Canoa furada

José Horta Manzano

Donald Trump acaba de renegar os aliados curdos. Esqueceu-se de que a vitória sobre a Organização Estado Islâmico não teria sido possível sem a preciosa ajuda dos curdos sírios e iraquianos, que reconquistaram corajosamente, metro a metro, casa a casa, o território perdido.

Dois dias atrás, ao levantar-se com pé torto, o presidente americano informou, por um tuíte, que tinha resolvido chamar de volta pra casa os militares americanos estacionados na região. Sem a proteção americana, os curdos estarão expostos ao poderio terrestre e aéreo do temível exército turco. Vão levar muita bomba.

Artigo do Washington Post resume bem a situação:

“President Trump’s erratic foreign policy gives allies good reason to doubt America will follow through on its security commitments or protect friends in their hour of need.”

“A política externa errática do presidente Trump dá aos aliados boas razões pra desconfiar que os EUA não honrarão a promessa de proteger os amigos na hora da precisão.”

Doutor Bolsonaro – nosso arremedo tropical de Trump – tem apostado todas as fichas na pessoa do presidente americano. Sua adoração é pessoalmente dirigida a Donald Trump; não é necessariamente extensiva aos demais 330 milhões de americanos. Com insultos, desfeitas e demonstrações explícitas de desprezo, doutor Bolsonaro tem dado de ombros ao resto do planeta. Está fascinado pela figura de Trump.

Seria importante que algum assessor lhe contasse como os aliados curdos foram tratados. Seria importante que algum assessor o alertasse para a instabilidade emocional de seu ídolo. Em conhecimento de causa, talvez doutor Bolsonaro reflita e modere o comportamento antes que seja tarde. Ou não.

Nesta surpreendente República

José Horta Manzano

Do jeito que vão as coisas nesta surpreendente República, o Lula deve logo estar de volta à cobertura de São Bernardo. Se alguém está torcendo pra encontrá-lo no aeroporto e viajar no mesmo avião, esqueça: Lula não é homem de pôr os pés em aparelho comum e se misturar ao populacho. Desde que, em 2007, foi vaiado no Maracanã, quis ver o povo longe. Só se apresenta a plateias amestradas. Ao despedir-se de Curitiba, voará com as próprias asas – ou com asas amigas, o que dá no mesmo.

Do jeito que vão as coisas nesta surpreendente República, além de ser solto, o Lula deve logo ganhar direito a novo processo. O atual será anulado. Volta tudo à estaca zero. Com uma ajudazinha de nossa lenta Justiça, o homem pode dormir tranquilo: não viverá suficientes anos pra ver o fim do processo. Pode até receber de volta o sítio e o triplex confiscados, com direito a desculpas oficiais e indenização. Não duvide.

Do jeito que vão as coisas nesta surpreendente República, uma vez solto e “desjulgado”, o Lula se agarrará à primeira ocasião de se candidatar à presidência. Será em 2022. Sergio Moro tem dado mostra de que, até lá, deverá ter derretido por completo. Outros eventuais candidatos não são páreo. A disputa se travará entre o Lula e doutor Bolsonaro.

Do jeito que vão as coisas nesta surpreendente República, teremos uma situação do tipo “feitiço contra o feiticeiro”. Me explico. Em 2018, um desprestigiado Lula, no comando de um desgastado PT, foi o grande responsável pela eleição de doutor Bolsonaro. Se o demiurgo de São Bernardo tivesse sido menos arrogante e dado apoio a um candidato da mesma família política mas não afiliado ao PT, o resultado da eleição poderia ter sido outro.

Em 2022, caso os finalistas sejam doutor Bolsonaro e o Lula, a vitória periga mudar de campo. Fortemente desprestigiado com menos de um ano de mandato, o atual presidente deve estar na lona daqui a três anos. Apesar dos reveses, continua arrogante como só ignorantões conseguem ser. Sua antipatia fará dele o grande cabo eleitoral do Lula. Será o feitiço engolindo o feiticeiro.

Dom Bolsonaro Primeiro

José Horta Manzano

Artigo publicado pelo Correio Braziliense em 28 setembro 2019.

Doutor Bolsonaro emergiu das catacumbas de um «baixo clero» tão populoso quanto inexpressivo. Assim que tomou posse do cargo, cercou-se de equipe heterogênea. Ministros de primeira grandeza foram nomeados ao lado de integrantes um tanto folclóricos. O conjunto dos designados até que parecia sólido, feito pra durar. Àquela altura, muita gente fina acreditou na coesão e na longevidade do grupo. Os novos chegados traziam ideias e, até certo ponto, supriam faltas e falhas. Enriqueciam os desnutridos dotes presidenciais. O tempo que passa, no entanto, lesa ilusões.

O presidente não era um habituado dos costumes palacianos. Não contava entre os assíduos dos salões seletos da República. Não tendo antes exercido cargo executivo, não sabia dos beija-mãos e dos rapapés que cercam um chefe de Estado. Há de ser realmente um choque ser alçado, de repente, a tão excelso posto. Da noite para o dia, brotam assessores, serviçais, secretários, auxiliares – um mundaréu de gente. O chefe acaba desaprendendo a simples arte de abrir portas, visto que haverá sempre um solícito assistente pra fazê-lo. Entronizado no novo cargo, doutor Bolsonaro há de ter viajado de surpresa em surpresa. O poder, vitaminado por tantas delícias, é inebriante.

Atualmente, ninguém é capaz de traduzir, à clara, o que ocorre no entorno presidencial. O povo tem a impressão de que, ao votar num presidente, acabou elegendo uma família. Não estava escrito nos santinhos da campanha, mas a realidade é essa. Diferentemente de famílias discretas que reinam em outras terras, a nossa é barulhenta. Num ritual diário, pai e filhos falam pelos cotovelos. Dão entrevista, tuítam, postam, gesticulam, vociferam, ameaçam, humilham, ralham, espinafram, esculhambam, ironizam, atacam.

