Morrer pela Groenlândia

Nuuk, capital da Groenlândia

José Horta Manzano

Ao pé das montanhas geladas da Groenlândia estão para ser delineados parâmetros para o convívio das nações neste 21° século. A depender do que aconteça nas próximas semanas e meses, o futuro da humanidade dará um tímido passo adiante ou regredirá dois séculos e sacramentará a vigência da lei do mais forte.

Passado o pesadelo da Segunda Guerra Mundial, a quase totalidade dos países se reuniram na recém-criada ONU para pôr ordem no tabuleiro e fixar regras que evitassem conflitos e guerras. Essas regras nem sempre foram respeitadas, mas permaneceram, por décadas, como balizas de como as coisas deveriam ser.

De lá pra cá, a integridade e a soberania nacional nem sempre foram respeitadas.

Em 1950, a China, por ordem de Mao, invadiu o Tibet que, após longo período de distúrbios, acabou anexado pelo invasor e se tornou parte integrante da República Popular.

Em 1979, foi a União Soviética a invadir o Afeganistão; Moscou só mandou retirar suas tropas depois de 9 anos de ocupação.

Os Estados Unidos, por seu lado, mantiveram a tradição de invadir ou intervir, por curtos períodos, em numerosos países; tirando a guerra do Vietnã, que durou doze anos, as outras intervenções foram mais breves, da Coreia à Líbia.

Ao ameaçar tomar posse da Groenlândia, Donald Trump eleva a novo patamar o desrespeito à soberania de países estrangeiros. A Otan, tratado de defesa mútua ligando EUA, Canadá e quase todos os países europeus, estipula que o ataque armado a um dos países signatários será considerado um ataque a todos os outros, que, por seu lado, se comprometem a defender o atacado.

O tratado não prevê a invasão de um país membro por tropas de outro país membro. Caso os EUA de Trump cumpram sua ameaça de tomar a Groenlândia pela força, não faz sentido pensar num confronto EUA x todos os demais países membros. Primeiro, por uma questão ética e segundo, porque a força militar americana é superior à de todos os signatários da Otan reunidos. Os europeus não estão dispostos a mandar sua juventude ao campo de batalha morrer pela Groenlândia.

A Dinamarca é a proprietária daquela imensidão gelada. Por mais que seja civilizada e rica, a Dinamarca é um país pequenino, do tamanho do estado do Rio de Janeiro, com 6 milhões de habitantes. Imagino que, se a proprietária da Groenlândia fosse o Reino Unido ou a França, países mais fortes que possuem a arma nuclear, Trump pensaria duas vezes antes de ameaçar tomar o território à força.

Estes dias, há muito movimento em torno do assunto. Um detalhe absurdo é de se notar: oito países da Otan estão mandando tropas para defender a Groenlândia de um ataque americano: Alemanha, Reino Unido, França, Suécia, Noruega, Finlândia, Holanda e Estônia. A Europa se defendendo de ataque militar americano! É surreal. São tropas reduzidas, de valor simbólico, mas demonstram a disposição dos europeus de não permitirem que Washington leve um pedaço de seu território.

Trump, que tem em mãos a força bruta, é imprevisível. Se ele decidir que quer porque quer levar a Groenlândia, ninguém poderá detê-lo. Se isso ocorrer, a conquista de território alheio pela força estará, daqui pra diante, autorizada.

Só nos resta apreciar a movimentação e torcer para que o pior não aconteça.

A ambulância

crédito: Infodefensa.com

José Horta Manzano

O governo ucraniano não publica estatísticas oficiais dando conta das perdas humanas em decorrência da invasão russa. Na contagem oficiosa, as vítimas se aproximam de 250 mil. E continuam aumentando ao ritmo diário de 500-1000 vidas.

No finzinho de abril, a Ucrânia solicitou que o Brasil lhe vendesse 450 unidades do veículo blindado Guarani em versão ambulância.

