A ladeira da baderna

José Horta Manzano


Como líder, Bolsonaro já não faz jus à consideração do mundo. E os brasileiros, seus liderados, descem a ladeira da baderna.


Hoje de manhã, escutei uma reportagem de 15 minutos na rádio pública suíça sobre a campanha de desconfiança no voto eletrônico que Bolsonaro vem promovendo há três anos. E que se intensifica à medida que se aproxima a hora da onça. Ou da degola – que cada um escolha a imagem que preferir.

Fora do Brasil, a reação a esse fenômeno é de perplexidade. Todos se perguntam como é possível essa cruzada de desorientação estar sendo comandada por um indivíduo que foi eleito repetidas vezes por esse mesmo sistema eletrônico.

Se ele tivesse perdido alguma eleição, seria até compreensível que guardasse ressentimento. Mas ele ganhou todas! Essa campanha de desinformação e medo que ele promove agora é extravagante. Uma coisa não combina com a outra.

A reportagem radiofônica, feita durante um comício do capitão, trazia algumas dessas rápidas entrevistas com transeuntes. É surpreendente constatar que os devotos incorporam todas as imbecilidades que o chefe solta. Um aqui grita: “Quero minha pátria livre!”. Outra ali replica: “Sou contra o comunismo!”. E mais outro: “Os ministros do STF são todos estelionatários!”. Coisa de desequilibrados.

A impressão que fica é a de estar diante de um bando de zumbis descerebrados, sem eira nem beira, que perderam a capacidade de pensar com os próprios miolos. O mais chato é que, pouco a pouco, o veneno destilado por esse ser ignóbil vai respingando sobre a população. E o encanto com que o mundo mirava nosso país vai desmilinguindo. Um país de ingênuos capazes de aceitar o que diz Bolsonaro não merece ser objeto de consideração.

Em matéria de mentira e engodo, o capitão é um verdadeiro Putin tropical. Sem as armas.

El sueldo

José Horta Manzano

Quem traz a crônica é o Diario Financiero, publicado em Santiago, Chile. A historieta se passa numa empresa chamada Cial (Consórcio Industrial de Alimentos), que é de longe o maior fabricante de embutidos do país.

No fim de maio último – dia 30, precisamente – um funcionário com cargo de assistente de expedição recebeu pontualmente seu salário na conta bancária. Quando foi conferir, se deu conta de que algo estava errado.

De fato, em vez do montante habitual, que é por volta de 500.000 pesos (2.850 reais), havia um saldo enorme em sua conta. A firma tinha lhe pagado a astronômica soma de 165.398.851 pesos (950.000 reais), equivalente a 330 meses de seu salário!

Logo em seguida, o funcionário foi pessoalmente ao Departamento de Pessoal pra saber o que tinha acontecido. Foi aí que o erro foi constatado. O encarregado pediu desculpas pelo transtorno.

O problema é que o montante já estava na conta do funcionário e a empresa não tinha como recuperar. Só o funcionário, titular da conta, podia fazer a devolução. Ficou combinado que no dia seguinte, logo de manhã, ele iria ao banco e daria uma ordem de transferência em favor da empresa.

Dia seguinte chegou. No Departamento de Pessoal, as horas passavam, nada do funcionário e nada de transferência. Começaram a ficar nervosos. Telefonaram para o funcionário e deixaram mensagens, tudo sem resposta. Por fim, pelas 11h, o funcionário ligou para a firma, pediu desculpas, e informou que tinha levantado tarde. Estava a caminho do banco.

Foi o último contacto entre ele e a empresa. Dois dias depois, um advogado visita a firma e entrega a carta de demissão do funcionário indelicado. Já faz mais de um mês que o homem partiu, desapareceu na natureza e não deu mais notícias. Nem deixou endereço pra contacto.

A empresa fez boletim de ocorrência na polícia e abriu processo por apropriação indébita. Se alguém tiver notícias do fujão, roga-se informar à polícia de Santiago.

Observação
A história não conta o que aconteceu com o encarregado que cometeu o erro que resultou nesse pagamento em excesso. Foi uma exceção que resultou num excessão!

Top names 2021

José Horta Manzano

O mundo está cada vez menor. É impressionante constatar a que ponto a velocidade dos meios de transporte encurtou distâncias. A rapidez da circulação da informação tem contribuído para essa sensação de que o planeta virou um povoado. Todo o mundo fica sabendo de tudo o que acontece. O alastramento de modas e modismos acaba uniformizando o gosto dos humanos.

Exemplos, há de monte. Hoje trago mais um. Dei uma espiada em duas listas de prenomes mais atribuídos aos bebês nascidos em 2021. A primeira delas reúne as estatísticas dos EUA; a segunda traz os nomes dados aos pequerruchos nascidos em Paris.


