Vamos ajudar a Fifa

José Horta Manzano

Costuma-se dizer que o exemplo vem de cima. Parece-me uma evidência, de baixo é que não poderia vir. Outro dito popular ― adoro ditados e provérbios ― afirma que quem semeia vento colhe tempestade. Em geral, é o que acontece.

Há corrupção no futebol em vários países! Que surpresa! O correspondente do Estadão deu a inacreditável informação, publicada na edição online de 17 de janeiro. Na mesma linha, seguiram o Globo, Terra e outros sites noticiosos.

Todos relatam que a Fifa, um dos organismos mais endinheirados do planeta, precisa de ajuda para coibir a propagação da corrupção. É mais ou menos como se uma raposa, presa num galinheiro, pedisse ajuda às galinhas para escapar.

Ora, pois. Não é segredo para ninguém que a Fifa, além de ser dona de cofres abarrotados, é composta de elementos altamente suspeitos de corrupção. Não falo de ladrões de galinhas, mas de raposas, de criminosos de alto coturno. Daqueles cujo balcão de negócios faria empalidecer de inveja certos congressistas tupiniquins. Dos mais graduados!Corrupção

Pouca gente arriscaria a pele para assaltar a pobre vendinha de seu Zé. Já onde há dinheiro, a tentação é, evidentemente, maior. Para eliminar ― ou, pelo menos, reduzir ― a corrupção no «esporte das multidões», a retidão tem de começar no topo. O exemplo vem de cima. Uma associação (mais que) suspeita de pesados malfeitos não tem moral para exigir de seus afiliados aquilo que não exige de si própria.

Mas que se aquietem todos, nada de pânico! A corrupção, os árbitros vendidos, as trapaças em todos os escalões do futebol ainda têm dias risonhos à frente. Estamos ainda em plena semeadura de vento. As borrascas de verdade só virão mais tarde.

Falando nisso, ainda não consegui entender por que raios o Catar (ô nome esquisito, prefiro Qatar, mais exótico) foi designado para acolher a Copa do Mundo de 2022. Se o Japão e a Coreia, poucos anos atrás, tiveram de unir forças para abrigar uma evento de tal magnitude, como é possível que alguns quilômetros quadrados de deserto possam montar a tenda, receber o circo e garantir o espetáculo? Tudo indica que, nessa história, os palhaços somos nós.

Onde tem fumaça, tem fogo. Tá ruço.

E a gente quase acreditou…

José Horta Manzano

Quando o antigo presidente da República impôs à massa sua sucessora, apresentando-a como perita em economia, voluntariosa, firme, visionária, tocadora de obras, uma luzinha de esperança se acendeRessacau. Luz fraquinha, é verdade, mas parecia apontar para o fim do túnel. Passaram-se dois anos.

Em seu artigo deste sábado 16 de fevereiro, o jornalista Rolf Kuntz deitou no papel palavras duras. Mas, infelizmente, verdadeiras. A quem interessar possa, aconselho uma vista d’olhos no texto claro e lúcido. Está aqui.

Mas não nos desanimemos, brava gente, que vem aí a Copa 2014! Será melhor que um Carnaval! Duro mesmo vai ser enfrentar a ressaca da Quarta-feira de Cinzas que se seguirá. Periga ser pesada.

Segredo é pra quatro paredes

José Horta Manzano

Já faz um tempinho que se fala menos de Julian Assange, aquele que andou bisbilhotando mensagens confidenciais do governo americano e espalhando o resultado da façanha pela internet.

Muita gente aplaudiu. O homem foi, por um breve tempo, elevado à categoria de herói, uma espécie de Robin Hood dos tempos modernos, aquele que rouba segredos dos poderosos para distribui-los aos sem poder. Não é minha visão.

Mala diplomática 1Um bonito samba-canção de Herivelto Martins e Marino Pinto que Dalva de Oliveira gravou em 1947 (*) dizia justamente que «segredo é para quatro paredes». Naqueles tempos recuados, as paredes já tinham ouvidos, mas o som não ia muito além do quarto ao lado. O pior que podia acontecer é que algum maldizente espalhasse a fofoca pela vizinhança. Hoje não é mais assim.

A internet e os novos meios de difusão da informação abriram caminhos que nós, pioneiros, estamos ainda longe de conceber aonde vão levar. Hoje em dia, um sussurro emitido em Singapura será ouvido instantaneamente em Sydney, em Helsinque e até em Ushuaia. Quem joga informações na rede deve estar bem consciente dessa nova realidade. E o senhor Assange certamente estava quando decidiu divulgar dados obtidos por meios fraudulentos.

Na primeira metade dos anos sessenta, foi assinada a Convenção de Viena sobre as Relações Diplomáticas. É aceita por praticamente todos os países. Até Cuba e a Coreia do Norte são membros do clube. Entre outras determinações, a Convenção de Viena reitera e regulamenta o antigo princípio da mala diplomática.