O eleitor, que tinha esperança de entrar num período mais sereno depois de 15 anos conturbados, sente frustração diante de tamanha violência vinda daqueles que deviam zelar pela pacificação nacional. Do estrangeiro, ecoam protestos contra nosso país. Grandes firmas começam a boicotar produtos brasileiros em razão da apatia do governo federal em matéria de respeito ao meio ambiente. Nossa terra, vítima de embargo! O que era inimaginável está se tornando realidade. Passamos dois séculos a construir imagem de país sorridente, acolhedor e pacífico… pra uma família destruir tudo com um par de tuítes? É insuportável.

The Little King, criação de Otto Soglow (1900-1975)

Por capricho ou erro de cálculo, doutor Bolsonaro tem criado um cordão de vácuo em torno de si. Dos assessores graduados da primeira hora, diversas cabeças já rolaram. Dos que (ainda) não se foram, os mais importantes estão mergulhados em ‘fritura’ a fogo lento. São alvo constante de humilhações e flechadas. Não vão demorar a sair. Com a partida de assessores antes apresentados como excelentes, doutor Bolsonaro está se isolando. Decifrada a charada, aparece a desavergonhada propensão de nosso presidente a tornar-se Dom Bolsonaro Primeiro. É aposta temerária. Ao desligar todas as luzes que lhe estão em torno, o presidente tende a aparecer como farol e guia único da nação. Quer pôr seu nome no topo do edifício, descurando o tremendo risco de ser atingido por um raio.

Daqui a três anos, se ele segurar o cargo até lá, virá a hora do veredicto. Caso a maior parte da população tenha a sensação de que o governo deu certo, Bolsonaro terá ganhado a aposta; será reeleito com um pé nas costas. Se, no entanto, a impressão reinante for de que o governo deu errado – hipótese mais provável –, doutor Bolsonaro terá dado com os burros n’água. A manutenção de nomes de primeira grandeza a seu redor, ainda que ofuscasse sua glória, seria biombo providencial nessa hora. «Não foi culpa minha. Eu dei a ordem certa, foi o ministro X que não cumpriu!» – seria a justificativa. Do jeito que o presidente está fazendo, beberá sozinho o cálice amargo da derrota. Agora, vamos ser francos: doutor Bolsonaro dá mostra mesmo é de sonhar com um golpe militar. No entanto, se esse desastre devesse ocorrer, seria ele a primeira vítima.

Meteu a mão

José Horta Manzano

«O cara meteu a mão» – foi o aveludado diagnóstico proferido por doutor Bolsonaro sobre a situação de Lula da Silva. Como de costume, Jair Messias usou palavras que combinam com seu esmerado discurso. Foi numa entrevista dada segunda-feira ao Estadão.

Na mesma ocasião, Bolsonaro deu sua opinião sobre a concessão de liberdade condicional ao Lula, soltura que o encarcerado recusa. Disse: «É direito de Lula ficar preso lá; quer ficar, fica». O linguajar é pedregoso, mas basta completar as palavras faltantes pra tudo ficar claro.

Discordo da opinião do presidente. Não acho que “ficar preso lá” seja um “direito” do Lula. Acho menos ainda que “se quer ficar, fica”. Levar a vida em liberdade, sim, é um direito de todo cidadão que nada deve à justiça. Já o condenado está com esse direito suspenso. Enquanto não tiver pagado a dívida, terá de “ficar preso lá”. Não por direito, mas por imposição. Não tem escolha. A sentença impôs-lhe cerceamento da liberdade de ir e vir.

Seguindo o mesmo raciocínio, o presidente se engana quando diz “se quer ficar, fica”. Prisão não é a casa da mãe joana. Não entra quem quer quando quer. Não sai quem quer quando quer. Se a Justiça determinar que ele deve ficar, ele fica. Se ela determinar que ele tem de sair, ele tem de sair. Não cabe ao condenado decidir se quer passar um tempinho a mais na cadeia, seja por qual motivo for. Cadeia não é hotel custeado pelo contribuinte.

Nessa história estão todos errados.

Doutor Bolsonaro. Não tem de se meter em assuntos que nâo lhe dizem respeito. Por mais que ele seja estabanado, as regras da liturgia presidencial não se amoldaram a ele; continuam as mesmas de sempre: do presidente, espera-se comedimento.

A Justiça. Não deveria determinar o livramento condicional do Lula justo agora, quando o STF está prestes a tomar decisões cruciais. Fica parecendo politicagem.

Lula da Silva. Deveria mais é meditar sobre a passagem do tempo. Sua idade lhe permite. Cada um tem seu momento. O ápice de sua carreira já passou faz um bocado; não volta mais. Daqui para a frente, é tempo de colher. Seus «deslizes» foram desastrosos e mancharam a biografia. Eventual anulação do processo não o inocenta. Atrasa o processamento da justiça, mas não o torna inocente, nem o isenta de enfrentar de novo os tribunais. A tentativa de ressurgir das cinzas é estéril, que o Lula está na ladeira descendente. O povo está cansado de salvadores da pátria. Os grandes triunfos dele ficaram no passado.

Mañana

José Horta Manzano

O Brasil enxergado pelos estrangeiros se encaixa num clichê imutável. Na composição do quadro, entram: praias, fio dental, caipirinha (ou caipiriña, como se vê em botecos da Europa), clima quente, carnaval, uma certa lentidão nos gestos e na fala, simpatia, bela música, baixa afeição pelo batente e uma grande simpatia por mañana – a arte de postergar. Que nos agrade ou não, é assim que somos vistos.

