Façam como eu digo…

Lula da Silva, Rafael Correa (Equador), Hugo Chávez (Venezuela)

José Horta Manzano

Celac é acrônimo da Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos, organismo fundado em 2011 por um clube formado por Lula da Silva, Hugo Chávez (Venezuela) e Rafael Correa (Equador).

A organização congrega os países das Américas com exceção dos EUA e do Canadá. É uma daquelas brincadeiras adolescentes de nosso líder, que, para tentar se distanciar dos EUA, inventa soluções que acabam dando trabalho e custando dinheiro sem chegar nunca a resultados práticos. Essas pseudoassembleias emitem notas, escrevem memorandos, fazem recomendações. E só. Nada tem poder impositivo.

Pois bem, no começo desta semana, em cúpula virtual da Celac, Lula soltou uma de suas pérolas costumeiras. Em discurso veemente, passou uma carraspana no Equador por ter invadido outro dia a embaixada do México em Quito. Suas palavras:


“O que aconteceu em Quito é simplesmente inaceitável e não afeta só o México. Diz respeito a todos nós. Um pedido formal de desculpas por parte do Equador é um primeiro passo na direção correta”


Ah, na hora de passar pito nos outros, a memória humana é sempre um tanto falha. Costumamos apontar para o cisco no olho alheio sem nos dar conta da tora que está em nosso olho, já ensinava a sabedoria bíblica.

Luiz Inácio “se esqueceu” de episódio recente no qual ele mesmo ficou pessoalmente na berlinda. Todos se lembram de que, numa de suas falas jogadas fora, Luiz Inácio colocou em pé de igualdade a matança de civis cometida atualmente por militares israelenses na Faixa de Gaza e a exterminação de judeus ordenada por Hitler nos anos 1940.

Seu discurso abordou um tema delicadíssimo, que toca fundo na sensibilidade do mundo civilizado, de maneira especial nos integrantes da comunidade israelita. É terreno minado no qual convém pisar com extremo cuidado. Lula entrou de sola, como se diz. E se estrepou. Levou pancada de todos os lados.

A mídia internacional foi unânime em repudiar suas palavras. Autoridades israelenses o declararam persona non grata, uma afronta em termos de diplomacia e uma vergonha pessoal para nosso presidente. O Estado de Israel fez saber que estava à espera de um pedido de desculpas.

Lula se escondeu atrás dos vitrais do Alvorada. Dias depois, para esquivar-se, disse jamais ter pronunciado o termo Holocausto, como se fosse esse o problema. E deu o assunto por encerrado. As desculpas não vieram até hoje.

Isso visto, soa indecente ele dar pito num país inteiro (o Equador) e exigir uma postura da qual ele mesmo outro dia fugiu.

A memória humana é falha…

Observação
O Lula marcou bobeira ao não apresentar escusas pelas palavras ofensivas que pronunciou. Ele não ofendeu ninguém de propósito, só disse o que disse por pura ignorância histórica. Portanto, bastava ter escrito uma nota assim: “Não era minha intenção ofender ninguém. Se alguém se sentiu melindrado com minhas palavras, peço desculpas”. Com isso, a polêmica murchava na hora. Quis bancar o marrudinho, e deu no que deu.

Irã e prisões de segurança máxima

José Horta Manzano

O ataque lançado pela República Islâmica do Irã sobre o Estado de Israel, na noite de sábado passado, envolveu mais de 300 foguetes, incluindo 170 drones, 30 mísseis de cruzeiro e pelo menos 110 mísseis balísticos.

Para se defender, Israel contou com a ajuda de três potências: os EUA, a França e a Grã-Bretanha. Esses países contam com bases militares na região, e conseguiram deter e destruir boa parte das armas voadoras antes que atingissem território israelense. O exército de Israel fez o resto. Daí os estragos terem sido tão limitados.

Não precisa ser especialista em assuntos militares pra se dar conta de que o Irã lançou mão de apreciável quantidade de foguetes – arsenal fabricado por eles, ainda por cima. Tivessem atirado três bombinhas, é possível que Israel, ao constatar a fragilidade do inimigo, já estivesse enviando seus próprios foguetes para destruir Teerã.

Acredito que a amplidão do ataque seja um dos fatores que estão fazendo o governo de Tel Aviv hesitar. Se os dois países entrarem em guerra de verdade, o risco é grande de o equilíbrio regional (e talvez mundial) sentir o baque e sair abalado.

Faz quase duas décadas que o Irã vive sob sanções pesadas aplicadas pelos EUA e também pelos países aliados. Na teoria, o Irã deveria estar exangue, com a língua de fora, pedindo arreglo. Não foi o que se viu sábado passado. Analistas tentam minimizar a força do Irã, argumentando que o arsenal é antiquado, fora de moda, impreciso e isto e aquilo. Me parece mais é desculpa de despeitado.

Antiquado ou não, o arsenal despachado pelo Irã não bate com a imagem de um país mendigo, de pires na mão, pária do mundo civilizado. Como é possível? “Fatta la legge, fatta la burla”, como dizem os italianos (a lei nem bem acabou de ser feita, já se dá um jeito de fraudá-la).

Nosso cândido Lula da Silva gosta de se apresentar como “aliado” deste ou daquele país, o Irã entre eles. Ser aliado é mais do que sair na foto ao lado do “parceiro”. Inclui unir forças em busca de um objetivo comum. Qual é o objetivo comum entre Brasil e Irã, além de buscar o progresso do povo respectivo? Concluo que o Brasil não é “aliado” de fato do Irã. Ainda bem.

O fato é que o Irã tem petróleo e o mundo precisa de petróleo. Pronto, a conexão está feita. Dinheiro não compra tudo, mas quase. Petróleo pode ser excelente moeda de pagamento. Se uns se recusam a comprar óleo iraniano, outros fecham os olhos para os excessos do regime dos aiatolás e entram na fila dos compradores.

Assim, com dinheiro na mão e meio quilo de esperteza, qualquer país “pária” dá logo um jeito de passar por cima das sanções e adquirir tudo o que quiser. Com os equipamentos assim importados, os iranianos vão construindo seus drones e seus mísseis. Não vamos esquecer que, junto com a Turquia, o Irã está entre os melhores fornecedores de drones da Rússia.

Tudo isso mostra que impor sanções é o mesmo que tapar um cano d’água com peneira de taquara: o fluxo pode até diminuir, mas a água continua passando.

Os protocolos de segurança de uma prisão “de segurança máxima” funcionam de forma semelhante. Por mais medidas que se tomem, como celas revistadas, algemas no passeio, informação compartimentada e encarcerados isolados, sempre resta alguma brecha. E é por ali que passa toda a comunicação que não devia passar.

Em conclusão, vamos dizer que não somos “aliados” de papel passado do Irã nem temos prisões de absoluta “segurança máxima”. Jair Messias já quebrou os dentes quando levou um ‘chega pra lá’ de Viktor Orbán, seu “aliado” húngaro. Não me venha agora Luiz Inácio com suas manias de considerar seus ditadores de estimação como “aliados do Brasil”.

Tanto Bolsonaro quanto Lula estão errados. O capitão, após a decepção da embaixada, já caiu na realidade. Entendeu que, em política internacional, não existe amizade.

E tu, Lula, vais continuar batendo na mesma tecla?

A madeira e a lenha

José Horta Manzano

O site Metrópoles, plataforma de informação, traz hoje notícia desnorteante. A história começa pelos anos 1980. Sob os céus cinzentos e pesados da Brasília de então, foram plantadas algumas centenas de hectares de pinheiros, espécie não nativa mas adaptável ao bioma da região.

De lá pra cá, as árvores cresceram bonito e formaram um bosque frondoso, sobressaindo da vegetação local como um espaço exótico que faz esquecer os calores do cerrado e se imaginar imerso no frescor das serras do Sul.