Tradução portuguesa da expressão valise diplomatique, a mala chegou, realmente, a ser uma espécie de baú. Os países signatários da convenção comprometeram-se a deixá-la passar, sem violá-la e sem controlar seu conteúdo. O nome ficou, mas a mala, nos dias atuais, se desmaterializou.

Mensagens diplomáticas transitam agora por internet. A mudança de meio de transporte, no entanto, não invalidou o princípio da inviolabilidade do conteúdo. Violá-lo continua sendo um crime. Difundir por internet o produto do crime, a informação surrupiada, é duplamente repreensível.

Os tempos do faroeste passaram. As leis são feitas para serem obedecidas. A ninguém ― salvo, naturalmente, a alguns figurões brasileiros «especiais» ― é dado desobedecer a elas. Quem o fizer, terá de prestar conta de seus atos.Mala diplomática 2

O senhor Assange cometeu um ato de pirataria. C’est plus bête que méchant, diriam os franceses, está mais para tolice que para malvadeza. Seja como for, o ato foi leviano e deu pano pra mangas. Agora, para coroar, o pirata mostra que sua coragem só funcionava quando se sentia protegido por um biombo, perdão, por uma tela de computador. Desmascarado, exposto e procurado por polícias do mundo inteiro, amoita-se num cômodo acanhado da embaixada londrina de uma pequena República sulamericana.

Na entrevista que teve a fineza de conceder a um correspondente do Estadão, Assange fez questão de se apresentar fantasiado de jogador de futebol. Uniformizado como se fosse dos nossos. É receita certeira para embevecer muita gente. Veja aqui e aqui.

Plugado e conectado, o hóspede da exígua embaixada deve estar a par da acolhida peculiar que o governo brasileiro costuma dispensar a refugiados. Deve saber que, durante a Segunda Guerra, nossas representações diplomáticas estavam instruídas a negar visto de entrada a judeus. Deve saber também que o último grande bandido internacional extraditado pelo Brasil foi Tommaso Buscetta, um mafioso pentito (arrependido), faz 30 anos. Deve ter estudado tim-tim por tim-tim o caso Battisti.

Em resumo, sabe que não poderá ― nunca mais ― atravessar fronteiras e circular livremente. Se tiver a sorte de se safar da embaixada onde se encontra encurralado, imagino que trocará o apertado Equador(2) por um refúgio no espaçoso Brasil. À beira-mar, se possível.Mala diplomática 3

Nesse particular, não tem muito a temer: muito provavelmente será aceito. Talvez de braços não tão abertos, dado que seu crime não foi de sangue, mas, assim mesmo, lo recibiremos de corazón.

Seus feitos combinam com o clima de malandragem e de traição.

(1) Quem quiser recordar o samba-canção, siga por aqui.

(2) Quem quiser assistir a um pouso no aeroporto de Quito, clique aqui.

Bruzundanga

José Horta ManzanoPapagaio

“Não há na História republicana nenhum caso de um presidente que em dois anos de mandato tenha sido obrigado a demitir tantos ministros acusados de atos lesivos ao interesse público.”

Este é um trecho do artigo assinado pelo professor Marco Antonio Villa, publicado no Estadão online deste 11 de fevereiro. Imperdível. Quem quiser conferir, que clique aqui.

O pior cego…

José Horta Manzano

Trecho de um dos editoriais do Estadão desta segunda-feira 4 de fereveiro.

“Na quarta-feira, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, saudou como altamente importante a recuperação lenta, mas aparentemente firme, da produção americana. Afinal, a recuperação da maior economia do mundo é benéfica para todos. Não se sabe se o ministro, antes desse comentário, consultou o líder Luiz Inácio da Silva. O ex-presidente havia-se mostrado muito feliz por chegar ao fim do mandato com o Brasil ainda em crescimento e os Estados Unidos em recessão. Seria um despropósito, exceto em caso de guerra, festejar as dificuldades de qualquer outro país. Mais que um despropósito, seria uma enorme tolice alegrar-se por uma crise no mais importante mercado do mundo.
Mas essa tolice ocorreu.”

O texto completo está aqui.

A Casa dos Representantes

José Horta Manzano

“O PT faz acordo para levar um denunciado e um investigado pelo Ministério Público às presidências do Senado e da Câmara, financia partidos para atraí-los à base governista, correligionários de altas patentes são condenados à prisão e, segundo o presidente do partido, a ‘oposição apartidária’ é que desmoraliza a política. Que tal?”

Esse é o primeiro parágrafo do artigo de Dora Kramer publicado pelo Estadão online neste 1° de fevereiro. Quem estiver interessado na continuação que clique aqui.

