Nem só de grama

José Horta Manzano

Basta abrir qualquer jornal ou ligar em qualquer estação de rádio para ouvir alguém preocupado com os estádios da Copa ― agora transmudados em «arenas», olé! Vai ficar pronto a tempo? Não vai?

Estadio 3A dar crédito ao que se ouve, a única premissa para organizar uma «grande copa» é a construção de estádios. Secundariamente, chegou-se até a pensar no deslocamento de dezenas de milhares de pessoas a esses locais. Alguns meios mecânicos de transporte, trem ou metrô, chegaram a ser cogitados. No entanto, segundo um floclórico ex-presidente da nação, o povo pode muito bem deslocar-se em lombo de burro. O problema da mobilidade, portanto, deixa de existir. Era pura babaquice.

O gargalo, infelizmente, não se limita aos estádios nem aos caminhos que levam até lá. A onda de choque emitida por um evento da magnitude de um campeonato mundial de futebol influencia infinitos meandros da sociedade.

Hello 1Além da construção das «arenas» e das vias de acesso que conduzem a elas, numerosos outros setores são atingidos. A assistência médica e sanitária tem de estar preparada para atender a casos de emergência. Hospitais têm de prever chegada maciça de feridos em tumultos. O transporte, o alojamento e a alimentação de grandes grupos de visitantes tem de satisfazer à demanda. O Poder Público será obrigado a decretar dias feriados ― com a consequente baixa na produtividade anual. E mais uma miríade de respingos acaba caindo sobre a sociedade.

Entre os efeitos colaterais gerados pela concentração de multidões nos estádios, está a conexão de cada telefone individual à rede mundial. Quando 200 mil espectadores se aglutinaram no Maracanã, em junho 1950, para decepcionar-se com um Brasil x Uruguai de triste memória, esse problema não existia. Naquela época, mesmo em casa, poucos eram os detentores de uma linha telefônica. «Cérebros eletrônicos», então, eram peças de ficção.

Celular 3Hoje não é mais assim. Cada um carrega no bolso um minúsculo aparelhinho, não maior que uma carteira, capaz de proezas inimagináveis 70 anos atrás. Só que tem um porém: para funcionar, essa maquineta precisa captar o sinal de uma rede. E é aí que a porca torce o rabo. Imagine você 50 mil ou 60 mil celulares procurando conexão ao mesmo tempo, num mesmo lugar. Cada um vai querer mandar sua mensagem, curta ou longa. Pra comemorar um gol, por exemplo.

Segundo um despacho da Associated Press, repercutido pelo site da americana revista Time, o governo brasileiro e os concessionários estão de tal maneira mal preparados para a eventualidade que apagões telefônicos ou congestionamento de chamadas de emergência podem ocorrer.

Na hipótese mais benigna, conexões internet serão irritantemente lentas e chamadas telefônicas cairão com frequência. O governo brasileiro tinha-se comprometido a dotar os estádios de tecnologia 4G, mas isso ficou na promessa.

Sarcasticamente, o articulista da Time sugere ao torcedor que telefone a sua namorada antes de cada jogo. É mais garantido.

Um pensamento sobre “Nem só de grama

  1. Estes cálculos seriam mesmo essenciais. Mas, além do transporte no lombo de jegue, amplamente e descaradamente divulgado, existe o jeitinho malandro que insistem em chamar de jeitinho brasileiro: no jogo inaugural da “arena” Corinthians, fecharam a Avenida principal, o metrô só ia até uma estação antes, ou seja, quem é morador de Itaquera, estação final, teve que achar um jegue, helicóptero ou ir à pé quisesse chegar em casa.
    Essa medida que diminuiu consideravelmente o fluxo de pessoas no entorno, com certeza foi tomada a fim evitar transtornos e manchetes…
    E assim vão agindo, maqueando.
    Moro em Itaquera e posso afirmar com convicção que benefícios nenhum a região teve – a não ser as melhorias em torno da arena e para a arena.
    Quero ver um turista chegar aqui sem se estressar… agora, que ele não conte mesmo com a Internet, pois, existem outras coisas mais preocupantes…

    ARENA
    s.f. Espaço coberto de areia, no centro dos anfiteatros, onde combatiam os gladiadores. O espaço era cercado de fileiras de assentos de pedra, que se elevavam em arquibancada. A forma da arena era geralmente oval. O nome arena, que em latim significa areia, derivou da prática de espalhar areia no piso, para absorver o sangue. Havia também corredores e alojamentos subterrâneos para as feras ou para depósito de materiais. Atualmente, as arenas são usadas para touradas, concertos e outros espetáculos.
    Fig. Entrar na arena, participar de uma luta.

    Muito bom seu post José Horta, nos amplia a reflexão.

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