Confinamento na França

França: coletiva de imprensa do primeiro-ministro

José Horta Manzano

Como todo governo responsável, também o francês está atento à curva de progressão da pandemia, que continua dando sinais inquietantes apesar do avanço da vacinação.

O primeiro-ministro fez ontem pronunciamento solene. Lembrou que o país se aproxima da terrível marca de 100 mil mortos. Tendo em vista a chegada do que parece ser uma terceira onda de contaminações por covid, novo confinamento será aplicado à população de extensas regiões do país a partir desta sexta-feira, por quatro semanas. O território confinado inclui a capital e engloba um total de 21 milhões de habitantes, o que equivale a 1/3 da população do país.

Confinamento
As escolas permanecerão abertas. O comércio terá de baixar as portas, com exceção dos que vendem remédios e gêneros alimentícios. Lojas de música e de livros estão liberadas. Será permitido sair à rua e se deslocar até uma distância de 10km da residência, desde que cada um leve consigo um autoatestado com data e assinatura.

Toque de recolher
O horário do toque de recolher que já vigora atualmente no país inteiro será alterado. Com a chegada da hora de verão, que entrará em vigor dia 28 de março, os cidadãos terão uma horinha a mais de liberdade. Em vez de 18h, todo o mundo terá que estar bonitinho em casa a partir das 19h. O toque de recolher tem se mostrado radical para evitar aglomerações.

Em sua fala, o primeiro-ministro incentivou o teletrabalho. Exortou todas as empresas a aplicar, sempre que possível, esse sistema. Para terminar, tranquilizou a população ao informar que as autoridades sanitárias liberaram a vacina Astra-Zeneca, por considerar que não há prova científica de que os efeitos secundários assinalados possam ser imputados a ela.

Enquanto isso…
Quando vejo que, um ano depois das primeiras mortes, a pandemia ainda continua se expandindo até em países que se conscientizaram desde o início, fico ainda mais preocupado com o Brasil. O que acontece hoje na França, na Itália, em Portugal e em tantos outros países periga se repetir, com mais força ainda, num Brasil em que o governo central foi incapaz de dar diretivas e tomar as rédeas do combate ao vírus.

Os galegos

José Horta Manzano

A contagem dos imigrantes que se estabeleceram no Brasil indica que os originários da Espanha formaram o terceiro contingente mais numeroso, atrás de italianos e portugueses. No entanto, sobrenomes de outras comunidades parecem ser muito mais difundidos que os espanhóis.

Há de ser só uma impressão decorrente da grande semelhança entre nomes portugueses e espanhóis e de imprecisões de grafia. De fato, muitos Fernandes, Gomes e Rodrigues – que a gente toma por lusitanos – são, na origem, Fernández, Gómez e Rodríguez, espanhóis da gema mal transcritos.

Na esfera pública, é ainda menos comum ver um descendente de espanhóis suceder a outro. Aconteceu estes dias um caso que está dando que falar.

É do conhecimento de todos que Bolsonaro trocou o antigo e folclórico ministro da Saúde por um novo, que ninguém sabe ainda que pito vai tocar, nem como vai se equilibrar para continuar merecendo o respeito que se deve a um médico e ao mesmo tempo escapar do desprezo que a gente sente pelo negacionismo. Dizem que o recém-chegado é admirador do presidente, o que não é propriamente o que se possa considerar excelente cartão de visitas.

Mas vamos aos nomes, aparentemente ambos galegos.

Pazuello (o que sai)
Já me detive sobre o sobrenome do ministro que se vai. Mas não custa contar de novo.

Pazuello é sobrenome de evidente origem ibérica. A raiz latina palatium (=palácio) deu, em castelhano, palacio. Na língua galega, falada nas províncias do noroeste da Espanha, palatium evoluiu para pazo, que equivale a nosso paço. Designa um solar, uma casa suntuosa.

