Frase do dia — 81

«(…) A atual conjuntura sugere que o Brasil está se tornando uma Argentina, a Argentina está virando uma Venezuela, e a Venezuela já é quase um Zimbábue.»

Editorial do Estadão de 17 jan° 2014.

O sabor está nos detalhes

José Horta Manzano

Em seu blogue Olimpílulas, alojado no Estadão, o jornalista Demétrio Vecchioli traz uma panorâmica da desastrosa situação do País em matéria de preparação para os Jogos Olímpicos de 2016.

Falta de interesse das confederações, parques aquáticos e outros ginásios fechados para reforma, indiferença geral por parte de autoridades, falta de estímulo à população estão minando o caminho de um Brasil que aspirava a tornar-se potência esportiva.

Para alcançar nível elevado, seja ele nos esportes, nas artes ou nas ciências, simples esperanças não bastam. É necessário muito trabalho, muito investimento e muita paciência. Sem esforço, com investimento parco e, ainda por cima, de afogadilho, não se chega lá. É indiscutível.

O artigo é afligente. Chega-se ao final com sentimento de desalento. Ainda que se comece a leitura com espírito de combatente optimista, termina-se com ânimo de vira-lata. Garantido.

As coisas são assim, que remédio? Nós outros, distantes dos centros de poder e de decisão, pouco ou nada podemos fazer. Mas nem tudo está perdido. Sobra uma consolação. Como diz o outro, rir é a melhor solução.

No final do texto, aparecem os comentários. Um leitor, que se assina Carlos Moura, desvenda, em tom irônico e bem-humorado, as raízes do mal.

Comentário de um leitor do Estadão

Comentário de um leitor do Estadão

Transcrevo:

Interligne vertical 12«Somos campeões mundiais em diversas modalidades (em moralidade perdemos todas!). Não temos concorrentes em desvios orçamentais, assalto com farra, arremesso de impostos, mil mensaleiros livres, trampolim político sincronizado, micha atlética, lançamento de dano, helicoptatlo, assalto à distância, badminton, camuflagem, EBX, concurso completo de indicação, tiro perdido, tiro com arco 51, e até corredor de helicópteros… Tudo com as bênção dos deuses do Eulimpo! Por último, o sigla que avança a olhos vistos, malvistos e não vistos, e o outro COI ― Começão Olímpica de Impostos. Uma pena. A criatividade deveria estar sempre a serviço do bem.»

Pra frente, Brasil!

Frase do dia — 80

Me dá uma bolsa aí!

«O aumento expressivo na inatividade registrado em novembro é explicado pelo crescimento da faixa da população que não trabalha nem quer ter um emprego, segundo o IBGE. O fenômeno já tinha sido observado no mês anterior.»

Daniela Amorim, in Estadão 16 jan° 2014.

O presidente normal

José Horta Manzano

Nicolas Sarkozy, antigo presidente da França, é um ser frenético, dono de personalidade hiperativa. Esse traço de caráter marcou sua presidência. Estava por toda parte, falava pelos cotovelos, ocupava a cena, ofuscava seus ministros. Divorciou-se, casou-se de novo e foi pai ― tudo isso durante seu mandato de 5 anos.

O presidente na garupa

O presidente na garupa

Chegado o momento de escolher novo presidente, Sarkozy naturalmente candidatou-se à reeleição. Seu adversário-mor, na intenção de marcar terreno e enfatizar a diferença entre seu estilo e o bulício da presidência que findava, proclamou aos quatro ventos que, se eleito, seria um presidente normal.

Foram os dois para o segundo turno. Por uma margem de votos que, sem ser apertada, tampouco foi ampla, Sarkozy foi dispensado de suas funções e François Hollande tomou seu lugar.

Diferentemente do Brasil, os candidatos franceses, uma vez empossados, costumam ser cobrados pelos eleitores por suas promessas de campanha. Mas ninguém sabia direito o que seria uma presidência normal ― talvez até nem o próprio Hollande soubesse bem como tornar o slogan realidade.

Instalado no palácio presidencial há já quase dois anos, Monsieur Hollande bem que tem tentado mostrar-se menos falante, menos frenético, mas… não tem jeito. Anda amargando os níveis de popularidade mais baixos já experimentados por um presidente desde que esse parâmetro começou a ser medido. O desditoso está abaixo de Chirac, de Mitterrand e até do próprio Sarkozy, o hiperativo.

