«O que há no governo é mais do que má gerência. É uma fé infinita na empulhação, ofendendo a inteligência alheia.»
Elio Gaspari, em sua coluna da Folha de São Paulo, 19 mar 2014.
«O que há no governo é mais do que má gerência. É uma fé infinita na empulhação, ofendendo a inteligência alheia.»
Elio Gaspari, em sua coluna da Folha de São Paulo, 19 mar 2014.
José Horta Manzano
Um conhecido meu teve, já faz muito tempo, uma pequena papelaria. Naquela época em que ainda ninguém tinha computador, nem impressora, nem escâner em casa, ele deixava uma fotocopiadora à disposição dos clientes. Por módica soma, o distinto público podia tirar suas copiazinhas em sistema de autosserviço. Pagava-se no final.
Vez por outra, aparecia uma velhinha, moradora das redondezas. Depois dos bons-dias, ela pedia para tirar umas cópias. O dono da loja, comovido com a idade avançada da cliente, nunca cobrou pelo serviço. Sempre deixava por isso mesmo.
Um dia, a anciã chegou com algumas folhas. Parecia apressada. O comerciante propôs que ela lhe confiasse os documentos. Ele mesmo tiraria as cópias, e ela podia vir logo mais à tarde buscar o calhamaço. Contente e agradecida, ela aceitou.
Meu conhecido pôs-se à obra. Deu-se conta de que tinha em mãos a declaração de renda da velhinha, preenchida e pronta para ser enviada à Receita. Não se conteve ― deu uma rápida espiada nos números. Quase caiu de costas: a cliente era dona de fortuna considerável, coisa de milhões! Um espanto.
Ao ficar sabendo que o prefeito da cidade de São Paulo havia decretado, semana passada, que cidadãos que já tenham completado 60 anos têm o direito de viajar gratuitamente nos ônibus municipais, lembrei-me da velhinha da fotocópia.
Pelo que diz o decreto, a idade é o único critério de atribuição desse benefício. O legislador partiu de um curioso pressuposto que equipara a velhice à pobreza. A meu ver, a (relativa) juventude do prefeito distorce sua visão. Sua premissa não é necessariamente verdadeira. Todo velho não é obrigatoriamente desvalido.
Reconheço o preceito de que a sociedade deve amparar seus membros mais frágeis. É a base de todo agrupamento humano. Mas não há que confundir idade madura com precariedade financeira. O cartão que assegura a gratuidade no transporte deveria ser atribuído unicamente a anciãos que comprovassem encontrar-se abaixo de determinado nível de rendimento e de patrimônio.
Do jeito que está, pobre tem de pagar tarifa plena enquanto a velhinha da fotocopiadora viaja de graça.
José Horta Manzano
Desde que veículos automóveis proliferaram, as grandes aglomerações passaram a sofrer forte poluição atmosférica. Quando chove ou venta, o problema diminui. Já quando fica aquela pasmaceira, sem chuva nem vento, as partículas finas não se dispersam. Respirar essa sopa química é fonte de males diversos.
Cada metrópole tem lidado com o problema a seu modo. Há as que não fazem nada ― a maioria. Deixam como está para ver no que dá.
Algumas adotam sistema permanente de rodízio de veículos, como é o caso da cidade de São Paulo. Com isso, as autoridades conseguem retirar da circulação 20% da frota. Não é muito, mas sempre ajuda.
Outras, como Londres e Estocolmo, optaram pelo pedágio urbano. É medida mais vigorosa. Transpor os limites estabelecidos custa caro e faz que automobilistas pensem duas vezes antes de fazê-lo.
Paris não impõe, em princípio, nenhuma medida destinada a refrear o volume de tráfego. A abundante oferta de ônibus e de metrô, aliada à raridade de vagas de estacionamento, se encarrega de convencer a população a utilizar transporte público.
No entanto, depois de quase duas semanas sem chuva e sem vento, o ar parisiense ficou estes dias saturado de porcariada. Os habitantes, especialmente os mais frágeis ― idosos e crianças pequenas, começaram a apresentar problemas respiratórios.
O nó da questão é que, na França também, este é ano eleitoral. Cada um dos mais de 36 mil municípios do país deverá escolher prefeito. Medidas que atrapalham o tráfego são, por natureza, impopulares. Mas… com eleição ou não, cairia muito mal se o governo mostrasse despreocupação com a saúde do povo. Que fazer?
