O king

José Horta Manzano

Uma parte dos britânicos tem o sentimento de que a monarquia, ainda que constitucional, é tradição empoeirada, que não combina com os tempos atuais. As gerações mais antigas são mais complacentes e não se sentem chocadas pelos gastos engendrados pela família real. Já os mais jovens são menos indulgentes.

Nos últimos setenta anos, toda discussão séria em torno da abolição da monarquia foi inibida pela personalidade carismática da rainha Elizabeth II. O magnetismo da monarca era tão grande que abafou toda dissensão. A maioria dos britânicos sentia orgulho de sua rainha e, colateralmente, da família real – apesar das estrepolias. (Ou talvez por causa delas.)

Esta semana, ainda estamos em período de luto. A comoção provocada pelo falecimento de Elizabeth II ainda paira no ar. O reino tem novo rei, mas, na verdade, a ficha ainda não caiu. Só a partir da semana que vem, quando a poeira baixar, é que os súditos vão pouco a pouco encarar a nova realidade.

Uma pesquisa do site britânico YouGov, feita no primeiro semestre deste ano para aferir a popularidade dos membros da família real, informa que o (agora) rei Charles III ocupava um obscuro 12° posto. Em primeiro, aparece a rainha, com 68% de popularidade. Seguem-se os filhos de Charles, as noras, a irmã (Anne), a esposa (Camilla) e até algumas sobrinhas. Charles alcançava apenas 34% de popularidade, nível muito baixo para um rei.

A emoção da perda da rainha fez que a popularidade do novo rei subisse imediatamente. Mas não há que se deixar enganar por esse movimento. O que sobe muito rápido hoje pode descer amanhã com a mesma rapidez. Bastam dois ou três escorregões do novo monarca.

Ele nem esperou passar o período de luto para começar a escorregar. Pelo menos em duas ocasiões, já mostrou diante das câmeras toda a sua arrogância e todo o seu mau humor. Comporta-se como um ser superior, que todos são obrigados a temer e a reverenciar.

Num dos episódios, no momento de assinar uns documentos, a caneta vazou. O soberano deu um piti, saiu praguejando, largou a esposa desamparada falando sozinha.

O outro vexame também ocorreu na hora de assinar papéis. (Francamente, parece que Charles tem um problema com canetas.) Incapaz de encontrar um lugar na mesinha para acomodar a bandejinha com as canetas, fez uma careta de impaciência, sacudiu a bandeja para chamar um serviçal e obrigou-o a vir correndo tirar o pequeno porta-canetas para ele conseguir assinar. Foi um acesso de arrogância explícita.

A continuar desse jeito, sua popularidade vai pro beleléu, e a aventura pode terminar mal. A Grã-Bretanha, que já teve seu Brexit, pode perfeitamente ter um Kingxit.

Se acabou

João Selva, cantor e compositor carioca

José Horta Manzano

Hoje, logo depois do almoço, estava eu tranquilamente na cozinha pondo ordem em panelas, pratos e talheres. Observe-se que deste lado do mundo, pra pagar serviçais, precisa ser abastado. O rei da Inglaterra, por exemplo, com os bilhões que já tem mais outros tantos que acaba de herdar, tem quem lhe arrume a cozinha. Eu não tenho.

O rádio estava ligado. O locutor comentava das algas que infestam os grandes lagos pré-alpinos. E continuava falando de algas comestíveis, que alguns gostam de misturar na salada. Eu ouvia sem escutar, que o assunto não era lá tão interessante. Eis senão quando, entra um intervalo musical. E a música me pareceu familiar.

O ritmo estava entre o baião e a marchinha de carnaval. Acompanhamento singelo e uma voz masculina suave. Prestei atenção na letra. Dizia:

Se acabou, fora Bolsonaro!
Se acabou, fora capitão!

Em seguida falava em galo, galinha, periquito, carcará e toda a animália que pode caber numa letra de música. A imagem era de a bicharada toda estar comemorando a despedida do capitão. E voltava o refrão:

Se acabou, fora Bolsonaro!
Se acabou, fora capitão!

Pensei: “Puxa, será que o horário de propaganda eleitoral gratuita chegou até aqui?” Logo me dei conta de que a ideia era absurda. Que tolice!

Cogitei então que os candidatos de oposição a Bolsonaro tivessem feito uma vaquinha pra inserir um anúncio pago na rádio pública suíça. Cheguei logo à conclusão de que a ideia não fazia sentido. É verdade que a colônia tem aumentado e que somos hoje dezenas de milhares de conterrâneos no país; assim mesmo, não dá um contingente em que valha a pena investir.

Em seguida, pensei em mais uma explicação para o fato de a rádio suíça estar tocando uma musiquinha anti-bolsonarista às vésperas da eleição brasileira. Certamente estão dando a contribuição que podem para abrir os olhos daqueles que ainda teimam em mantê-los fechados.

Não acredito que funcione. Ninguém consegue ensinar uma avestruz a desenterrar a cabeça. Assim mesmo, fico grato aos serviços públicos de radiodifusão do país pela boa vontade.

O autor
O locutor descreveu a musiquinha como “Sê acabú” cantada por “Joaô Sellvá”. Traduzi: Se acabou, por João Selva.

Nunca tinha ouvido falar nesse artista. Fui pesquisar e fiquei sabendo que se trata de um carioca que se casou com uma moça de Guadalupe (ilha francesa do Caribe) e se estabeleceu na França há alguns anos. Não sei se é conhecido no Brasil, mas em seu país de adoção lança discos, participa de festivais e se apresenta em programas de rádio.

Se você quiser ouvir um trechinho, está aqui no Youtube.

Imbrochável ou imbroxável?

Aldo L. Bizzocchi (*)

O coro de apoiadores de Bolsonaro que, no último Sete de Setembro, entoou o grito “imbroxável, imbroxável” suscitou, além de perplexidade em muitas pessoas, algumas dúvidas linguísticas. Primeira: essa palavra existe? Segunda: qual a sua origem? Terceira: a grafia correta é imbrochável ou imbroxável?

