Cidadania para aposentados

José Horta Manzano

É curioso que duas noções tão diversas como o visto e a cidadania sejam confundidas. No fundo, os dois conceitos são não somente diferentes, mas também excludentes: ou é um, ou é outro.

O visto para estrangeiros, exigido por muitos países dependendo do objetivo da visita, pode se enquadrar em diferentes tipos, entre eles: visto de turismo, estudo, negócios, residência temporária, residência permanente.

A quem são concedidos os vistos? A indivíduos de nacionalidade estrangeira.

Portanto, os indivíduos que têm a cidadania de um determinado país são dispensados de todo tipo de visto quando voltam à pátria. Como corolário, qualquer país concede visto somente aos estrangeiros, aqueles que não têm a cidadania nacional.

Portanto, visto e cidadania se opõem: quem tem um não precisa do outro. Não é difícil de entender, e a gente tem impressão de que todo o mundo entende isso.

Todo o mundo? Engano! A pessoa que deu título ao artigo do Estadão mencionado na manchete não conhece a diferença. Por consequência, a formulação ficou esquisita, dando a entender que os “melhores países” (quais serão?) só admitem receber os detentores da cidadania, mais ninguém.

Isso é rematado absurdo. A meu conhecimento, nenhum país fecha as portas a aposentados estrangeiros (com exceção talvez da Coreia do Norte).

A quem puder, peço a fineza de “compartilhar” este artigo com o autor da chamada.

Estado x governo

José Horta Manzano

Certos políticos, especialmente os de extrema direita (mas não só), têm desconcertante tendência a confundir Estado e governo. Em política estrangeira, é flagrante e constante essa dificuldade em fazer a distinção entre os dois conceitos.

O primeiro artigo de nossa Constituição elenca os princípios que regem as relações internacionais do Brasil. Entre eles, estão: 1) a prevalência dos direitos humanos e 2) a não-intervenção. Na cerimônia de tomada de posse, todo presidente da República promete cumprir a Constituição. Assim mesmo, apesar do juramento público e solene, volta e meia a Lei Maior é escanteada.

Presidentes de tendência autoritária como Bolsonaro e Lula convergem neste ponto: nenhum dos dois entendeu a diferença entre seu governo e o Estado brasileiro. Ambos acreditaram (e continuam acreditando) que, uma vez eleito, o presidente tem direito de burlar princípios constitucionais como se sua ideologia pessoal sobrepujasse a Constituição.

Bolsonaro, com seu apego à tortura, entra em choque com o princípio constitucional de prevalência dos direitos humanos. A cada vez que mencionou suas “preferências” nessa matéria, desrespeitou o Estado brasileiro, cuja Constituição condena expressamente a tortura.

Lula, ao desdenhar a vítima (o ucraniano Zelenski) e prestigiar o invasor (o russo Pútin), entra em colisão frontal com o princípio da não-intervenção. Ao Estado brasileiro, não cabe apoiar quem interveio no país alheio. A atitude de nosso presidente afronta a Constituição. Sua ideologia pessoal não pode ofuscar a Lei Maior.

O pensamento é livre, pode passear por onde quiser. Já a expressão do pensamento só é livre dentro de certos limites. Você e eu, em bate-papo informal, podemos até elogiar a tortura ou prestigiar Pútin. Mas Bolsonaro e Lula, durante o exercício do mandato, deixaram de ser cidadãos comuns; eles não se podem dar ao luxo de assumir publicamente certas posições. O presidente, afinal, não é o dono do país.

Outro princípio claro enunciado no mesmo artigo da Constituição do Estado brasileiro é a dignidade da pessoa humana. Trata-se de conceito que abrange múltiplos aspectos do comportamento em sociedade. A convivência civilizada entre indivíduos é um deles.

Já nos primeiros meses de governo, Bolsonaro insultou a esposa do presidente da França, indispôs-se com a Alemanha e a Noruega, ofendeu o Chile, deu de costas para a Argentina, caluniou a China. Note-se que são todos países amigos com os quais o Brasil mantém florescente comércio bilateral.

Lula, desde que iniciou seu terceiro mandato, não ficou atrás. Desdenhou o FMI, mandou flechadas contra Washington, encrencou com a Ucrânia, meteu-se na briga entre palestinos e israelenses, ofendeu gravemente Israel e acabou rebaixando o Estado brasileiro diante de observadores estrangeiros.

Em nenhum dos encontrões, o motivo das brigas, dos beicinhos e das rejeições foi político. As colisões ocorreram sempre em decorrência da visão de mundo primitiva e sem nuances dos presidentes que temos tido a má sorte de eleger. Desde os saudosos tempos de FHC, os presidentes de nossa castigada República deixaram de ser gente civilizada e passaram a ser populistas ignorantes sem eira nem beira.

A esses indivíduos encharcados de vaidade mas vazios de sabedoria, falta entendimento do que seja a coisa pública, realidade talvez fora do alcance das mentes simplórias que têm preenchido o mais alto cargo do Executivo nos últimos 20 anos.

Para mudar rapidamente esse estado de marasmo que não ata nem desata, o mais simples seria uma revolução. O problema é que a velha moda das revoluções brasileiras e latino-americanas passou. O caminho das mudanças não é mais aquele.

Só resta um outro método: é a escola. Só um programa de Instrução Pública digno desse nome poderá dar cabo da ignorância que, há séculos, sufoca nosso país.

Ah, mas isso aí vai demorar pra caramba! Vai. Mas não há outro jeito. Tem de começar pelo começo, não há milagre.

