Direitos

Francisco de Paula Horta Manzano (*)

Almoçar fora aos domingos sempre é uma maneira agradável de o marido dizer que gosta da mulher, poupando-a de parte dos trabalhos domésticos, nem que seja uma vez por semana. Ou pode ser uma negociação antecipada (sem que a mulher se dê conta) para o maridão ir assistir ao jogo de futebol logo mais, tomando aquela cervejinha com os amigos. É preciso a mulher ficar atenta para julgar da sinceridade de um convite para almoçar fora num domingo.

De uma maneira ou de outra, muita gente acaba fazendo um programa desses aos domingos. Muita mulher desatenta acaba assinando um alvará para o marido abandoná-la pelo resto do dia, voltando a casa só bem mais tarde, depois de muitas cervejas e, dependendo da quantidade delas, com dificuldade até mesmo para se lembrar do nome da própria esposa:

— Ô… Ô… Ah!… Ifffone!!!

E, quando finalmente se lembra do nome da mulher, sente extrema dificuldade para se lembrar do assunto do qual queria tratar. Aí desiste e deixa pra outra hora.

Mas enfim aconteceu num domingo desses que o Genivaldo foi com a distraída Ivone almoçar fora. Ele já engatilhando as cervejinhas com os amigos mais tarde. Ela indo ingenuamente almoçar.

O Genivaldo é um desses sujeitos que se acham com todos os direitos e mais alguns que, aliás, não tem. Mas, mesmo assim, briga por eles. Tipo “você sabe com quem está falando?” e a outra pessoa nem ousa perguntar “com quem?”. Aí, pelo sim, pelo não, são obtidos os direitos e, de quebra, alguns privilégios também.

Assim, quando chegaram ao restaurante e fizeram menção de ocupar uma determinada mesa num lugar privilegiado junto a uma janela, um garçom, pedindo mil desculpas, indicou-lhes uma outra, num cantinho meio solitário, onde quem se senta parece estar de quarentena. Aquelas mesas já estavam reservadas para um cliente antigo do lugar.

‒ Como assim, não podemos nos sentar aqui? Só porque um figurão vem por aí?

‒ Não se trata disso, meu senhor ‒ respondeu muito polidamente o garçom ‒ é que ele reservou as mesas desta ala. Estão reservadas faz uma semana. É isso.

O Genivaldo já estava começando a espumar discretamente pelo canto esquerdo da boca, o que, para quem o conhecia, não era bom sinal.

‒ Então é isso? A gente trabalha, paga os impostos todos em dia e, quando resolve almoçar fora, não pode porque alguém mais importante segura a mesa antes de chegar ao local!

Comedidamente o garçom tenta explicar-lhe:

‒ Meu senhor, não se trata disso, é que simplesmente o nosso outro cliente fez reserva antecipada. Se me permite, temos uma mesa disponível alí naquele cantinho que, se for de seu agrado…

E apontou para um canto que só não era fora do restaurante porque providencialmente havia uma parede ali, justamente onde a mesa se encostava. Aliás, a mesa estava quase embutida na parede a ponto de deixar no ar uma pitada de dúvida sobre qual das duas viera primeiro: a parede ou a mesa. Podia-se arriscar um palpite de que ambas haviam sido instaladas ao mesmo tempo e no mesmo lugar.

O Genivaldo aceitou e se dirigiu para o cantinho junto com a esposa.

Garçom que é garçom não olha em volta para saber onde é que estão precisando de seus serviços. Acho que nas próprias escolas de formação profissional aprendem a desviar o olhar justamente para os lados onde não há ninguém. Em seguida, com poucos anos de prática, alguns chegam a atingir a perfeição. Você faz um discreto sinal com uma das mãos, mas nada. Você então ergue o braço em nova tentativa, mas o garçom continua a fingir que não viu. Em desesperada tentativa, quando você quase se levanta da cadeira e ergue o braço para chamar a atenção, como se estivesse numa estação de trem, quando todo o restaurante já se deu conta da sua agitação, só o garçom ainda não reparou. Provavelmente, quando você já estiver subindo à mesa para arriscar um zapateado, daqueles que terminam com um sonoro “olé”, aí sim, o garçom vai se resolver a vir até você.

Assim foi com o casal Genivaldo. A mesa à qual se sentavam ficava num canto quase esquecido do resto do restaurante (aliás, do resto de todo o mundo), bem pouco visitada pelos garçons que, a julgar pelo tempo que demoravam a voltar ao salão, pareciam estar em pleno campeonato de palitinhos na cozinha e somente nos intervalos davam umas voltinhas pelo salão, para reforçar a impressão de que ainda estavam por lá e para que os clientes não se sentissem em abandono total.

O bife à parmigiana pedido chegou à mesa em forma de peixe assado (devido a um pequeno mas lamentável equívoco do garçom). De sobremesa, veio um manjar branco em lugar do sorvete de framboesa encomendado (por outro menor mas também frustrante equívoco, coincidentemente do mesmo garçom). Como é natural, tais acontecimentos acrescentaram legitimidade a todas as reclamações feitas pelo Genivaldo, não ao garçom e muito menos ao gerente do restaurante, claro que não, mas à pobre Ivone que, como todas as esposas dedicadas, exerce, entre outras, a função de ouvidora do marido.

Saíram do restaurante depois de pagar a conta, obviamente sem deixar gorjeta alguma.

Quando foram reganhar o carro na rua, viram um policial lavrando uma multa por estacionamento em local proibido. O Genivaldo ainda tentou reclamar:

— Ô, seu guarda! Mas e os direitos da gente? Todo o mundo para por aqui. Será que só eu não posso?

— Não se preocupe não. Aqui todos têm seus direitos garantidos. Já multei todos os outros que estão estacionados e o senhor teve sorte: sua multa é um direito seu e, com ela, foi-se a última folha do meu bloquinho. Todos são iguais, sim, senhor…

(*) Francisco de Paula Horta Manzano (1951-2006), escritor, cronista e articulista.

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