Pazuello seria, pois, o diminutivo de pazo = um pequeno solar, um palacete. O nome é curiosamente de formação híbrida. Embora o núcleo seja galego (pazo), o sufixo uello é castelhano legítimo. Em galego, diminutivos se constroem com o sufixo iño, que corresponde a nosso inho. Portanto, seria de esperar um Paziño (Pazo + iño).

Híbrido ou não, neste ponto, surge um problema. O sobrenome é raríssimo. Tão raro que, vasculhando a lista telefônica da Espanha inteira, não se encontra ninguém que o ostente.

No entanto, ele aparece no Dicionário Sefaradi de Sobrenomes, obra compilada por Paulo V. Faiguenboim & alia, ao lado de variantes tais como Pazuelo (com um L só) e Pazuelos (com S no final).

Sefardis são os judeus espanhóis. Eles foram expulsos do país em 1492 pelos reis católicos, o que explica o desaparecimento do nome na Espanha. É concebível que o general seja descendente de uma dessas famílias forçadas ao exílio quinhentos anos atrás.

Rio Quiroga, província de Lugo (Galiza, Espanha)

Queiroga (o que chega)
O sobrenome Queiroga é variante do tronco principal Quiroga. É um topônimo, ou seja, um nome geográfico. Na realidade, é o nome de um riacho afluente de um riozinho chamado Sil que, por sua vez, deságua no caudaloso Rio Minho – que marca a fronteira entre Espanha e Portugal. O Vale do Quiroga fica na região da Galícia, situada no nordeste da Espanha. Quiroga é também o nome de um vilarejo à beira do rio.

É bem provável que, cerca de 700 anos atrás, longínquos antepassados de nosso ministro tenham um dia deixado a aldeia de Quiroga para se estabelecer noutro vilarejo nas cercanias. Era um tempo em que ninguém tinha ainda sobrenome. A família acabou ficando conhecida como «os [que vêm] de Quiroga», denominação que, com o tempo, foi abreviada.

Quirogas, na Espanha de hoje, há numerosos. No entanto, na lista telefônica, só encontrei uma pessoa que tem por sobrenome a variante Queiroga. É sinal de que não são multidão.

A ministra que não foi

Santa Ludmila

José Horta Manzano

A doutora que recusou o convite de Bolsonaro (não sem antes ter se deslocado a Brasília para ser sabatinada, note-se) grafa seu prenome Ludhmila. É uma das numerosas maneiras de escrever esse nome.

Ludmila é a forma mais comum. De origem eslava, o nome é bastante difundido na Rússia e na República Tcheca. Ocorre também nos demais países eslavos e, de certa maneira, no resto do mundo.

É composto de duas raízes: liud (povo, gente) + mila (graça, bondade). Não há que buscar um ‘significado’ na junção dessas duas raízes. Como os germânicos, os eslavos simplesmente associam, ao compor os nomes próprios, duas ideias agradáveis ou positivas.

Santa Ludmila foi uma princesa da Boêmia (uma das regiões da Tchéquia atual). Morreu assassinada faz exatamente 1100 anos, em 921, por volta do dia 15 de setembro. Embora seu assassinato tenha decorrido de intrigas palacianas e não se tenha dado exatamente por motivos de fé, foi canonizada pouco depois da morte e é considerada mártir da Igreja. A hagiografia católica fixou sua festa em 16 de setembro.

Seu nome tem numerosas variantes de grafia: Ludmilla (em alemão), L’udmila (em eslovaco), Ludzimiła ou Ludomiła (em polonês). Nas línguas que usam caracteres cirílicos, como o russo e o búlgaro, escreve-se Людмила (Liudmila).

Não resisto a uma observação mordaz. Os componentes do nome Ludmila (povo + bondade) definitivamente não combinam com o estilo bolsonárico. A parceria entre a doutora e o presidente não tinha como dar certo.