Semana passada, Closer, uma revista sensacionalista francesa, publicou uma reportagem bomba revelando a ligação amorosa do presidente com uma atriz quase 20 anos mais jovem que ele. Escândalo no país! Durante dias, não se falou de outro assunto. Jornais impressos, radiofônicos e televisivos abriam invariavelmente com as mais recentes informações, opiniões e palpites sobre o caso.

O amor secreto do presidente reportagem bomba da revista Closer

O amor secreto do presidente
reportagem bomba da revista Closer

Segundo Closer, o modo de proceder foi relativamente simples. A presidência da República mantém alguns apartamentos mobiliados, situados em imóveis discretos, onde costuma alojar visitantes temporários, gente cuja presença em Paris não deve ser tornada pública. O presidente tem autoridade para requisitar, quando lhe apraz, algum desses apartamentos para seu uso pessoal ― para encontrar-se discretamente com algum figurão, por exemplo.

Os repórteres da revista, não se sabe como, foram informados de que os encontros do presidente com a atriz ocorriam num desses apartamentos, a tal dia, a tal hora. A partir daí, foi fácil. Postaram seus fotógrafos na saída do palácio presidencial e na entrada do edifício que abriga a garçonnière.

Não deu outra: o presidente saiu de seu palácio, coberto por um capacete, na garupa de um scooter ― aquele meio de transporte que os antigos conheciam como lambreta ou motoneta. Dirigiu-se ao local onde já o esperava outro fotógrafo. As cenas foram registradas, mas o presidente nem se deu conta do que estava acontecendo.

A revista não perdeu a ocasião. Publicou a revelação em edição extra. A tiragem, que costuma ser de 150 mil exemplares, foi quadruplicada. Assim mesmo, esgotou-se em poucas horas. Atualmente, tem gente vendendo um exemplar (usado) daquele número pela elevada soma de 15 euros (perto de 50 reais).

É bem sabido que a desgraça de uns sempre acaba fazendo a felicidade de outros. Sixt, uma locadora de automóveis, saltou sobre a ocasião. Acaba de lançar uma divertida peça publicitária com os dizeres: «Senhor presidente, da próxima vez, evite o scooter. Sixt aluga carros com vidros fumês».

Da próxima vez, evite o scooter... propaganda de uma locadora de automóveis

Da próxima vez, evite o scooter…
propaganda de uma locadora de automóveis

O povo francês está começando a descobrir um dos traços que caracterizam um presidente normal. É pular a cerca de vez em quando, como fazem tantos maridos.

PS: No dia seguinte ao da publicação, a companheira fixa do presidente ― aquela que é considerada a primeira-dama ― foi internada com graves problemas de saúde. Não se sabe bem que mal a acomete, mas o fato é que, passados mais de 10 dias, continua hospitalizada. Pode ser coincidência. Ou não.

O chinês e os mapas

José Horta Manzano

Você sabia?

O chinês
Entre 1850 e os primeiros anos do século passado, a China viveu tempos confusos. A extensão do território e a precariedade dos meios de comunicação dificultavam o controle e a imposição da autoridade central.

China paintingO Japão e as potências europeias aproveitaram a desordem para tirar uma casquinha aqui e ali. Ao cabo da primeira guerra sino-japonesa, ganha pelo País do Sol Levante, a China teve de entregar Taiwan e outros arquipélagos que interessavam ao vencedor. Os ingleses obtiveram uma concessão de soberania por 99 anos sobre um naco de terra adjacente a Hong Kong.

A Rússia, a Alemanha, o Império Austro-Húngaro também se aproveitaram daqueles tempos para fazer valer seus interesses políticos e comerciais. Em 1911-1912, com o fim do regime imperial, foi proclamada a república. Mas muita água ainda teve de passar sob as pontes do Rio Yangtzé antes que o país se estabilizasse.

Em 1909, no ocaso do regime imperial chinês, o Brasil recebeu uma comitiva vinda do país oriental. Era encabeçada pelo príncipe Liu She-Shun, representante de Sua Majestade. O intuito da visita era duplo: buscava firmar acordos comerciais e ― principalmente ― tentava convencer o governo dos Estados Unidos do Brazil a aceitar imigração de mão de obra chinesa.

O senhor Liu, recebido com todas as honras devidas a tão ilustre visitante, esteve no Rio de Janeiro e em São Paulo. Nesta última cidade, deu uma passada pelos cartões postais de então, incluindo uma inevitável visita à Escola Normal ― orgulho do nascente magistério republicano. Foi saudado em francês, como se usava na época. E em francês respondeu.