Nos EUA e na França, diferentemente do que acontece no Brasil, é pouco comum a invenção de nomes. Mais raro ainda – pra não dizer inexistente – é o acréscimo de letras a esmo, em geral mal colocadas (Jhonatan, Anitta, Deyvid, Dennise).


Nomes bíblicos aparecem tanto entre os americanos como entre os franceses. O mais curioso é que, apesar das diferenças linguísticas entre os países, três nomes aparecem em ambas as listas – e escritos da mesmíssima forma. Confira abaixo.

Nomes mais atribuídos nos Estados Unidos em 2021

Meninos:

1. Liam
2. Noah
3. Oliver
4. Elijah
5. James
6. William
7. Benjamin
8. Lucas
9. Henry
10. Theodore

Meninas:

1. Olivia
2. Emma
3. Charlotte
4. Amelia
5. Ava
6. Sophia
7. Isabella
8. Mia
9. Evelyn
10. Harper

Nomes mais atribuídos na cidade de Paris em 2021

Meninos:

1. Gabriel
2. Adam
3. Louis
4. Raphaël
5. Arthur
6. Noah
7. Isaac
8. Joseph
9. Mohamed
10. Léon

Meninas:

1. Louise
2. Alma
3. Emma
4. Adèle
5. Chloé
6. Anna
7. Olivia
8. Eva
9. Jeanne
10. Rose.

Os nomes assinalados em cor aparecem entre os favoritos em ambos os países.

A fome no mundo

José Horta Manzano

A agência de notícias EFE informa que o Brasil está exercendo a presidência rotativa do Conselho de Segurança da ONU durante o mês de julho.

Ao assumir o encargo, Senhor Ronaldo Costa F°, nosso representante permanente junto à ONU, assegurou que “o Brasil vai promover a segurança alimentar que está em fase crítica em razão da guerra na Ucrânia”.

Nós todos aplaudimos de pé – quem não aplaudiria? Dá tristeza pensar nos milhões e milhões de humanos que logo logo vão começar a passar fome. São populações pobres da África e do Oriente Médio, cujo alimento básico é o pão, feito com trigo ucraniano.

Ao ler a notícia, pensei também nos 33 milhões de brasileiros que passam fome habitualmente, com guerra ou sem ela. O governo, que orienta seu representante a fazer declarações humanitárias na ONU, é o mesmo que despreza os famintos nacionais, porque são pretos, índios, pobres.

O Brasil vai “promover” a segurança alimentar no planeta. Eu me pergunto qual é o significado do verbo promover nessa frase. Vai despachar navios carregados de mandioca e milho para os famintos do mundo? Vai mandar uns trocados para assistir a esses infelizes? Ou vai ficar no discurso  estéril, só pra inglês ver?

A hipocrisia não tem limites.

A Amazônia não é brasileira

Ascânio Seleme (*)

São tolos e mal informados os que pensam que a Amazônia é brasileira. Não é. A floresta não pertence a Brasil, Colômbia, Venezuela, Peru, Equador, Guianas. Sua imensidão territorial se estende por esses países e colônias, mas sua importância ultrapassa toda e qualquer fronteira.

Parece que ainda vai demorar muito até que se perceba que, para salvar o mundo, será necessária uma política globalmente estruturada para defender a Amazônia. Pode ser tarde.

Por ora, quem tenta proteger a floresta de seus algozes são homens bons como Bruno Pereira e Dom Phillips. E esses são sistematicamente sabotados por governos ou assassinados por pessoas com interesses contrariados.

(*) Ascânio Seleme é jornalista. Trecho de artigo publicado no jornal O Globo.

O preço da gasolina

José Horta Manzano

O Washington Post desta sexta-feira traz um infográfico que compara o preço da gasolina nas 15 maiores economias do globo. Os países estão divididos em três categorias de renda: alta, média superior e média inferior. O Brasil está classificado no grupo do meio.

O cálculo foi feito com base num modelo Toyota Camry de 2010. Os desenhinhos mostram a distância que o veículo percorreria com US$ 40 de gasolina.

O automobilista leva vida apertada na Europa. Na Inglaterra, França, Itália e Espanha, não vai muito longe com os quarenta dólares no tanque. Nos EUA e no Japão, roda bem mais folgado.

As distorções são mais significativas nos países de renda média. Chineses e brasileiros pagam um preço bem próximo do americano, enquanto mexicanos e especialmente russos rodam mais quilômetros com menor gasto.

Já guiar automóvel na Índia não é pra qualquer um. A gasolina lá é vendida ao preço brasileiro, mas o cidadão comum não tem condições financeiras de encarar. Carro é privilégio de gente abastada.

O automobilista brasileiro reclama com razão do preço da gasolina. O infográfico compara preço com preço, sem levar em conta a renda média dos cidadãos de cada país. O fato é que os salários brasileiros são bastante inferiores aos americanos. Portanto, embora a gasolina no Brasil custe aproximadamente o mesmo que nos Estados Unidos, pesa muito mais no bolso do automobilista brasileiro.