Resolveram cortar a maçã ao meio ― nem muito pra lá, nem muito pra cá. Esperaram até que os serviços de meteorologia predissessem o fim da calmaria atmosférica. Quando, enfim, vento e chuva estavam para chegar, o primeiro-ministro decidiu instaurar um rodízio pra lá de restritivo.
O revezamento, baseado no algarismo final de cada placa, exclui da circulação metade da frota. Em dia par, circulam aqueles cuja placa tem número par. Em dia ímpar, vice-versa.
O sistema começou na segunda-feira, 17 de março, e se aplicou ao município de Paris e aos municípios vizinhos. Os congestionamentos habituais diminuíram 60%, um espetáculo! Em compensação, o descontentamento dos que não puderam sair de casa quase gerou uma nova Revolução Francesa.
A experiência durou apenas um dia. Já foi suspensa. Terá servido para acalmar alguns e para enervar outros. Não se pode agradar a gregos e a troianos. Será que a população gostou? Daqui a algumas semanas, as urnas vão tirar as dúvidas.
«O voto deve ser rigorosamente secreto. Só assim, afinal, o eleitor não terá vergonha de ter votado no seu candidato.»
Apparicio Fernando de Brinkerhoff Torelli, “Barão de Itararé” (1895-1971), humorista gaúcho
Wilma Schiesari-Legris (*)
O Félix apareceu nas nossas vidas sorrateiramente, vagando pelos corredores do prédio, passeando pelo jardim de boa terra quente e dormindo num nicho da parede até ser adotado pelos habitantes do imóvel que assim o batizaram por ser ele um pleonasma em branco e preto do gato Félix.
Todas as velhinhas do condomínio adoravam falar com o Félix, mesmo sem saber miar. Uma delas resolveu adotá-lo ensinando ao animal abandonado os caminhos pavlovianos para chegar a seu apartamento situado no sexto andar. Primeiro galgaram juntos as escadas e depois o percurso começou a ser feito por elevador porque a velhinha era mais idosa que o gato.
Félix foi subjugado pela carne fresca cortada a tesouradas e devidamente apresentada num pratinho de porcelana, primeiro à porta do apartamento, depois no seu interior.
A astuta e felina velhinha concebeu então uma campainha para que o gato, assim que chegasse diante da porta, mostrasse a sua presença faminta agitando a patinha no carrilhãzinho colocado estratégicamente ao pé da porta. Assim, pouco a pouco, o gatinho foi voltando e permanecendo no interior da casa com a liberdade de sair quando quisesse e regressando a cada caçada infrutífera tentada no jardim. Não era um gato que se deixasse afagar: ia, comia e partia, voltando sistematicamente.
Quando o bichinho se sentiu realmente à vontade, começou a tirar umas pestanas na sala e foi com grande surpresa que a senhorinha descobriu que o suposto macho era uma fêmea: tinha ela uma enorme e cirúrgica cicatriz ventral, separando suas tetinhas em duas colunas estéreis.
O tempo passando e a confiança se instalando, Madame Félix deixou-se acariciar sem jamais entrar na categoria dos gatos descritos por Miguel Torga, nunca mostrando submissão, e mesmo, ao contrário, submetendo.
O gato (ou gata) pôs a pobre velhinha de quatro patas e, para selar a sua autoridade, passou a utilisar sistematicamente o elevador, onde todo eventual ocupante lhe servia de ascensorista, abrindo-lhe a porta da cabina no sexto andar. Dali em diante, a gata passou a olhar nos olhos da velhinha.
Cada vez que estavam juntas, era ela quem fazia as observações sobre o estado da casa ou o moral da velhinha. Aquela gata com olhos verdes e diabólicos sabia. Sabia da subserviência da velha, da sua submissão milenar, do seu altruísmo e da sua mesquinharia. Acompanhando com o olhar a anfitriã, passava as horas a conjecturar a miséria da vida humana comparada com a dos gatos vagabundos, a ponto de convencer sua senhora a abandonar a casca humana e tornar-se gata como ela.
Era o fim das gatas borralheiras e o começo da reflexão. Aquela velhinha estava começando a entender de filosofia com sua arrogante gata!
