Sarnentos

José Horta Manzano

Décadas atrás, chamar alguém de “sarnento” era ofensivo. Não sei se esse xingamento ainda sobrevive no balaio de mimos atuais. No universo dos pré-adolescentes de antigamente, “sarnento” concorria com “leproso” e “peste bubônica”, finezas que evocavam doenças desaparecidas ou em via de extinção.

A sarna animal ainda persiste e ataca cachorros de rua. É doença de pele causada por um ácaro. A região infectada coça intensamente. De tanto se coçar ou se mordiscar, o cão acaba provocando feridas. Dá pena ver. Mas não se assuste: sarna animal e sarna humana são obra de ácaros diferentes. Ninguém pega essa doença de um cachorro. Em nosso país, a melhora nas condições de higiene fazem que a sarna humana esteja pouco a pouco desaparecendo.

Faz alguns dias, a mídia voltou a falar dos “náufragos do aeroporto”. Refiro-me aos refugiados afegãos que, ao cabo de um roteiro penoso, demorado e perigoso, chegam a Guarulhos – o mais importante aeroporto da América do Sul – e, não tendo para onde ir nem dinheiro para se virar, por lá permanecem encalhados. Adultos, anciãos, crianças são obrigados a dormir no chão, sobre cobertores ou colchonetes puídos. Alimentam-se do que a caridade de funcionários lhes oferece. Não têm como tomar banho nem cuidar da saúde.

Se a triste história daquelas dezenas de infelizes saiu nos jornais é porque estavam começando a representar um perigo para a saúde pública: praticamente todos eles estavam com sarna, doença altamente contagiosa que se transmite por simples contacto.

Me pareceu estranho que tantos refugiados consigam chegar ao Brasil e, em seguida, que o aeroporto seja o fim do caminho, sem perspectiva de seguir adiante. Coisa esquisita, não? Como é que entram no país? Com visto ou sem?

Não foi preciso pesquisar muito. Fiquei sabendo que esses afegãos são titulares de visto humanitário concedido por representação brasileira no exterior. Fiquei sabendo também que o Brasil concedeu mais de mil vistos a afegãos candidatos a asilo. Mas entendi também que a generosidade do Itamaraty é parcimoniosa: fornecem visto aos infelizes mas, para o resto, eles que se virem.

Essa gente teve de vender tudo o que tinha (que não era grande coisa) e lançar-se em aventura complicada. Deixar o Afeganistão já é arriscado; passar fronteiras até chegar a um aeroporto de onde possam voar para o Brasil é programa perigoso, especialmente para quem tem poucos recursos e ainda por cima leva mulher e filhos pequenos.

Para os que conseguem chegar ao Brasil, a “acolhida” é uma pancada na cabeça. Ninguém os espera, não há estrutura de apoio, não há quem lhes dê um teto, não há quem pense em proporcionar-lhes alimentação, curso de língua, cuidados de saúde. Nada. Nothing. Nulla.

A Prefeitura de Guarulhos tem um abrigo, mas alega que está lotado. Assim sendo, os recém-chegados ficam à mercê de algum milagre, num país estranho, com língua estranha, comida estranha, dormindo no chão. E transmitindo sarna uns aos outros.

Na verdade, não acredito que tenham apanhado essa doença em Guarulhos. É muito provável que já a tenham trazido do exterior e que a promiscuidade do acampamento no aeroporto só tenha feito aumentar o contágio.

E pensar que, na virada do século 19 para o século 20, quando aportavam 70 mil imigrantes por ano, o Brasil estava mais bem aparelhado para recebê-los. Embora o país fosse muito mais pobre que hoje, as autoridades se entrosaram e foram capazes de oferecer acolhida digna para os que chegavam. Não se tem notícia de que, por falta de assistência, imigrantes tenham sido obrigados a dormir no cais do porto ou se cobrir com andrajos e se alimentar de doações de almas caridosas.

Depois que a mídia relatou o escândalo, rapidamente as autoridades se mexeram e instalaram os náufragos de Guarulhos numa colônia de férias à beira-mar. Tem afegão que passou 20 dias acampado no aeroporto. Agora estão sendo cuidados – vamos ver até quando. Enquanto isso, novas levas continuam chegando ao Brasil.

