EUA e a caquistocracia

by Caio Gomez (1984-), desenhista brasiliense
via Correio Braziliense

José Horta Manzano

Artigo publicado no Correio Braziliense de 30 janeiro 2025

Corria a última década do século passado quando a palavra internet começou a circular. Ela já existia antes, mas só circulava entre peritos e iniciados. Naquela época, corria a voz de que logo logo essa tal de internet seria introduzida na firma em que eu trabalhava. A curiosidade me levou a procurar me informar junto a um colega mais enfronhado.

Por meio de esquemas e desenhos rabiscados num canto da mesa, o rapaz me explicou que internet representava o futuro da telecomunicação. Permitia que qualquer um, da comodidade de seu escritório, se comunicasse com qualquer pessoa ao redor do globo, instantaneamente, sem custo. Perguntei quem era o dono dessa maravilha. Quem se maravilhou com a resposta fui eu: a invenção não tinha dono.

Como assim, não tem dono? Confesso que não entendi bem como uma estrutura gigantesca poderia vir a existir e funcionar sem dono. Os anos passaram e internet se tornou a companheira inseparável de parte considerável da humanidade. Hoje em dia, sem internet, nada mais funciona. Nem trem, nem avião, nem hospital, nem firma, nem telefone. Nada mesmo.

Surgiram as redes sociais – que às vezes dá vontade de chamar de “redes associais”. Foram chegando de mansinho, infiltraram-se entre jóvens e maduros, entre ricos e remediados, entre inteligentes e cretinos. Com raras exceções aqui e ali, enredaram as gentes. (“Enredar” é o próprio de toda rede que se preza, pois não?)

O que antes se aparentava a fenômeno passageiro acabou tornando-se um tique mundial: ninguém dá dois passos sem consultar suas “redes” pra conferir se o planeta continua de pé. Para muitos, as redes se tornaram o único veículo de informação. Só que tem uma coisa: o advento das redes sociais enquadrou e canalizou a liberdade que a internet prometia 30 anos atrás. Aquela sonhada “cabeça fresca e cabelos ao vento” foi acaparada pelas redes sociais, com formatação imposta e chuva de anúncios publicitários.

Um dia a gente acorda e descobre que a internet livre de dono não passou de sonho fugaz. As redes que hoje canalizam os fluxos da comunicação humana têm nome, endereço e, sobretudo, proprietário. O que, até outro dia, parecia um espaço de total liberdade já não é exatamente um. Firmas têm dono, e donos impõem sua visão de mundo. Com o crescimento exponencial dos negócios, os donos das redes enricaram. Insaciáveis, não se contentam com os bilhões arrecadados. Querem mais, muito mais.

Ao se dar conta de que Donald Trump se preparava para assumir a presidência cercado de bilionários, aí incluídos os donos das redes sociais, Joe Biden alertou, em seu discurso de despedida, para o perigo de os Estados Unidos virem a ser governados por um clube de bilionários.

Sem tirar-lhe a razão, convém acrescentar que, entre esses magnatas, estão os proprietários das maiores redes sociais do planeta, como Twitter (agora chamada X), Facebook, Whatsapp, Instagram. Que o mundo seja governado por ricaços é compreensível, tem sido assim desde sempre. A novidade é ver aninhados no poder os donos dos canais que, com frequência, exercem a função dos confessionários de antigamente. É preocupante deixar alegrias e penas accessíveis a um nababo que, com o auxílio da IA, terá nas mãos uma massa de conhecimentos que lhe conferem poder extraordiário sobre cada um dos habitantes do planeta.

Dispor desse arsenal de informações e sentar à mesa do homem imprevisível que lidera o país mais poderoso é bagagem perigosa como dinamite. Explosiva. O único caminho para minorar o problema seria que todos cancelassem sua inscrição nas redes. Mas… cancelar, quem há de?

Os Estados Unidos de Trump 2.0, a julgar pelos nomes já anunciados de ministros e auxiliares, não prenunciam contar com um governo de sumidades. Está mais para um “L’État c’est moi” de Louis 14, com um magnata de temperamento narcisístico e explosivo no centro de uma corte de adoradores, alguns tão magnatas quanto ele ou mais. Uns dizem “amém” e outros respondem “amém nós todos”.

Que ninguém se engane: nos EUA, está instalado o governo dos piores, a caquistocracia.

Plaza Strip

by Jean Galvão (1972), desenhista paulista
via Folha de São Paulo

José Horta Manzano

Este sábado 25 de janeiro, tive confirmação de minha teoria sobre o perigo dos pronunciamentos que líderes fazem quando estão fora de casa. Quando estão de viagem no estrangeiro ou também no avião que os conduz de um lugar a outro, chefes de Estado e chefes de governo deveriam prestar extrema atenção às palavras que proferem. Políticos de alto coturno já tiveram de encerrar a carreira devido a uma frase imprudente pronunciada em viagem. Há anos escrevi um post sobre o assunto.

Com um impressionante barulho de fundo – eu nâo imaginava que o 747 Air Force One fosse tão barulhento – Trump conversou uns vinte minutos com jornalistas que viajavam com ele, num estilo pingue-pongue (perguntas breves e respostas rápidas).

O assunto principal era a guerra de Israel em Gaza. Donald Trump exprimiu seu desejo de esvaziar totalmente a Faixa de Gaza (2 milhões de habitantes!) e despachar essa população para os países vizinhos, Egito e Jordânia.

Aqui tenho de abrir um parêntese. Convém estabelecer uma correlação entre a espantosa ideia revelada no avião e as palavras que o próprio Trump pronunciou logo depois de ter sido empossado. No dia da posse, o novo presidente disse que Gaza “realmente tem de ser reconstruída de um jeito diferente”. Ele acrescentou que “Gaza é muito interessante por gozar de localização espetacular à beira-mar, no melhor clima, onde tudo é bom. Coisas lindas poderiam ser feitas lá”.

Nesse ponto, é bom sentar, tomar uma respiração profunda e refletir um instante.

Esvaziar? Expulsar aquela ralé? Limpar o terreno? Construir coisas lindas? Vindas de quem enricou no ramo imobiliário e mantém negócios na indústria hoteleira, essas palavras fazem sentido. Não são elucubrações de um qualquer, são projetos com começo, meio e fim, feitos por quem é do ramo. É capaz até de o orçamento estar pronto.

Esses acontecimentos me inspiram pelo menos duas reflexões.

A primeira
Donald Trump mais uma vez passa recibo de absoluta inaptidão para as funções que ocupa. Apesar das lantejoulas e dos paetês, salta aos olhos sua ignorância profunda de História Geral, em especial da História do Oriente Médio. Tampouco sabe como funcionam as relações entre estados. No vácuo de sua cabecinha, cabe a ideia de dar, aos países vizinhos, ordem de abrir a fronteira e aceitar os milhões de infelizes habitantes de Gaza. E pronto, o problema está resolvido.

Ignora que cada país tem sua soberania, seus problemas, seus objetivos em política interna e externa. E que, apesar de receberem ajuda dos Estados Unidos, nenhum deles está disposto a importar milhões de estrangeiros só para agradar Donald Trump. Se o problema é encontrar um pouso para os gazeus, por que é que o presidente não os leva diretamente para os EUA? Por que não lhes daria um pequeno território para viverem tranquilos, longe dos israelenses e das bombas? É feio dar esmola com o chapéu alheio, como Trump está fazendo.