Jeito brasileiro de governar

José Horta Manzano

Certos escrevinhadores são bons, outros menos. Alguns poucos são muito bons. Os muito bons conseguem, às vezes, conjugar num só parágrafo ideias soltas que, embora espalhadas aqui e ali, pertencem a um mesmo tronco. São todas exemplos acabados da maneira brasileira de governar, de mandar.

Segue um parágrafo do artigo que José Nêumanne Pinto publica no Estadão online de 30 de janeiro. Quem quiser ler o texto integral, vai encontrá-lo aqui.

José Nêumanne Pinto

José Nêumanne Pinto

” A presidente Dilma Rousseff foi a Santa Maria e chorou com pena das famílias que o Estado abandona ao desamparo. Assim como o imperador dom Pedro II jurou que venderia o último diamante da Coroa para não deixar um cearense morrer de fome. Fê-lo mais de cem anos antes de os sertanejos continuarem perdendo tudo, até a própria vida, por causa da sede implacável. As imagens das ruínas da obra inacabada da transposição do Rio São Francisco sem que uma gota de água fosse levada à caatinga mais próxima são a denúncia mais deslavada da hipocrisia generalizada de gestores públicos que, desde o Império até hoje, garimpam votos valiosos na miséria que os donos do poder semeiam em suas posses e colhem na máquina pública que, eleitos pelos súditos, passam a pilotar. Os maganões da República mantêm-se no poder enganando os sobreviventes da seca do semiárido, das enxurradas da Serra Fluminense e deste incêndio em pagos gaúchos. “

Alvíssaras!

José Horta Manzano

Séculos de presença árabe na Península Ibérica deixaram marcas. Visitas tão demoradas não se esquecem assim tão facilmente. O tempo se encarregou de apagar muita coisa, mas a língua tratou de guardar o que lhe pareceu apropriado. Entre milhares de termos, expressões, palavras, uma cai especialmente bem hoje. Alvíssaras!Visages

Os dicionaristas não são uníssonos quanto à origem da expressão. Para o Houaiss, o Aulete e o Priberam, virá do árabe al-bixra ou al-buxra. Para o Aurélio, o termo é descendente de al-basara. Pouco importa. Todos concordam que se trata de uma boa nova. Uma excelente nova!

A notícia, publicada pelo Estadão de 28 de janeiro e repercutida por Exame e pela Veja, é um começo de uma suspeita de uma esperança de um início de um primórdio do advento de uma solução para o gravíssimo problema da concentração urbana que marca o Brasil atual.

A falta de visão ― sempre ela! ― que caracteriza nossos governantes desde Tomé de Souza gerou um filhote bastardo: a falta de planejamento. Bastardo ou legítimo, o fruto não costuma cair muito longe da árvore. Temos aí mais uma prova. Governantes que exercem sua função com a ideia única de enricar e de preservar seu poder não se preocupam em preparar um futuro melhor para seus governados.

O vácuo total de planificação do crescimento populacional de nosso País engendrou uma desorganização na implantação da infraestrutura. Enquanto algumas poucas regiões concentram uma oferta regular de serviços básicos, outras carecem do estrito necessário. O Brasil, potência econômica de que mutos se orgulham, tem ainda municípios sem esgoto, sem água tratada e até sem estrada de acesso. Um desequilíbrio incompreensível. Visível e perigoso.Multidão

A atração que os centros dotados de alguma oferta de serviços tem exercido, ao longo das décadas, é irresistível. O resultado é o inchaço desmedido de algumas concentrações humanas e o despovoamento de territórios inteiros, largados ao deus-dará.

Não é fenômeno exclusivamente brasileiro, longe disso. É característica dos países do Terceiro Mundo, hoje pudicamente chamado de «países em desenvolvimento» ou até, com certo exagero, de «nações emergentes».

A concentração de multidões em espaço exíguo acaba por provocar efeito perverso. Ao invés de se elevar, o nível dos serviços decai. Ao final, o que se vê é um amontoado humano em que uns poucos bem-nascidos ou bem-sucedidos se locomovem em helicóptero, enquanto aos demais resta apinhar-se em sacolejantes e improváveis transportes coletivos. Lentos, ruidosos, desconfortáveis e sobretudo perigosos.

A melhor notícia do dia ― e das últimas semanas ― é a intenção do governo paulista de implantar 400km de linhas férreas radiais regionais, a partir da capital do Estado. Entendamo-nos bem: estamos, por enquanto, na fase das boas intenções. Nada nos garante que o desafogo da região central venha a ser realidade tão já.Multidão 2

Assim mesmo, intenção por intenção, essa é das boas. Caso ― digo bem: caso ― se concretize, servirá de exemplo para outras concentrações populacionais por esses brasis afora.

Resta-nos esperar que não esteja longe o dia em que nossas «metrópoles», de que tantos parecem se orgulhar, perderão suas características africanas e se aproximarão de padrões aceitáveis.