Um ano antes da visita do príncipe, a primeira leva de imigrantes japoneses já havia aportado a Santos. Pode ter sido porque os japoneses estavam sendo bem avaliados por seus empregadores, pode também ter sido porque a instabilidade da China atrapalhava ― o fato é que o pleito do embaixador chinês gorou. Não se estabeleceu uma corrente contínua de imigração de chineses para o Brasil.

Os mapas
Era grande a cobiça que a China, desorganizada, despertava em potências estrangeiras. Os chineses se ressentiam da situação. Um exemplo é o mapa abaixo, onde países são representados por animais indesejados, cada qual carregando seu estandarte.

Mapa chinês alegórico Princípios do séc. XX

Mapa chinês alegórico
Princípios do séc. XX

As bandeiras são um tanto fantasiosas, assim mesmo dá para distinguir a Itália, Suíça, a Suécia, a Hungria. A águia americana aparece também.

Naqueles tempos, a península indochinesa ― aquela tripa de continente onde hoje estão o Vietnã, o Cambodja, o Laos ― era colônia francesa. No mapa, a França aparece simbolizada por uma rã assentada sobre a Indochina e prestes a agarrar a China. Por que uma rã? Porque os franceses são chamados frogs (=sapo) pelos ingleses. O apelido pejorativo vem do fato de os gauleses terem o surpreendente hábito de comer pernas arrancadas de rãs vivas. Para quem não está habituado, it’s really shocking, é chocante.

Para completar o capítulo geográfico, uma curiosidade. Cada um de nós sente que é o centro do universo. É natural, it’s human nature. Pois o mesmo ocorre com nações e países. Quando desenhamos um mapa-múndi, pomos o nosso país no centro e o resto em volta. Estamos acostumados a ver as Américas à esquerda, a Europa à direita e o Oceano Atlântico no meio. A China e o Japão quase caem do mapa.

Mapa-múndi chinês

Mapa-múndi chinês

Os chineses sofrem do mesmo mal. Sentem, eles também, que são o centro do mundo. Você já viu um planisfério chinês? Veja então a imagem abaixo. A China é localizada no meio do mapa. A Europa fica na extrema esquerda e as Américas se situam na extrema direita, com o Brasil quase caindo do mapa.

Mapa-múndi chinês

Mapa-múndi chinês

Cada um vê o mundo com seus óculos.

Rapidinha 12

José Horta Manzano

Com reportagem de Ricardo Chapola, o Estadão nos informa que foi criado um site exclusivamente para passar o chapéu e arrecadar uma ajudazinha do distinto público. Para quê? Ora, para pagar a multa a que um dos réus do mensalão foi condenado.

Três dúvidas me ocorrem:

Interligne vertical 141) O partido ao qual esse senhor é afiliado é considerado abastado. Por que não enfiam a mão no bolso e acabam logo com essa encenação?

2) Dados relativos a movimentação bancária são, em princípio, sigilosos. Quem garante que o montante anunciado terá sido realmente alcançado? De qualquer maneira, seja qual for a quantia declarada, ninguém poderá contestar.

3) Três dos condenados no processo do mensalão pertencem ao mesmo partido. A vaquinha está sendo lançada para dar arrimo apenas a um deles. Por que razão os outros dois não ousam recorrer à caridade pública? Será lícito tomar esse silêncio por uma reconhecimento de culpa?

Quem viver verá.

Boa-fé, má-fé, pouca fé

José Horta Manzano

A comunicação verbal é um dos traços distintivos entre o homem e o resto dos animais. Essa relação passa por um conjunto de códigos ― em princípio conhecido por todos os participantes.

Damos a essa coleção de símbolos o nome de língua. Dialeto, pidgin, crioulo, patoá, gíria, jargão são variantes do mesmo tema. Para que a informação passe, é imprescindível que os integrantes do grupo conheçam os códigos. Se assim não for, o recado não chega aonde deveria chegar, o que pode causar a maior confusão.

Estudante 2Como toda obra humana, a difusão das chaves da comunicação não é uniforme. Por mais homogêneo que seja o grupo, nem todos os seus componentes conhecerão todo o elenco de palavras disponíveis.

A reportagem de J. M. Tomazela, do Estadão, relata um fato constrangedor, daqueles que escancaram o resultado do processo de infantilização ao qual nosso povo vem sendo submetido.

O artigo relata a péssima ideia ocorrida a um jovem adulto brasileiro, que atualmente toma aulas de publicidade nos EUA. Sabe-se lá por que razão, o moço descabeçado decidiu cutucar a área de segurança americana. O mundo inteiro sabe que, por aquelas bandas, esse é assunto altamente sensível. Bulir com segurança nacional é pior que xingar a mãe do guarda.