Primeiramente, é preciso dizer que, ao contrário do que afirmam muitos gramáticos, uma palavra existe na língua a partir do momento em que é criada e passa a ser usada socialmente. Essa nova palavra, que ainda não consta nos dicionários, é chamada de neologismo. Nesse sentido, pode-se dizer que Bolsonaro e os bolsonaristas criaram um neologismo. Se ele sobreviverá a ponto de ser dicionarizado ou se desaparecerá após algum tempo como moda passageira, só a história dirá. Muitos neologismos são assim criados como termos da moda (vide as gírias dos jovens) e, meses depois, caem em desuso. É a lei da seleção natural agindo sobre as palavras como age sobre os seres vivos. Algumas sobrevivem e até deixam descendentes (palavras derivadas, por exemplo), outras morrem e por vezes nem deixam vestígio.

Quanto à origem da palavra imbroxável, é um derivado parassintético do verbo broxar (parassíntese é um processo de derivação que consiste em prefixar e sufixar a palavra primitiva ao mesmo tempo). Trata-se de um termo um tanto chulo para designar a perda da ereção do pênis durante a relação sexual. Logo, imbroxável é o indivíduo que supostamente (apenas supostamente) nunca broxa. E broxar, de onde vem? Vem de broxa.

E broxa, todos sabem, é aquele pincel graúdo que os pintores usam para pintar paredes, especialmente com tinta à base de cal. A relação entre a broxa de pintura e a disfunção erétil é bem sugestiva: quando o pintor mergulha a broxa na tinta e depois a retira da respectiva lata, os pelos do pincel arqueiam todos para baixo sob o peso da tinta impregnada neles.

Como o leitor deve ter percebido, até o momento utilizei broxa, broxar e imbroxável com x, mas também existe em português a brocha com ch, só que com outro significado. Brocha é um tipo de prego, ao passo que o pincel se grafa broxa. Essa é mais uma das pegadinhas do nosso idioma que podem representar uma casca de banana no caminho de vestibulandos e concurseiros. Brocha e broxa são denominadas palavras homófonas, isto é, que têm a mesma pronúncia, mas grafias diferentes.

Portanto, se imbroxável deriva de broxar, e este de broxa, a grafia correta do primeiro é com x e não com ch, como tem saído na imprensa.

(*) Aldo L. Bizzocchi é doutor em Linguística, palestrante e blogueiro.

12 de setembro

Juscelino Kubitschek

José Horta Manzano

No meio de tantos horrores que fermentam no magma da classe política nacional e afloram à superfície durante campanhas presidenciais, é sempre refrescante relembrar coisas agradáveis. São coisas que estão obrigatoriamente no passado visto que, da política atual, não se pode esperar nada de bom.

Faz hoje exatamente 120 anos que nasceu em Diamantina, nas Minas Gerais, um menino que viria a ser um dos dois grandes presidentes que nossa República conheceu desde a redemocratização de 1945. Falo de Juscelino Kubitschek de Oliveira (1902-1976). O outro grande foi Fernando Henrique Cardoso.

Fora esses dois, só estropícios subiram a rampa. E pelo que tudo indica, a desgraça não está perto de acabar. Considerando os dois principais pretendentes ao trono, seja qual deles for eleito, o Brasil vai continuar fazendo parte da periferia do mundo.

Continuaremos sendo um daqueles países folclóricos capazes de produzir soja para engordar gado, mas incapazes de contribuir para o processo civilizatório global.

Bolsonaro: a imbroxabilidade desvendada

José Horta Manzano

Bruno Meyerfeld é um escritor e jornalista franco-brasileiro. É o correspondente no Brasil do jornal Le Monde, quotidiano francês de referência. Acaba de lançar novo livro, redigido em francês, com o título Cauchemar brésilien – Pesadelo brasileiro. A ilustração mostra a capa da obra.

Fruto de acurado trabalho de investigação jornalística, o livro, ainda sem edição brasileira, retrata a história da ascensão de Jair Messias Bolsonaro, desde a infância até a Presidência. A obra está cheia de historietas interessantes – algumas conhecidas, outras menos – todas girando em torno da vida do capitão.

O público francês vê em Bolsonaro apenas um incansável destruidor da floresta amazônica. O livro trata de esclarecer que Bolsonaro é muito mais que isso – mais e pior. Narra suas obsessões, sua incrustada paranoia, suas transgressões, sua ojeriza às minorias (pretos, mestiços, homossexuais, índios), sua misoginia, seu comportamento mortífero perante a epidemia de covid. E muito mais.

Entre as revelações, aparece uma muito interessante. Lá pelas tantas, depois de descrever as noites arrastadas que um presidente insônico passa a perambular pelos corredores do Alvorada nas horas mortas, o autor continua:

«En plus de ses soucis de sommeil, [Jair Bolsonaro] souffre également de ‘dysfonction érectile’. Il est un utilisateur régulier de Cialis, ce vasodilatateur concurrent du Viagra. Et ne s’en cache nullement. La présidence, cela fait ‘débander même les super-héros’.»

«Além do problema de insônia, [Jair Bolsonaro] sofre também de ‘disfunção erétil’. Ele é cliente regular de Cialis, vasodilatador concorrente do Viagra. E não se preocupa em esconder. A presidência deixa ‘até um super-herói broxa’.»

Sensacionalismo não é o forte do jornal Le Monde nem de seus jornalistas. Se o autor citou essa peculiaridade do presidente do Brasil e assinou embaixo, é porque checou a informação junto a fontes confiáveis.

Sabendo disso, a gente agora começa a entender por que o capitão concordou com a distribuição de Viagra para oficiais das Forças Armadas. E fica também claro o porquê de ele se referir continuadamente à própria ‘imbroxabilidade’. Compreende-se. Apoiado no braço amigo do Cialis, não precisa ser super-herói: qualquer um consegue.

No fundo, ele parece mais é estar em marcha acelerada para a impotência total. Se é que já não chegou lá.

Se você estiver em Paris
Está marcada para este 12 de setembro a noite de autógrafos do lançamento do livro Cauchemar brésilien. Será no Bar Cultural 61, Paris 19ème, a partir das 19 horas.

Multidão x multidão

Ascânio Seleme (*)

Havia 64,6 mil pessoas no comício de Bolsonaro em Copacabana na tarde de quarta-feira, segundo o Monitor do Debate Público da USP. Na noite do mesmo dia, 66,6 mil torcedores assistiram à vitória do Flamengo sobre o Vélez Sarsfield no Maracanã.

Pode não significar muita coisa, são apenas dois mil a mais, mas os que foram ao Maracanã pagaram para entrar. Já muitos dos que estiveram em Copacabana receberam algum “incentivo” para participar do ato e gritar “mito”.

No Maracanã, Bolsonaro foi vaiado e xingado. E Rodolfo Landim não pôde fazer nada.