Ninguém se refugia em outro país de coração alegre. Se um indivíduo deixa o país de origem e se aventura do outro lado do mundo, num lugar estranho, não é por espírito de aventura juvenil. É porque as coisas estão muito muito feias. Os motivos são diversos: guerra, violência, fome, perseguição religiosa ou étnica.

Se nosso governo federal concede visto humanitário, não deve lavar as mãos e achar que já cumpriu sua obrigação. A acolhida de um refugiado é muito mais que um carimbo num passaporte.

Lá pelos anos 1980, entre os fundadores do Partido dos Trabalhadores, vários haviam conhecido as agruras do exílio. Haviam conhecido na própria pele o drama de chegar numa terra estranha, sem lenço nem documento, empurrado pelo destino.

Seria interessante que os petistas, que atualmente detêm o poder, tornassem a encarnar o espírito universalista de que são herdeiros. Que desçam do pedestal da glória passageira e deem uma mão aos pequeninos.

Lula… ambíguo?

O Globo, 8 jul 2023

José Horta Manzano

Li ontem um artigo que discorria sobre a relação mantida por Lula com ditaduras mundo afora, em especial com as latino-americanas. Não contesto o pensamento do autor, o que me incomoda é o título: “Lula é ambíguo com ditaduras”. Não é descrição adequada.

O dicionário esclarece que “ambíguo” é o que desperta dúvida, que admite interpretações diferentes e até contrárias. O comportamento de Lula com relação a qualquer ditadura não é nada ambíguo – é constante, claro e cristalino. Desde quando ele fundou o Foro de São Paulo, trinta anos atrás, sua posição não se moveu nem um milímetro. Todo regime ditatorial desperta sua simpatia.

Há que partir do princípio de que ditadura é ditadura, sem essa de “ditadura de esquerda” ou “ditatura de direita”. Quando se suprimem o direitos dos cidadãos a escolher seus representantes de forma justa, quando a imprensa livre é cerceada ou suprimida, quando a liberdade de ir e vir é entravada, tanto faz que o ditador se proclame de “direita” ou de “esquerda” – sempre ditadura será.

Lula nunca deu o menor sinal de ambiguidade nesse sentido. Nunca escondeu suas simpatias. Com grande desenvoltura, ele outro dia recebeu em palácio o mandachuva da Venezuela.

Ao regressar do Vaticano, pediu, com indisfarçada hipocrisia, que o ditador da Nicarágua libertasse “o bispo”, transmitindo assim um recado do papa. Digo que foi atitude hipócrita porque o mundo inteiro está sabendo que dezenas de membros do clero estão atrás das grades naquele país, todos perseguidos por serem religiosos. Lula, o falso humanista, só falou do “bispo”, com certo enfado, como se os demais não existissem.

A admiração que Luiz Inácio sente por autocratas é forte. Se ainda não foi visitar meia dúzia deles – Putin, Maduro, Ortega, os sucessores dos bondosos irmãos Castro – é porque assessores devem tê-lo retido pela manga.

Não é possível perceber ambiguidade na simpatia que nosso presidente demonstra por ditadores e autocratas em geral. Os Estados Unidos, por seu lado, são o fantasma que vem assombrando sua vida desde a juventude. A forte antipatia que Lula sente pelo grande irmão do norte é palpável, impregnada, inalienável.

Talvez seu cérebro ressentido veja, na proliferação de ditadores ao redor do mundo, uma forma de abalar o país detestado.

Ciúmes ex-presidenciais

O Globo, 7 jul 2023

José Horta Manzano

OK, quando o ciúme é grande, é permitido mandar a palavra para o plural: ciúmes. Só que tem uma coisa. A lógica gramatical continua valendo.

Substantivo no plural pede artigo e adjetivos no plural, o que não deixa de ser evidente. Portanto, esqueça-se “do seu ciúmes” e corrija-se: “dos seus ciúmes”.

Tem mais. Este escriba é do tempo em que alguém tinha ciúme (ou ciúmes) de alguém. Sentir ciúme sobre alguém é modismo dispensável. Corrija-se: ‘recibo dos seus ciúmes de Tarcísio’.