Entra presidente, sai presidente, o clichê não muda; é inabalável. Por mais que o lulopetismo tenha alçado a corrupção ao patamar de filosofia de governo, o brasileiro não passou a ser visto como indivíduo especialmente corrupto ou corrompível. Não mais do que já era no século passado, antes do Lula. Quanto a doutor Bolsonaro, por mais que arreganhe os dentes e insulte chefes de Estado a mancheias, como fez na ONU, os brasileiros não são passaram a ser vistos como especialmente agressivos ou provocadores.

No duro mesmo, o que o mundo sente é dó do povo brasileiro – assim como nós sentimos pena dos infelizes norte-coreanos, obrigados a sobreviver sob a bota de ditadura cruel. Todo o mundo faz a distinção entre o povo e os dirigentes de turno. Um exemplo? Aqui adiante.

Não deixes para mañana o que puderes fazer hoje. Deixa pra depois de amanhã e assim terás hoje e mañana livres.

Faz poucas semanas, caiu Matteo Salvini, uma das duas cabeças do então bicéfalo governo da Itália. Salvini era aquele que insistia num discurso de ódio e de intolerância, com relentos mussolinianos, num estilo aparentado ao de Bolsonaro. Agora que ele saiu, será que alguém mudou seu conceito com relação aos italianos? Certamente não. Com Salvini no governo ou sem ele, o povo peninsular seguirá sendo visto como sempre foi.

Outro exemplo são os EUA de Trump. Depois que ele tiver pendurado as chuteiras, o povo americano continuará sendo visto como sempre foi. Um governo de turno não tem o poder de distorcer o modo como o mundo enxerga a população do país.

Portanto, fique frio. O Lula e Dilma nos envergonhavam. Na mesma linha, doutor Bolsonaro continua a nos açoitar com um vexame atrás do outro. No entanto, felizmente, o mundo sabe fazer a distinção entre o mandatário-mor e a população. Continuam e vão continuar a nos ver na praia, de fio dental, caipiriña na mão, sempre deixando as coisas sérias para mañana.

Para o bem o para o mal, as coisas são desse jeito. E, pelo momento, a situação continua sem conserto. Mañana, quem sabe?

É irritante constatar a que ponto, no exterior, nossa língua é ignorada em favor do espanhol. Um exemplo está na ordem do dia. Desde que o futuro acordo Mercosul-União Europeia foi anunciado, o nome de nosso claudicante mercado comum tem sido frequentemente citado. Curiosamente, não aparece nunca como Mercosul, mas sempre Mercosur, à espanhola. Vai ver que é pra fazer companhia à caipiriña.

Chirac – o funeral

José Horta Manzano

Quinta-feira passada morreu Jacques Chirac, que foi presidente da França por doze anos, na virada do século (1995 – 2007). Como todo político, teve um lado bom e outro mais escuro. Foi sem dúvida o presidente mais popular destes últimos 50 anos, desde que De Gaulle deixou o poder.

Assim que a notícia chegou, chefes de Estado do mundo todo emitiram nota expessando pesar e deixando algumas palavras de elogio. Quando alguém acaba de falecer, convém lembrar do lado bom. Só se pode começar a falar dos podres depois de alguns dias.

Nesta segunda-feira, teve lugar o funeral, com as honras devidas a todo ex-chefe de Estado. Os franceses são bons nisso. São capazes de organizar cerimônias que, de tão solenes, dão arrepio. Tambores rufando, militares em uniforme de gala, sino de Notre Dame badalando, o Requiem de Gabriel Fauré como fundo musical, a Marselhesa na hora certa – tudo milimetricamente organizado.

Dirigentes de praticamente todos os países se manifestaram. Ou mandaram mensagem, ou compareceram. Na cerimônia, estavam todos os ex-presidentes da França, além de Vladimir Putin, Bill Clinton, o presidente da Itália, o príncipe de Mônaco, chefes de Estado europeus e mais uma centena de personalidades estangeiras. O Lula, sentadinho na palha úmida da masmorra onde vive, não pôde estar presente em Paris; mas reagiu com um tuíte simpático.

Só faltou… quem poderia ser? Faltou Donald Trump! Malcriado e mal-assessorado, o tuiteiro-mor não se dignou de soltar duas linhas em homenagem a um francês que, por sinal, era muito próximo dos EUA, país onde chegou morar durante um ano, na juventude.

E quem é que acompanhou o presidente americano no desdém? Qual é o importante personagem nacional que passa o tempo tuitando e não julgou importante escrever três palavras em nome do Brasil? Quem adivinhar ganha uma passagem de ida simples pra Caracas – de ônibus. Resposta no próximo parágrafo.

Claro! Foi doutor Bolsonaro. Como dizia o Barão de Itararé, «de onde menos se espera, daí é que não sai nada».

Um bom homem

José Horta Manzano

Traduzir não é tarefa das mais simples. Quando o tradutor tem tempo pra refletir, o trabalho é mais maneiro. Mas se o trabalho tiver de ser feito às pressas, então, a coisa se complica. É o que acontece na mídia. Nem sempre há tempo pra lapidar o escrito.

Chamada do Estadão

Um bom homem?
No original Donald Trump qualificou doutor Bolsonaro de good man. “He’s a good man” – foi exatamente o que ele disse. De fato, a good man é um bom homem. To the foot of the letter.(*)

Em geral, o tradutor tem duas opções. Pode ater-se rigorosamente à língua de partida e manter fidelidade a cada palavra. Nesse caso, seu texto poderá às vezes soar estranho, como se falasse com sotaque. Pode também optar por palavra ou expressão que, embora se afaste do original, leva ao leitor a imagem que o autor do texto original quis dar. Esse trabalho visa a «eliminar sotaque», mas toma tempo.

Chamada da Folha de São Paulo

Tanto o Estadão quanto a Folha de SP optaram pela via mais rápida. O good man de Trump virou bom homem. Errado, não está. Mas ficou esquisito, com sotaque. Viria à cabeça de alguém dizer que Collor, FHC, Lula ou qualquer político é um bom homem?