Os eleitores de Donald, que vivem alienados do mundo, que não leem nada, que não assistem nem ao jornal da tevê, que só se informam pelas redes trumpistas, nunca vão se inteirar do que se passa em Gaza, nome que só conhecem de ouvir falar. Trump pode dizer ou fazer o que bem entender, que seus fãs vão continuar usando um boné vermelho escrito “Make America great again”. E vão continuar votando no Salvador.

A segunda
Mais uma vez, Trump mostra que só se lembra da raça humana em tempos de eleição. Fora isso, para ele, os seres humanos não passam de peões, peças sem grande valor alinhadas num tabuleiro. Tirá-las do caminho ou eliminá-las faz parte do jogo e não lhe causa engulhos. É tão humanista, flexível e empático quanto uma porta de aço. Fechada.

Os EUA não são nenhuma Finlândia, nenhuma Islândia, países onde a distância entre os abastados e os necessitados é pequena. No país de Trump, há amplo contingente populacional de renda baixíssima, que não tem nem como tratar da saúde ou dos dentes. Depois de “limpar” a Faixa de Gaza, o que é que Trump pretende fazer com esses infelizes? Fazer uma limpeza de terreno, tirá-los do caminho e despachá-los para longe da vista, digamos, para a Groenlândia?

Inepto, ignorante e desumano, assim é o miliardário que hoje governa o país mais poderoso do mundo. E certamente assim são os que o cercam, miliardários ou intrometidos. É um clube em que cada sócio puxa a brasa para sua sardinha sem ligar a mínima para as necessidades do populacho.

A continuar nesse passo, daqui a pouco tempo Gaza terá se tornado destino turístico mundial, com palmeiras à beira-mar, livre de árabes pobres, com hotéis, cassinos, “resorts” de luxo e cais especiais para grandes iates. Seu nome será mudado. Em vez de Gaza Strip, será Plaza Strip, um spot internacional de luxo aberto aos nababos de todo o planeta. Naturalmente, os árabes serão acolhidos de braços abertos – desde que sejam endinheirados.

Tu não te manca?

by Laerte Coutinho (1951-), desenhista paulista
via Folha de S. Paulo

José Horta Manzano

Chega a ser irritante a insistência do ex-presidente Bolsonaro em fazer de conta que ainda é o que já deixou de ser. De fato, um indivíduo que foi apeado do poder há dois anos e que é hoje inelegível e indiciado em um balaio de crimes deixou de ser um cidadão comum, como a maioria de seus concidadãos. Ele é hoje uma pessoa suspeita de ter praticado crimes e tem, portanto, contas a prestar à justiça.

Você e eu não vivemos sob “medidas cautelares” impostas pela justiça do país. Não temos de bater o ponto na delegacia; não precisamos pedir licença para visitar quem nos dê na telha; não estamos de passaporte retido pelas autoridades, impedidos de pôr o pé fora do país. Bolsonaro não pode dizer o mesmo. Suas liberdades estão cerceadas. É um indivíduo a um passo da infâmia de tornar-se réu da justiça criminal.

Apesar disso, ele volta e meia dá uma de joão sem braço e manda seus advogados solicitarem ao STF favores aos quais não faz jus. Sua proeza mais recente foi pleitear lhe concedessem autorização especial para reaver o passaporte e partir para uns dias de vilegiatura em Washington (EUA). A-do-ra-ria prestigiar(?) os festejos da tomada de posse de Donald Trump como presidente do país. Se conseguisse tirar uma selfie ao lado do empossado, então, seria a glória, a consagração.

Ó Bolsonaro, tu não te manca não, cara? – é assim que a gente costumava arrematar uma ousadia desse calibre. É impressionante como certos caras se consideram importantes como se fossem figurinha carimbada, enquanto não passam de reles figurinha rasgada. Não ornam mais nem álbum de criança.

Por que, raios, a justiça concederia favores especiais a um sujeito que passou os quatro anos de seu mandato a invectivar as instituições da república, o Judiciário em particular?

Que ele curta o empossamento de seu amigo Donald pela tevê, como todo o mundo, sentado no sofá da sala. Que aproveite, porque, quando estiver em cana, talvez nem direito a televisão lhe concedam.

Endosso

Taylor Swift, “Childless Cat Lady”

José Horta Manzano

Para as pessoas que, como este escriba, têm uma visão nítida do mal que um Trump – se eleito presidente dos EUA – pode causar à humanidade, soa irreal imaginar que algum eleitor americano possa redirigir seu voto, para atender à recomendação de uma celebridade. A gente acredita que trumpistas e kamalistas pertencem, cada um, a um mundo diferente: como água e óleo, não se misturam.

No entanto, pesquisas feitas estes últimos anos revelam que há eleitores que escolhem seu candidato mas, ao mesmo tempo, não se sentem comprometidos com suas ideias. Esse posicionamento entreabre o caminho de uma eventual mudança de voto.

A plataforma The Conversation, que reúne artigos de acadêmicos e jornalistas, lembra o resultado de um estudo feito em fevereiro de 2020 nos Estados Unidos. A pesquisa descobriu que 89% dos adultos não mudariam seu voto mesmo que sua celebridade preferida endossasse a candidatura adversária.

Como de costume, pode-se também ler esses resultados ao contrário. Se 89% dos cidadãos não mudariam seu voto, os restantes 11% confessam que provavelmente acompanhariam a recomendação de um artista ou de alguém conhecido e influente, e mudariam o voto. Entre os jovens eleitores, essa porcentagem é ainda maior: 19% deles estariam dispostos a aceitar a sugestão de seu artista preferido.

Numa eleição presidencial apertada, como a deste ano nos EUA, a recomendação dada por Taylor Swift tem eco especial nessa franja de eleitores. São 283 milhões de seguidores que potencialmente leram seu post de endosso à candidatura de Kamala Harris. Desse mato podem sair coelhos suficientes para dar a vitória à simpática candidata.

Nos EUA, a apuração é lenta, aventurosa e cheia de surpresas. Portanto, na pior das hipóteses, assim que o Natal chegar já estaremos sabendo.

O debate Trump x Kamala

Kamala Harris: expressão corporal durante o debate com Trump

José Horta Manzano

Não assisti ao debate eleitoral americano de ontem. É que, devido à defasagem causada pelo fuso horário, o programa caiu por aqui no meio da madrugada. Mas já li a notícia e mais meia dúzia de artigos de opinião.

Parece que os analistas se puseram de acordo: descrevem o duelo com palavras semelhantes e são unânimes em atribuir a vitória a Kamala Harris. Por pontos, é verdade, mas sempre vitória é. (Aliás, como seria mesmo uma vitória por nocaute?)

Entretanto (ou however, como dizem eles), a história tem um nó. A opinião pessoal dos eleitores de lá anda tão cristalizada, que é difícil que o debate, por mais esclarecedor que seja, abale alguém a mudar o voto. Ao fim e ao cabo, cada eleitor desligou a tevê satisfeito de ver que seu(sua) candidato(a) é de fato superior ao adversário. Afinal, cada um ouve o que quer e retém o que deseja, não é mesmo?