Numa guerra de trincheira disputada em terreno minado, como está ocorrendo no conflito ucraniano, uma ambulância comum não dá conta do recado. O governo de Kiev escolheu o Guarani por ser um veículo fortemente blindado, capaz de transportar duas macas com feridos e mais três pacientes sentados. Além disso, cabem também um médico, um enfermeiro, o comandante do veículo e o motorista. O Guarani resiste a tiros, rajadas de metralhadora, estilhaços de grosso calibre e até explosão de minas.

É importante salientar que o blindado em versão ambulância não é dotado de canhão nem do armamento que normalmente integra a versão de combate. A Ucrânia queria que os veículos viessem já pintados com as cores do país e a cruz vermelha que simboliza transporte de feridos de guerra. Era um negócio de 3,5 bilhões de reais.

No governo, o primeiro a tomar conhecimento do pedido de compra foi o ministro brasileiro da Defesa. Rapidamente foram informados também o ministro das Relações Exteriores, o assessor Amorim e o próprio Lula.

A partir daí, entrou em ação a visão distorcida de geopolítica que caracteriza o lulopetismo. Figurões do PT se puseram a dar palpite. Consideraram que as Forças Armadas brasileiras estavam muito saidinhas, tratando de fazer “política externa independente”. Com o PT, pode não. E veio o bloqueio: o governo Lula vetou o que teria sido o maior negócio de exportação da indústria bélica nacional.

O mal disfarçado apoio que o lulopetismo dá à Rússia de Putin fez mais um estrago. Em nome de uma suposta “neutralidade” no conflito, o Brasil, que podia ajudar a salvar milhares de vidas, acovardou-se. Os ucranianos não nos pediam dinheiro, nem armas, nem presença militar, nem apoio a sanções econômicas – queriam apenas ambulâncias. E estavam dispostos a pagar.

Para que conste: a Suíça, país tradicionalmente neutro desde 1815, declarou que neutralidade não rima com indiferença. Desde o início da guerra, tem ajudado a Ucrânia com remédios, equipamento médico, material de primeira necessidade para a população civil, doações de todo tipo. Esse tipo de ajuda não atenta contra a neutralidade.

Além disso, nada impede que o Brasil, caso houvesse interesse por parte dos russos, vendesse ambulâncias medicalizadas também para eles. É o tipo de negócio que não quebra a neutralidade. Não quebra na cabeça de gente normal, é claro. Quando temos, no comando das Relações Exteriores, barbudinhos empacados em mágoas e ressentimentos, a coisa muda.

Com isso, se descobre que a empatia com o sofrimento alheio, base de toda doutrina socialista, era só pra inglês ver.

E os feridos e mutilados de guerra ucranianos, nessa mixórdia, como é que ficam? Que se virem, ora.

Pontos de atrito

José Horta Manzano

Ao redor do globo, há numerosas regiões onde as populações vivem em tensão crônica. Na raiz, pode estar antagonismo religioso, étnico, linguístico, político ou histórico. Pode ainda haver uma combinação de mais de um desses fatores.

O caso mais conhecido, mais midiatizado e de maior poder explosivo é, sem sombra de dúvida, o conflito que envolve Israel e seus vizinhos. Já centenária, a tensão começou a nascer à época em que começaram a chegar, vindo principalmente da Europa, imigrantes judeus. A situação naquela região é bem mais complicada que um duelo: a soma de interesses envolvidos tece uma tela emaranhada. A solução do problema ‒ se é que um dia será encontrada ‒ não é pra já.

As tensões na Irlanda do Norte, que deram origem a ondas de atentados e de assassinatos políticos no último quartel do século XX, tinham sido acalmadas desde que Irlanda e Reino Unido passaram a integrar a União Europeia. A convivência entre católicos e protestantes, entre separatistas e unionistas, tinha se tornado habitual e sem solavancos. Isso durou até que, por um descuido da maioria silenciosa que se omitiu de votar, os eleitores britânicos deram voto favorável ao Brexit.

Os britânicos e os demais europeus tomaram um susto. Mas não havia nada a fazer, que o povo havia votado. Desde então, as negociações pra fixar os termos do divórcio têm sido duras, complicadas. Afinal, um casamento de 45 anos não se desmancha assim, sem mais nem menos. Não basta cada um levar sua escova de dentes. Há uma infinidade de pontos a discutir.

