Autor: José Horta Manzano
A nota de 200
José Horta Manzano
O lançamento da nova cédula de 200 reais, ocorrido estes dias, chega atrasado. Essa nota tinha de ter sido introduzida 20 anos atrás, logo na implantação do Plano Real. Naquela época, o normal era pagar em cheque ou em dinheiro. Hoje, que isso tudo acabou, não faz mais sentido emitir cédula nova.
O crescimento vertiginoso de utilizadores de internet e de telefone celular tem levado o mundo a uma economia cada dia menos monetizada. Transações tendem a ser feitas por meios eletrônicos. Nos países mais avançados, agências bancárias desaparecem uma atrás da outra, fenômeno que, se já não for o caso, vai acabar se alastrando pelo Brasil também. Na medida que pagamentos em espécies diminuem, agências bancárias perdem boa parte de sua serventia.
Na União Europeia, a fabricação da nota de 500 euros – aquela que muito pouca gente chegou a ter nas mãos – foi descontinuada em 2019. As cédulas continuam válidas, mas as que entram no circuito bancário são recolhidas para incineração. As que estão em circulação continuam válidas, e assim será por muito tempo. Não seria justo aniquilar pecúlios guardados em fundos de gaveta na Cochinchina ou na Mongólia.
Certos países, como Alemanha, Suíça e Áustria, são extremamente apegados à maneira antiga de pagar.(*) Nessas terras, muitos dão de ombros para cartão de crédito e transferência eletrônica. Preferem carregar as notas na carteira seja para pagar um café, seja para ir ao Correio fazer os pagamentos do mês. Assim mesmo, com o passar dos anos, o número de renitentes vai diminuindo. E assim vai seguir, até desaparecer o último.
No Brasil, a nota de 200 reais vai seguir o caminho de sua comadre europeia de 500 euros. Não tem utilidade para quem tem bom poder aquisitivo porque os que poderiam levar na carteira notas desse valor já estão há anos habituados a pagar com cartão ou por transferência eletrônica. Não tem utilidade para quem tem baixo poder aquisitivo porque os mais modestos perigam nunca ver passar uma delas entre seus dedos.
Essa nota de 200, então, é útil pra quem? Ora, pra bandido. Serve pra escoar fruto de corrupção & outras obscuras transações. Para quem carrega dinheiro em cueca, mochila ou mala, vai ser uma mão na roda. A nova cédula vai facilitar a vida de muita gente fina.

(*) Na Suíça, temos ainda, em circulação normal, a nota de 1000 francos (quase 6000 reais). É provavelmente a cédula de maior valor no mundo todo.
Não é nota que se tenha no bolso no dia a dia. Assim mesmo, se você der como pagamento no supermercado, o caixa não vai olhar feio nem chamar a polícia.
Direitos
Francisco de Paula Horta Manzano (*)
Almoçar fora aos domingos sempre é uma maneira agradável de o marido dizer que gosta da mulher, poupando-a de parte dos trabalhos domésticos, nem que seja uma vez por semana. Ou pode ser uma negociação antecipada (sem que a mulher se dê conta) para o maridão ir assistir ao jogo de futebol logo mais, tomando aquela cervejinha com os amigos. É preciso a mulher ficar atenta para julgar da sinceridade de um convite para almoçar fora num domingo.
De uma maneira ou de outra, muita gente acaba fazendo um programa desses aos domingos. Muita mulher desatenta acaba assinando um alvará para o marido abandoná-la pelo resto do dia, voltando a casa só bem mais tarde, depois de muitas cervejas e, dependendo da quantidade delas, com dificuldade até mesmo para se lembrar do nome da própria esposa:
— Ô… Ô… Ah!… Ifffone!!!
E, quando finalmente se lembra do nome da mulher, sente extrema dificuldade para se lembrar do assunto do qual queria tratar. Aí desiste e deixa pra outra hora.
Mas enfim aconteceu num domingo desses que o Genivaldo foi com a distraída Ivone almoçar fora. Ele já engatilhando as cervejinhas com os amigos mais tarde. Ela indo ingenuamente almoçar.
O Genivaldo é um desses sujeitos que se acham com todos os direitos e mais alguns que, aliás, não tem. Mas, mesmo assim, briga por eles. Tipo “você sabe com quem está falando?” e a outra pessoa nem ousa perguntar “com quem?”. Aí, pelo sim, pelo não, são obtidos os direitos e, de quebra, alguns privilégios também.
Assim, quando chegaram ao restaurante e fizeram menção de ocupar uma determinada mesa num lugar privilegiado junto a uma janela, um garçom, pedindo mil desculpas, indicou-lhes uma outra, num cantinho meio solitário, onde quem se senta parece estar de quarentena. Aquelas mesas já estavam reservadas para um cliente antigo do lugar.
‒ Como assim, não podemos nos sentar aqui? Só porque um figurão vem por aí?