De fato, tenho dificuldade em imaginar um trumpista roxo ter se encantado com a verve de Kamala, a ponto de decidir se tornar kamalista, se me perdoam o neologismo. O mesmo vale para o vice-versa. Ou alguém imagina um fervoroso democrata ter-se tornado trumpista desde ontem?

Logo, para que servem esses debates? Se não servem pra orientar eleitores e fazê-los escolher candidato, qual é a utilidade? Talvez para incentivar eleitores preguiçosos a se levantarem do sofá e se dirigirem ao posto de votação.

E há outro nó. É um pouco complicado de entender para nós, que vivemos numa república onde, na hora de escolher o presidente, todos os votos são iguais. Para nós, um eleitor equivale a um voto; e o chefe da nação será o candidato que obtiver mais votos. Nos EUA é mais enrolado.

Na intenção de dar uma ajuda aos estados menos populosos, os fundadores do país complicaram o sistema. Não tenho a pretensão de explicar aqui como funciona, mas o fato é que, a nossos olhos, o resultado pode ser distorcido. O candidato que tiver o maior número de votos não é necessariamente o vencedor. Acontece com certa frequência que o vencedor do voto popular perca a eleição.

Assim, por mais empolgante que seja – tem gente que perde horas de sono só pra acompanhar – o debate eleitoral americano é jogo que não vira o jogo. Um desastre, como o desempenho de Biden no duelo anterior, tem mais força que um bem estruturado debate de ideias.

Só me resta dar um conselho a nossos leitores americanos (não sei se os há, mas devem ser numerosos).

Votem em quem quiserem, mas não votem em Trump.
Para o bem da humanidade.

Serviço Secreto de Trump

José Horta Manzano

Me pareceu curioso o artigo da Folha que trata de um “Serviço Secreto de Trump”. Escrito dessa maneira, com maiúsculas, transmite a ideia de que há realmente uma corporação cujo nome oficial é “Serviço Secreto”, que pertence a Donald Trump. Esquisito.

Dizem que o serviço é “secreto”, no entanto, os agentes são inconfundivelmente caracterizados. Assim que Trump foi baleado, em poucos segundos surgiu meia dúzia de agentes de 1m90 de altura, todos devidamente paramentados com terno preto, óculos escuros, fone de ouvido com fio entrando pelo colarinho e cara de poucos amigos. É isso ser agente secreto? No meio daquela multidão colorida, todos vestidos “à la vonté” e carregando um papel com slogan, esse Serviço Secreto é desmascarado fácil fácil.

Quatro presidentes dos Estados Unidos foram assassinados durante o mandato: Lincoln (1865), Garfield (1881), McKinley (1901) e Kennedy (1963). Diversos outros presidentes sofreram atentado. Entre os mais recentes, foram vítimas de tentativa de assassinato os seguintes: Richard Nixon, Gerald Ford (2 vezes), Jimmy Carter, George Bush pai, Bill Clinton (5 vezes), George Bush filho (2 vezes), Barack Obama (8 vezes), Donald Trump (3 vezes) e Joe Biden.

O distinto leitor e a adorável leitora já se deram conta de que a função de presidente dos EUA traz fama e prestígio, mas, por seu lado, é emprego de alto risco. Os eleitos deveriam exigir adicional de periculosidade, como os bombeiros e os limpadores de vidraças de edifícios altos.

Não encontrei estatísticas elencando os atentados cometidos contra candidatos à presidência daquele país. Deve ter havido numerosos. Com razão, o mundo está hoje chocado com o que aconteceu com Trump. O fato de o atentado ter sido filmado – com cores, som e imagem – amplifica o acontecido e apressa a divulgação.

Mais que o Brasil, os Estados Unidos são herdeiros de uma história pautada pela violência armada. Nossa história também viu passarem desbravadores marchando a pé armados de bacamartes, mas a deles está coalhada de bandos a cavalo armados de rifles automáticos, como nos filmes de faroeste. É a violência potencializada, que acabou desembocando numa peculiar sociedade em que os cidadãos de bem levam uma arma à cinta. Nunca se sabe.

Todos os líderes mundiais se precipitaram para esconjurar o atentado sofrido por Trump. De Macron a Lula, de Milei a Xi Jinping, todos se mostraram indignados com o fato de ver conflitos de opinião resolvidos à bala. Esses pronunciamentos me pareceram, em grande parte, um concentrado de hipocrisia. Meio mundo gostaria que a bala que atingiu a orelha de Trump tivesse passado alguns centímetros mais à direita.

Esta não é, naturalmente, a opinião deste escriba. Estou só tentando adivinhar o sentimento de muita gente fina.

Dirigentes provincianos

José Horta Manzano

“O Brasil se solidariza com a Rússia” – foram as palavras que Jair Bolsonaro, então presidente da República, dirigiu a Putin quando de sua visita ao Kremlin naquele fevereiro de 2022. O horizonte da Europa se assombreava naqueles dias, com a perspectiva da invasão da Ucrânia pelas tropas russas, na guerra que estouraria uma semana depois e que dura até hoje.

“Eu espero que o Biden ganhe as eleições” – foram as palavras de Lula da Silva em fevereiro deste ano em entrevista a um canal de tevê.

Há certas coisas que um presidente não deve dizer, certos pareceres que ele não pode dar, certas opiniões que ele não precisa externar. Pelo menos em público. Em privado, em sua sala de visitas diante de amigos e longe da imprensa, está livre para dar opiniões pessoais. Assim mesmo, é sempre bom ter cuidado porque, como se sabe, amigos são amigos até o momento em que deixam de o ser.

Já em público é outra conversa. As opiniões de um chefe de Estado têm o dom de comprometer o Estado inteiro.

Bolsonaro bajulou Trump e aplaudiu Putin, mas insultou a primeira-dama francesa e ofendeu o presidente argentino.

Lula apoiou a reeleição do presidente da Argentina e aplaudiu o Partido Socialista português, mas encrencou com Milei e desdenhou o presidente da Ucrânia.

Tanto Bolsonaro quanto Lula fizeram o que não deviam. Mostrar preferência por um dirigente estrangeiro, especialmente em época de eleições, é comportamento desajeitado, leviano e perigoso.

Quando o dirigente adulado perde, como é que fica? Digamos que Biden venha a perder, o que é não é improvável, com que cara Lula vai encarar Trump?

Em vez de atiçar Luiz Inácio e incutir-lhe doses de antiamericanismo radical, o “assessor” Amorim deveria abrir os olhos do presidente para evitar esse tipo de comportamento e fugir a futuras saias justas.

Se nossos provincianos dirigentes fossem mais cuidadosos no trato internacional, enfrentariam um caminho menos pedregoso.

Coincidências

Folha de S. Paulo

José Horta Manzano

Não é montagem não. As duas chamadas saíram assim no jornal, no mesmo dia, empilhadas, de tamanho igual. Cada um dos dois “entregou” à sua moda: um entregou fichas de banco, o outro foi fichado e… se entregou.

Gente fina é assim
Unidos até o fim.