Pra finalizar, constata-se que o país mais atraente para o automobilista é a Rússia. Com os mesmos quarenta dólares, os russos podem dar a volta no rodoanel de Moscou zilhentas vezes e ainda vai sobrar combustível. Só que… lá eles têm Putin, o que quebra o encanto na hora.

No fundo, é melhor ir aguentando o capitão. Falta pouco.

Os EUA à beira da ruptura

Laurent Sagalovitsch (*)

Se os Estados Unidos continuarem a se dilacerar desse jeito, vai acabar chegando um momento em que o país terá de fazer uma escolha terrível: ou uma guerra civil ou uma separação em duas entidades distintas. Não haverá outra opção possível, considerando que o vão que separa o lado progressista do outro, chegado a um conservadorismo retrógrado, se alarga a cada dia que passa.

Uma nação só faz sentido se seus habitantes compartilharem pelo menos alguns ideais em comum, um punhado de grandes princípios em torno dos quais a vida em sociedade consegue se articular. Não se trata de serem todos uniformemente semelhantes, mas de se entenderem pelo menos um pouco sobre valores que garantem a cada um o direito de levar a vida como melhor lhe parece, sob o império de uma lei igual para todos.

Isso é ainda mais verdadeiro num regime democrático, em que a pluralidade de opiniões contribui para a riqueza do país. Podemos não estar de acordo em nada, mas pelo menos concordamos em achar que todas as opiniões têm seu valor, desde que se inscrevam tanto no respeito das liberdades individuais como no rigoroso respeito das instituições.

Pois hoje, nos Estados Unidos, não somente ninguém mais está de acordo sobre nada – sobre o aborto, sobre as armas de fogo, sobre o papel da religião, sobre o meio ambiente, sobre a economia – mas até a vida democrática, em sua expressão eleitoral, não suscita mais consenso. A divisão é tão profunda que ninguém mais está disposto a aceitar a chegada de um presidente qui não seja de seu campo político.

Assim sendo, fica difícil enxergar como um país desse jeito poderia continuar a funcionar. Se não somente eles se opõem em questões de sociedade mas, além disso, questionam o próprio princípio de alternância no topo do Estado, é sinal de que se encontram de facto em estado de guerra latente, de enfrentamento ideológico que a qualquer momento pode degenerar em violência e sangue.

Atualmente, o que é que têm em comum os eleitores republicanos com seus compadres democratas? A resposta é simples: nada. Um nada que revela a oposição entre uma parte do país, pronta para despencar numa espécie de ditadura religiosa a um pulinho do obscurantismo, e uma outra, que cultiva o princípio da liberdade, da tolerância e do progresso social. Estamos de fato diante de uma ruptura, uma confrontação entre duas visões do mundo em que cada lado chega a negar ao outro a possibilidade de existir.

A verdade é que é difícil imaginar como, dilacerado por tantas divergências, o país poderia continuar a existir como nação. Os Estados Unidos, do jeito que se apresentam hoje, não fazem mais sentido. Parecem um trem com duas locomotivas, uma na frente e outra atrás, puxando em sentidos opostos, uma em direção a uma sociedade mais respeitosa de suas minorias, mais apta a encarar os desafios ecológicos dos séculos vindouros, e a outra se dirigindo para um modo de funcionamento em que pressupostos religiosos – tão inúteis quanto discutíveis no plano ético – procurassem trazer o trem de volta aos séculos passados.

Os EUA têm de se reinventar, e para isso, em vez de depurar suas querelas existenciais no sangue – guerras civis são em geral as mais cruéis, os EUA sabem disso muito bem – optar pela única solução capaz de manter a paz civil: a separação de papel passado. Ou seja, um bloco progressista enraizado na costa do Pacífico ao qual se juntariam o nordeste do país e outros estados dispersos aqui e ali, e um bloco nacionalista-conservador-religioso situado entre os dois oceanos, no coração do país.

Não sei que forma poderia tomar uma reorganização desse porte. Uma divisão pura e simples com criação de duas novas nações, ou uma espécie de confederação sem fronteira física mas com dois governos bem distintos, duas Constituições, dois presidentes – duas entidades capazes de comerciar reciprocamente sem se meter nos negócios internos uma da outra. Cada cidadão poderia escolher estabelecer-se na parte do país que melhor correspondesse a sua sensibilidade. Não seria uma guerra, só um divórcio amigável em que cada um trataria de viver sua diferença sem procurar impor ao outro seu modo de vida e sua maneira de pensar.

(*) Laurent Sagalovitsch é escritor e articulista franco-canadense.

Traduzido do original francês por este blogueiro.