‒ Não se trata disso, meu senhor ‒ respondeu muito polidamente o garçom ‒ é que ele reservou as mesas desta ala. Estão reservadas faz uma semana. É isso.
O Genivaldo já estava começando a espumar discretamente pelo canto esquerdo da boca, o que, para quem o conhecia, não era bom sinal.
‒ Então é isso? A gente trabalha, paga os impostos todos em dia e, quando resolve almoçar fora, não pode porque alguém mais importante segura a mesa antes de chegar ao local!
Comedidamente o garçom tenta explicar-lhe:
‒ Meu senhor, não se trata disso, é que simplesmente o nosso outro cliente fez reserva antecipada. Se me permite, temos uma mesa disponível alí naquele cantinho que, se for de seu agrado…
E apontou para um canto que só não era fora do restaurante porque providencialmente havia uma parede ali, justamente onde a mesa se encostava. Aliás, a mesa estava quase embutida na parede a ponto de deixar no ar uma pitada de dúvida sobre qual das duas viera primeiro: a parede ou a mesa. Podia-se arriscar um palpite de que ambas haviam sido instaladas ao mesmo tempo e no mesmo lugar.
O Genivaldo aceitou e se dirigiu para o cantinho junto com a esposa.
Garçom que é garçom não olha em volta para saber onde é que estão precisando de seus serviços. Acho que nas próprias escolas de formação profissional aprendem a desviar o olhar justamente para os lados onde não há ninguém. Em seguida, com poucos anos de prática, alguns chegam a atingir a perfeição. Você faz um discreto sinal com uma das mãos, mas nada. Você então ergue o braço em nova tentativa, mas o garçom continua a fingir que não viu. Em desesperada tentativa, quando você quase se levanta da cadeira e ergue o braço para chamar a atenção, como se estivesse numa estação de trem, quando todo o restaurante já se deu conta da sua agitação, só o garçom ainda não reparou. Provavelmente, quando você já estiver subindo à mesa para arriscar um zapateado, daqueles que terminam com um sonoro “olé”, aí sim, o garçom vai se resolver a vir até você.
Assim foi com o casal Genivaldo. A mesa à qual se sentavam ficava num canto quase esquecido do resto do restaurante (aliás, do resto de todo o mundo), bem pouco visitada pelos garçons que, a julgar pelo tempo que demoravam a voltar ao salão, pareciam estar em pleno campeonato de palitinhos na cozinha e somente nos intervalos davam umas voltinhas pelo salão, para reforçar a impressão de que ainda estavam por lá e para que os clientes não se sentissem em abandono total.
O bife à parmigiana pedido chegou à mesa em forma de peixe assado (devido a um pequeno mas lamentável equívoco do garçom). De sobremesa, veio um manjar branco em lugar do sorvete de framboesa encomendado (por outro menor mas também frustrante equívoco, coincidentemente do mesmo garçom). Como é natural, tais acontecimentos acrescentaram legitimidade a todas as reclamações feitas pelo Genivaldo, não ao garçom e muito menos ao gerente do restaurante, claro que não, mas à pobre Ivone que, como todas as esposas dedicadas, exerce, entre outras, a função de ouvidora do marido.
Saíram do restaurante depois de pagar a conta, obviamente sem deixar gorjeta alguma.
Quando foram reganhar o carro na rua, viram um policial lavrando uma multa por estacionamento em local proibido. O Genivaldo ainda tentou reclamar:
— Ô, seu guarda! Mas e os direitos da gente? Todo o mundo para por aqui. Será que só eu não posso?
— Não se preocupe não. Aqui todos têm seus direitos garantidos. Já multei todos os outros que estão estacionados e o senhor teve sorte: sua multa é um direito seu e, com ela, foi-se a última folha do meu bloquinho. Todos são iguais, sim, senhor…
(*) Francisco de Paula Horta Manzano (1951-2006), escritor, cronista e articulista.
Rodamoinho
José Horta Manzano
De criança, aprendi que se chamava rodamoinho. Era uma palavra misteriosa, cujo significado, para mim, não ia além da espiral que se formava acima do ralo da banheira quando a água escorria.
Com o tempo, entendi que havia outras formas de dar nome ao fenômeno: redemoinho, redomoinho, rodomoinho e o simples e poético remoinho.
Aprendi também que a palavra transborda do universo da banheira e pode dar nome, em sentido figurado, a fenômenos circulares que, a cada giro, descem um pouco mais, numa viagem inexorável em direção ao fundo.
Às vezes me ocorre que, desde que virou o século, nosso país entrou num rodamoinho, numa situação que, em vez de melhorar, piora a cada ano que passa, e nos puxa para baixo.
Junto com o hábito de comer arroz e feijão, que nos iguala a todos, está um outro fato nacional que nos põe em pé de igualdade: é a escolha do presidente da República. Dela participam todos – obrigatoriamente, aliás. O voto do abastado pesa tanto quanto o do desvalido. O do branco, do preto, do amarelo e do azul têm todos o mesmo valor unitário.