Multas

José Horta Manzano

Jair e Eduardo, os dois membros do clã Bolsonaro que mais amam afrontar a lei, pintaram e bordaram durante os quatro anos em que Jair permaneceu no topo do poder. A cada oportunidade que se apresentou, pai e filho carteiraram: ignoraram regulamentos, prescrições e leis. Foi como se as regras que organizam a vida em sociedade tivessem sido criadas só para a ralé. Eles, gente acima da carne seca, estavam isentos de se curvarem.

O pai, escorado em suas prerrogativas de função, fez mais que o filho. Desafiou mundos e fundos. Não se passou uma semana sem que deixasse marca de incivilidade, no limite da selvageria. Sem máscara (quando seu porte era obrigatório), espalhou perdigotos e carregou crianças no colo. Sem capacete, liderou “motociatas”. Se não zombou mais da lei é porque não teve ocasião.

O capitão foi vítima do mal que castiga toda pessoa de poder: a (ilusória) sensação de onipotência e de imunidade eternas. Como sabemos hoje, ele persistiu nessa crença até seu último dia de mandato. Decolou para os EUA na certeza de que seu poder se prolongaria, que seus antigos comandados se rebelariam e que ele voltaria nos braços do povo, Ou na garupa de um blindado das Forças Armadas, tanto faz.

Furou. Não sei se a ficha já caiu, mas o clã perdeu. E perdeu feio. Não só o sonho de um futuro de poder e imunidade desabou, como também estão chegando as cobranças de um passado delituoso. Com a condenação à inelegibilidade, o ex-presidente já levou a primeira pancada. Outras vêm por aí.

A Justiça do estado de São Paulo está tratando de cobrar as multas que os Bolsonaros acumularam por desprezar o uso da máscara no tempo da covid. Consolidada e atualizada, a conta do capitão chega a um milhão de reais. A do filho desordeiro é mais modesta: 130 mil reais. Os dois contestam naturalmente. Não sei se vão conseguir alguma clemência, imagino que não. Agora o capitão virou cidadão comum e o n°03, embora continue deputado, não tem mais pai presidente.

Acho excelente que a Justiça não tenha deixado pra lá. Acho melhor ainda que estejam insistindo na cobrança. E espero que levem o processo até o fim. Sei que os dois personagens estão escudados pela robusta fatia de fundo eleitoral que toca ao partido deles e imagino que, no fim da aventura, o boleto acabe sendo pago pelo próprio partido.

Assim mesmo, a cobrança é exemplar. Por um lado, serve para mostrar aos Bolsonaros que realmente perderam, e que mais vale se recolherem a sua insignificância. Por outro lado, serve de aviso para incautos que possam imaginar que um eventual momento de poder os blindará pelo resto da vida. É ilusão.

Mas – que fazer? – dizem que o ser humano é o único animal capaz de repetir os próprios erros.

A ambulância

crédito: Infodefensa.com

José Horta Manzano

O governo ucraniano não publica estatísticas oficiais dando conta das perdas humanas em decorrência da invasão russa. Na contagem oficiosa, as vítimas se aproximam de 250 mil. E continuam aumentando ao ritmo diário de 500-1000 vidas.

No finzinho de abril, a Ucrânia solicitou que o Brasil lhe vendesse 450 unidades do veículo blindado Guarani em versão ambulância.

Numa guerra de trincheira disputada em terreno minado, como está ocorrendo no conflito ucraniano, uma ambulância comum não dá conta do recado. O governo de Kiev escolheu o Guarani por ser um veículo fortemente blindado, capaz de transportar duas macas com feridos e mais três pacientes sentados. Além disso, cabem também um médico, um enfermeiro, o comandante do veículo e o motorista. O Guarani resiste a tiros, rajadas de metralhadora, estilhaços de grosso calibre e até explosão de minas.

É importante salientar que o blindado em versão ambulância não é dotado de canhão nem do armamento que normalmente integra a versão de combate. A Ucrânia queria que os veículos viessem já pintados com as cores do país e a cruz vermelha que simboliza transporte de feridos de guerra. Era um negócio de 3,5 bilhões de reais.

No governo, o primeiro a tomar conhecimento do pedido de compra foi o ministro brasileiro da Defesa. Rapidamente foram informados também o ministro das Relações Exteriores, o assessor Amorim e o próprio Lula.