Acreditando-se inatingível, o jovem enviou mensagens eletrônicas nas quais anunciava a presença de bomba num determinado voo, programado para dali a alguns dias. Para coroar o desvario, o moço tentou embarcar justamente no voo que havia apontado em suas denúncias. De criança, não deve ter aprendido que brincadeira tem hora, lugar e, principalmente, limite.Bomba 1

Desde os atentados de 2001, os serviços de segurança americanos não brincam em serviço. Pelo contrário, chegam a exagerar na prevenção. O irresponsável foi rapidamente identificado. Os policiais não se deram nem ao trabalho de colhê-lo em casa. Esperaram no aeroporto. Quando lá chegou, o engraçadinho, naturalmente, não embarcou. Foi direto para o xilindró, onde periga passar uma boa temporada. Naquele país, habeas corpus e embargos infringentes não são corriqueiros.

A família do estudante declarou que o jovem adulto agiu sem má-fé. Como é que é? Sem má-fé? Uma consulta ao dicionário se impõe. Está lá no Houaiss:

Interligne vertical 13«Má-fé
1 Disposição de espírito que inspira e alimenta ação maldosa, conscientemente praticada; deslealdade, fraude, perfídia
2 Termo usado para caracterizar o que é feito contra a lei, sem justa causa, sem fundamento legal e com plena consciência disso».

É exatamente o que fez o tresloucado jovem: movimentou todo um dispositivo de segurança, atrasou um voo comercial, atazanou a vida de centenas de passageiros, sacudiu a logística de uma companhia aérea, fez estrilar alarme vermelho em agências de segurança. Agiu de forma deliberada e consciente. Se isso não for má-fé, o que será?

Para efeito de comparação, vejamos o que nos ensina o mesmo Houaiss no verbete boa-fé:

Interligne vertical 13«Boa-fé
1 Retidão ou pureza de intenções; sinceridade
2 Convicção de agir ou portar-se com justiça e lealdade com relação a alguém, a determinados princípios
3 Respeito ou fidelidade às exigências da honestidade ou do que é considerado direito; lisura»

Agora ficou claro. O ato praticado foi de má-fé, sim, senhor. Aqueles que, preocupados em defender o jovem, disserem o contrário estarão deturpando a expressão.

Esperemos que estejam usando o substantivo errado por simples ignorância e não por… má-fé.

Frase do dia — 79

«(…) No comício oficial e obrigatório de réveillon, Dilma Rousseff denunciou ― eles continuam denunciando ― a existência de uma “guerra psicológica” para afugentar investimentos e desestabilizar a economia nacional. É muita modéstia do PT achar que alguém pode desestabilizar a economia melhor do que eles.»

Guilherme Fiuza em sua coluna na Revista Época. Para ler o artigo na íntegra, clique aqui.

De ouro

José Horta Manzano0-Sigismeno 1

Sigismeno leu matéria do Estadão deste domingo e ficou sabendo que a Fifa, numa decisão um tanto fora dos padrões, decidiu conceder uma Bola de Ouro a Pelé ― uma espécie de bola honoris causa.

O mundo inteiro, Sigismeno incluído, sabe que Edson Arantes do Nascimento foi um grande jogador de futebol. Autor de mil e tantos gols, participou de quatro Copas do Mundo ― em três das quais a seleção do Brasil foi campeã.

Um pouco simploriamente, como de costume, Sigismeno veio com suas cogitações filosóficas. Disse que a Fifa não costuma dar ponto sem nó. Até aí, tive de concordar. Disse também que andou espiando no gúgol e ficou sabendo que Pelé jogou sua última partida como profissional mais de 35 anos atrás e que, desde então, pendurou as chuteiras.

Sigismeno sabe que a Fifa nunca se preocupou com outros grandes craques brasileiros, sabe que Garrincha morreu na miséria, sabe que outros grandes foram completamente esquecidos. Espremeu suas meninges à cata de uma razão para essa repentina homenagem que a federação mundial resolveu prestar a Pelé depois de tanto tempo. O homem está aparentemente em boa saúde, portanto não há-de ser daquelas honrarias que se concedem in extremis.

Blatter, Pelé & Dilma Reparem: a Fifa pisoteou a grafia do sobrenome presidencial

Blatter, Pelé & Dilma
Reparem: a Fifa esqueceu de conferir no gúgol e acabou pisoteando a grafia do sobrenome presidencial

De repente, a luzinha acendeu. «Mas é claro! É por causa da Copa do Mundo, que está para começar daqui a 5 meses!» Confesso que, na hora, não entendi bem a relação. «E o que tem isso a ver com o ouro que vão dar ao Pelé?», perguntei.