O distinto leitor há de convir que, em matéria de escolha de presidente – que é feita por todos, com um voto por cabeça –, a coisa vai de mal a pior. Dado que o voto representa um concentrado de Brasil e a soma dos anseios e expectativas de todos… ai ai ai. Parece que, em vez de visar para a frente e para o alto, estamos de olho na descida, loucos pra chegar ao fundo do poço.
Na virada do século, tínhamos FHC na Presidência. Goste-se dele ou não (pouco importa), há que reconhecer seus predicados: o homem, autor de uns 30 livros, era sociólogo e senhor de sólida cultura. Foi um dos raríssimos visitantes estrangeiros a serem convidados a visitar o Parlamento francês… e a proferir um discurso lá! Dava orgulho de um Brasil que parecia deslanchar.
De lá pra cá, desandou. Veio Lula da Silva, um malandro arrogante, sem-diploma e orgulhoso. Seguiu-se Dilma, falsa doutora, incompetente e de pensamento confuso. E agora temos doutor Bolsonaro. Este, só de encomenda. Potencializa os defeitos dos antecessores: é mais arrogante que o Lula, é mais agressivo e tem o pensamento mais confuso que o da falsa doutora. E ainda por cima, é de ignorância brutal, crônica e assumida.
Está aí. Já se vão duas décadas desde que entramos no rodamoinho. Deixar-se levar corrente abaixo é moleza; nadar corrente acima é que são elas. Depois que nos livrarmos desse estropício que está aí, o trabalho de reconstrução vai ser longo e pesado.
Remoinho
A palavra vem de moinho, numa alusão ao movimento rotatório das pás que giram, acionadas pelo vento ou, mais frequentemente, pela água corrente.
Remoinho combina com seu irmão castelhano remolino e com os primos-irmãos remous (francês) e mulinello (italiano) – todos de mesmo significado e derivados de moinho (molino, moulin, mulino).
Têm primos mais afastados em outras línguas europeias. Pra dizer moinho, o alemão usa Mühle e o inglês prefere mill. O sueco tem o verbo mala para moer e o substantivo mjölnare (miólnare) para moleiro, aquele que toca o moinho. Até o russo, ao chamar o moinho de мельница (mélnitsa), está se servindo de fruto da mesma árvore.
Lula, Battisti e as desculpas
José Horta Manzano
Artigo publicado pelo Correio Braziliense em 29 agosto 2020.
Como se verá a seguir, certas atitudes expõem a incompetência e a falta de visão de governantes. O caso Battisti é emblemático. Terrorista condenado por atos cometidos nos anos 70 – dois homicídios e participação em outros dois –, o italiano Cesare Battisti fugiu da prisão, passou anos homiziado por França e México, para finalmente pousar em Copacabana, onde se escondeu por 3 anos.
Descoberto em 2007, passou a navegar pelos meandros da exótica prática judiciária do Brasil. Foi preso, foi solto, recebeu o estatuto de refugiado político, perdeu essa condição. As chicanas de nossa peculiar justiça – com sua dificuldade de dar decisão definitiva, como a deixar sempre brecha para uso futuro – conduziram o caso até a escrivaninha do presidente da República, então um certo Lula da Silva.
A ele coube dar o veredicto. Numa decisão estranha, Lula humilhou a justiça italiana e, passando por cima da decisão dos tribunais da Península, concedeu asilo político ao condenado por homicídio. Pegou muito mal, tanto aqui quanto na Itália.
O asilado passou a transcorrer dias despreocupados numa cidade de praia do estado de São Paulo. Distraído, não se deu conta de que o Brasil ainda guarda relentos absolutistas do “Ancien Régime”, sistema em que a lei se amolda à vontade pessoal do rei. Pois foi o que aconteceu. Recém-eleito, doutor Bolsonaro prometeu revogar, uma vez empossado, o asilo dado a Cesare Battisti. O asilado não esperou para ver – escapou à sorrelfa e tomou o rumo da Bolívia.
Ao passar a fronteira, deve ter acreditado que estava a salvo. Engano bobo. Agentes do serviço secreto italiano não tardaram a encontrar seu paradeiro. A partir daí, é permitido especular que tenha havido um acerto entre Roma e La Paz. (Esta parte não é oficial, mas é plausível.) O fato é que, apenas chegado a Santa Cruz de la Sierra, Cesare Battisti foi preso pela polícia boliviana e, em 24 horas, deportado em rito sumário. Nem processo de extradição houve.
Levado à Itália, foi trancado numa prisão de segurança máxima. Meses depois de ter voltado ao país natal, talvez para aliviar a consciência, confessou ser realmente autor dos crimes pelos quais tinha sido condenado. Consternada, a família lulopetista emparedou-se num silêncio obsequioso.