Durante quarenta anos foi assim. Mas tudo tem um fim, Seu Valentim. O Instituto Brasília Ambiental, uma espécie de Ibama local, é responsável pela manutenção da Floresta Distrital, que cresce naquele entorno do Lago Paranoá. Esse instituto, por razões que a razão tem dificuldade em explicar, decidiu que um bosque de pinheiros francamente não combina com o bioma local.

De fato, pinheiro destoa no meio da vegetação do cerrado. E daí? O pequeno pedaço de floresta de coníferas (473 hectares) não faz mal a ninguém, não atrapalha o crescimento de outras árvores em seu entorno, só encanta os olhos de quem o visita.

Nada feito. O Instituto responsável bateu pé firme na solução que lhe pareceu a melhor: derrubar aquela floresta de coníferas para extirpar as intrusas. E depois, como é que fica? Depois a gente vê o que faz.

E assim foi feito. Motosserras (daquelas com pneus da altura de um homem) foram chamadas e, em três tempos, botaram abaixo os pinheiros. A madeira? Parte vai para a serraria; o resto vai virar lenha(!).

Como se sabe, a queima de lenha é responsável pelo aumento dos gases de efeito estufa. Portanto, nossa floresta deixou de capturar e passou a emitir esses gases. Bonito!

Fico pensando (e, quando penso, há sempre o risco de brotar alguma ideia maquiavélica). A floresta de pinheiros tinha comemorado seus 40 aninhos. Brasília já fez 60. Todos hão de concordar que tampouco a nova capital da República faz parte do bioma do cerrado. Foi ali plantada como um corpo estranho, uma brotoeja trazida de fora, que significou a perda de hectares de vegetação logo substituída pelo concreto.

O distinto leitor e a encantadora leitora já entenderam aonde quero chegar. É isso mesmo. Está na hora de demolir a Brasília oficial, aquelas fieiras de prédios de estilo soviético tardio, que envelheceu mal. Que seja tudo varrido e que o espaço seja devolvido ao bioma originário, campestre, com flores e passarinhos. E, sobretudo, apolítico.

E para onde vamos mudar a Brasília oficial? Pois faremos como foi feito com os pinheiros: uma parte vai para a serraria, o resto vira lenha. Com tanta cara de pau que tem por ali, há de queimar com gosto.

Patriota?

by Matías Tolsà (1983-), desenhista argentino

 

José Horta Manzano


O brasileiro ama o Brasil?


Deixo a pergunta no ar. Volto a ela mais tarde.

Um dos expedientes mais utilizados por ditadores para se firmar no poder é a fabricação de um inimigo externo. A própria pátria estar sendo ameaçada de fora para dentro é situação capaz de federar os cidadãos e despertar neles a detestação profunda e unânime do agressor e a urgência de defender a pátria em perigo.

Nessa linha, Putin não se cansa de repetir ao povo russo que a Ucrânia, governada por nazistas, é uma ameaça existencial para a Rússia. Trump se atraca à ameaça representada pela imigração de gente pobre e suja que periga corromper o “sangue americano”. Maduro tenta convencer seu povo de que os malvados vizinhos guianenses roubaram a Guiana Essequiba, parte integrante da Venezuela. E assim por diante.

Mr. Musk, um novo-rico arrogante nascido na África do Sul e naturalizado americano, é daquele tipo de nababo convencido de que, com seu dinheiro, consegue comprar tudo. É verdade que sua imensa fortuna é maior que o PIB anual de dezenas de países ao redor do globo, só que nem tudo está à venda. A dignidade de uma nação, por exemplo, não está. Ou não deveria estar.

Com a petulância que sua fortuna lhe concede, o insolente personagem decidiu afrontar a justiça brasileira. Declarou, alto e bom som, que não cumpriria injunções emanadas por nosso Tribunal Supremo. De lambuja, aproveitou para insultar pessoalmente um dos magistrados.

Pra se dar conta do desprezo e da grosseria implícitos no palavreado do bacana, basta pensar um pouco. Será que ele ousaria atacar da mesma forma um país europeu? Será que se alevantaria contra a justiça alemã ou francesa? É de duvidar fortemente.

Desdém desse quilate é reservado a países do Terceiro Mundo. Portanto, ao mesmo tempo, o empafiado personagem atacou nossas instituições e mostrou o menoscabo que sente por nosso povo. É dose pra elefante, suficiente pra pôr nosso povo de pé em repúdio à ousadia do atrevido. Os articulistas da imprensa fizeram sua parte. O presidente do STF também se manifestou. Na Presidência, Luiz Inácio, com suas metáforas peculiares, escrachou o personagem.

No entanto, uma parte dos congressistas, muitos deles filiados ao mesmo partido que o antecessor de Lula, engoliu a ofensa. Fez mais que isso: uniu-se e formou uma frente de defesa do agressor.

São raras as ocasiões que o Brasil tem de forjar um inimigo externo. Quando um aparece, claro e nítido como agora, é desolante perceber que interesses paroquiais impedem alguns congressistas de alargar o próprio horizonte e enxergar mais longe que o próprio umbigo. O que interessa a essa gente é resolver suas picuinhas, a honra da pátria que se lixe.

A figura do inimigo externo costuma funcionar por toda parte mas, em nossa terra, não convence a todos. Repito a pergunta:


O brasileiro ama o Brasil?


Grande parte dos brasileiros amam sem dúvida sua pátria. Mas os acontecimentos destes últimos dias indicam que muitos, embora se apresentem como “patriotas”, põem interesses mesquinhos à frente do patriotismo.

Praticam o novíssimo “patriotismo relativo”.

Que um muro alto proibia 2…

Chamada Folha de SP

José Horta Manzano

Se as autoridades competentes tivessem sido competentes, a penitenciária estaria rodeada por um muro de 4 metros de altura desde a inauguração. Teria custado menos que a caça aos bichos-homem.

Atenção! A dica é extensiva às outras quatro prisões federais “de segurança máxima”. Um muro alto pode evitar futuros vexames.

O inverno extraordinário

José Horta Manzano

Você, que vive no Sul ou no Sudeste, às vezes sente um friozinho. Mas saiba que já houve épocas bem mais geladas. Entre os distintos leitores, só alguns dinossauros hão de se lembrar do terrível inverno de 1955.

Aqui vai a descrição detalhada do fenômeno extraordinário daquele ano, coisa que só acontece uma vez por século. É até possível que, nos séculos passados, algum inverno tenha sido mais rigoroso que o de 55, mas não dispomos de nenhum registro.

Quarta-feira, 27 julho 1955. Naquela data, quase 70 anos atrás, tinha início a mais espetacular onda de frio já oficialmente registrada no Brasil. Os registros oficiais de 1912 até a atualidade estão aí para confirmar.

Anitápolis (SC) com neve

ANÁLISE GERAL
A onda polar que atingiu o Brasil no final de julho 1955 foi atípica em cinco aspectos.

1°) A extensão territorial
Segundo os dados disponíveis, a onda polar derrubou as temperaturas em mais de 60% do território nacional ― mais de 5 milhões de km2. Mais: embora não tenham sido conservadas as respectivas cartas sinóticas, os dados indicam que a frente fria ultrapassou a linha do Equador.

2°) A geada
As geadas cobriram extensão territorial excepcional. Estima-se que o fenômeno tenha ocorrido em 90% da região Sul. Chegou a gear em quase todo o litoral gaúcho e também em alguns trechos do litoral de Santa Catarina e do Paraná, fenômeno pra lá de raro.

3°) A neve
Nevou nos três estados sulinos com grande intensidade. A altura da neve acumulada no solo atingiu 70cm na serra catarinense. Além disso, no alto da serra gaúcha, o fenômeno continuou por 4 dias consecutivos. Foi a nevada mais longa já registrada na região. A neve cobriu também áreas de baixa altitude do RS e parte expressiva do PR.

4°) As máximas diurnas
A temperatura máxima diurna registrada em todos os municípios atingidos pela onda de 1955 foi anormalmente baixa. O caso mais emblemático ocorreu em São Joaquim (SC), onde, durante três dias seguidos, o termômetro permaneceu abaixo de zero ― tanto de noite quanto de dia.