Quem não gosta de samba

José Horta Manzano

No quesito harmonia, o Bando da Lua foi pioneiro entre os conjuntos vocais brasileiros. Constituído já na primeira metade dos anos 1930, foi na virada para a década seguinte que, na trilha do triunfo internacional de Carmen Miranda, subiu à notoriedade. É que, convidados a acompanhar a ‘Pequena Notável’ na nova carreira, os rapazes permaneceram anos nos EUA, onde trabalharam em espetáculos e em quase dez filmes ao lado da estrela.

Entre outros sucessos, gravaram em 1940 Samba da minha terra, composição de um então pouco conhecido Dorival Caymmi, jovem de 26 anos. Nem Caymmi nem o Bando da Lua poderiam imaginar que, 80 anos mais tarde, gravado e regravado por uma coleção de artistas, o samba ainda estaria no ouvido de todos.

Quem não gosta de samba
Bom sujeito não é
É ruim da cabeça
Ou doente do pé

Quem é que não conhece?

O estribilho vale como metáfora permanente. Me lembrei dele hoje de manhã. É que, ao abrir o jornal, me dou conta de que, nas altas esferas da República, o desfile de insanidades continua.

O doutor que nos governa acaba de contratar seu quarto ministro da Saúde. É o homem que, no papel, deve cuidar da saúde dos brasileiros e conduzir o país a bom porto nesta pandemia. No papel, disse eu. Vamos ver se, na prática, a teoria é a mesma. É permitido ficar com um pé atrás.

A esta altura do campeonato, em que a forte perturbação que acomete a mente do presidente é conhecida de todos, o que é que levaria essa gente fina a aceitar um posto no governo do capitão?

  • A atração do vil metal
    tipo ‘agora vou abrir conta na Suíça’?
  • A vaidade irresistível
    tipo ‘vejam até onde cheguei’?
  • Um irrefreável masoquismo
    tipo ‘adoro ser humilhado em público’?
  • A necessidade de fugir da justiça
    tipo ‘devo, não nego, mas se me cobrarem, tenho foro privilegiado’?
  • Convicção sincera de que o presidente está com a razão
    tipo ‘ele é meu ídolo, portanto está sempre certo’?
  • A ingenuidade absoluta
    tipo ‘dãããã’?

Alguma razão haverá. O mistério parece insondável. No entanto, a solução é às vezes tão evidente, que ninguém vê. A resposta, de tão simples, parece estar na cara. Não precisa buscar nos escritos de Freud. Basta reler a metáfora de Caymmi e adaptá-la ao nosso tempo. Assim.

Quem aceita convite de Bolsonaro
Bom sujeito não é
É ruim da cabeça
Ou doente do pé.

Eles lá e nós aqui

José Horta Manzano

As variantes britânica, sul-africana e brasileira do coronavírus estão fazendo estrago feio na Europa. A Itália é bom exemplo do fenômeno. Em março-abril de 2020, sofreram a primeira investida da epidemia. Foi aquele caos que assustou o mundo, período em que caixões eram transportados em caminhões do Exército, de madrugada, que era pra não aterrorizar a população. (Ficou ainda mais sinistro.)

O confinamento (que também responde pelo charmoso nome estrangeiro de lockdown) durou mais de dois meses durante os quais todos tiveram de ficar trancados em casa. Lá pelo fim de maio, a doença deu uma trégua, veio o desconfinamento e todos pensaram que o pior tinha passado. Ilusão.

Com o verão, vieram as férias e, com elas, os ajuntamentos, os beijos e os abraços. Não deu outra: no mês de outubro, o bichinho mostrou que não morre tão fácil assim. Voltou com força. As autoridades hesitaram em reconfinar a população. O vírus aplaudiu de pé. A partir daí, a curva de contaminações oscilou, numa gangorra angustiante, hoje sobe, amanhã desce, depois sobe de novo.