A partir daí, entrou em ação a visão distorcida de geopolítica que caracteriza o lulopetismo. Figurões do PT se puseram a dar palpite. Consideraram que as Forças Armadas brasileiras estavam muito saidinhas, tratando de fazer “política externa independente”. Com o PT, pode não. E veio o bloqueio: o governo Lula vetou o que teria sido o maior negócio de exportação da indústria bélica nacional.

O mal disfarçado apoio que o lulopetismo dá à Rússia de Putin fez mais um estrago. Em nome de uma suposta “neutralidade” no conflito, o Brasil, que podia ajudar a salvar milhares de vidas, acovardou-se. Os ucranianos não nos pediam dinheiro, nem armas, nem presença militar, nem apoio a sanções econômicas – queriam apenas ambulâncias. E estavam dispostos a pagar.

Para que conste: a Suíça, país tradicionalmente neutro desde 1815, declarou que neutralidade não rima com indiferença. Desde o início da guerra, tem ajudado a Ucrânia com remédios, equipamento médico, material de primeira necessidade para a população civil, doações de todo tipo. Esse tipo de ajuda não atenta contra a neutralidade.

Além disso, nada impede que o Brasil, caso houvesse interesse por parte dos russos, vendesse ambulâncias medicalizadas também para eles. É o tipo de negócio que não quebra a neutralidade. Não quebra na cabeça de gente normal, é claro. Quando temos, no comando das Relações Exteriores, barbudinhos empacados em mágoas e ressentimentos, a coisa muda.

Com isso, se descobre que a empatia com o sofrimento alheio, base de toda doutrina socialista, era só pra inglês ver.

E os feridos e mutilados de guerra ucranianos, nessa mixórdia, como é que ficam? Que se virem, ora.

Militância de sofá

José Horta Manzano

Bolsonaristas não são militantes políticos no sentido tradicional. O asfalto não é seu terreno. Preferem o conforto de um sofá macio de onde possam mexer os dedinhos, navegar por redes sociais e juntar-se a “patriotas” que pensam todos igual. Slogans e invectivas não são lançados pela boca, mas dedilhados no celular. É bem mais maneiro; desfilar debaixo de sol ou chuva é coisa de pobre. (Disclaimer: é ironia.)

Banido de todo cargo eletivo aos 68 anos, Bolsonaro está praticamente fora do jogo político para sempre. Só poderá voltar aos 75 anos, idade em que quase todo cidadão costuma estar em casa curtindo reumatismo e artrose de chinelo e pijama. Se a cabeça estiver funcionando, naturalmente.

Este escriba não frequenta redes sociais. Não por desamor, mas por achar que não são da minha idade. Um artigo do jornal O Globo publicado na esteira da condenação do capitão informa o seguinte: “um monitoramento interno do TSE, que acompanha eventuais ameaças à integridade dos ministros do tribunal, constatou um ambiente de calmaria nas redes bolsonaristas.

É de causar espanto a ausência de reação dos devotos diante da condenação do “mito”. Parecem ter baixado os braços. Não se vê movimentação nem nas ruas nem nas redes. É de deixar encafifado. Se o apoio dos partidários de Bolsonaro é assim tão frágil e superficial, como é possível que tenham armado aquela batalha campal do 8 de janeiro? Terão sido realmente adeptos ou quem sabe se tratava de militância remunerada? (Essa é pra pensar em casa.)

Mas há males que vêm pra bem. A constatação de que a fidelidade dos apoiadores do ex-presidente é curta e frágil dá aos tribunais superiores uma dica de como agir na análise da pilha de processos que o capitão carrega nas costas. Se as reações ante a condenação pelo TSE foram tão minguadas, não há por que hesitar quando vier a hora de abrir-lhe as portas da Papuda.

Até algum tempo atrás, temia-se que eventual prisão de Bolsonaro pudesse provocar comoção nacional. Vê-se hoje que não é bem assim. O máximo que seus fãs saberiam fazer é armar tempestade dentro das redes. Nas ruas, nem um pé. O bicho é manso. As coisas mudaram. Ou teremos sido nós que, por prudência, havíamos exagerado nossos temores?

Podem jair preparando o camburão.

Inelegibilidade

by Kleber Sales

José Horta Manzano

Talvez o distinto leitor e a encantadora leitora se recordem de um caso escabroso, ocorrido uns dez anos atrás, envolvendo um médico que acabou condenado a quase 300 anos de prisão por abusar sexualmente de pacientes. Paralelamente, o Conselho de Medicina decidiu anular seu direito de exercer. Seu registro de médico foi definitivamente cassado.