Cinco anos de adiamento

“Frexit”, o Brexit da França
Objetivo do programa da candidata Marine Le Pen

 

José Horta Manzano

Artigo publicado pelo Correio Braziliense de 30 abril 2022

Na Europa, desde a derrota do nazi-fascismo, ao final da Segunda Guerra, as ideias da extrema direita foram guardadas em geladeira. Não é que tenham sido erradicadas, longe disso, que a capacidade do ser humano de armazenar baixos instintos é infinita. É que, durante as décadas seguintes, toda alusão a essas ideias trazia lembranças dolorosas a uma população que havia presenciado a guerra e seu cortejo de morte e miséria. Por longos anos, nada que pudesse trazer à memória bombardeios e privações teve lugar à mesa.

O tempo passou e a geração que havia assistido ao desastre provocado por ideias extremistas foi pouco a pouco desaparecendo. No entanto, mesmo com o rareamento de testemunhas oculares, a ressurgência do extremismo de direita continuou tímida: um ameaço de surto aqui, outro acolá, nada mais. Nem a débâcle da União Soviética e o abandono da doutrina comunista foram capazes de sacudir o torpor da direita extrema.

Desde sempre, ideias de retraimento, de fechamento sobre si mesmo, de defesa de uma hipotética pureza étnica, de cerceamento à livre circulação, de hermetismo diante da imigração circularam em surdina. Mas permaneceram subjacentes, como bomba à espera de um detonador. Um dia, sem que ninguém tivesse antecipado, surgiu o estopim. Veio personificado no dirigente do país mais poderoso do planeta. Chamava-se Donald Trump.

Os que votaram por sua reeleição devem julgar que foi bom presidente. Já os 7 milhões de votos de diferença com que Joe Biden o superou amortecem essa percepção. Na política externa, o homem fez estragos. Pirotecnia, como a que pôs em prática com o dirigente da Coreia do Norte, nem sempre é o melhor caminho para resolver problemas internacionais.

O pior legado de Trump foi sem dúvida sua adesão explícita à doutrina do fechamento sobre si mesmo, escancarada pela tentativa de construção de um muro de contenção na fronteira por onde entram os indesejados. Sua desenvoltura desinibiu movimentos subterrâneos ao redor do mundo, que criaram coragem para se expor à luz do meio-dia.

Dirigentes de figurino abertamente reacionário – como o italiano Salvini, o húngaro Orbán, o esloveno Jansa e o próprio Bolsonaro – não teriam se sentido tão à vontade para subir ao palco se Trump não lhes houvesse antes carpido o terreno. A expressão é batida, mas continua verdadeira: Trump abriu a caixa de Pandora. Os males lá trancafiados despertaram de um torpor de sete décadas.

Comparado com o de outros países da Europa, o sistema político francês é sui generis. Por um lado, o presidente da República, eleito pelo sufrágio popular direto, detém poder muito grande, herdeiro que é de um rei guilhotinado há dois séculos. Por outro lado, o voto distrital puro aliado a um bipartidarismo de facto tendem a dar ao presidente maioria no Parlamento, tornando-o (quase) tão poderoso como os reis do passado.

A campanha eleitoral francesa foi acompanhada com lupa pela União Europeia. De fato, caso a vitória fosse favorável à extrema direita de Marine Le Pen, a Europa, como a conhecemos, deixaria de existir. Embora a candidata extremista tenha suavizado o discurso e arredondado os ângulos de seu programa, mantinha a firme intenção de retirar seu país da Otan e da Europa. Mais que isso, tencionava pôr fim à livre circulação das gentes, restabelecer os controles nas fronteiras, abandonar o euro, ressuscitar o finado franco francês. E, para coroar, aproximar a França da Rússia e firmar pacto militar com Putin.

Se a União Europeia resistiu ao Brexit, não resistiria à saída da França – membro fundador, o maior em superfície, o segundo em economia, o único detentor de armamento nuclear. Para Vladímir Putin, uma vitória de Madame Le Pen seria notícia estupenda. Seria prenúncio do enfraquecimento e talvez do desmonte da União Europeia, sonho acalentado por Moscou. Seria um revés para Otan, organização que é pedra no sapato de Putin. Por fim, seria um sinal verde para candidatos a autocrata ao redor do globo, um dos quais aliás ocupa atualmente o Palácio do Planalto.

Desta vez, passou. Mas foi por pouco. O mundo democrático ganhou cinco anos de adiamento, a duração do novo mandato de Macron. Em 2027 voltamos a conversar. Se, daqui até lá, um conflito nuclear não tiver extinguido a humanidade.

No cavalo certo

José Horta Manzano

Em 2019, as eleições presidenciais argentinas estavam sendo preparadas. Todos já sabiam que o presidente Mauricio Macri, candidato à própria sucessão, não tinha chance. Bolsonaro passou por cima das evidências. Foi até lá, trocou beijos e abraços com o dirigente argentino e ainda ousou criticar o adversário. Deu no que deu: o adversário ganhou – o que todos já sabiam que ia acontecer, menos o capitão. As relações Brasil x Argentina se complicaram.

Em 2020, foi a vez das presidenciais americanas. Os prognósticos se apresentavam apertados. Nem a vitória de Trump, nem a de Biden estava garantida. Bolsonaro passou por cima da reserva a que todo chefe de Estado inteligente se obriga nessas horas. Com palavras e atos, foi ostensivo ao sustentar Donald Trump. Encerrada a contagem dos votos, constatou-se que o presidente não havia sido reeleito. Inconformado, Bolsonaro negou a realidade quanto pôde, e foi um dos últimos dirigentes mundiais a reconhecer que tinha perdido a aposta. As relações Brasil x EUA se complicaram.

Em 2021, chegou a hora das eleições chilenas. As pesquisas hesitavam em apontar claramente o vencedor. Em situações assim, a prudência ensina que chefes de Estado estrangeiros devem evitar demonstrar claramente sua preferência por este ou por aquele. Nunca se sabe. Mas Bolsonaro não reza por essa cartilha. Pra piorar, não deve ter assessores qualificados. De novo, apostou no cavalo errado. Botou todas as fichas em cima de Señor Kast, candidato da extrema direita. Ganhou Señor Borić, um jovem esquerdista. As relações Brasil x Chile se complicaram.

Neste mês de abril de 2022, é a França que está em pleno processo eleitoral. O mandato do presidente Macron se encerra dentro de poucas semanas. Pela lógica, nosso capitão já teria se jogado nos braços de Marine Le Pen, candidata da direita extrema. Mas tem um porém.

Um dia, em nossa eleição de 2018, quando Bolsonaro já tinha passado para o segundo turno, Madame deu uma entrevista à televisão francesa. Entre um assunto e outro, o apresentador mencionou o nome de Bolsonaro, naquele momento candidato à Presidência do Brasil, e o classificou como “de extrema direita”. Em seguida, perguntou à política francesa o que ela achava do brasileiro. Madame declarou que “não é só porque alguém costuma dizer coisas desagradáveis que se deve logo colar-lhe uma etiqueta de extrema direita”. Ficou claro que ela repelia o capitão. É certamente baseado nessa declaração que ele se absteve de tomar partido na atual disputa francesa, que voltou a alçar Madame Le Pen ao segundo turno.

Quanto ao Lula, mostrou mais uma vez que, mesmo sendo fraquinho em geopolítica, de bobo não tem nada. No primeiro turno, apoiou Monsieur Mélenchon, velho militante da esquerda radical, que completa 71 anos este ano. Pois não é que o homem quase passou para o segundo turno? Com 22% dos votos, faltou um nadinha pra ultrapassar Madame Le Pen, que obteve 23,4%.