Pra dizer que alguém é bom de coração, o mais comum é defini-lo como um homem bom, expressão raramente usada pra políticos de alto coturno. Corações bondosos são artigo raro nas prateleiras no andar de cima.

Afora isso, sem descambar para o lado sentimental, diremos simplesmente que alguém é boa gente ou boa pessoa. Se tivesse tido tempo o tradutor teria caprichado no trabalho e, certamente, teria chegado a essa conclusão. Faltou tempo.

(*) ‘To the foot of the letter’ é tradução literal de nossa expressão ‘ao pé da letra’. Mas é só pra brincar, que nenhum falante de inglês compreenderia o sentido.

Nossa língua

José Horta Manzano

Surpreso (quem diria!) com a avalanche de críticas ao discurso que pronunciou no púlpito da ONU, doutor Bolsonaro reage e persevera: “Não fui agressivo”. Insiste na tese de que foi um discurso ‘patriótico’, seja lá o que isso quer dizer. Tentou ser espirituoso perguntando se queriam que ele ‘falasse abobrinhas’. Ficou, de fato, gracioso.

Para emendar, voltou a questionar a liderança do velho cacique Raoni, exatamente como já tinha feito na ONU. Não parece ter-se dado conta de que não cai bem um presidente se queixar, perante plateia planetária, do comportamento de um de seus 200 milhões de governados. É como se Monsieur Macron fosse à ONU queixar-se do chefe do movimento dos Coletes Amarelos. Coisa sem pé nem cabeça.

Doutor Bolsonaro desqualificou o cacique ao dizer que «ele não fala nossa língua». Agora ficou urgente. Alguém precisa dizer imediatamente ao presidente que a frase está expressa ao contrário.

Na verdade, somos nós que não falamos a língua dele. Afinal, os povos nativos – como o nome indica – já eram donos destas terras milênios antes da chegada do europeu e do africano. Assim, nós todos é que devíamos ter aprendido a língua deles, e não o contrário.

Contra-bravata

José Horta Manzano

Acabo de ler o relato de entrevista concedida por doutor Bolsonaro a um programa de televisão. A gravação teve lugar em Nova York, logo após o discurso pronunciado no púlpito da ONU. Tenho algumas considerações sobre a conversa entre o presidente e a jornalista.

Desfocados
O presidente asseverou que sua equipe e ele planejaram um pronunciamento “contundente, mas não agressivo”, necessário após “semanas de muito ataque ao Brasil”.

Entre contundente e agressivo, vai uma larga distância. Contundentes foram as palavras de Churchill ao prometer aos ingleses “sangue, labuta, lágrimas e suor”. Agressivo foi o pronunciamento de Trump quando chamou o dono da Coreia do Norte de “homem foguete (rocket man)“. É possível ser contundente sem necessariamente agredir. Pra isso, porém, é preciso arte, artigo em falta no Planalto há décadas.

A equipe de doutor Bolsonaro decidiu-se pelo tom ‘contundente’ após “semanas de muito ataque ao Brasil“. Falácia. Querer socializar os tais ‘ataques’ e compartilhá-los com o Brasil inteiro é malandragem. Os tais ‘ataques’ não foram dirigidos ao Brasil, mas ao presidente Bolsonaro pessoalmente. Não foi o povo brasileiro que insultou dirigentes europeus, foi doutor Bolsonaro. Em seu nome unicamente. O revide, naturalmente, foi dirigido a ele unicamente.

Exagerado
O presidente lembrou que o governo brasileiro não pode controlar focos de incêndio em todo o território da Amazônia. “O tamanho da nossa Amazônia é maior (sic) do que a Europa Ocidental; não tem como manter o controle“ – arrematou. Vamos passar por cima da frase mal construída. Se a gente for parar pra comentar cada pisão na lógica desferido por doutor Bolsonaro, amanhã ainda estaremos aqui.

Vamos ao que interessa: Europa Ocidental é conceito impreciso. É como coração de mãe, onde sempre cabe mais um país. Dado que não é conceito oficial, cada um põe os limites onde lhe agrada. Portanto, usar a Europa Ocidental como base de comparação de área seria proposição de má-fé. A União Europeia, sim, é entidade real, com superfície definida. Vamos supor que a esclarecida equipe de doutor Bolsonaro tenha se baseado nela.

Rápida consulta ao google esclarece a questão. A União Europeia tem superfície de 4.500.000 km2. A Amazônia brasileira (Bolsonaro falou em ‘nossa’ Amazônia) tem 3.000.000 km2. Portanto, a afirmação de que nossa floresta é maior que a Europa é mais que exagerada: é falsa.

Confissão
A entrevistadora puxou a conversa para o terreno pantanoso de eventual intervenção militar na Venezuela. Doutor Bolsonaro descartou toda ação nesse sentido. Disse esperar que as sanções econômicas americanas surtam efeito. (Esquece-se de que, ao que se saiba, sanções econômicas jamais levaram país nenhum a abrir o bico. Contorná-las é fácil como tirar chupeta de recém-nascido.)

E aí veio uma das afirmações mais surpreendentes que se poderiam esperar da boca de um presidente da República. A confissão de que nossas Forças Armadas são fracas, incapazes de enfrentar uma Venezuela. Disse ele: “No Brasil, você sabe que as nossas Forças Armadas, o seu potencial foi bastante diminuído ao longo das últimas décadas. E, pela topografia da Venezuela, qualquer intervenção militar ali, de qualquer país, seria um ‘Vietnã”.

Não é corriqueiro ouvir, do dirigente de um país, a confissão de que suas FFAA são fracas – portanto, incapazes de garantir a segurança do território. Mais comum é ouvir o contrário, afirmações do tipo: “Quem ousar mexer conosco vai conhecer o fogo do inferno”.