Um caso mais recente envolveu outro médico, um anestesista, filmado enquanto estuprava uma paciente anestesiada – uma história abjecta. Também esse perdeu definitivamente o direito de continuar a exercer. Pode até sair da cadeia um dia (certamente sairá), mas terá de procurar outra profissão.

É longa a lista de profissionais, não só da área médica, que perderam o direito de exercer em consequência de terem desonrado a profissão.

Jair Bolsonaro está sendo julgado por flagrante desvio de conduta cometido enquanto exercia a Presidência do país. O caso mais notório foi aquele “brienfing” para o qual convocou dezenas de embaixadores lotados em Brasília para “revelar-lhes” que o sistema eleitoral brasileiro era um jogo de dados viciados, verdadeira roleta fraudada.

O veredicto ainda não saiu no momento em que escrevo, mas observadores acreditam que o ex-presidente será julgado culpado, e que a pena será a perda de seus direitos políticos. Trocado em miúdos, talvez continue a ter o direito de votar, mas não poderá ser votado. O curioso é que a pena é limitada no tempo: vale somente por 8 anos.

Esse homem deu provas, durante quatro longos anos, de não estar apto para exercer a Presidência do país. Se está recebendo essa pena, não é por castigo – é o país que se protege contra um indivíduo que atentou durante seu inteiro mandato contra as instituições. O capitão não é culpado por ter escorregado uma vez, quiçá sob efeito de uma qualquer medicação. Seu problema é incrustado, permanente e incurável.

Sabe-se que, ainda nos longínquos tempos de capitão da ativa, já planejava explodir instalações do Exército. Durante seus anos na Presidência, fez o que pôde para explodir o Estado brasileiro. Seu caso não tem solução. Afastá-lo por 8 anos dá alívio temporário mas não resolve. Ele periga voltar para chacoalhar o coreto em 2030.

Imagine você se, no caso dos médicos indignos, fosse dado um “castigo” de 8 anos. Seria apenas uma suspensão temporária. Findo o prazo, eles voltariam à carga com todo o risco que isso comporta. A cassação do direito de exercer não deve ser vista como punição, mas como medida de proteção da sociedade.

No caso de um ex-presidente, permitir que ele um dia possa voltar ao lugar do crime para cometer as mesmas barbaridades pelas quais foi condenado é temeridade. Seus direitos políticos teriam de ser cassados definitivamente. Para sempre. Em seu caso, não há esperança de remissão.

Mercenário

José Horta Manzano

Domingo passado, a Rússia levou um tremendo susto por causa de um golpe de Estado que não foi. É verdade que gorou, mas deve ter dado um nó nos miolos da cleptocracia instalada há décadas no Kremlin. De quebra, trouxe inquietação ao planeta inteiro.

Se a Rússia não fosse dona de imenso arsenal atômico, suas brigas intestinas não mereceriam mais que três linhas de rodapé. No entanto, vista a coleção de mísseis e bombas que entopem seus depósitos de armas, é melhor andar na pontinha dos pés e procurar não irritar o autocrata que controla o país. Mormente porque, como todo líder autoritário, Pútin é paranóico e imprevisível.

O episódio do golpe fracassado trouxe às manchetes uma daquelas palavras que não se usam todos os dias: mercenário. Vindo de um remoto indo-europeu, o étimo desembocou no termo latino merx, e de lá formou numerosa família que se espalhou por línguas de todo o globo.

Mercenário designa o combatente que se engaja por dinheiro. É o profissional que não escolhe causa; defende qualquer uma, desde que lhe paguem o soldo. O Grupo Wagner é uma organização paramilitar (um exército bis) que recruta mercenários para defender os interesses da Rússia. Seu campo de ação preferencial é o continente africano, destino de múltiplos investimentos russos em negócios nem sempre confessáveis.

Ao longo dos anos, o grupo tem sido acusado de violências, roubos, estupros, sequestros, crimes de guerra e até crimes contra a humanidade. Muitos de seus integrantes foram recrutados em prisões russas. Evguêni Prigôjin, o fundador, frequentou durante décadas o círculo mais próximo a Vladímir Pútin. O ditador, aliás, foi quem incentivou a formação do Grupo Wagner. O golpe fracassado de domingo é interessante exemplo de monstro que se volta contra seu criador.

