Tempos estranhos

Bloqueio da Esplanada dos Ministérios, Brasília

José Horta Manzano

Quase duas décadas atrás, da primeira vez que utilizou a expressão “tempos estranhos” para designar um momento de tensão particular na vida nacional, Marco Aurélio Mello, então ministro do STF, decerto não imaginava que sua definição teria vida tão longa.

A expressão, cunhada nos tempos do Mensalão, entrou de fato para o vocabulário da política nacional e lá se deu tão bem que permanece até hoje. Desde que chegou, ela vem sendo repetida a cada nova barbaridade de nossas autoridades federais.

Nesta execrável era bolsonárica – que ainda há de ser amaldiçoada pelos historiadores do futuro –, a expressão continua válida. E como! Tempos tão estranhos, o país nunca tinha vivido. Nenhum afiado futurólogo do século 20 teria jamais vislumbrado na bola de cristal um período como o atual, mais destrutivo do que muita guerra.

Vejamos então. Faz meses que o capitão açula sua malta a manifestar-se com violência contra o voto livre e secreto e contra a mais alta magistratura do país. Seu DembishDepartamento de Manipulação dos Baixos Instintos do Ser Humano (também conhecido como Gabinete do Ódio) – concluiu que o Sete de Setembro, a data maior da nação, seria excelente momento para deixar explodir a violência que lampeja atrás dos olhos injetados de seus sequazes.

À vista de uma turbulência que imensa maioria da população não aprova e não deseja, autoridades de bom senso tiveram de agir. A inauguração do novo Museu do Ipiranga e as manobras navais previstas na baía de Guanabara viram seu calendário chacoalhado. Para não soprar sobre as brasas acesas pelo presidente, tiveram de afastar-se do dia sete.

Diferentemente da tradicional bonomia dos festejos da Independência, dia de parada e bandeirinha, autoridades de Brasília tomaram decisão drástica: o bloqueio ao tráfego da Esplanada dos Ministérios. Ninguém passa.

Quando a expressão “tempos estranhos” foi forjada, havia monumental roubalheira mas ninguém tinha medo. A situação hoje se agravou exponencialmente. O assalto – declarado ou suputado – aos cofres da nação deixou o estágio das “obscuras transações” de outrora e tornou-se oficial: orçamentos secretos, ao melhor estilo ditatorial, se encarregam de saquear as burras à luz do meio-dia. E em toda legalidade.

O problema maior é que, além de esbulhado pela “elite” política, o povo vive hoje com medo. Instalou-se uma situação de insegurança que o brasileiro não vivenciava desde os tempos sombrios da ditadura. A pobreza, a miséria, a ignorância, a desigualdade perduram, mas agora o temor do amanhã veio se adicionar aos conhecidos males da nação.

À espera do dia em que essa malta rasteira e estridente será desalojada pelo voto, o Brasil pensante se dá as mãos para neutralizar as consequências das decisões malévolas e maléficas do presidente.

E assim vamos, qual cegos em tiroteio, com jogo de cintura, desviando pra cá e pra lá, tratando hemorragia com esparadrapo, fugindo do capitão, de olho num outubro que nos tire do sufoco.

Como seria bom se a expressão “tempos estranhos” caísse logo em desuso.

Lei Maria da Penha ou pistola?

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Depende, senhor presidente. Se o “problema” em questão que presumivelmente poderia ser causado por essa tal “gente” que caminha em sua direção numa estrada deserta for uma ameaça de estupro e a mulher em questão for feia, o risco será mínimo para ela, segundo o senhor mesmo fez questão de ressaltar em outra ocasião.

Se for uma mulher bonita e conseguir sair viva da situação ilustrada, as duas ferramentas sugeridas mais do que provavelmente serão de pouca ou nenhuma valia. Antes de mais nada, é preciso dizer que elas são tão comparáveis em termos de eficácia para combater a violência contra a mulher quanto um nécessaire e uma jaca. A arma pode falhar, como aconteceu recentemente no atentado contra Cristina Kirchner. O indivíduo (ou os indivíduos, não restou claro) pode tomar a arma da mão da mulher, imobilizá-la e deixa-la ainda mais vulnerável, como o senhor mesmo contou que lhe aconteceu durante um assalto no passado. O tiro pode não atingir o potencial agressor ou só atingi-lo de raspão e deixa-lo ainda mais furioso e violento.

Já para “sacar” a lei Maria da Penha, seria preciso que a mulher vítima de uma tentativa de estupro, assalto ou assassinato se dirigisse a uma delegacia de polícia (ou a uma delegacia da mulher, caso houvesse uma na região), esperar o horário de abertura na manhã do dia seguinte e contar com a boa vontade do policial de plantão para registrar um boletim de ocorrência. Antes, porém, ela certamente teria de passar por um detalhado interrogatório, no qual lhe seria perguntado, dentre outras coisas: O que você fazia àquela hora numa estrada deserta? Como estava vestida? Havia bebido ou consumido drogas? Deu causa de alguma forma para o ataque ou o facilitou, seja não resistindo à aproximação do agressor e abrindo a porta do carro, seja sorrindo para ele e pedindo ajuda para trocar o pneu?

Para piorar, poderia acontecer de o delegado de plantão se recusar a registrar a ocorrência, alegando não ter havido nenhuma lesão física digna de nota, como aconteceu recentemente com uma senhora negra, esquálida e frágil, de 51 anos de idade, que teve seu pescoço (ou parte de cima das costas, como pretende o advogado de defesa) pisado por um brutamontes policial de mais de 80 quilos. Depois de recorrer a um advogado para ter seus direitos respeitados, essa mulher, no máximo, voltaria para casa com um papel na mão e esperaria sentada por meses ou anos até que o agressor (de quem ela desconhece a identidade, diga-se de passagem) a atacasse novamente ou fosse preso pela prática do mesmo ou de outros delitos. Se e quando isso acontecesse, a vítima poderia então entrar com um pedido de medida protetiva na justiça. Mesmo assim, se o agressor desrespeitasse a exigência de afastamento, só restaria a ela registrar um segundo boletim de ocorrência – e assim sucessivamente até a data de seu velório.

Outro dado relevante que precisaria ser levado em consideração para fazer uma escolha sensata e bem-informada do melhor jeito de reagir numa situação como a aventada diz respeito à sua suposição de que a “gente” que vem em sua direção “pode lhe causar problema”. Não ficou claro em sua douta exposição, senhor presidente, a partir de quais evidências essa impressão se concretizou: tratava-se de uma pessoal mal-encarada, segundo os critérios policiais? Talvez tivesse um olhar frio, vidrado, desses de quem consome drogas? A forma como estava vestido? Estava em atitude suspeita, atrás de um poste ou escondido embaixo de um viaduto? Portava algum objeto ameaçador nas mãos? São muitas as hipóteses e poucas sustentáveis a priori. Poderia ser, convenhamos, um simples transeunte ocasional, um morador da área, alguém voltando do trabalho e, quem sabe, até mesmo uma pessoa de boa vontade, querendo ajudar.

