Conselho de Paz

Conselho da Paz
20 membros fundadores

José Horta Manzano

Davos, 21 janeiro 2026
A fila de espera para entrar no recinto em que Donald Trump era esperado para discursar estava “de dobrar a esquina”. (Que se entenda essa expressão em sentido poético, pois, com o frio que faz em Davos, ninguém ia esperar na esquina.) Armaram uma fila interna, como as que se vêem em check in de aeroporto. O discursante, a estrela do espetáculo, chegou atrasado em razão de problemas técnicos no Air Force One.

Em silêncio de catedral, o presidente dos EUA foi ouvido. Falou sem parar durante mais de uma hora. Se espremermos a fala pra extrair o suco, vamos descobrir que não disse nada além do que todo o mundo já tinha ouvido antes. Passou quase todo o tempo autoelogiando-se e desdenhando o trabalho do governo Biden, seu predecessor. É um de seus esportes preferidos, uma fixação.

Nesse particular, Trump me lembrou o Lula, que passou o primeiro mandato reclamando do antecessor (FHC) e se lamentando que tinha recebido uma “herança maldita”. Quando a reclamação é repetida ao ponto de virar mantra, o ouvinte deve desconfiar.

Da Venezuela, Trump disse pouca coisa. É pena, porque esse assunto nos interessa de perto. Insultou quanto pôde seus parceiros europeus, sem ir além do que já tinha dito anteriormente. Nenhuma novidade.

Novidade mesmo é sua ideia de criar um “Conselho de Paz” para funcionar em paralelo com a ONU. Terá o mesmo nobre objetivo, que é manter a paz no mundo, mas com diferenças fundamentais. Pelo que se vê, quem vai mandar no tal Conselho é um Donald Trump secundado por sua equipe, os companheiros de sempre. A dominação dessa “equipe fundadora” já ficou visível no convite aos futuros participantes: eles decidiram sozinhos quais países seriam convidados e quais seriam excluídos.

China e Rússia fazem parte dos eleitos. Também a Ucrânia, que já declarou ser impensável sentar-se em torno de uma mesa junto com a Rússia. Todos os países europeus foram chamados, mas quase nenhum confirmou até agora. Convidado, o Canadá respondeu que nem em sonho pagaria o bilhão de dólares exigido de cada participante. Um bilhão de joia, como num clube de luxo!

Os que já correram pra confirmar presença são os bons amigos de Trump, como Argentina, Israel e Hungria. Já a França e a Noruega recusaram logo de saída. Segundo Trump, “todo o mundo quer fazer parte”. Não parece. Dos cerca de 60 convidados, nem metade confirmou até agora. Entre os que disseram sim, estão: Azerbaidjão, Kosovo, Cazaquistão, Bahrein, Marrocos, Armênia. Uma seleção pra ninguém botar defeito.

Se posso dar um conselho à equipe de Lula, será o de pensar duas vezes antes de responder. Antes de mais nada, acho pretensioso, da parte de quem dá a festa, mandar “convite” e ainda cobrar um bilhão de dólares de entrada. Um montante assim deixa de ser simbólico e passa a significar enriquecimento ilícito à custa de quem pode menos. E, no fundo, esse dinheiro vai para quem? Para o tesouro americano? Para o bolso de Trump? Não ficou claro.

Donald está utilizando o truque da adulação. Está atiçando a vaidade de cada um. Muita gente se sentiria orgulhoso de sentar-se ao lado de Trump em volta de uma mesa – o saudoso Bolsonaro já caiu nessa, anos atrás, quando aceitou convite para jantar (e pernoitar) em Mar-a-Lago. Para ter esse privilégio, muito líder pagará o preço que for (sobretudo porque o dinheiro sairá do tesouro nacional, não do bolso do convidado).

Lula é vaidoso e sensível a marcas de apreço dadas por dirigentes mundiais. É por isso que advirto: Lula, prezado presidente, segure-se, conte até dez, tome um chuveiro d’água fria, respire fundo, dê um passeio na grama, converse com as emas, tire férias em Garanhuns. Mas recuse esse convite. O Brasil vai deixar de gastar um bilhão de dólares e vosmicê vai evitar passar vergonha.

O que Trump quer é estar rodeado de anjos que lhe digam amém. Ou alguém imagina que esse “conselho” tem vocação para o diálogo e a negociação?

Segure-se, Lula. Fuja dessa, meu irmão.

Board of Peace – logo

Davos, 21 janeiro 2026
Trump aproveitou estar em Davos para reunir solenemente os “membros fundadores” de seu clube. Assinaram a ata de fundação os seguintes países:

• Argentina — Presidente Javier Milei
• Armênia — Primeiro-Ministro Nikol Pachinyan
• Azerbaidjão — Presidente Ilham Aliyev
• Bahrain — Xeique Isa bin Salman Al Khalifa
• Bulgária — Primeiro-Ministro Rosen Jelyazkov
• Catar — Primeiro-Ministro Xeique Mohammed bin Abdul Rahman Al Thani
• Cazaquistão — Presidente Kassym Jomart Tokayev
• Emirados Árabes Unidos — Ministro Khaldoon Al Mubarak
• Hungria — Primeiro-Ministro Viktor Orbán
• Indonésia — Presidente Prabowo Subianto
• Jordânia — Primeiro-Ministro Ayman Safadi
• Kosovo — Presidente Vjosa Osmani
• Mongólia — Primeiro-Ministro Gombojavyn Zandanchatar
• Marrocos — Ministro de Relações Exteriores Nasser Bourita
• Paquistão — Primeiro-Ministro Xehbaz Xarif
• Paraguai — Presidente Santiago Peña
• Saudi Arabia — Ministro de Relações Exteriores Faisal bin Farhan Al Saúd
• Turquia — Ministro de Relações Exteriores Hakan Fidan
• Uzbequistão — Presidente Chavkat Miromonovitch Mirziyoyev

Como se pode ver, só gente fina. Nenhum europeu, com exceção da Hungria e da Bulgária. Nenhum latino-americano, com exceção de Argentina e Paraguai (nem mesmo El Salvador topou). Nem China, nem Rússia, nem Canadá. Um detalhe curioso: Israel anunciou sua adesão mas, na hora agá, não assinou. Talvez não tivessem levado um bilhão de dólares no bolso, o que era condição incontornável. Nesse caso, assinar mais tarde.

Segura-te, Lula!

Um último detalhe, pequeno, mas que diz muito. Observe o mapa-múndi do logo. Reparou em algo inusitado? Pois é claro! Pra ser mapa-múndi está xinfrim. Só aparecem a América do Norte e um pedacinho da América do Sul e da Groenlândia. Será esse o mundo de Trump? Com um logo desses, como é que ele pretende resolver problemas do planeta inteiro? Ainda precisa comer muito feijão.

Acordo Mercosul-UE: uma boa coisa?

José Horta Manzano

O Acordo de Associação Mercosul-União Europeia começou a ser negociado 27 anos atrás, em junho de 1999, ao tempo em que o Brasil era presidido por FHC. Foi assinado fim de semana passado, num convescote em Assunção do Paraguai que reuniu dirigentes do Mercosul além de Ursula von der Leyen (presidente da Comissão Europeia) e António Costa (presidente do Conselho da Europa).

Durante essas quase três décadas, o futuro tratado permaneceu recôndito, perdido nos escaninhos da pesada burocracia europeia reforçada pela cacofonia sul-americana. Agora, mesmo assinado com discursos ufanistas e bandeiras festivas, a peregrinação da papelada ainda não chegou ao fim. Falta ser referendado pelo Parlamento de cada país membro da UE e do Mercosul. São mais de 30 assinaturas, cada uma requerendo discussão, voto, e todo o tralalá. Só depois de assinado pelo último parlamento nacional, entrará o tratado em vigor. Enfim.

“Carne de gado” é expressão caída em desuso. Há de ser consequência da hipocrisia que se alastra nestes tempos em que o sem teto virou “cidadão em situação de rua” e a favela se tornou “comunidade”. Uma vez banida a desagradável expressão que evoca bois cortados ao meio sendo carregados no ombro de portadores vestidos de branco, como se se buscasse acentuar a imagem sanguinolenta do espetáculo, hoje convém dizer “proteína animal”.

Pois é justamente essa “proteína”, assim como produtos agrícolas exportados pelos sócios do Mercosul que botaram medo no consumidor europeu. Se a conclusão do tratado recém-assinado tardou, foi em consequência desse nó. As autoridades europeias sabem que as regras que estipulam o que é permitido (e o que não é) não são as mesmas dos dois lados do Atlântico.

Na França, ao se referirem à carne importada de Brasil e Argentina, os agricultores costumam dizer, com desdém “bœuf aux hormones” (boi com hormônios). A mesma desconfiança se aplica a produtos agrícolas, dado que, na América do Sul, a quantidade de diferentes pesticidas permitidos é maior que na Europa. Até certo ponto, é surpreendente que, apesar desses bloqueios, a UE tenha finalmente consentido em assinar o tratado.

