Compromisso onusiano

José Horta Manzano

Em respeito a tradição não escrita, o Brasil tem o privilégio de fazer o discurso de abertura de cada sessão anual das Nações Unidas, em sua sede nova-iorquina. É uma deferência e tanto. Logo de manhã, quando têm início os trabalhos, os ouvidos estão ainda frescos e virgens. É o momento ideal pra fazer passar a mensagem do Brasil. Num resumo de dez minutos, o orador dirá a quantas anda o Estado brasileiro e o que propomos para aprimorar a convivência planetária.

Estes últimos anos, nosso país tem enviado o próprio presidente da República a esse honroso encontro de gente fina. Os discursos nem sempre têm estado à altura. A fala ‘menos pior’ que me vem à mente foi a de Michel Temer. Foi a mais comedida, com pouca autopromoção e pouca jactância. É importante lembrar que ninguém está interessado em saber de nossos problemas internos. A hora é propícia pra discorrer sobre as relações entre o Brasil e os demais países, sobre nossa inserção no tabuleiro global.

Este ano, a sessão inaugural do dia 24 de setembro porá o Brasil numa situação delicada. Depois de arrumar briga com uma penca de países, doutor Bolsonaro receia ser alvo de recepção glacial. Há até quem tema a deserção de determinadas delegações. Imagine o distinto leitor fileiras inteiras de participantes se levantando ostensivamente e abandonando o recinto bem na hora em que nosso presidente subir ao púlpito. Uma humilhação.

Também, pudera! O homem se fartou de desprezar, zombar, debochar, escarnecer, achincalhar. Os países árabes (que são mais de 20), a China, a União Europeia como um todo (com seus 27 países), a França individualmente, assim como a Irlanda, a Dinamarca, a Noruega, a Alemanha foram alvo de chacota. Pior ainda, a Argentina e o Chile – nossos vizinhos! – estiveram na mira dos disparos do ‘mito’. Agora vem o troco.

Quando se vê atacado, Doutor Bolsonaro tem mostrado uma reação peculiar: foge da raia. Fez isso já durante a campanha eleitoral, quando recusou participar de debates. Agora que foi eleito, a cada vez que um jornalista lhe faz pergunta embaraçosa, se irrita, solta impropérios e encerra a entrevista. Não seria espantoso se ele se esquivasse e faltasse ao compromisso onusiano. Ou será que ele tem fígado pra encarar uma afronta no palco planetário? O tempo dirá.