5°) As mínimas noturnas
As ondas de frio registradas em 1918, 1925 e 1933, embora muito fortes, não cobriram regiões tão extensas quanto a de 1955. Em centenas de localidades brasileiras, o recorde de baixa temperatura verificado em 1955 ainda não foi quebrado. Essa afirmação vale tanto para o extremo sul do RS quanto para a Amazônia.

Após escrupulosa comparação, pode-se garantir que a frente polar de 55 foi a mais importante de todas as que já se registraram no Brasil.

A CRONOLOGIA DO FENÔMENO
(Os dados que se seguem baseiam-se nos registros do Inmet.)

Terça-feira, 26 julho 1955
O sul do Chile e o sudoeste da Argentina são invadidos por uma massa polar de trajetória continental. Ao mesmo tempo, o sul do Brasil vive um forte veranico.

Quarta-feira, 27 julho 1955
A massa de ar progride em direção ao norte e chega ao Rio Grande do Sul. Durante o dia, a temperatura despenca e o Inmet já registra neve à tarde em Bom Jesus. Enquanto isso, o Estado de São Paulo recebe a pré-frontal, com bastante vento, mas sem queda de temperatura.

Quinta-feira, 28 julho 1955
A massa polar, apesar de intensa, enfrenta grande resistência e avança lentamente pelo Brasil. No RS e em SC já faz muito frio e cai neve. Em Bom Jesus (RS), neva forte durante a tarde e a noite. No PR, a temperatura só cai mesmo a partir do meio da tarde e no Estado de SP a pré-frontal continua forte. Pelo interior, a massa polar avança em direção à Amazônia.

Sexta-feira, 29 julho 1955
O bloqueio do veranico perde força, mas ainda assim o ar polar avança devagar pelo Brasil. No Centro-Oeste, a onda de frio chega a Cuiabá e dá início a uma forte friagem. Em São Paulo, o tempo muda à tarde com a chegada da frente fria. As temperaturas despencam. Neva muito nas serras gaúchas e catarinenses. Em Bom Jesus (RS), registra-se intensa queda de neve durante 24 horas seguidas.

Em São Joaquim (SC), além da nevasca, a temperatura máxima do dia foi negativa. Não subiu acima de -1ºC.

Em Joaçaba, no interior catarinense, nevou a tal ponto que houve interrupção no tráfego de algumas ruas. A precipitação durou o dia inteiro. No fim do dia, a neve chegaria ao Paraná. Em Porto Alegre (RS), a temperatura mais alta do dia foi de apenas 8,5ºC, uma das mais baixas registradas até hoje.

Sábado, 30 julho 1955
A onda de frio atua com fortíssima intensidade no Sul, em parte do Sudeste, na maior parte do Centro-Oeste e até no oeste da Amazônia brasileira. O dia amanhece gelado desde o Rio Grande do Sul até o Amazonas.

Em Cuiabá a mínima chega a 4,3ºC e, na cidade de Lages (SC), desce a 5ºC negativos. Nesse dia, continua a nevar nas serras do RS e de SC, embora já com menor intensidade. Por outro lado, as precipitações caem sob forma de neve intensa sobre vasta região do Paraná. A cidade de Palmas (PR) recebeu de 30 a 50cm de neve, volume extremamente raro.

No Paraná, neva nas cidades de Clevelândia, Francisco Beltrão, Santo Antônio, União da Vitória, Inácio Martins, Guarapuava, Cascavel e Pato Branco, entre outras.

Também em Curitiba parece ter ocorrido o fenômeno. Jornais locais da época afirmam que caíram flocos de neve nos bairros do Bacacheri, Boqueirão e na região do Afonso Pena. É perfeitamente plausível, dado que a temperatura variou entre -2ºC e 3ºC na cidade naquele dia.

Também foi divulgada pela imprensa a queda de neve em Porto Alegre (RS). Mas o Inmet não registrou oficialmente essa ocorrência.

Outro fato digno de nota é a temperatura máxima diária mais baixa registrada em São Joaquim (SC): apenas -2,0ºC. Só em uma outra ocasião registrou-se máxima diária inferior a essa: foi em julho de 1993, com 2,4ºC negativos.

Ao mesmo tempo em que tudo isso ocorre no Sul, a massa polar continua seu avanço e chega a Manaus (AM). Ao longo do dia o tempo abre em toda a Região Sul.

Domingo, 31 julho 1955
A onda de frio atua no auge de sua força em todo o Centro-Sul e em boa parte da Amazônia. Na Região Sul, o céu limpo na madrugada favorece a queda da temperatura e a formação de fortes geadas. A friagem, como o fenômeno é chamado na Amazônia, atua com força total.

Veja algumas mínimas registradas no Brasil naquele dia:

Guarapuava (PR): -8,4ºC
São Joaquim (SC): -8,1ºC
Ivaí (PR): -6,0ºC
Curitiba (PR): -5,0°C
Aquidauana (MS): -0,9ºC
Paranaguá (PR): 2,3ºC
Laguna (SC): 2,4ºC
Florianópolis (SC): 4,0ºC
Cruzeiro do Sul (AC): 10,2°C
Manaus (AM): 18,5°C

Pela manhã, as geadas devastaram as lavouras de café do Paraná. Foi um desastre econômico, dado que a rubiácea era, de longe, o principal produto de exportação do País.

Em São Paulo, geou apenas na cidade de Catanduva, que registrou mínima de -1ºC. No leste do estado, o céu ficou limpo a partir da tarde e as temperaturas despencaram à noite.

No Amazonas, a onda polar ultrapassou a linha do Equador.

Segunda-feira, 1 agosto 1955
De madrugada, o frio atingiu seu auge e o amanhecer foi gélido no Centro-Sul. Eis algumas mínimas:

Rio Grande do Sul

Bom Jesus: -9,8°C (recorde histórico do Estado)
Alegrete: -3,0°C
Bagé: -2,0°C
Iraí: -4,3°C
Passo Fundo: -2,5°C
Pelotas: -3,4°C
Porto Alegre: -1,2°C
São Luiz Gonzaga: -1,2°C
Santa Maria: -2,0°C

Santa Catarina

São Joaquim: -6,4°C
Urussanga: -4,6°C
Camboriú: -1,2°C

Paraná

Castro: -7,5°C
Rio Negro: -7,2°C
Ivaí: -6,1C°
Jaguariaíva: -2,7°C
Paranaguá: 3,8°C

São Paulo

Avaré: 0,3°C
São Paulo (Mirante de Santana): 1,5°C
São Paulo (Horto Florestal): 0,7°C

Mato Grosso

Cuiabá: 9,0°C
Aquidauana: -2,2°C
Corumbá: 3,3°C

Amazônia

Alto Tapajós: 11,1°C
Uaupés: 18,1°C
Manaus: 19,0°C
Iauaretê: 16,5°C (na linha do Equador)
Cruzeiro do Sul: 9,6°C

As geadas foram muito intensas em toda a Região Sul e atingiram também boa parte de São Paulo. Geou em Catanduva, Limeira, Avaré, Itú, Monte Alegre do Sul, Tatuí. Em Presidente Prudente, a mínima desceu a -1ºC.

Neste dia, a onda de frio começou a perder força, embora ainda mantendo temperaturas relativamente baixas durante o dia.

Terça-feira, 2 agosto 1955
A onda de frio perde força rapidamente, mas de manhã o frio ainda pegou forte principalmente no Estado de São Paulo.

Mínimas:

Camboriú, SC: -1,2°C
São Paulo, SP: -2,1°C (recorde histórico)
Santos, SP: 4,3°C
Iguape, SP: 3,2°C
Angra dos Reis, RJ: 9,9°C
Itajubá, MG: 1,2°C

No dia 3 ainda foram registradas mínimas negativas no Sul do país, mas no dia 4 o ar frio já se dissipava totalmente. Mesmo assim, Teresópolis registrou apenas 1,2°C.

Foi o fim da superonda polar do inverno de 1955.