Veteranos de 1944

José Horta Manzano

Oitenta anos atrás – só os que já viveram muito podem se lembrar – agricultores franceses e raros soldados alemães presenciaram, com enorme espanto, o grande desembarque de tropas aliadas vindas do outro lado do mar para libertar a França ocupada por tropas nazistas. Eram ingleses, franceses, escoceses, poloneses, canadenses, australianos, mas principalmente um contingente de 73 mil americanos.

Tinham se concentrado durante meses do outro lado do Canal da Mancha, no sul da Inglaterra, à espera do momento favorável tanto na estratégia militar quanto na meteorologia. O clima daquela região é caprichoso, cambiante, instável, o mau tempo pode vir a qualquer momento. Naqueles tempos em que as previsões não contavam com apoio de satélites nem de meios modernos, era ainda pior.

Assim mesmo, a ordem de embarque veio dia 6 de junho de 1944, dada pelo general Eisenhower, que seria eleito presidente dos EUA 8 anos mais tarde. A travessia da Mancha se fez num mar tempestuoso. Os poucos soldados alemães postados na França, de frente para o mar, defenderam suas posições com determinação. O resultado foi um número elevado de baixas entre os que desembarcavam.

Não vamos aqui fazer um relato sobre a Segunda Guerra Mundial, que você pode encontrar melhor e mais completo na Wikipedia. Só queria acrescentar que, embora o desembarque tenha sido bem sucedido, os aliados não chegaram a Berlim no dia seguinte. Até que o último canhão se calasse, foi ainda preciso batalhar por quase um ano, com tudo o que isso acarreta de sofrimento e perdas humanas.

O mundo – nós incluídos – deve muito àqueles soldados americanos que atravessaram o oceano para arriscar sua jovem vida na Europa, numa guerra que nem era a deles. Se não tivessem ido, de duas uma: caso a Alemanha de Hitler tivessem vencido, falaríamos hoje alemão e estenderíamos o braço para a saudação nazista; se fossem os russos a derrotar a Alemanha, falaríamos hoje russo e nosso país faria parte dos satélites de Moscou. E estaríamos obedecendo a Vladímir Putin ou a outro ditador de turno.

O soldado Jake Larson em 1944 e hoje, com 101 anos.

Para comemorar este 80° aniversário do desembarque de junho de 1944, sessenta americanos sobreviventes foram convidados a fazer de novo a viagem até a França e lá passar uma semana. Dos 73 mil soldados de oitenta anos atrás, já não restam muitos. Dos que agora foram convidados, o mais ‘mocinho’ tem 96 e o mais velho, 107 anos. Estão todos muito orgulhosos e um pouco espantados de ainda estarem vivos passados tantos anos.

Quando foram lutar contra Hitler, desembarcaram com fuzil no ombro. Hoje, quase todos em cadeira de rodas, a imagem é menos guerreira mas certamente mais emocionante.

Desgraça histórica

by Jon Berkeley, desenhista irlandês

Pela primeira vez, um ex-presidente americano foi condenado por um crime – 34 crimes, na verdade. Essa desgraça histórica deveria chocar a nação e tranquilizá-la quanto à sua capacidade de fazer justiça. O fato de que a condenação de Donald Trump provavelmente não alcançará nenhum dos dois resultados decorre, por um lado, do poder corrosivo da sem-vergonhice de Trump e, por outro, à natureza complexa e contestável das acusações contra ele.

The Economist, 30 maio 2024

Trem de ferro

José Horta Manzano

Estrada de ferro é de esquerda ou de direita? Numa época de polarização, em que todo detalhe tem de levar uma etiqueta, gostaria de saber de que lado fica o transporte ferroviário.

Se o investidor for uma empresa particular, o trem será obviamente de direita, coisa de capitalista; já se o investidor for o governo, o trem fica mais à esquerda. Na medida que beneficia o trabalhador, proporcionando-lhe transporte de boa qualidade por preço módico, estrada de ferro é certamente de esquerda; mas se trouxer bom lucro à empresa que construiu, será de direita.

Bom, acho que podemos ficar até o Natal alinhando argumentos pró e contra sem chegar a uma conclusão. Antes de perder o fio da meada, vamos ao fato concreto.

O governador de São Paulo, personagem cada dia mais difícil de classificar no espectro político, acaba de tomar decisões importantes, que apenas tangenciaram o crivo dos analistas. Doutor Tarcísio de Freitas, verdadeiro Dionísio gestado na coxa de Júpiter (aliás Bolsonaro), decidiu impulsionar o transporte sobre trilhos, modalidade que tem andado em baixa entre nós nos últimos setenta anos.

A construção de uma linha de metrô ou de uma ferrovia, por mais curta que seja, leva anos. Em geral, leva mais que um mandato de governador. Vai daí, o mandatário que inaugura a obra pronta dificilmente será o mesmo que iniciou a construção. Talvez esteja aí a principal razão do desinteresse oficial por esse modo de transporte. Embora a via férrea fosse mais interessante para o país, interesses de curto prazo levam à escolha da rodovia.

É admirável ver um governador em meio de mandato assinar contratos para 13 linhas de transporte sobre trilhos cobrindo 890 quilômetros no total. Pode-se apostar que nenhum desses projetos estará terminado antes do fim de seu atual mandato.

Não posso deixar de lembrar de um certo Irineu Evangelista de Souza, o Barão de Mauá, que se aventurou a construir o primeiro trecho de ferrovia do território nacional, inaugurado no longínquo ano de 1854.

Se tivéssemos tido, 170 anos atrás, um empreendedor com ideias semelhantes às do atual governador de São Paulo, talvez o Brasil se tivesse empenhado em construir uma malha densa de vias férreas, que teriam alavancado nosso desenvolvimento. Não aconteceu assim, paciência. Não adianta chorar.