As medidas de proteção – desinfecção das mãos, distanciação social, máscara de proteção – ajudaram. E assim foi indo, até que passou o Natal e o novo ano trouxe a vacina. Todos imaginaram que estava aparecendo a luz no fim do túnel. O que ninguém previu foi que a vacinação seria tão lenta e que surgiriam variantes bem mais contagiosas da doença.

Nestas últimas semanas, a contaminação tem se alastrado em alta velocidade. As UTIs estão de novo lotadas. Pacientes em estado grave estão sendo transferidos para outras regiões do país. Que fazer?

Depois de hesitar, não houve jeito. Aconselhado pelas autoridades sanitárias, o governo italiano decretou novo confinamento, válido para o país inteiro com exceção da Sardenha (que é uma ilha). As regras são as mesmas que no ano passado: liberdade de ir e vir fortemente entravada, comércio fechado, proibição de todo deslocamento que não seja por motivo de trabalho ou de saúde.

O período de penitência começa nesta segunda-feira 15 de março e vai até a Páscoa. É como se a população inteira tivesse de usar tornozeleira eletrônica – sem direito a habeas corpus.

Enquanto isso, numa terra chamada Brasil, continuamos a brincar com fogo. Atiçados por um presidente que é vítima de manifesta perturbação mental, cidadãos se apinham em praça pública para exigir abertura do comércio. Agem como se fosse possível espantar o vírus no grito. Vestem verde-amarelo como se isso lhes conferisse legitimidade. “Brasileiros somos nós; o resto são comunistas!”, parecem querer dizer.

Sinto tristeza ao assistir a esse tipo de espetáculo. Me dá muita pena ver que, em pleno século 21, ainda se encontra gente que acredita num salvador da pátria. Tanto esses que agora se esgoelam por Bolsonaro quanto aqueles que antes se engalfinhavam por Lula ou por Dilma são apóstolos de seitas que não combinam com nosso tempo. Essa gente devota, que engole tudo o que seu mestre mandar, mostra falta de discernimento, incapacidade de pensar com a própria cabeça e de captar a realidade.

Uma lástima. Graças a eles, continuamos firmes em nossa trilha para transformar o país no foco mundial de irradiação da covid. O distinto aceita um comprimido de cloroquina?

Nas asas da Panair

José Horta Manzano

Estava revendo velhas fotografias da Seleção Brasileira de Futebol, que foi à Suécia em 1958 e trouxe a Taça do Mundo – um frisson, por ser a primeira vez.

1958: a Seleção vitoriosa de volta da Suécia

Reparei que, na volta, a delegação desembarcou de um avião da Panair do Brasil. Imaginei que tivessem viajado com aquela companhia somente no último trecho. É engano, como veremos a seguir.

Para os mais jovens, pode parecer natural que as aéreas brasileiras só pousem em meia dúzia de destinos da Europa e dos EUA. Pois saibam que, no passado, não era assim. A Panair do Brasil primeiro, seguida pela Varig e até pela Vasp, Transbrasil e Cruzeiro, eram ambiciosas.

Já nos anos 1940, a Panair mantinha voos regulares não só para os EUA e os tradicionais aeroportos europeus (Portugal, Espanha, Reino Unido, Alemanha, Suíça, Itália), como também para o Líbano, o Egito e a Turquia. No final dos anos 1960, a Varig abriu a rota Brasil-Japão, uma façanha.

De lá pra cá, a coisa só fez decair. Uma a uma, as empresas tradicionais foram desaparecendo. Os sucessivos governos não se deram conta de que uma companhia aérea é excelente cartão de visitas. Passa a ideia de país civilizado, poderoso, independente.

Não me considero estatizante. No entanto, nos momentos de crise, acho que é obrigação do Estado abrir o cofre para salvar as joias da coroa. Não conheço a história de cada uma delas, mas tenho a impressão de que, quando precisaram, as empresas aéreas brasileiras não receberam a ajuda que lhes fazia falta.