Digo isto porque já me aconteceu de ter o pneu estourado num cruzamento da Avenida Santo Amaro numa noite chuvosa, ter sido abordada por um cidadão – negro, veja só – que, sorridente, se aproximou da minha janela e se prontificou a me tirar daquela aflição, empurrando o carro e trocando o pneu em poucos minutos, sem nem mesmo esperar por gratificação. Tsc, tsc, tsc. Está claro que o senhor precisa conhecer melhor o “seu povo”, presidente, não apoiar suas convicções somente em seus fanáticos apoiadores mas também na gente simples e solidária que habita invisivelmente esta terra.

Além disso, capitão, não é nem preciso dizer que o [mau] hábito de atirar antes de perguntar, que está implícito na sua sugestão, deveria ser combatido e não incentivado. Esse é o traço mais distintivo da polícia militar brasileira desde sempre, usado com especial ênfase no período pós-ditadura. As manchetes sanguinolentas relativas aos constantes entreveros nos morros do Rio de Janeiro e na periferia de todas as demais capitais, com um número espantoso de vítimas colaterais, crianças e adolescentes desarmados, estão aí para quem quiser confirmar.

A defesa do excludente de ilicitude que tanto o anima está assentada exatamente nessa pressuposição de que há cidadãos de primeira categoria, honrados e cônscios de seu papel social, os militares e os PMs, e outros cidadãos de quinta categoria, os civis não pertencentes à elite branca heterossexual, que devem obediência irrestrita ao arbítrio das “otoridades” de plantão. Será que essa mentalidade já foi absorvida também pelos atuais detentores de posse e porte de armas, contaminando até mesmo aqueles que se dizem cristãos? Falando nisso: curiosamente, não lhe ocorreu sugerir que o melhor seria “entregar nas mãos de Deus” a solução do problema. Já que o senhor estava num templo evangélico, circundado exclusivamente por mulheres, seria de bom alvitre reforçar a tese de que o Altíssimo o ajudará a cuidar da segurança pública em um eventual segundo mandato seu, já que teria sido Ele a indicá-lo para o cargo presidencial ‘against all odds’.

Pensando em tudo isso, sinto dizer, senhor presidente, que, como de costume, seu pretenso argumento de apreço pela defesa da mulher foi miseravelmente infeliz. Ou melhor, como tudo que sai de sua boca, não passou de mais um ato falho para sua coleção de disparates. No seu inconsciente, onde pululam os vermes comedores de cérebro da “ideologia de gênero”, não deve haver espaço mesmo para indicar outras medidas civilizatórias, como melhor iluminação pública, serviço de assistência 24 horas nas estradas acessível online, carros de polícia circulando à noite por locais afastados do centro, etc. Acima de tudo, não lhe ocorreu a única medida realmente eficaz, já testada em diversos outros países com sucesso: a educação sexual nas escolas para meninos e meninas desde a primeira infância. Complementada preferencialmente por acesso universal a serviços de saúde mental para os transgressores.

Saiba que a única mensagem transparente – e auditável – que o restante da população recebeu foi a de que as mulheres brasileiras – sejam elas ou não portadoras de vaginas, como diz elegantemente seu filho 03 –, não podem se sentir seguras em lugar nenhum deste país, nem dentro nem fora de casa.

Segure suas cabras que meu bode vai sair para pastar…

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

A juíza e o juízo

José Horta Manzano

Na sexta-feira 2 de setembro, o site do TSE (Tribunal Superior Eleitoral) passou a exibir a nova regra relativa ao porte de telefone celular na cabine de votação.

O aparelhinho continua proibido, assim como todo dispositivo que permita fotografar, filmar ou registrar o voto. A novidade é que o telefone celular será retido pela mesa eleitoral enquanto o eleitor vota. O cidadão que se recusar a entregar seu aparelho perderá o direito de votar.

A resolução não prevê exceção para cidadãos STC (sem telefone celular), como este blogueiro. Fico a imaginar a cara de espanto dos jovens mesários quando eu lhes contar a exótica verdade. Estou até pensando em tomar um telefone emprestado, só pra não causar mal-estar.

O mui sério e mui oficial site do TSE estampa as novas disposições(1). O trecho mais impressionante é o seguinte:

“Havendo recusa em entregar os equipamentos descritos, a eleitora ou o eleitor não serão autorizados a votar e a presidência da mesa receptora constará em ata(2) os detalhes do ocorrido e acionará a força policial para adoção de providências necessárias, sem prejuízo de comunicação a juíza ou ao juízo eleitoral.(3)

Considero que o confisco temporário do telefone de bolso é medida de bom senso. Inibe tanto o voto comprado quanto o voto de cabresto. O que me incomoda é a redação do comunicado. Vejamos.

(2) Constará em ata
Quem redigiu a frase ignora o significado do verbo constar. Nessa acepção, significa aparecer, ser mencionado. Ora, não é a presidência da mesa que vai aparecer na ata. A obrigação da presidência da mesa será fazer constar na ata. Se preferirem um único verbo, podem dizer que a presidência lançará em ata os detalhes do ocorrido.

(3) A juíza e o juízo
Li, reli e tresli a frase tentando adivinhar a intenção de quem a redigiu. Ainda estou na dúvida. Quem será o juízo? Pensei que talvez estivessem fazendo referência ao juízo eleitoral, ou seja, a instituição judiciária eleitoral. Se assim fosse, que estaria fazendo a juíza na frase?

Reflexão feita, acabei entendendo que o “politicamente correto” passou por ali. O redator devia estar com intenção de se referir à juíza e ao juiz, mas – oh céus! – digitou mal. Saiu “à juíza e ao juízo”. Ninguém releu, e o texto virou lei.

“A juíza e o juízo” me lembra uma historinha infantil em que se perguntava qual era o marido da vaca, e a resposta vinha: “É o vaco”.

(1) Se alguém quiser conferir no site do TSE, é por aqui.

Atentado

José Horta Manzano

A língua francesa formou o substantivo attentat tomando como base o verbo attenter, que é filhote do latino attentare. Em latim, o verbo significava pôr em prática qualquer meio para que uma coisa seja bem sucedida.

Nossa língua foi buscar o substantivo francês e o aportuguesou: virou atentado. O sentido continua bem próximo ao original. Em atentado, está embutida a ideia de tentativa. Como toda tentativa, tanto pode dar certo como não.

A vice-presidente da vizinha Argentina foi ontem vítima de um atentado. Um indivíduo apontou uma arma, tentou atirar, mas a bala não saiu. A vice-presidente teve sorte. O agressor, menos. Além de não ser bem sucedido, foi dormir atrás das grades.