Vamos torcer para que esse novo projeto siga adiante e chegue um dia ao fim. Até lá, quem sabe descobriremos se trem é de esquerda ou de direita.

Mas primeiro vamos ver se as obras terminam antes do dia de São Nunca.

A mão do destino

 

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Nos dois meses em que fiquei de cama sem poder andar e movimentar o braço esquerdo, passei intermináveis horas de angústia pensando em como seria possível voltar a administrar o cotidiano de minhas cachorras de uma maneira minimamente tranquila e segura.

Sabia que não poderia levá-las para passear sem contratar a ajuda de alguém e muito provavelmente só uma vez por dia. No restante do tempo, elas teriam de ficar enfurnadas no apartamento, sem nenhuma atividade estimulante com que se envolver. Estava também tranquila por saber que elas estavam morando numa casa com um grande gramado, no interior de São Paulo, na companhia de mais quatro outros cachorros, podendo sair à hora que quisessem, correr e brincar. Pelo que me contavam, a adaptação delas ao novo lar havia sido bastante rápida e tranquila graças a isso. Não sei o quanto a nossa abrupta separação significou sofrimento para elas no início, mas já intuía que jamais poderia competir na oferta de um cotidiano tão feliz e livre quanto esse.

Dividida entre a culpa pelo abandono e a tristeza de perder a companhia delas para sempre, eu ainda tentava negociar com minha consciência. Pensava em dezenas de arranjos intermediários, mas chegava sempre à conclusão de que nenhum deles seria efetivo a longo prazo. Tomei então a decisão mais difícil da minha vida: entre o sofrimento delas e o meu, entendi que a única solução viável era transferir a guarda das duas em definitivo. Apesar de já ter enfrentado a dolorosa perda de três cachorras por adoecimento e morte, eu nunca havia considerado a terrível possibilidade de me desvencilhar de nenhuma em vida.

Não é nem preciso dizer que, a partir desse dia, minha vida perdeu todo o seu propósito. Nas delirantes madrugadas insones, eu repetia para mim mesma que a única forma de encontrar algum conforto emocional seria cuidando de um outro ser vivo. Sem ter com o que me ocupar, a solidão e a depressão se instalaram de mala e cuia no meu cotidiano. Passava os dias sem sair de casa, sem interesse por absolutamente nada, nem leituras, nem música, em profundo silêncio.

Testemunhando minha tristeza, muitas pessoas amigas me aconselharam a adotar um cachorro de pequeno porte, que eu pudesse carregar no colo. Essa possibilidade, no entanto, me parecia eticamente indefensável. Era como se eu não estivesse me importando com o destino de minhas cachorras e as trocando por outra mais conveniente só para satisfazer meu ego. Quando a tragédia das enchentes no Rio Grande do Sul começou, minha angústia extrapolou de vez. As imagens medonhas de animais resgatados de telhados ou ganindo de desespero nos abrigos por saudade de seus tutores me estimulavam ainda mais a me voluntariar para adoção.

Resolvi então fazer um trato com meu velho amigo, São Francisco. Prometi não procurar novos companheiros em sites de adoção ou pet shops, nem ir atrás de indicações de possíveis candidatos. Em troca, pedi que, se ele colocasse espontaneamente no meu caminho algum ser de quatro patas carente e abandonado, eu aceitaria assumir a responsabilidade de cuidar dele, mesmo que fosse apenas temporariamente.

Pouco tempo se passou desde então. No início da semana passada, recebi a ligação de uma sobrinha, perguntando se eu aceitaria acolher por alguns dias uma cachorra que havia sido resgatada das ruas, quase atropelada, até que seu tutor fosse localizado. Concordei um tanto hesitante ao ver a foto dela e constatar que ela era de porte médio, quase grande, o que equivaleria a trocar 6 por meia dúzia.

Ela me foi trazida no mesmo dia. Absolutamente traumatizada, a cachorra andava lentamente, de cabeça baixa e com o rabo enfiado no meio das patas traseiras. Não ousava me olhar, não produzia nenhum som e se recusou a comer ou tomar água, como se implorasse para não ser percebida. Dormiu nas 24 horas seguintes. Quando acordou, decidi levá-la ao veterinário para saber se ela estava doente. Nenhum problema de saúde foi identificado.

Como ninguém apareceu para assumir sua guarda, decidimos encaminhá-la para uma feirinha de adoção. E, para que isso fosse possível, era obrigatório que ela passasse por exames de sangue e ultrassom. Quando os resultados saíram, a inesperada surpresa: ela estava prenhe e 5 filhotinhos estavam sendo gestados. Minha cabeça entrou em órbita. Embora me preocupasse muito com o inferno que minha vida se tornaria com 6 cachorros circulando pelo apartamento e exigindo minha atenção constante, eu sempre tinha sonhado que minhas cachorras me dessem filhotes e me esforçado muito para que isso acontecesse, sem sucesso.

Eu estava em uma sinuca de bico: não poderia simplesmente jogar a cachorra na rua novamente e também não me sentia em condições emocionais de assumir uma tarefa tão gigantesca como essa. Resolvi então “entregar para Deus” a decisão final. No mesmo dia, a cachorra milagrosamente começou a abanar o rabinho de contentamento ao me ver e passou a me seguir como sombra, chiclete e carrapato.