Agora, ano e meio depois da confissão de Battisti, entra em cena nosso conhecido Lula da Silva. Numa entrevista concedida há 10 dias a um canal amigo, apareceu contrito e arrependido de ter concedido asilo ao italiano. No entanto, a fim de manter intacta a imagem do guia infalível, procurou um culpado para a enormidade cometida. Declarou ter sido “enganado” pelo homicida – o que traz à mente o estouro do mensalão, quando ele também se queixara de ter sido “traído”. Declarou ainda que não teria problema em pedir desculpa à família das vítimas. Usou o condicional: “não teria problema”. Como ninguém cobrou as desculpas, não as pediu. E o assunto morreu ali.
Com a velocidade do raio, a notícia chegou à Itália. Das vítimas de Battisti, Alberto Torreggiani é aquele que sofreu os “efeitos colaterais” mais severos. Tinha 15 anos de idade quando o pai, um joalheiro milanês foi assassinado a sangue-frio. Baleado na coluna vertebral, o jovem não morreu, mas ficou paraplégico. Está hoje com 56 anos, 41 dos quais passou aprisionado a uma cadeira de rodas.
Ao tomar conhecimento das “desculpas” do Lula, Torreggiani mostrou desânimo. Declarou-se indignado e perplexo. Intuiu que as lágrimas do ex-presidente são para uso eleitoreiro. Amargo e irônico, indagou se seria o caso de agradecer ao Lula. Depois de tantos anos de sofrimento e atribulações, não vê sentido em ouvir, de pessoa tão importante, a confirmação do que sempre foi evidente: que ele, a vítima, estava com a razão.
Battisti, decerto habituado às chicanas da justiça do Brasil, solicitou em maio prisão domiciliar em razão dos riscos de apanhar a covid-19. O Ministério da Justiça italiano negou provimento argumentando que todos corriam o mesmo risco e que ele não era melhor que ninguém.
Quanto às desculpas fora de hora do Lula, comenta-se na Itália que essa covid parece estar causando efeitos estranhos na cabeça de certas pessoas.
Frase do dia – 469
Morreu por covid?
José Horta Manzano
Esta aqui, recortei da edição online do G1 de ontem. Não sei o que o distinto leitor acha, mas a chamada, a mim, soa estranha.
Sou do tempo em que se morria de alguma coisa. Por exemplo:
Morreu de câncer
Morreu de infarto
Morreu de fome
Morreu de acidente
Morreu de parto
Morreu de desgosto
Pode-se também morrer por alguém ou por algo:
Morreu pela pátria
Morreu por seu ideal
Já o título da chamada – Morreu pela covid-19 – é esquisito. Ademais, o estagiário tascou letra maiúscula no início do nome da doença. Essa reverência deve vir do fato de se tratar de doença nova. A caixa alta me parece desnecessária.
A aids, que no início também era sigla, tornou-se nome comum e perdeu o privilégio: hoje se escreve com minúscula. Acho que a covid deve entrar na mesma categoria, assim como entraram a peste bubônica e a gripe espanhola.
Consertando a chamada:
Brasil passa dos 120 mil mortos de covid-19.
Cai ou não cai?
José Horta Manzano
Entre nós, a queda de alto dirigente não é tabu. Só no estado do Rio de Janeiro, nos últimos 4 anos, 5 governadores foram presos: Sérgio Cabral, Pezão, Garotinho (ele), Garotinho (ela) e Moreira Franco. Afastado ontem pelo Tribunal de Justiça, doutor Witzel está a um passo do presídio de Bangu.
No Planalto, não tem sido diferente. Nos últimos 25 anos, 2 presidentes foram destituídos (Collor e Dilma) e 2 outros foram presos (Lula e Temer). Portanto, figurão afastado e/ou preso não é novidade.
Se doutor Bolsonaro conseguir se segurar até o fim do mandato sem ser derrubado com base nos preceitos constitucionais, estará dada a prova de que nossa República está de fato desamparada. Ficará (ainda mais) evidente que os integrantes do Congresso e do STF são, em maioria, gente de mesmo nível que o presidente. Ou são oportunistas que, por interesse pessoal, a ele se igualam – o que dá no mesmo.
Se doutor Bolsonaro conseguir se segurar até o fim do mandato sem ser derrubado por manifestações populares como as de 2013, que acabaram por mandar Dilma de volta pra casa, estará dada a prova de que somos todos bundões.(*)

(*) Não está nos hábitos deste blogueiro empregar aquele padrão de palavras que, antes de serem pronunciadas, exigem que se retirem as crianças da sala. Estou aqui citando literalmente o epíteto que o presidente pespegou aos que ousaram questioná-lo sobre atos suspeitos.
Malária
José Horta Manzano
Desde tempos antiquíssimos, a malária tem castigado a face da Terra. O combate contra essa praga se confunde com a história da humanidade, dado que tanto o protozoário responsável pela doença quanto o mosquito que a transmite apareceram antes do Homo Sapiens.
Atualmente, a moléstia está praticamente erradicada nas regiões de clima temperado, onde se situa a maioria dos países desenvolvidos. Isso contribui para que seja vista como doença de país subdesenvolvido. É verdade e, ao mesmo tempo, não é.