Em artigo desta segunda-feira, Mafalda Anjos, escritora portuguesa, considera que “as ameaças de Trump ajudaram que [a Europa] caísse nos braços da América Latina”. Pode até ser, embora me pareça uma explicação meio romanceada.

Já na Suécia, país sem grandes pretensões agropastoris, autoridades se manifestaram pela publicação “Dagens Industri” e aplaudiram contentes o acordo. Para eles, trata-se de “uma vitória para os países do mundo livre”. E acrescentam que “Numa época em que os países se voltam para dentro e a cooperação internacional é questionada, a UE e a região do Mercosul escolhem outro caminho. Um caminho caracterizado pelo comércio em vez do protecionismo, pela cooperação em vez da divisão e pelo crescimento em vez da estagnação”.

Me parece uma esperança enorme! Mas acho que os suecos têm razão. Mesmo se o acordo (ainda) não é perfeito, sempre pode ser modificado. De todo modo, mais vale um acordo imperfeito que acordo nenhum. Isso assume especial importância num mundo instável em que o nosso está se transformando.

Nesta ordem mundial que está fazendo água, os pré-náufragos que somos precisamos encontrar algum pedaço de madeira resistente ao qual nos agarrar.

Morrer pela Groenlândia

Nuuk, capital da Groenlândia

José Horta Manzano

Ao pé das montanhas geladas da Groenlândia estão para ser delineados parâmetros para o convívio das nações neste 21° século. A depender do que aconteça nas próximas semanas e meses, o futuro da humanidade dará um tímido passo adiante ou regredirá dois séculos e sacramentará a vigência da lei do mais forte.

Passado o pesadelo da Segunda Guerra Mundial, a quase totalidade dos países se reuniram na recém-criada ONU para pôr ordem no tabuleiro e fixar regras que evitassem conflitos e guerras. Essas regras nem sempre foram respeitadas, mas permaneceram, por décadas, como balizas de como as coisas deveriam ser.

De lá pra cá, a integridade e a soberania nacional nem sempre foram respeitadas.

Em 1950, a China, por ordem de Mao, invadiu o Tibet que, após longo período de distúrbios, acabou anexado pelo invasor e se tornou parte integrante da República Popular.

Em 1979, foi a União Soviética a invadir o Afeganistão; Moscou só mandou retirar suas tropas depois de 9 anos de ocupação.

Os Estados Unidos, por seu lado, mantiveram a tradição de invadir ou intervir, por curtos períodos, em numerosos países; tirando a guerra do Vietnã, que durou doze anos, as outras intervenções foram mais breves, da Coreia à Líbia.

Ao ameaçar tomar posse da Groenlândia, Donald Trump eleva a novo patamar o desrespeito à soberania de países estrangeiros. A Otan, tratado de defesa mútua ligando EUA, Canadá e quase todos os países europeus, estipula que o ataque armado a um dos países signatários será considerado um ataque a todos os outros, que, por seu lado, se comprometem a defender o atacado.

O tratado não prevê a invasão de um país membro por tropas de outro país membro. Caso os EUA de Trump cumpram sua ameaça de tomar a Groenlândia pela força, não faz sentido pensar num confronto EUA x todos os demais países membros. Primeiro, por uma questão ética e segundo, porque a força militar americana é superior à de todos os signatários da Otan reunidos. Os europeus não estão dispostos a mandar sua juventude ao campo de batalha morrer pela Groenlândia.

A Dinamarca é a proprietária daquela imensidão gelada. Por mais que seja civilizada e rica, a Dinamarca é um país pequenino, do tamanho do estado do Rio de Janeiro, com 6 milhões de habitantes. Imagino que, se a proprietária da Groenlândia fosse o Reino Unido ou a França, países mais fortes que possuem a arma nuclear, Trump pensaria duas vezes antes de ameaçar tomar o território à força.

Estes dias, há muito movimento em torno do assunto. Um detalhe absurdo é de se notar: oito países da Otan estão mandando tropas para defender a Groenlândia de um ataque americano: Alemanha, Reino Unido, França, Suécia, Noruega, Finlândia, Holanda e Estônia. A Europa se defendendo de ataque militar americano! É surreal. São tropas reduzidas, de valor simbólico, mas demonstram a disposição dos europeus de não permitirem que Washington leve um pedaço de seu território.

Trump, que tem em mãos a força bruta, é imprevisível. Se ele decidir que quer porque quer levar a Groenlândia, ninguém poderá detê-lo. Se isso ocorrer, a conquista de território alheio pela força estará, daqui pra diante, autorizada.

Só nos resta apreciar a movimentação e torcer para que o pior não aconteça.

Política pelo espalhafato

Oceano Ártico

José Horta Manzano

Como político, Donald Trump é inclassificável. Não se encaixa em nenhum modelo habitual. Autoritário é, mas não atinge os cumes a que chega um Putin; Trump sabe quando é chegado o momento de dar meia-volta. Personalista também é, mas ainda está para aparecer um líder que não o seja. A ignorância é outra de suas características, mas não é um não saber incurável que um bom assessoramento não possa mitigar.

O que distingue a personalidade de Trump são as palavras e os atos espalhafatosos, imoderados, apesar disso assumidos plenamente. Ordena ações militares pontuais que surpreendem e assustam, sem necessariamente resolver problemas.

O bombardeio do Irã, em junho de 2025, foi espetacular, mas passou longe de eliminar as instalações nucleares do país. Assustou, mas, de resto, foi pra inglês ver.

Ainda outro dia, anunciou ter bombardeado posições da guerrilha islamita em território sírio. Todo o mundo sabe que guerrilha não se combate com bombas lançadas por aviões.

A armada que Trump enviou para as costas venezuelanas era digna de uma batalha naval – que nunca houve, justamente por não estar no programa. A frota de guerra permaneceu semanas inteiras até que uma noite um comando foi mandado a Caracas, entrou atirando e capturou o presidente do país. Goste-se dele ou não, era o presidente, ainda que sua eleição fosse contestada. Para escárnio do mundo, o sequestrado foi levado para os Estados Unidos e lá exibido como animal de feira, mãos algemadas, pés entravados, macacão cor de abóbora. Por pouco, os curiosos não lhe lançaram bananas e pipocas. Dez dias depois, Trump declarou entender-se bem com a peona chavista que substituiu o ditador venezuelano. E tudo bem, que a vida segue. Moral da história? Tire a conclusão que lhe agradar.

Como se vê, o espalhafato é componente essencial da política trumpista. Há que conceder-lhe o mérito de atrair em permanência as atenções para sua pessoa.

Desde que assumiu o mandato, um ano atrás, Trump apregoa a quem quiser ouvir que a Groenlândia “tem de ser” americana, doa a quem doer. Se não for pelas boas, será pelas más, – promete ele. Volta e meia, torna a repetir o mantra da Groenlândia.

Não é de hoje que os Estados Unidos estão interessados em adquirir a Groenlândia. Faz século e meio que estão tentando. Mas é fácil entender por que razão o interesse cresceu dramaticamente nos tempos atuais. O aquecimento global (que Trump garante ser balela) está aí, só não vê quem não quer. Com os gelos eternos do topo do globo derretendo a olhos vistos, imensas possibilidades se abrem.

Novas vias navegáveis, antes bloqueadas por uma calota de gelo, começam a se abrir. O derretimento do gelo groenlandês tem duas consequências imediatas. A primeira é a subida do nível dos oceanos, e a inundação progressiva de baixios costeiros no mundo todo. A segunda é o afloramento de terras e rochas da Groenlândia, antes cobertas de neve e gelo, abrindo a possibilidade de exploração de suas imensas riquezas minerais.

Acostumados que estamos a ver o mapa-múndi tradicional, com as Américas à esquerda e a Ásia à direita, nos parece que a América do Norte e a Rússia estão muito distantes. E que a Groenlândia não tem a ver nem com esta nem com aquela. Basta mudar o ponto de vista e desenhar o planisfério com o Polo Norte no centro (ver ilustração). Agora, sim, dá pra entender que a Groenlândia é uma imensa ilha situada bem no meio do caminho entre a América do Norte e a Rússia. A distância do Canadá para o norte da Rússia (= a largura do Oceano Ártico) é de menos de 2.000km. Um pulinho.

Fica, agora, mais claro o porquê do interesse obsessivo de Trump pela ilha dinamarquesa. Tenho palpite que, com ou sem espalhafato, o presidente americano vai acabar conseguindo o que deseja.

Três semanas atrás, por acaso alguém imaginaria que, em uma noite, Maduro seria capturado e exfiltrado da Venezuela para nunca mais voltar?