«Mas você não percebe?», retrucou meu amigo. «Os cartolas de Zurique estão apavorados com protestos e manifestações de rua que possam ocorrer durante a Copa».

«Continuo sem entender», retruquei, sem conseguir acompanhar o raciocínio do Sigismeno.

«Pois é o seguinte, meu caro. Em junho passado, os da Fifa se deram conta de que o povo anda um bocado enfezado com essa história de Copa. Os gastos, o desperdício, os roubos, os atrasos, essa farra toda. Para se mostrar simpáticos, resolveram agradar aos brasileiros. Devem ter pensado até em dar o prêmio a nossa presidente, mas, sacumé, depois das vaias no Maracanã, a coisa ficou meio delicada. É por isso que estão homenageando o Pelé, por imaginarem que é uma espécie de ídolo adorado por todos os brasileiros. É uma tentativa de amansar o povo, você não percebe?».

Bola de ouro

Bola de ouro

Percebo. Devo admitir que percebo. Se vai funcionar, isso são outros quinhentos.

E o Sigismeno, inspirado, ainda profetizou que a Bola de Ouro deste ano ― a verdadeira ― pode ser dada até ao Dalai Lama, mas jamais será dada ao Messi. Porque o moço é argentino. Melhor não atiçar rivalidades.

Parece um gesto ajuizado. Pode dar certo. Ou não.

Às autoridades da República!

Percival Puggina (*)

Eu acuso!

Eu acuso!

Excelências. Li, de capa a capa, o volumoso livro de Romeu Tuma Júnior que leva o sugestivo título “Assassinato de reputações”. A obra ganhou uma espécie de lançamento nacional através da revista Veja, no início de dezembro último, e consta entre as mais vendidas no país. Presumo, por isso, que milhares de cidadãos a estejam lendo. Assim como eu, hão de estar perplexos e alarmados com as denúncias que faz.

É na condição de cidadão que redijo esta carta. Parece-me conveniente fazê-lo assim, aberta, para tornar pública a inquietação da maioria dos leitores que já percorreram as exaustivas páginas desse livro. Dirijo-a às autoridades porque são várias as que podem agir neste caso. Não alinharei, aqui, as acusações e denúncias descritas em “Assassinato de reputações”. De um lado porque muito pouco sei sobre o autor e, como simples cidadão, não tenho como averiguar a autenticidade do que dele se diz e do que ele relata. De outro, porque a honra alheia não encontra em mim alguém disposto a assassiná-la. A prudência exige que sobre ela só se emita juízo público negativo após sentença transitada em julgado.

Eu acuso!

Eu acuso!

No entanto… milhares estão lendo esse livro. Como eu, se fazem perguntas civicamente inquietantes. Por que persiste, decorrido um mês inteiro de seu lançamento, o perturbador e coletivo silêncio de quantos deveriam agilizar-se para contestá-lo? Por que, mais grave ainda, as próprias instituições tão fortemente atacadas e apontadas como objeto de aparelhamento político-partidário não bradam em sua própria defesa? As denúncias são graves e, se verdadeiras, descortinam a gênesis de um Estado policial e totalitário. Há crimes noticiados no livro. E o de prevaricação não me parece o maior deles.

Em meio ao inquietante silêncio de quem deveria falar, as solitárias reações que encontro ao explosivo texto são disparos laterais dirigidos ao seu autor, que se apresenta, na obra, como uma das vítimas dos assassinatos em série que menciona. Convenhamos que desacreditar o livro com uso do argumentum ad hominem, mediante ataque pessoal ao autor, não é satisfatório ou suficiente ante a torrente de denúncias que formula, relatando episódios que diz ter pessoalmente vivido. Aos cidadãos brasileiros interessa saber se o que está dito no livro é verdade ou não. E quais as providências adotadas por quem as deve adotar. Inclusive contra o autor se for o caso. Num Estado de Direito, os fatos descritos exigem investigação e cabal esclarecimento. Não podem ser varridos para baixo do espesso tapete do tempo. Não são, também, prevaricação, o silêncio de quem deveria falar e a omissão de quem deveria agir?

Eu acuso!

Eu acuso!

Bem sei que a promiscuidade entre as funções de governo e as de Estado decorre do vício institucional que as vincula ao mesmo centro de poder. Nosso lamentável presidencialismo faz isso. É tentador, nele, confundir os espaços partidários (por isso provisórios) próprios do governo, com os espaços permanentes (e por isso não partidários) da administração pública e do Estado. No entanto, por mais que o modelo favoreça o aparelhamento das instituições, não é aceitável a ideia de que vivemos num país onde algumas delas servem para investigar ou não investigar, dependendo do lado para onde sopra o vento das más notícias. Gerar dossiês por encomenda política é coisa de Estado policial, totalitário.