Mercenário, como se vê, não é flor que se cheire. Um outro exemplo de mercenário é o matador de aluguel, aquele que executa mediante contrato. Mas respire: a numerosa família (etimológica) à qual pertence o mercenário também conta com parentes de respeito. Veja abaixo outros membros ilustres.

Mercado
mercadoria, mercador, mercadista, mercadeiro, mercadologia, mercadejar, mercadante, mercadinho

Merce
mercenário, merceeiro, mercearia, merceólogo, mercerização, merceologista

Comércio
Comercial, comerciante, comerciário, comercialista, comercialismo, comercializar, comerciar, comercinho

Mercar
mercancia, mercantil, mercante, mercantilístico, mercantismo, mercantista, mercantilice

E muitos outros.

Na república mercantil em que vivemos, onde leis são votadas contra favores em espécie, um vigoroso mercenarismo está presente por toda parte. Principalmente na cobertura (top floor).

Infância e celular

José Horta Manzano

Artigo publicado no Correio Braziliense de 24 junho 2023

Uma cidadezinha irlandesa chamada Greystones, situada não longe de Dublin, foi recentemente palco de uma decisão conjunta entre prefeito, vereadores e pais de alunos. De comum acordo, resolveram proibir o uso de celular para crianças antes da escola secundária. Isso significa que, antes dos 12 – 13 anos, nenhum aluno escolarizado no município terá acesso ao aparelho. Não há penalidade prevista, visto que o cumprimento da resolução será de responsabilidade dos próprios pais.

Entre os objetivos principais, está a proteção dos pequeninos que sofrem atos de humilhação (bullying) provocados por alunos maiores ou mais fortes. Esse acosso, como se sabe, é amplificado pelo uso das redes sociais e pode chegar a perturbar gravemente a saúde mental das pequenas vítimas. Com a proibição de celular, esse problema diminui drasticamente. De quebra, fica também banido o acesso dos mais jovens a redes do tipo TikTok, que os enfeitiçam e os tranformam em robôs. As autoridades irlandesas estão propensas a adotar a medida de Greystones como política nacional.

Neste mês em que Paradas LGBT são organizadas mundo afora, o instituto Ipsos anunciou os resultados de uma pesquisa sobre o tema. É bom lembrar que Ipsos é o terceiro maior instituto de pesquisa de mercado do mundo, com 18 mil funcionários e presença em 90 países.

Para essa análise, mais de 22 mil entrevistas foram feitas em 30 países incluindo o Brasil. O objetivo era apurar a visibilidade dos integrantes da comunidade LGBT em cada país individualmente, assim como seus índices de aceitação (ou rejeição) nas diferentes sociedades. O relatório final traz muitas informações interessantes, algumas já esperadas, outras surpreendentes.

Uma constatação é curiosa: o Brasil é o campeão da sinceridade. À pergunta “Em qual das seguintes categorias você se encaixa”, seguida de diversas opções não hétero (homossexual, bissexual, pansexual, omnissexual, assexual), 15% dos brasileiros entrevistados declararam se encaixar em categoria não hétero e não cis. Nenhum outro país tem tanta gente que se autodeclara nessa categoria. Na França, são 10% da população e na Argentina, 8%. Na Polônia são 6% e no Peru apenas 4% dos habitantes.

Essa disparidade entre países deixa uma interrogação no ar. Pessoalmente, não acredito que possa haver tanta diferença, com um Brasil que conta com três vezes mais LGBTs que um Peru, um Japão ou uma Polônia. Não vejo por que razão seriam tantos aqui (ou tão poucos lá). Acredito que boa parte da discrepância deva ser posta na maior ou menor dificuldade que os nativos de cada povo sentem na hora de revelar a própria sexualidade. É possível que no Brasil, apesar dos pesares, nos sintamos menos reprimidos, logo, mais despachados.

Uma constatação é, no mínimo, inquietante. O estudo ventila o total de indivíduos autodeclarados LGBTs e os classifica por faixa etária. O quadro mostra que 4% dos Baby Boomers (nascidos entre 1948 e 1964) estão na categoria LGBT. Na Geração X (1965-1980), há 6% de LGBT. Nos Millennials (1981-1996), são 10%. Finalmente, entre os jovens da Geração Z (1997+), espantosos 18% se declaram LGBT.