(*) Ascânio Seleme é jornalista. Trecho de artigo publicado no jornal O Globo.

Este mar é meu

José Horta Manzano

Você sabia?

A expressão águas territoriais define, em grandes linhas, a superfície marítima que pertence a cada país com saída para o mar. Até o século XIX, o assunto não aparecia entre as preocupações maiores.

Naquele tempo, considerava-se que as águas territoriais se estendiam até 3 milhas da costa (menos de 6km), que era o alcance de um tiro de canhão. Essa distância era suficiente para proteger o país  contra ataques vindos do mar.

Brasil – Zona Econômica Exclusiva (clique para aumentar)

Brasil – Zona Econômica Exclusiva
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O século XX trouxe outra visão de mundo. O litoral adjacente a cada país passou a ser olhado como zona de exploração econômica – para atividades pesqueiras principalmente. Convencionou-se então fixar o limite das águas territoriais em 12 milhas marítimas, cerca de 22km.

A partir dos anos 70, alguns Estados pressionaram para conseguir que sua zona de exploração fosse alargada. Depois de anos de discussão, uma convenção foi assinada em 1982 em Montego Bay. Ela põe os pingos nos ii, dá nome aos bois e fixa limites precisos. Define com precisão as expressões mar territorial, zona contígua, zona econômica exclusiva, plataforma continental e águas internacionais. Fixa em 200 milhas a contar da costa (370km) o limite da zona econômica exclusiva.

França – Zona Econômica Exclusiva (clique para aumentar)

França – Zona Econômica Exclusiva
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O país «proprietário» exerce domínio exclusivo sobre as 200 milhas que lhe são atribuídas. Seus direitos englobam a coluna d’água e o subsolo sobre o qual ela se assenta. O dono é o único com direito a pescar e extrair do subsolo o que bem entender. Está em casa.

Quando se fica sabendo dessas particularidades, entende-se melhor por que certos países beiram conflito armado pela posse de ilhotas desertas e inabitadas. É o caso do diferendo entre a Rússia e o Japão sobre as Ilhas Curilas.

A China é outro país que batalha pela posse de ilhazinhas das quais ninguém nunca ouviu falar. Não fosse a Convenção de Montego Bay, o petróleo brasileiro de alto-mar poderia ser explorado pelo primeiro que chegasse. O icônico pré-sal incluído.

Chile – Zona Econômica Exclusiva (clique para aumentar)

Chile – Zona Econômica Exclusiva
(clique para aumentar)

A convenção de 1982 deixou uma brecha. Estabeleceu que a zona exclusiva de cada país pode ser prolongada até um máximo de 650km, caso o interessado assim o deseje. Só tem um porém: a partir de 200 milhas, o «proprietário» só tem direito exclusivo para exploração das riquezas do subsolo. A coluna d’agua é internacional, aberta a todos. A água e tudo o que ela contém naturalmente.

Valendo-se dessa brecha, em 2015 a França estendeu sua zona exclusiva de exploração do subsolo marinho a 650km. Visto que possui pequenas ilhas espalhadas pelo globo, o país acrescentou meio milhão de quilômetros quadrados à superfície de que já dispunha.

Com isso, pelo critério de zona econômica exclusiva, os onze milhões e meio de quilômetros quadrados franceses ultrapassam todos os outros países. Nesse quesito, a França ocupa doravante o primeiro lugar. Surpreendente, não? O Brasil só aparece em 12° lugar, com pouco mais de 3,5 milhões de km2, atrás do Japão e até do Chile.

Petroleo 2

Essa história de zona exclusiva pode parecer bobagem mas não é. A China anda construindo navios para exploração mineral em alto-mar. Ao longo da navegação, a água vai passando por sistema de filtragem que retém o que interessa: ouro, titânio ou qualquer outro mineral raro e precioso. Quem diria, não?

Publicado originalmente em 22 out° 2015.

Email de Buckingham

José Horta Manzano

O jornalista Lauro Jardim informa que os estrategistas da campanha do capitão estão seriamente cogitando enviá-lo a Londres para estar presente nos funerais da rainha Elizabeth II.

Acreditam que o fato de ele aparecer em meio a chefes de Estado de todo o planeta é altamente positivo para passar a imagem de um líder importante. Seria um golpe de mestre, uma cartada simbólica fora do alcance dos demais candidatos, especialmente de Lula.

Na ideia dos estrategistas, o ideal é que Bolsonaro compareça acompanhado da esposa. Só que, por enquanto, estão ainda no estágio da cogitação. Ainda não se tem nem a data do funeral. O Palácio de Buckingham também ainda não mandou convite.

Apelo urgente
Alguém teria o email de Buckingham? Se tiver, mande uma cartinha para a Redação. Vou aconselhar o cerimonial londrino a desistir do convite ao capitão. Pelo bem do Brasil.

Sua Majestade, o rei

José Horta Manzano

Dizem que a morte de um ancião nunca é uma tragédia mas o caso da rainha Elizabeth talvez seja a exceção que confirma a regra. Ela era, com certeza, a pessoa mais conhecida do mundo, e seu desaparecimento deixa um vazio. Todos os veículos da imprensa mundial, sem exceção, dão destaque hoje à morte da rainha.

Na Inglaterra, até aqueles que são contra a monarquia e que gostariam que a instituição fosse abolida apreciavam e, sobretudo, respeitavam Elizabeth II. Ela era como um rochedo, sempre firme no meio das tempestades.

Ninguém nunca soube o que ela pensava. A rainha permaneceu a vida toda fiel ao dever de reserva que impôs a si mesma. Dizem uns que ela era a favor do Brexit; outros garantem que nunca ela apoiaria uma ideia tão maluca – ao fim e ao cabo, não saberemos jamais.

De longe a personalidade mais fotografada do mundo, ela deixava qualquer estrela do cinema ou das artes comendo poeira. Elizabeth II visitou praticamente todos os países, mas – curiosidade singular: nunca teve passaporte.

A rainha nunca teve documento de identidade. Sempre carregava uma bolsa cuja utilidade era desconhecida. Não pagava nenhuma compra. Não entrava em nenhuma loja. Nunca foi ao cinema. Nunca fez compra numa padaria ou num açougue. Não deve nunca ter usado dinheiro vivo. Talvez nunca tenha entrado numa cozinha. Dá pra imaginar passar 70 anos num regime rígido assim?