Estamos com a maioria

José Horta Manzano

Mais um Datafolha saiu. Parece que essa turma trabalha de verdade. Desta vez, quiseram saber o que pensa o povo brasileiro da comemoração do 31 de março, dia que já foi “da Revolução Gloriosa” mas, decaindo com o tempo, tornou-se “do Golpe Militar”. Nenhuma farsa dura pra sempre; com o passar do tempo, arrancam-se máscaras e descobrem-se fedores.

A quota de 63% de brasileiros que estão de acordo para desprezar o 31 de março me surpreende um pouco. Imaginava que todos os integrantes da seita bolsonárica fossem devotos da militarização do Estado brasileiro. O resultado das últimas eleições mostrou um Brasil partido em dois. Ora, 63% está mais para 2 de cada 3 conterrâneos ansiosos para virar essa página.

O de 1964 não foi o único golpe de Estado a que se assistiu no Brasil. Nossa história está coalhada por dezenas deles. Mas tem uma coisa: só são comemorados os que deram certo e perduraram até hoje.

Um exemplo é o golpe dado em 1822 por D. Pedro, quando mandou a própria família às favas e se autoproclamou imperador. O gesto foi fantasiado de “Grito da Independência” e, com esse qualificativo, é comemorado até hoje. Foi golpe que deu certo.

Outro exemplo é o golpe dado em 1889 pelo Marechal Deodoro. A família imperial foi despachada para a Europa no primeiro barco, o governo constituído foi destituído e o regime mudou de nome. Nós nos esquecemos do golpe, mas comemoramos até hoje a “Proclamação da República”. Foi outro golpe bem sucedido.

O golpe de 1964 não deu certo. Instalou militares no poder por 21 anos, mas o poder civil acabou recuperando as rédeas. Longeva por longeva, a ditadura que se seguiu ao golpe de Vargas, em 1930, durou 15 anos, tempo pra nenhum aprendiz de ditador botar defeito.

Por que razão deveríamos santuarizar 1964, quando já esquecemos totalmente 1930? E 1977, 1955, 1924, 1918 e tantos outros golpes menos importantes, que praticamente viraram pó e foram instalados na lata do lixo da História, como se diz. Por que venerar o 31 de março?

A meu ver, falar ou deixar de falar nessa data não incita nem dissuade os militares de dar um golpe. O ex-presidente passou 4 anos inteiros a insinuar sua simpatia e seu desejo de que os militares dessem um golpe de Estado e o deixassem assumir a Presidência – o que não seria automático. Apesar da insistência, à exceção de um pequeno grupo de oficiais, os fardados não lhe deram bola e o deixaram falando sozinho.

Quanto a mim, fico com os 63% de brasileiros cansados de ouvir falar num tema que não lhes parece primordial. Os tempos mudaram. Militares já demonstraram não estar interessados em golpe. Temos tantos outros problemas, não me parece inteligente criar mais um.

Cagão

José Horta Manzano


Disclaimer
Este texto apenas enumera hipóteses elaboradas pelo autor. Ainda não são (e talvez nunca se tornem) verdade atestada.


Peço desculpas ao distinto leitor e à graciosa leitora pelo título deste escrito. Por estas bandas, não costumamos nos alimentar de pratos escatológicos, mas a situação é especial. No entourage do capitão, palavras como essa do título são como arroz e feijão: são servidas em todas as refeições.

Mas o fato do dia é que… o imbroxável broxou de vez. Se homiziou na embaixada da Hungria em Brasília e lá passou dois dias. Não sei quanto está cobrando a embaixada pelo pernoite com pensão completa. Se o preço for abordável, vou bater-lhes à porta dia desses.

Quem liberou as imagens?

Achei estranho, em todos os papéis que li, não ter visto ninguém querendo saber quem liberou os vídeos e como eles foram parar na mídia mundial. Pois a resolução do mistério reside exatamente nesse ponto: quem liberou as imagens?

Se alguém quiser causar a maior repercussão planetária utilizando um só veículo da mídia, não há dúvida – o caminho é um só: The New York Times, de longe o jornal mais importante do mundo.

Pensei: como é que os vídeos chegaram lá? Tentei imaginar um repórter do NYT escalando o muro da embaixada da Hungria no escurinho da madrugada, em seguida arrombando a porta da entrada e aspirando, com um pen drive (chave USB), o arquivo de vídeos de segurança. Coisa de filme de espionagem, inimaginável na vida real. Mas se ninguém roubou, quem passou as imagens para o NYT?

Ora, se as imagens não foram surrupiadas, só podem ter sido entregues ao jornal pela própria embaixada, não vejo outra possibilidade. E por que razão terão feito isso?

Vamos começar do começo. Quando a justiça retirou o passaporte de Bolsonaro, o pavor de uma prisão iminente deve ter se instalado no entorno dele. Conselho de crise foi instalado e ideias foram brotando, umas mais estrambóticas que as outras: deixar o país dentro de um porta-malas, encomendar a um meliante mais jeitoso que confeccionasse passaporte falso, fretar jatinho privado capaz de percorrer longas distâncias.

A intenção era de escapar à cadeia. Mas cada ideia tinha seus inconvenientes. Deixar o país num porta-malas e, no dia seguinte, como fazer sem passaporte? Encomendar passaporte falso que responda a todos os requisitos tecnológicos? Impossível, seria parado no primeiro guichê de imigração. Viajar num jatinho privado? Seria como viajar no porta-malas. No dia seguinte, sem documento, como é que fica?

Depois de uns dias espremendo as meninges, um dos pequenos gênios que cercam o capitão veio com a ideia de pedir refúgio a uma embaixada estrangeira. Se aceitassem, ele estaria protegido, visto o estatuto de extraterritorialidade das representações diplomáticas: nenhuma polícia poderia alcançá-lo ali. Se não aceitassem dar-lhe refúgio, ficariam elas por elas, tudo discreto, episódio não visto e não sabido. A ninguém ocorreu levar em consideração o risco de a própria embaixada botar a boca no trombone.

Sim, senhores, porque foi exatamente o que ocorreu. Vamos ver como.

A embaixada deve ter sido avisada da chegada iminente de Bolsonaro, ex-presidente do Brasil. Sabiam que ele tinha um assunto urgente a tratar com o embaixador. Visita de ex-presidente não se pode recusar. O visitante chegou, entrevistou-se com o embaixador, pediu asilo diplomático. Naturalmente, nenhuma resposta lhe pôde ser dada na hora. O profissional ficou de consultar Budapest.

Era noite, e o capitão assustado pediu licença para se recolher na embaixada. Foi alojado na ala de visitantes.

Dia seguinte, ficou sabendo que nenhuma resposta tinha vindo de Budapest. O jeito era esperar, que essas coisas são complicadas e demoradas. Fico imaginando o apuro do governo húngaro, atarantado, sem saber o que fazer. Bolsonaro é um sujeito pestilento – ou tóxico, como se diz hoje em dia. É daquelas visitas fortemente incômodas, que merecem vassoura atrás da porta, de cabeça pra baixo. Não sei se, nas tradições magiares, essa simpatia também funciona.

Pousou mais uma noite nos locais, sempre na incerteza da concessão do asilo. Os vídeos publicados pelo NYT não deixam claro, mas imagino que o ex não tenha sido deixado à míngua. Pensão completa deve ter sido servida. Talvez em quentinhas, que é sempre melhor “jair se acostumando”.

No terceiro dia, não dava mais pra segurar. Deram a Bolsonaro a notícia chata: nada de refúgio, capitão, que Budapeste não está de acordo. Se você ainda não assistiu aos vídeos, preste atenção no finalzinho, quando nosso ex deixa a embaixada. Provavelmente estava sendo gentilmente acompanhado até a porta. Sai apressado, enfezado, sem olhar para os lados, não cumprimenta ninguém, encafua-se no carro e zarpa. Se aquilo não é sintoma de que seu objetivo foi pro espaço…

Isso tudo ainda não explica por que razão os vídeos saíram no NYT.