Não pude deixar de pensar na esperteza da “friendly persuasion” de São Francisco. Afinal, ele não só havia me seduzido com a promessa de alegrias futuras, mas também estava me entregando a cachorra perfeita, talhada especialmente para meu estilo de vida e minhas limitações: calma, extremamente dócil, capaz de conviver bem com outros cachorros, sem latir, sem puxar nos passeios, amiga das crianças e dos idosos. O que mais eu poderia pedir do destino?

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Desvio de função

José Horta Manzano

Muita gente acha que ser indicado, nomeado ou mesmo eleito para um alto cargo público é um mimo, nada mais. Os que assim pensam não se dão conta de que, em princípio, altos cargos não foram feitos para serem distribuídos de presente aos amigos. Para que a máquina pública funcione azeitada, é preciso que todos esses postos sejam ocupados por profissionais que entendem do riscado e que estão dispostos a arregaçar as mangas.

Ao término de seu mandato de vice-presidente, o general Hamilton Mourão – o enjeitado do bolsonarismo – surfou na crista da onda do movimento da extrema direita, candidatou-se ao Senado pelo estado do Rio Grande do Sul, e foi eleito. Diga-se que Sua Excelência jamais tinha exercido cargo público na vida. Foi militar de carreira.

Não ficou claro como o general imaginava a vida de senador, como planejava exercer seu novo cargo. Pelo que declarou dois dias atrás a uma rádio gaúcha, ele devia estar imaginando que seria mais ou menos como vida de militar de alta patente aposentado, um funcionário que cumpre tabela, comparece no plenário, vota quando há matéria, sai pra almoçar, volta mais tarde (ou não). E assim, um dia após o outro, até chegar o dia do ordenado, que vem obeso como ovo de Páscoa, recheado de penduricalhos.

Numa acusação incômoda, os entrevistadores cobraram do general o fato de não ter se abalado de Brasília para o Rio Grande durante os dias mais trágicos das enchentes. Com ar surpreso, o senador alegou que seu lugar não era de botas e pé na água salvando gente, que ele é um homem de 70 anos, que qualquer viagem sua ao RS teria sido “desvio de função”. Disse isso sem piscar e sem sorrir, sinal de estar convencido de que a explicação era justa e suficiente.

Já falei disto no passado, mas não custa repetir. Todos os candidatos a cargos públicos eletivos – do presidente da República ao vereador – deveriam, antes de se candidatarem, ser aprovados num exame tipo vestibular, feito para aferir seus conhecimentos gerais e, mais especificamente, para ver se estão a par das particularidades do cargo que pleiteiam. Se levassem bomba no exame, estariam impedidos de registrar candidatura. Ficariam de segunda época, com nova (e última) chance um mês depois.

Com seu peculiar entendimento do cargo de senador, o general não teria passado no exame. Os eleitos pelas urnas não caíram de uma nuvem pela graça do arcanjo Gabriel, mas são representantes do povo que os elegeu. E a esse povo devem atenção e respeito. Ainda que seja só de fachada, essa cortesia tem de ser a marca maior de qualquer político. Saborear buchada de bode, provar cachaça às 10h da manhã e degustar café requentado são pedregulhos que calçam o caminho de todo político. Não seria honesto pedir voto e, na hora do vamos ver, vir com desculpa de “idade avançada”. Não combina.

Falando em idade, me vem à mente que os ministros do STF, mais alto cargo da magistratura nacional, têm prazo de validade. A partir de 75 anos, são considerados “impróprios para aplicar a lei” e então descartados. Para outros altos cargos, a lei costuma fixar uma idade mínima mas deixa em aberto a idade máxima. Assim, um candidato à Presidência, à vice-Presidência ou ao Senado tem de ter 35 anos completos. Não pode ter menos, mas pode ter, digamos, 80, 90, 100 anos. Parece normal? O senador Hamilton Mourão acaba de dar a resposta.

Ele, que atualmente ocupa o cargo, considera que, aos 70 anos, está velho demais para assumir a plenitude de suas funções. E pensar que o mandato dele só terminará quando ele já estiver a caminho dos 78 anos! Em que estado estará ele? Bom nem pensar.

Melhor mesmo é começar a discutir uma data de validade para os cargos eletivos, não só para ministros do Supremo. Setenta anos? Setenta e cinco? Não cabe a mim decidir. Mas uma coisa é certa: se o avanço da idade não afeta de modo direto as faculdades mentais, ele entrava certas faculdades físicas que farão falta no exercício do mandato.

Que tal começar a discutir o assunto? Antes que nossa democracia se torne gerontocracia.

Solastalgia

José Horta Manzano

Artigo publicado no Correio Braziliense de 24 maio 2024

As águas vão baixando no Rio Grande. O que se vai descobrindo agora é um espectro de devastação, panorama de infinita tristeza. O trabalho de uma vida inteira, a pequena propriedade rural que custou anos de sacrifício, a semeadura feita à custa de dívida bancária contraída com tanta dificuldade – tudo destruído.

Nós outros, que assistimos a essa tragédia pela televisão, não fazemos a menor ideia do que seja passar por um sufoco desse calibre. O desastre assolou uma área de tamanho comparável a uma Grã-Bretanha, quase uma Itália inteira! É uma tragédia superlativa.

O Instituto Quaest publicou, no momento em que as enchentes atingiam seu pico, os resultados de uma pesquisa nacional. Tanto gente de bom senso como terraplanistas concordaram num ponto principal: para 99% dos entrevistados, a calamidade que atingiu o Rio Grande do Sul tem ligação com as mudanças climáticas que perturbam a vida no planeta. Unanimidade assim é rara de se ver.