Ela vai fazer muita falta. Não fosse ela, a monarquia britânica já teria desmoronado. Vamos ver se o novo rei aguenta o tranco. Não será fácil, visto que sua popularidade é bem mais baixa que a da mãe, sem contar a esposa, vista por muitos britânicos como uma intrusa.

Não será fácil preencher o vácuo deixado por Elizabeth. Não é o filho nem a nora que têm carisma para isso. Num futuro mais distante, quem sabe.

Por enquanto, la reine est morte, vive le roi! – a rainha morreu, viva o rei!

PS
Charles não é obrigado a conservar o nome de batismo. Pode adotar um outro nome que lhe agrade, a escolha é dele. Seu avô, pai de Elizabeth, nasceu Albert, mas reinou como George VI. Saberemos rapidamente.

O ministério inglês e o nosso

José Horta Manzano

Nestes dias de bicentenário da independência, a desfaçatez ostentatória do capitão tem ocupado todo o espaço midiático. É como um Carnaval fora de época: tudo o que não for coberto de paetês e lantejoulas vira nota de rodapé.

Talvez o distinto leitor tenha vagamente tomado conhecimento da troca de primeiros-ministros no Reino Unido, onde Boris Johnson cedeu seu lugar a Liz Truss. Em princípio, não é esperado nenhum terremoto na política do país, visto que o governo continua nas mãos do Partido Conservador.

No entanto, assim que Ms. Truss anunciou seu ministério, ficou flagrante uma mudança de época. Foi-se o tempo em que bastava ser um homem branco para ter certeza de subir com facilidade os degraus do poder, deixando eventuais concorrentes a comer poeira. Pra começo de conversa, a primeira-ministra é uma mulher. Não é a primeira, mas, antes dela, só duas outras haviam ocupado esse cargo: Margaret Thatcher e Theresa May.

Pela primeira vez na história, entre os membros mais importantes do gabinete, nenhum se enquadra no padrão tradicional “male & pale” – de sexo masculino e pele clara. Os sete principais são: Kwasi Kwarteng, Suella Braverman, Thérèse Coffey, James Cleverly, Nadhim Zahawi, Kemi Badenoch et Ranil Jayawardena. Com uma única exceção, todos eles são cidadãos britânicos oriundos de imigração recente. Não têm a pele, o cabelo nem os olhos claros que a gente costuma atribuir aos anglo-saxões.

A composição do gabinete não é fruto de um capricho da nova chefe de governo. Entre os oito que concorreram ao cargo de primeiro-ministro, quatro eram mulheres enquanto os outros quatro eram homens descendentes de imigrantes. Esses cidadãos não se filiaram ao Partido Conservador por acaso; são apoiadores fervorosos do Brexit e de pautas liberais. A composição do novo governo é a prova de que a Grã-Bretanha teve sucesso na integração de imigrantes das antigas colônias. Em apenas meio século, descendentes de povos exóticos conquistaram o status de cidadãos britânicos como os demais.

Esse arco-íris ministerial de peles alvas e escuras, de tipos escandinavos e paquistaneses, de olhos cuja cor varia entre a água-marinha e o negro profundo é único na Europa, quiçá no mundo. Na França, que também recebeu correntes de imigração provenientes das antigas colônias, não se encontra a mesma diversidade no topo do poder. Quando muito, um negro aqui, um árabe acolá, geralmente em cargos de menor importância.

E o Brasil? Num país como o nosso, onde a miscigenação começou há meio milênio e resultou num contingente populacional em que mais da metade dos integrantes são mestiços, como é que ficam as coisas? Pois nossa situação está longe do exemplo da Inglaterra. A diversidade de nossa população não se reflete nas altas esferas. Nos ministérios de Brasília, encontrar uma mulher é coisa rara; um mestiço, então, mais raro ainda. No quesito representatividade dos variados estratos de nossa população, permanecemos fincados nos tempos coloniais.

Na era PT, apesar das barbaridades que cometeram, Lula e Dilma tiveram a sensibilidade de escolher ministros que escapassem do paradigma “homem e branco”. No governo Bolsonaro, demos um passo atrás. O capitão reforçou o sentimento de que, fora do padrão “homem e branco”, só há cidadãos de segunda classe.

É um tremendo erro considerar que só homens brancos estão habilitados a condividir o poder. Nossa diversidade cultural, racial e religiosa é o que é. Veio e está aí pra ficar. Quem a ignora incorre no mesmo tipo de negacionismo que os que consideraram a covid uma gripezinha: serão atropelados pela realidade.

Somos o que somos, e só no dia em que reconhecermos essa realidade teremos alguma chance de ver nosso processo civilizatório desempacar.

O Sete de Setembro é realmente o dia da independência do Brasil?

Dona Leopoldina e o conselho de ministros
Rio de Janeiro, 2 de setembro de 1822
obra de 1922 by Georgina de Albuquerque (1885-1962)

Antônio Aurélio do Amaral (*)

Em viagem a São Paulo para controlar uma rebelião, o então príncipe regente Pedro transferiu formalmente o poder para a esposa austríaca, a futura imperatriz Leopoldina. Na época não existia telefone nem telégrafo para dispensar essa transferência de poder ao viajar.

Em fins de agosto de 1822, Dona Leopoldina recebeu uma carta de Portugal que comunicava a destituição de seu marido das funções e determinava que ele voltasse para Portugal. A missiva ordenava ainda que tratasse de obedecer pois uma força de 25.000 soldados portugueses estava a caminho do Brasil.

A princesa sopesou a situação, reuniu os ministros e tomou a decisão: assinou o rompimento das relações com Portugal e a independência do Brasil. Era 2 de setembro de 1822. Em seguida, enviou um emissário atrás do príncipe informando a situação e a sua decisão oficial.

Dom Pedro só foi alcançado pelo emissário no dia 7 de setembro, montado em sua mula, quando a vila de São Paulo já surgia no horizonte. Num cenário bem menos épico do que a “narrativa” retratada no imponente quadro de Pedro Américo – obra concluída na Itália 66 anos mais tarde –, proclamou a independência.

Na minha época de escola nunca ouvi nem li nada disso. Hoje os historiadores sabem, baseados em registros e documentações da época. A pavonice insegura dos machistas tóxicos elaborou a narrativa que foi para os livros escolares. Machismo que ainda hoje mata cruel e covardemente várias mulheres por dia no Brasil. E que “fez a cabeça” da minha geração (homens e mulheres), dentre outras discriminações.