Aviso aos navegantes: Quem quiser vir tomar a Amazônia brasileira, esteja à vontade. Nosso exército é fraco. Não sou eu quem diz isso, foi o presidente quem afirmou com todas as letras.

Nem Dilma Rousseff, nos momentos mais delirantes, ousou soltar uma contra-bravata desse quilate.

O adversário maior

José Horta Manzano

Ainda é muito cedo pra pensar na próxima eleição presidencial. Até lá, muita água ainda há de passar pelo Amazonas e, espera-se, também pelo canal de repartição do São Francisco. Ainda assim, se nenhuma catástrofe ocorrer no meio do caminho, o maior adversário de doutor Bolsonaro para a reeleição chama-se Sergio Moro.

Recente pesquisa de opinião do instituto Datafolha constata que a popularidade do ex-juiz é inabalável. Nada parece capaz de derrubá-lo. As revelações sobre conversas inadequadas não degradaram sua imagem. A fritura intermitente a que é submetido pelo presidente tampouco arranhou o elevado conceito em que os brasileiros o têm. Imperial, Moro continua lá no topo. Em matéria de simpatia, deixa o presidente comendo poeira: sua popularidade estacionou 25 pontos à frente da do chefe.

by Gilmar de Oliveira Fraga (1968-), desenhista gaúcho

Bolsonaro está numa sinuca cabeluda. Se conservar Moro no cargo de ministro, estará garantindo fabulosa vitrine ao ex-juiz que, humilhado ou não, continuará no noticiário. Se o demitir, perderá apoiadores e será apupado pelos brasileiros, que enxergam no ex-magistrado caçador de corruptos o garante da lisura da Presidência. Manter Moro na fritura não adianta nada, que sua popularidade parece blindada.

Doutor Bolsonaro só tem uma maneira de afastar Moro do caminho. (Eu até nem deveria dizer estas coisas aqui. Não acredito que o presidente seja leitor do blogue, mas… nunca se sabe.) O único jeito de neutralizar a ameaça é nomear Moro para o STF. Em 2020, uma vaga vai surgir. Que Bolsonaro aproveite a ocasião e esqueça essa bobagem de indicar ministro «terrivelmente evangélico». Dê a cadeira ao ex-juiz.

Se fizer isso, auferirá vantagem múltipla. Contentará a todos os que simpatizam com Moro. Não ferirá a imagem de probidade do Executivo. Asfaltará o caminho que o pode levar à reeleição. E terá, no STF, um integrante que lhe deve favores – o que pode ser uma mão na roda para quando ele deixar a presidência e começarem a surgir os inevitáveis processos.

Viva a ignorância!

José Horta Manzano

Assim como o melhor dos governos tem seu lado sombrio, o pior deles tem também um lado luminoso. Se o período militar foi sinistro em inúmeros aspectos, teve também alguns lampejos. Uma herança das boas é a Embrapa – Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária. Criada em 1973, em pleno governo do general Medici, ela pode hoje ser definida como uma multinacional da pesquisa.

A Embrapa é a estatal brasileira mais importante. Conta com 10 mil funcionários incluindo 2.500 pesquisadores. Entre estes últimos, 84% são titulares de doutorado ou mesmo pós-doutorado obtido em universidades nacionais e estrangeiras. A empresa, presente em todo o território nacional, tem antenas em numerosos países com os quais colabora e troca informações científicas.

Seus trabalhos permitiram introduzir a agricultura no cerrado, bioma que era antes considerado improdutivo e que hoje responde por metade de nossa fabulosa produção de grãos. A tecnologia gerada pela empresa tornou possível multiplicar por quatro a oferta de carne bovina e suína. A produção de frango pôde ser ampliada em 22 vezes.

De importador de alimentos básicos, o Brasil alcançou o patamar de potência exportadora. A Embrapa goza de respeito planetário por seu grau de excelência. Suas pesquisas cobrem todos os biomas brasileiros – Amazônia, Pantanal, cerrado, semiárido, regiões temperadas.

Se o distinto leitor leu o título deste escrito, deve estar se perguntando onde está a ignorância. Pois ela vem agora. Acaba de sair nota informando que o governo federal pretende cortar perto de 50% do orçamento da Embrapa para o ano de 2020. Metade do que é necessário pra permitir a continuidade da pesquisa agropecuária brasileira! A notícia é angustiante. O Brasil não é potência econômica. Está longe de ser gigante bélico. Na política mundial, é anão. O único ponto em que somos globalmente importantes e respeitados é na pesquisa e na produção agropecuária. Em total desvario, o governo não consegue enxergar a importância disso.

Há que constatar que, mesmo com doutor Bolsonaro acamado, a guerra contra o conhecimento continua. Fica claro que a equipe que rodeia o presidente está afinada com ele. A ausência do chefe não é sinônimo de trégua. A obra de demolição segue adiante. No Planalto, continuam todos fiéis ao propósito de impedir que o Brasil suba de patamar. Que seja na difusão da cultura, no ensino universitário ou na pesquisa científica, a ordem é cortar, impedir, barrar, cercear.

O lulopetismo não foi tão longe. O atual governo é uma ode à ignorância.

Não dava

Vera Magalhães (*)

Mesmo não tendo em sua trajetória de deputado sindicalista, corporativista, pró-estatais e infiel a partidos nenhuma obra dedicada ao combate sistemático a privilégios, corrupção estrutural e desmandos de políticos, Bolsonaro conseguiu fazer prosperar na campanha o discurso de que era o mais indicado para empunhar essa bandeira. Como se apenas o contraponto ao PT lhe desse essas credenciais.

Não dava. O histórico político dos gabinetes da família Bolsonaro é o das mais velhas práticas da política: empregar cabos eleitorais, alguns deles fantasmas, muitos deles com ligações perigosas com milícias e outros grupos, com indícios fortes de prática de rachadinha de salários. Jair nunca atuou em nenhuma das grandes CPIs ou no Conselho de Ética da Câmara. Quem caiu na balela o fez porque quis.