O problema mais espinhoso, todo o mundo já sabia desde o começo das negociações, é a questão da fronteira entre as duas Irlandas, a do Norte e a independente. É outro exemplo de atrito regional insolúvel. A solução, seja ela qual for, pode até agradar a um lado mas certamente vai desagradar ao outro.

O único jeito de pacificar a região seria o povo britânico voltar atrás e renunciar ao Brexit. Mas, a depender de Theresa May, nem pensar. Portanto, as brasas estão sendo atiçadas na Irlanda do Norte. É só questão de tempo pra irromperem as labaredas.

Brexit ‒ 8

José Horta Manzano

A Irlanda do Norte é um caso muito sério. É um país, pero no mucho. São seis pequenos condados que, agrupados, formam hoje «nação constitutiva» do Reino Unido. Congregando, grosso modo em partes iguais, cidadãos protestantes e cidadãos católicos, a região sempre foi um barril de pólvora pronto a explodir à primeira faísca.

O país vive fragmentado entre as duas comunidades. Por um lado, os católicos não se oporiam à ideia de a província passar a fazer parte da República da Irlanda. Por outro, os protestantes, temendo tornar-se minoria desprezível, aferram-se à coroa britânica e preferem continuar firme como súditos da rainha Elisabeth II.

Desde sempre, as práticas religiosas falaram mais alto que a língua, a história e a cultura comuns. A contar dos anos 1970, emboscadas e atentados tingiram de sangue o quotidiano. A região entrou em convulsão e caiu num círculo vicioso: a violência atiçava o ódio, que nutria a violência. Era impossível antever o fim das hostilidades. Permanecendo as causas, é natural que o efeito permanecesse.

A entrada conjunta na União Europeia da República da Irlanda e do Reino Unido (incluindo a Irlanda do Norte) foi passo importante para a pacificação da região. De repente, Grã-Bretanha, Irlanda e Irlanda do Norte integravam uma entidade maior, supranacional. A ficha até que demorou a cair, mas lá pelo fim do século XX, cansados de guerra, católicos e protestantes norte-irlandeses chegaram a uma trégua que já ninguém ousava esperar. Embora a desconfiança mútua perdure, já faz duas décadas que parecem ter aprendido a conviver.

Eis senão quando… uma infeliz decisão britânica vem perturbar a paz da região. Refiro-me ao plebiscito que deu origem ao Brexit ‒ a saída do Reino Unido da União Europeia. Para a Irlanda do Norte, é terrível desastre. Quarenta anos de união aduaneira haviam apagado a noção de fronteira entre a República da Irlanda e a Irlanda do Norte. As gentes e as mercadorias passavam de um lado para o outro sem pedir licença. Até os postos de fronteira haviam desaparecido.

Depois do Brexit, as duas Irlandas vão voltar ao statu quo ante bellum, ou seja, à situação em que se encontravam antes da adesão à UE. Voltam a ser países separados. Dado que uma das Irlandas permanece na UE enquanto a outra vai embora, a fronteira entre elas torna-se fronteira exterior da Europa. Uma tragédia!

O potencial explosivo da nova situação é tão forte que está emperrando o acordo de divórcio entre o Reino Unido e a UE. Irlandeses ‒ do norte e do sul ‒ gostariam que a fronteira continuasse como está: invisível, permeável, aberta e amiga. Mas a União Europeia não pode admitir que sua fronteira externa, ainda que seja num curto trecho, esteja desguarnecida.

O dilema é cabeludo. Ninguém sabe qual será a solução. Seja ela qual for, descontentará uma das partes e deixará sequelas.

O fator humano ‒ 3

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Preocupado com as constantes quebras e alto custo de manutenção, o síndico apresentou em assembleia um projeto de reforma dos elevadores do condomínio. Fascinado por tecnologia, ele propôs que a reforma não se limitasse à troca de cabos e reforço da estrutura das cabines, mas que se adotasse um sistema computadorizado de acionamento, definido pelo fabricante como “elevador inteligente”.