A Folha de SP acertou ao dar a notícia. Falou em “atentado contra Cristina”. Correto.

Folha de São Paulo

 

 

O Globo também acertou. Foi até mais longe. Falou em “tentativa de assassinato”. Correto.

O Globo

 

 

Já o Estadão escorregou. Tratou a notícia de “tentativa de atentado”. Além de soar complicado (tentativa de atentado), desvirtua a verdade. O que o agressor cometeu foi um atentado de verdade, não uma “tentativa”. Se não deu certo, é uma outra história.

Estadão

 

 

Se o redator fizer questão de qualificar o ato, pode falar em atentado falho, atentado fracassado, atentado infrutífero, atentado frustrado – ou outro adjetivo parecido.

Mas é bom não esquecer que, apesar de o agressor não ter conseguido chegar a seus fins, o ato foi um atentado de verdade, não só um ensaio ou uma tentativa.

Em dinheiro vivo

José Horta Manzano

Levantamento feito pelo UOL dá conta das atividades do clã Bolsonaro no mercado imobiliário. A família é mais ativa do que muito escritório imobiliário por aí. Nos últimos trinta anos, Jair (deputado, depois presidente), irmãos e filhos transacionaram um total de 107 imóveis. Pra quem não é do ramo, é um currículo apreciável.

Só que tem um particular: entre os imóveis comprados, 51 foram pagos parcial ou inteiramente em dinheiro vivo. Fazendo as contas e atualizando os montantes pela inflação, dá o estonteante total de R$ 26,5 milhões. Em notas, talvez transportadas numa sacola e empilhadas no balcão. Sabe que espaço é necessário pra armazenar R$ 26,5 milhões? Um quarto cheio.

Nestes tempos de judicialização extrema, a imprensa trata o assunto com luvas de pelica. Os textos saem com expressões cautelosas, aspas e verbos no condicional: “suposta lavagem de dinheiro”, “teria sido gasto”, “poderia tratar-se de rachadinha”, e por aí vai.

Dado que Seu Lobo não chega aqui, tiro as aspas, dispenso o condicional e digo o que penso: está evidente que o dinheiro provinha de negócios subterrâneos, que não podem ser expostos à luz do meio-dia. Rachadinha? Pode ser, se bem que os montantes me parecem elevados demais. Cobrança de proteção garantida por milicianos? Vai saber. Extorsão, chantagem ou outros crimes graves? É permitido cogitar.

Bom, não vamos aqui entrar no mérito da questão. De toda maneira, qualquer denúncia será abatida em voo pelo aparato de segurança que (ainda) protege o capitão. Eu queria é comentar a naturalidade com que esse negócio de pagamento em dinheiro ocorre no Brasil, enquanto, em terras mais avançadas, não existe.

Nos países da Europa ocidental, é simplesmente proibido comprar imóvel com dinheiro vivo. O pagamento tem de transitar necessariamente por um banco. Essa regra, em si, já é um grande passo em direção à transparência. Um cheque ou uma transferência bancária deixam rastro indelével. A todo momento, pode-se saber quem pagou e de que conta saiu.

Ainda que o comprador tivesse – pode acontecer – o dinheiro do pagamento armazenado em malas ou em cuecas, não adianta: terá de depositar o montante numa conta bancária e só então mandar fazer a transferência. Só que, nesse caso, surge novo problema. Hoje em dia, é complicado depositar grandes quantias no banco. Tem de justificar, com prova documental, a origem do dinheiro. Se o depositante não conseguir provar a origem, o banco não aceitará o depósito.

Há mais porteiras para cercear o florescimento de uma economia subterrânea, como o caso dos Bolsonaros parece denunciar. No entanto, pra começar a drenar esse pântano em que se movimentam criminosos de toda espécie, as duas primeiras medidas já seriam bem-vindas:

1. Que se proíbam transações imobiliárias em dinheiro vivo.

2. Que se determine aos bancos investigar a origem de depósitos em dinheiro a partir de um determinado montante.

É verdade que estamos caminhando para um mundo desmonetizado, em que notas de dinheiro estão entrando em via de extinção. Daqui a duas décadas, rolos como esse dos Bolsonaros (e de tanta gente mais) não serão possíveis. Mas não custa dar um empurrãozinho no destino e começar desde já a apertar a porca.

Malas e cuecas vão assim voltar a ser destinadas à finalidade para a qual foram concebidas.

Deu no Stern

José Horta Manzano

Stern, revista semanal alemã com tiragem de um milhão de exemplares, publicou análise da campanha eleitoral brasileira. O título já dá o tom:


Wahlkampf in Brasilien: Es geht um nicht weniger als die Zukunft der Demokratie

Campanha eleitoral no Brasil: nada menos que o futuro da democracia está em jogo


Na apresentação dos dois principais candidatos, não se perde tempo bordando a bainha. Os alemães são concisos e vão direto ao ponto, dando apenas uma síntese de cada personagem:


O ex-militar que um dia aterrissou na prisão por envolvimento em tumultos contra o ex-líder sindical que um dia aterrissou na prisão sob acusações de corrupção.


Precisa dizer mais?

Que tal dar adeus ao voto útil e escolher candidato mais palatável no primeiro turno? Tebet, Thronicke, até Ciro. Muita gente acha melhor quitar a fatura no primeiro turno para evitar um segundo. Pensam tirar do caminho a ameaça de golpe.

Quanto a mim, acredito que a ameaça de golpe está no ar desde o primeiro dia do capitão na Presidência. E lá ficará até o último dia. Não me parece que um segundo turno de eleição aumente o risco. Pelo contrário: tendo falhado no primeiro, o capitão perderá força e embalo.

Aviso aos navegantes: a candidata do PCB, que se chama Sofia Manzano, não tem relação de parentesco com este blogueiro. Mas, se alguém tiver simpatia pelo partidão, que vote nela. Por que não?

31 de agosto, 1960

Eduardo Affonso (*)

– Você vai à parada do dia 7 tocando bumbo – garantiu o obstetra à minha mãe.

Não deu.

E ela gostava tanto de setembro. Casou-se em setembro. Um de seus filmes favoritos – ao lado de “As neves do Kilimanjaro” e “Candelabro italiano” – era “Quanto setembro vier”.

Quando setembro viesse, viria o segundo filho. De preferência, uma filha.

Esperara um ano antes pela Rita de Cássia, e vim eu. Desta vez, em setembro, Rita de Cássia haveria de vir.

Mas no dia 31 do mês do agouro, dos ventos e dos cachorros loucos, sentiu que o tempo virava – lá fora e dentro de si.