Tratado de Tordesilhas 2.0

O mundo segundo Trump
by 1alex06Alex/

José Horta Manzano

Aprendemos na escola que, no mês de junho de 1494, embaixadores dos reinos de Portugal e de Castela (Castilha) se encontraram na localidade castelhana de Tordesilhas para firmar um tratado que dividia as terras por descobrir entre Portugal e Espanha. Aquele documento de 532 anos atrás foi posteriormente avalizado pelo papado, beneplácito indispensável num tempo em que o poder espiritual pairava acima do temporal.

Com a queda dos grandes impérios, no início do século XX, e com o processo de descolonização, nos anos 1960, a lei do mais forte, que tinha vigorado desde que o mundo é mundo, perdeu vigor. O planeta até acreditou estar assistindo a um movimento irreversível em direção a uma era de relações pacificadas entre Estados, baseadas no direito internacional e numa coexistência civilizada.

A prova dessa repulsa a guerras de conquista foi dada em 2014, quando a Rússia, tendo anexado a Crimeia pelas armas, foi afastada do círculo de países “normais” e escanteada para uma posição de “nação pária”, privada até de G8 (que se tornou G7).

A história seguiu assim, incerta, até que, sob o olhar apreensivo e impotente do resto do mundo, os eleitores americanos escolheram Donald Trump para presidir o país pela segunda vez. A partir daí, o mundo entraria em progressivo desequilíbrio. Todos os dogmas que imaginávamos definitivos e gravados na pedra ruíram. Tradicionais políticas internacionais de diálogo e dissuasão deram lugar à lei do mais forte, um recuo acentuado na história da humanidade.

Hoje assistimos, esgotados e desarmados, a um Trump voluntarioso, que ataca a vizinha Venezuela com porta-aviões, encouraçados, centenas de aviões e helicópteros, mísseis, militares e forças especiais, tudo isso para abduzir o líder do país e levá-lo para longe. Notas de “forte condenação” foram a expressão mais incisiva dos países ao redor do planeta, espantados e intimidados perante o espetáculo de força dado pelo Estado mais poderoso do mundo.

A agressividade de Trump, aliada a sua mansidão para com Putin e à distância que ele mantém de Pequim sugere que os tempos chegaram para a ressurreição do velho Tratado de Tordesilhas, agora em versão 2.0 e dispensada de bênção papal.

De fato, a cada dia que passa, nos apercebemos que, na cabeça de Trump, a ideia é ver nosso planeta subdividido em 3 zonas de influência. A primeira, que os EUA reservam para si, inclui as Américas e a Groenlândia. A segunda, destinada a viver sob influência de Moscou, cobre a Rússia, a Europa, os países da finada URSS e o norte da África. A terceira e última deve ser a área de influência de Pequim; compreende as demais regiões do mundo (ver mapa).

Acredito que Putin se sinta honrado e contente de ver que futuras agressões à Europa e aos antigos países satélites estejam, desde já, implicitamente reconhecidas por Trump. Já quanto a Pequim, não tenho certeza de que sua visão globalista coincida com o esquema que Trump parece propor. Não é do feitio chinês renunciar a comerciar com todos os países.

O mundo está entrando de pé firme numa nova era. Pode incomodar (e certamente incomoda) muita gente, mas não deixa de ser fascinante.

Uma lágrima por Maduro

by Patrick Chappate (1964-), desenhista suíço

José Horta Manzano

O povo e a lágrima
Uma lágrima por Maduro… quem é que vai derramar? O caricato caudilho reinou sobre a Venezuela por anos e acabou abduzido por forças militares provenientes justamente do odiado “império”. Que ironia… Com certeza, não será seu próprio povo que vai deixar rolar uma lágrima de saudade. A imensa maioria da população venezuelana se encontra agora num estado desconfortável, em que cabem a esperança de dias melhores, uma pitada de euforia reprimida e uma visível apreensão.

A reportagem da BBC fez curtas entrevistas com transeuntes, numa Caracas em que ainda fumegavam as ferragens retorcidas de veículos militares bombardeados. Uma caraquenha, sob condição de anonimato, confessou que os venezuelanos querem apenas “viver sem medo”. Acrescentou que “o importante não é o petróleo, mas a liberdade da Venezuela e um futuro melhor para seus habitantes”. Disse ainda que “ninguém teria escolhido esse modo de fazer uma transição política, mas alguma coisa precisava acontecer”.

No amanhã do bombardeio da cidade e da captura de Maduro, Caracas esteve calma, mergulhada num ambiente pesado, em que ninguém ousava comentar os acontecimentos. Não é da noite para o dia que se destravam bocas caladas há anos sob o jugo da repressão onipresente. Regimes autoritários como o de Maduro se sustentam silenciando opositores e vozes discordantes. Na dúvida, silenciam-se todas as vozes.

Um vizinho simpático pode representar perigo: seria talez um informante a soldo do regime? O mesmo vale para a senhora transpirada, logo à sua frente na fila do caixa do supermercado: estaria assuntando as conversas dos demais? No Brasil, desde 1985, nos desacostumamos a viver dessa maneira, baixando os olhos e falando pelos cantos. Os patetas que hoje clamam por uma ditadura militar não fazem a menor ideia do que seja viver num regime desse naipe. São uns pobres bugres ignorantes, alegres mas sem noção.

Meia-volta volver
Sob todos os aspectos, o ataque à Venezuela foi acintoso, um atentado contra o direito internacional. Praticado pelos Estados Unidos, país membro permanente do Conselho de Segurança da ONU, o fato assume proporções assustadoras. É um abalo forte nas normas de convivência internacional e anúncio sinistro de guinada ao passado, ao tempo em que o mundo se dividia entre metrópoles e suas colônias.

Contra a lei da selva, nada se pode fazer. Os EUA são mais poderosos que todos os demais países americanos reunidos. Portanto, o que está feito, feito está. A “jus sperneandi”, neste caso, não vige.

A prisão do líder
Não acho muito certo hospedarem Maduro numa prisão comum nos EUA, a exemplo do Metropolitan Detention Center (no Brooklyn, NY) prisão em que se encontra atualmente. Não digo isso por uma questão de manter privilégios, mas há que convir que personalidades públicas têm um grau de exposição mais elevado que um cidadão comum. O risco de ser maltratado, ferido ou até assassinado por outro(s) detento(s) é grande. Pelo mesmo motivo, não gostaria que Lula ou Bolsonaro fossem metidos na Papudona, no Centro de Detenção de Pinheiros ou em Bangu. Uma quentinha envenenada pode ser servida a qualquer momento.

Dado que não é possível construir uma prisão especialmente para Maduro, acredito que a melhor solução seria pô-lo em prisão domiciliar vigiada. Ele e a esposa teriam, daqui até o fim de suas vidas, tempo suficiente para refletir sobre os erros cometidos e os bilhões de dólares perdidos. Que, aliás, podem bem se encontrar abrigados, em nome de laranjas, em bancos americanos.

Conselho a Mr. Trump
Este recadinho vai direto para Mr. Donald Trump que, como todos sabem é leitor assíduo deste blogue.

Dear Mr. Trump,

Congratulações pela espetacular intervenção na Venezuela e pela cinematográfica abdução do pranteado Nicolás Maduro – que ainda há de render filmes hollywoodianos no futuro.

Agora, que as supimpas Forças Especiais americanas estão ainda mais bem treinadas, sugiro-lhe preparar uma ação para raptar aquele que – esse, sim! – tem sido a causa de milhares de mortes diárias e dores de cabeça para o resto do mundo. Falo de Vladimir Putin.

Ordene a suas Forças Especiais que infiltrem Moscou e colham aquele criminoso que lá se esconde, um personagem muitíssimo mais nocivo e perigoso que o tosco Maduro.

O senhor receberá aplausos do mundo inteiro e, de quebra, garantirá seu tão desejado Prêmio Nobel da Paz!

Agradecimentos antecipados.

Os imigrantes e o pilantra

Donald Trump by Donkey Hotey

José Horta Manzano

Já antes de assumir o mandato, Donald Trump tinha prometido limpar os Estados Unidos de todos os imigrantes ilegais. Muitos imaginaram que não passasse de bravata, que o sistema funcionaria em rotação contínua: cada ilegal expulso seria rapidamente substituído por novo imigrante.

No entanto, as investidas do governo contra comunidades ibero-americanas têm sido tão incisivas, que o fluxo de clandestinos rapidamente diminuiu; hoje não se ouve mais falar em “invasão” de gente morena e pobre.

Na época em que se declarou hostil a todos os imigrantes pobres, Trump argumentou que eram todos assassinos, ladrões e estupradores. Quando alguém chamou sua atenção para o fato de nem todos serem fora da lei, Trump teria respondido que alguns eram, e que, ao expulsar todos, os bandidos também seriam expulsos.

Algum tempo atrás, um Brasil meio constrangido ficou sabendo das estrepolias de um aventureiro, filho de brasileiros mas nascido nos EUA, que se içou ao posto de deputado federal por Nova York. George Santos é o nome do rapaz, hoje com 37 anos. Já eleito, os podres de seu passado começaram a aparecer.