Cuidado com o sub do sub

José Horta Manzano

No Brasil, tirando algum analista mais comedido, as grosserias e o palavreado chulo que são marca registrada do capitão parecem não incomodar. Deve ser efeito da repetição. É como quem mora numa avenida movimentada que, de tanto ouvir barulho de caminhão, nem percebe mais que tem veículo passando. Ou de quem vive no eixo da pista de aeroporto movimentado, que acaba não se dando mais conta de que um avião rela seu telhado a cada 15, 10 ou 3 minutos.

Já nos States, tem disso não. A coleção de impropérios e palavrões deles é tão rica quanto a nossa, o problema não está aí. O fato é que, num país cuja certidão de nascimento foi assinada por um grupo de famílias devotas que estavam imigrando por motivo de perseguição religiosa, certas baixarias são reservadas para o âmbito privado; é inconcebível pronunciá-las em público.

A CPI que investiga o comportamento de Donald Trump nos dias que precederam a invasão do Capitólio de Washington, no ano passado, ouviu ontem uma moça jovem, assistente do chefe de gabinete do presidente. Ela encarna aquela figura meio invisível, que trafega livre e despercebida pelos altos círculos. Sua presença não intimida, de modo que ninguém policia muito as palavras diante dela, e as falas correm fluidas.

Pois foi essa senhora que, chamada a depor na comissão parlamentar, botou a boca no trombone. É que ouviu, da boca do presidente, um palavreado que – nos Estados Unidos – presidente não deveria ousar.

Não vou aqui repetir a notícia que todos já conhecem. O que me chamou a atenção foi, primeiro, o que disse Trump; segundo, como o palavrão foi estampado na mídia internacional

O que ele disse
“I’m the effing president. Take me up to the Capitol now!”
“Effing” é a forma suavizada usada pela imprensa para evitar de escrever o original fucking, que, embora frequente na linguagem falada, é considerada ofensiva demais pra aparecer em jornal. Pra saber o que o presidente disse exatamente, substitua-se effing por fucking.

Em espanhol
“Soy el maldito presidente, ¡llévame al Capitolio ahora!”
Foi assim que saiu a maioria dos títulos em espanhol. Maldito, nesse caso, embora seja expressão pesada, não chega a ser tabuística.

Assim mesmo, o jornal El País, decerto pra não correr risco de ofender ninguém, mostrou que a moda do “politicamente correto” vem fazendo estragos em seu país e optou por omitir a palavra mais vulgar. Numa solução radical, suavizou:
“Soy el presidente de Estados Unidos, ¡llévenme allí!”

Em alemão
A imprensa alemã utilizou expressão corrente na língua. Curiosamente, trata-se da tradução do mesmo “maldito” espanhol. Ficou assim:
“Ich bin der verdammte Präsident, bringt mich zum Capitol”

Em italiano
Os italianos aproveitaram a ocasião. Usaram uma palavra que trota na cabeça de todos, mas que só vem à boca depois que as senhoras tenham deixado a sala. É cazzo (= cacete).
“Sono il cazzo di capo, vai al Campidoglio!”

Em francês
Os franceses fizeram como os italianos – idem com batatas.
“Je suis le putain de président, amenez-moi au Capitole tout de suite!”
A palavra tabuística lembra a nossa versão, dado que usa um substantivo que não faz sentido lógico naquela posição mas denota exasperação e traz carga ameaçadora. Putain = puta.

Em português
No Brasil, a mídia deitou e rolou. Alguns veículos deram a letra inicial do palavrão seguida por estrelinhas, forma antiga de dizer sem dizer. Mas a maioria mandou ver:
“Eu sou a porra do presidente, me leve para o Capitólio agora!”

Já em Portugal, a grande imprensa preferiu uma saída à moda de El País:
“Sou o presidente, leve-me ao Capitólio agora!”
Não dói no ouvido, mas também não transmite o estado furibundo em que se encontrava Trump.

Em holandês
Na Holanda, país em que grande parte da população fala, além da língua do país, inglês fluente, a expressão inglesa não dá medo a ninguém.
“Ik ben de fucking president, breng me naar het Capitool, nú.”

Moral da história
Desconfie do sub do sub. Por mais alheio que ele possa parecer, ele também tem ouvidos para ouvir e boca para falar.

Brasil à mesa dos grandes

José Horta Manzano


Este blogueiro não tem a menor simpatia pelo Lula. E jamais votou em candidato petista. Quem me lê sabe disso, mas não custa repetir.


Cúpulas do G7
As reuniões anuais de cúpula dos países mais industrializados começaram em 1975 e continuaram a ser organizadas anualmente. Os que têm mais de 30 anos hão de se lembrar que o grupo dos países mais industrializados se chamava G8. Isso foi enquanto a Rússia, que era um dos participantes, foi considerada terra civilizada. Tudo mudou em 2014, quando Putin mandou a tropa invadir e tomar a região ucraniana da Crimeia. A partir de então, a Rússia foi suspensa do grupo e nunca mais conseguiu seu bilhete de entrada.