(*) Arquiteto, empresário e escritor. Edita o site puggina.org

Outras máximas ― 1

«La più grande gioia dell’uomo dovrebbe essere quella di donare. Ma, purtroppo, chi vorrebbe non può, e chi potrebbe, non vuole.»

«A maior alegria do homem deveria ser a de dar. Infelizmente, os que querem não podem, e os que podem não querem.»

Libero Bovio (1883-1942), poeta napolitano

Vamos acabar com o roubo de celulares?

José Horta Manzano

Você sabia?

É praticamente impossível reaver celular roubado. Os ladrões logo passam adiante, e assim, de mão em mão, o rastro se perde. É experiência desagradável, mas as bondosas companhias operadoras substituem rapidamente o chip e parecem não se importar com o destino do celular furtado. Compreende-se: o que a operadora quer é consumo. Mesmo roubado, o telefone periga trazer um novo cliente. Elementar, não?

Existe maneira de fazer que o telefone roubado, ainda que não seja devolvido, se torne inutilizável. Se todos agirem assim, aos poucos, os assaltantes perderão o interesse em roubar celulares. Leia com atenção.

Todos os celulares têm um numero de série único, sua impressão digital, seu ADN. Não há dois telefones no mundo com o mesmo código. Chama-se Código IMEI (=International Mobile Equipment Identity). É composto de um número de 15 algarismos. Somente o dono do aparelho pode conhecer o código. Para saber qual é o seu, basta teclar

* # 06 #

Só isso. Não pressione a tecla Enviar (=Send/Enter/Return). Na tela, aparecerá o código IMEI. Anote-o e guarde-o em lugar seguro. Acima de tudo, não vá anotá-lo no telefone.

Se lhe roubarem o celular, entre imediatamente em contacto com a operadora e indique o Código IMEI do telefone surrupiado. O celular será bloqueado completamente e, ainda que o ladrão ponha novo cartão ou novo chip, nunca mais funcionará.

Se todos fizerem isso, o roubo de celulares cairá vertiginosamente.

Telefone celular (não recomendado para ministros)

Celular com garantia antifurto

É natural que as operadoras façam corpo mole e não mostrem grande empenho em dar essa dica a seus clientes. Para a operadora, que seja roubado ou não, um celular em circulação significa um cliente potencial a mais.

Essas instruções valem para o mundo todo. Se um dia você comprar um celular na Mongólia ou no Zimbábue, experimente e verá que funciona.

Interligne 28a

Quer checar o seu? Proceda assim:

1) Tecle *#06# e anote seu IMEI

2) Visite o site www.imei.info

3) Entre seu código IMEI. Você verá que, sobre seu aparelho, eles sabem mais do que você imagina.

Big brother is watching you. Boa sorte!

Frase do dia — 78

«Os números são claros como as águas do Mar do Caribe: dos 13 mil profissionais que o programa Mais Médicos pretende mobilizar até março, mais de 10 mil serão cubanos. Com isso, não resta mais nenhuma dúvida de que a anunciada intenção de atrair médicos de outras nacionalidades ou mesmo brasileiros não passou de fachada para um projeto há muito tempo acalentado pelo governo petista: importar médicos cubanos em grande escala, ajudando a financiar a ditadura cubana.»

Programa “mais cubanos”, editorial do Estadão de 11 jan° 2014. Para ler o texto integral, clique aqui.

by Amarildo Lima, desenhista capixaba

by Amarildo Lima, desenhista capixaba

Comentário meu

Com ou sem ajuda do dinheiro suado dos brasileiros, a ditadura cubana há-de cair de podre, mais dia, menos dia. O intuito maior dessa chamada maciça de imigrantes é espalhar cabos eleitorais pelos cantos mais recuados do território nacional, numa tentativa de conservar o poder.

Enquanto a galeria se entusiasma com discussões estéreis sobre financiamento de propaganda eleitoral, aí está o exemplo acabado de que o custeio já está sendo feito com dinheiro público. É isso aí, camaradas!

Incongruência

José Horta Manzano

Ninguém jamais saberá dizer com exatidão quantos mortos deixou a Segunda Guerra (1939-1945). Estimativas situam a quantidade de vítimas entre assustadores 50 milhões e 70 milhões de pessoas. Foi o conflito mais mortífero que o planeta já conheceu.