(*) Vera Magalhães é jornalista. O texto integral foi publicado no Estadão de 11 set° 2019.

Capricho de filho

José Horta Manzano

A foto de um dos bolsonarinhos – aquele que é vereador – em que o moço aparece aboletado no coche presidencial desfilando na avenida ao lado do pai no Sete de Setembro me deixou meditabundo. Com o perdão da rima.

Já é a segunda vez que ele aparece em cerimônia solene, engravatado, no papel de coroinha. Fosse um meninote de 10 ou 12 anos, seria mais fácil entender. Mas o rapaz é crescido, barbado, já a caminho da calvície. Por que diabo anda grudado na barra da calça do pai? E por que é que aparece justamente nesses momentos solenes?

Na verdade, o problema tem de ser atacado por outro ângulo. Mais importante é saber por que é que o pai carrega o filhinho nessas ocasiões. Afinal, o dono da casa é o presidente. Em teoria, é ele quem manda.

Solenidade oficial não é hora nem lugar pra levar parente. Esposa, ainda vá lá. Filho pequeno, já estamos no limite da tolerância. Filho marmanjo? Sem a primeira-dama? Muito esquisito.

As aparições do filho vereador têm de ser analisadas em paralelo à iminente designação de outro filho – aquele que é deputado – para o cargo de embaixador em Washington. A explicação que corre por aí é que não passa de caso comum de pai satisfazendo ao capricho de filhos que não perceberam que a adolescência acabou. Há outra explicação possivel.

Especular não é pecado nem ofende. Fico aqui cogitando se a tensão que reina na família do presidente não seria mais séria do que se imagina. Que os rebentos queiram satisfazer seus caprichos, dá pra entender. Quem tem pai presidente pode mais que cidadão comum. O que não dá pra entender é que o pai presidente ceda a caprichos estrambóticos dos filhotes.

Por que isso acontece? Será que esses rapazes não estariam de posse de algum segredo familiar altamente incômodo para o pai, o que lhes permitiria chantageá-lo? Algo do tipo «se você não me deixar andar na boleia da carruagem, eu conto» ou ainda «se você não me der a embaixada nos EUA, eu conto». Será isso? É permitido cismar. Quando a presidência patrocina cenas a tal ponto fora de esquadro, toda especulação é autorizada.

Compromisso onusiano

José Horta Manzano

Em respeito a tradição não escrita, o Brasil tem o privilégio de fazer o discurso de abertura de cada sessão anual das Nações Unidas, em sua sede nova-iorquina. É uma deferência e tanto. Logo de manhã, quando têm início os trabalhos, os ouvidos estão ainda frescos e virgens. É o momento ideal pra fazer passar a mensagem do Brasil. Num resumo de dez minutos, o orador dirá a quantas anda o Estado brasileiro e o que propomos para aprimorar a convivência planetária.

Estes últimos anos, nosso país tem enviado o próprio presidente da República a esse honroso encontro de gente fina. Os discursos nem sempre têm estado à altura. A fala ‘menos pior’ que me vem à mente foi a de Michel Temer. Foi a mais comedida, com pouca autopromoção e pouca jactância. É importante lembrar que ninguém está interessado em saber de nossos problemas internos. A hora é propícia pra discorrer sobre as relações entre o Brasil e os demais países, sobre nossa inserção no tabuleiro global.

Este ano, a sessão inaugural do dia 24 de setembro porá o Brasil numa situação delicada. Depois de arrumar briga com uma penca de países, doutor Bolsonaro receia ser alvo de recepção glacial. Há até quem tema a deserção de determinadas delegações. Imagine o distinto leitor fileiras inteiras de participantes se levantando ostensivamente e abandonando o recinto bem na hora em que nosso presidente subir ao púlpito. Uma humilhação.

Também, pudera! O homem se fartou de desprezar, zombar, debochar, escarnecer, achincalhar. Os países árabes (que são mais de 20), a China, a União Europeia como um todo (com seus 27 países), a França individualmente, assim como a Irlanda, a Dinamarca, a Noruega, a Alemanha foram alvo de chacota. Pior ainda, a Argentina e o Chile – nossos vizinhos! – estiveram na mira dos disparos do ‘mito’. Agora vem o troco.

Quando se vê atacado, Doutor Bolsonaro tem mostrado uma reação peculiar: foge da raia. Fez isso já durante a campanha eleitoral, quando recusou participar de debates. Agora que foi eleito, a cada vez que um jornalista lhe faz pergunta embaraçosa, se irrita, solta impropérios e encerra a entrevista. Não seria espantoso se ele se esquivasse e faltasse ao compromisso onusiano. Ou será que ele tem fígado pra encarar uma afronta no palco planetário? O tempo dirá.

Maragancalha

José Horta Manzano

Que presidente esquisito, gente! Acabo de ver a foto do desfile do 7 de setembro. Abrindo o cortejo, vem o Rolls Royce presidencial, aquele que o Brasil recebeu de presente do Reino Unido 65 anos atrás. (Em matéria de antiguidade, o veículo está em competição com a carruagem da rainha.)

Para acompanhá-lo, doutor Bolsonaro não levou o vice-presidente, como seria de se esperar. Tampouco levou a esposa, cuja presença seria simpática e aceitável. Levou um dos filhos, aquele que é vereador e que o pai chama de pit bull, apelido que dá uma pista sobre os bons modos do moço.

Bolsonaro e seu ‘pit bull’ no carro oficial da Presidência

Freud deve poder explicar essa fixação do presidente em fazer-se respaldar pelo filho, como se a Presidência fosse negócio familiar onde gente de fora não é bem-vinda. O filho no lugar da esposa mostra que o negócio, além de familiar, tem de ser tratado entre homens. É clube onde mulher não entra, no mais puro estilo das máfias de cinema e da vida real.