Entrou em trabalho de parto enquanto o céu começava a desabar – ou o céu desabou quando ela começou a sentir as dores, não é mais possível saber, e não faz diferença, pois não há relação de causa e efeito. Ou há?

Imaginemos que à primeira contração correspondeu um relâmpago, à segunda um trovão, às seguintes as janelas fechadas às pressas, e então as telhas voaram, e a água desceu pelas paredes, pelo bocal da lâmpada, até que se pôde ver o céu faiscando por entre as frestas do forro de madeira, e o quarto foi inundado.

Minha vó acudiu com rezas e panos. Meu avô abriu um guarda-chuva sobre a cama, para proteger a parturiente – avô, avó, cama, todos com água já pelas canelas.

Minha mãe queria que tudo acabasse logo – o vendaval, as dores – mas queria também que desse logo meia-noite e fosse setembro. E nem setembro chegava, nem o temporal se ia.

Às 11 e tanto, ainda sob a tempestade e o guarda-chuva, envolvida pelas ave-marias e salve-rainhas que tentavam subir aos céus se esgueirando por entre os raios e trovões, foi mãe de novo.

No quarto inundado, fez ela mesma o batismo com o resto de água benta guardada no armário, antes que o teto viesse a desabar e o bebê morresse pagão.

E o batizou de novo, para o caso de os estrondos terem abafado sua voz; e uma terceira vez, por garantia, e talvez porque ainda tivesse forças e houvesse água benta – ou quem sabe já fosse água da bica.

Sobreviveram todos – ela, o bebê, meus avós, os móveis, eu (possivelmente aos berros no colo de alguém), as tesouras do telhado, parte das telhas, o teto.

Ela queria tanto uma menina, que viria quando setembro viesse.

Foi mais um menino.

E ainda era agosto.

(*) Eduardo Affonso é arquiteto, colunista do jornal O Globo e blogueiro.

As eleições na mídia internacional

José Horta Manzano

As primárias e os debates que precedem a eleição presidencial nos EUA costumam ser acompanhados com atenção pelo mundo todo. Mas por acaso o distinto leitor já viu, na mídia nacional, relatos sobre debates eleitorais de algum outro país exceto os EUA? A resposta é provavelmente não.

É natural. Pelo peso mastodôntico da economia dos EUA, suas eleições interessam ao mundo inteiro. Já campanhas de outros países dão, no máximo, nota de rodapé. Mas isso não é particularidade da imprensa brasileira: por toda parte é igual. A política dos países vizinhos sempre interessa um pouco; já, de países distantes, pouco ou nada se fala.

Mas exceções acontecem. De uns 2 ou 3 anos para cá – e não exatamente pelas melhores razões –, a política brasileira entrou no foco dos holofotes. Meio divertido, meio assustado, o mundo inteiro acompanha a singular batalha presidencial que se travam dois típicos políticos nacionais: um admirador de Hugo Chávez que já passou pela casa prisão contra um admirador de Hugo Chávez que ainda há de estacionar na mesma casa.

A mídia internacional não perdeu o festival de insultos ao qual o baixo nível dos dois candidatos reduziu um momento que deveria ter sido dedicado a uma civilizada exposição de argumentos.

Foi mais uma prova de que os dois protagonistas são carentes de ideias. São ambos reativos (quando reagem…), raramente propositivos. Incapazes de traçar um programa de governo, navegam em modo visual, sem instrumentos, ao léu, ao deus-dará. Como se diz popularmente, só pegam no tranco. Isso, quando pegam.

Aqui está um florilégio de reações da mídia internacional ao debate da Band. A repercussão chegou à Turquia. E até à longínqua Lituânia, país que não é qualquer um que conseguiria apontar num mapa.

 

 

“A temperatura sobe quando Lula e Bolsonaro se encontram”
Upsala Nya Tidning, Suécia

 

 

“Bolsonaro descontrolado, Lula exausto e candidatos alternativos vitoriosos”
El Mundo, Espanha

 

 

“A senhora decerto sonha comigo à noite”
Süddeutsche Zeitung, Alemanha

 

 

“Bolsonaro e Lula se enfrentam”
Le Figaro, França

 

 

“No Brasil, corrida presidencial esquenta”
Sözcü, Turquia

 

 

“O primeiro duelo na tevê entre Bolsonaro e Lula foi uma tempestade de insultos”
Agenzia Italia, Itália

 

 

“Bolsonaro e Lula da Silva se enfrentam no debate nas eleições presidenciais brasileiras”
15min, Lituânia

 

A reação das minhas cachorras ao debate

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Confesso que me surpreendi com a apatia com que minhas cachorras assistiram ao debate entre presidenciáveis do domingo passado. Eu estava uma pilha de nervos desde a hora em que acordei, aguardando ansiosamente o início do que prometia ser uma sanguinolenta troca de acusações entre os candidatos, ao invés de focarem em seus respectivos programas de governo.

Temia que, nos momentos mais tensos, dois ou mais competidores acabassem perdendo as estribeiras e se engalfinhassem fisicamente, ou ainda que o estúdio fosse invadido por uma horda de apoiadores armados até os dentes para exigir a cabeça dos adversários. Já me preparava psicologicamente para contabilizar um ou dois mortos e vários feridos graves, inclusive entre os âncoras e os jornalistas convidados. Só fiquei um pouco mais tranquila quando soube que não haveria a presença de plateia e que somente os assessores, marqueteiros e políticos aliados seriam autorizados a ocupar uma sala atrás do estúdio. Mesmo assim, eu vigiava com angústia e preocupação a cada segundo a escalada de ofensas, golpes abaixo da cintura e ameaças mal disfarçadas.

Minhas cachorras, por sua vez, pareciam bem relaxadas: se aboletaram gostosamente no sofá em frente à televisão e fingiram prestar atenção aos confrontos do primeiro bloco, permanecendo em absoluto silêncio. No entanto, tão logo terminaram de jantar, logo na entrada do segundo bloco, não conseguiram disfarçar que estavam entediadas com tanto palavrório, tanta conversa mole para boi (também cachorro?) dormir, desconcentraram-se e se deixaram embalar pela monotonia dos discursos, logo caindo em sono profundo.

Sacudi-as no começo do terceiro bloco para questioná-las a respeito das razões para tanto desinteresse. Ainda sonolenta, a mais velha me lançou um olhar enviesado e respondeu: “Tá brincando? Pra um domingo à noite, com chuva e frio, tinha que ter alguma coisa mais empolgante para assistir. Até agora, só teve mais do mesmo. Qual é a novidade que está sendo trazida a público? Nadica de nada! Parece que todos acabaram de reinventar a roda e descobriram a solução definitiva para exterminar todos os males que assolam a população desde o descobrimento, em 1500. Por que ninguém tinha pensado em tudo isso antes?”.