Enquanto isso, em Brasília, se desenrolam fatos dignos de um outro planeta. Estão atualmente tramitando, no Senado ou na Câmara, 25 projetos de lei e 3 propostas de alteração da Constituição visando a mexer na legislação de preservação florestal, a afrouxar regras de licenciamento ambiental e até a anistiar grileiros, desmatadores e outros neandertais. Interesses pessoais néscios e mesquinhos estão por trás desses projetos. Seus autores vivem divorciados de seus eleitores e da realidade global. Esperemos que as enchentes do Rio Grande sacudam o berço esplêndido desses eleitos deslumbrados e os despertem para as desgraças que entraram na pauta nacional.

Boa parte da população de países mais atentos já se deu conta, faz anos, de que toda a humanidade navega num mesmo barco e de que, se cada um não fizer sua parte, o planeta periga tornar-se inabitável antes do que se imagina. Quando digo “cada um” é cada um mesmo, na medida de suas possibilidades. Reutilizar um saco de papel, por exemplo, é o tipo de gesto fácil e simples mas que, multiplicado por milhões de cidadãos, tem seu peso.

Acredito que, em matéria de participação individual no esforço geral de fazer o que se pode para lutar contra aquecimento planetário e catástrofes climáticas, o cataclismo do Rio Grande seja um marco histórico: assinalará um antes e um depois na tomada de consciência do brasileiro sobre o processo de rápida deterioração do clima global.

As enchentes do Sul não são um fenômeno isolado – afirmação cujo bom senso já foi aferido pela pesquisa Quaest. Estão intimamente relacionadas ao desmate na Amazônia e no Cerrado, à reorientação da circulação dos ventos e da umidade. É uma teia complexa de eventos que se equilibram e se complementam. Uma alteração num dos componentes perturba o funcionamento do todo.

Neste ‘day after’ das enchentes do Rio Grande do Sul, não se trata mais do derretimento de longínquas geleiras ou do desaparecimento de ilhotas num oceano qualquer. Hoje sabemos o que significa ver um naco da própria terra natal desaparecer sob uma água barrenta como enxágue de olaria e estagnante como criadouro de mosquito. A partir deste maio de 2024, os brasileiros contam com um exemplo real, doméstico, de carne e osso, com nome e endereço. Não dá mais pra fazer que não viu.

A saúde mental da população, especialmente dos mais jovens, estará cada vez mais comprometida. De fato, são os que entram agora na vida adulta que mais se preocupam com o horizonte sombrio, sem luz, sem sol e sem esperança. É a eles que estamos legando esse mundo. Vamos pelo menos corrigir um pouco do que fizemos errado estas últimas décadas.

Solastalgia, título deste escrito, é termo cunhado em 2005 pelo filósofo australiano Glenn Albrecht. Descreve o estado de estresse emocional causado pelas alterações do meio ambiente, especialmente a destruição de ecossistemas e da biodiversidade. E, consequência inevitável, o aquecimento global.

Energias renováveis, transição energética, ecoansiedade, angústia climática, luto ecológico, ponto de não retorno – são expressões que vão continuar se avolumando em nosso futuro próximo. Se o sofrimento causado pela calamidade das enchentes do Rio Grande puder nos abrir o olho (e a mente) para essa inescapável realidade, um bom passo terá sido dado.

Radioatividade

José Horta Manzano

As propriedades medicinais das águas do município paulista de Lindoia (hoje Águas de Lindoia) já eram conhecidas 350 anos atrás. É que as fontes ficavam no trecho paulista do caminho dos bandeirantes que seguiam em direção às minas gerais e ao planalto goiano.

A fama das águas, cuja radioatividade supera a de qualquer outra fonte conhecida em todo o planeta, chegou ao conhecimento de Madame Marie Curie, única pessoa a ter conseguido a proeza de ganhar dois prêmios Nobel em duas categorias diferentes (Física em 1903 e Química em 1911).

Em 1928, quando de sua visita ao Brasil, a cientista fez questão de passar por Lindoia e medir pessoalmente a radioatividade da água. Essa visita já seria suficiente para encher de orgulho os habitantes da cidade, mas eles têm mais uma razão.

Dia 2 de abril de 1969, três meses antes da partida da missão Apollo 11 em direção à Lua, um misterioso cliente fez uma encomenda numa distribuidora de bebidas carioca. Comprou 100 dúzias de garrafas de meio litro de água Lindoia. A nota fiscal foi extraída em nome da Missão N. Americana, Cabo Kennedy, EUA, e o total deu 226 cruzeiros novos. A mercadoria seguia para o Aeroporto Santos Dumont em caixas com tampa para viagem.

Ninguém tem certeza absoluta de que o reservatório de água da cápsula espacial foi enchido com água mineral de nossa terra. A Nasa, consultada, nunca respondeu. E nunca responderá, imagino.

O povo de Lindoia acredita firmemente na viagem espacial de suas águas. Para quem também acredita, fica a ideia de que os astronautas, ao fazer pipi, tenham encharcado o solo lunar com água brasileira.

(Ilusão boba. Pipi de astronauta é trazido de volta à Terra. Mas não precisa contar pra ninguém porque estraga o prazer.)

Com informações do artigo publicado pelo G1 em 7 jul 2017.

Significado mole em palavra dura

Ricardo Araújo Pereira (*)

Uma característica engraçada das palavras é o fato de terem significados mais ou menos precisos. É conveniente, para que a gente consiga comunicar. Por exemplo, se eu disser que uma rocha é mole, talvez as pessoas fiquem confusas. Em princípio, a palavra “mole” não se aplica a rochas – que, de acordo com a nossa experiência, são duras.