No Brasil, mentiras, declarações falsas e malversações com dinheiro de campanha eleitoral podem parecer de menor gravidade, mas, nos EUA, são imperdoáveis. Além de perder o mandato, o moço foi julgado e ganhou uma sentença de sete anos de cadeia.

Quinze meses se tinham passado desde seu encarceramento quando Mr. Santos, espertalhão escolado, decidiu escrever carta aberta ao presidente Trump. O texto, escrito em linguagem melosa e bajuladora, pedia clemência ao chefe do Estado. Parece mimimi de brasileiro, mas, comportamento raro nos EUA, impressionou o presidente. E acabou dando certo.

Donald Trump escreveu uma mensagem na sua rede social Truth Social com o texto seguinte:


“Ele era meio pilantra, mas há muitos pilantras em todo este país que não são condenados a cumprir sete anos de prisão. Pelo menos, Santos teve a Coragem, a Convicção e a Inteligência de SEMPRE VOTAR NOS REPUBLICANOS! Na prisão, George esteve no isolamento por longos períodos e, segundo todos os relatos, foi terrivelmente maltratado. Portanto, acabei de assinar um indulto, libertando George Santos da prisão IMEDIATAMENTE. Boa sorte, George, tenha uma linda vida!”


Desta vez, Trump inverteu o raciocínio que havia utilizado com relação aos imigrantes clandestinos. Para os imigrantes, ainda que a grande maioria fosse de gente boa e bem intencionada, expulsavam-se todos, assim os bandidos iam embora também. Já no caso de George Santos, é o contrário. Já que não dá pra mandar todos os pilantras para a cadeia, solta-se o pilantra preso, pois é injusto manter um preso e deixar tantos soltos.

Raciocínio esquisito? Também acho. Mas vamos em frente, que atrás vem um montão de gente.

Glanage

José Horta Manzano

Cada terra com seu uso, cada roca com seu fuso – assim reza antiquíssimo provérbio português. É verdade. O youtube está cheio de vídeos filmados, às vezes, por marinheiros de poucas águas, mostrando particularidades e curiosidades daqui e dali. Hoje vou falar de uma prática comum na França, sobre a qual ainda não assisti a nenhum vídeo. Talvez a prática esteja em vigor também em outros países, não tenho certeza. Vou falar do que sei.

Como já sabem meus atentos leitores, os franceses têm palavra para tudo. E usam. Já nós somos menos rigorosos nesse particular. Portanto, na ausência de “similar nacional”, vou usar a palavra francesa e explicar o significado. Vai aqui um glossário dos substantivos (todos masculinos em francês):

Glanage: ato de catar restos que a colheita deixou para trás
Maraudage: ato de furtar antes da colheita
Grappillage: ato de colher no pé ou na planta alheia
Râtelage: ato de colher em terra alheia com uso de ferramenta

Não sei quando começou a ser regulamentado o glanage, mas é prática antiquíssima. Acredito que estivesse codificado já na Idade Média. Trata-se da prática de catar restos da colheita, deixados para trás. As colhedeiras modernas são eficazes, mas sempre deixam cerca de 1% de restos não colhidos. Num plantio de batatas, por exemplo, numa gleba que produz 100 toneladas, ainda restará na terra uma tonelada de tubérculos não colhidos. Vale a pena procurar.

Num belo domingo ensolarado de fim de outubro, quando a colheita da batata já terminou, vale a pena gastar algumas horas com a família (especialmente com as crianças, que vão adorar) remexendo a terra à cata de batata. Quem tiver paciência volta para casa com um saco cheio. Para famílias de poucas posses, é uma economia e tanto.

Condições para o glanage legal

Para ser legal, o glanage tem de respeitar os seguintes pontos:

  •  Após a colheita: Só é permitido “glanear” os produtos que tenham caído ao solo (ou ficado enterrados no solo) ao fim da colheita principal.
  •  À mão: O uso de ferramentas (p.ex: rastelo) é proibido, pois transforma o glanage em râtelage, uma prática não permitida.
  •  Durante o dia: O glanage deve ser realizado durante o dia, à vista de todos.
  •  Em terreno não cercado: É proibido “glanear” em campos fechados com cerca, pois trata-se de propriedade privada.
  •  Respeitar os decretos municipais: Verificar com a prefeitura se algum decreto proíbe o glanage no município.

O que é proibido:

  • Maraudage/grappillage: Colher frutas ou legumes diretamente do pé ou da planta não é glanage, é furto.
  • Uso de ferramentas: O râtelage é proibido.
  • Glanage à noite: É proibido.
  • Terrenos cercados: É proibido entrar em propriedades privadas cercadas.

Recomendações importantes:

  • Peça autorização: Embora a lei permita sob certas condições, é sempre bom solicitar a autorização do proprietário ou do responsável pela terra antes de começar a “glanear”, para evitar mal-entendidos ou conflitos.
  • Respeite as quantidades: O espírito do glanage é recolher o que foi deixado para trás em quantidades correspondentes ao consumo familiar, nunca para comercialização.

Pronto, vosmecê já sabe como funciona na França. Mas não recomendo tentar “glanear” no Brasil. Garruchas, trabucos e carabinas correm soltas por aí. Prudência!

França x Brasil: condenados lá e cá

by Kleber Sales

José Horta Manzano

Nicolas Sarkozy foi presidente da França por um mandato de 5 anos, de 2007 a 2012. Faz uns dias, foi condenado a 5 anos de prisão em regime fechado. A sentença estipula que Sarkozy permanece em liberdade por algumas semanas, mas que terá de cumprir a sentença, pelo menos inicialmente, atrás das grades. Um eventual recurso – com o qual o condenado já declarou que vai entrar – não terá efeito suspensivo. Em outras palavras, é cadeia ou cadeia.

A promotoria acusou o ex-presidente de ter recebido dinheiro da Líbia para sua campanha eleitoral. Observe-se que, à época, Muamar Kadafi era ditador do país. No entanto, a acusação não conseguiu provar o recebimento da alegada ajuda financeira. Assim sendo, Sarkozy não pôde ser condenado por corrupção.

Severo, o tribunal julgou que o acusado era assim mesmo culpado de formação de quadrilha, visto que ele tinha se reunido com dois amigos próximos para solicitar e receber o dinheiro vindo da Líbia, ainda que nenhuma transação tenha sido detectada na investigação.

Mesmo sem ser sarkozista, achei que os juízes foram muito severos. Enfim, se Sarkozy tivesse feito tudo certinho, dificilmente teria se encontrado diante de um tribunal. O que fica como marca desse julgamento excepcional são a pena de 5 anos e a obrigação de ser encarcerado imediatamente. Se deixaram algumas semanas de respiro ao condenado, foi em consideração por ele ter sido presidente da República e por já ter 70 anos.

Chamada Folha de S. Paulo
25 set° 2025

Todos nós conhecemos um outro ex-presidente que aprontou horrores, só que fez isso quando já estava na Presidência. Foi Bolsonaro. Como Sarkozy, também tem 70 anos – são do mesmo ano. Duas semanas atrás, Bolsonaro foi condenado, por um tribunal colegiado de 5 juízes, a 27 anos de prisão em regime inicialmente fechado. Apesar desse prontuário, está em “recolhimento domiciliar”, esperando não se sabe bem o quê.

Nosso sistema judiciário tem peculiaridades que o leigo tem, às vezes, dificuldade em entender. Julgado por um colegiado de magistrados da mais alta corte do país, com pena definida, o condenado continua em casa, na poltrona macia, de chinelas, dando ordens à família, à empregada e ao cachorro. Esperando o quê?

Hoje me diz a imprensa que “Bolsonaro toparia redução de penas com garantia de prisão domiciliar”. Toparia? Que quer dizer isso? Será que, antes de encarcerar o condenado, nosso sistema prisional propõe uma negociação? Tipo assim: o senhor quer redução de pena com prisão domiciliar ou prefere cumprir pena integral em regime fechado na Papuda? Francamente, não faz sentido.

Na França, o condenado Sarkozy, que está longe de ser um santinho, terá de provar a sopa rala que lhe servirão na Prison de la Santé ou outra qualquer onde for encarcerado. O camburão virá buscá-lo em casa assim que o juiz mandar. No Brasil, o condenado Bolsonaro, nosso ex-candidato a ditador mequetrefe, continua sentadinho na poltrona macia de sua mansão. Aguarda a garantia de prisão domiciliar. Com redução da pena.

Se, no púlpito da ONU, Lula tivesse lembrado de contar essa peculiaridade de nosso sistema, teria desarmado Trump. Imagine só: o bandido de estimação do presidente americano estará qualquer hora descondenado!

Wake up, America!