Que melhor vida para uma fêmea, mesmo comparando com aquela da gata castrada, do que ser apenas um animal no qual a humanidade se manifestava mais pungente? A gata nunca miou, nunca se deixou pegar no colo, nunca arranhou, sequer destruiu o tecido do sofá onde se pôs a passar as tardes a observar sua serva.
Ela considerava as maneiras da velhinha presenciando as vulgaridades comportamentais cometidas pelas pessoas que vivem sós e se descuidam dos aparatos de educação requeridos pela vida em sociedade.
Quantas não foram as frases ditas em voz alta ― que repugnariam um vizinho mais avisado ― e que a bichana ouviu calada?
Quantos não foram os telefonemas não atendidos ou, se assim não ocorresse, que eram recheados de mentiras ou inverdades que o animal descompreendeu?
Que continham aquelas cartas que chegavam ao apartamento ou que dele saíam para um neto distante ou um filho interesseiro, herdeiro único, que seria o dono do espaço da gata no tempo em que a morte colhesse a sua hospedeira?
A suposta ordem dos objetos e da decoração, pensava o bicho, escondiam uma desordem qualquer?
Quem eram aqueles parcos visitantes que às vezes iam jantar com elas, apreciando mais a gatinha que a senhorinha?
Por que tantos livros nas bibliotecas e tão poucas e murchas as flores nos vasos?
Todas essas questões ficaram sem resposta até o dia em que a senhorinha resolveu comer no mesmo pratinho que a gata, agachada ao chão, ao lado dela. A bichana partilhou a ração e permitiu que a dona se sentasse com ela no sofá da sala. Às vezes ambas faziam a sesta dentro do armário embutido do quarto ou espreguiçavam juntas sobre o tapete bordô.
Quando a gata curvava o dorso esticando as patas dianteiras, sua dona se sentia melhor da lordose. Quando o animal lambia as patas para depois limpar o pelo da cabeça e das orelhas, a velhinha sentia-se mais asseada. Quando Félix procurava uma réstia de sol vinda da janela, dividia o espaço com ela.
O único senão é que, naquela altura, a velha e a gatinha eram da mesma velhice e o animal não era mais visto da janela, nas horas em que ficava fora de casa, a trepar nos muros altos, escalar as árvores ou a caçar os passarinhos desavisados que bicavam no jardim.
O apartamento foi legado em cartório à bichana.
A velhinha morreu tentando saltar dum galho alto do jardim. Ela havia tomado por hábito caçar lagartixas e passarinhos que, a quatro patas, levava para Félix subindo a pé os seis andares com a presa entre os dentes.
(*) Wilma Schiesari-Legris é escritora
«Os estádios estão prontos. Agora só falta construir um país em volta.»
Entreouvido numa padaria.
(Eta titulozinho misterioso, não? Pois você vai entender já, já.)
José Horta Manzano
Obrigado a não
Em seu caderno Mundo, a Folha de São Paulo deu longo título a uma matéria de seu enviado especial à Crimeia. Está lá, com todas as letras:
«Jornalista é obrigado a não divulgar material negativo de referendo, diz governo da Crimeia».
«Obrigado a não»? Que formulação infeliz, gente! Obrigar é ação positiva e proativa. É daquelas que impelem, constringem, empurram, forçam alguém a fazer alguma coisa. Não combina com negação.
Mais feliz teria sido o dador de título se tivesse empregado um verbo contendo a ideia de reter, puxar as rédeas, frear. Impedir e proibir cairiam bem. Veja:
«Jornalistas estão impedidos de divulgar (…)» ou
«Jornalistas estão proibidos de divulgar (…)»
Melhor, não?
Não, obrigado
Sonho de todos os bons restaurantes é figurar no Guia Michelin, o indicador gastronômico mais respeitado no planeta. Aparecer ali, no entanto, é privilégio reservado a muito poucos.
A distinção é simbolizada por estrelas. Uma estrela significa «muito boa mesa em sua categoria». Duas estrelas assinalam uma «excelente mesa que merece uma visita». Três estrelas ― a honra suprema, concedida apenas a uma centena de restaurantes esparsos por 12 países ― indicam «cozinha ímpar ― vale uma viagem».