Alvíssaras, pois! Pior que está não fica. O resto se vê depois.

É tudo nosso

Marginal TietêJosé Horta Manzano

O Rio Tietê, posto ali por Mãe Natureza, foi uma das principais vias de penetração no território da América Portuguesa. Foi por ali que aventureiros burlaram o que tinha sido combinado no Tratado de Tordesilhas e expandiram os domínios da Coroa lusa até o Mato Grosso. Chegaram até as fraldas da Cordilheira dos Andes e só não foram além porque ferozes castelhanos, chegados pelo outro lado, já haviam se estabelecido naqueles pagos e não mostravam intenção nenhuma de abandonar o pedaço.

Já está fazendo meio século que o trecho do Tietê que corta a capital paulista deixou de ser rio. Tornou-se esgoto a céu aberto, uma cloaca, um espetáculo vergonhoso a que todo estrangeiro desembarcado em Guarulhos tem de assistir.

Trafegando pela pista de sua avenida marginal, é inútil tentar mostrar ao visitante a “beleza” da paisagem do lado direito, com direito a Anhembi e sambódromo: o que lhe atrai a atenção é o esgoto, do lado esquerdo. Um vexame permanente.

Depois de décadas de hesitação, o Departamento de Águas finalmente decidiu plantar ali 40 mil árvores para amenizar a feiura das águas pretas. Mesmo atrasada, foi uma boa iniciativa. Antes tarde que nunca.

Pois o inventário do fim do ano passado revelou que, entre deperecimento natural, vandalismo e furto, 4 mil árvores haviam desaparecido. Uma em cada dez!

Com razão, todos protestam quando corre a notícia de que o deputado Fulano ou o ministro Beltrano, baralhando o público e o privado, se apoderou de nacos do patrimônio público. O mais curioso é que os que mais gritam são muitas vezes os mesmos que se apossam das mudas plantadas e pagas com o dinheiro de todos.

Fico imaginando o sujeito tomar emprestada a caminhonete de um amigo, vir até a avenida que margeia nossa cloaca, estacionar no meio daquele tráfego selvagem e arriscar a vida para roubar, para seu uso particular, um pedaço do patrimônio público. Edificante, não é?

Brasil, um país de todos ― essa é a versão oficial. Há uma outra, menos glamorosa: Brasil, país onde muitos se esfalfam para que uns poucos vivam no bem-bom.

Nosso aeroporto

José Horta Manzano

Quase três décadas atrás ― faz exatamente 28 anos neste 20 de janeiro ―, foi inaugurado o novo aeroporto de São Paulo. No começo, chamou-se indiferentemente Guarulhos ou Cumbica. Mais tarde, tentaram impor-lhe o nome do político que ocupava o cargo de governador do estado à época da inauguração. Parece que não pegou. Não é comum alguém dizer que apanhou seu voo no Franco Montoro. Continua sendo conhecido como Guarulhos ou Cumbica.

Desde os tempos em que o Padre Anchieta subiu a serra, faz meio milênio, para exercer seu apostolado no planalto, já se sabia que o sopé das encostas da Cantareira era sujeito a nevoeiros e brumas frequentes. Pior que isso, o caminho para se chegar lá, partindo da cidade de São Paulo, tem de atravessar, obrigatoriamente, o vale do Tietê.

Canal principal de drenagem das águas tropicais da região, o rio sempre foi alagadiço na estação das chuvas. A fraca declividade de seu leito, o alastramento da mancha urbana e o descaso dos habitantes e de seus dirigentes só fizeram agravar o problema.

O que é verdadeiro hoje, já o era quando foi escolhido o lugar onde se erigiria a nova estação aérea: o local não é adequado. Além disso, a via de acesso corre risco permanente de estar tomada pelas águas.

A lógica indicava duas saídas. A primeira delas, mais evidente, era transformar o já existente sítio de Viracopos em aeroporto metropolitano. A estrutura de base estava pronta e boa parte das desapropriações já tinham sido feitas. O clima da região é bem menos sujeito aos caprichos úmidos de Guarulhos. O problema maior era o afastamento de 95km da capital. A ideia de se implantar uma linha de trem expresso entre o terminal aéreo e a metrópole não vingou.

A segunda saída apontava para um compromisso. Aceitar a instabilidade climática de Guarulhos, mas compensar o risco com um acesso rapidíssimo e garantido o tempo todo. A ligação férrea seria bem mais curta (23km), portanto, muito menos onerosa.