Narrativas
Esse longo “delay” de 66 anos entre o evento e a famosa pintura de Pedro Américo só é menor que o espaço de tempo decorrido entre a morte de Jesus Cristo e os primeiros relatos: 70 anos. Os evangelhos de São Tomé, Maria Madalena e outros foram proibidos pelo Concílio de Niceia, convocado pelo imperador romano Constantino.

Leopoldina era membro da família real austríaca, de pensamento alinhado com os chamados “déspotas esclarecidos”, incomuns na época, porém marcantes pela visão e decisões alinhadas com o progresso social de seus povos. Ou pelo que assim podia ser entendido diante dos padrões vigentes.


Em síntese:
O nascimento do Brasil independente ocorreu por decisão e pela assinatura de uma mulher !


E agora, por conta da minha imaginação. Ela pode ter dito ao emissário: “Corra! Entregue esta carta a ele. E diga ao paspalho que encene uma proclamação perante sua tropa. Vá!”

Viva a independência do Brasil!

(*) Antônio Aurélio do Amaral é engenheiro.

Tempos estranhos

Bloqueio da Esplanada dos Ministérios, Brasília

José Horta Manzano

Quase duas décadas atrás, da primeira vez que utilizou a expressão “tempos estranhos” para designar um momento de tensão particular na vida nacional, Marco Aurélio Mello, então ministro do STF, decerto não imaginava que sua definição teria vida tão longa.

A expressão, cunhada nos tempos do Mensalão, entrou de fato para o vocabulário da política nacional e lá se deu tão bem que permanece até hoje. Desde que chegou, ela vem sendo repetida a cada nova barbaridade de nossas autoridades federais.

Nesta execrável era bolsonárica – que ainda há de ser amaldiçoada pelos historiadores do futuro –, a expressão continua válida. E como! Tempos tão estranhos, o país nunca tinha vivido. Nenhum afiado futurólogo do século 20 teria jamais vislumbrado na bola de cristal um período como o atual, mais destrutivo do que muita guerra.

Vejamos então. Faz meses que o capitão açula sua malta a manifestar-se com violência contra o voto livre e secreto e contra a mais alta magistratura do país. Seu DembishDepartamento de Manipulação dos Baixos Instintos do Ser Humano (também conhecido como Gabinete do Ódio) – concluiu que o Sete de Setembro, a data maior da nação, seria excelente momento para deixar explodir a violência que lampeja atrás dos olhos injetados de seus sequazes.

À vista de uma turbulência que imensa maioria da população não aprova e não deseja, autoridades de bom senso tiveram de agir. A inauguração do novo Museu do Ipiranga e as manobras navais previstas na baía de Guanabara viram seu calendário chacoalhado. Para não soprar sobre as brasas acesas pelo presidente, tiveram de afastar-se do dia sete.

Diferentemente da tradicional bonomia dos festejos da Independência, dia de parada e bandeirinha, autoridades de Brasília tomaram decisão drástica: o bloqueio ao tráfego da Esplanada dos Ministérios. Ninguém passa.

Quando a expressão “tempos estranhos” foi forjada, havia monumental roubalheira mas ninguém tinha medo. A situação hoje se agravou exponencialmente. O assalto – declarado ou suputado – aos cofres da nação deixou o estágio das “obscuras transações” de outrora e tornou-se oficial: orçamentos secretos, ao melhor estilo ditatorial, se encarregam de saquear as burras à luz do meio-dia. E em toda legalidade.

O problema maior é que, além de esbulhado pela “elite” política, o povo vive hoje com medo. Instalou-se uma situação de insegurança que o brasileiro não vivenciava desde os tempos sombrios da ditadura. A pobreza, a miséria, a ignorância, a desigualdade perduram, mas agora o temor do amanhã veio se adicionar aos conhecidos males da nação.

À espera do dia em que essa malta rasteira e estridente será desalojada pelo voto, o Brasil pensante se dá as mãos para neutralizar as consequências das decisões malévolas e maléficas do presidente.

E assim vamos, qual cegos em tiroteio, com jogo de cintura, desviando pra cá e pra lá, tratando hemorragia com esparadrapo, fugindo do capitão, de olho num outubro que nos tire do sufoco.

Como seria bom se a expressão “tempos estranhos” caísse logo em desuso.

Lei Maria da Penha ou pistola?

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Depende, senhor presidente. Se o “problema” em questão que presumivelmente poderia ser causado por essa tal “gente” que caminha em sua direção numa estrada deserta for uma ameaça de estupro e a mulher em questão for feia, o risco será mínimo para ela, segundo o senhor mesmo fez questão de ressaltar em outra ocasião.

Se for uma mulher bonita e conseguir sair viva da situação ilustrada, as duas ferramentas sugeridas mais do que provavelmente serão de pouca ou nenhuma valia. Antes de mais nada, é preciso dizer que elas são tão comparáveis em termos de eficácia para combater a violência contra a mulher quanto um nécessaire e uma jaca. A arma pode falhar, como aconteceu recentemente no atentado contra Cristina Kirchner. O indivíduo (ou os indivíduos, não restou claro) pode tomar a arma da mão da mulher, imobilizá-la e deixa-la ainda mais vulnerável, como o senhor mesmo contou que lhe aconteceu durante um assalto no passado. O tiro pode não atingir o potencial agressor ou só atingi-lo de raspão e deixa-lo ainda mais furioso e violento.

Já para “sacar” a lei Maria da Penha, seria preciso que a mulher vítima de uma tentativa de estupro, assalto ou assassinato se dirigisse a uma delegacia de polícia (ou a uma delegacia da mulher, caso houvesse uma na região), esperar o horário de abertura na manhã do dia seguinte e contar com a boa vontade do policial de plantão para registrar um boletim de ocorrência. Antes, porém, ela certamente teria de passar por um detalhado interrogatório, no qual lhe seria perguntado, dentre outras coisas: O que você fazia àquela hora numa estrada deserta? Como estava vestida? Havia bebido ou consumido drogas? Deu causa de alguma forma para o ataque ou o facilitou, seja não resistindo à aproximação do agressor e abrindo a porta do carro, seja sorrindo para ele e pedindo ajuda para trocar o pneu?