Se eu estivesse no Brasil e quisesse sair à rua hoje, não saberia como me vestir. As cores foram todas acaparadas. Quem sair de verde, amarelo ou azul, cores da bandeira, será visto como bolsonarista. Quem preferir o vermelho será tachado de petista. Se usar preto, todos o tomarão por antibolsonarista. Pra não dar bandeira nem levar pedrada, sobrou o branco. Com o perdão de Iemanjá.

Eu vou pra Maracangalha, eu vou
Eu vou de ‘liforme’ branco, eu vou
Eu vou de chapéu de palha, eu vou
Eu vou convidar Anália, eu vou.

Versos do samba Maracangalha, que Dorival Caymmi lançou em 1956. A gravação original, na voz do autor, está aqui.

Outubro de 2021

José Horta Manzano

Pelo sacolejar da carroça, Lula da Silva estará logo livre. Pra determinar a soltura, o STF terá de agir em três tempos: cassar o julgamento do ex-presidente, anular a confirmação da segunda instância e invalidar a reconfirmação do STJ. Dito assim, parece muita anulação de processo, mas nosso tribunal maior tem mostrado desenvoltura no trato de esquisitices.

Se esse for o figurino, o(s) processo(s) volta(m) para a primeira instância e o Lula volta pra casa. Como qualquer cidadão, terá o direito de concorrer a eleições. Não o imagino candidatando-se a prefeito de Garanhuns, sua terra natal. Acredito que vá direto registrar candidatura para a Presidência. Na época da eleição, em outubro de 2021, nosso guia já estará com 76 anos. Seu bom aspecto, no entanto, parece indicar que está em boa saúde. Idade, em si, não é doença.

Supondo que o presidente atual aguente de pé até o fim do mandato, teremos uma situação curiosa. De um lado estará doutor Bolsonaro, que já declarou intenção de candidatar-se à própria sucessão. Do outro, Lula da Silva, concorrendo pela sexta vez.

Vamos agora fazer continha de chegar. Suponhamos que tanto o Lula quanto doutor Bolsonaro contem, cada um, com o apoio de um terço do eleitorado. São os ‘ultras’, os incondicionais, os devotos. Se meus números não estiverem muito longe da verdade, pode-se apostar que ambos têm lugar garantido no segundo turno. É aí que começa o dilema para o último terço do eleitorado, aquele que não reza pela cartilha de nenhum dos dois, mas cujo voto vai decidir a eleição. Que rolo, coronel!

Da última vez, ocorreu algo semelhante. Lula da Silva, retido por compromissos inadiáveis em Curitiba, nomeou procurador pra representá-lo. As pesquisas apresentaram doutor Bolsonaro como o único Quixote capaz de vencer o lulopetismo.

Do Lula, sabíamos que havia permitido o assalto aos cofres da nação. Desgostosa, a maioria do eleitorado não queria um repeteco. De doutor Bolsonaro, não se sabia grande coisa. Seus apoiadores ‘de raiz’, somados aos eleitores que não queriam o lulopetismo de volta, formaram maioria. Vai daí, venceu Bolsonaro.

Desta vez, o nó será bem mais apertado. O Lula continua o mesmo, não mudou nem um nadinha. Persiste em negar beatamente a feia realidade que todos conhecemos. Seus protestos de pureza soam falso. De doutor Bolsonaro – a incógnita da última eleição –,temos agora um balaio de informação. Se ainda estamos procurando suas qualidades, conhecemos bem seus abundantes defeitos.

O dilema, portanto, será pontudo. Todos os que não forem lulistas de carteirinha nem bolsonaristas de coração estarão numa sinuca complicada. Não queremos que nenhum deles seja presidente do país. Mas teremos de escolher ‘entre a peste e a cólera’, como dizem os franceses. Não vai ser fácil. Preparem-se.

A floresta e os netinhos

José Horta Manzano

Artigo publicado pelo Correio Braziliense em 31 agosto 2019.

Quando o Congresso de Viena se reuniu, duzentos anos atrás, o mundo era bem diferente. No Extremo Oriente, China e Japão ainda viviam sua Idade Média. A Índia, pobre e desunida, estava prestes a sucumbir à mão de ferro do Império Britânico. Na África, fora raras exceções, os povos ainda não estavam organizados; Estados, na acepção atual, não haviam se formado. Nas Américas em pleno processo de emancipação, os países independentes eram frágeis demais para atuar na cena mundial. Restava a Europa.

Reinos e impérios europeus constituíam as potências da época. Foram eles que se reuniram em congresso para redistribuir as cartas que Napoleão havia embaralhado. Naquele tempo, um encontro desse tipo fazia sentido. As decisões tomadas no clube dos donos do mundo não eram passíveis de contestação. Entravam em vigor, ponto e basta. E olhe que não eram resoluções de pouca importância: com as fronteiras europeias sendo redesenhadas, cada pedaço de terra era cobiçado. Doze eram as potências reunidas. Tivesse ocorrido hoje, o Congresso de Viena ganharia o apelido familiar de G12.

Dois séculos – e muitas guerras – se passaram. Foi-se o tempo em que um fosso separava as regiões periféricas das potências dominantes. Acabou-se a era em que só um punhado de gigantes comandava. O mundo hoje é matizado. O dégradé começa da potência maior e vai deslizando, em declive suave e contínuo, até o mais deserdado dos países. Já não vigora a divisão rigorosa entre países ricos e países pobres. Há nações de «classe média» ascendente.