Através desse sistema, o elevador mais próximo do piso em que o usuário está é enviado, independentemente de qual dos elevadores seja acionado primeiro. Com isso, afirmava o síndico, empolgado, seria possível não só economizar na conta de energia elétrica, mas também diminuir o tempo de espera. Isso sem contar o benefício de evitar que crianças e adolescentes ‘engraçadinhos’ brincassem de acionar os botões de todos os andares, como costumava acontecer. Até mesmo os condôminos mais renitentes deixaram-se sensibilizar e a proposta foi aprovada por vasta maioria.

Não se passaram nem quinze dias desde a implementação para surgirem os primeiros conflitos. Acostumados com antigos privilégios, alguns moradores passaram a se ressentir com a presença de empregados domésticos e de funcionários do condomínio no elevador social. No entanto, como não dependia mais da vontade destes usar este ou aquele elevador ‒ e a discriminação é vetada por força de lei ‒, perceberam que não havia o que fazer a não ser engolir o próprio desconforto.

Por outro lado, a insatisfação ganhou ares de rebelião incontrolável quando moradores se viram forçados a conviver com cães dentro do elevador. Marcou-se, então, uma nova assembleia para decidir como contornar o problema. Argumentos irados pipocavam de ambos os lados: os donos de cães alegando que era legítimo usufruir dos mesmos benefícios que os demais condôminos e estes protestando contra os “riscos” a que estavam expostos. Se você pensou que o único risco apontado era o de ser mordido ou lambido, enganou-se. Senhoras da fina flor da classe média paulistana chegaram a argumentar, angustiadas, que se sentiam expostas a riscos mais prosaicos, como o de terem suas roupas de festa contaminadas com “cheiro de cachorro” ou ainda a “má impressão” que visitantes mais bem posicionados financeiramente poderiam ter ao se depararem com um cachorro no elevador social.

Depois de horas de discussão acalorada, o próprio síndico acabou apresentando a contragosto uma solução conciliatória: o dono do cão deveria entrar no elevador, apertar o botão do último andar, sair e chamar o outro, de serviço. Mesmo sabedor de que a estratégia acarretaria aumento na conta de energia – o principal benefício alegado e aprovado para a implantação do sistema – ele a apresentou como saída temporária até que, como disse, encontrasse outra forma de tornar o elevador “menos inteligente”.

Teve início, então, a “revolta dos pet lovers”. Capitaneada por esta que vos fala, admito, a rebelião mirou a parte mais sensível do corpo dos condôminos cinofóbicos: o bolso. Ameaçamos depositar o valor mensal do condomínio em juízo até que a causa fosse julgada em definitivo, uma vez que a convenção do condomínio previa que o condômino que provocasse aumento de custos gerais deveria arcar com contribuição mensal maior. Foi o que bastou. Em poucos minutos, começaram a pipocar novas sugestões de como lidar com o conflito de interesses.

A solução vencedora revelou-se um primor de sensatez, uma obviedade tão explícita que ninguém ousou refutar: negociação caso a caso. Ou seja, sempre que, ao entrar no elevador, o dono de um cão encontrasse um morador já em seu interior, deveria perguntar se ele aceitava compartilhar o espaço com um cachorro. Caso recusasse, bastaria fechar a porta e aguardar pela chegada do seguinte.

Até hoje, passados já alguns anos, nunca mais se teve notícia de incidentes ou reclamações.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Bons de briga

José Horta Manzano

Tem gente que é de briga. Falo daqueles que já entram batendo pra só depois perguntar o que está acontecendo. São personalidades que não aparecem só no cinema: a vida real está recheada de gente assim, que gosta de um pega.

Giuseppe Garibaldi

Giuseppe Garibaldi

Muitos deles ‒ a maior parte, quero crer ‒ se contenta com descarregar a agressividade física num esporte qualquer. Se for esporte de combate, melhor ainda. Está aí um traço comum entre boxeadores, praticantes de luta-livre e de outras modalidades baseadas no enfrentamento corporal.