Nas regiões mais quentes – equatoriais, tropicais e subtropicais – chove muito. A acumulação de água no solo concorre para formar pântanos, banhados e alagados. Toda essa água parada, aliada ao calor, é excelente viveiro para o mosquito transmissor. O combate a sua proliferação se torna complicado. Portanto, as condições climáticas são importante fator a tornar endêmica a doença.
Na época da grande onda de imigrantes europeus, lá pelo final do século 19, os portos brasileiros do Rio de Janeiro e de Santos, de clima quente e úmido, eram infestados pelo mosquito da malária, o que assustava numerosos candidatos à imigração. Na Europa, certas companhias de navegação, para atrair clientes, informavam ter navios de partida para Montevidéu e Buenos Aires sem parada no Rio de Janeiro.(*)
A feroz urbanização das cidades costeiras do Brasil trouxe problemas, mas teve efeito colateral positivo: ao eliminar várzeas e brejos, diminuiu a quantidade de viveiros do mosquito transmissor da malária. E a doença regrediu. Regrediu, mas não desapareceu. O combate continua.
Tenho lido notícias sobre os ajuntamentos provocados por doutor Bolsonaro, em campanha eleitoral temporã. Já se vê que, por detrás do sorriso de fachada, o homem continua dando banana para o povo e rosnando um debochado “E daí”. Ajuntamentos favorecem o alastramento da covid-19. “Ora, todos têm que morrer mesmo”.
Além de eventuais condenações penais, a biografia de doutor Bolsonaro vai carregar dois pecados. O primeiro é o charlatanismo de um mandatário que praticou medicina sem ser médico e receitou antimalárico contra coronavírus. A segunda culpa é ter contribuído, por atos e gestos, para a formação de multidões e, assim, para difusão desenfreada da pandemia de 2020.
Imigrantes europeus já não vêm mais ao Brasil. Mas turistas, sim. Se o fluxo de turistas – que já é minguado – diminuir, doutor Bolsonaro carregará boa parte da culpa. Responda rápido: o distinto leitor arriscaria passar férias num país onde a covid-19 se tornou endêmica e continua, impiedosa, a fazer vítimas?
Vêm aí a covid-20, a covid-21, a covid-22, a covid-23. Todas bolsonáricas de raiz. Prepare-se.
Outros nomes
Malária (do italiano mal’aria = mau ar, ar danoso), maleita (do latim maledicta = maldita), paludismo (do latim palus = lodaçal, brejo) são palavras sinônimas. Certos dialetos brasileiros usam ainda febre terçã e sezão, em referência à periodicidade das crises. Menos utilizadas, há ainda outras denominações para a mesma enfermidade: impaludismo, sezões, sezonismo, febre palustre, febre intermitente, febre quartã.

(*) Muito imigrante italiano há de ter trocado Santos ou o Rio de Janeiro por Buenos Aires com base no nome da cidade. De fato, o nome da capital argentina (Buenos Aires = ares bons) parecia antídoto contra a malária (mal’aria = ares ruins).
Belarus
José Horta Manzano
Como se sabe, a cultura nacional não desdenha uma regrazinha. Que seja cumprida ou não, é o de menos. O que conta é que esteja lá, gravada na pedra, pra ajudar (ou atrapalhar) a vida de muita gente. O chato é que, de regrazinha em regrazinha, arma-se um cipoal amazônico. Sabia que, até para grafar nome de países, há maneira oficial? Pois é. Nessa matéria, quem dá o tom é o Itamaraty.
Com a explosão da União Soviética, entre 1990 e 1991, surgiu uma quinzena de países dos quais pouco se falava antes. Em maioria, são países discretos, daqueles que a gente teria dificuldade em apontar no mapa. São lugares onde a gente tem a impressão de que nada acontece. Tadjiquistão, Turcomenistão, Uzbequistão estão entre eles. Só muito de vez em quando, uma das 15 antigas repúblicas soviéticas sai do esquecimento e vem à tona trazida por algum acontecimento excepcional.
Nos anos 90, assim que o Estado brasileiro reconheceu esses novos países, foi preciso fixar nome oficial para cada um em nossa língua. O caso de Belarus é curioso. Décadas atrás, o país era conhecido como Bielo-Rússia ou Rússia-Branca. De fato, a primeira acepção da palavra russa Белый (Biély) é branco.
O Itamaraty optou por acompanhar a preferência dos nativos, abandonando a antiga denominação. Oficializou-se Belarus(1). Mas o gato que se esconde costuma deixar o rabo de fora. O próprio Itamaraty não chama os nativos de belarussos, como se poderia esperar; o gentílico oficial é bielorrusso – assim, com dois erres –, numa alusão explícita ao nome de décadas atrás.