O resultado é que um país do tamanho do nosso tornou-se anão no campo das empresas aéreas. Os número de destinos internacionais servidos hoje pelas três ou quatro empresas brasileiras não rivaliza com a situação de 60 anos atrás. Isso é nada quando comparado ao mapa de rotas das grandes empresas mundiais.

Estas últimas semanas, até vacinas importadas foram transportadas por aviões de companhias estrangeiras. Ninguém prestou muita atenção. Quanto a mim, fiquei constrangido.

Façam as contas comigo

José Horta Manzano

by Kleber Sales/Estadão

Bolsonaro
Quantos apoiadores firmes terá Bolsonaro? Esqueçam aqueles que as pesquisas mostram como “satisfeitos” com o governo – a satisfação é temporária, e durará o tempo que durarem os trocados emergenciais. Esses não contam; são apoiadores de passagem. Quero saber quantos são os devotos, os incondicionais, aqueles que votarão no capitão sejam quem forem os adversários. Serão 20% do eleitorado? Admitamos que sejam 25%, e já estou sendo camarada.

Lula
Quantos apoiadores firmes terá o Lula? Esqueçam aqueles que só olham para nosso guia com certa simpatia porque acham que ele é infinitamente menos nocivo que Bolsonaro. Esses não contam; estão apenas querendo se livrar do capitão, eis por que aceitariam até o Lula. Quero saber quantos são os fãs de carteirinha, os incondicionais, aqueles que votarão no ex-metalúrgico sejam quem forem os adversários. Serão 20% do eleitorado? Admitamos que cheguem a 30%, não mais.

E daí
Adicionando as estimativas mais otimistas, temos os 25% de Bolsonaro mais os 30% de Lula = dá 55%. E o resto? Pra fechar o cálculo, falta contar os 45% de eleitores que não são devotos de nenhum dos candidatos populistas. Em quem vão votar?

Quem souber entrar nesse vácuo, não tiver rabo preso demais e convencer o eleitor de que é o melhor antídoto contra o bolsopetismo(*) tem boas chances de ficar com a bolada.

O chato é que a vaidade e a cobiça vão levar muitos a tentar a sorte. Assim sendo, a proliferação de candidatos periga pôr tudo a perder. Os postulantes se neutralizarão mutuamente, numa verdadeira autofagia da terceira via. Quando o segundo turno chegar, vamos ter mesmo de escolher entre a peste e a cólera.

(*) Bolsopetismo
Neologismo que me agrada, por resumir a evidência: bolsonarismo e lulopetismo são farinha do mesmo saco. Dos dois líderes, é impossível dizer qual é o mais trapaceiro.

Utilidade pública

José Horta Manzano

Se, poucos anos atrás, alguém previsse que, mais de 500 anos depois do descobrimento e quase 200 anos depois da independência, nosso país teria de lutar para se desvencilhar dos males causados pelo próprio chefe da nação, teria sido tachado de biruta agourento. No entanto, é o que aconteceu. E é muito triste.

Diante do negacionismo oficial de Jair Bolsonaro e de seus prepostos, o povo tem de se defender como pode pra tentar evitar que o mal se aprofunde. A batalha travada pelo doutor contra o povo (e a favor da epidemia) tem sido tão intensa que está ficando difícil reverter a marcha dos acontecimentos. Talvez seja até tarde demais pra evitar o colapso nacional, mas não custa tentar.

Hospital Sírio Libanês, São Paulo

Chegamos a um ponto em que, para fazer o que tem de ser feito, convém recorrer ao conselho de quem entende do riscado. O jornal O Globo desta quinta-feira traz um artigo imperdível da jornalista Vera Magalhães. Ela transcreve a conversa que teve com dr. Paulo Chapchap, diretor executivo do Sírio Libanês, um dos três ou quatro melhores hospitais do país.

O médico relata a realidade dos doentes de covid vista como ela é, por quem passa o dia nos hospitais. Vale a pena ler o artigo. Está aqui.