Tirando o ano de 2019, em que a covid grassava freio, houve cúpula todos os anos. Desde a virada do século, o país que hospeda a reunião ganhou o direito de propor a líderes de países não-membros que participem como convidados de honra. Lula da Silva, então presidente do Brasil, foi convidado nas seguintes cimeiras:

2003, realizada na França
2005, realizada no Reino Unido
2006, realizada na Rússia
2007, realizada na Alemanha
2008, realizada no Japão
2009, realizada na Itália

Nosso Guia, como se sabe, deixou a Presidência em 2010. Coincidência ou não, depois disso, o Brasil nunca mais recebeu convite para participar. Nem Dilma, nem Temer, nem muito menos Bolsonaro tiveram a honra. A bem da verdade, diga-se que o capitão estava na lista de convidados para a cúpula de 2019, a ter lugar nos EUA durante o governo de Trump. A pandemia acabou com a festa e obrigou ao cancelamento.

Aqui vai uma curiosidade pra deixar o atual presidente verde de inveja. Sabe quem esteve entre os convidados de honra este ano, na cúpula que acaba de terminar na Alemanha? Pois foi Señor Alberto Fernández, representando a Argentina. Além dele, foram homenageados os líderes da Indonésia, da Índia, da África do Sul e do Senegal. O Brasil ficou na geladeira, fazendo companhia à Rússia (banida) e à China (que nunca entrou).

Sabe quando é que o Brasil de Bolsonaro vai voltar a ter alguma chance de participar? Nunca. Só depois que voltar ao normal, ou seja, após a partida de Bolsonaro. Nem que, por impiedade do destino, o homem fosse reeleito e ficasse mais quatro anos no palácio: seriam quatro anos sem Brasil entre os grandes. Agora, se Nosso Guia vestir a faixa em janeiro próximo, boas são as chances de o Brasil subir de novo ao palco.

Anote aí
As próximas reuniões de cúpula do G7 estão previstas para 2023 no Japão e 2024 na Itália.

O crime e a punição

José Horta Manzano

Artigo publicado pelo Correio Braziliense de 25 junho 2022

Corrupção existe no mundo todo. Em certas regiões do globo, está mais presente que em outras. Seja como for, pouca ou muita, corrupção sempre há. Em países em que a observância de leis e regras é pouco rigorosa, a corrupção acaba se instalando como fato corriqueiro, presente no dia a dia de todo cidadão.

A América Latina, com o Brasil em destaque, é conhecida como um dos polos mundiais no assunto. Que se chame gorjeta, propina, cervejinha, cafezinho, molhadela, suborno, jabaculê, lambidela, joia – tanto faz: são variações em torno de um mesmo tema.

Dado que a corrupção crônica é vista no exterior como realidade indissociável de nosso país, ninguém se comoverá com o fato de este cidadão roubar mais que aqueloutro. Está aí, por certo, o segredo da persistente popularidade de Lula da Silva além-fronteiras. Processo, condenação e encarceramento não foram suficientes para manchar-lhe o retrato. Verdadeira ou não, a imagem que o mundo reteve dele foi a de um dirigente que cuidou seus compatriotas humildes e desvalidos – atitude incomum em nossos trópicos. Isso marcou.

O atual presidente martela: “No meu governo, não tem corrupção!”. Pode ser que o mantra funcione entre devotos mais crédulos; no estrangeiro, tem efeito nulo. Quando já se dá por favas contadas que todo dirigente sul-americano é desonesto, não é uma figura farisaica a bater no peito e a repetir “Eu, não!” que vai comover alguém. Portanto, fica claro que o fator corrupção não é suficiente para abalar a reputação do Brasil.

Passemos a um exercício de futurologia política. Vamos trabalhar sobre uma hipótese cujo peso, neste momento, é difícil avaliar. Inventemos um roteiro fictício.

Apesar da algaravia armada em torno da urna eletrônica, o capitão sofre derrota estrepitosa nas eleições. Dia seguinte, num balé incubado de longa data, tropas evacuam Congresso, STF e TSE, e lhes impõem rendição. Em cadeia nacional de rádio e tevê, o presidente aparece cercado por uma penca de fardados estrelados – generais, almirantes, brigadeiros. Todos ostentam o cenho franzido e o ar grave que convém aos momentos cruciais da vida nacional. O capitão anuncia o golpe.

Na sequência, estado de sítio é decretado. Garantias e liberdades individuais são suspensas. O Congresso é fechado, assim como o STF e o TSE. As personalidades que possam causar estorvo ao regime que se instala são detidas e encarceradas – o primeiro da lista é naturalmente o vencedor da eleição. Senadores e deputados têm os mandatos suspensos.