Até o Brasil, posto que não tenha travado batalha em seu próprio solo, deplorou por volta de duas mil vítimas: mil militares da Força Expedicionária (FEB) enviada à Itália e mais mil civis massacrados em ataques de submarinos alemães contra navios de cabotagem da marinha mercante nacional junto às costas brasileiras.

Dieudonné M'bala M'bala

Dieudonné M’bala M’bala

Certos países da Europa Oriental chegaram a perder ¼ de sua população, uma monstruosidade. A Europa ficou profundamente marcada. Até hoje, passados quase 70 anos, ainda se fala da guerra como se tivesse terminado anteontem.

Milhares de homens, mulheres, anciãos e recém-nascidos foram sumariamente exterminados pelo simples fato de serem judeus ou ciganos. É tão estarrecedor que nós, que não vivemos aquela época, temos dificuldade em conceber que atos tão ignóbeis possam ter sido cometidos por seres humanos.

Essa perseguição racial foi pra lá de traumatizante. Em consequência, muitos países europeus inseriram em sua legislação dispositivos destinados a sufocar no nascedouro toda e qualquer manifestação racista. Na França, atos ou palavras que possam ser enquadrados como incentivo ao ódio racial são passíveis de processo criminal.

Uma coincidência interessante une três dos ditadores protagonistas da última guerra. Há uma dose de estrangeirice em todos eles.

Hitler, ao nascer, era súdito do Império Austro-Húngaro. Tornou-se alemão por naturalização.

Stalin tampouco nasceu russo, mas georgiano. Não precisou naturalizar-se, dado que a Geórgia ― hoje país independente ― era, à época, território pertencente ao Império dos Tsares.

Mussolini nasceu italiano, mas viveu anos da juventude como emigrante em terra estrangeira. Morou na Suíça, onde, aliás, seu espírito turbulento deixou marcas.

É curioso observar a frequência com que rebeliões, revoltas ou simples escândalos são protagonizados por pessoas cuja história de vida diverge da maioria.

A conflagração que abalou a França em maio 1968 era norteada por um estrangeiro (Daniel Cohn-Bendit). A política externa dos EUA foi conduzida, de 1969 a 1977, por Heinz (Henry) Kissinger, americano naturalizado. O atual ministro dos Negócios Interiores da França ― cargo preeminente ― nasceu em Barcelona e emigrou ainda criança: Monsieur Vals é hoje francês naturalizado.

Dieudonné M'bala M'bala

Dieudonné M’bala M’bala

Os brasileiros, que já têm suficientes problemas internos, não devem estar muito preocupados com escândalos estrangeiros. Há um que está sacudindo a França já faz alguns dias. Está sendo causado por Dieudonné, um humorista que já está deixando de fazer rir. Alguns já o qualificam abertamente como ativista.

Nascido em 1966, Dieudonné M’bala M’bala é filho de pai africano da República dos Camarões e de mãe francesa. No começo de carreira, fazia graça, que é o ganha-pão de todo comediante. De uns tempos para cá, sabe Deus por que, decidiu enveredar pelo caminho perigoso do antissemitismo. Considerando-se que o homem é afrodescendente ― como diriam no Brasil ―, é surpreendente.

Suas piadas e seus esquetes adquiriram tons sombrios de estímulo ao ódio racial. Há quem goste ― há gosto para tudo. Mas 70% dos franceses desaprovam. O governo resolveu agir: proibiu seus espetáculos. Os advogados do humorista invocaram a liberdade de expressão e conseguiram liminar para o show de 9 de jan°. A Justiça contra-atacou argumentando que, em vista do sério risco de perturbação da ordem pública, o espetáculo estava definitivamente anulado.

Foi uma primeira vitória. Mas o artista, que tem apresentações já programadas para os próximos meses, pretende contestar a proibição de cada espetáculo, um por um. Temos pela frente batalhas jurídicas a perder de vista.

A mim me choca ver um profissional do riso fazer graça ― e ganhar a vida ― tripudiando sobre a desgraça alheia. Além de ser contrário à lei, é comportamento indigno. Mais que isso, que um triste espetáculo antissemita seja concebido e estrelado por um afrodescendente, é, no mínimo, grotesco.

Algumas manifestações da imprensa francesa estão aqui:
Le Nouvel Observateur
Les Echos
Le Monde

Rapidinha 11

José Horta Manzano

Coincidência
Num único artigo, a Folha de São Paulo nos brinda hoje com um pequeno relato surrealista. O primeiro parágrafo se refere a uma ilha da fantasia, um lugar de abundância, felicidade e despreocupação. O último descreve um universo sórdido ― mas real ― feito de calabouços e de seres que ainda vivem na idade das trevas.