Já a mais nova e ainda inexperiente nos empolados confrontos pátrios agitou-se por alguns minutos para reclamar quando o candidato Felipe D’Ávila fez referência desdenhosa ao complexo de vira-lata que caracteriza os brasileiros. Rosnou, um tanto indignada: “Dobra a língua para falar de nós, seu verme! Somos SRD, com muito orgulho! Isso significa que, assim como vocês, somos fruto de miscigenação e exigimos respeito por nossa condição. Somos mais resistentes a doenças, mais resilientes e mais safos para lidar com situações de penúria, além de mais valentes para encarar as inevitáveis batalhas com tantos pitbulls nas ruas”.

Tive de concordar. Parecia mesmo que todos os debatedores diziam ao apresentar suas propostas pseudograndiosas: “Pra quem é [povo brasileiro alienado], tá de bom tamanho”. Antes que elas voltassem a dormir, ainda tentei entender como elas avaliavam a repercussão do comportamento dos candidatos-líderes nas pesquisas sobre eventual mudança de intenção de voto. Para afastar o tédio, propus a elas um joguinho, perguntando: se os candidatos fossem bichos, como vocês enquadrariam o perfil psicológico de cada um? Tudo o que consegui reunir, entre muxoxos, foi o seguinte:

Bolsonaro, o escorpião e seus instintos irrefreáveis
Deve perder um bocado de votos entre as eleitoras ainda indecisas, até entre as evangélicas. Mesmo tomando extremo cuidado para não parecer exageradamente agressivo em suas colocações, acabou deixando implícito que, tão logo ele chegue à outra margem do rio, não resistirá ao impulso de dar uma ferroada mortal no cangote daqueles que o tiverem auxiliado na travessia – com provável exceção dos fardados. Se e quando, ainda em estado de choque, um dia a população confrontá-lo com sua promessa de respeitar os demais poderes, o estado democrático de direito e o resultado das eleições, ele responderá candidamente: “É da minha natureza, e vocês sabiam disso, tá ok?”

Lula, o bom cabrito
Também deve perder um bom percentual de votos entre os antibolsonaristas e bolsonaristas arrependidos pela aparente falta do tão estimado pulso firme. Esforçou-se o tempo todo para não berrar, sabedor que era de suas vulnerabilidades, mas acabou passando uma imagem envelhecida, de pouca força e ânimo para mudar o destino do rebanho. Apegou-se à imagem de valentia do passado, mas a falta de sangue nos olhos entregou seu cansaço. Perdeu-se de vez quando hesitou em assumir o compromisso de montar um ministério paritário, de homens e mulheres, quando tudo o que o mulherio ensandecido pelo desrespeito de Bolsonaro a Vera Magalhães esperava era que ele enterrasse seus chifres bem fundo no intestino misógino de seu principal adversário.

Ciro, o rato que incorporou o flautista de Hamelin
Deve ganhar mais alguns pontinhos nas pesquisas, mas para encostar nos mais bem votados seria preciso encarnar a credulidade de um doutor Pangloss. Apesar de extraordinariamente articulado intelectualmente, não consegue desfazer a imagem de velho coronel nordestino autoritário que se vê como único portador de todas as virtudes e não se cansa de vomitar todos os defeitos de seus concorrentes. Ele parece acreditar piamente que seu projeto de pacto nacional + plebiscito após 6 meses de mandato será suficiente para que 27 ratazanas que engordam às custas do erário dos estados, 513 ratos pequenos e 81 grandes que estraçalham o restante do tesouro público se rendam ao seu carisma e o sigam acriticamente até a beira do precipício. Se vão se jogar ou não, essa é outra estória. Aposta ainda que a população já terá condição efetiva de estimar o acerto de suas medidas econômicas após 180 dias de governo e votará em peso pela manutenção de seu “revolucionário” esquema de governança.

Simone, a galinha-mãe e professora
Deve ser a que mais vai ganhar votos do público nem-nem e dos que avaliam que “é tudo farinha do mesmo saco”. Embora corajosa, auto afirmativa e doce ao mesmo tempo, desculpou-se o tempo todo por não ter conseguido apoio incondicional e universal dos galos do seu partido e assumiu seu desconforto com o passado corrupto da maioria de seus aliados, o que pode pesar muito contra seu estilo “lírio no pântano”. De boas intenções o inferno está cheio parece ser seu lema de campanha.

E isso é tudo. Minhas cachorras se recusaram a elaborar o perfil dos demais candidatos, seja por falta de informações confiáveis quanto aos seus reais interesses na candidatura e na política, seja por lembrarem do passado bolsonarista de uma e o perfil agressivamente desestatizador de outro.

Para encerrar logo a conversa e poderem voltar a dormir, elas avaliaram em uníssono que faltou abordar durante todo o debate um fato indesmentível e preocupante, ao qual a imensa maioria do eleitorado finge não prestar maior importância: qualquer que seja o resultado das eleições, estamos condenados a sermos governados por um tchutchuca do Centrão, velho ou novo, mais ou menos jeitosinho com seus pares homens e sempre tigrão com as mulheres, especialmente as mais pobres e as mais críticas/incisivas. Quem ousaria discordar?

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Nem tudo está perdido

“Quem é que quer saber do passado, agora que o Brasil está voltado para o futuro?”
by Patrick Chappatte (1966), desenhista suíço

José Horta Manzano

Artigo publicado pelo Correio Braziliense de 27 agosto 2022

Afeganistão
Em 2001, na precipitação que resultou dos atentados perpetrados pelos terroristas da Al-Qaeda, o governo dos EUA tomou a decisão de cortar o mal pela raiz. Mandou tropas à região onde se presumia estivesse localizado o esconderijo dos cabeças da organização e deu início à Guerra do Afeganistão.

Relativamente modesta no começo, a força militar engrossou com o passar dos anos. No auge da intervenção, a coalizão encabeçada pelos EUA chegou a contar com um efetivo de 150 mil militares, oriundos de 48 países diferentes.

O objetivo perseguido era, na expressão do presidente Bush Jr., promover uma “guerra ao terrorismo”. Analistas militares botaram olho crítico na expressão e fizeram observar que, numa guerra, há que escolher o inimigo. Terrorismo não é o inimigo, mas apenas o método utilizado por ele. Ninguém faz guerra contra o esquema de combate do adversário. Assim mesmo, a descrição oficial permaneceu bastante vaga na hora de apontar o verdadeiro inimigo.

Em 2021, após duas décadas de ocupação e combates, as forças deixaram o território afegão. Apesar da permanência de vinte anos, foram incapazes de organizar a sucessão e de prever o que ocorreria. Aconteceu um desastre. No dia seguinte ao da partida do último soldado, os Talibãs voltaram, e o país deu um tremendo passo atrás. Foram tempos de morte, sofrimento, medo e privações que não serviram para nada. Em 20 anos ocupando o país, os invasores não aprenderam.