Há os que, sabe-se lá por que razão, não chegam a canalizar numa atividade esportiva o excesso de energia que carregam por dentro. Acabam por transformar-se no chefe tirânico, no marido brutal, no profissional descontrolado. São um estorvo para quem lhes cruza o caminho.

Há, enfim, os que vão até o fim e, desdenhando lutas de mentirinha, resolvem o problema ao pé da letra: tornam-se combatentes de verdade. Viram brigadores profissionais. Alguns chegam a ficar na História. É o caso de Giuseppe Garibaldi (1807-1882).

guerra-1No tempo em que professor ensinava e aluno aprendia, contava-se a história do aventureiro que ficou conhecido como «herói dos dois mundos». Nascido em Nice, numa época em que a cidade ia dormir italiana e acordava francesa ‒ e vice-versa ‒, Garibaldi era combatente de nascença. Na Itália, deixou imagem célebre. Patriota e general, teve vida movimentada. Não rejeitava pegar em armas, o que o levou a participar de numerosos embates militares.

Em meados dos anos 1830, desembarcou no Brasil. Atraído irresistivelmente por revoluções e batalhas, tomou parte ativa na Guerra dos Farrapos, ocasião em que conheceu Ana Maria de Jesus Ribeiro, brasileira descendente de açorianos, então com 18 aninhos. É aquela que, mais tarde, ficou conhecida como Anita Garibaldi (1821-1849). Os dois tornaram-se inseparáveis companheiros de armas. Quando Giuseppe retornou à Itália, Anita o acompanhou. Para nunca mais voltar.

Rafael Lusvarghi

Rafael Lusvarghi

Dia destes, fiquei sabendo da história de um paulista de nome Rafael Lusvarghi, digno sucessor de Garibaldi. Muito jovem, já abraçou a vida militar ao engajar-se na Legião Estrangeira Francesa. Mais tarde, de volta ao Brasil, integrou a Polícia Militar por algum tempo. Quando espocou o conflito no leste da Ucrânia ‒ aquela região que luta pela independência ‒ Lusvarghi não hesitou: juntou-se aos separatistas.

Depois de muito lutar, o jovem está meio desiludido com o andamento daquela guerra, que não ata nem desata. Anda pensando em voltar ao Brasil, nem que seja por algum tempo. Talvez volte mesmo, mas é capaz de nem se estabelecer na pátria. Quem nasceu com espírito guerreiro não consegue sossegar nem ficar parado muito tempo. Em entrevista ao portal História Militar, Rafael Lusvarghi conta algumas de suas peripécias.

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Quem quiser saber mais pode clicar aqui.

Vem guerra por aí?

José Horta Manzano

Alianças militares e acordos de socorro mútuo em caso de ataque externo são velhos como o mundo. A formação do Brasil serve de exemplo: alianças militares entre portugueses e habitantes primitivos da Terra de Santa Cruz garantiram aos lusos a posse integral do território. De fato, ingleses, holandeses, espanhóis e franceses bem que tentaram, em diversas ocasiões, fundar estabelecimentos permanentes nas novas terras. Portugueses ‒ aliados a guerreiros indígenas ‒ deram cabo do que consideravam ‘invasão’ das terras que lhes haviam sido concedidas por bula papal. A colaboração militar foi determinante para botar os estrangeiros a correr.

Não fossem alianças militares em vigor em 1939, a Segunda Guerra poderia ter tido um desenrolar e um desfecho bem diferentes. Quando a Polônia foi invadida pelas tropas nazistas, França e Reino Unido viram-se obrigados a declarar guerra à Alemanha, em virtude dos acordos que haviam assinado com o Estado polonês. Foi o estopim da hecatombe.

Venezuela: fronteiras internacionalmente reconhecidas

Venezuela: fronteiras internacionalmente reconhecidas

Desde os primeiros séculos da colonização da América do Sul, houve disputa de fronteira entre Espanha e Reino Unido na região equatorial. Desde o século XVII, diversos acordos e tratados foram assinados e, em seguida, renegados. Em consequência da independência das colônias, iniciada no início do século 18, surgiu uma dúzia de países. Desinteressadas, as potências coloniais se retiraram, lavaram as mãos e deixaram os litígios para as novas nações.