Para piorar, poderia acontecer de o delegado de plantão se recusar a registrar a ocorrência, alegando não ter havido nenhuma lesão física digna de nota, como aconteceu recentemente com uma senhora negra, esquálida e frágil, de 51 anos de idade, que teve seu pescoço (ou parte de cima das costas, como pretende o advogado de defesa) pisado por um brutamontes policial de mais de 80 quilos. Depois de recorrer a um advogado para ter seus direitos respeitados, essa mulher, no máximo, voltaria para casa com um papel na mão e esperaria sentada por meses ou anos até que o agressor (de quem ela desconhece a identidade, diga-se de passagem) a atacasse novamente ou fosse preso pela prática do mesmo ou de outros delitos. Se e quando isso acontecesse, a vítima poderia então entrar com um pedido de medida protetiva na justiça. Mesmo assim, se o agressor desrespeitasse a exigência de afastamento, só restaria a ela registrar um segundo boletim de ocorrência – e assim sucessivamente até a data de seu velório.

Outro dado relevante que precisaria ser levado em consideração para fazer uma escolha sensata e bem-informada do melhor jeito de reagir numa situação como a aventada diz respeito à sua suposição de que a “gente” que vem em sua direção “pode lhe causar problema”. Não ficou claro em sua douta exposição, senhor presidente, a partir de quais evidências essa impressão se concretizou: tratava-se de uma pessoal mal-encarada, segundo os critérios policiais? Talvez tivesse um olhar frio, vidrado, desses de quem consome drogas? A forma como estava vestido? Estava em atitude suspeita, atrás de um poste ou escondido embaixo de um viaduto? Portava algum objeto ameaçador nas mãos? São muitas as hipóteses e poucas sustentáveis a priori. Poderia ser, convenhamos, um simples transeunte ocasional, um morador da área, alguém voltando do trabalho e, quem sabe, até mesmo uma pessoa de boa vontade, querendo ajudar.

Digo isto porque já me aconteceu de ter o pneu estourado num cruzamento da Avenida Santo Amaro numa noite chuvosa, ter sido abordada por um cidadão – negro, veja só – que, sorridente, se aproximou da minha janela e se prontificou a me tirar daquela aflição, empurrando o carro e trocando o pneu em poucos minutos, sem nem mesmo esperar por gratificação. Tsc, tsc, tsc. Está claro que o senhor precisa conhecer melhor o “seu povo”, presidente, não apoiar suas convicções somente em seus fanáticos apoiadores mas também na gente simples e solidária que habita invisivelmente esta terra.

Além disso, capitão, não é nem preciso dizer que o [mau] hábito de atirar antes de perguntar, que está implícito na sua sugestão, deveria ser combatido e não incentivado. Esse é o traço mais distintivo da polícia militar brasileira desde sempre, usado com especial ênfase no período pós-ditadura. As manchetes sanguinolentas relativas aos constantes entreveros nos morros do Rio de Janeiro e na periferia de todas as demais capitais, com um número espantoso de vítimas colaterais, crianças e adolescentes desarmados, estão aí para quem quiser confirmar.

A defesa do excludente de ilicitude que tanto o anima está assentada exatamente nessa pressuposição de que há cidadãos de primeira categoria, honrados e cônscios de seu papel social, os militares e os PMs, e outros cidadãos de quinta categoria, os civis não pertencentes à elite branca heterossexual, que devem obediência irrestrita ao arbítrio das “otoridades” de plantão. Será que essa mentalidade já foi absorvida também pelos atuais detentores de posse e porte de armas, contaminando até mesmo aqueles que se dizem cristãos? Falando nisso: curiosamente, não lhe ocorreu sugerir que o melhor seria “entregar nas mãos de Deus” a solução do problema. Já que o senhor estava num templo evangélico, circundado exclusivamente por mulheres, seria de bom alvitre reforçar a tese de que o Altíssimo o ajudará a cuidar da segurança pública em um eventual segundo mandato seu, já que teria sido Ele a indicá-lo para o cargo presidencial ‘against all odds’.

Pensando em tudo isso, sinto dizer, senhor presidente, que, como de costume, seu pretenso argumento de apreço pela defesa da mulher foi miseravelmente infeliz. Ou melhor, como tudo que sai de sua boca, não passou de mais um ato falho para sua coleção de disparates. No seu inconsciente, onde pululam os vermes comedores de cérebro da “ideologia de gênero”, não deve haver espaço mesmo para indicar outras medidas civilizatórias, como melhor iluminação pública, serviço de assistência 24 horas nas estradas acessível online, carros de polícia circulando à noite por locais afastados do centro, etc. Acima de tudo, não lhe ocorreu a única medida realmente eficaz, já testada em diversos outros países com sucesso: a educação sexual nas escolas para meninos e meninas desde a primeira infância. Complementada preferencialmente por acesso universal a serviços de saúde mental para os transgressores.

Saiba que a única mensagem transparente – e auditável – que o restante da população recebeu foi a de que as mulheres brasileiras – sejam elas ou não portadoras de vaginas, como diz elegantemente seu filho 03 –, não podem se sentir seguras em lugar nenhum deste país, nem dentro nem fora de casa.

Segure suas cabras que meu bode vai sair para pastar…

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

A juíza e o juízo

José Horta Manzano

Na sexta-feira 2 de setembro, o site do TSE (Tribunal Superior Eleitoral) passou a exibir a nova regra relativa ao porte de telefone celular na cabine de votação.

O aparelhinho continua proibido, assim como todo dispositivo que permita fotografar, filmar ou registrar o voto. A novidade é que o telefone celular será retido pela mesa eleitoral enquanto o eleitor vota. O cidadão que se recusar a entregar seu aparelho perderá o direito de votar.

A resolução não prevê exceção para cidadãos STC (sem telefone celular), como este blogueiro. Fico a imaginar a cara de espanto dos jovens mesários quando eu lhes contar a exótica verdade. Estou até pensando em tomar um telefone emprestado, só pra não causar mal-estar.

O mui sério e mui oficial site do TSE estampa as novas disposições(1). O trecho mais impressionante é o seguinte:

“Havendo recusa em entregar os equipamentos descritos, a eleitora ou o eleitor não serão autorizados a votar e a presidência da mesa receptora constará em ata(2) os detalhes do ocorrido e acionará a força policial para adoção de providências necessárias, sem prejuízo de comunicação a juíza ou ao juízo eleitoral.(3)

Considero que o confisco temporário do telefone de bolso é medida de bom senso. Inibe tanto o voto comprado quanto o voto de cabresto. O que me incomoda é a redação do comunicado. Vejamos.