Ucrânia
Em fevereiro deste ano, um ultraconfiante Putin lançou sua versão 2.0 do Exército Vermelho contra a vizinha Ucrânia – país de superfície 28 vezes menor que a da Rússia. Ressalte-se que, desde os tempos da extinta União Soviética, os serviços de espionagem russos estão no topo da excelência. Na Ucrânia, para preparar a invasão, hão de ter tido grande liberdade de ação. Religião, costumes, clima, alfabeto, línguas são comparáveis, quando não idênticos. Um agente russo pode se perder em meio à massa humana de Kiev, por exemplo, sem que ninguém note a presença de um estrangeiro, visto que parte da população ucraniana tem o russo como língua materna.

Apesar dessa evidente vantagem, as boas informações não chegaram ao ditador em Moscou. Não está claro se por ineficiência dos agentes, traição, sabotagem ou algum outro motivo. É até possível que os russos, imaginando que seriam recebidos de braços abertos, tenham contratado espiões ucranianos, que se revelaram ser agentes duplos. A Rússia não levou em conta o patriotismo dos ucranianos.

Nessa guerra, que já dura seis meses, a Rússia vem sofrendo imensos reveses. Seu exército registra extensas perdas humanas e materiais; sua economia levou um baque que a fará recuar vários degraus; a fuga de cérebros jovens e promissores vai fazer falta no futuro; com a adesão da Finlândia e da Suécia, a Otan se aproximou mais ainda de suas fronteiras. Ao final, vê-se que os vinte anos de permanência de Putin no topo do poder não lhe ensinaram grande coisa. Apostou mal, arriscou demais e perdeu tudo.

Brasil
Quem assiste à constante multiplicação de desvios de conduta do presidente da República e a sua bizarra preferência por caminhos desviantes tem o direito de ficar intrigado. E assustado. São quase quatro anos sem um dia de trégua. Insultou dirigentes estrangeiros, ofendeu mulheres e negros, descambou para a homofobia, liberou armamento para todos, respaldou garimpo e desmate ilegais, exerceu o charlatanismo, louvou a cloroquina, vingou-se de servidores probos, menosprezou índios, desprezou a ciência, vilipendiou a cultura, fechou os olhos às milícias, minou a confiança de meio Brasil no sistema eleitoral.

Ao ver um currículo – que digo! – ao ver um prontuário dessa magnitude, a população brasileira tem razão em viver na angústia de um golpe de Estado ao aproximar das eleições. No entanto, recentes declarações do capitão de que aceitará o resultado do voto seja ele qual for tranquilizam. Vão no bom sentido. É um bálsamo saber que, diferentemente de estrategistas americanos e russos, ele parece estar se dando conta a tempo de que sua aventura não teria final feliz. Speremus, fratres!

Machismo linguístico

José Horta Manzano

Cão              animal de companhia.
Cadela           prostituta.

Vagabundo        homem que não trabalha.
Vagabunda        prostituta.

Touro            homem forte.
Vaca             prostituta.

Pistoleiro       homem que mata por encomenda.
Pistoleira       prostituta.

Aventureiro      homem que aceita o risco.
Aventureira      prostituta.

Garoto de rua    menino pobre que vive na rua.
Garota de rua    prostituta.

Homem da vida    pessoa de grande saber.
Mulher da vida   prostituta.

Galinhão         o ‘bonzão’ que traça todas.
Galinhona        prostituta.

Tiozinho         irmão do pai ou da mãe.
Tiazinha         prostituta.

Feiticeiro       praticante de magia.
Feiticeira       prostituta.

Colhido por aí.

Da Silva

José Horta Manzano

Você sabia?

Até fins do século 19, a Suíça era um pais de emigração. Populações pobres de regiões desfavorecidas partiam, com armas e bagagens, em busca de oportunidades numa terra que lhes abrisse os braços.

Os destinos do imigrante suíço foram variados. Muitos foram para os EUA. Houve quem preferisse se estabelecer nalgum país da Europa, até na Rússia. Colônias se formaram em países da América Latina, como no Brasil, no Uruguai e na Argentina.

O tempo passou e o sentido da transumância se inverteu. Já faz um século que, de emissor de migrantes, a Suíça passou a ser receptor – um importante receptor, diga-se. Atualmente, a população estrangeira com residência permanente no país atinge a marca de 25%, ou seja, de cada quatro habitantes, um tem cidadania estrangeira.

Níveis tão altos só se encontram em países do Golfo Pérsico (emirados), onde a população operária é numerosa e inteiramente estrangeira. Ou também em microestados, como Luxemburgo ou Mônaco. Nem o Brasil, que teve, um século atrás, seu período de desembarque contínuo de imigrantes, chegou a contar com um quarto de estrangeiros.

Metade dos estrangeiros vivendo na Suíça são originários de quatro países europeus. Na ordem: Itália, Alemanha, Portugal e França. Essa população estrangeira não é distribuída uniformemente pelo território nacional. Por afinidade linguística, imigrantes vindo de determinado país se concentram numa determinada região.

A imensa maioria dos 328 mil italianos está estabelecida no Cantão do Ticino (Lugano, Locarno), região de língua italiana. Os 311 mil alemães preferem a grande região de expressão alemã (Zurique, Berna, Basileia). Os 151 mil franceses, por seu lado, estão quase todos estabelecidos nos cantões francofalantes (Genebra, Lausanne, Neuchâtel). Já os 255 mil portugueses são menos exclusivistas, embora se note certa preferência pela região de fala francesa.

O Instituto Federal de Estatística (equivalente a nosso IBGE) acaba de publicar rica edição de estatísticas da população. Entre outros pontos interessantes, informam a distribuição dos estrangeiros por região linguística, por cantão e até por município. Constata-se que, na região de língua francesa, o sobrenome Da Silva é o mais difundido. Chega bem à frente de todos os nomes de família tradicionais.

E isso não é nada. Os primeiros lugares, do primeiro ao quinto, são todos ocupados por sobrenomes portugueses. Veja:

 1 Da Silva
 2 Ferreira
 3 Pereira
 4 Dos Santos
 5 Rodrigues

Pensa que é só isso? Pois não é. A lista continua. Vamos continuar até o 20° lugar:

 6 Favre
 7 Gomes
 8 Martin
 9 Fernandes
10 Lopes
11 Martins
12 Müller
13 Oliveira
14 Alves
15 Pinto
16 Marques
17 da Costa
18 Ribeiro
19 Silva
20 Gonçalves

Não é impressionante? Entre os 20 nomes mais comuns na Suíça de expressão francesa, 17 são de origem portuguesa, 1 é de origem alemã, e somente 2 são locais.