O mundo digital, no entanto, tem uma semântica própria, em que as palavras significam o contrário do que querem dizer na vida real. A palavra “conteúdo”, por exemplo, significa quase sempre “ausência de conteúdo”. É curioso. A frase “vou criar um conteúdo filmando o meu gato dormindo” quer dizer, na verdade, “vou produzir um pouco de vácuo”.

A palavra “amigo”, no Facebook, significa muitas vezes o contrário do que vem nos dicionários. No Facebook, é possível ser amigo de pessoas que nem conhecemos. Diga-se que essa é, por vezes, a maneira mais eficaz de nutrir amizade por alguém. Mas não é esse o significado do termo.

Por outro lado, a palavra “seguidor” não significa, nas redes sociais, discípulo ou partidário. É mais frequente significar “pessoa que nos observa porque tem interesse na nossa queda”. São seguidores que vêm atrás de nós porque pretendem nos passar uma rasteira.

A palavra cujo significado mudou mais radicalmente foi “compartilhar”. Compartilhar, fora do mundo digital, é um ato de generosidade. Quando, por exemplo, compartilhamos um pão com alguém, isso quer dizer que lhe damos um pouco do nosso pão. Nas redes sociais, o ato não é exatamente generoso, uma vez que compartilhar significa, na verdade, exibir.

Alguém que compartilha a fotografia de um pão não oferece nada aos outros. Quem compartilha uma foto do seu carro novo não dá carona a quem vê. Quando alguém compartilha imagens das suas férias, normalmente até ganha dinheiro com isso, porque uma agência de viagens, uma companhia aérea ou um hotel estão pagando. Sinto em dizer que esse dinheiro também não é compartilhado.

O alambique das redes sociais transforma a mesquinhez da exibição na nobreza da partilha. É ótimo.

(*) O português Ricardo Araújo Pereira é jornalista e escritor.

Follow the money

José Horta Manzano

Você sabe o que é rastrear? É seguir o rastro (de alguém ou de algo). Pois é, é tão simples, mas parece que o estagiário que bolou a chamada não sabe.

Relatando uma ocorrência de resgate pago em dinheiro, a chamada diz que a polícia e o Ministério Público rastreiam o caminho do dinheiro. Está errado.

Ninguém rastreia o caminho, nem o policial mais meticuloso do mundo. Rastreia-se o dinheiro, não o caminho.

Reescrevendo a chamada, fica assim:

“Resgate de sequestro foi depositado em 40 contas; polícia e MPRJ rastreiam o dinheiro.”

Copa do Mundo Feminina

José Horta Manzano

Quase quase eu diria que a atribuição da Copa do Mundo Feminina ao Brasil foi mais notícia no estrangeiro que em nossa terra, que será a sede do campeonato. A mídia internacional noticiou com ênfase e comentou com paixão, afinal não é todo dia que a versão feminina do esporte mais popular do planeta vem dar um abraço na “pátria do futebol”. E o círculo estará fechado: o futebol que reencontra sua ‘pátria’.

A mídia brasileira relegou a informação a uma nota de pé de página, onde se adivinhava uma falta de interesse, quase um incômodo. Por que será que isso ocorre? Este é um país em que, a cada quatro anos, na época da Copa, o território se transforma numa imensa bandeira, a paisagem vestida de um persistente verde-amarelo que engalana casas, ruas, vielas, bairros chiques e favelas, carrões de luxo e carrinhos de mão. O evidente desinteresse popular por esta Copa não é de bom agouro.

Será porque os jogadores são as jogadoras? Será que a ideologia que prega “Lugar de mulher é em casa cuidando dos filhos” venceu? Será que a mescla de futebol com mulher mexeu com os brios dos cidadãos que votam Bolsonaro, aqueles que adorariam levar uma garrucha à cinta? Será isso?

Não acredito. Afinal, ainda deve existir gente normal neste país, gente que apoia a libertação das mulheres, uma liberação que lhes permita pelo menos exercer a profissão que desejam e praticar o esporte que lhes agrada. Será que nossos cidadãos liberais (de verdade) sumiram todos, engolfados pelos miasmas tóxicos da direita extrema?

O mais provável é que a origem do desinteresse pela feminização do esporte-rei se perca nas brumas do passado da humanidade. Trata-se de forte resistência da sociedade (homens, principalmente, mas mulheres também) em permitir que a mulher assuma certas funções e profissões antes exclusivamente masculinas.

O homem sempre participou das decisões importantes; a mulher só conquistou o direito de votar no século XX. As primeiras mulheres que conseguiram se inscrever nas faculdades de medicina ao redor do mundo encontraram forte resistência da sociedade e dos próprios colegas masculinos. E assim por diante – a primeira a dirigir um ônibus, a pilotar um avião de caça, a pegar em armas num exército regular, a jogar tênis num torneio maior – todas essas pioneiras tiveram de comer poeira e mastigar lagartos antes de chegarem lá.

A meu ver, a relutância do grande público em aceitar que mulher jogue futebol é resquício de resistências atávicas. Assim como as outras cederam, esta cairá também.

Deixe de ser ranzinza! Procure assistir, sem compromisso, a umas partidas de futebol feminino. Verá que, quando bem tratado, o cão não ladra e o gato é manso. Bom divertimento!

Cura gay

José Horta Manzano

Vamos considerar que o autor dessa matéria da Folha deixou escorregar esse “Influencers” sem querer. Vamos dizer que, sinceramente, ele pretendia escrever “Influenciadores”. Pronto, faz de conta que foi assim, se não vamos passar o resto do dia reclamando. (À toa, presumo.)