Nos dias que se seguem, manifestações internacionais de protesto pipocam. Os EUA são os primeiros da lista, instando o novo regime a repor o Brasil nos trilhos. Seguem-se a União Europeia, o Japão, o Reino Unido. Logo atrás, vêm os países da América Latina, num coro uníssono. A OEA e a ONU reiteram a mesma injunção: o resultado das eleições tem de ser respeitado e o Congresso, reaberto. Indiferentes às súplicas internacionais, o capitão e seu generalato levam adiante o golpe. Dada a vacância do Legislativo, o presidente passa a governar por decreto. É a estreia de um regime autocrático.

Fosse o Brasil um país pequenino e desimportante, talvez o mundo não se comovesse com a situação. Mas não é assim. Nosso país tem o peso de 200 milhões de habitantes e uma economia significativa. Nessas condições, ao ver que o novo ditador e a junta que o apoia sonegam resposta à súplica internacional, as nações, capitaneadas pelos EUA, decidem engatar a segunda.

Assim como foi feito com a Rússia, sanções contra o Brasil são decretadas. No primeiro pacote, a mais vistosa delas é a decisão de proibir cidadãos envolvidos no golpe de entrarem nos EUA e nos países adiantados. Os haveres desses indivíduos no exterior ficam bloqueados.

A notícia dessa decisão cai como bomba no Planalto. “Como assim? Quer dizer que não tenho mais acesso a minha conta bancária na Suíça? E não vou mais poder passar férias no meu apartamento de Paris? E nunca mais vou poder andar de xícara na Disneylândia?”

O mundo não precisa editar um segundo pacote de sanções. Esse basta. Tendo dado com os burros n’água, os golpistas encerram a brincadeira. Rapidinho.

ETs

Carlos Brickmann (*)

Um sábio empresário disse certa vez a este jornalista que se alguma coisa só existe no Brasil, e não é jabuticaba, não presta. Pois vamos em frente.

Como se sabe, o Senado não costuma trabalhar às sextas-feiras. Mas nesta sexta, 24, o Senado trabalhou: comemorou o 75º aniversário do Dia Mundial dos Discos Voadores, por iniciativa do senador Eduardo Girão, do Podemos do Ceará.

Na sessão, o ex-deputado Wilson Picler disse que quase um terço dos brasileiros acreditam em ETs; e mais da metade dos ateus e agnósticos creem em discos voadores e seres espaciais, “mais em ETs do que em Deus”. Girão disse que o Brasil é o primeiro país a reconhecer que discos voadores existem e são extraterrestres. Chamou a sessão de “histórica”.

Fome, guerra, inflação? São temas que podem esperar a semana que vem.

(*) Carlos Brickmann é jornalista, consultor de comunicação e colunista.

Reescrevendo o passado

José Horta Manzano

Benito Mussolini (1883-1945) foi o criador e chefe supremo do fascismo, regime personalista e autoritário que vigorou na Itália de 1922 a 1945.

Sua entrada na vida adulta não foi gloriosa. Aos 19 anos, saiu da Itália para fugir do serviço militar obrigatório. Foi parar na Suíça, onde viveu dois anos durante os quais levou vida agitada e sobreviveu de expedientes. Morou em diversas cidades. Trabalhou de pedreiro, ajudante de obras, balconista. Chegou a ser preso por vadiagem.

Por curto período, tomou aulas na Universidade de Lausanne. Só voltou à Itália quando, por ocasião do nascimento do príncipe herdeiro, uma anistia geral foi concedida. O ditador subiu na vida, tornou-se poderoso e conhecido, mas manteve aquela aura sulfurosa e aquela cara de poucos amigos.

Corria o ano de 1937. Num descuido que viria a dar muito que falar, a Universidade de Lausanne decidiu outorgar ao ditador (e ex-aluno) um diploma de doutor honoris causa.

O que tinha de acontecer, aconteceu. Sua aliança com Hitler conduziu o povo italiano à desgraça de uma guerra perdida, milhões de mortos e um país destruído. Mussolini morreu de morte violenta e passou para o lado sombrio da História. Apesar disso, o doutorado suíço nunca lhe foi cassado.

Nos últimos 75 anos, o diploma conferido ao antigo ditador “por motivo de honra” incomodou um bocado. Não foram poucos os que preferiam que que a homenagem lhe fosse retirada. Mas não era chegado o tempo de decidir. Nestes dias em que o “politicamente correto” se impõe, não foi mais possível adiar.

A direção da universidade encarregou um grupo de trabalho interno, composto por quinze integrantes oriundos de sete diferentes faculdades, de se debruçar sobre a questão. Depois de dois anos de reflexão, a comissão entregou suas recomendações num relatório de 29 páginas. Saiu na sexta-feira que passou. As conclusões são surpreendentes.