Sabemos todos que os decididores da época optaram pela pior solução: escolheram construir no sítio menos adequado e, como se não bastasse, passaram por cima do fato de que um aeroporto é, em princípio, frequentado por passageiros. Deixaram que o problema do transporte rápido e seguro fosse resolvido pelas gerações seguintes.Aeroporto Guarulhos

Sabe-se lá quais foram as absconsas razões que levaram as autoridades a tomar essa decisão. Dizem uns que os militares que governavam o País na época só bateram o martelo quando se certificaram de que o novo aeroporto civil seria instalado junto à base aérea já existente. Dizem outros que interesses mais escusos ― e não necessariamente voltados ao bem-estar da população ― guiaram a escolha.

O fato é que Guarulhos, 45° aeroporto do mundo em movimento de passageiros segundo a última lista publicada pelo Airports Council International, é um dos raros ― provavelmente o único entre os 50 maiores ― a não oferecer a seus passageiros o conforto de uma ligação férrea frequente, rápida e segura com o centro da metrópole.

Essa incúria, à qual brasileiros dão de ombros como se fosse fatalidade incontornável, talvez explique em parte a forte baixa na chegada de turistas. As estatísticas do Aeroporto de Guarulhos mostram que a entrada de visitantes provenientes dos 26 maiores países emissores encolheu 20% entre 2005 e 2011. Estamos falando de 400 mil chegadas a menos, a cada ano. É um bocado de gente!

Mas nem tudo está perdido, caros leitores! Como trinta anos atrás, novos projetos continuam a pipocar esporadicamente. É trem-bala para cá, ligação expressa para lá. A cada vez, tem-se o sentimento de que «agora, vai»!

Enquanto «não vai», contentemo-nos com um chique e sofisticado sistema automático de despacho de malas. Revolucionário. Está previsto para entrar em funcionamento em junho de 2014. Se não chover daqui até lá, evidentemente. Veja aqui.

Ânimo, que falta só um ano e meio! A partir daí, temporais, enchentes e nevoeiros podem até bloquear o aeroporto ou o caminho que leva a ele. Em compensação, a bagagem será encaminhada au-to-ma-ti-ca-men-te!

Pode não ser muito útil, mas é um charme. Ou não?

Identidade de análise

José Horta Manzano

Publiquei ontem um post que chamei  De quoi je me mêle. No escrito, eu me insurgia contra o fato de o governo brasileiro interferir desabridamente em problemas internos de um país vizinho.

Vejo hoje, reconfortado, que um dos editoriais do Estadão vai exatamente pela mesma linha e com os mesmos argumentos. É bom a gente sentir que não está só. Confira.

Da nacionalidade

Passaporte BRJosé Horta Manzano

Universidades costumam distribuir ― nem sempre judiciosamente ― títulos de doutor honoris causa a cidadãos preeminentes. Poíticos e artistas são as escolhas mais frequentes. É um excelente investimento: não custa grande coisa, aumenta a visibilidade da universidade e bajula um figurão.

A mim sempre pareceu uma homenagem inadequada. Um título de doutor se consegue depois de muita luta, de grande esforço, de enorme dedicação, de incontáveis sacrifícios. É um atestado de capacidade e, principalmente, de mérito. Não fica bem distribuí-lo como mimo a figurões. Chega a humilhar os que transpiraram para chegar lá.

Outro costume me chama a atenção. É a outorga do título de cidadão honorário de um município. O afago foi instituído com bastante lógica, para saudar pessoas que, embora sendo originárias de um município, tenham trazido benefícios a outro. Este último mostra seu reconhecimento ao forasteiro, em homenagem pública.

Outra coisa é distribuir títulos de cidadão honorário a torto e a direito a figurões da política ou do mundo do espetáculo. Em geral, são gente que pouco ou nada fez em prol do município outorgante. É menos grave que um título de doutor dado a quem não merece, concedo. Mas não deixa de ser um escárnio com relação à população do município.

Jornais do mundo inteiro, entre eles o francês Le Monde nos informam que uma nova modalidade de homenagem está sendo inaugurada estes dias: a distribuição de passaportes. O ator francês Gérard Depardieu acaba de receber um passaporte russo. Foi-lhe concedido por simples decreto do presidente Putin. Antes disso, a ligação do ator com a Rússia se resumia a três pontos: ter decorado às pressas algumas palavras do idioma local; ter tido um pai comunista; ter recentemente representado o papel de Rasputin num filme girado no país. Mais nada.

Nem todos os russos apreciaram. Gérard Depardieu enalteceu a “grande democracia” russa, fato que enfureceu muita gente. Por outro lado, o ator tem a fama de «lever le coude» (= levantar o cotovelo), expressão caseira que os franceses usam para apontar alguém que exagera na bebida. Um dos simpatizantes de Putin ― cineasta russo nacionalista ― não apreciou a prenda ofertada pelo presidente ao ator. Sarcasticamente, comentou: «teremos um alcoólatra a mais!».

Um artigo do Estadão online nos informa que, indagado pelo entrevistador, Gérard Depardieu respondeu que sim, aceitaria de bom grado um passaporte brasileiro, se o documento lhe fosse oferecido.