Já venho. Os serviços de segurança da Hungria são herdeiros do duro sistema soviético. Faz tempo que recobraram a independência, mas há coisas que marcam um país por décadas. Entendem que Bolsonaro, embora pareça viver livre e solto na natureza, está sendo discretamente seguido pela nossa PF. Compreenderam que a Federal estava a par da longa visita à embaixada da Hungria e devia estar com a pulga atrás da orelha.

Antes de cair na desconfiança da polícia brasileira, os diplomatas, certamente instruídos por Budapest, fizeram chegar os vídeos de segurança ao New York Times. É até possível que o jornal tenha se comprometido a não divulgar a verdadeira fonte, talvez inventem o nome de um intermediário qualquer.

Agora, publicados os vídeos, a embaixada da Hungria lava as mãos. Por certo não dirão mais nada. Vão deixar que cada um faça sua própria ideia sobre a razão da visita de Bolsonaro.

Pronto, gente boa, o círculo está fechado. Podem se dispersar, o espetáculo acabou.

Para Bolsonaro ficou a lição. “Países não têm amigos, têm interesses”. Enquanto ele era presidente do Brasil, representava um certo interesse para a Hungria. Agora, derrotado e na mira da Polícia Federal, virou um lixo que ninguém quer ver por perto.

Educação

José Horta Manzano

No verbete ‘Educação’, o Dicionário Houaiss é claro. Garante que:


“Educação é a aplicação dos métodos próprios para assegurar a formação e o desenvolvimento físico, intelectual e moral de um ser humano.”


Ministro da Educação é o profissional que vela pela aplicação e pelo bom cumprimento das diretivas mestras relativas à Instrução Pública nacional. Como sabemos, nosso ensino é laico, obrigatório e gratuito.

Diretivas elaboradas num ambiente como o Estadão descreve, sem música mas com acompanhamento de gritos e socos na mesa não podem dar bons frutos. Para começar, de onde saiu essa gente que, para se entender, recorre a gritos e a socos na mesa? Serão trogloditas que o capitão esqueceu de levar na bagagem?

O presidente da República (e seus assessores) têm absoluta necessidade de dar maior atenção à escolha dos que cuidam da Educação nacional. É um terreno por demais importante para ser largado nas mãos de gente que, contrariada numa reunião de trabalho, arregaça as mangas e chama pra briga.

Indivíduos que só conseguem se entender no grito e na pancada não servem para estruturar a Instrução Pública. Seja qual for o motivo do barraco, teriam de ser demitidos imediatamente.

“Dor de cabeça” ou “problemas familiares” não servem como desculpa para a violência no trato profissional.

Criminho

 José Horta Manzano

Não faz muito tempo, analistas informavam que o STF tinha planos e até um roteiro pronto para tratar o caso do fracassado golpe de Estado de Bolsonaro. O capitão só seria incriminado depois de todas as peças do processo estarem juntadas, todas as testemunhas terem sido ouvidas, todas as provas estarem reunidas.

A partir daí, viriam o indiciamento e o devido processo. Em seguida, os inevitáveis recursos. Quando não houvesse mais recurso possível e o caso tivesse transitado em julgado, só então Bolsonaro seria preso.

Mas o golpe fracassado, que culminou no ataque de 8 de Janeiro, era o “crimão”. Pelo que ora se descortina, a estratégia começa pelos criminhos, aqueles cujas penas não serão suficientemente pesadas a ponto de determinar encarceramento do réu. Mas ficarão gravadas em seu prontuário e tirarão do justiciado, para sempre, a condição de réu primário.

Até chegar ao 8 de janeiro, ainda tem chão. O caso das joias e dos presentes afanados, o incentivo ao contágio durante a pandemia, o exercício ilegal da medicina quando receitou cloroquina, a convocação dos embaixadores para dinamitar a confiança nas instituições nacionais – e outros que me escapam agora –serão julgados antes do caso da intentona.

A convocação dos embaixadores já lhe rendeu a inelegibilidade mas, se eu não estiver enganado, ainda não foi julgada criminalmente.

Se for esse o roteiro, me parece muito bem arquitetado. Sai de uma bobaginha e vai crescendo até o clímax: o julgamento do golpe abortado. O crimão.

Que um muro alto proibia…

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José Horta Manzano

Especialista em arquitetura penitenciária é que não sou. Aliás, acho que não há muitos em nosso país. Se houver, parece que o governo esqueceu de consultá-los quando implantou a penitenciária de segurança máxima de Mossoró.

Ao pensar em uma prisão, a imagem que vem à mente de qualquer cidadão é um edifício de aspecto severo cercado por um muro alto encimado de rolos de arame farpado. A fotografia das instalações penitenciárias de Mossoró que sai na mídia todos os dias mostra um conjunto de edifícios baixos, emoldurados de um verde aprazível, rodeados apenas por um alambrado, sem sombra de muro. Um espanto!

Quer dizer que prisioneiros comuns são encarcerados em estabelecimentos que parecem fortificação medieval, enquanto condenados de altíssima periculosidade cumprem pena como se estivessem em vilegiatura, em meio ao verde repousante, sem muros que lhes tolham a visão. Um assombro!

É possível que teorias modernas de construção de prisão proponham que estabelecimentos de alta segurança sejam cercados apenas de alambrado. Leigo no assunto, tenho dificuldade em conceber essa escolha. Não é por nada não, mas será que a verba para construção do muro alto não teria sido – por engano, naturalmente – desviada para compra de tratores ou de bois?

Que tenha sido erro ou traquinagem, o resultado está aí. São atualmente 500 profissionais destacados para a “caçada” aos fugitivos. Quem diz meio milheiro de policiais, subentende tudo o que acompanha: locomoção, alimentação, alojamento, logística (quem lava e passa as fardas?), helicópteros à disposição, visita de ministro direto de Brasília. Tudo isso por dois homens. E por falta de muro.

Se duvidar, é capaz de esse verdadeiro movimento de tropas estar saindo mais caro do que a contrução de um muro alto com arame farpado em cima.

Cria vergonha!

José Horta Manzano

Cria vergonha! – a expressão é do tempo de meu pai. Uma notícia de hoje me fez lembrar dela, mas fazia um tempo que andava sumida. É compreensível que tenha desaparecido. Usava-se falar assim no tempo em que “ter vergonha na cara” significava alguma coisa.

Hoje, acredito que o assunto já não comova. Chamar alguém de “sem vergonha” não faz efeito, acho que nem xingamento é mais.

Por ser muito branda, a expressão não faz mais parte da escala de ofensas. Hoje em dia, insulto bom já começa em “Ladrão!”. E daí pra cima, passando por “Nazista!”, “Comunista!” e companhia bela.

É indiscutível que o nível de tolerância de comportamentos violentos anda um bocado maleável, deixando a velha “vergonha na cara” em posição de primo pobre e fraquinho. Mas não é a única razão por trás do sumiço da antiga expressão. O problema maior é que já não se dá à “vergonha na cara” o mesmo valor de antes.

Atualmente, acho que a vergonha já não aparece entre as qualidades exigidas do perfeito cidadão. Em personagens políticos, então, é virtude praticamente inexistente. Sem nenhuma vergonha, eles insultam, roubam, corrompem, deixam-se corromper, esbanjam nosso dinheiro, beneficiam parentes.

Quando a Federal apanha um deles com a mão na carteira alheia, o danado nem se mostra envergonhado. Logo alega que o culpado não é ele, é outro. E, em geral, fica por isso mesmo. Vergonha na cara, ninguém exibe.

Como eu dizia, hoje, de repente, me reapareceu diante dos olhos a velha expressão. E veio da boca do presidente da República. Numa entrevista, indagado sobre o caso Robinho, Lula foi direto: ”Todas as pessoas que cometerem crimes de estupro têm que ser presas”. E emendou:


“Um homem, jovem que tem dinheiro, um jovem rico, famoso, praticar estupro? E coletivo? E acha que não cometeu crime! Acha que estava bêbado? Ah, cria vergonha! Estupro é um crime imperdoável!”