(2) Constará em ata
Quem redigiu a frase ignora o significado do verbo constar. Nessa acepção, significa aparecer, ser mencionado. Ora, não é a presidência da mesa que vai aparecer na ata. A obrigação da presidência da mesa será fazer constar na ata. Se preferirem um único verbo, podem dizer que a presidência lançará em ata os detalhes do ocorrido.

(3) A juíza e o juízo
Li, reli e tresli a frase tentando adivinhar a intenção de quem a redigiu. Ainda estou na dúvida. Quem será o juízo? Pensei que talvez estivessem fazendo referência ao juízo eleitoral, ou seja, a instituição judiciária eleitoral. Se assim fosse, que estaria fazendo a juíza na frase?

Reflexão feita, acabei entendendo que o “politicamente correto” passou por ali. O redator devia estar com intenção de se referir à juíza e ao juiz, mas – oh céus! – digitou mal. Saiu “à juíza e ao juízo”. Ninguém releu, e o texto virou lei.

“A juíza e o juízo” me lembra uma historinha infantil em que se perguntava qual era o marido da vaca, e a resposta vinha: “É o vaco”.

(1) Se alguém quiser conferir no site do TSE, é por aqui.

Atentado

José Horta Manzano

A língua francesa formou o substantivo attentat tomando como base o verbo attenter, que é filhote do latino attentare. Em latim, o verbo significava pôr em prática qualquer meio para que uma coisa seja bem sucedida.

Nossa língua foi buscar o substantivo francês e o aportuguesou: virou atentado. O sentido continua bem próximo ao original. Em atentado, está embutida a ideia de tentativa. Como toda tentativa, tanto pode dar certo como não.

A vice-presidente da vizinha Argentina foi ontem vítima de um atentado. Um indivíduo apontou uma arma, tentou atirar, mas a bala não saiu. A vice-presidente teve sorte. O agressor, menos. Além de não ser bem sucedido, foi dormir atrás das grades.

A Folha de SP acertou ao dar a notícia. Falou em “atentado contra Cristina”. Correto.

Folha de São Paulo

 

 

O Globo também acertou. Foi até mais longe. Falou em “tentativa de assassinato”. Correto.

O Globo

 

 

Já o Estadão escorregou. Tratou a notícia de “tentativa de atentado”. Além de soar complicado (tentativa de atentado), desvirtua a verdade. O que o agressor cometeu foi um atentado de verdade, não uma “tentativa”. Se não deu certo, é uma outra história.

Estadão

 

 

Se o redator fizer questão de qualificar o ato, pode falar em atentado falho, atentado fracassado, atentado infrutífero, atentado frustrado – ou outro adjetivo parecido.

Mas é bom não esquecer que, apesar de o agressor não ter conseguido chegar a seus fins, o ato foi um atentado de verdade, não só um ensaio ou uma tentativa.

Em dinheiro vivo

José Horta Manzano

Levantamento feito pelo UOL dá conta das atividades do clã Bolsonaro no mercado imobiliário. A família é mais ativa do que muito escritório imobiliário por aí. Nos últimos trinta anos, Jair (deputado, depois presidente), irmãos e filhos transacionaram um total de 107 imóveis. Pra quem não é do ramo, é um currículo apreciável.

Só que tem um particular: entre os imóveis comprados, 51 foram pagos parcial ou inteiramente em dinheiro vivo. Fazendo as contas e atualizando os montantes pela inflação, dá o estonteante total de R$ 26,5 milhões. Em notas, talvez transportadas numa sacola e empilhadas no balcão. Sabe que espaço é necessário pra armazenar R$ 26,5 milhões? Um quarto cheio.

Nestes tempos de judicialização extrema, a imprensa trata o assunto com luvas de pelica. Os textos saem com expressões cautelosas, aspas e verbos no condicional: “suposta lavagem de dinheiro”, “teria sido gasto”, “poderia tratar-se de rachadinha”, e por aí vai.

Dado que Seu Lobo não chega aqui, tiro as aspas, dispenso o condicional e digo o que penso: está evidente que o dinheiro provinha de negócios subterrâneos, que não podem ser expostos à luz do meio-dia. Rachadinha? Pode ser, se bem que os montantes me parecem elevados demais. Cobrança de proteção garantida por milicianos? Vai saber. Extorsão, chantagem ou outros crimes graves? É permitido cogitar.

Bom, não vamos aqui entrar no mérito da questão. De toda maneira, qualquer denúncia será abatida em voo pelo aparato de segurança que (ainda) protege o capitão. Eu queria é comentar a naturalidade com que esse negócio de pagamento em dinheiro ocorre no Brasil, enquanto, em terras mais avançadas, não existe.

Nos países da Europa ocidental, é simplesmente proibido comprar imóvel com dinheiro vivo. O pagamento tem de transitar necessariamente por um banco. Essa regra, em si, já é um grande passo em direção à transparência. Um cheque ou uma transferência bancária deixam rastro indelével. A todo momento, pode-se saber quem pagou e de que conta saiu.

Ainda que o comprador tivesse – pode acontecer – o dinheiro do pagamento armazenado em malas ou em cuecas, não adianta: terá de depositar o montante numa conta bancária e só então mandar fazer a transferência. Só que, nesse caso, surge novo problema. Hoje em dia, é complicado depositar grandes quantias no banco. Tem de justificar, com prova documental, a origem do dinheiro. Se o depositante não conseguir provar a origem, o banco não aceitará o depósito.

Há mais porteiras para cercear o florescimento de uma economia subterrânea, como o caso dos Bolsonaros parece denunciar. No entanto, pra começar a drenar esse pântano em que se movimentam criminosos de toda espécie, as duas primeiras medidas já seriam bem-vindas:

1. Que se proíbam transações imobiliárias em dinheiro vivo.

2. Que se determine aos bancos investigar a origem de depósitos em dinheiro a partir de um determinado montante.

É verdade que estamos caminhando para um mundo desmonetizado, em que notas de dinheiro estão entrando em via de extinção. Daqui a duas décadas, rolos como esse dos Bolsonaros (e de tanta gente mais) não serão possíveis. Mas não custa dar um empurrãozinho no destino e começar desde já a apertar a porca.

Malas e cuecas vão assim voltar a ser destinadas à finalidade para a qual foram concebidas.