Que se distribuam, a torto e a direito, títulos honoríficos de doutor ou que se espalhem títulos de cidadão deste ou daquele município já são práticas discutíveis. Agora, que se instale a moda de oferecer nacionalidade por capricho presidencial já estamos passando dos limites.

A nacionalidade ― sua aquisição e sua perda ― estão perfeitamente definidas em nossa Constituição e em leis complementares. Outorgá-la não é, nem pode ser, direito privativo e discricionário do chefe do executivo. Para obtê-la, há um caminho a ser trilhado.

Para casos de urgente necessidade de caráter humanitário, há outros expedientes à disposição das autoridades. A concessão da nacionalidade não é mimo que se ofereça, sem mais nem menos, a figuras populares.

Nacionalidade não é brinde, é bem mais sério que isso.

De quoi je me mêle?

José Horta Manzano

Caso você cometa a indelicadeza de se meter em assuntos alheios, caso se intrometa onde não foi chamado, os franceses têm uma receita pronta para exprimir irritação. «De quoi je me mêle?» ― lançam eles de bate-pronto. É sempre difícil traduzir expressões ao pé da letra. Mas o sentido da repreensão é claro: o que é que você tem a ver com isso?

Conhecemos todos várias expressões que vão pelo mesmo caminho. Sabemos que, em briga de marido e mulher, não se deve meter a colher. Ninguém ignora tampouco que cada um deve saber onde lhe aperta o sapato. E até criança sabe que sapo de fora não chia. Todos sabemos disso. Eu disse todos? Engano meu, caro leitor, engano meu.

Tem gente por aí que deve ter perdido algumas aulas de bem viver. Enquanto opiniões indevidas se restringem ao âmbito privado, permanecemos no nível de desavenças familiares, de discussões de cortiço, de palpites de vizinho. O resultado pode ser, no máximo, uma cara-fechada.

O poder executivo brasileiro tem a felicidade de poder contar com os préstimos de diversos assessores. Em outros lugares do mundo, seriam chamados conselheiros. Um desses personagens ― que serviu ao presidente anterior e continua, firme e forte, aconselhando a presidente atual ― especializou-se em dar seus palpites em matéria de política estrangeira.

É um tanto inadequado, dado que temos um Ministério especificamente dedicado às relações com países estrangeiros. O assessor ao qual me refiro situa-se numa espécie de limbo, uma peça solta no organograma. Sua função parece ser a de corroborar, sempre que necessário se faça, que nosso País persiste em seu apoio a governos autoritários.

Esse senhor declarou estes dias que o Brasil apoia o adiamento da tomada de posse do mandatário da vizinha Venezuela. Confira aqui e aqui. Cada um é livre de ter sua opinião. Por enquanto, pelo menos. Mas aqui fomos mais longe. O assessor não disse que essa era sua opinião, mas exprimiu-se em nome de 200 milhões de compatriotas. É surpreendente que um simples conselheiro da República, que nem ministro é, esteja imbuído de poder tão excelso.Blabla 2

Alguns imaginaram que a malograda intromissão em assuntos internos de Honduras tivesse servido de lição a nossa diplomacia errática. Enganaram-se. Mais improvisação ainda estava por vir.

Outros acharam que a traiçoeira suspensão do Paraguai do Mercosul ― aprovada pelo Brasil ― era o vexame máximo, impossível de ser suplantado. Enganaram-se de novo. Os três sócios se irmanaram numa malandragem ainda mais audaciosa: valeram-se da ausência do parceiro privado de voz para determinar a entrada da Venezuela no clube.

Trágico é o destino de um País cujo governo não aprende com seus próprios erros. A reincidência está aí. Nosso sublime assessor especial alevantou um imenso auto de fé, lançou nele todos os manuais de recato e de prudência, e cedeu à soberba. Interferiu mais uma vez na política interna de um vizinho. Em nome de todos nós, frise-se.

Já dizia Tom Jobim que o Brasil não é um país para principiantes. Nem para amadores, completaria eu. Até prova em contrário, a Venezuela é um país de direito, adulto e vacinado. Rege-se por uma constituição. Se houver controvérsias, elas hão de ser resolvidas pelos próprios venezuelanos. Cabe a eles a decisão, e não a um assessor do governo brasileiro. Nem que esse assessor seja «especial».

Contorcionismo contábil

José Horta Manzano

O assunto é meio árido. Melhor deixar que especialistas analisem, que não é minha seara. Assim mesmo, vale uma reflexão.

Jornais anunciam que, para «fechar as contas» de 2012, a União está lançando mão de contabilidade pra lá de criativa. Como um prestidigitador tira coelhos do chapéu, os guardiães das contas da nação têm se prestado a malabarismos nem sempre ortodoxos.