Não sei se todo o mundo pensa igual, quanto a mim, aplaudi de pé a fala presidencial. E olhe que não é todos os dias que isso acontece…

Estupro é crime covarde, em que um indivíduo forte submete um mais fraco. No assalto à mão armada, o forte (que aponta a arma) também submete o frágil (desarmado), só que, no estupro, além da arma apontada, há a humilhação e a dor da violação do corpo desonrado. Estupro coletivo, então, é covardia ao cubo. Em outras latitudes, dá perpétua.

Está terminando a época em que nosso país acolhia o refugo da criminalidade internacional. Durante décadas, mafiosos, nazistas, assassinos, assaltantes de trem pagador & alia encontraram abrigo nestas terras tropicais. Hoje rareiam. E não está longe o dia em que não virão mais.

O Brasil não pode ser covil de criminosos. O Lula tem toda razão: lugar de estuprador é na cadeia. Vamos ver que decisão tomam os magistrados encarregados do caso desse “jovem, rico, famoso” – nas palavras do presidente.

Vai aqui uma ideia para evitar que a índole honesta do brasileiro continue a se esgarçar. No finalzinho do Hino Nacional, onde se canta “Pátria amada, Brasil!”, que se passe a cantar “Cria vergonha, Brasil!”.

Vox populi

José Horta Manzano

A pluma do jornalista Lauro Jardim nos informa que convocar a manifestação na Avenida Paulista duas semanas atrás foi um grande erro que Bolsonaro cometeu. Não se trata de opinião de uma pessoa, mas de resultado de pesquisa do Ipec, instituto que, entre os dias 1° e 5 de março, consultou dois mil eleitores sobre o assunto.

A uma questão direta, a resposta tem de ser direta. A pergunta era: “Na sua opinião, está certo ou errado o ex-Presidente Jair Bolsonaro convocar um ato em seu apoio após se tornar alvo de investigação da Polícia Federal pela suspeita de ter planejado um golpe de Estado?”. E a resposta só podia ser “certo” ou “errado”, sem mais nuances.

Pasmem: 61% dos entrevistados julgam que Bolsonaro errou ao organizar o comício. O resultado é surpreendente, visto que, pouco mais de um ano atrás, o país saiu das eleições dividido em dois campos de tamanho praticamente igual.

A pesquisa mostra que não só os que votaram no Lula acham que Bolsonaro fez uma grande besteira. Até entre os que têm simpatia pelo capitão e nele votaram, um eleitor em cada três acredita que ele errou.

Ao longo de seu mandato, Bolsonaro especializou-se em convocar reuniões, entrevistas e comícios que, sendo erros políticos, desabaram sobre sua cabeça.

* Vamos lembrar das desastrosas reuniões ministeriais em que a enxurrada de palavrões não encobriu a estupidez e a maldade do que foi dito. A última delas está até servindo de prova nos processos movidos contra o ex-presidente.

* Vamos recordar também o calamitoso “brienfing” com Suas Excelências, os embaixadores de países amigos. Esse meeting absurdo cobrou custo pesado: provocou a inelegibilidade do capitão.

* E não nos esqueçamos do trio elétrico montado nas comemorações de 7 de setembro, alguns anos atrás, peça importante entre as acusações que pesam sobre o ex-presidente.

Lula tem cometido erros primários, que embaçaram o brilho que envolvia sua personalidade. No entanto, verdade seja dita, até agora se absteve de convocar “brienfings” e manifestações em causa própria.

Que continue assim, pra não arriscar ficar cada dia mais parecido com seu predecessor.

Portugal: Lula na cadeia

José Horta Manzano

Neste domingo os eleitores portugueses votam para renovar o Parlamento. Dependendo do resultado, o deputado André Ventura, líder do “Chega” (partido de ultradireita), ficará bem posicionado para ocupar o cargo de primeiro-ministro. Seu partido exibe, com orgulho, o apoio de Jair Bolsonaro.

Quinta-feira última, Ventura fez um discurso de campanha. Apesar do ar irônico, foi veemente ao afirmar (com todas as letras que o falar lusitano lhe permite):

“O senhor presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, não vai entrar em Portugal. Nós não vamos deixar que entre em Portugal.”

(Neste ponto, pausa para uma chuva de aplausos e coro de “Ventura, Ventura”, que o deputado incentiva, regendo a cadência com a mão direita)

Mais adiante, animado pelos aplausos, adota palavreado sarcástico. Adverte “todos os que estão pra vir neste 25 d’abril” (cinquentenário da Revolução dos Cravos, que enterrou a ditadura em Portugal em 1974), que sejam “prudentes na compra da passagem”. E cita de novo “senhor Lula da Silva” ao repetir que, se ele aparecer, “ficará no aeroporto de Lisboa”. E martela: “Se insistir, vai pra uma cadeia, mas ele já sabe o que é isso, portanto também não será uma grande novidade pra ele”.

O discurso foi blablá de bravateiro, visto que o Lula já pagou pelo que fez, seu processo foi encerrado e ele não tem por que temer fanfarronices. Já é diferente o caso do Bolsonaro, mentor do deputado português. Com as investigações que carrega às costas, inclusive na Corte Internacional de Justiça, é o capitão quem arrisca ser preso assim que puser os pés fora do país.

Uma lição se pode extrair da fala do deputado, um ensinamento que o Lula deveria reter. Vai aqui abaixo.

Tirando dirigentes do nível de Bolsonaro, que felizmente são poucos, não é comum ouvir insultos pesados e gratuitos dirigidos contra mandatários estrangeiros. Se o deputado português sentiu-se à vontade para zombar tão violentamente do presidente de nossa República, não é somente por ser ele da extrema direita. Tem mais.

Com seus malditos palpites dados em público em assuntos dos quais não entende patavina, o Lula tem aberto o flanco. Ao posicionar-se ao lado de Putin e contra a Ucrânia, ao condenar Israel e aliviar a barra do Hamás, ao defender Maduro e denunciar a oposição, Lula põe-se do lado sombrio da História. Ao dizer “sombrio” refiro-me realmente à falta de luz. Lula prefere seguir o caminho das sombras, cercado de gente ao lado de quem um ser bem informado jamais tomaria uma cervejinha.

Aberto o flanco, Lula se expõe e vira alvo fácil dessa malta cuja violência começa nas palavras e vai sabe-se lá até onde. Vamos partir da hipótese que, em vésperas de eleição, o deputado esteja tentando granjear uns votos a mais. Portanto, ele não havia de estar discursando unicamente para seus fiéis eleitores. Tinha na mira também eleitores de outras correntes políticas. O que ele disse foi dirigido a todos, não somente aos seus. Se disse o que disse, é porque se sentiu convicto de que suas palavras não escandalizariam ninguém.

Tivéssemos nós um presidente “normal”, um homem que mostrasse equilíbrio e escrutínio, um ataque como esse do deputado dificilmente ocorreria. Se ataque houve, é porque o eleitor português, seja de direita, centro ou esquerda, não é bobo: está a par das trapalhadas internacionais de nosso presidente. Tripudiar sobre o Lula parece estar se tornando algo como jogar cocô na Geni, um ato corriqueiro.

Lula que se cuide. A insistir no caminho pantanoso em que está metido, quem vai acabar no brejo é sua reputação.

Assistir no youtube a fala do deputado (2 min).

Mortos compram armas

José Horta Manzano

Repórteres do Estadão tiveram a pachorra de esmiuçar um relatório do Tribunal de Contas da União focado na venda de armas e munições a particulares durante os quatro anos bolsonáricos (2019 – 2022). O que se descobriu ali é de assustar até bicho-preguiça.

* 94 pessoas já falecidas compraram cerca de 17 mil munições para arma de fogo

* Quase 12 mil indivíduos falecidos entre 2019 e 2022 possuíam mais de 21 mil armas registradas em seus nomes

* 2.690 foragidos da polícia possuem armais legais

* 5.235 cidadãos em cumprimento de pena conseguiram obter, renovar ou manter seus certificados de registro de arma de fogo (CRs)

* Indivíduos condenados por crimes graves, com mandado de prisão em aberto, conseguiram obter carteirinha de CACs e são suspeitos de estarem sendo usados pelo crime organizado como “laranjas”.