Ao apoiar Mélenchon, o Lula estava também retribuindo a visita que o político francês lhe fez quando mofava no cárcere úmido de Curitiba. O destino não quis que o companheiro francês passasse ao segundo turno. No discurso pronunciado assim que foram conhecidos os nomes dos finalistas, Mélenchon dirigiu-se a seus eleitores e, alto e bom som, deu-lhes a recomendação para o segundo turno: “Nenhum voto para a extrema-direita!”. Para deixar bem claro, pronunciou quatro vezes a mesma frase.

Mélenchon recomendou a seus eleitores que não votassem na extrema direita, mas não teve peito pra pedir voto para Macron. Deve ter achado que era demais. Assim sendo, deixou seus apoiadores livres para se absterem, votarem em branco, anularem o voto ou eventualmente votarem em Macron. Em resumo, fez o serviço pela metade.

O Lula, que está ciente de ter boas chances de vencer a eleição brasileira, foi mais realista. Já que o companheiro Mélenchon ficou pelo caminho, lançou uma série de tuítes conclamando a derrotar a extrema direita francesa. Foi ainda mais longe que o militante francês. Deu serviço completo. Acrescentou que votar em Emmanuel Macron é fundamental porque ele “encarna melhor os valores democráticos e humanistas”.

Lula está agindo com esperteza. Em primeiro lugar, está se valendo da antipatia que Bolsonaro espalhou pelo mundo, especialmente na França. Portanto, ao apoiar o provável vencedor das presidenciais, ganha pontos. Em segundo lugar, Lula sabe que tem boas chances de ser o próximo presidente do Brasil. Um Macron reeleito e que foi apoiado pelo demiurgo estará pronto a abrir os braços para um Lula eleito e que o apoiou.

Quando insultou Brigitte Macron e quando se indispôs com meio mundo, o empacado Bolsonaro não pensou no dia seguinte. O Lula já está pensando no futuro que terá início com sua (provável) volta ao Planalto.

Entre Bolsonaro e Lula, há muitos pontos convergentes e alguns divergentes. Ambos amparam a corrupção, adoram acertos e conchavos, dirigem o país de olho no retrovisor. Uma das poucas diferenças é que o Lula pensa.

As mágoas do Lula

by Gilmar Fraga (1968-), desenhista gaúcho

José Horta Manzano

Muita gente, inclusive este escriba, considera que Bolsonaro tem uma visão distorcida do que sejam relações humanas. Confunde afinidades pessoais com relação entre nações. Acredita que o relacionamento do Brasil com países estrangeiros está irremediavelmente vinculado às relações pessoais que ele possa ter com os governantes desses países.

Enquanto Donald Trump era presidente dos EUA, chamava-o de amigo, nunca escondeu seu fascínio pelo personagem e mostrou claramente acreditar que as relações entre Brasil e EUA dependiam dessa “ligação carnal” entre supostos amigos. Enquanto o “amigo” esteve na Casa Branca, fez diversas visitas ao país de Tio Sam, pouco importando o pretexto para a viagem. Desde que Trump se foi, nunca mais quis saber de conversa. É verdade que não foi convidado, mas tampouco consta que tenha convidado Biden para tomar um café com pão e leite condensado no Planalto.

Foi à Rússia e disse que Putin e ele professam os mesmos valores(!). Foi à Hungria e chamou Orbán de irmão(!). Tem agido como se as relações exteriores do Brasil só funcionassem com nações comandadas por “amigos”. Essa visão redutora das relações internacionais pode servir para alimentar sua bolha de fanáticos, mas é nociva ao país.

Em artigo deste sábado, a jornalista Bela Megale conta algumas tristezas do Lula, antigo presidente do Brasil. Diz que o homem está ressentido com o comportamento de Dias Toffoli. Entre outras reclamações, está desagradado com a proximidade de Toffoli com Bolsonaro, fato que incomoda o demiurgo de Garanhuns. O Lula reclama ainda dos entraves postos por Toffoli no dia em que, ainda encarcerado, solicitou ser liberado por algumas horas para acompanhar o enterro de um irmão.

É bom lembrar que o atual ministro do STF foi advogado do PT e advogado-geral da União (AGU) durante o governo do Lula. Se hoje ocupa uma poltrona no STF, é por ter sido nomeado justamente pelo antigo presidente.

As mágoas do Lula são inquietantes. Ele demonstra estar sintonizado com Bolsonaro na mesma visão de um mundo dividido entre “os meus compadres” e os outros. Formam um par perfeito. Ao indicar Toffoli para o STF, o Lula tinha a certeza de ter “comprado” um juiz para defendê-lo fiel e incondicionalmente para o resto da vida. Essa esperança é idêntica à que Bolsonaro deposita nos pupilos alçados por ele ao STF: o “terrivelmente evangélico” e o “terrivelmente dócil”.

Ao dividir personagens políticos e magistrados entre “amigos” e “inimigos”, Lula dá mostra de agir exatamente como o capitão. A bem da verdade, ressalte-se não há que se espantar; essa faceta do ex-presidente já era conhecida. Nas diversas ocasiões em que foi a Havana louvar os bondosos irmãos Castro e à África incensar ditadores corruptos, Lula já tinha deixado evidente sua maneira de enxergar o mundo.

Entre os dois adeptos do compadrio desbragado – o Lula e o capitão –, está cada dia mais difícil separar o joio do trigo. Só se vê joio. Trigo mesmo, que é bom, anda em falta.

A solidão de Bolsonaro

José Horta Manzano

Rodeado de áulicos e todo tipo de interesseiros que só sabem aplaudir, o capitão não se dá conta da realidade. Ele se esquece que, no duro mesmo, o que conta é o voto popular. Não adianta subornar militares nem comprar o Congresso pra formar uma coalizão de aparência sólida. Ao fim e ao cabo, quem manda são os eleitores. Se não derem apoio a Bolsonaro nas urnas, assistiremos ao fim da comédia.

Na medida que continuar se enfraquecendo nas pesquisas, o presidente vai assistir à debandada dos que só lá estão por interesse. Ninguém tem vontade de associar o próprio nome ao de um perdedor.

Não sei se o capitão está a par de que, no exterior, seus melhores amigos – mais espertos que ele – estão trilhando outras veredas. Enquanto ele continua a dar murro em ponta de faca com seu negacionismo vacinal, dois de seus raros apoios estrangeiros já viraram a casaca.

Nas vésperas do Natal, o governo de Israel anunciou que passaria a propor uma quarta dose de vacina aos maiores de 60 anos, assim como ao pessoal médico e paramédico, que são os mais expostos ao contágio.

Aliás (não sei se o distinto leitor tem a mesma impressão), me parece que a profusão de bandeiras israelenses que os bolsonaristas arvoravam nas manifestações andam meio sumidas, não? Talvez aquilo explique isto, ou seja, o não-negacionismo explícito do governo israelense entra em colisão com o negacionismo primitivo de nossos aprendizes de extrema-direita.