José Horta Manzano

O processo e o julgamento a que Jair Bolsonaro teve direito não são fato corriqueiro. De fato, não é todo dia que se assistem às consequências judiciais de um golpe dado com a intenção de tomar (ou conservar) as rédeas do poder de um Estado. Golpes há, processos são mais raros.

O malogro contribui para a raridade do que ocorreu com Bolsonaro: só golpe malogrado dá processo. Golpe bem sucedido costuma dar execução sumária (dos adversários), exílio, “desaparecimento”, cadeia ou coisa pior. Tudo longe de qualquer processo. Se o golpe urdido por Bolsonaro tivesse dado certo, só quem vive fora do país estaria em condição de comentar ou criticar neste momento. No interior das fronteiras, o silêncio seria obrigatório.

Golpes costumam ser bem planejados, bem organizados, bem disciplinados e, como consequência, bem sucedidos. Bolsonaro quis dar o seu, mas não tinha gabarito para tal. Como diziam os metalúrgicos do ABC, comeu mortadela e tentou arrotar peru. Entupido na própria mentira, dançou.

No momento atual, ao redor do mundo, não há muitos, vamos dizer assim, “pré-golpes”, como o de Bolsonaro em andamento. Há o caso da Hungria, um golpe como aquele que o capitão sonhou. Só que a versão húngara está sendo conduzida com método, paciência e disciplina, qualidades que nunca fizeram parte do arsenal bolsonárico. A distorção da democracia húngara já passou do ponto de não retorno. A meu ver, pouco ou nada se pode fazer para evitar a consolidação de um regime iliberal ali.

Há, sim, um lugar do globo em que a queda e a condenação de Bolsonaro devem servir de sinal de alarme porque ainda dá tempo: são os Estados Unidos. Não sei se por respeito, susto ou medo, os eleitores que não votaram em Trump nem têm por ele nenhuma simpatia continuam encantados, hibernados, paralisados.

Faz 8 meses que o novo presidente assumiu, já retalhou discricionariamente instituições, entrou em conflito com magistrados, com personagens da sociedade e com o eleitorado não branco, já desferiu golpes pesados em empresas importadoras, já comprou briga com países amigos com impostos de importação proibitivos, já se indispôs com a Rússia, com a Índia, com o Brasil, com a Suíça, com a Dinamarca, com o México, com o Canadá, com a Venezuela, com a Ucrânia. Meteu-se pessoalmente a perseguir juízes de nossa Corte Maior e a exigir que julgamentos em andamento fossem anulados.

Diante de tudo isso, os eleitores que não votaram nele continuam entorpecidos, sem reação, sem palavras, sem um pio. Dá vontade de gritar: “Wake up, America!” – Acordem, Estados Unidos! Está passando da hora de se agitar, desenterrar o machado de guerra (olhe lá, metaforicamente!) e agir. Juntem bons advogados, que vocês devem ter, estudem a melhor maneira de enquadrar Trump, a melhor brecha na lei para alcançá-lo, e vão em frente!

Por prudência, comecem desde já a preparar a luta a travar quando ele sair do governo, por fim de mandato ou por renúncia. Se puderem impichá-lo antes, melhor ainda. Vocês não imaginam o que perderão caso permitam que seu sucessor seja um cafajeste da mesma espécie.

Corram, que ainda dá tempo!

Na volta do futuro

Cena do filme
A máquina do tempo (1960)

José Horta Manzano

Você talvez já tenha assistido a um daqueles filmes que roçam a ficção científica e que contam a história de uma viagem ao futuro, com direito a tempo de observação e interação com populares, e com volta garantida ao presente (nem que fosse pra relatar o que o(s) viajante(s) viu(viram).

A máquina do tempo (1960) e De volta para o futuro (1985) são bons exemplos desses bate-volta para o futuro. Os protagonistas vão e acabam voltando, que é pra terem o que contar.

Eu gostaria muito de poder entrar numa dessas máquinas, com bilhete de ida e volta pra daqui a, digamos, cinquenta anos. No futuro, naturalmente. Minha curiosidade é observar o planeta e a humanidade – se humanidade existir – pra avaliar a influência, a longo prazo, de Donald Trump e Vladímir Putin.

Como se sabe, os dois representam a junção da escuridão das trevas com o poder das armas. E, cada um na medida de suas possibilidades, tem maltratado a humanidade.

Trump, ignorante, estabanado, mas ultrapoderoso, tem dado dor de cabeça a muita gente fina. Com sua doutrina de aumentar arbitrariamente impostos de importação, está espalhando decepções e dúvidas. Está colocando firmas no caminho da falência. Está desempregando levas de cidadãos que não têm nada a ver com o peixe.

Putin, raposa esperta que busca dar impressão de ter mais poder do que tem, tem martirizado a população da vizinha Ucrânia. Ele deu início a essa guerra estúpida por um erro de cálculo – contava que suas tropas seriam acolhidas com flores e que o governo de Kiev cairia em poucos dias. Não foi o que aconteceu, mas já era tarde pra voltar atrás.

O apoio cego e incondicional de Trump aos israelenses os tem encorajado a forçar a mão. Não só em Gaza, onde levam a cabo um revoltante genocídio, mas também nos territórios ocupados da Cisjordânia, onde implantam novas colônias a cada dia.

À vista do que sucede na Ucrânia, os demais vizinhos da Rússia – e são muitos! – vivem num pavor permanente, indagando-se quem será o próximo. Faz algumas décadas, foi a Finlândia que foi amputada de boa parte de sua terra. Mais recentemente, foi a vez de a Geórgia perder para os russos um terço de seu território.  Do ponto de vista econômico, a Rússia está longe das grandes nações: sua população é declinante e seu PIB corresponde, grosso modo, ao da Espanha.

Daqui a cinquenta anos, tanto Trump (79 anos este ano) quanto Putin (73 anos este ano) já terão partido deste vale de lágrimas. Quem estará no topo do poder na Rússia? Provavelmente um outro ditador, talvez menos belicoso que Putin, mas nâo muito. E quem estará na Casa Branca? Se Trump não tiver quebrado a democracia americana, um novo presidente de um dos partidos principais.

Mas pouco interessa quem vai estar no poder. O que quero saber é quais terão sido as consequências da passagem destes dois trevosos pelo poder. É muito difícil fazer uma ideia de como será um futuro tão distante. Se não se sabe ainda nem quais serão os candidatos às presidenciais brasileiras do ano que vem, imagine querer saber do estado do planeta daqui a meio século… É justamente por isso que eu adoraria embarcar numa máquina do tempo em direção a 2075.

Estas próximas cinco décadas são tempo suficiente pra consertar muita coisa no planeta. Só que precisa empenho e boa vontade, moléculas nem sempre abundantes na superfície terrestre. Que a Rússia continuará sendo uma ditadura, é quase certeza. Aquele país nunca conheceu um regime democrático. Passaram direto do absolutismo tsarista à ditadura comunista. E da ditadura não saíram até hoje.

Quanto aos EUA, o futuro é uma incógnita. Trump ainda tem três anos e meio de mandato. É tempo suficiente para escangalhar a democracia e instalar uma ditadura dinástica, como um certo capitão um dia sonhou implantar aqui em nossa terra.

Vamos fazer uma coisa? Embarco assim que puder e, na volta, conto a vocês o que tiver visto. Prometido!

Venezuela: donas de casa e aposentados

José Horta Manzano

Os atos de certos políticos são às vezes difíceis de entender. A gente lê a noticia, coça a cabeça, reflete um pouco, relê um parágrafo, e continua sem perceber a intenção por trás do gesto. O que é que está por trás? Nem sempre é claro.

Já faz meses que Donald Trump vem ameaçando a Venezuela. E não é só ameaça verbal, chegou a deslocar uma frota de três navios de guerra abarrotados de sofisticado material, transportando um contingente de 4.000 fuzileiros navais.

Uma armada desse calibre tem potencial de mandar a capital do país a nocaute em três tempos. Mas, se fosse pra mandar Caracas pelos ares, não precisava despachar uma flotilha. O exército americano tem condições de fazer isso a partir de suas bases, sem deslocar ninguém. Mas então, por que a presença dos militares no Mar das Caraíbas (Caribe)?

É aí que fica difícil entender Trump e seu movimento ostensivo de tropas. Ele acusa Nicolás Maduro de chefiar um narcotráfico sofisticado, cujo principal objetivo é contrabandear cocaína para os Estados Unidos. Outros, antes de Trump, já descreveram esse cenário com detalhes. Dada a concordância de numerosas fontes, é possível acreditar que seja assim mesmo, o que coloca os altos coturnos do governo venezuelano no topo de uma rede narcomafiosa.

Ainda assim, não vejo bem o que é que navios de guerra podem fazer para desbaratar esse sistema. Aniquilar um sistema mafioso com tiros de canhâo? Não parece sensato. Nem eficaz. Por que os navios, então?