Os gregos, embora ortodoxos em religião, também tiveram o azar de contar com governantes que se valeram de expedientes bem distantes da ortodoxia para encobrir rombos nas contas nacionais. Alguns chamam a isso maquiagem. Os mandachuvas locais pediram ajuda a um grande banco internacional de investimentos e dele obtiveram cumplicidade. A malandragem durou anos. Quando a população descobriu, já era tarde demais.

Como todos sabem, mentira tem perna curta. O que tinha de acontecer aconteceu: o castelo de areia um dia desmoronou. O banco se safou lampeiro, quem pagou o pato foi o povo grego. A farra devastou a economia, além de afetar gravemente parceiros economicamente mais vulneráveis.Currencies

Já se passaram dois ou três anos e, neste momento, ninguém pode ainda afirmar ― com certeza ― que o euro, moeda única utilizada por 17 países, resistirá ao baque. Numa visão catastrófica, há quem enxergue até a extinção da União Europeia, tal como a conhecemos hoje.

Dá calafrios pensar que os magos da economia brasileira possam estar brincando com fogo. Malabarismo pode ficar bem no circo, mas contabilidade é ciência exata.

A contabilidade nada mais é que o espelho da realidade econômica nacional. Quebrar o espelho não vai consertar os problemas econômicos. Melhor atacá-los pela raiz.

It’s human nature

Dilma 1

Você sabia?

José Horta Manzano

Ano-novo é época de balanços, resenhas, retrospectos. Um artigo do Estadão nos informa que nossa presidente atual faz menos discursos que o mandatário anterior. Não precisa ser doutor em Ciências Auditivas para já ter percebido isso.

Outra verdade evidente: ela fala menos que o antecessor. Usa menos palavras. Longe de mim insinuar que seu vocabulário seja menos extenso ― talvez simplesmente não tenha o dom de falar em público. Terá outros, sem dúvida.

O mais interessante da pesquisa é a contagem paciente de quantas vezes a senhora Rousseff pronunciou, em seus discursos, o nome do padrinho. Deve ter custado aos autores um trabalhão digno de beneditinos. Chegaram à conclusão que, em 2011, a presidente se referiu nominalmente a seu guru 96 vezes. Já em 2012, foram apenas 67 vezes, ou seja, 29 menções a menos.

A ser mantido o mesmo abatimento anual, o santo nome deverá ser articulado apenas 38 vezes em 2013. E nada mais que minguadas 9 vezes em 2014.

It’s human nature, como dizem os ingleses. Longe dos olhos, longe do coração. Rei morto, rei posto. A mesma água não passa duas vezes debaixo da ponte.

C’est la vie…

Premi Internacional de Catalunya

José Horta Manzano

Poucos meses atrás, o governo da Região Autônoma da Catalunha solicitou, a contragosto, ajuda de Madrid. Suas contas estavam tão sufocadas que, sem um rescate de 5 bilhões de euros, simplesmente não fechariam.

Alguns dias atrás, o mesmo governo da rebelde região entregou ao Lula o Premi Internacional Catalunya, representado por uma estatueta mais um polpudo cheque de 80 mil euros (215 mil reais). Essa distinção honra pessoas «cuja trajetória tenha contribuído para promover valores culturais, científicos e humanos».

EuroPor uma dessas coincidências de que a História conserva o segredo, a cerimonia de entrega da honraria coincidiu com o desfecho do julgamento do Mensalão pelo STF. Os jornalistas queriam, a todo custo, colher as primeiras impressões e os comentários do Lula. Tirando o antigo presidente do Brasil, ninguém estava preocupado com o prêmio. O que todos queriam mesmo era ouvir o que o figurão tinha a dizer.

Perderam seu tempo. O Grande Timoneiro tupiniquim terá grandes qualidades, no entanto, a valentia não é a que sobressai. O homenageado esgueirou-se pelos muros, entrou e saiu pela porta de serviço. Tem mais: deu a sua guarda pretoriana ordens peremptórias para que não fosse tolerada a aproximação de nenhum jornalista.

Veja a informação sobre o prêmio no site da United Press International. E não perca a reportagem do enviado do Estadão sobre a entrega da honraria.

Edificante.

O piscinão e o rio

José Horta Manzano

Uma reportagem do Estadão informa que acabam de abrir uma praia artificial na cidade de São Paulo. Escrita com certo desmazelo, a notícia diz que vai ser possível curtir as férias «no mar» (sic) sem sair da cidade. Diz ainda que os termômetros da Zona Leste da cidade chegam a marcar temperaturas 14°C (!) mais elevadas que no resto do município. Afirmação fantasiosa. No dia em que fizer, ao mesmo tempo, 15° na Praça da Sé e 29° no Tatuapé, certamente já terá nevado em Caruaru.