É de assustar ou não é?

Numa primeira análise, se poderiam pôr essas aberrações na conta de erros cometidos por zelosos funcionários ao cumprir as determinações de Jair Bolsonaro com relação ao afrouxamento de regras de compra e venda de armamento. Um lamentável efeito colateral do programa de rearmamento, digamos.

Uma reflexão mais profunda, porém, faz virem à tona eflúvios pestilentos do passado do capitão, homem que emergiu de um caldo de violentos milicianos e de desonestos militares de baixa patente.

De alguém habituado a tratar com indivíduos que fazem da violência seu modus operandi de todos os dias, é lícito imaginar que pretendesse contar com o precioso apoio armado dessa malta quando chegasse o momento do almejado golpe de Estado.

Nessa linha de pensamento, as aberrações reveladas pelo relatório do TCU deixam de ser “efeito colateral” para tornar-se “efeito desejado” do programa de disseminação de armas.

Quanto mais braços para erguer o salvador da pátria, melhor seria. Além dos habituais sectários verde-amarelos, seriam também bem-vindos: milicianos, foragidos da polícia, cidadãos em cumprimento de pena, indivíduos com mandado de prisão em aberto. Todos armados, bem entendido. Até mortos podiam comparecer, desde que entrassem para a seita.

Foi por um triz. Para nosso alívio, a canoa furou.

Peito estufado

Chamada do G1
2 março 2024

José Horta Manzano

Sensação de pertencer à nação brasileira só costuma aparecer em ocasiões que não nos dizem respeito pessoalmente. Me explico. Quando o Congresso aprova uma lei que beneficia sua categoria, o cidadão não costuma sentir orgulho dos parlamentares. Afinal, estão lá exatamente pra isso, ou não?

Esse orgulho que some nos momentos em que somos beneficiários aparece nas horas em que somos meros espectadores. Brasil, campeão do mundo? É de sair de verde-amarelo buzinando pelas ruas e abraçando desconhecidos. Brasil, maior exportador de soja ou de suco de laranja? É de sentir uma pontinha de orgulho.

Essa “pontinha de orgulho” ressurge sempre em momentos que não nos trazem nenhum benefício além da satisfação. Hoje vi manchetes por toda parte, todas de peito estufado, apregoando que “o Brasil volta ao grupo das maiores economias do mundo”.

No meu tempo, se perguntava “O que é que Maria leva?”, que significava “Quanto é que eu ganho nisso?”. Analisando bem, ninguém ganha. Fica só no orgulho mesmo.

Manchete boa para todos seria “Subida espetacular do PIB brasileiro per capita”. Que nossa economia ultrapasse Canadá e Rússia, como se ufana a manchete acima, me parece algo natural. Afinal, são países com população inferior à nossa. Seria vergonhoso ficar atrás deles.

O que conta é o que ajeita a vida de todos: que a repartição do bolo acabe dando uma fatia maior a cada habitante.

A lista dos países por ordem de PIB total é enganosa. A China aparece lá em cima, à frente de quase todos, junto aos Estados Unidos. No entanto, os bens e serviços à disposição do cidadão chinês médio são infinitamente inferiores ao que ocorre nos EUA. Países cujos cidadãos têm qualidade de vida superior são aqueles onde o PIB per capita é mais elevado.

No levantamento de PIB per capita feito pelo Banco Mundial para o ano 2022, os EUA aparecem em 9° lugar, com PIB per capita de 64.700 dólares. A China só vem em 73° lugar, com 18.200 dólares por habitante. O Brasil, em 84° lugar, engatinha atrás da China e do Irã, com magros 15.100 dólares.

Isso significa que a China, apesar do poderio comercial que lhe confere seu PIB total impressionante, está longe de dar a seus cidadãos a qualidade de vida dos 83 países e territórios que têm PIB per capita mais elevado que o dela.

Quanto ao Brasil, vale o que foi dito para a China, só que alguns degraus mais abaixo.

Ainda não é hora de estufar o peito pra falar em “pibão”. Por enquanto, o que chega ao bolso de todos nós não passa de pibúnculo. E assim vai continuar por muito tempo.

A cada 29 anos

José Horta Manzano

Neste 29 de fevereiro, o mundo se agita em torno de explicações do como e do porquê esse dia surge no calendário, quase como um penetra. Apesar das aparências, este post não fala do dia bissexto. O assunto é outro.

Pode ser coincidência; pode até ser superstição; quem sabe são elucubrações de quem não tem muito que fazer. Ou vai ver que é um pouco de cada uma das anteriores. O fato é que, a cada 29 anos, uma pedra aparece no destino do Brasil. Uma pedra, disse eu? Uma pedrada, isso sim! Vamos ver.

A inquietante série começou em 1961. Em 31 de jan° daquele ano, a Presidência do Brasil foi assumida por Jânio da Silva Quadros. Homem esquisito, populista da gema, era daquele tipo de gente que não se sabia bem de onde tinha saído. Tinha uma fala cheia de mesóclises e outros preciosismos. Solitário e arisco, acabou tragado pelo ermo da Brasília daqueles tempos sem internet. Notícias do Planalto chegavam aos grandes centros com 24 horas de atraso, já diluídas pelo diz-que-diz. Um dia, Jânio demitiu a si mesmo antes que um Congresso assaz hostil o fizesse. E acabou ligando a incubadora do golpe militar que viria dois anos e meio mais tarde.

Passaram-se 29 anos. Em 1° de março de 1990, assumiu a Presidência Collor de Mello, o “caçador de marajás”. Era um aprendiz de populista, fabricado em laboratório, desprovido da legitimidade que a poeira das estradas confere aos viajantes persistentes e calejados. Depois de belas escorregadelas, descobriu-se que o “marajá”… era o próprio presidente. Um Congresso assaz hostil tratou de expelir da Presidência aquele que se tinha apresentado como “antissistema”.

Passaram-se mais 29 anos. Dia 1° de jan° de 2019, quem subiu a rampa foi Jair Bolsonaro. Abduzido pela extrema direita e imbuído de ideias estranhas, o capitão tratou de utilizar métodos populistas para firmar-se no trono. O problema é que, incapaz de controlar sua mente confusa, acabou mais afugentando que agregando em torno de si. Para aplacar a rejeição de um Parlamento descontente, abriu as burras do Estado e permitiu que Suas Excelências se lambuzassem à farta. Foi a única forma que ele encontrou de se aguentar na corda bamba até o fim do mandato.

Adicionando 29 anos a 2019, chegamos ao ano da graça de 2048. Para quem já está entrado em anos, como este escriba, trata-se de um futuro inalcançável. Mas, para quem ainda tem sola de sapato pra gastar, é amanhã. Que anotem num caderninho a previsão deste Nostradamus de segunda. Um elemento novo deve entrar na vida de nossa República em 2048. Que será? Quando vai estourar o rojão? Difícil dizer. Minha bola de cristal anda meio embaçada.

De qualquer maneira, ainda que minha previsão esteja errada, não corro risco nenhum. Em geral, passado um ano, ninguém mais se lembra das previsões do ano anterior – imagine daqui a um quarto de século…

Ainda falta muito. Vamos ver se os incêndios, as secas e as inundações não acabam com nosso país antes.

Baile da saudade

José Horta Manzano

A charge
Achei genial a charge que saiu na Folha de hoje, obra do jovem desenhista João Montanaro (27 anos). É a imagem reproduzida acima.

A seita
Os obstinados que se mobilizam a um simples aceno de Bolsonaro estão mais para sectários (fiéis de uma seita) do que para partidários (companheiros de partido). A obediência absoluta demonstra isso. Partidos, especialmente no Brasil, não exigem fidelidade total de seus membros. Já uma seita só sobrevive da lealdade de seus adeptos.