Como se pode imaginar, o guia é bastante sovina na hora de atribuir suas estrelas. Cada ano, quando nova edição é lançada, muito chefe de cozinha competente fica a ver… estrelas, que estrelato não é para qualquer um.
A última edição do Michelin brindou um restaurante belga com uma estrela, a primeira jamais conquistada por aquele estabelecimento. Algum tempo depois, o chefe de cozinha (e dono do restaurante agraciado) enviou uma carta registrada à redação do Michelin para solicitar que a estrela lhe fosse retirada e que o nome de seu restaurante não mais aparecesse no guia.
Ninguém entendeu as razões do gesto incomum ― coisa de deixar de queixo caído. A notícia, por rara, propagou-se rapidamente, e o cozinheiro foi procurado pela mídia curiosa de conhecer sua motivação.
Herr Fredrick Dhooghe explicou que, desde que seu estabelecimento começou a ser mencionado no afamado guia, clientes novos apareceram. E todos esperavam encontrar uma cozinha excepcional, espetacular, sofisticada. Ele, no entanto, prefere continuar fazendo o que sempre fez: uma cozinha simples, que mostre o verdadeiro sabor de cada prato, sem modismos. Não está disposto a abrir mão da liberdade de cozinhar à sua maneira.
O Michelin, provavelmente despeitado, aquiesceu. O restaurante de Herr Dhooghe não aparecerá mais no guia. O curioso personagem teve a coragem de dizer «não, obrigado».
A notícia em flamengo (variante do holandês).
José Horta Manzano
uando se tem uma eleição majoritária pela frente ― para presidente da República, por exemplo ― qual é a postura que se espera de cada candidato? Ora, que mostre que é melhor que os demais. Que incite os eleitores a votar nele, seja pelo que já demonstrou ser capaz de fazer, seja pelo programa que propõe.
Nas Orópias e em recantos civilizados do planeta, é isso que costuma ocorrer. Aquele que pleiteia a reeleição tem, pelo poder que o cargo atual lhe assegura, mais meios que os outros. No entanto, paradoxalmente, é o mais exposto. O que fez, fez. O que deixou de fazer, não dá para recuperar. Ao contrário do que parece, é mais fácil eleger-se pela primeira vez do que ser reeleito. Em princípio, é assim. No entanto…
…no entanto, em certos países, o desvio da norma é curioso. No Brasil, por exemplo. Os que estão no poder, em vez de mostrar honestamente seus feitos, adquiriram o estranho hábito de forjar dossiês, armar cabalas, criar armadilhas contra os que ousam desafiá-lo. Para suprir falhas de sua gestão, inauguram obras inacabadas, falseiam estatísticas, maquiam contas, douram pílulas.
E os que pretendem desalojar os que estão no poder, que fazem? Surpreendentemente, não ousam criticar a magreza das realizações do mandatário de turno. Se reprovam atos do governo, fazem-no timidamente, como se sentissem vergonha. O mais longe que conseguem ir é: «O que Fulano fez está muito bem, não há que criticar, mas eu farei melhor».
É atitude consternadora. Não é assim que eu encaro uma disputa ― e talvez seja uma das razões pelas quais nunca me candidatei a nada. Se pretendo ejetar alguém de seu trono, não basta prometer que farei a mesma coisa, só que um pouco mais benfeito. Tenho de escancarar defeitos, malfeitos e não-feitos de meu adversário.
Mas não há noite que dure para sempre. Parece que, aos poucos, essa lição vai entrando na cabecinha dos que pleiteiam erguer-se ao trono presidencial.
Daniel Carvalho, em artigo publicado alguns dias atrás na Folha de São Paulo, nos dá conta da fala de um dos prováveis candidatos à eleição de outubro. O homem disse que o Brasil «não aguenta» dona Dilma por mais quatro anos. E reforçou afirmando que a presidente «não sabe de nada».
Arre! Até que enfim os pretendentes estão encontrando a coragem de dizer as coisas como elas são. É um bom começo.
Que ganhe este ou aquele candidato, tanto faz. Mas é importante que os brasileiros não sejam tratados como idiotas. Não se deve prejulgar a inteligência do eleitor. Se há verdades a dizer, que sejam ditas. Se há programas a propor, que sejam propostos. Agora é a hora.
«Antigamente os cartazes nas ruas, com rostos de criminosos, ofereciam recompensa. Hoje, pedem voto.»