“O grupo de trabalho considera que a outorga do doutourado ‘honoris causa’ a Benito Mussolini constituiu um erro grave cometido pelas instâncias universitárias e políticas da época. Esse título constitui a legitimação de um regime criminoso e de sua ideologia. Recomenda-se à Universidade de Lausanne reconhecer e assumir esse fato.”

A universidade aceitou a recomendação da comissão, e reconheceu ter falhado em sua missão e “ter desvirtuado os valores acadêmicos fundados sobre o respeito do indivíduo e a liberdade de pensamento”.

No entanto, em vez de renegar ou apagar esse episódio, optou por deixá-lo “servir de advertência permanente para possíveis derivas ideológicas que possam vir a vitimar a sociedade”. Em resumo, um banimento equivaleria a bloquear o debate democrático.

Talvez os que hoje pregam tratar personagens do passado como se nunca tivessem existido devessem se inspirar na decisão da Universidade de Lausanne, que me parece cheia de sabedoria.

O título foi conferido ao ditador, isso é ponto pacífico. Nada nem ninguém será capaz de apagar esse fato. Ocultá-lo e fingir que nunca existiu não é a melhor solução. Portanto, melhor será deixá-lo intacto para servir de exemplo de um erro que nunca mais se deverá repetir.

Saltando do barco

José Horta Manzano

As pesquisas, a persistirem no ritmo atual, apontam para inevitável derrota do capitão em outubro.

Os parlamentares mais firmes, aqueles dotados de estofo ideológico, não arredam pé de suas convicções.

Já os que nadam na geleia geral – e que constituem o abundante ventre flácido da República – estão se preparando para saltar do barco. Efetivamente, diz-se que os ratos são os primeiros a saltar. (Peço desculpas aos ratinhos, que entraram neste parágrafo como Pilatos no Credo.)

Na foto vemos o presidente da Câmara, bolsonarista desde criancinha, que de bobo não tem nada. Sua Excelência entendeu de que lado sopram os ventos e já prepara sua reconversão.

Dois dias atrás, foi comer brigadeiro na festinha de aniversário de Zeca Dirceu. O homenageado é deputado federal pelo PT do Paraná. Além disso, é filho do José Dirceu, companheiro que tem sido, há décadas, fiel aio do Lula.

Este blogue dá os parabéns ao aniversariante. Em troca espero ser nomeado para uma sinecura. Afinal, é dando que se recebe.

Disclaimer:
Este artigo contém ironia.

Seis por meia dúzia

José Horta Manzano

Nossa memória coletiva é curta. Fatos que enchiam a atualidade 5 ou 6 anos atrás sumiram, saíram de cartaz e ninguém fala mais deles.

Lula da Silva assumiu a Presidência em 2003. Com o passar dos anos, o lulopetismo foi se entranhando na cena política nacional. Com linguajar soviético-policial, dizia-se que o PT tinha “aparelhado” as instituições da República; que seus braços tinham “infiltrado” estatais, autarquias, semiautarquias, agências, departamentos e repartições; que estava tudo “dominado”.

A infiltração parecia estar instalada para todo o sempre. A menos que se faça uma despetização, “o Brasil está perdido”, temia-se. Nesse espírito, Bolsonaro foi eleito.

Não foi preciso esperar os 13 anos da era anterior. Hoje, passados apenas 4 aninhos, eis que de novo a sensação geral é de que a República está infiltrada. A diferença é que, desta vez, não são mais elementos lulopetistas, mas bolsonáricos.

Contas feitas, jornalistas informam que, nos altos escalões, seis mil militares estão refestelados. Sem contar montanhas de apadrinhados em estatais, autarquias, semiautarquias, agências, departamentos e repartições.

Igualzinho ao que era antes. Trocamos seis por meia dúzia.

Isso deixa uma notícia ruim: esteja quem estiver instalado no trono, sinecuras serão tomadas de assalto por uma horda de companheiros e apaniguados sem qualificação para o posto nem disposição para o batente.

Tem-se a impressão de viver num rodopio, num moto perpétuo, num movimento pendular supernocivo para a sociedade, mas no qual nós, os membros da sociedade, não podemos participar.

Por seu lado, a prisão de doutor Ribeiro, ex-ministro da Educação – pessoa notoriamente não qualificada para o cargo que exerceu – é boa notícia. Não digo a prisão em si, dado que, dependendo do juiz, um habeas corpus a qualquer hora vai tirar o doutor do cárcere. A boa notícia é que, diferentemente do que às vezes se imagina, não está tudo dominado.

A Polícia Federal continua cumprindo sua missão e mostrando que não é órgão do governo, mas do Estado brasileiro. É um alívio, uma constatação importante nestes tempos de desvirtuamento das instituições. Não é a salvação da lavoura, mas não deixa de ser um bálsamo.