Na antiga URSS, imensa região com centenas de línguas e dialetos, a língua-teto, aquela que servia para as trocas do dia a dia, era o russo, que se escreve com caracteres cirílicos. Toda adaptação daqueles nomes para nossa língua será, portanto, uma transliteração, isto é, uma adaptação do som original utilizando nossos caracteres latinos. Uma transliteração será sempre fonética: as letras são utilizadas com o valor que têm em nossa língua. (Essa é a teoria; como veremos, na prática, ela pode variar.)
Estes dias, Belarus está no noticiário. Considerado a última ditadura da Europa, o país anda sacudido por manifestações de uma juventude que tem sede de normalização democrática; estão cansados de sofrer com tanta truculência e corrupção. O nome do ditador, pouco conhecido no Brasil até duas semanas atrás, tornou-se familiar: Lukachenko.
Naturalmente, o Itamaraty não fixou normas para transliteração de nome de gente. Não é sua função. Talvez por causa disso, a quase totalidade da mídia atirou-se de cabeça nos despachos que vêm das agências noticiosas internacionais. Copiou ipsis litteris a transliteração inglesa do original Лукашенко: Lukashenko, com esse sh que não faz parte de nossas convenções. O sh é um dígrafo utilizado nos países de fala inglesa para representar o som ch. Na nossa língua, embora possa parecer familiar, não tem vez.
Resumindo, o nome do ditador de Belarus deve ser escrito Lukachenko (2). (Aproveitem enquanto o homem ainda está no poder – depois, será tarde.)
No duro, no duro, deveríamos escrever Lucachenco. Mas não vamos ser mais católicos que o papa: com um k aqui, outro ali, fica bem mais chique. Fica mais russo. Ou bielorrusso, como queira.

(1) O Itamaraty não recomenda artigo antes do nome do país. Não é, portanto, nem o, nem a Belarus, mas simplesmente Belarus.
(2) Em russo, esse o final é pronunciado a. Digo isso só pra registro. Afinal, ninguém é obrigado a conhecer essas minúcias.
Coco na veia
José Horta Manzano
As repetidas e forçadas correções de rumo de nossa ortografia oficial trazem efeitos secundários danosos. O maior deles é semear a desorientação entre os que escrevem: a cada parágrafo, uma ou duas palavras nos fazem hesitar. Outro efeito importante é dificultar a leitura. Tome o título deste artigo. Uma leitura rápida pode até sugerir que estou propondo atirar coquinhos na senhora idosa. Não é isso. Não se deve ler véia, mas vêia.
Volta e meia, a história da água de coco na veia (vêia!) ressurge. Até doutor Bolsonaro tocou no assunto esta semana. Na festa que organizou para comemorar os 100 mil mortos de covid-19, valeu-se de uma fábula para justificar o uso de cloroquina no tratamento do coronavírus.
Mencionou um caso ocorrido na Guerra do Pacífico (guerra essa que se supõe ser o conjunto de batalhas travadas na região do Oceano Pacífico durante a Segunda Guerra Mundial). Segundo o presidente, um soldado precisava de transfusão de sangue. O estoque estava a zero. Na emergência, o médico decidiu ministrar-lhe água de coco por via intravenosa. Segundo o presidente, a injeção foi aplicada e… deu certo! A injeção de água de coco valeu por uma transfusão de sangue!
Nesta altura, os devotos hão de ter vibrado. É notório que doutor Bolsonaro é homem de poucas letras. Estivéssemos no tempo dos almanaques, pode até ser que ele tivesse colhido essa historieta num deles. Dado que desapareceram, pode-se supor que algum assessor lhe tenha soprado a dica. Só que, como diria minha avó, ouviram cantar o galo mas não sabem onde.
A história registra – não só na «Guerra do Pacífico» – raras ocasiões em que a água de coco realmente teria sido injetada no homem. São casos extremos, em que um paciente se encontra em quadro sério de desidratação, complicado pela impossibilidade de reidratação por via oral e coroado pela ausência de soro fisiológico disponível. Em casos assim, para salvar uma vida in extremis, médicos já teriam utilizado água de coco. Mas , se aconteceu, será fato raríssimo.
De saída, é preciso que a cena se passe em terra tropical, aquelas em que cresce esse coqueiro que dá coco. Em segundo lugar, é necessário escolher um fruto verde; aqueles maduros de casca marrom dura não servem. Em terceiro, é indispensável dispor de material esterilizado e certificar-se de que o coco não tem nenhum sinal de rachadura, que é para garantir que o líquido interno não está contaminado pela entrada de ar do exterior.
A água de coco não é idêntica ao plasma sanguíneo. Em compensação, é líquido estéril (sem bactérias e outros germes). Em casos desesperados, pode substituir o soro fisiológico, com o fim de hidratar o paciente. Mas não pode ser usada como tratamento habitual, dado que não contém sódio suficiente para permanecer na circulação sanguínea. Assim, poderia elevar o cálcio e o potássio do organismo a um nível perigoso.