Portanto, a amizade tipo unha e carne que parecia ter se cristalizado entre Brasília e Tel-Aviv virou fumaça. De fato, não dá pra conciliar o intenso programa vacinal israelense com a indignação de um Bolsonaro que chegou a dizer “Não entendo essa gana por vacina”. Ah, tem tanta coisa que ele não entende…

Outro amigo de infância que se distanciou do capitão foi Donald Trump. Esse, então, deu uma cambalhota. Faz uns dias, perto da virada do ano, no momento em que a onda de ômicron começava a se alastrar pelos EUA, o ex-presidente bilionário ressurgiu como defensor da vacinação, um inesperado arauto na luta contra a desinformação sanitária (!).

Algumas semanas atrás, num comício no Alabama – um dos estados com índice de vacinação mais baixo –, Trump foi claro: “Recomendo a vocês que se vacinem. Eu me vacinei. É bom. Vacinem-se!”. Algumas vaias se alevantaram, e o astuto orador mudou de assunto. Mas não desdisse o que havia dito.

Mais adiante, em 19 de dezembro, o antigo presidente reincidiu. Chegou a desestabilizar apoiadores e analistas ao defender a vacinação em diversas ocasiões, de modo aberto e inequívoco. Em Dallas (Texas), diante de uma multidão de simpatizantes, voltou a bater na mesma tecla. Aproveitou para se vangloriar de que as vacinas tinham sido desenvolvidas durante sua gestão. Asseverou que a vacinação vem salvando dezenas de milhões de vidas no mundo, e que é uma terapêutica fantástica. Levou vaias de novo.

Incansável, retomou o fio numa entrevista na tevê, dias mais tarde, quando dialogava com Candace Owens, apresentadora e porta-bandeira dos antivax. Bastou a moça insinuar que as vacinas não têm nenhum interesse, para Trump cortar-lhe a palavra, brusco: “É uma das grandes conquistas da humanidade. A vacina funciona.” E concluiu o raciocínio dizendo que “as pessoas não morrem [de covid] quando estão vacinadas”. Mais claro, impossível.

Os grandes apoios internacionais de Bolsonaro se dissolvem a olhos vistos. Minguando nessa velocidade, tanto interna quanto externamente, o que é que sobrará do capitão em outubro?

Partido Democrata x Partido Republicano

José Horta Manzano


“In our closely divided and highly polarized country, each party is likely to hold power at some point in coming years. But when the Republican Party does, it may change the rules to ensure that it remains in power, as Trump tried in 2020 and as Viktor Orban has done in Hungary.”

“Em nosso país extremamente dividido e polarizado, cada um dos partidos tem chance de assumir o poder nos próximos anos. Mas quando chegar a vez do Partido Republicano, ele pode mexer nas regras a fim de garantir sua permanência no poder, como Trump tentou em 2020 e Viktor Orbán conseguiu na Hungria.”

David Leonhardt, em artigo no The New York Times, 6 jan° 2022


No Brasil, a inacreditável pulverização partidária torna menos viável essa sombria possibilidade que pesa sobre os EUA.

Nosso sistema de coalizão por cooptação faz que a maioria parlamentar se desloque sistematicamente em direção ao centro do poder, pouco importando quem for o chefe do governo.

Entre nós, etiquetas partidárias importam menos que interesses pessoais e paroquiais. No Brasil, o voto ideológico não passa de figura de linguagem. Nunca vai além do palanque eleitoral.

De certo modo, é até bom que assim seja.

Boric e o avião presidencial

Acabo de falar com Gabriel Boric e dei-lhe os parabéns por seu grande triunfo. A partir de hoje é presidente eleito do Chile e merece nosso inteiro respeito e cooperação construtiva. O Chile, sempre em primeiro lugar.

 

José Horta Manzano

O segundo turno da eleição presidencial chilena, que se desenrolou domingo 19, foi um prenúncio do que, se a sorte nos abandonar de vez, poderá ser o segundo turno da brasileira: uma briga de foice entre esquerda radical e extrema direita, um coquetel de dar suor frio.

O radical de esquerda, que acabou eleito por franca margem (56% contra 44%), será o presidente mais jovem que o país já conheceu: tem 35 anos. Para presidente de uma república, francamente, é bem jovem. Fosse no Brasil, passaria raspando pelas regras constitucionais. Para exercer a presidência, uma das (poucas) exigências entre nós é exatamente a idade mínima de 35 aninhos.

O extremo-direitista, pelo que fiquei sabendo, é filho de imigrantes vindos da Alemanha. Seu pai foi oficial do exército alemão, veterano da Segunda Guerra. Era inscrito no Partido Nacional Socialista (=nazista). Isso não quer dizer muita coisa, visto que a adesão ao partido dominante era praticamente obrigatória naquele tempo; quem não se inscrevesse não conseguia promoção nenhuma, além de ficar malvisto pelos superiores. Mas há que ter sempre em mente que ninguém pode ser responsabilizado por eventuais erros ou ‘malfeitos’ cometidos por antepassados.

O novo presidente se chama Gabriel Boric Font. O sobrenome Boric (que, no original, se escreve Borić, com acento agudo no “c” e se pronuncia Boritch) é de origem croata. Font, o sobrenome materno, é catalão. Os antepassados paternos deixaram a terra natal 135 anos atrás, quando a região de nascimento fazia parte do Império Austro-Húngaro. Emigraram atraídos pela notícia da descoberta de ouro no sul do Chile.

Assim que a apuração dos votos deixou evidente que o vencedor era o candidato de extrema-esquerda Boric, o candidato derrotado, o extremo-direitista Kast, felicitou o vitorioso por telefone e ainda tuitou uma mensagem para deixar tudo bem claro. Com elegância, mostrou não ter sido contaminado pela atitude de negação da realidade à la Trump. Felizmente, nem todos os da extrema-direita têm aquele jeito escrachado. Até o momento em que escrevo, nosso capitão, alheio aos usos civilizados, não cumprimentou o vencedor. Vamos ver como vai se comportar em outubro que vem, quando entrar para o clube dos perdedores.

Algum tempo atrás, Señor Boric, o presidente recém-eleito, tinha feito uma viagem sentimental à Croácia para se encontrar com primos distantes. Na ocasião, tinha sido apresentado a uma certa Zdenka Borić, sua prima em terceiro grau. Em tom de brincadeira, o chileno, que já militava então na política, disse que, se um dia se tornasse presidente da República, mandaria um avião presidencial buscá-la para conhecer o Chile.

Publicado o resultado da eleição chilena, a mídia croata ficou assanhada com a notícia. Não é todo dia que um filho da nação se torna presidente de um país estrangeiro. Foram ao lugarejo de origem, procuraram pelo sobrenome e encontraram a prima que señor Borić havia visitado anos antes. Entrevistada pelo jornal Vecernij (A Tarde), a mulher contou a história. E logo partiu para a cobrança. Com ar sério, emendou que agora vai ficar à espera do avião presidencial. Vamos ver se chega.

Moral da história
Pense duas vezes antes de prometer mandar buscar alguém com o avião presidencial. Lembre-se que ganhar a eleição está ao alcance de qualquer um! Não precisa ser culto, nem inteligente, nem batalhador. Temos um exemplo vivo atualmente no Planalto.

Aerolula x Aerobolso

José Horta Manzano

Acho que ninguém esqueceu de quando, no longínquo março de 2020, Bolsonaro foi visitar o amigo Trump, que o recebeu em seu resort particular de Mar-a-Lago.

Na volta, 22 integrantes da comitiva, que tinham viajado no Aerolula (que agora deveríamos chamar de Aerobolso ou talvez Aeronaro) receberam resultado positivo no teste anticovid. Vinte e dois!