Extorquir

José Horta Manzano

O verbo latino torquere deixou descendência abundante. Está na raiz de torcer, distorcer, contorcer, retorquir, torto, torso, entortar, tocha. Aparece também em derivados como torção, distorção, tortuoso, retorção (retorsão), tortilha, contorção, torta. Há outros parentes: torcedor, tortura, tortellini e até torcicolo são membros da mesma árvore genealógica.

Deixei fora da lista um filhote importante: extorquir. Nestes tempos violentos em que bandidos fazem a lei, o verbo anda muito na moda. O assaltante que, num sequestro relâmpago, obriga o infeliz cidadão a retirar dinheiro do caixa eletrônico está cometendo extorsão. O criminoso que chantageia alguém está tentando extorquir algo da vítima, geralmente dinheiro.

Manchete do jornal O Globo

A notícia diz que o chefe do tráfico da Vila Aliança foi extorquido. Nada feito. Não se extorque alguém; extorque-se algo de alguém. Para não errar, é só lembrar que extorquir é sinônimo de arrancar (por ardil ou com violência). Não se arranca uma pessoa; arrancam-se objetos dela.

A notícia informa ainda que os policiais teriam tentado extorquir dinheiro do tornozeleirado, se é que posso me exprimir assim. Se conseguiram, não sei. Se a história for verdadeira, a gente fica sem saber que é mais bandido nesse episódio. Parece que, em nossa terra, só não delinque quem não tem oportunidade.

O conceito de extorquir envolve sempre a violência, explícita ou velada. Num procedimento reprovável mas bastante comum no mundo todo, policiais costumam extorquir a confissão de um indivíduo detido. Reparem bem: extorque-se a confissão, não o indivíduo.

Embora seja corriqueiro dizer que «fulano foi extorquido», a boa língua recusa essa construção. Correto será dizer que dinheiro foi extorquido do indivíduo assaltado ou que a confissão foi extorquida por meio de pressão psicológica.

Extorquir equivale sempre a obter alguma coisa de alguém por ardil (na conversa) ou por meio violento ou ameaçador.

Pregador no nariz

José Horta Manzano

O dia 21 de abril de 2002 ficou gravado na memória dos franceses. Pelas 8h da noite, quando foi divulgada a boca de urna do primeiro turno das eleições presidenciais, a estupefação foi geral.

Em primeiro lugar, sem surpresa, apareceu Jacques Chirac, o presidente de direita que tentava a reeleição. Conseguiu 19,9% dos votos. O susto veio a seguir.

Em segundo lugar, na posição em que se imaginava ver o candidato de esquerda, classificou-se Jean-Marie Le Pen, o candidato de extrema-direita. Abocanhou quase 17% dos votos. Foi um deus nos acuda, que ninguém esperava tal resultado.

Os dois candidatos passaram ao segundo turno. Nas duas semanas que se seguiram, a campanha pegou fogo. Todos os partidos – de direita, de centro, de esquerda, sem exceção – pediram aos eleitores que votassem em Chirac a fim de impedir a eleição do candidato da extrema-direita.

Boa parte dos franceses não gostava do presidente Chirac e não queria vê-lo reeleito. Porém, ante a ameaça de ter um populista no Palácio do Eliseu, resignaram-se. Para mostrar desconforto com a ideia de reeleger o presidente, muitos garantiram que iriam votar calçando luvas. (Note-se que eram tempos pré-covid.) Outros, para deixar claro o nojo, consentiam dar o voto a Chirac, mas garantiam que entrariam na secção eleitoral com o nariz apertado por um pregador de roupa.

As autoridades eleitorais foram logo alertando para o perigo: que ninguém ousasse as luvas ou o pregador, porque seria sumariamente expulso do recinto.

Não sei se alguém ousou, mas o fato é que, no segundo turno, Chirac foi reeleito com espantosos 82,2% dos votos – um resultado soviético. Le Pen, o líder da extrema-direita, só conseguiu um ponto percentual a mais do que já tinha obtido no primeiro turno. Um vexame histórico.