Entreouvido num ponto de ônibus.
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«Faltaram ao ex-presidente Lula e à presidente Dilma os pilares de sustentação para a Copa ser sediada no Brasil: planejamento, organização, direção e controle.»
Francisco Bendl, in Tribuna da Imprensa, 12 mar 2014.
Myrthes Suplicy Vieira (*)
Tem gente que não gosta de gente. Dentre esse tipo de pessoas, há aquelas que buscam nos animais uma espécie de compensação afetiva para estabelecer relacionamentos e escapar da solidão.
Tem também gente que ama gente. Já dentre essa classe de pessoas, há aquelas que vivem reclamando de quem dá preferência à adoção de animais, ao invés de crianças carentes.
No meio dos dois tipos, há ainda pessoas que se satisfazem com relacionamentos cotidianos tanto com humanos quanto com animais.
Na linguagem comum das ruas, é habitual usar a expressão “Fulano é muito humano” para designar uma pessoa portadora de sensibilidade, generosidade ou solidariedade. Por outro lado, também é comum indignar-se quando um exemplar da raça humana transgride algum código de ética ou de convivência social dizendo que “Fulano é um animal”.
De que lado está a verdade? Humanos são mesmo seres sensíveis, generosos e solidários enquanto os animais são geneticamente incapazes de se comportar de acordo com as regras da boa convivência humana? Claro que você já sabe a resposta: existe gente chegada a atitudes “animalescas” e existem animais tão sensíveis de quem se poderia dizer que já são um pouco “humanos”.
A frequência estatística de cada um desses tipos? Bem, eu diria que, se deixados em seu estado natural ― isto é, sem que grandes traumas tenham ocorrido em seu percurso geneticamente programado ― a chance de encontrar animais humanizados e pessoas animalizadas estaria próxima da do acaso, ou seja, 50% para cada lado.
Inútil negar a evidência de que somos todos humanos e animais ao mesmo tempo. Na nossa espécie, o cerne biológico é recoberto por uma camada de racionalidade que age como uma espécie de tampão para inibir a expressão de instintos primitivos. Quase sempre dá certo, mas não há garantia de espécie alguma de que um acontecimento inusitado e com uma carga energética maior do que a que estamos habituados não possa burlar a vigilância do ego e irromper com força máxima no terreno da animalidade.
O problema está na nossa dificuldade em admitir que existe, em estado latente, dentro de cada um de nós o potencial de visitar qualquer um desses extremos a qualquer momento e sem que possamos antecipar isso. Nossa censura interna apenas se esforça em comprovar que isso jamais acontecerá conosco.
Tudo seria simples se todos os comportamentos humanos fossem plenamente conscientes ― e não são. O motivo que aparece em nossa consciência para justificar uma determinada atitude nossa nem sempre corresponde à realidade de nossa emoção. Como fomos adestrados pacientemente desde muito cedo para a expressão de sentimentos positivos e para a repressão dos negativos, nos deixamos cegar para a crueldade de muitas de nossas intenções. “O inferno são os outros”, já dizia Jean-Paul Sartre. Se não tivéssemos de conviver com pessoas que adotam outros estilos de vida, outros códigos de conduta e outros valores, nossa existência seria plácida como a superfície de um lago em dia sem vento.
Já na contramão dessa crença, Freud nos alertou em muitos de seus escritos para a violência contida no “retorno do oprimido”. Se tivermos sido extremamente eficientes ao longo de nossa vida para conter a livre expressão de instintos selvagens, podemos ter esticado tanto a corda que inadvertidamente nos colocamos a apenas um passo de uma explosão devastadora.
Para domesticar a fera humana e incorporar a doce espontaneidade animal, precisamos simplesmente ter consciência de que temos um pé em cada canoa o tempo todo. É, pois, a delicada tensão dinâmica entre nossa humanidade e nossa animalidade o princípio-guia que rege uma existência saudável, a meio caminho entre a misantropia e a filantropia.
Para tratar daquelas pessoas que sentem dificuldade em encontrar o caminho do meio, lancei há pouco tempo o conceito de “adestramento de humanos”. Se você se interessa em saber mais a esse respeito, entre em contato comigo.
(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga.