Só vejo uma hipótese. Seria nosso amigo Trump trabalhando para mostrar que está atento ao seu “quintal” e cuidando bem dele. “Quintal dos USA” é qualificativo dado outro dia por um de seus assessores à América Latina. Quem cuida bem de seu rebanho e aí mantém paz e concórdia merece o Nobel da Paz. (Deve ser o que ele pensa.) Cada um tem direito a suas ilusões.

Agora, comovente mesmo é a ideia de um previdente Maduro que, sabendo que Caracas não será mandada pelos ares por tiros de canhão, arrebanha assim mesmo seu povo num movimento caseiro de defesa nacional. Tal um Hitler nos derradeiros dias da Segunda Guerra, quando os canhões soviéticos já ribombavam nos arrabaldes de Berlim, Maduro alista “donas de casa, aposentados e servidores” para formar um escudo humano, com cidadãos prontos a morrer pela pátria.

A foto que ilustra este artigo nos mostra alguns convocados recebendo as instruções para manejo de bazucas. Não vejo donas de casa, certamente virão mais tarde. Estão todos devidamente uniformizados. (Diferentemente do Brasil, em que patriotas costumam se vestir de bandeira, os de lá trajam vermelho vivo, uniforme decerto providenciado pelo poder.)

Num eventual combate na selva, a cor não serve como camuflagem, mas também não se pode pensar em tudo. De todo modo, Maduro sabe que combate na selva, não haverá. Trump não é besta de expor sua tropa e registrar baixas. Bastaria um marine morto, um só, para sua popularidade ir pro beleléu.

Se tem certeza de que guerra não haverá, por que razão Maduro faz essa mise-en-scène? Há de ser para contentar seu povo, para mostrar a todos que o pai da nação está de olho, ciente da ameaça do “Imperio” e preocupado com ela. Pra confirmar que patriotas de uniforme rubro estão dispostos a arriscar a vida para defender a pátria. Não é bonito?

E assim vamos indo. Para os movimentos de ambos, Trump e Maduro, não há razões claras. Só razões ocultas.

De toda maneira, ambos sabem que não é desbaratando uma rede de traficantes que se elimina o narcotráfico. O fim do tráfico só virá no dia em que não houver mais demanda, quando ninguém mais pedir sua dose diária de estupefaciente (palavra hoje em desuso, mas ainda sugestiva).

Enquanto esse dia não chegar, derrube-se uma rede, outra brotará no dia seguinte.

Alaska e a continuação

José Horta Manzano

Por mais que Donald Trump tente tranquilizar suas tropas (e o mundo) dizendo que o encontro com Vladímir Putin, no Alaska, foi “produtivo”, as evidências mostram outra coisa. O homem que tem tanto sangue nas mãos (Putin) saiu triunfante. Já o homem que imaginava sair do encontro com o conflito encerrado (Trump) naufragou. Para ele, o colóquio foi um malogro.

  • Dez horas era o tempo estimado de duração do face a face. Durou só duas horas e meia. Sinal claro de que as pretensões de Putin eram firmes e que ele esteve inarredável. Não quer devolver nem um centímetro do território que conseguiu invadir. Ao final de duas horas, o assunto estava esgotado.
  • Trump saiu tão aturdido da reunião, que disse aos jornalistas que estava “voltando aos Estados Unidos”, esquecido de que o Alaska é um estado como os demais (só que mais frio).
  • Trump deixou escapar uma parte da realidade. Disse que agora a paz “depende de Zelenski”. Com isso, quis adiantar que cabe ao país invadido fazer concessões e entregar parte de seu território ao invasor. O invasor não abrirá mão de sua conquista militar. Sentença terrível.
  • O comunicado comum, prometido para o final do encontro, não veio. Cada um acabou fazendo, por sua conta, uma declaraçãozinha protocolar e meio chocha.

Trump receberá Zelenski no Salão Oval nesta segunda-feira.

Desde o primeiro dia do conflito, três anos atrás, a União Europeia condenou a Rússia e amparou a Ucrânia. Conhecedores das artimanhas de Putin, não botavam fé no encontro do Alaska. Ficaram incrédulos com a aparente ilusão de Trump de que ia dar certo e de que a paz seria acertada durante aquele colóquio. De fato, o presidente dos EUA parecia acreditar. É que ele anda obnubilado por seu sonho de receber o Nobel da Paz, sonho que o próprio Lula acalentou durante muitos anos, mas do qual parece ter abdicado.

Os líderes dos principais países europeus se alvoroçaram quando souberam que Zelenski tinha sido convidado para um colóquio com Trump. Sozinho, sem Putin. Continua viva na memória a cena insuportável de um Zelenski apanhando sozinho, num Salão Oval repleto de aliados de Trump, jornalistas, câmeras e holofotes. Aquele linchamento público ocorreu no fim de fevereiro, mas, na memória dos europeus, é como se tivesse sido ontem. Foi a imagem de um cristão atirado a feras famélicas numa arena romana.

Macron arregimentou logo uma escolta para garantir a defesa do ucraniano, para o caso de Trump & áulicos voltarem a ter a péssima ideia de descer-lhe bordoadas como fizeram da primeira vez. Como penetras em festa de debutante, devem marcar presença: Emmanuel Macron (presidente da França), Ursula von der Leyen (presidente da UE), Friedrich Merz (chanceler da Alemanha), Keir Starmer (primeiro-ministro britânico), Giorgia Meloni (presidente do Conselho Italiano), Alexander Stubb (presidente da Finlândia), Mark Rutte (chefe da Otan). Espero que o Salâo Oval seja grande o suficiente para acolher a todos.

Os dirigentes europeus acham que seria uma grande perda se Trump “obrigasse” Zelenski, garrucha colada na têmpora, a abrir mão de 20% do território da Ucrânia para entregar ao invasor russo. Pelo raciocínio de todos, o presidente americano vai deixar a selvageria pendurada no cabide da entrada, nem que seja em respeito diante de tanta gente fina.

Na verdade, Trump está fazendo o papel de menino de recado de Putin. Vai expor aos visitantes as exigências da Rússia, e colher a resposta.

Deve ser um dia importante. Vamos ver.

Carla está presa

Carla Zambelli
by Jeribeto (via Twitter)

 

José Horta Manzano


La signora Carla Zambelli è stata arrestata a Roma.
A senhora Carla Zambelli foi detida em Roma.


Se vão extraditá-la para ser encarcerada no Brasil, se vai cumprir pena na Itália mesmo ou se será solta, tanto faz. O importante é que, diferentemente do que imaginava, foi alcançada pelas garras da lei. Talvez esteja entendendo agora que ela não é melhor que ninguém e que deve explicações à sociedade.

De pouco valeu ser casada com militar, ter sido unha e carne com o capitão, gozar de imunidade parlamentar. Exibiu um passaporte vermelhinho, correu, mas o bicho acabou pegando. Assim como vai pegar todos os trapaceiros que, como ela, se imaginaram mais espertos que o povão.

O povo italiano não está nada de acordo com a ideia de transformar o país num depósito de foragidos da justiça. Em matéria de imigração, preferem receber gente de bem, não bandidos. O fato de o delinquente ser titular de um passaporte nacional não lhe confere mais direitos, antes, acentua o fato de que descendentes de italianos só requerem a nacionalidade dos antepassados para obter vantagens, como entrar nos EUA sem visto ou refugiar-se na pátria para escapar à justiça .

Esse tipo de transgressor não é bem-vindo na Itália.

Os zigue-zagues de Trump

José Horta Manzano

Donald Trump tem personalidade forte e imponente. É do tipo que costuma ganhar no grito: quando ele troveja, espera que todos abram imediatamente o guarda-chuva. Não suporta que um indivíduo o enfrente, nem que fosse apenas continuando de pé, ao relento, guarda-chuva fechado.

Mais de uma vez já ouvi a anedota que contam sobre suas partidas de golfe. Como se sabe, ele é apaixonado por esse esporte e, volta e meia, convida gente graúda para jogar com ele, políticos, dignitários, personalidades estrangeiras. Logo antes do início da partida, um de seus guarda-costas sussurra discretamente ao pé do ouvido do visitante: “Deixe que ele ganhe”. É que Donald não suporta perder. Para ele, qualquer jogo é bom desde que ele ganhe. A derrota pode deixá-lo num estado de fúria incontrolável – um perigo!

Sua relação com Putin tem variado ao longo do tempo. O ditador da Rússia, homem forte e poderoso, exerce um certo fascínio sobre Trump, que o admira e respeita. Só que, como veremos logo abaixo, essa admiração e esse respeito só vão até o ponto em que Trump também se sente admirado e respeitado. Seu sentimento não é, portanto, incondicional. Assim, pode desvanecer rapidamente.

Já antes de seu primeiro mandato, Trump elogiava Putin. No começo de 2022, quando as tropas russas ainda estavam se preparando para invadir a Ucrânia, Trump lançou um baita elogio a Putin chamando-o de “gênio”. A Donald, a ideia de invadir um país vizinho para conquistar território pareceu fantástica. Talvez a ideia de conquistar o Canadá no porrete já estivesse germinando em sua mente.