Lembrei desse episódio ontem, quando o Lula deu um grande passo em direção ao recobro dos direitos políticos. Sem ser idêntico ao da França de 2002, o quadro político brasileiro guarda certa semelhança. Mas é como um teatro pelo avesso, em que o desafiante é quem surge no papel de homem providencial, único capaz de desalojar o extremista que ocupa a Presidência.

Com ou sem condenação, Lula da Silva arrasta um passivo pesado. Noves fora pendengas e querelas judiciais, nosso guia patrocinou o maior assalto ao erário que já se viu na história do Brasil. Tome-se a palavra ‘patrocinou’ como se quiser. «Tanto é ladrão o que vai à vinha como o que fica à porta» – é provérbio português que resume a situação. Tanto se pode pecar por ação como por omissão.

Com um passado desses, outros não teriam a menor probabilidade ganhar. Mas o inegável magnetismo de nosso guia não costuma falhar. Considere-se que, apesar dos pesares, seu currículo registra a façanha de ganhar quatro eleições presidenciais: duas pessoalmente e duas por procuração.

Se Bolsonaro continuar a produzir desastres daqui até lá – o que é praticamente certo –, Lula da Silva tem excelentes chances de voltar ao Planalto em 2022.

Será até bom que o STF se pronuncie desde já sobre a entrada de eleitores na secção eleitoral com um pregador a espremer-lhes as narinas. Perigam ser numerosos.

O despreparado e seu filho

José Horta Manzano

O despreparado
Dia sim, outro também, alguém diz que Bolsonaro é mau presidente por ser despreparado para ocupar o cargo. Bobagem. Despreparados, estamos todos. Só os que já exerceram a função estão preparados exercê-la de novo. Ainda não inventaram escola para presidente. A prática vem com o exercício do cargo.

O problema do capitão não é estar despreparado – é ser incapaz. Com ele, não tem jeito: não aprenderá nunca, porque é empacado. Falta-lhe o mínimo de inteligência. Deve até estar achando que é excelente presidente, visto não ter discernimento para entender que não o é. É caso perdido.

Chamada do Estadão – 8 março 2021

Seu filho
O brasileiro endinheirado já se deu conta de que comprar imóvel no país – seja pra investir ou pra morar – é uma furada. Apesar da pandemia (ou talvez por causa dela), tem aumentado a busca por imóveis no estrangeiro. Certamente por razões de afinidade cultural, a Florida (com a Disneylândia) e Portugal (com uma língua que se parece com a nossa) são os lugares mais procurados.

Nadando contra a corrente, está o senador Bolsonarinho, aquele da mansão de 6 milhões. Não gostou da ideia de ter de torcer a língua pra ‘falar gringo’. Numa boa, preferiu investir sua suada poupança no Brasil mesmo. E escolheu Brasília, a curta distância do palácio de papai.

Será excesso de confiança na impunidade ou puro alheamento da realidade? Um pouco dos dois, sem dúvida. O futuro dirá se acertou.

O sonho e o pesadello

Elio Gaspari (*)

Sonham acordados
Quando o governador João Doria anunciou que em janeiro começaria a vacinação em São Paulo, o secretário executivo do Ministério da Saúde, coronel da reserva Élcio Franco (aquele que usa brochinho de crânio atravessado por uma faca), disse o seguinte:

– Senhor João Doria, não brinque com a esperança de milhares de brasileiros, não venda sonhos que não possa cumprir, prometendo uma imunização com um produto que sequer possui registro nem autorização para uso emergencial.

No dia 17 de janeiro, foi vacinada no Hospital das Clínicas a enfermeira Mônica Calazans.

Jogo jogado
Na quinta-feira, a repórter Paula Ferreira mostrou que Franco encaminhou ao Senado uma planilha informando que neste mês o ministério distribuirá 38 milhões de vacinas.