Email: msvac@uol.com.br
«Pobre, quando mete a mão no bolso, só tira os cinco dedos.»
Apparicio Fernando de Brinkerhoff Torelli, “Barão de Itararé” (1895-1971), humorista gaúcho
José Horta Manzano
Um artigo do correspondente em Kiev da Agência Reuters informou que Oleksandr, filho do (deposto) presidente Ianucóvitch, amealhou impressionante fortuna em pouquíssimo tempo.
Diplomado em odontologia, Oleksandr, atualmente com 40 anos, já vinha sendo criticado pela oposição bem antes da destituição de seu pai. O homem está à frente de um império cujos tentáculos detêm interesses na indústria de combustíveis assim como no ramo imobiliário.
Segundo informações divulgadas por dois institutos de pesquisa ligados à oposição ― o PEPWatch e o Anticorruption Action Centre ―, os haveres de Ianukóvitch júnior cresceram impressionantes 7285%(!) em três anos. A Forbes atribui-lhe fortuna de 510 milhões de dólares.
Qualquer semelhança com filho de dirigente de algum outro país será mera coincidência. Ou não.
José Horta Manzano
Sumiço?
Tudo o que sobe tem de descer um dia, assim já ensinavam nossos avós.
Faz uns dias, saiu a notícia de um pedaço de fuselagem que se desprendeu dum avião em pleno voo. Foi mais susto que perigo ― o piloto conseguiu pousar o aparelho, com segurança, num aeroporto próximo, e ninguém se feriu.
Como não li mais nada sobre o caso, fiquei a pensar com meus botões: «Mas onde, diabos, foi parar esse (enorme) pedaço de ferragem?» Estivesse o avião na estratosfera, entendo que se teria desintegrado. Mas não aconteceu assim.
Em algum lugar terá caído o destroço. Caso alguém esteja sabendo, agradeço se me puder informar.
Avôs e avós
Escrevi avós no bloco aí acima. Um assunto puxa o outro. Lembrei que, às vezes, a gente fica inseguro na hora de escolher o melhor termo. Em que caso devo usar avôs em vez de avós? Avós é só para mulheres?
Pois a regra é pra lá de simples. Confrontando com as normas de nossa gramática ― cheias de nove horas e às vezes ilógicas ―, esta é fácil de reter.
Usa-se avôs num único caso: quando nos referimos ao pai da mãe e ao pai do pai conjuntamente.
«Meus avôs vêm ambos da Mongólia. Um se chama João e o outro Pedro».
Usa-se avós em todos os outros casos em que quisermos nos referir a nossos antepassados ― excluindo nossos próprios pais, evidentemente.
Por uma questão de lógica, quando empregamos a palavra com sentido metafórico, convém escolher a forma avós.
«Os avós da nação», «Ensinamento que vem de nossos avós».
«Há um mês, em Bagdá, no Iraque, um instrutor de homens-bomba detonou sem querer um explosivo e matou 22 de seus alunos. Pena. Mas, como eram terroristas-suicidas, apenas foram para o céu mais cedo».
Ruy Castro, escritor e jornalisa, in Folha de São Paulo 10 março 2014.
José Horta Manzano
Abrindo o bico
Nicolás Maduro está amadurecendo, o que não deixa de ser boa notícia. Com a ingenuidade e o despreparo dos que não receberam formação suficiente para dirigir um país, vai caminhando trôpego, cambaleante.
A situação deve estar feia de verdade pros vizinhos bolivarianos. Numa estratégia simplória, o presidente bigodudo deixou-se fotografar ao lado de um ator americano. Deve imaginar que isso melhora sua imagem junto à opinião pública do Grande Irmão do Norte. A conferir.
Depois de expulsar oito funcionários consulares americanos, faz alguns dias, deve ter-se dado conta de que o maior prejudicado nessa história toda é ele mesmo. E seu povo junto.
Numa tentativa de passar pomada, jurou que é fã de tudo o que for americano. Desde que era criancinha! Contou que conhece os EUA por suas novelas e seus filmes. Confessou até apreciar Jimi Hendrix e Janis Joplin. Um presidente ligadão, como se vê.
Desta vez, vai: Maduro amadureceu! Governante de um país esfarrapado, deu-se subitamente conta de que não vale a pena armar briga com seu maior cliente. Antes tarde que nunca.