Portanto, se o distinto leitor tiver acesso a doutor Bolsonaro, solicito-lhe o obséquio de fazer chegar ao Planalto o complemento de informação que está faltando aos ouvidos presidenciais. Em casos excepcionais e desesperados, como último recurso para reidratação de um paciente que, sem isso, periga morrer, uma perfusão intravenosa de água de coco pode prolongar-lhe a existência por algumas horas.
Só que isso não é «transfusão de sangue», presidente! Água de coco não substitui o sangue. Em hipótese alguma. Em medicina, pode haver remédio bom, remédio mais ou menos ou remédio inútil, mas remédio milagroso não há. Salvo um, cujo nome não vou dizer aqui, que é pra não fazer propaganda indevida.
Publicado também no site Chumbo Gordo.
Quadrinhos ‒ 275
Mais uma boçalidade
José Horta Manzano
A mais recente boçalidade presidencial – (deixe escrever depressa, antes que ele cometa mais uma e esta aqui deixe de ser a última) – a mais recente, dizia eu, é a ameaça que fez a um repórter que lhe cobrava esclarecimentos sobre dinheiro suspeito depositado na conta da primeira-dama.
No mais puro estilo valentão de Xiririca, rosnou que queria quebrar a cara do jornalista atrevido. Cá entre nós, é moleza chamar alguém para a briga, quando se está rodeado de seguranças, cada um medindo dois por dois. Assim, até eu.
Sabe-se que cão que ladra não morde. Queria ver o presidente em campo aberto, sozinho, desarmado, só com o jornalista em frente. Vai que o atrevido é campeão de caratê, nunca se sabe. Queria ver se não afinava.
Jornais, tevês, plataformas, blogues e outros sites por onde passei comentaram a notícia. Imensa maioria disse algo como: «Ao ser perguntado sobre os depósitos na conta da primeira-dama (…)».
Ao ser perguntado? Bobeou que escreveu isso. É tentador dizer «Fulano foi perguntado sobre» ou «Na prova, os alunos foram perguntados se (…)». Mas a norma culta condena. O uso da voz passiva só é possível em presença de verbo transitivo direto. Assim:
O menino viu o livro.
O livro foi visto pelo menino.
A moça leva a sacola.
A sacola é levada pela moça.
O Congresso vai aprovar a lei.
A lei será aprovada pelo Congresso.
O problema é que, na acepção de pedir informação, o verbo perguntar não é transitivo direto. Portanto, nada de utilizá-lo na voz passiva.
Há diversas maneiras de dizer a mesma coisa sem atentar contra a norma culta. Esqueça o «ele foi perguntado». Use outro verbo. Aqui estão alguns:
indagar
interrogar
inquirir
questionar
interpelar
sondar
investigar
(há outros).
Cada um tem sua nuance. Procure o que melhor exprime o que você quer dizer. Todos os que mencionei são transitivos diretos, o que significa que podem ser usados na voz passiva.
Os amigos do presidente
Carlos Brickmann (*)
Na época da ditadura que dizem que não houve, contava-se esta piada: quem denunciasse um comunista ganharia um Fusca; quem denunciasse dois comunistas ganharia um Fusca e um apartamento; quem denunciasse três comunistas iria em cana, porque conhecia comunistas demais.
E como a família Bolsonaro conhece gente que tem problemas, digamos, éticos! É o Queiroz, são aqueles milicianos que têm foto com alguém da família, é aquela tropa de gente empregada em seus gabinetes parlamentares e que mora a horas e horas de distância, tendo ainda de ocupar parte de seu tempo em outros trabalhos remunerados! E esse tipo de amigos e conhecidos agora se internacionalizou: Steve Bannon, guru de Olavo de Carvalho, talvez o maior ideólogo do bolsonarismo, foi preso nos Estados Unidos. Problema político? Não: a acusação é mesmo a de ter enfiado a mão no pudim.
Bannon sentou-se ao lado de Bolsonaro no jantar da embaixada brasileira em Washington (do outro lado, Olavo de Carvalho). Ali estavam sete ministros, inclusive o Imposto Ipiranga Paulo Guedes, mas Bannon era o astro. Já ídolo e amigo de Eduardo Bolsonaro, defendeu publicamente sua nomeação para embaixador do Brasil nos Estados Unidos. Eduardo o chamou de ícone da luta contra o marxismo cultural. Bannon o escolheu como seu representante no Brasil, chefiando a seção brasileira do Movimento, grupo empenhado em lutar internacionalmente contra o comunismo.
Bannon foi guru de Trump, que o demitiu: nem ele o aguentou.
(*) Carlos Brickmann é jornalista, consultor de comunicação e blogueiro.
Um pouco d’arte ― 130
O latim, sempre atual
José Horta Manzano
Doutor Bolsonaro foi escolhido para cuidar do Brasil e dos brasileiros. Saído do baixo clero do parlamento, não entendeu até hoje a mudança de patamar.
Pardus maculas non deponit
Leopardo não perde as manchas
…………………………
Por desgraça, é inimigo do saber. Se faltasse uma prova, acaba de permitir que um ministro seu proponha a cobrança de imposto sobre venda de livros, algo nunca visto antes.