Povo com fome

José Horta Manzano

Enquanto o capitão passeia de jet ski e de motocicleta, o mundo observa o drama deste país em que boa parte da população passa fome.

Acredito que o distinto leitor nunca tenha passado por esse tipo de aperto, de não ter o que pôr no prato. Ou de não saber se vai poder comer amanhã. É muito difícil imaginar.

O grau de civilização de uma sociedade se mede pelo cuidado que ela dedica a seus membros mais frágeis. Analisado por esse prisma, nosso país ainda está a anos-luz do objetivo.

Enquanto isso, o capitão passeia de jet ski.

A Amazônia Legal, que representa 60% do território nacional, tem zonas imensas onde o Brasil não chega. São regiões onde a lei não vigora, e manda quem tem garrucha e pontaria. A situação não é nova, mas o problema se agravou exponencialmente na era bolsonárica.

Enquanto isso, o capitão passeia de jet ski.

Cidades importantes, como o Rio de Janeiro, também comportam zonas onde a lei não vigora, e manda o mais forte. É o reino da bandidagem.

Enquanto isso, o capitão passeia de jet ski.

A fila do Auxílio Brasil (novo nome da Bolsa Família) aumentou. É fato inacreditável e sem sentido. Em programas desse tipo, o que se espera é que haja cada vez menos clientes e que a fila encolha, não que se alongue. O foco do governo tinha de estar dirigido para resolver essa disfunção.

Mas o capitão não tem apetência para acudir aos infelizes que sofrem. Prefere passear de jet ski. E, pra espairecer, organizar uma motociata.

Os brasileiros e as brasileiras

José Horta Manzano

Certos tiques de linguagem são irritantes. Essa tendência que acomete jornalistas e outros escribas a confundir sexo de gente com gênero de palavra complica desnecessariamente o trabalho de escrita. Este blogueiro, por ser antigo, conserva os hábitos dos tempos de antigamente.

De fato, não é do meu feitio usar a moderna “linguagem inclusiva” do tipo “Brasileiros e brasileiras!”, saudação introduzida pelo pranteado (embora ainda vivo) presidente Sarney.

Se não me dobro a essa modernidade, não é tanto por convicção, mas por não achar que ela seja útil nem necessária. Portanto, quando digo “o brasileiro”, estou me referindo a todos os brasileiros e brasileiras, independentemente de sexo. Se menciono “o político brasileiro”, estou incluindo os personagens políticos de todos os sexos. Me parece uma evidência.

Se menciono, genericamente, “o jornalista”, “o mensageiro”, “o diretor”, estou me referindo, naturalmente, a jornalistas homens e a jornalistas mulheres, a mensageiros e mensageiras, a diretores e diretoras. Seria ridículo dobrar-se a modismos como “os jornalistas e as jornalistas”, “o diretor ou a diretora”, “o (a) mensageiro (a)”. Sobrecarrega a frase sem precisão.

Em dez anos de blogue, jamais recebi nenhuma reclamação ligada a essa recusa a me dobrar diante dessa imposição. É sinal de que meus leitores são gente inteligente. E minhas leitoras também, evidentemente.

O que acabo de dizer não precisava nem ser explicado. Mas, explicando, fica melhor ainda.

Alimenta um bilhão?

José Horta Manzano

Faz dez dias, em discurso na Cúpula das Américas, Jair Bolsonaro garantiu que “o Brasil alimenta 1 bilhão de pessoas no mundo”. Foi rematado exagero.

Os dez principais produtos que o Brasil exportou em 2021 foram:

Que levante a mão quem encontrar, nessa lista, alimento para um bilhão de pessoas.

Soja? E alguém come soja? Tirando algum tofu que se come uma vez por ano, a soja não é para consumo humano. Serve para a engorda de animais. Óleo de soja? Fora do Brasil, nunca vi.

Farelo de soja, que são os resíduos após extração do óleo, destina-se também à alimentação animal.

Entre os dez principais ítens exportados em 2021, somente as carnes e os açúcares servem para comer. Será exagero dizer que esses produtos “alimentam um bilhão”. Onde está esse bilhão que se alimenta de carne e de açúcar?

A pauta das exportações brasileiras me deixa pensativo. Sei que a humanidade tende a tornar-se vegetariana. Na Europa, a oferta de produtos vegetais que substituem a carne aumenta a cada dia. Em diversos países, são lançadas campanhas para diminuir o consumo de produtos animais.

Me parece surpreendente que, tirando os “açúcares e melaços”, as locomotivas que puxam nossas exportações continuem baseadas em carnes e produtos para engorda animal.

Com o trigo, a Ucrânia e a Rússia – essas, sim – alimentam um bilhão. O Brasil, não.

Um governo previdente captaria o Zeitgeist – o espírito das grandes transformações da sociedade global – e incentivaria o plantio de outros vegetais,  grãos principalmente.

Eu disse um governo previdente.