Mas não se assuste. Todos convivem em paz e harmonia, exatamente como costumava ser em nosso país até a virada do século. Quem sabe um dia volta, quando a tempestade passar.

Aporofobia

José Horta Manzano


Doutora Adela Cortina (1947-) é uma filósofa espanhola. Na década de 1990, cunhou o conceito de aporofobia para referir-se ao ódio e repúdio à pobreza e aos pobres.


A aporofobia inclui ainda a animosidade, hostilidade e aversão a todos os indicadores de pobreza: bairros carentes, pessoas sem-teto, refugiados, migrantes.

Em sociedades em que diferenças socio-econômicas são quase imperceptíveis, a aporofobia não costuma vicejar. Por seu lado, sociedades como a nossa, com abissais desigualdades, são terreno fértil para a germinação desse ódio.

Nosso desequilíbrio social é tão fecundo que a aporofobia aqui se aclimata e se alastra. O conceito se amplia e se exprime através do ódio racial, religioso e até político.

Foi esse terreno fértil que permitiu o surgimento de um Bolsonaro – aporófobo de primeira – que soube desinibir parte da população e dar a seus devotos a oportunidade de exprimir publicamente suas aversões. Em linguagem clara, aporófobos que costumavam reprimir sua tendência soltaram a franga. Romperam as amarras.

O capitão, que hoje defende a ampliação de benefícios sociais, é o mesmo que, no ano 2000, declarou ter orgulho de se opor a programas de redistribuição de renda, argumentando que deveriam estar associados ao controle da natalidade. Uma visão eugenista da sociedade, com relentos de esterilização forçada. “Se a população pobre deixar de procriar, em breve desaparecerá” – é a lógica que sua mente simplória lhe permitiu conceber.

O empresário periquito
Aquele conhecido empresário amigo do presidente, um baixinho de coco rapado que sempre aparece fantasiado de Zé Carioca, acaba de perder um processo. No mês de maio passado, andou fazendo comentários públicos contra o padre Júlio Lancellotti, ao vê-lo distribuir alimento a moradores de rua que tinham de enfrentar as noites geladas de São Paulo.

“É da turma do Lula. Hipocrisia pura. Temos que ensinar a pescar, e não dar o peixe. Cada dia que passa é mais malandro vivendo nas costas de quem trabalha”, foi o que o periquito escreveu. E continuou: “Quem defende bandido, bandido é”.

Ferido em sua dignidade diante de tamanha petulância, o religioso moveu um processo pedindo reparação. Venceu a causa.

Esse é o tipo de personagem a quem o capitão abriu a porteira. Como esse periquito, há milhões de papagaios que se sentem alforriados para exprimir seus baixos sentimentos.

Ódio, repúdio, hostilidade, aversão, antipatia, enjeitamento, repelência, repulsão, ojeriza & sentimentos afins não precisam mais ser guardados na gaveta. Podem ser expressos por escrito e à luz do dia. Ninguém mais parece se escandalizar.

O mal que Bolsonaro tem feito ao país ainda está para ser contabilizado. Vai ser difícil fechar a porteira que ele escancarou.

Deus, dinheiro e mentiras

José Horta Manzano


Deus, dinheiro e mentiras no Brasil

Jair Bolsonaro vs. Lula da Silva: a campanha eleitoral entre dois políticos predominantes já começou. Para o presidente Bolsonaro, as chances de reeleição são escassas.


O jornal Wiener Zeitung, de Viena (Áustria), sintetizou em três palavras a campanha presidencial brasileira deste ano: Gott, Geld und Lügen Deus, dinheiro e mentiras.

Note-se que discussões, debates, argumentações, ideias, projetos e outros tópicos que costumam frequentar as campanhas em países mais adiantados estão ausentes da nossa. A democracia brasileira está se aproximando perigosamente do padrão do Zimbábue ou do Mali.

Tudo o que é demais…

José Horta Manzano

Estava observando o número de seguidores de certas personalidades da internet. É pra lá de impressionante: chega a ser estonteante. Tem gente – artistas, influenciadores, políticos, esportistas – que exibe incontáveis seguidores. São 60 milhões para fulano, 95 milhões para sicrano, 130 milhões para beltrano.

De repente, a gente pára e faz as contas. Adicionando todas essas centenas de milhões de fãs, chega-se a um total que equivale a muitíssimas vezes a população do país, incluindo recém-nascidos e anciãos. Conclusão: cada seguidor está inscrito em mais de um, quiçá em dezenas de canais.

Agora vem a pergunta: será que cada um desses fãs lê, sem falta, todas as postagens de todos os canais em que está inscrito?

A meu ver, é praticamente impossível. Passar o dia (e a noite) olhos grudados na telinha não seria suficiente pra ler tudo de verdade, sem deixar escapar nada.

Ao fim e ao cabo, conclui-se que tomar como base o número de seguidores de cada personalidade é uma informação que deve ser estudada com grande precaução. Cada postagem daquele que tem 70 milhões de fãs não será necessariamente lida por 70 milhões de assinantes. O número de verdadeiros seguidores assíduos é infinitamente mais baixo.

E isso significa o quê? Significa que o alcance verdadeiro da influência deste ou daquele artista (ou esportista, ou político) é certamente bem mais modesto do que pode parecer à primeira vista.

Além disso, a influência de cada personalidade se dilui no caldeirão onde borbulham tantas influências vindas de tantas bocas. O balanço final das diversas influências periga se anular.

O bombardeio de opiniões é superior à capacidade de absorção dos seguidores. Tudo o que é demais enjoa.

Fetichismo

A Folha de São Paulo esqueceu que a cidade do Porto pede artigo. Sempre. Não se deve dizer “em Porto”, mas no Porto”. Quanto à Irmandade, ela não é “vunerável”, mas venerável.

 

José Horta Manzano

Um miocárdio que passou dois séculos mergulhado em formol há de interessar médicos-legistas e estudantes de medicina. Talvez biólogos e estudiosos de paleomedicina também encontrem nele algum encanto. Já para o distinto público leigo, é outra coisa. Eu me pergunto o que move um cidadão que decide sair de casa e fazer fila pra admirar o coração de D. Pedro I, o defensor perpétuo do Brasil, morto há 188 anos.

A prática de arrancar o coração de um cadáver antes de enterrá-lo já me parece um atentado ao respeito que se deve aos mortos, uma idéia estrambótica digna de filme de terror. Ao organizar uma viagem transatlântica dos despojos do imperador – com o único objetivo de animar a festa dos 200 anos de independência –, atingimos os píncaros de um fetichismo doentio.

O costume de prestar reverência a objetos que tenham sido um dia tocados pelas augustas mãos de Sua Majestade Imperial já me incomoda. Pasmar diante de um resto de seu cadáver me parece o fim da picada. Enlouqueceram todos: os que tiveram a ideia de trazer a “relíquia”, os que anuíram em cedê-la e os que vão se abalar a admirá-la.