Não sei para você, mas para mim parece discrepância exagerada. O estudo informa que há, entre os menores de 25 anos, quase 5 vezes mais LGBTs que entre os mais velhos. A divergência é tão grande que faz supor efeito tribal fomentado por veículos tais como TikTok & semelhantes. A pré-adolescência é idade complicada, em que a personalidade está se construindo. Os muito jovens não estão necessariamente preparados para resistir ao canto da sereia.

Talvez fosse boa ideia acompanhar com atenção a aplicação da política irlandesa e cogitar sua eventual implementação em nosso território. É verdade qie o brasileiro é por natureza indisciplinado e propenso a burlar regulamentos. Assim mesmo, não custa tentar. A proibição geral, no fundo, ajuda os pais, que deixam de ser aqueles “chatos” que negam celular ao filho. A desculpa é incontornável: “Não posso te dar. É a lei!”.

Que tal adotar a ideia irlandesa para preservar a evolução mental de nossa criançada?

O discurso

Cúpula de Paris – 23 junho 2023
Foto de família

José Horta Manzano


“Depois de tudo o que ouvi ontem, mudei o discurso que tinha preparado. Não vou ler.”


Foram as palavras iniciais do pronunciamento que Lula fez hoje na cerimônia de encerramento do Novo Pacto de Financiamento Global, cúpula realizada em Paris e ciceroneada pelo presidente Emmanuel Macron. Ninguém jamais saberá o que havia no discurso que nosso presidente descartou.

Assim que Lula informou que falaria de improviso, seu entourage deve ter começado a empalidecer e suar frio. Até este escriba se mexeu na cadeira: “Ai, o que é que vem por aí?”. Todo o mundo sabe que Luiz Inácio, quando cata um microfone, é capaz do melhor, mas também do pior.

Não houve nenhuma catástrofe. A invasão da Ucrânia não estando na pauta, o risco de novo escorregão feio amainou. Mas nosso presidente nunca perde ocasião de se distinguir, seja pelas declarações sensatas, seja pelas inquietantes.

Lula falou por mais tempo que qualquer outro participante à cerimônia. Discursou por quase 40 minutos. Esquecido de que não cabe a cada governante criticar seu antecessor, disse que o Brasil tinha tido um “governo fascista” estes últimos quatro anos. Faz coro à declaração que Bolsonaro deu um dia na ONU, quando informou ao mundo que ele “tinha salvado o Brasil do socialismo”. Como se vê, os dois dirigentes jamais perdem a elegância.

Cúpulas desse tipo são organizadas para discutir o que virá, não o que já foi. Incorrigível, Lula continua a culpar terceiros pelas dificuldades que ele tem de enfrentar. Em 2003, chamou a herança recebida de FHC de “maldita”. E agora reincide, ao avaliar seu predecessor como “fascista”. Pode até ser verdade, mas roupa suja se lava em casa, não no exterior, diante de um palco iluminado e pouco interessado nessas rusgas.

Com a Ucrânia fora da pauta, ressurgiu o Lula “pai dos pobres”, o defensor perpétuo dos pequeninos. Ele discorreu sobre as insuportáveis desigualdades (financeiras, religiosas, raciais, de gênero) que mancham a imagem do planeta.

Falou de Amazônia. Prometeu reunir-se com os demais países amazônicos para, juntos, porem de pé uma agenda comum para o desenvolvimento sustentável das florestas tropicais. Descreveu as diversas ameaças que pesam sobre a região, como garimpo e desmatamento ilegal. Prometeu esforçar-se para pôr ponto final, antes do fim de seu mandato, ao desmate fora da lei.

Falou da fome no Brasil e no mundo. Disse que os governos de seu partido (dele e de Dilma) tinham tirado o Brasil do mapa da fome. E queixou-se de ter encontrado, ao assumir o Planalto pela terceira vez, um país de novo mergulhado no desonroso elenco dos esfomeados. Naturalmente, acusou o governo “fascista” que lhe precedeu.

Luiz Inácio lembrou que está com 77 anos, mas vigor de um jovem de 30. Convidou todos os presentes a comparecerem à COP30, a realizar-se em 2025 em Belém do Pará. Prometeu mostrar a todos o resultado de sua política de desmatamento zero.