Conforme a guerra se desenvolvia, a apreciação de Trump por Putin oscilou entre sorrisos e dentes arreganhados. Trump chegou a criticar certas ações de Moscou, como o sequestro de crianças ucranianas, mas a careta sempre durou pouco.

Uma das promessas mais midiáticas de Trump durante sua campanha eleitoral do ano passado foi a de “acabar com a guerra da Ucrânia em 24 horas!”. Ninguém, no fundo, botava muita fé, mas, como se costuma dizer, promessa é dívida. Ficamos todos curiosos à espera do que estava pra acontecer; queríamos saber como é que Trump ia se virar para parar essa guerra.

Desde que assumiu o posto de presidente, Donald bem que vem tentando domar Moscou e Kiev. Foi bem acolhido por Moscou, mas encontrou um Putin tão flexível quanto uma porta de aço. Fechada. Um Putin que só pararia de bombardear o vizinho se os 20% de território ucraniano que havia invadido lhe fossem atribuídos. Quanto a Zelenski, apesar da tunda pública que lhe deram no Salão Oval, bateu pé firme: “Não posso ceder 20% do território pátrio assim, de mão beijada, ao invasor; vamos lutar até o último homem”.

Diante disso, Trump começou a se enervar. Não é homem de entrar numa briga e sair de mãos no bolso, sem vencer e sem conseguir nada de nada. Deve ter considerado que, politicamente, enfrentar Putin não era boa ideia. Além de inflexível, o ditador russo está sentado em cima de imenso arsenal nuclear.

Seja por que razão for, Trump decidiu dar mais uma guinada em seu zigue-zague. Anunciou esta semana sua intenção de liberar, em favor da Ucrânia, certa quantidade de baterias de defesa antiaérea, arma de defesa que tanta falta está fazendo diante dos ataques quotidianos de mísseis e drones qua a Ucrânia vem sofrendo.

Se não mudar de ideia amanhã, como volta e meia faz, Trump estará dando continuidade à ajuda americana que, há 3 anos, vem permitindo à Ucrânia conter o avanço russo.

Com isso, sai de cena a aberração de uma aliança entre russos e americanos, coisa que não se via desde 1945 e que não faz sentido no contexto atual. As coisas voltam a seu lugar.

É sempre “nós x eles”, mas… “nós pra cá e eles pra lá”.

Se benzer

José Horta Manzano

A sabedoria popular ensina que ‘cão que ladra não morde’. Com variantes regionais, esse ditado ecoa em todas a línguas. ‘Os cães ladram e a caravana passa’ é uma variante.

Isso dito, tenho observado a atitude de Donald Trump com relação ao Irã. Já faz dias que ele ameaça sem morder. Abandonou a reunião do G7 antes do fim, dizendo que tinha decisão iminente a tomar. A “decisão” não passou de um ultimátum lançado ao Irã ordenando que se rendessem imediatamente e sem condições. Em resposta, os aiatolás deram-lhe uma banana.

Trump voltou a ameaçar lembrando que está cogitando destruir o sítio onde os iranianos enriquecem urânio. Acontece que essas instalações estão enterradas longe do alcance de bombas tradicionais. Trump, por enquanto, continua ladrando sem morder. Por que será?

Há quem diga que está aplicando nos iranianos a estratégia do pavor. Procura atormentar os habitantes com a iminência dos ataques, lembrados diariamente. Pode ser, mas não é o que me parece. A meu ver, o que está emperrando um ataque fulminante é outra coisa.

O Irã é supermontanhoso. Sua orografia acidentada, que percorre praticamente o território inteiro, conta com elevações que ultrapassam 4.000 metros. Ao construir suas instalações subterrâneas, os iranianos sabiam que os EUA possuem esse tipo de bomba perfurante, que pode atravessar 60m de terra, rocha ou até concreto antes de explodir.

Assim sendo, com tanta montanha à disposição, não me parece que tenham optado por cavar uma cova rasa para colocar as centrífugas. É mais simples abrir um túnel no flanco de uma montanha bem alta e, lá no fundo, alargar a galeria e instalar a maquinaria. Dado que a bomba perfurante fura na vertical (e não na horizontal), as instalações estão protegidas pela própria montanha. Quero crer que tenham escolhido esta última solução.

Isso explicaria a longa hesitação de Trump em lançar um ataque. Sacou, tem de atirar – olhaí outra expressão conhecida. Se a tal bomba perfurante for lançada sem sucesso, isto é, se não destruir completamente o sítio nuclear, como é que fica? Trump não pode dar de ombros, virar as costas e tirar o pé fora. Terá de dar continuidade ao ataque. Terá de se meter numa guerra, sem esperança de vencê-la rapidamente.

Entre as promessas de campanha, Trump garantiu que, como adepto da paz, não envolveria mais os EUA em guerras. Uma nova guerra no Oriente Médio desmoralizaria o personagem. Ele perderia o apoio de muitos de seus fãs. Portanto, ele só interviria no Irã se tivesse certeza de vencer em poucos dias e, sobretudo, sem que nenhum soldado americano tenha de pisar o solo persa.

Outro fator pode ajudar a explicar a hesitação trumpiana. Faz muito tempo que o Irã deixou de permitir a entrada de inspetores da Agência Internacional de Energia Atômica. Ninguém é capaz de dizer com exatidão a quantas anda, neste momento, o enriquecimento de urânio. Na última inspeção estava a 60%, mas como estará agora? Sabe-se que, para o fabrico da bomba, o urânio tem de estar enriquecido a 90%.

Assim sendo, supondo que o urânio enriquecido esteja próximo do teor necessário para explosão atômica, quais seriam as consequências de uma bomba perfurante explodindo no recinto em que o urânio enriquecido está estocado? Fica por isso mesmo? Quem garante que a poeira contaminada não vai escapar e se espalhar pela atmosfera? Tendo em mente que o Irã tem uma população de 90 milhões, quem vai assumir a responsabilidade de ter contaminado, pelo ar e pela água, toda uma nação?

Aí estão, a meu ver, as razões da demora de Trump. Em conclusão:

    • Se simplesmente abandonar, ele será visto como pusilânime.
    • Se atirar a bomba perfurante e não conseguir atingir o alvo, será ridicularizado, ele e seu exército.
    • Se lançar a bomba e contaminar milhões, será considerado um genocida de galocha.
    • Se entrar em guerra tradicional, com desembarque de tropas e de tanques, estará abrindo conflito para uma década, com milhares de americanos mortos, sem garantia de vitória.

É um drama em que todas as saídas são ruins. A sinuca é de bico. De bico entortado, com penas pretas por cima. Trump precisa se benzer.

Zambelli e os Bolsonaros: sempre juntos

Alfândega italiana

José Horta Manzano

Parlamentares da oposição italiana estão furiosos. Acusam o governo de Giorgia Meloni — ela mesma de extrema direita — de hipocrisia ao permitir a entrada de Carla Zambelli no país. A ex-deputada brasileira, foragida da Justiça, chegou recentemente à Itália via Estados Unidos. A revolta do grupo de oposição ecoou no Parlamento.

O deputado Angelo Bonelli, do Partido Verde Esquerda, numa interpelação ao Ministério do Interior, exigiu explicações sobre pontos obscuros referentes à chegada de Zambelli ao aeroporto de Roma. Segundo ele, sua vinda à Itália era amplamente conhecida — inclusive anunciada por ela mesma dias antes. Ela parecia acreditar que, como cidadã italiana, estivesse protegida de extradição, o que tornaria o país um porto seguro. Bonelli questiona: como é possível que a Justiça italiana não tenha se antecipado? Ainda que a ordem de prisão da Interpol não tivesse sido recebida, o mínimo seria monitorar discretamente seus passos.

“O que não pode acontecer é a Itália virar refúgio de criminosos”, disse Bonelli. “Com ou sem cidadania italiana, um fugitivo é um fugitivo.” Ele também levantou a suspeita de que Zambelli esteja sendo protegida por ordem do alto escalão do governo italiano — que, segundo ele, sabe muito bem onde ela está, mas guarda o segredo.

No mesmo discurso, Bonelli trouxe outro nome à tona: Jair Bolsonaro. Perguntou se o ex-presidente brasileiro também é cidadão italiano. A resposta do Ministério foi evasiva: até o momento, Bolsonaro não solicitou o reconhecimento de sua cidadania. Seus filhos, no entanto, sim — e já foram oficialmente reconhecidos como cidadãos italianos. Flávio, Eduardo e Carlos estão devidamente documentados.


É curioso como, apesar das rusgas, Zambelli e os Bolsonarinhos insistem em subir juntos aos palcos – no presente caso, no Parlamento Italiano…


Mas a informação mais intrigante veio da subsecretária do ministério, que afirmou com naturalidade que os filhos de Bolsonaro têm cidadania italiana, mas não o pai. Como assim? De onde, então, herdaram essa nacionalidade? Se não veio do pai, de onde terá vindo? Acharam na rua?