Reuniões do G7, como a organizada no passado fim de semana, têm ares anacrônicos e cheiram a naftalina. Desse tipo de encontro, raramente brotam soluções para os problemas da humanidade. Numa mostra explícita de hipocrisia, o clube exclui a China, hoje segunda potência do planeta – um disparate! A Rússia, dona de importante economia e terrível potencial bélico, tampouco faz parte do convescote. Foi posta de castigo, como se isso fosse benéfico para a convivência entre nações. Não há que se diga: essas reuniões de gente fina que arremedam o venerável Congresso de Viena já não impõem. Pálidas imitações do original, só servem para gastar dinheiro público.

Se Monsieur Macron incluiu as queimadas da Amazônia brasileira na pauta de discussões, não terá sido exatamente por ser ecologista de carteirinha. De olho em 2022, ele está mesmo é preparando a reeleição. Pra chegar lá, tem de passar aos eleitores imagem de líder forte, combativo e, acima de tudo, empenhado na defesa do planeta, como manda o figurino atual. A luta pela preservação dos recursos naturais é legítima e louvável, mas a súbita profissão de fé do líder francês cheira a oportunismo.

Semana passada, doutor Bolsonaro se encrespou com o colega francês. Foi quando Macron, ao se referir à selva equatorial sul-americana, chamou-a de «nossa Amazônia». Bolsonaro inferiu que a França está interessada «em ter um dia um espaço aqui, na região amazônica». Enfurecido e sem se aconselhar, soltou a insinuação. Quanta tolice, capitão!

A França já tem «um espaço aqui». Fosse menos precipitado, doutor Bolsonaro teria evitado essa gafe. A Guiana Francesa, nossa vizinha de parede, é território francês e tem 97% da superfície coberta pela floresta amazônica. Isso dá a Macron o direito de dizer o que disse. Um exame de conhecimentos gerais deveria ser exigido dos pré-candidatos ao Planalto. Só quem passasse poderia registrar candidatura. No dia em que um filtro desse tipo for instalado, passaremos menos vergonha. A marca deste peculiar começo de século é a subida ao trono de indivíduos de poucas luzes. Eles tocam desafinado, e quem troca os pés somos nós.

Enquanto isso, senhores, a mata está queimando. Árvores e bichos vão desaparecendo. Se alguém pode tomar atitude eficiente, não será o G7. Muito menos Monsieur Macron. A salvação da lavoura repousa nas mãos firmes de nosso presidente. Cabe a ele decidir se, um dia, diremos a nossos netos: «Sabe, Pedrinho, no meu tempo, esta floresta era bem mais extensa». Ou se seremos obrigados a confessar: «Sabe, Pedrinho, no meu tempo, aqui havia uma floresta».

Erros de português

Sérgio Rodrigues (*)

O perfil do presidente da República no Twitter inventa a grafia “fácelmente”, mais original que o plural “cidadões” do encarregado do Enem. Para não ficar atrás, seus filhos criam o plural de raiz em “raises” e o ponto mais baixo possível como “fundo do posso”.

Deixemos de lado o potencial poético de “fundo do posso”, com sua insinuação de um limite último e inapelável para toda forma de poder. Por critérios escolares muito valorizados pelas multidões conservadoras que apoiam os personagens acima, todos são erros feios de português.

“Ah, e o Lula? Errava pouco?” Chegaremos lá. Primeiro vamos combinar que “erro de português” não é um tema simples. Julgamos merecedoras de enfática correção e até de escárnio grafias baseadas na fala (“fugiro”) e construções da gramática popular que ignoram a culta concordância (“os preso fugiro”), mas toleramos palavras sem sentido algum numa petição judicial.

Num país em que a desigualdade social é um aleijão, a linguística tem denunciado a carga de discriminação socioeconômica – o que, no caso do Brasil, significa dizer também racial – embutida na caça agressiva a manifestações de português “errado”.

É por isso que, para o senso comum, sociolinguistas pregam o vale-tudo, como se o erro não existisse. Errado. Eles sabem que a língua de documentos, leis, literatura e outros discursos de prestígio é de importância vital, e universalizar seu ensino, tarefa de qualquer Estado democrático. Nesse âmbito, o erro não só existe como pode custar caro.

Seja como for, apontar o dedo para a língua dos outros foi deixando de ser diversão garantida, ainda bem. (Por outro lado, a escola continua a valorizar um ensino rico em decoreba e pobre de leitura, com provas cheias de pegadinhas tolas – mas esta é outra coluna.)

Um exemplo da mudança de ares: a imprensa rolou de rir com o “imexível” do então ministro Antonio Magri. Era 1990. Poucos anos depois, as bicudas de Lula na gramática culta teriam recepção bem diferente.

Sim, a depreciação continuava lá. As lulices eram comentadas privadamente ou por alusões. Ria-se delas, mas sua tematização pública aberta, restrita a opositores mais duros, tendia a ser considerada no mínimo de mau gosto.

Na minha opinião, era. Lula fez um grande mal à educação brasileira quando a declarou perfeitamente dispensável, autonomeando-se a maior prova desse fato, mas seus desvios do português padrão – que foram escasseando com o passar do tempo – nunca me pareceram um problema.

No entanto, hoje eu vejo um claro problema cultural, quem sabe até cívico, nos fartos sinais de falta de intimidade com a língua culta espalhados pelo presidente e seu séquito. Se algo de absoluto pode ser dito dos erros de português, é que seu peso é sempre relativo.

Quanto mais chance de estudar a pessoa tiver, quanto maior for seu poder, quanto mais ela pregar a obediência à tradição, quanto mais transformar professores em bodes expiatórios e cultivar em área tão crítica marquetices politiqueiras como a “Lava-Jato da educação” – tanto mais justo será medi-la pela régua com que mede o mundo.

Do contrário, a impressão que ficaria é que o analfabetismo funcional crônico, essa praga brasileira, está tão impregnado no sistema que agora tanto faz. Seria trágico: a língua não precisa de lei para ser um símbolo nacional muito mais importante do que todos os hinos da República.

(*) Sérgio Rodrigues é escritor e jornalista.