O relaxo da repórter que jogou displicentemente palavras no papel sem refletir no que estava escrevendo ― e, principalmente, sem se preocupar com as consequências de sua incúria ― é sintomático. Entra na categoria do «não-estou-nem-aí», onipresente no dia a dia brasileiro.

O fato de a cidade ter tido de esperar até o século XXI para, enfim, conseguir que as autoridades municipais instalassem uma praia para o lazer de seus habitantes é outro exemplo do mesmo espírito.

Rio Tietê

Rio Tietê há 80 anos

São Paulo, plantada em região chuvosa, cresceu à beira d’água. A natureza é sábia: zonas tropicais, onde precipitações são constantes e abundantes, possuem drenos naturais. Se assim não fosse, pântanos e lagos se teriam formado. A área habitada do município conta com dezenas de escoadouros, fios d’água, tanques, ribeirões, córregos, riachos e rios. Por sinal, a cidade nasceu na junção de dois deles: o Anhangabaú e o Tamanduateí.

A mancha urbana foi-se expandindo lentamente. Um século atrás, a urbanização aproximou-se timidamente do pai de todos, o Tietê. A partir daí, a irresponsabilidade da administração pública encontrou na indiferença da população um forte aliado. Deram-se as mãos. Os danos causados ao conforto urbano têm sido, desde então, imensos e continuados. Em muitos casos, o mal é irreparável, não há volta possível. Um dos desastres maiores é o ‘desaparecimento’ dos cursos d’água que caracterizam nossa região.

Ocultou-se o Ribeirão do Anhangabaú, encoberto pelo vale homônimo. O Córrego do Saracura escondeu-se debaixo da Avenida 9 de Julho. O Ribeirão da Bexiga e o Itororó foram enterrados pela avenida 23 de Maio. Água Branca, Ipiranga, Lavapés, Água Espraiada e tantos outros sumiram do mapa. Literalmente.

Mas a natureza não deixou de ser tropical e úmida. As chuvas continuam caindo e a água, uma vez encharcada a terra, tem de escapar por algum lugar. Privada de seus drenos naturais, ela se acumula em baixios ― daí as enchentes e as inundações.

Outro crime causado pela cupidez imobiliária acumpliciada com sucessivas administrações municipais foi a instalação de um pesado parque industrial nas margens do escoadouro maior: o rio Tietê. Um dos recantos mais bonitos e agradáveis da cidade foi assim trucidado.

Com mais de 1’500km2 de território municipal à disposição, foram escolher justamente o lugar mais aprazível para instalar indústrias poluentes. Aquela região costumava servir para pesca, para lazer e para piqueniques. Onde, até 70 ou 80 anos atrás havia regatas e competições de natação, temos hoje um escoadouro a céu aberto, negro, viscoso, malcheiroso, morto.

Remédio, há. Se os londrinos conseguiram reabilitar seu rio, por que não conseguríamos nós? Pois o governo brasileiro não se vangloriou recentemente de a economia brasileira ter ultrapassado a britânica? E então? O País há de ter capacidade tecnológica e econômica para tratar os dejetos lançados in natura pelas indústrias. Ou não?

Mãos à obra, minha gente! Um Tietê recuperado e despoluído oferecerá possibilidades de lazer bem mais amplas que o acanhado «piscinão» do Tatuapé.

É Natal. Não custa sonhar, não é mesmo? Sai baratinho.

PS: Por coincidência, um dos editoriais do Estadão deste 23/12/2012 discorre sobre uma das tantas consequências do descaso com que vêm sendo tratadas as águas paulistanas desde os tempos de Anchieta.

Brasília by Cingapura

Brasília by Cingapura, NÃO!

Brasília by Cingapura, NÃO!

José Horta Manzano

Pode-se apreciar ou não o estilo de Niemeyer. Cada um é livre de idolatrar ou de detestar o conceptor de muitos prédios de Brasília. De gustibus, non disputandum.

O que não cai bem é conspurcar a memória do arquiteto. Mas isso não parece incomodar mandachuvas de Brasília.

A enxurrada de falcatruas que têm vindo à tona estes últimos tempos ainda está longe de terminar. Você provavelmente ouviu falar do movimento «Brasília by Cingapura, não!». Há algo pestilencial nesse contrato feito, pelo que dizem os jornais, sem licitação.

O futuro de Brasília pensado pelos chineses de Singapura? Acho que, desta vez, estão indo longe demais. Os brasileiros estamos sendo tratados de boçais. Alguns podem até sê-lo, mas a maioria de nosso povo é simplesmente mal-informada. Daí a raiva que dá ver que figurões se aproveitam dessa ignorância generalizada para locupletar-se.

Para quem esteve de férias no planeta Marte nos últimos dias, está aqui a notícia. No Estadão e no site do IAB – Instituto dos Arquitetos do Brasil, secção RJ.

Não estivéssemos em dezembro, eu acreditaria num primeiro de abril.