «oceânicas» manifestações de protesto contra o dinheiro público gasto por Dilma Rousseff para a Copa, enquanto os serviços públicos brasileiros não estão à altura de um País que reclama o direito de acesso ao restrito clube das grandes potências.

O articulista fecha seu escrito recordando que a torcida (em português no texto) espera que a Selecao jogue e vença a final. Mas Dilma, em constante queda nas pesquisas, terá um motivo a mais para torcer.

Quem viver verá.

Panem et circenses

José Horta Manzano

Truques para acariciar a alma de um povo sofrido não são invenção moderna. Dois mil anos atrás, os dirigentes romanos já se tinham dado conta de que um agradozinho ao povão pode fazer milagres.

Der Spiegel 1Como marca da época, restou a expressão Panem et circenses, em geral traduzida como Pão e circo (por Pão e jogos circenses). Adaptada aos tempos modernos, a máxima fica assim: «Para acalmar o povão, nada melhor que comida e diversão».

Com bolsas várias, o governo federal brasileiro tem reavivado o tradicional viés paternalista de nossa sociedade. Pouco preocupados com os alicerces bambos sobre os quais se está construindo o futuro dos brasileiros, os atuais medalhões estão mais é interessados nos dividendos imediatos que possam colher. Sob forma de votos preferivelmente.

O truque da distribuição de pão vem funcionando. Faltava o circo. O campeonato mundial de futebol veio a calhar, verdadeira mão na roda. Pouco importou que os bilhões pudessem vir a ser mais bem empregados: o que interessava era encher os olhos do povo ignaro com os paetês e as lantejoulas do imenso circo futebolístico.

Assim foi feito. No entanto, como já berrava o outro numa passeata, o povo não é bobo. Ninguém aprecia ver a própria inteligência insultada. De um ano para cá, o paciente tem recusado a anestesia. Está de olhão aberto. E o pior é que o mundo inteiro está-se dando conta da real situação do País. Uma humilhação.

Interligne 18h

Fundada logo após o término da Segunda Guerra, a revista semanal Der Spiegel (O Espelho) é a maior e mais influente publicação investigativa da Alemanha.

Sua edição datada de 12 maio 2014 traz uma reportagem de capa sobre a «Copa das copas». O título Tod und Spiele (Morte e jogos) faz alusão à expressão Brot und Spiele, tradução alemã da original latina. Sutilmente, a revista substituiu o pão (Brot) pela morte (Tod). A rima e o ritmo permanecem, mas o sentido muda drasticamente.

Está aí a demonstração de que o nome do Brasil está, como se diz, na boca do povo. Infelizmente, o mundo está descobrindo justamente o lado que gostaríamos de esconder.Der Spiegel 2

Eigentor Brasilien
Ausgerechnet im Land des Fussballs könnte die Weltmeisterschaft zum Fiasko werden: Demonstrationen, Streiks und Schiessereien statt Party. Die Bürger sind wütend über teure Stadien und korrupte Politiker – und sie leiden unter den stagnierenden Wirtschaft.

Brasil: gol contra
Justamente no país do futebol, a Copa do Mundo poderia ser um fiasco: manifestações, greves e tiroteios em vez de festa. Os cidadãos estão furiosos por causa dos estádios caros e dos políticos corruptos. Ademais, sofrem com a estagnação da economia.

Já ganhou!

José Horta Manzano

Crédito: Guilherme Bandeira www.olhaquemaneiro.com.br

by Guilherme Bandeira
http://www.olhaquemaneiro.com.br

O site francês Eurosport dá conta de pesquisa de opinião publicada dois dias atrás. Nada menos que 43% dos franceses acreditam que a seleção do Brasil vai levar a «Copa das copas».

Nas apostas francesas, a Espanha vem em segundo lugar, lá longe, com 9% dos palpites. A Alemanha (8%), a Argentina (4%) e a própria França (4%) vêm a seguir.

Somente 8% dos entrevistados acredita que a França chegará à final. E minguados 6% imaginam que ela vença e leve a taça.

Vamos de férias?

José Horta Manzano

Você sabia?

A revista Manager Magazin, do grupo editorial alemão Stern, anunciou estes dias o resultado de uma pesquisa interessante sobre o tempo de lazer ao qual têm direito os assalariados de dez países selecionados. O estudo, publicado sexta-feira última no meio da ponte do feriado de 1° de maio, caiu como uma luva.

Pelo levantamento da revista, o «país do samba, do Carnaval e do futebol», com 30 dias de férias legais e 11 feriados, encabeça a classificação. O único país que se lhe pode cotejar é a Lituânia. No resto do mundo, ninguém tem direito a tantos dias de folga.