No dia 17 de fevereiro, o general Eduardo Pazuello anunciou que entregaria 46 milhões de imunizantes. Onze dias depois, a previsão baixou para 39,1 milhões.

Em duas semanas, evaporaram-se 7,9 milhões de vacinas.

O doutor deveria entrar na sala do general Pazuello admitindo:

– Chefe, estamos brincando com a esperança de milhares de brasileiros, vendendo sonhos que não podemos cumprir.

(A conta do Ministério da Saúde inclui 8 milhões de doses de um laboratório que ainda não deu entrada ao pedido de autorização da Anvisa, mas deixa pra lá.)

(*) Elio Gaspari é jornalista. O texto é parte de artigo publicado em 7 março 2021.

Covid-19 x Gripe Espanhola

José Horta Manzano

35.000 é o número geralmente aceito de vítimas mortais que a Gripe Espanhola de 1918-1919 deixou no Brasil.

A população do país era então de 30 milhões de habitantes.

Trocado em miúdos, dá 11,6 mortes de Gripe Espanhola em cada 10 mil habitantes.

260.000 é o número atualizado de vítimas mortais deixadas no Brasil pela covid-19 segundo o consórcio de veículos de imprensa.

A população atual do país é de 213 milhões de habitantes.

Trocado em miúdos, dá 12,2 mortes de covid-19 em cada 10 mil habitantes. Até esta data.

A conclusão é que a mortandade causada pela covid já superou o estrago da pandemia de cem anos atrás. E, com ativa contribuição da gestão criminosa do governo Bolsonaro, a estatística macabra tem tudo pra continuar engordando.

Popularidade

José Horta Manzano

Semana sim, outra também, nova pesquisa de popularidade presidencial circula na praça. Olha só, a popularidade subiu! Veja, a popularidade baixou! Ih, agora parece que tem mais gente gostando dele! Nossa, se ele continuar descendo desse jeito, vão lhe cassar o mandato antes do fim do ano!

Não sou especialista em pesquisa de opinião. Assim mesmo, acredito que sondagens são o que se costuma chamar de «retrato do momento»; pelo menos, é o que garantem os pesquisadores. Os institutos são bem claros ao explicar que ‘se a eleição fosse hoje’, a tendência seria esta ou aquela. Como a eleição não é hoje, o valor dessas pesquisas é bem relativo. Em outras palavras: o que vale hoje pode não valer mais nada amanhã.

Mas o que me surpreende é outra coisa. Eu me pergunto como é que a aprovação do trabalho do presidente pode seguir num ritmo de ioiô, que hoje sobe, amanhã desce, pra depois subir de novo e baixar em seguida. Como é que pode? Será que a população é assim volúvel?

Cada um tende a medir o mundo com a própria régua. No caso de Bolsonaro ou do Lula, por exemplo, já me convenci de que são ambos gente que não presta, que não serve para cargo político; são gente que eu não gostaria, aliás, de ver em cargo público nenhum. Portanto, minha aprovação será sempre negativa e não mudará nem amanhã, nem no ano que vem, nem no dia da eleição. Nem que venham com asas nas costas, tocando lira e cantando louvas ao Senhor.

Abro um parêntese. Só votaria num deles se fosse pra evitar a eleição do outro. Exemplo: pra rejeitar Bolsonaro, votaria até no Lula. Mas isso não é oscilação de humor, é estratégia.

Curiosamente, me dou conta de que nem todos pensam assim. Ah, o ser humano é diverso! Muita gente oscila, a depender dos últimos acontecimentos. Veio o auxílio emergencial? Adoro o presidente! Não veio o auxílio? Detesto o presidente! Ele fez um discurso bonito? Adoro o homem! Falou palavrão? Destesto (ou amo) aquele sujeito!

Enfim, ainda bem que as pessoas são todas diferentes umas das outras. Se a opinião de todos fosse sempre a mesma e sempre imutável, o mundo seria bem monótono.