Esse título me deixou meio desconcertado. A “cura gay” é permitida ou proibida? O subtítulo diz que, há 25 anos, a ‘terapia’ é vedada pelo Conselho Federal de Psicologia. Tem gente ainda praticando essa falcatrua. E aí? Como é que fica? Pode abrir processo ou a vedação do Conselho de Psicologia não vale nada? Afinal, pode ou não pode?

Se bem entendi, “influencers” – uma casta que não sobreviveria sem a intensa e permanente exposição da própria imagem – andam se valendo de “discurso religioso” (seja lá o que isso quer dizer) para a apologia da ‘cura gay’. Se fazem isso à luz do meio-dia, é sinal de que não arriscam nada. Portanto, pode-se concluir que a vedação mencionada só vale para psicólogos, e que exorcistas modernos continuam tentando expulsar o demo do corpo dos infelizes que lhes caem nas garras.

Coitadas das vítimas! Devem ser centenas, até milhares, pelo Brasilzão todo. Pessoas simples, que acreditam que sua orientação sexual não é inata, mas que foi distorcida por entidades cruéis, especializadas em perseguir e atormentar. Coitadas das vítimas!

É meritório que o Conselho Federal de Psicologia já tenha proibido a seus membros o uso dessa terapia. Mas uma regra que concerne unicamente aos psicólogos não basta. Essa proibição teria de alcançar também médicos, enfermeiros, psiquiatras, clérigos, pastores. Como fazer, então?

Não faz sentido esperar que cada confraria institua em seu seio a mesma proibição. O mais lógico será fazer uma lei – federal e de âmbito nacional. A pressão tem de ser colocada sobre os representantes do povo (senadores e deputados) para que discutam e votem, o mais rapidamente possível, um texto de proibição de terapia de “cura gay” em todo o território nacional.

O Brasil é um país curioso, no qual uma parte da população acredita que a Terra é plana. Assim mesmo, não faz sentido acariciar e conservar em nossos constumes uma prática medieval.

Dos anjos ao pecado

José Horta Manzano

Quem se lembra do trem-bala que, em 2010, nossa “presidenta” garantiu que estaria pronto para as Olimpíadas de 2016? Era pra ligar São Paulo ao Rio de Janeiro. As duas pontas de linha estão até hoje esperando o apito de um trem que não vem.

Detalhe: para confirmar nosso jeitinho “Me engana que eu gosto”, a ínclita presidenta foi perdoada pela engabelação; paulistas, cariocas e também os outros brasileiros votaram nela e a reelegeram.

Em matéria de trem, os Estados Unidos foram do tudo ao quase nada. Me explico. O grande progresso do país se deu nos cem anos que correram entre meados do séc. 19 e meados do séc. 20, ao mesmo tempo que o desenvolvimento das estradas de ferro.

Naquela época em que o trem supria praticamente todas as necessidades de transporte de cidadãos e de mercadoria, a costa Atlântica se ligou ao Pacífico, cidades brotaram, o país se instalou de verdade no território e se transformou na potência que é hoje.

De repente, a partir de meados do séc. 20, o transporte por via férrea foi minguando, dando lugar às estradas de rodagem. Gente e mercadoria passaram a ser levados de carro, de ônibus e de caminhão. E o trem quase desapareceu da paisagem.

Neste ano, estamos a exatamente quatro anos das próximas Olimpíadas, programadas para 2028 em Los Angeles. Mês passado, Joe Biden autorizou o início da construção da primeira linha de verdadeiro trem-bala do país. Deverá ligar Los Angeles a Las Vegas, numa viagem de 2h10, em trens que rodarão a até 320 km/h! O mesmo trajeto em automóvel leva no mínimo 4h30.

Em espanhol, como sabem meus espertos leitores, Los Angeles quer dizer Os Anjos. Em inglês, Las Vegas, a cidade dos jogos e do strip-tease, tem o apelido de “Sin City” (= a cidade do pecado). Fica explicada a brincadeira feita no título deste artigo: Dos anjos (Los Angeles) ao pecado (Las Vegas).

Fico muito curioso pra saber se o trem-bala americano ficará pronto em 4 anos, que é pouquíssimo tempo, ou se dará com os burros n’água como o brasileiro. Dá vontade de rodar o filme para a frente só pra ver no que deu.

Viemos todos de algum lugar

Mauro Vieira com Ignazio Cassis, ministro suíço das Relações Exteriores

José Horta Manzano

Mês passado, Mauro Vieira, nosso chanceler, estava na Europa em viagem de trabalho. Passando pela Suíça, foi recebido pelo ministro de Relações Exteriores, Ignazio Cassis. Não sei se o que ocorreu em seguida já estava combinado entre os dois ou se foi improvisado.

Foram os dois de passeio numa pequena cidade da Suíça de expressão alemã. O burgo de 15 mil habitantes se chama Solothurn (que alguns traduzem em português com o estranho nome de “Soleura”). Mas, afinal, o que estariam fazendo dois chanceleres numa cidadezinha sem nenhuma expressão no xadrez mundial?

É que nosso chanceler se chama Mauro Iecker Vieira. Não parece, mas atrás desse pouco comum Iecker, aportuguesamento do original alemão, se esconde um tradicional Jecker, sobrenome suíço da região de Solothurn.

É isso mesmo: pelo lado materno, doutor Mauro Vieira descende de imigrantes suíços, originários do vilarejo de Erschwil (menos de 1000 habitantes), situado na região de Solothurn. Por fome, falta de perspectiva numa Suíça então paupérrima, seus longínquos ascendentes emigraram 150 anos atrás em busca da terra prometida.