Faz um século que o Brasil, com ativa participação do Barão do Rio Branco, resolveu todos os seus diferendos fronteiriços. Não é o caso de outros países sul-americanos. O contencioso equatorial hispano-britânico continua pendente. A Venezuela e a Guiana, vizinhos de parede, herdaram a pendenga.

Assim como a Argentina reclama a posse das ilhas Falkland (Malvinas), a Venezuela reivindica soberania sobre um pedaço de chão que representa mais da metade do território da vizinha Guiana. Trata-se da região do Essequibo, com superfície equivalente à do Ceará, rica em ouro, diamantes, manganês, bauxita, ferro e outros minerais.

Venezuela: em hachurado, a região contestada

Venezuela: em hachurado, a região contestada

A «Guayana Esequiba», como é chamada por Caracas, é escassamente povoada e praticamente inexplorada. Voltada essencialmente para a extração do petróleo, a Venezuela nunca levou a disputa territorial a ferro e a fogo. No entanto, os tempos estão mudando. Estrangulado pela gestão desastrosa e pela baixa do preço do petróleo, o governo está contra a parede, acuado por uma população cujo padrão de vida baixa a cada dia.

Na hora do aperto, nada como um inimigo externo para unir a população e desviar a atenção do problema maior. Costuma ser tiro e queda. Pela enésima vez, o governo venezuelano pôs na ordem do dia a questão do Essequibo. Para mostrar os músculos, anda aumentando o contingente de homens armados junto à fronteira. Faz também voos «de reconhecimento» com modernos caças russos, comprados no tempo de señor Chávez.

A tensão tem aumentado e começa a incomodar Brasília. Em 2009, Brasil e Guiana firmaram um acordo sobre cooperação em matéria de defesa. Embora não caracterize aliança militar nem tenha a força de um tratado, tem dado dor de cabeça à alta cúpula militar brasileira.

Venezuela: alguns mapas incorporam, sem cerimônia, o Essequibo

Venezuela: alguns mapas patrióticos incorporam, sem cerimônia, o Essequibo

Señor Maduro não é flor que se cheire. Caso decida seguir os passos dos ditadores argentinos ‒ que tentaram retomar manu militari as ilhas Falkland em 1982 ‒ encasquete de atacar a Guiana, como deve reagir o Brasil? Nada fazer equivaleria a ignorar compromisso assumido, atitude vergonhosa e desonrosa. Para defender a Guiana, restaria a via militar.

Nossa prioridade é a reconstrução de nosso país, destruído por anos de rapina e incompetência gerencial. Não sobra lugar para uma guerra sem sentido. Antes que o pior aconteça, cabe ao Itamaraty agir rápido. Mais vale intervir como mediador do que como combatente.

Frase do dia — 307

«Chegamos a um ponto em que já despontou um germe de conflito entre Poderes, a classe política está desmoralizada e de todos os lados se tenta enfraquecer o governo. Mas poucos ignoram que, se o atual governo não chegar a dezembro de 2018, será porque foi dado o passo que faltava para o colapso final.»

José Augusto Guilhon Albuquerque, cientista político, em artigo do Estadão, 13 jul° 2016.

Os dois tabus

José Horta Manzano

Artigo publicado pelo Correio Braziliense em 4 jan° 2014

Desde que o mundo é mundo, a humanidade cultiva dois temas sensíveis: raça e religião. Lidar com eles requer prudência e tacto. Evitar acidentes é dever de todos.

Embora a razão de ser de toda religião seja a crença na continuação da vida após a morte física, a diversidade de ritos, dogmas, preceitos, obrigações, proibições é notável. Cada credo tem seu catálogo de regras. O assunto, delicado, é daqueles que se hão de tratar com luvas e pinça. Muita guerra já se travou e muita gente já morreu por divergências religiosas.