Férias e feriados ― comparação entre 10 países selecionados Azul: número de dias de férias legais Verde: dias feriados

Férias e feriados ― comparação entre 10 países selecionados
Azul: número de dias de férias legais
Verde: dias feriados

Franceses e austríacos, que contam respectivamente com 40 e 38 dias por ano, não podem se queixar. Bem abaixo, vem a Alemanha com seus 20 dias de férias e 10 feriados.

Na rabeira, aparecem a China e o Canadá. Pequim concede a seu povo 10 dias de férias mais 11 feriados. Ottawa também garante 10 dias de férias mas somente 9 feriados. Os EUA, se aparecessem na na lista, se situariam entre a Índia e a China, com um total de 25 dias de folga.

Quando relatou a Dom Manuel I o achamento da nova terra, Pero Vaz de Caminha sublinhou: «a terra é de tal maneira tão maravilhosa que em se plantando dar-se-á nela tudo».

Infelizmente, Pero Vaz não deixou explícito quem deveria se encarregar do plantio. Até hoje estamos esperando que alguém o faça. Enquanto isso, vamos de férias, moçada, que ninguém é de ferro!

Interligne 18d

PS: Os feriados especiais previstos no Brasil em função da «Copa das copas» não estão incluídos. Entram na categoria das receitas não-contabilizadas.

O Terceiro Estado

José Horta Manzano

«Fizemos tanto por essa gente e agora eles se levantam contra nós»
Gilberto Carvalho, ministro-chefe da Secretaria-geral da presidência da República.

«Le Brésil! Faites un effort pendant un mois, calmez-vous! (…) Eh bien, les Brésiliens, il faut qu’ils se mettent dans l’idée de recevoir les touristes du monde entier et que pendant un mois, ils fassent une trêve. (…) S’ils peuvent attendre au moins un mois avant de faire des éclats sociaux, ça serait bien pour l’ensemble du Brésil et la planète football».(*)
Michel Platini, presidente da Uefa.

Interligne 18b

 

Manif 2As falas reproduzidas aí acima foram pronunciadas por duas personalidades que, em princípio, nada têm em comum tirando fora o fato de pertencerem à mesma geração.

Um é figura política, ministro da República brasileira. Sua frase foi dita faz alguns meses. O figurão se referia à conflagração popular de junho 2013.

O outro é figura do esporte, antigo profissional de futebol, há anos reciclado e transformado em presidente da União das associações europeias de futebol. Sua frase foi pronunciada faz alguns dias.

O que é que terá levado ambos a ousarem pronunciamento tão desastrado? Não vejo conotação política nem intenção oculta em nenhuma das falas. Antes, parecem desabafo sincero, suspiro de desalento.

Mas há um denominador comum aos dois pronunciamentos, ambos emitidos por pessoas que vivem num mundo de fantasia, longe da fria realidade em que vivemos mergulhados nós outros.

Salário elevado, facilidades mil, bajuladores em roda, a turma do “sim,senhor” sempre pronta a curvar-se ― esses medalhões que perderam o hábito de abrir uma porta com as próprias mãos vão, pouco a pouco, se desconectando do mundo real.

Para escapar a essa armadilha, seria preciso ter um espírito crítico ultradesenvolvido, o que, fica claro, não é o caso de nossos dois figurões.

Do senhor Platini, que vive a dez mil quilômetros do território brasileiro, ainda se pode admitir que ignore, até certo ponto, a realidade nacional. Além de viver dentro de uma redoma, convive com os clichês que lhe foram incutidos desde a infância. Continua enxergando o Brasil como o país do futebol, das mulatas sambando, do fio dental, das praias preguiçosas, da caipiriña(sic), da alegria onipresente. Assim mesmo, o desprezo embutido em sua fala incomoda um bocado.

Manif 3Já a alienação do senhor Carvalho, que vive “no coração do Brasil”, é assombrosa. “Fizemos tanto por essa gente”… mas quanta arrogância em cinco palavras!

Estamos habituados ao sectarismo do discurso oficial do atual governo federal, aquela retórica que procura dividir a população em dois campos antagônicos: “nós” e “eles”. O desabafo do ministro-chefe, no entanto, contradiz a filosofia oficial. Os campos não são dois, mas três: nós, eles e a populaça.

Fica claro que tanto o discurso de Platini quanto o de Carvalho se referiam a essa nebulosa terceira entidade, a ralé.

Interligne 18b

(*) «Ô, Brasil! Façam um esforço durante um mês, acalmem-se! (…) Veja só, os brasileiros têm de botar na cabeça a ideia de que vão receber os turistas do mundo inteiro e que, durante um mês, têm de fazer uma trégua. (…) Se eles puderem segurar o estouro de seus conflitos sociais durante um mês, será excelente para o Brasil e para o futebol planetário.»