Qui pauca legit, pauca scit
Quem pouco lê pouco sabe
…………………………
Passou um tempo em jejum, sem a companhia dos colegas baixo-clérigos. Depois de um ano, não resistiu. Sorriu para o Centrão e voltou a abraçar os antigos companheiros.
Ex aurea etiam sede in paludem rana resilit
Até de um trono dourado, a rã pula sempre de volta ao pântano
…………………………
Medroso, permite que os filhos e o entourage fabriquem e difundam dossiês e notícias falsas sobre adversários, sistematicamente elevados à categoria de inimigos.
Timendi causa est nescire
A causa do medo é a ignorância
…………………………
Costuma se esquecer da igualdade de todos, prometida pela Constituição.
Nemo est supra leges
Ninguém está acima da lei
…………………………
E pensar que, se agisse corretamente, nunca teria problemas.
Recte faciendo securus
Agir corretamente não traz preocupações
…………………………
Ao declarar: “Não sou coveiro”, “Todo o mundo tem de morrer”, “E daí?”, mostra total falta de empatia (pra não dizer total presença de antipatia) para com o povo que o elegeu. Nem bichos selvagens procedem assim.
Nutrit et accipiter pullos suos
Até o falcão alimenta seus filhotes
…………………………
Melhor faria se meditasse sobre a transitoriedade de tudo.
Omnia transibunt! Sic ibimus, ibitis, ibunt
Tudo há de passar! Passaremos, passareis, passarão.
…………………………
Publicado também no site Chumbo Gordo.
Meritocracia
José Horta Manzano
O Houaiss contém o verbete meritocracia e data seu aparecimento de 1958. Nestes tempos de fake news circulando rápido, não se verifica mais origem e autenticidade da informação. Este blogueiro, que guardou hábitos antigos, costuma verificar. Até o venerando Houaiss, que é considerado o nec plus ultra dos dicionários de nossa língua, tem de passar pelo filtro. Checar é prática útil: pode diminuir a velocidade do trabalho, mas é blindagem contra notícias falsas.
Fui procurar, na hemeroteca(*) da Biblioteca Nacional, se não havia mesmo registro da palavra meritocracia anterior a 1958. Havia. O substantivo é mencionado no Jornal do Brasil (RJ) em 1934, no Diário de Notícias (RJ) em 1931, n’O Jornal (RJ) em 1929 e no Jornal do Commercio (RJ) em 1928. O pesquisador do Houaiss havia de estar apressado.
(*) Hemeroteca
É palavra que entrou na língua por via culta. É formada pelas raízes gregas heméra (=dia ) + teca (=lugar onde se guarda). Indica o lugar onde se conservam as coleções de jornais.
Hemer(o) entra na composição de numerosos termos técnicos e científicos como hemeropatia (doença que dura apenas um dia), hemerobatista (membro de uma seita cristã que reiterava o batismo todos os dias), hemeróbio (inseto cuja curta existência não ultrapassa um dia).
Teca é velho conhecido nosso. Aparece em termos que indicam o lugar onde se guarda uma coleção qualquer: biblioteca (livros), filmoteca (filmes), discoteca (discos), datilioteca (anéis), mapoteca (mapas), e por aí vai.
A Biblioteca Nacional mantém uma preciosa hemeroteca, com a versão digitalizada de praticamente todos os jornais publicados no Brasil, desde o primeirão, de 1808. Ainda não estão lá aqueles que seguem sendo publicados.
Pra finalizar
Embora o som de hemeroteca e de meritocracia guarde certa semelhança, as duas raízes não se conhecem nem de elevador. A primeira vem do grego, enquanto a segunda vem do latim.
Frase do dia – 468
Proibições
Meio cheio, meio vazio
José Horta Manzano
É a velha história do copo meio cheio ou meio vazio.
As últimas pesquisas de popularidade indicam que cerca de 35% dos eleitores consideram o governo de doutor Bolsonaro ótimo ou bom. Devotos do clã presidencial exultam. Que sucesso! É o copo meio cheio.
De um ponto de vista menos fanático, percebe-se que, se 1/3 dos pesquisados considera o governo ótimo ou bom, 2/3 não o consideram nem ótimo, nem bom. Portanto, os descontentes são dois em cada três. Para um satisfeito, há dois insatisfeitos! O dobro! É o copo meio vazio.
Os fanáticos precisam baixar a bola, que não há razão pra tanta euforia. Dizem que o Lula chegou a 80% de popularidade – um nível soviético que me deixa meio desconfiado, mas é o que ficou registrado. Pois bem, se o Lula bateu nos 80% e o Bolsonaro não consegue chegar aos 40%, ainda tem muito chão pela frente. Por enquanto, não há o que festejar. E tomara que nunca haja.
Publicado também no site Chumbo Gordo.



