O Brasil teve sorte. As práticas animistas dos habitantes originários e o aporte de tradições africanas atenuaram a rigidez e o dogmatismo de colonizadores e de imigrantes. Embora nem sempre nos apercebamos disso, é de reconhecer que não padecemos de conflitos religiosos. Vão longe os tempos da Controvérsia de Valladolid, da Inquisição e das conversões forçadas. O afluxo de gente de vários quadrantes incutiu tolerância à índole nacional.

Visto assim do alto, esse traço de nosso caráter pode até parecer banal. Pois não é. Há pontos no globo onde ainda se luta por divergências de fé. Como prova, estão aí a Irlanda do Norte, o Egito, o Sudão, o Tibete. Até na Europa Ocidental, fricções de ordem religiosa obrigam parlamentos a legislar sobre vestimenta feminina ― o porte da burca ou do véu islâmico, por exemplo. Em nossas terras, a sunga e o fio dental já cuidaram de banir esses rigores. Nosso problema está resolvido.

Stop racismo! Crédito: harrycutting.com

Stop racismo!
Crédito: harrycutting.com

O racismo, outro tema sensível, planta raízes nos estratos mais primitivos do subconsciente. É a manifestação da desconfiança que dedicamos aos que não pertencem a nosso clã. Na prática, esse sentimento se exprime através da repulsa aos que têm cor de pele diferente da nossa, que não falam nossa língua, que não se comportam como nós. Em resumo: rejeitamos o que foge à norma.

Países onde coexistem etnias diferentes costumam ser palco de fricções. Um nada pode provocar conflitos. Essa intolerância está na raiz de atritos crônicos na Palestina, na Síria, no Iraque, na Índia, na Rússia. Na mesma linha, rebeliões nas periferias francesas e surtos de violência nos EUA nos lembram que a paz racial está longe de ser conquista planetária.

Múltiplos fatores forjaram o Brasil. Temos qualidades de fazer inveja: clima agradável, gente afável, ambiente tolerante, povo acolhedor. Mas arrastamos problemas pesados: corrupção, paternalismo, baixa instrução crônica, gritantes disparidades econômicas.

«Deus é brasileiro», dizemos às vezes. Pois olhe, ainda que não passe de um dito jocoso, o fato é que, até hoje, conseguimos escapar da armadilha dos dois grandes tabus. Costumamos encarar com bonomia a diversidade religiosa de nosso povo. Tem até gente que professa duas religiões! A fé ― ou a descrença ― de cada um não constitui obstáculo à convivência. Na esfera racial, a intensa miscigenação do povo brasileiro é a prova maior de que a tolerância e a flexibilidade são a regra, não a exceção. E é melhor assim.

Sabe-se lá por que, de uns anos para cá, o ideal de igualdade e de unidade que alicerça nossa sociedade vem sendo artificialmente solapado. O elenco de normas oficiais passou a dispensar tratamento diferente a determinadas categorias de cidadãos segundo critérios raciais. Cotas e quilombos ― noções inexistentes até há pouco tempo ― entraram na pauta da modernidade brasileira.

A intenção, apesar de leviana, foi nobre. Já o resultado, a médio prazo, pode escorregar para uma ladeira perigosa e não prevista. «Discriminação positiva» é conceito ambíguo: positiva ou negativa, discriminação será sempre discriminação. Para subir de um lado, a gangorra tem de descer do outro. A cada vez que um grupo de cidadãos for privilegiado, a lógica elementar ensina que outro grupo será obrigatoriamente defraudado.

Stop racismo!

Stop racismo!

Políticas desse jaez trafegam na contramão do processo civilizatório ― são danosas para a consolidação de um sentimento de unidade nacional. Pelo contrário, podem atiçar melindres raciais, semear ressentimentos e abalar a concórdia que costumava reinar entre nós.

Se o nível de instrução pública é baixo, que se faça o necessário para elevá-lo. Dar como favas contadas que alguns são menos instruídos que outros unicamente por terem cor de pele diferente é generalização barata, uma falácia, uma ofensa. Estamos cutucando a onça com vara curta. Cuidado, ela pode se enervar!

Que a aragem leve do novo ano sopre sabedoria a nosso legislador. Mais vale recuar enquanto é tempo. Feliz ano-novo a todos!