Sem faixas
Me parece simples. Com receio de ser levado em cana por incitação à sedição, Bolsonaro pediu a seus fiéis que não trouxessem faixas. Resultado: ninguém veio com faixas. Isso expõe a devoção do distinto público a Seu Mestre, ou seja, ao super-homem que lhes dá ordens.

O Brasil já conheceu populistas que, a seu tempo, magnetizavam os fiéis. Getúlio Vargas talvez tenha sido o mais significativo deles. Assim mesmo, assisti a conversas animadas entre getulistas e ademaristas (de Adhemar de Barros) que não terminavam em tiro nem morto estendido no meio-fio.

A diferença é o que eu dizia antes: num caso, temos simpatizantes de um partido; no outro, são fiéis obedientes a um guru. Essa é a diferença entre os de antigamente e os de hoje. Daí a dificuldade de lidar com os ditos “bolsonaristas”.

No espírito de um “bolsonarista”, o chefe tem sempre razão. Não há discussão possível. Se mandou levar faixa, levo; se não mandou, não levo. Se ele diz que é um inocente perseguido por pessoas más, acredito.

Como argumentar? Não adianta nem tentar. Seria como tentar convencer um eleitor argentino de que o “peronismo” já faleceu faz meio século. Ele não concordará.

Resumindo
Isso foi o que mais me impressionou no ajuntamento de ontem: a ausência de faixas. Da meia dúzia de discursos, já se imaginava que não insultariam magistrados, mas do público era mais difícil. No final, vê-se que foi mais fácil adestrar os assistentes do que conter um dos ‘pastores’ discursantes, que chegou a cutucar autoridades superiores a ele.

Trocando em miúdos, temos uma continha de soma zero. Os ‘bolsonaristas’ deram mostras de quem são e do apreço que devotam ao guru. Continuam a apreciar o chefe. Quanto aos ‘não bolsonaristas’, continuam no seu canto, sem precisarem de chefe que lhes diga de que cor têm de se vestir. Os de lá não votam nos de cá e vice-versa. O desfile não fez ninguém mudar de campo. Zero a zero.

Quanto à Justiça, ah, são outros quinhentos! O tempo judicial é mais longo que o tempo do trio elétrico ex-presidencial. Daqui a uma semana, a algazarra suscitada pelo ajuntamento da Avenida Paulista terá sossegado. Mas os processos, implacáveis, continuarão a correr nos escaninhos do Supremo.

Não acredito que choro de Madame amoleça coração de magistrados.

PS
Esperemos que os juízes que vão julgar Bolsonaro não tenham interpretado essa movimentação como demonstração de força ou, pior, como afronta ou provocação. Juiz irritado tem a mão pesada.

Manda embora o assessor, Lula!

José Horta Manzano

Lula, prezado presidente!

É curioso notar que tens o costume, desde teu primeiro mandato, de nomear uma dupla para cuidar as Relações Exteriores. Talvez isso te dê maior segurança numa área em que tu, vez por outra, deslizas na maionese.

Nos primeiros mandatos, além do ministro de Relações Exteriores, mantiveste um “assessor” (aquele do top-top, lembras?), que parecia ter mais influência nas tuas decisões do que o próprio ministro. Neste Lula 3, continuas a manter o esquema. Um diplomata de carreira, bom conhecedor das minúcias da profissão, está no posto de ministro. A par disso, de novo, um “assessor” avulso.

Só que, desta vez, escolheste um assessor problemático, Lula. O temperamento belicoso dele tem te dado dores de cabeça. Parece que te apoias demais nos conselhos do personagem.

Por exemplo, a terrível comparação que fizeste, em discurso pronunciado em Adis-Abeba, que deu que falar no mundo todo, foi improviso teu, não há que se diga. Já a emenda do soneto leva as impressões digitais de teu assessor, aquele que tem esperança de que o “bloco dos pobres”, o desengonçado Sul Global, possa ser levado a sério.

Lula, há que ser razoável: toda troca de ofensas e ameaças tem hora pra acabar. É como jogo de futebol – pra usar metáforas que te são familiares. Tem tempo pra jogar e tem tempo pra acabar. Quando o árbitro apita o fim da partida, não é mais hora de tentar acertar o gol.

O auê que a tua fala provocou em Israel e no mundo já se estava acalmando. Eis senão quando, na tua alocução de sexta-feira passada, tornaste a martelar o prego da discórdia:


“Se isso não é genocídio, nâo sei o que é genocídio”.


Pois não sabes, velho Lula, não sabes de fato o que é genocídio. E pensar que já te ensinei mais de uma vez, mas não pareces ter boa memória. Ou quiçá nem lês o blogue. Ou (desconfio que seja a resposta correta) isso é obra de teu “assessor” marrudinho. É ele quem te está ‘fazendo a cabeça’.

O martírio imposto aos gazeus pelo exército israelense, podes chamá-lo como quiseres: massacre, matança, morticínio, castigo coletivo, carnificina perpetrada por agressores desapiadados. Mas genocídio, certamente não é. Se em mim não acreditas, pergunta a teu ministro, o verdadeiro. Ele parece ser pessoa arrazoada. Terá estudado o assunto e deve saber que a definição de genocídio é rigorosa, estabelecida há 75 anos pela ONU.

Mas um conselho te dou e repito, Lula: livra-te rápido de teu empacado “assessor”. Se não tens coragem de dispensá-lo de chofre, oferece a ele um prêmio de consolação: uma embaixada em Paris, por exemplo. Ele não há de recusar. Assim tu te livras de uma fonte de dor de cabeça.

Está na hora de nossa diplomacia olhar pra frente em vez de ficar aí andando de banda feito caranguejo.

Prisão de segurança máxima

José Horta Manzano

Talvez seja ainda um pouco cedo para apontar o dedo, mas algo me parece esquisito nessa fuga de dois presos da Penitenciária Federal do Rio Grande do Norte. Quando a esmola é muito grande, o santo desconfia – é o que se costumava dizer na minha terra. No presente caso, a esmola que os fujões receberam é pra lá de enorme.

Alguns pontos acusam a própria concepção do presídio. Vamos ver. Vinte e cinco anos atrás, um cunhado meu que morava numa casa em São Paulo decidiou instalar um sistema de alarme antirroubo. Um dos pontos frágeis assinalados pelo técnico foi o teto de madeira de casa antiga. Pra evitar que um eventual assaltante entrasse pelo telhado, foi instalada uma rede de fios finíssimos encostados à superfície do teto. Com isso, caso um ladrão invadisse o forro e tentasse entrar na casa fazendo um furo no madeirame, o alarme soaria imediatamente.

Ora, entendi que os presos da penitenciária federal saíram “fazendo um furo no teto” da cela para chegar ao andar superior, que era justamente a área de banho de sol. É de crer que uma superfície que serve de área de lazer há de ter um piso de concreto reforçado. (Fica pra ser explicado como cada um conseguiu perfurar, no teto de concreto de sua cela, um círculo permitindo a passagem de um homem.)

Se meu cunhado, um quarto de século atrás, conseguiu quem lhe instalasse um sistema simples, consistindo em uma tela de fios, me pergunto como é que um presídio de segurança máxima não dispunha desse dispositivo. O teto das celas está à disposição do primeiro que se dispuser a fazer um furo. Impressionante. Falha de concepção?

Tem um detalhe que me deixa intrigado: é a presença de um alicate “esquecido” nas obras em curso na área de banho de sol. Estamos falando de um objeto de tamanho extra grande, capaz de cortar as malhas de um alambrado. Primeiro, o que faz um objeto desses numa obra? Segundo, como é possível que um funcionário “esqueça” um trambolho desses assim, sem mais nem menos, num local utilizado pelo detentos para exercitar as pernas? Considere-se que um objeto pesado de ferro, como um grande alicate, pode perfeitamente servir de arma mortal. É inconcebível esse tal “esquecimento”.

Ainda tem muita coisa pra explicar nessa história. Enquanto isso, fica parecendo que alguém abriu a porta da cadeia e convidou dois dos hóspedes a dar um passeio lá fora.