Aportaram no Brasil e seguiram o caminho dos demais imigrantes: acabaram se amoldando à nova pátria e (quase) esquecendo a terra de origem. Sobrou o nome de família como marca de um passado de luta.

STF e os eventos

José Horta Manzano

Meu arguto leitor e minha atenta leitora sabem que este blogueiro não faz parte da turma que bota a culpa dos males do país nas costas dos ministros do STF. Deixo isso pra quem lê um pouquinho só e acredita no pouco que lê – geralmente informações que circulam nas redes sociais.

Não. Para mim, o Supremo, em que pesem opiniões contrárias, continua sendo a pedra de toque da democracia brasileira, especialmente visível nestes tempos de desvario. Acredito que, não fosse o braço firme do STF, nosso sistema democrático teria naufragado antes do fim do governo do capitão. E estaríamos hoje chafurdando na mesma meleca que nossos vizinhos do norte, os venezuelanos. Thank you, STF!

Mas nada permite que os magistrados do Supremo se considerem integrantes de uma raça especial, situada acima da lei, da ética, do recato e do bom senso. Recebem salários elevados, e é normal que assim seja. Têm direito a certas regalias, e, até certo limite, é aceitável que assim seja. Só respeitam a lei, a ética, o recato e o bom senso quando lhes dá na telha; sentem-se autorizados a pular cercas e desrespeitar limites quando lhes apraz. Aí, não! Certos limites não podem e não devem ser ultrapassados.

O que vou dar agora não são notícias de rede social. É o Estadão que, depois de ter feito o respectivo levantamento, informa:


“Ministros do STF participaram de quase dois eventos internacionais por mês no último ano”.


Na Europa é possível sair de Berlim de manhãzinha, tomar o avião, passar o dia em conferência em Londres, tomar o avião de volta e dormir em casa. Mencionei Berlim e Londres, mas poderia ter mencionado Bruxelas, Milão, Madrid, Varsóvia, Genebra, Paris, Copenhague ou qualquer outra capital europeia. O exemplo continua válido.

Feliz ou infelizmente, o Brasil está a 10 mil km da Europa e dos EUA. Nem com a maior boa vontade, não dá pra tomar café da manhã aqui, almoçar lá e voltar para o jantar. Isso significa que qualquer deslocamento de Suas Excelências implica pelo menos três dias de ausência, pra dizer o mínimo. Visto que (que coisa desagradável!) um fim de semana costuma aparecer antes ou depois do evento, o convescote acaba durando 5 ou 6 dias.

Acontecesse duas vezes ao ano, ninguém se ofuscaria. Mas duas vezes por mês! A displicência é insuportável, sobretudo quando vem de funcionários entre os mais bem remunerados do país. Nessas idas e vindas, de uma tacada só, são desrespeitados o recato, a lei, a ética e o bom senso.

Suas Excelências só serão tratados com o devido respeito e com a devida reverência na medida que mantiverem comportamento majestático. Tapinha nas costas não combina com juiz do Supremo. Evento no exterior, seja ele qual for, deveria ser excluído da agenda. Fica pra quando se aposentarem.

Ao continuarem a agir como agem, atropelam a ética, abandonam o recato e colidem contra o bom senso. Não se devem deixar dominar pela vaidade nem pelo apelo dos cachês. Isso é para artista de palco.

Suas Excelências têm dificuldade em se dar conta de que sua função na ordem jurídica brasileira os coloca bem acima dessas picuinhas humanas. Não precisam disso.

1,6 milhão?

Agência Brasil

José Horta Manzano

A Agência Brasil contou, todo o mundo copiou. A manchete é bastante precisa: “Show de Madonna reúne 1,6 milhão de pessoas em Copacabana”. Se tivesse dito “reúne 1,6 milhão”, já estaria de bom tamanho, visto que todos entendem tratar-se de “pessoas”. Mas o manchetista achou que a exatidão vale mais que a imprecisão.

A mídia europeia, que consultei, não deixou a ocasião passar em branco. Repetiram todos a contagem expressiva: 1,6 milhão (de pessoas, naturalmente)! Afinal, estava ali a prova de que um dos shows de maior plateia do mundo tinha ocorrido nas areias de Copacabana.

Passada uma semana, o assunto já amornou embora seus ecos ainda surjam aqui e ali, em bate-papos de boteco. E não é que o Instituto Datafolha publicou neste sábado o resultado de uma pesquisa traiçoeira, que vai decepcionar muita gente.

Valendo-se de um método novo, que passa até pela utilização de fotos aéreas do Google, o instituto concluiu que, no espaço em que a multidão se amontoou, não cabem mais de 875 mil pessoas. Assim mesmo, apertando muito, com 7 pessoas por metro quadrado. 1,6 milhão? Nem por sonho. Pode esquecer.

Não estou sabendo se há alguma rixa pessoal entre os que fizeram esse estudo (875 mil) e os que fizeram a primeira contagem (1,6 milhão). Se não for isso, esse novo estudo deixa no ar um climão do tipo: “Erraram eles ou erramos nós?”.

A contagem “científica” do instituto tinha de ter saído bem mais rapidamente, no dia do show ou no dia seguinte. Hoje, passada uma semana, é tarde demais. A nova contagem não tem serventia.

Não acredito que o levantamento do Datafolha contribua para a serenidade da atmosfera nacional. Na verdade, não serve pra nada, a não ser como jogada de marketing em causa própria: “Vejam como somos fantásticos, nós! Sabemos contar melhor que vosmicês!”.

Num ambiente nacional de polarização sistemática de tudo o que se diz e de tudo o que se faz, melhor teria sido se tivessem calado.