Guardar as tripas do falecido durante dois séculos e fazê-las atravessar o oceano para exibição aos plebeus? Que fizessem vir a pluma com que D. Pedro escreveu ao pai anunciando que a pátria-mãe acabava de perder as colônias sul-americanas. Isso, sim, seria simbólico. Mas… o coração?

Bolsonaro se engana ao tentar fazer uso político dos destroços do imperador para afagar sua galera neopentecostal. Escapulários, relíquias, ex-votos e quetais são exclusividade da Igreja Católica. Os evangélicos, menos apegados a genuflexões e a práticas fetichistas, perigam não apreciar.

Pedras da fome

José Horta Manzano

Você sabia?

As mudanças climáticas, que enfrentam o negacionismo de gente desinformada ou de má-fé, têm se acelerado neste século. Situações que se previa fossem ocorrer por volta do ano 2050 estão ocorrendo agora.

O Hemisfério Norte, que concentra 2/3 das terras emersas, tem sofrido particularmente nesse sentido. Episódios climáticos extremos, que costumavam aparecer de raro em raro, têm-se tornado frequentes, quase corriqueiros. Chuvas de proporções bíblicas, calores saarianos, furacões, gigantescos incêndios florestais e secas catastróficas se sucedem.

Este ano, o calor e a seca têm castigado a Europa Ocidental. Paris, Berlim, Milão e até a brumosa Londres tiveram seus dias de 40° de temperatura. Em toda a região, a seca começou em junho e dura até agora. Não tem praticamente chovido, a não ser uma garoinha aqui, outra ali.

Agricultores estão perdendo a colheita, o gado já não tem o que comer. Lagos estão secos. Numerosos rios estão com um filete d’água. O Rio Reno, importante via de transporte fluvial, está com restrições de navegação devido à altura da água, que não dá calado. Até a nascente do Rio Tâmisa, atração turística da Inglaterra, secou. Na França, muitas cidadezinhas estão sendo abastecidas por caminhão pipa, pois água não há. Na Suíça, diversos lagos completamente secos se transformaram num gramado.

Tirando o dramático da coisa, aparece o lado pitoresco. “Pedras da fome”, surgidas do passado, estão reemergindo. Essa curiosa expressão designa pedras de beira de rio que, em tempos normais, ficam invisíveis, abaixo do nível da água. Nos anos de grande seca, apareciam. Os antigos então esculpiam e traçavam uma linha para mostrar o nível mínimo a que as águas chegaram. É que, na Idade Média (e até não faz muito tempo), falta d’água era sinônimo de colheitas perdidas e, no final, de morte por inanição. Naquele tempo, não dava pra importar alimento por via aérea do outro lado do mundo. Não havia meio de transporte. Cada vilarejo tinha de se virar com o que a terra dava.

Já se conheciam algumas “pedras da fome”. Este ano, com a baixa de nível dos rios, numerosas outras vêm sendo descobertas. A pedra mais antiga que se conhece foi esculpida em 1417. Outras são mais recentes. Muitas estão sendo gravadas este ano. Assim que o nível das águas faz surgir nova pedra, o ano de 2022 é esculpido.

Na pedra da fome que aparece na ilustração, gravada séculos atrás, está escrito: “Wenn du mich siehst, dann weine” – se você me vir, chore!

Não há ateus na política

Eduardo Affonso (*)

Demonstrações oportunistas de fé no Altíssimo e apreço à baixa gastronomia são tão tradicionais nas campanhas políticas quanto a troca de ofensas entre os novos adversários e de afagos entre os ofendidos na eleição passada.

Deus é testemunha de que, no Estado laico em que vivemos, campanha que se preze tem de ter candidato comendo pastel de feira e/ou em pose contrita – sempre de joelhos, se possível de mãos postas –, invocando a intercessão divina para ganhar mais voto do que peso. Pode até haver ateus em aviões que despencam – na propaganda eleitoral, jamais.

Tecnicamente, Estado e Igreja estão separados no Brasil desde 1891. Mas a atual Constituição foi promulgada “sob a proteção de Deus”. Nas cédulas, há a recomendação de que “Deus seja louvado”. O presidente de turno chegou ao poder com o slogan “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos”. É um Deus nos acuda em tempo integral.

Para fazer jus à cidadania brasileira, o Todo-Poderoso teve de se licenciar de suas inefáveis funções e virar cabo eleitoral na peleja de 2022. Ele se sentirá em casa por estar, desde a queda de Lúcifer, engajado nessa luta do Bem contra o Mal. A diferença é que, aqui, o Mal tem o dom da bilocação – está ao mesmo tempo nos dois cantos do ringue.

Michelle Bolsonaro tem dito que “o Brasil é do Senhor”, que “Deus tem promessas para o Brasil”, que “aquele lugar [o Palácio do Planalto] era consagrado a demônios”. Como o inferno são os outros, para Lula, “se há alguém possuído pelo demônio, é esse Bolsonaro”.

O petista atacou o uso da religião por parte de seu oponente: “É heresia falar o nome de Deus em vão como fala esse cidadão (…) que está mais para fariseu que para cristão”. Contudo se permitiu pregar: “A gente tem que olhar a Bíblia e ela tem que ser cumprida”. A que preceitos bíblicos estará se referindo? Aos que punem a homossexualidade e mandam apedrejar mulheres que não chegam virgens ao casamento? Aos mandamentos que condenam o roubo, o falso testemunho? Deve-se obediência coletiva a livros sagrados apenas nas teocracias – o que não é o caso. Porém levantamento feito pelo GLOBO revela que são 902 os candidatos que se declararam sacerdotes ou integrantes de ordem ou seita religiosa – um quarto a mais que em 2018. Majoritariamente evangélicos, vêm reforçar a bancada do dízimo – conservadora e pouco sensível a questões ligadas à laicidade do Estado ou à tolerância para com a fé alheia.

Rezam as feiquenius difundidas por bolsonaristas que, em caso de vitória do PT, “brasileiros serão impedidos de falar em Deus” (restrição que viria a calhar em relação aos que exercem cargos públicos) e que “templos serão fechados”. Interditar estabelecimentos caça-níqueis, que enriquecem os empresários da fé com “doações” obtidas mediante fraude, venda de caneta ungida (para passar em concurso) e de grão de feijão que cura Covid-19 seria uma ação legítima contra o estelionato. Mas, para dar cabo dos vendilhões do templo, só Jesus na causa.

Quando se faz o diabo para conseguir votos, lambuzar-se na gordurama do pastel de feira por puro populismo chega a ser um pecado menor.

(*) Eduardo Affonso é arquiteto, colunista do jornal O Globo e blogueiro.