Deu no Stern

José Horta Manzano

Stern, revista semanal alemã com tiragem de um milhão de exemplares, publicou análise da campanha eleitoral brasileira. O título já dá o tom:


Wahlkampf in Brasilien: Es geht um nicht weniger als die Zukunft der Demokratie

Campanha eleitoral no Brasil: nada menos que o futuro da democracia está em jogo


Na apresentação dos dois principais candidatos, não se perde tempo bordando a bainha. Os alemães são concisos e vão direto ao ponto, dando apenas uma síntese de cada personagem:


O ex-militar que um dia aterrissou na prisão por envolvimento em tumultos contra o ex-líder sindical que um dia aterrissou na prisão sob acusações de corrupção.


Precisa dizer mais?

Que tal dar adeus ao voto útil e escolher candidato mais palatável no primeiro turno? Tebet, Thronicke, até Ciro. Muita gente acha melhor quitar a fatura no primeiro turno para evitar um segundo. Pensam tirar do caminho a ameaça de golpe.

Quanto a mim, acredito que a ameaça de golpe está no ar desde o primeiro dia do capitão na Presidência. E lá ficará até o último dia. Não me parece que um segundo turno de eleição aumente o risco. Pelo contrário: tendo falhado no primeiro, o capitão perderá força e embalo.

Aviso aos navegantes: a candidata do PCB, que se chama Sofia Manzano, não tem relação de parentesco com este blogueiro. Mas, se alguém tiver simpatia pelo partidão, que vote nela. Por que não?

31 de agosto, 1960

Eduardo Affonso (*)

– Você vai à parada do dia 7 tocando bumbo – garantiu o obstetra à minha mãe.

Não deu.

E ela gostava tanto de setembro. Casou-se em setembro. Um de seus filmes favoritos – ao lado de “As neves do Kilimanjaro” e “Candelabro italiano” – era “Quanto setembro vier”.

Quando setembro viesse, viria o segundo filho. De preferência, uma filha.

Esperara um ano antes pela Rita de Cássia, e vim eu. Desta vez, em setembro, Rita de Cássia haveria de vir.

Mas no dia 31 do mês do agouro, dos ventos e dos cachorros loucos, sentiu que o tempo virava – lá fora e dentro de si.

Entrou em trabalho de parto enquanto o céu começava a desabar – ou o céu desabou quando ela começou a sentir as dores, não é mais possível saber, e não faz diferença, pois não há relação de causa e efeito. Ou há?

Imaginemos que à primeira contração correspondeu um relâmpago, à segunda um trovão, às seguintes as janelas fechadas às pressas, e então as telhas voaram, e a água desceu pelas paredes, pelo bocal da lâmpada, até que se pôde ver o céu faiscando por entre as frestas do forro de madeira, e o quarto foi inundado.

Minha vó acudiu com rezas e panos. Meu avô abriu um guarda-chuva sobre a cama, para proteger a parturiente – avô, avó, cama, todos com água já pelas canelas.

Minha mãe queria que tudo acabasse logo – o vendaval, as dores – mas queria também que desse logo meia-noite e fosse setembro. E nem setembro chegava, nem o temporal se ia.

Às 11 e tanto, ainda sob a tempestade e o guarda-chuva, envolvida pelas ave-marias e salve-rainhas que tentavam subir aos céus se esgueirando por entre os raios e trovões, foi mãe de novo.

No quarto inundado, fez ela mesma o batismo com o resto de água benta guardada no armário, antes que o teto viesse a desabar e o bebê morresse pagão.

E o batizou de novo, para o caso de os estrondos terem abafado sua voz; e uma terceira vez, por garantia, e talvez porque ainda tivesse forças e houvesse água benta – ou quem sabe já fosse água da bica.

Sobreviveram todos – ela, o bebê, meus avós, os móveis, eu (possivelmente aos berros no colo de alguém), as tesouras do telhado, parte das telhas, o teto.

Ela queria tanto uma menina, que viria quando setembro viesse.

Foi mais um menino.

E ainda era agosto.

(*) Eduardo Affonso é arquiteto, colunista do jornal O Globo e blogueiro.

As eleições na mídia internacional

José Horta Manzano

As primárias e os debates que precedem a eleição presidencial nos EUA costumam ser acompanhados com atenção pelo mundo todo. Mas por acaso o distinto leitor já viu, na mídia nacional, relatos sobre debates eleitorais de algum outro país exceto os EUA? A resposta é provavelmente não.

É natural. Pelo peso mastodôntico da economia dos EUA, suas eleições interessam ao mundo inteiro. Já campanhas de outros países dão, no máximo, nota de rodapé. Mas isso não é particularidade da imprensa brasileira: por toda parte é igual. A política dos países vizinhos sempre interessa um pouco; já, de países distantes, pouco ou nada se fala.

Mas exceções acontecem. De uns 2 ou 3 anos para cá – e não exatamente pelas melhores razões –, a política brasileira entrou no foco dos holofotes. Meio divertido, meio assustado, o mundo inteiro acompanha a singular batalha presidencial que se travam dois típicos políticos nacionais: um admirador de Hugo Chávez que já passou pela casa prisão contra um admirador de Hugo Chávez que ainda há de estacionar na mesma casa.

A mídia internacional não perdeu o festival de insultos ao qual o baixo nível dos dois candidatos reduziu um momento que deveria ter sido dedicado a uma civilizada exposição de argumentos.

Foi mais uma prova de que os dois protagonistas são carentes de ideias. São ambos reativos (quando reagem…), raramente propositivos. Incapazes de traçar um programa de governo, navegam em modo visual, sem instrumentos, ao léu, ao deus-dará. Como se diz popularmente, só pegam no tranco. Isso, quando pegam.

Aqui está um florilégio de reações da mídia internacional ao debate da Band. A repercussão chegou à Turquia. E até à longínqua Lituânia, país que não é qualquer um que conseguiria apontar num mapa.

 

 

“A temperatura sobe quando Lula e Bolsonaro se encontram”
Upsala Nya Tidning, Suécia

 

 

“Bolsonaro descontrolado, Lula exausto e candidatos alternativos vitoriosos”
El Mundo, Espanha

 

 

“A senhora decerto sonha comigo à noite”
Süddeutsche Zeitung, Alemanha

 

 

“Bolsonaro e Lula se enfrentam”
Le Figaro, França

 

 

“No Brasil, corrida presidencial esquenta”
Sözcü, Turquia

 

 

“O primeiro duelo na tevê entre Bolsonaro e Lula foi uma tempestade de insultos”
Agenzia Italia, Itália

 

 

“Bolsonaro e Lula da Silva se enfrentam no debate nas eleições presidenciais brasileiras”
15min, Lituânia