Ambos os fragmentos relatam realidades banais no Estado do Maranhão.

Interligne vertical 10Primeiro extrato
«O governo do Maranhão adiou as licitações para compra de alimentos para as duas residências oficiais. Os novos pregões não têm data para acontecer. Em meio ao caos em presídios, o Estado previa gastar R$ 1 milhão para alimentar a família Sarney e seus convidados até o fim do ano.»

Segundo extrato
«A Folha visitou um dos presídios superlotados de São Luís. São cerca de 200 homens, o dobro da capacidade. A comida dos presos se limita a arroz e galinha crua. Uma chapa no chão da cadeia funciona como fogão para os presos terminarem de cozinhar o frango para conseguir comer.»

Deve clicar aqui quem quiser conhecer as minúcias da sóbria lista de compras da governadora do Maranhão.

PS: É de perguntar quem é que vive na idade das trevas ― os do andar de cima ou os do andar de baixo?

Rapidinha 10

José Horta Manzano

Verdura na cabeça
Estudo levado a cabo pela USP chega à conclusão de que, quando um bosque é plantado por cima da cobertura de concreto de um prédio, a temperatura do edifício tende a baixar.

É a confirmação do que todo o mundo já sabia ― ou intuía: a vegetação tende a mitigar a temperatura do ar. No Sahara, sabem todos, faz mais calor que na Amazônia. O que era apenas impressão ganhou agora a credibilidade de um estudo sério.

Projeto de jardins suspensos

Jardins suspensos generalizados: uma utopia?

Melhor do que plantar árvores no cocuruto de prédios, será desapropriar grandes espaços degradados e transformá-los em parques arborizados. Se Nova York pode-se dar ao luxo de guardar intacto seu Central Park, por que não poderíamos nós?

Rapidinha 9

José Horta Manzano

Helicópio
Fico imaginando o que se passará na cabeça de certos novos-ricos. Laura Maia de Castro e Edison Veiga nos informam que tem gente disposta a pagar 10 mil reais para ir de «helicópio» da cidade de São Paulo ao litoral. Se entendi bem, essa tarifa é de ida simples. Para ir e voltar, dobre-se o valor.

Para chegar mais rápido à multidão

Para chegar mais rápido à multidão

Não dá pra entender por que, raios, alguém gastaria vinte mil para escapar de congestionamento. Quem dispõe dessa dinheirama deve poder também ter a liberdade de viajar em outras épocas. Enfrentar engarrafamento é a sina de quem tem patrão e horário.

E tem mais. Gastar esse balde de dinheiro para, em seguida, se encontrar no meio de uma multidão, disputando lugar na areia, fazendo fila na padaria, aguentando barulho de vizinho festeiro até alta madrugada? Eu, hein. Falta de imaginação.

Rapidinha 8

José Horta Manzano

Fuleco
Ao votarem a Lei Geral da Copa, nossos desatentos parlamentares assinaram sem ler. Ou, se leram, não conseguiram avaliar a enormidade que estavam cometendo ao darem à Fifa liberdade total de ação e decisão em assuntos ligados à Copa.

O resultado chega, pingadinho, a cada dia. O mais recente descalabro é a notícia de que os milhões de exemplares da «brasileiríssima» mascote ― aquele lindo tatuzinho de nome infeliz ― estão sendo fabricados na China.

Mascote made in China Crédito: Shen Xiang, Agência EFE

Mascote made in China
Crédito: Shen Xiang, Agência EFE

Não tenho nada contra a China nem contra seu povo, mas convenhamos… As despesas e as perdas são nossas, enquanto o lucro na fabricação e na venda dos bonequinhos se reparte entre empresários chineses e medalhões da Fifa.

Algo parece fora de eixo, pois não? Ah, esses nossos congressistas… Tão despreparados para as responsabilidades do métier e tão competentes no saltar sobre todas as ocasiões que lhes possam trazer proveito pessoal.

Caminho tortuoso

«A Editora Confiança, que edita a Carta Capital, tem como sócia uma empresa com sede na Inglaterra e esta empresa é composta pela associação de duas empresas com sede no Panamá que têm o mesmo endereço, foram criadas no mesmo dia e têm exatamente a mesma composição.»

Excerto de um artigo publicado pelo editor do site Reaçonaria, fruto de pesquisa que há-de ter necessitado beneditina paciência. O resultado é edificante.
Sabe o que vai acontecer agora? Adivinhou: nada, rigorosamente nada.