Passou-se exatamente um ano e meio durante o qual Bolsonaro praticamente não viajou para o exterior. Por um lado, foi por causa da covid. Por outro, é porque ninguém quer ser visto ao lado do capitão. Dado que fogem dele como da peste, ninguém o convida.

Ele então aproveitou a ocasião da abertura dos trabalhos anuais da ONU para dar um pulinho a Nova York. Aproveitou pra vacinar a esposa e pra levar a turma pra espairecer, gastar nosso dinheiro em hotéis estrelados e fazer umas comprinhas com o cartão corporativo. A ONU de Nova York é o único lugar aonde ele pode ir sem ser convidado, ainda que o preço a pagar seja comer pizza na calçada.

Na volta, os infetados por covid já começaram a aparecer. O primeiro foi o próprio ministro da Saúde (da Saúde!), aquele que cometeu o delicado gesto de apontar o dedo maior em riste aos que demonstravam não gostar do chefe dele. Em seguida, começa a cair gente graúda. Saiu hoje a notícia que o presidente da Caixa é a 4a vítima. Se não apareceu mais gente contaminada, é porque muitos – provavelmente todos, com exceção de Bolsonaro – estão vacinados.

Esse avião presidencial está mais pra navio fantasma, embarcação mal-assombrada, carroça com urubu trepado. Será praga do presidente barbudinho que preferiu comprar essa aeronave, deixando pra trás a nacional Embraer?

Não sei, mas, se fosse eu, mandava benzer esse avião. Eu é que não punha os pés lá dentro, nem que me pagassem.

Indulto presidencial

José Horta Manzano

Ao apagar das luzes, sempre aparece algum engraçadinho pra fazer travessuras. Tem que desconfiar do último minuto; é justamente quando ninguém mais espera, que o demônio ataca.

O instituto da graça presidencial é resquício do Ancien Régime. De fato, no regime absolutista anterior à Revolução Francesa de 1789, quando a lei seguia apenas a vontade do rei, o monarca tinha o poder de condenar ou até graciar um cidadão. Reis já se foram faz tempo, mas muitos países conservaram o princípio da graça presidencial.

Os Estados Unidos, a França e o Brasil estão entre esses países. Na falta de dirigentes de sangue azul, é o presidente da República quem tem a prerrogativa de indultar e graciar – nossa Constituição fala em conceder indulto e comutar penas.

Na minha opinião, é instrumento poderoso demais para ser confiado a um só indivíduo, ainda que fosse o presidente. Tem de ser muito bem enquadrado pela lei, o que não me parece ser o caso dos EUA.

De fato, um dia antes de deixar a Casa Branca, Mr. Trump extinguiu a pena de 70 pessoas e comutou a sentença de 73 outros indivíduos. Todos são pessoas de suas relações.

Chamada G1, 20 jan° 2021

Não sei o que pensa o distinto leitor, mas esse dispositivo consitucional me parece uma excrescência, uma prática que combinava com a época de Luís XV, mas que hoje soa anacrônica.

Seja como for, o artigo do G1 contém uma imprecisão. O indulto é sempre coletivo. No Brasil, a concessão de indulto natalino é habitual; ele é concedido a toda uma categoria de sentenciados; por exemplo: os condenados a penas mais curtas do que 4 anos, não reincidentes, sem sangue nas mãos. Não se escolhem os beneficiários, vai a  categoria inteira, desde que responda aos requisitos.

Quando se perdoa a pena de um indivíduo isoladamente, não é indulto, mas graça. Deve-se dizer que o presidente graciou fulano de tal. Apesar de ter perdoado a pena de 70 pessoas, Trump não o fez coletivamente, mas individualmente. Eles não faziam parte de uma categoria precisa; o único ponto comum entre eles era serem todos amigos seus.

A meu ver, a graça presidencial seletiva não devia poder ser exercida pelo chefe do Executivo. Se a Justiça condenou, cabe à Justiça repensar, rever, reestudar, reconsiderar e, eventualmente, extinguir a pena. Essa possibilidade de o rei graciar seus amigos me parece destoar feio da democracia em que imaginamos viver.

Observação
O exemplo dado por Trump há de ter sido anotado com esperança e alegria pelo clã dos Bolsonaros. Se a Justiça condenar algum dos rebentos antes do término do mandato do pai, é mais que provável que o sentenciado seja graciado. Mais vale esperar que o doutor seja despachado de volta à insignificância de onde nunca deveria ter saído.

FIGHT

José Horta Manzano

Acabo de ler relato que revela que Donald Trump, para incitar sua milícia a marchar sobre o Capitólio de Washington, tuitou a palavra FIGHT (=luta). O artigo diz que o presidente escreveu em letras capitulares. Não é bem assim.

Em tipografia – atividade em via de extinção –, faz-se a diferença entre letras capitulares e letras maiúsculas.

Letras capitulares (ou letras capitais)
Fora de moda há séculos, a letra capitular, como seu nome indica, era a primeira letra de cada capítulo de um livro. Estava de moda na Idade Média, ao tempo em que livros eram copiados à mão, letra por letra, capítulo por capítulo.

A letra capitular, de tamanho bem maior que as demais, era bordada a bico de pena de ganso segundo o estilo de iluminura medieval, com arabescos, douraduras e tudo o mais que a fantasia do escriba criasse.

Letras maiúsculas (ou caixa alta)
Letra maiúscula é artigo bem mais prosaico. Para grafá-la, não precisa ser versado nas artes da iluminura – basta ter seguido com atenção as aulas de dona Dorinha, professora do primeiro ano. Todos conhecem a diferença entre letras maiúsculas e minúsculas – que os tipógrafos chamam de caixa alta e caixa baixa.

Resumindo, Trump não grafou sua LUTA(*) em letras capitulares. Como é que havia de fazer isso numa telinha de celular, com um dedo e sem pena de ganso? O que ele fez foi apenas escrever em letras maiúsculas.

(*) Ao falar de Trump e de Minha Luta, associei imediatamente a Mein Kampf (Meu Combate), livro escrito por Adolf Hitler em 1925, que continha a linha mestra de seu pensamento. Pensamento este que foi posto em prática anos mais tarde e que deu no que deu. Te esconjuro!

Incompreensível

José Horta Manzano

Por que é que Bolsonaro é contra a vacinação anticovid?

Ele mesmo tem repetido, desde que a pandemia se instalou no país, que o bom desempenho da economia é essencial para ele conquistar um segundo mandato. Com a doença se alastrando, é inevitável que medidas de contenção continuem em vigor: confinamento, distanciação social, teletrabalho, entre outras. São medidas que, somadas aos hospitais transbordantes, freiam o bom andamento econômico do país. E o presidente sabe disso.

Nesta altura do campeonato, a única providência radical para acabar com a epidemia é a imunização coletiva. Para chegar lá, o caminho mais direto é a vacinação rápida e generalizada. Não é possível que doutor Bolsonaro não entenda isso; o moço é empacado, mas (supõe-se que não chegue) a esse ponto.

O raciocínio é simples e cristalino. Sem vacina, a doença vai continuar por meses e anos a perturbar todas as atividades – transportes, serviços, turismo, produção industrial, exportação. Em resumo, a economia vai continuar semiparalisada. Com vacinação generalizada e levada a toque de caixa, a recuperação poderá até ocorrer antes do fim de 2022. Um trunfo para o candidato à reeleição!