Pela lei do sangue (ius sanguinis), a cidadania italiana é transmitida por ascendência. Para que os filhos a obtenham, é necessário comprovar a linhagem desde o último antepassado nascido na Itália até o requerente. Isso passa obrigatoriamente pelo pai. Portanto, ele está necessariamente inscrito nos devidos registros italianos. Assim sendo, Jair pode solicitar o passaporte a qualquer hora.

Quem sabe, como italiano de papel passado, Bolsonaro não acaba se juntando a Zambelli para trilharem juntos as espinhosas veredas da fuga e do exílio…

Donald Trump e os limites do poder

José Horta Manzano

by Darío Castillejos (1974-), desenhista mexicano

Nos últimos anos, psiquiatras e psicólogos americanos vêm observando com preocupação um aumento na frequência de episódios que sugerem sinais de confusão cognitiva por parte de Donald Trump. Durante seus discursos, que hoje se estendem por cerca de 82 minutos – quase o dobro da média de 45 minutos registrada na campanha de 2016 –, o ex-presidente muitas vezes demonstra dificuldades de articulação. Há casos em que palavras são pronunciadas pela metade, frases ficam incompletas ou se encerram com terminações inventadas, o que torna suas falas, em vários momentos, desconexas e de difícil compreensão até mesmo para seus apoiadores mais fiéis.

Mais do que simples lapsos verbais, essas manifestações vêm acompanhadas de um padrão preocupante: decisões impulsivas, tomadas sem planejamento estratégico, que muitas vezes são revertidas pouco tempo depois. Esse comportamento errático tem gerado instabilidade tanto na política externa quanto na condução da economia americana. A volatilidade das posições presidenciais cria um ambiente de expectativa constante, em que aliados e adversários se veem obrigados a reagir a movimentos inesperados, dificultando qualquer esforço de governabilidade a longo prazo.

Diante desse cenário, até mesmo figuras influentes do Partido Republicano passaram a se perguntar à boca pequena se Trump estaria fisica e mentalmente apto a exercer a função de chefe de Estado. Embora tais dúvidas ainda sejam tabu em parte do eleitorado, o desconforto é palpável entre especialistas em saúde mental, analistas políticos e líderes institucionais.

Esse ambiente de incerteza, com contornos de pré-catástrofe, tem levado muitos americanos a refletir sobre os limites do poder presidencial. Afinal, será que o modelo criado no final dos anos 1700, com o objetivo de substituir a figura do rei da Inglaterra por um presidente forte e autônomo, ainda é compatível com a complexidade dos tempos atuais?

O sistema presidencialista dos Estados Unidos foi, à sua época, uma inovação. Mas os desafios do século XXI exigem nível mais elevado de equilíbrio entre autoridade e responsabilidade. A atual configuração concentra um volume extraordinário de poder numa única pessoa. Num mundo interconectado e repleto de tensões geopolíticas, um único erro de cálculo – e Trump já cometeu vários – pode ser suficiente para desencadear um enfrentamento bélico de proporções calamitosas.

Talvez seja chegada a hora de um debate nacional mais amplo, não apenas sobre a saúde e a aptidão dos candidatos à Presidência, mas sobre a própria estrutura de comando da maior potência do planeta. Rever as atribuições e os limites do cargo pode ser um passo essencial para proteger a democracia americana de seus próprios excessos – e dos riscos representados por lideranças instáveis.

Crioulo

Árvore genealógica

José Horta Manzano

O mundo parece gostar de se surpreender com o novo papa. A cada dia, surge nova informação, nova faceta de sua vida e de sua trajetória, incitando à curiosidade por seu passado. Como nos velhos tempos, cada um parece estar correndo atrás de um pequeno retalho de batina, de fáscia ou de peregrineta para fazer uma relíquia. Esse fascínio pelo chefe da Igreja já se registrava nos primeiros papados mas, com a visibilidade das redes sociais, está se tornando mais intenso e globalizado.

Já se disse que o Papa Leão XIV nasceu nos Estados Unidos e passou cerca de 20 anos no Peru, o que torna sua trajetória ainda mais interessante. Não foi alguém que permaneceu na retaguarda, longe da ação; pelo contrário, ele se envolveu ativamente como missionário e percorreu diversas regiões, espalhando sua fé e vivenciando culturas distintas. Esse papel de missionário é um reflexo do dinamismo que caracteriza sua personalidade, sempre buscando se conectar o mundo que o circunda, um traço que tem sobressaído desde que ascendeu ao papado.

Uma questão particularmente interessante diz respeito à análise das suas origens, um fator carregado de sensibilidade, especialmente em sua terra natal, um país cuja história está entrelaçada com questões de raça e identidade. As origens de Leão XIV, longe de serem meramente um detalhe biográfico, oferecem uma chave de leitura para a compreensão da história contemporânea, na qual o Papa surge como uma figura que atravessa fronteiras culturais e étnicas.

Em artigo publicado há dias no The Conversation, Chelsea Stieber, historiadora e pesquisadora, traça um retrato mais detalhado das descobertas feitas por uma genealogista a respeito de Robert Francis Prevost, nome de batismo do novo papa. De acordo com Stieber, do lado materno, o Sumo Pontífice tem origens ‘creoles’, um termo que, na língua inglesa, pode gerar confusão, dada sua ambiguidade. Tradicionalmente, a palavra “creole” é usada para se referir a indivíduos de ascendência europeia, descendentes dos primeiros colonizadores franceses ou espanhóis nas Américas. No entanto, esse termo também pode se referir a indivíduos mestiços, fruto da união entre colonizadores e negros, particularmente nas vizinhanças da antiga América Francesa, a atual Luisiana.

O artigo de Stieber, no entanto, não esclarece com precisão de que categoria de ‘creole’ Leão XIV descende. Numa possível interpretação, ele poderia descender de “gens de couleur libres” – expressão histórica utilizada para descrever escravos alforriados, que viviam à margem da sociedade colonial. Documentos de pesquisa indicam que o avô materno do papa, Joseph Norval Martínez, nasceu no Haiti, o que adiciona uma camada fascinante à genealogia do pontífice.

O papado de Leão XIV, que acaba de começar, abre um vasto campo para investigações. Genealogistas e estudiosos têm diante de si boa oportunidade de desenterrar documentos, consultar cartórios, registros de paróquias e arquivos esquecidos. No entanto, é importante destacar que essas descobertas, ainda que interessantes, não passam de curiosidade. No fundo ninguém é responsável por seu passado longínquo.

O que realmente importa, e o que permanecerá para a história, são os fatos e gestos de Leão XIV. O que virá a partir de agora é mais importante do que qualquer descoberta genealógica ou fofoca de rede social.

Quem viver, verá.

As derrotas de Trump

Tambores rufando

José Horta Manzano

Apesar de ter descido à arena com passos duros e rufar de tambores, Donald Trump, personagem grandioso e teatral, está murchando estas últimas semanas.

Prometeu expulsar 11 milhões de imigrantes clandestinos. Fiz as contas: com aviões de 200 lugares, seriam necessários 55 mil voos. Suponhamos uma frota de 10 aeronaves dedicadas exclusivamente à missão, cada uma fazendo um voo de ida e volta por dia, de domingo a domingo, feriados e dias santos incluídos. Seriam necessários 5.500 dias – cerca de 15 mandatos presidenciais. Mesmo os menos afeitos à matemática (como este escriba) percebem que a meta é uma miragem. Uma promessa de palanque que não resistiu à aritmética. Derrota, portanto.

Depois veio o plano mirabolante de quebrar a espinha dorsal da economia chinesa com pesados impostos de importação, como se a China fosse uma loja de esquina em crise. Imaginou que o “Império do Meio” se ajoelharia. Não se ajoelhou. Em um país de governo centralizado, acostumado a ordens verticais, a população seguiu em silêncio. Quem cedeu foi Trump, que engoliu em seco e aceitou a mediação suíça. O leão rugiu, mas acabou se afinando. Mais derrota, portanto.

A bufonaria de entregar pastas de governo a Elon Musk, um parvenu com aspirações a Messias digital, teve vida breve. O corte em instituições, o descontentamento geral e a gritaria nas redes dissolveram rapidamente a “grande aliança”. Musk está fora – ou quase. Mais uma derrota para o currículo.

Há outras, menores, internas, administrativas, que se acumulam como entulho. Mas o quadro geral é claro: por trás do gestual arrogante e da retórica grandiloquente, o messianismo de Trump está em processo de derretimento. A cada bravata, nova fissura. A cada promessa não cumprida, fiasco mais evidente.

A verdade é que o presidente, que se pinta como salvador do mundo, parece hoje mais um personagem trágico de ópera bufa: ruidoso, solitário e, sobretudo, declinante.