Por que é que Bolsonaro é contra a vacinação anticovid? Não é incongruente? Só vejo uma explicação, embora ela seja tão fora de esquadro que é difícil acreditar: se Sua Excelência age assim, será para contentar sua milícia de devotos.

De fato, entre os fanáticos, há quem acredite que a Terra é plana, há os que juram que o homem nunca pisou na Lua, há ainda os que estão certos de que o clã Bolsonaro é virtuoso e Trump venceu a eleição. Há, naturalmente, ruidosa parcela que tem medo que a vacina os transforme em jacarés. Por essa alucinante hipótese, doutor Bolsonaro estaria se mostrando hostil à vacinação unicamente para contentar seus seguidores e alimentar-lhes a ignorância.

Parece enorme demais pra ser verdade, não? Se minha hipótese for verdadeira, nosso doutor é ainda mais parado do que eu imaginava. Seu comportamento contenta os devotos, é verdade, mas leva ao desespero os demais, que formam a imensa maioria dos eleitores. As eleições estão logo ali na esquina, que não falta tanto assim pra 2022. Na hora de votar, todos se lembrarão do sufoco que passaram quando Bolsonaro bloqueava a vacinação no Brasil enquanto o mundo inteiro se imunizava. Brasileiro tem memória curta, mas nem tanto.

Falando em jacaré, vale lembrar o ditado que se usava antigamente e que cabe aqui como augúrio de ano novo para doutor presidente: «Deixe estar, jacaré, que a lagoa há de secar».

Trump, Bolsonaro e a reeleição

José Horta Manzano

A não-reeleição de Donald Trump, confirmada oficialmente ontem, há de estar acendendo luz vermelha no Planalto. De um vermelho vivíssimo.

Trump – todo-poderoso, carisma irresistível, voz de trovão, teatralidade convincente – é capaz do melhor e do pior. É daquele tipo de mascate capaz de vender gato por lebre e arrancar aplauso do comprador agradecido. Mas em meados deste ano ousou passar a mão num carregamento de respiradores que o ‘amigo’ Bolsonaro havia comprado na China e que transitavam pelos EUA.

Se esse homem – dono de todos esses atributos, dono da caneta mais poderosa do planeta, senhor da guerra e da paz, responsável pelo maior orçamento do globo – conseguiu a façanha de ser derrotado, como é que se pode enxergar o futuro do pequeno Bolsonaro? Antigamente, se dizia que estava preto. Na era do ‘politicamente correto’, convém dizer que está ruço.

O atual inquilino do Planalto não tem os atributos do ídolo, nem seu poder, sua força, sua riqueza. Não tem um corpo de assessores de alto nível. Não está apoiado num partido tradicional e organizado como Trump estava. Como então imaginar que, desprovido das armas necessárias, possa vencer a batalha da reeleição? (Posto que se segure na Presidência até lá, naturalmente.)

by Kleber Sales, ilustrador.

Bola de cristal, não tenho. Além do que, faltam dois anos para a eleição presidencial. Assim mesmo, sob reserva de acontecimento excepcional, a reeleição de nosso doutor parece causa perdida.

Sua personalidade pontuda, excludente e clivante não lhe valeu nenhum simpatizante além dos que tinha ao ser eleito. Pelo contrário, aqueles que votaram nele unicamente para se livrarem do PT devem estar dobrando a língua e se autoflagelando em penitência: nunca mais darão seu voto ao capitão.

Aos poucos, vai-se delineando um quadro semelhante ao de 2018. O eleitorado vai se fraturar em dois campos bem nítidos. No primeiro, estarão os bolsonaristas, que votarão no doutor porque gostam dele e estão felizes com seu desempenho. Do outro, estarão os demais, os eleitores dispostos a votar em quem quer que seja, desde que Bolsonaro seja derrotado.

Num primeiro turno, o voto antibolsonarista ainda pode se dispersar, mas no segundo, não tem perdão. São só dois candidatos. Não vejo como o doutor poderá ser reeleito, seja quem for o adversário. Ou será que Bolsonaro é mais talentoso que Trump?

Mais um sapo

José Horta Manzano

A pandemia pegou o planeta de surpresa – tanto dirigentes, como dirigidos. Até outro dia, epidemia dessas proporções só se via no cinema. Vira e mexe, aparecia um filme de catástrofe, daqueles em que o mundo era contaminado por alguma poeira chegada do espaço.

Falando nisso, nunca entendi por que razão visitantes alienígenas nos visitariam com intenção de extinguir a humanidade. Imagine só: como é que uma civilização adiantada, capaz de construir nave espacial sofisticada e cruzar zilhões de quilômetros, enviaria discos voadores à Terra com o objetivo de brincar de videogame, eliminando seus habitantes. Pode? Que coisa mais sem pé nem cabeça.

Acontece que a covid não é fruto da imaginação de nenhum cenarista criativo. A doença está aí, e seu alastramento está agindo como revelador do patamar civilizatório de cada povo e da engenhosidade de seus dirigentes.

O Reino Unido dobrou pela direita, começou a vacinar e deixou todos comendo poeira. O número de doses atualmente disponíveis no país é pequeno e não dá, nem de longe, para a população inteira. Mas o simples fato de terem começado a injetar a gotinha que salva abriu a válvula de segurança e deixou escapar toda a pressão acumulada. Agora, os britânicos sabem que há uma luz no fim do túnel; se não for hoje, será amanhã, mas todos terão direito à imunização. No final, é capaz de demorarem meses para proteger toda a população. Mas o que vai ficar na memória de todos é a rapidez com que agiram. E a agilidade.

Não devemos nos esquecer que a Inglaterra começou mal. Quando a pandemia se instalou, o país subiu logo ao primeiro lugar entre os mais afectados da Europa, posição pouco invejável. O primeiro-ministro, imprudente, ainda fez pouco caso da ameaça ao declarar que continuaria a «apertar mãos». Não deu outra: apanhou a covid, foi internado e terminou numa UTI. Escapou por sorte e aprendeu a lição. Seu país virou modelo de eficácia no combate à doença.

Do nosso lado do Atlântico, a coisa foi mais problemática. As três maiores economias das Américas (EUA, Brasil e México) tiveram o azar de contar com um negacionista na presidência. Trump, Bolsonaro e López Obrador desdenharam, andaram de costas, relutaram e resmungaram. Além de não ajudar no combate à epidemia, acabaram atrapalhando. O resultado é que os três países continuam a figurar no topo das estatísticas de contágio e morte.

Felizmente nossos países têm estrutura administrativa diferente da maioria dos Estados europeus. Nosso federalismo, que algumas vezes atrapalha, neste caso foi a salvação. Se dependêssemos apenas dos desvarios de nosso doutor presidente, ainda estaríamos navegando às cegas, sem estatística, sem informação sobre a real extensão da epidemia, todos correndo atrás de comprimidos de cloroquina.

Agora, que o governador de São Paulo anunciou que a vacina está quase pronta, é missão impossível doutor Bolsonaro tentar usar uma aparelhada Anvisa para retardar a homologação da vacina do Instituto Butantã. É mais um sapo que o presidente terá de engolir.