Houve um ponto em que a fala de Lula pareceu surreal. Foi quando ele insistiu no advento de uma “governança mundial”. Em sua visão, isso se traduz pela criação de um organismo supranacional que toma decisões aplicáveis a todos os países sem necessidade de ratificação pelo Parlamento de cada país.

Essa afirmação é muito surpreendente. Entra em choque com outro cavalo de batalha de Luiz Inácio – aliás repetido no mesmíssimo discurso de hoje. Como tem feito em outras ocasiões, nosso presidente aproveitou essa cúpula para mostrar-se irritado de ter de utilizar o dólar americano como moeda internacional de trocas comerciais.

Como se vê, o desprendimento de quem está disposto a abrir mão de uma parte da soberania nacional para entregá-la a uma hipotética “governança mundial” entra em conflito com o ressentimento encruado de quem se sente humilhado por ter de utiliizar a moeda americana na hora de comerciar com o mundo.

Lula disse que se sentiria à vontade de comerciar em yuan com a China, em peso com a Argentina, em libra com a Inglaterra, desde que não tivesse de “comprar dólar” para fechar as mesmas operações. É puro antiamericanismo.

Antes de concluir, Lula foi esperto e disse considerar a União Europeia um “patrimonio democrático da humanidade”. Afirmou que gostaria de ver uma réplica na América do Sul.

Da primeira à última palavra, Luiz Inácio foi Luiz Inácio. Não chegou a chorar ao falar em pobreza, mas fez aquele tipo de discurso impecável, que, se não agrada, não chega a desagradar ninguém. As inconsistências passam despercebidas.

O pronunciamento foi daquele tipo que, décadas atrás, a gente chamava de “diálogo flácido para acalentar bovinos” – conversa mole pra boi dormir.

IPVA

José Horta Manzano

Os adjetivos automotor, automotivo e automóvel são sinônimos. Veículo automotor (ou veículo automotivo ou ainda veículo automóvel) é aquele cujo movimento é gerado por motor próprio. Sendo assim, com a exclusão de patinete tradicional, bicicleta sem motor, barco a vela, triciclo infantil e mais alguns outros, os veículos que povoam nossas estradas, nossas águas e nosso ar são todos automotores.

IPVA (Imposto sobre a Propriedade de Veículos Automotores) é, como seu nome indica, o imposto que deve pagar todo proprietário de um veículo automotor.

Li outro dia que o projeto de reforma tributária que está atualmente em discussão propõe que jatinho (private jet) e barco a motor entrem para a lista de veículos sujeitos ao pagamento de IPVA.

Perdi o fôlego. Como é que é? Quer dizer então que, até esta data, proprietários de private jet e de jet ski sempre estiveram livres de pagar o boleto do IPVA?

Tudo indica que sim. Vê-se que essas normas foram estabelecidas pelos do andar de cima, os que fazem as leis do país. Todos, por coincidência, grandes entusiastas de jatinho privado e de lancha veloz.

E assim vai o Brasil, uma república em busca de leis republicanas.

Burrice?

José Horta Manzano

Advertência
Este artigo foi escrito antes do pedido de desculpas feito no domingo pelo capitão.


 

Quando a burrice é demais, a gente desconfia que alguma coisa está errada.

Bolsonaro passou seus quatro anos de mandato escancarando sua ignorância e sua lentidão mental. Em certos momentos, sua lerdeza de raciocínio pareceu tão exagerada que muita gente acreditou que ele estivesse forçando a caricatura. Não estava. As revelações sobre sua trama de dar golpe de Estado para permanecer no poder provam o contrário: não havia intenção de parecer mais burro do que era; o que ele desejava ardentemente era tomar as rédeas do país à força.

Só que, como diria o outro, aquilo foi o “antes”, e agora estamos no “depois”.

Com parte da curriola atrás das grades e generais varridos do primeiro plano, a realidade aparece em sua crueza: golpe, não haverá. O ex-presidente poderá se considerar premiado se conseguir escapar à Papuda. Não há mais motivo para se fingir de bobo.

Ora, bem. A cinco dias de um julgamento crucial para ele, o capitão continua surpreendendo adeptos e detractores. Numa cerimônia partidária realizada em Jundiaí (SP), Bolsonaro declarou:

“Agora vocês vão cair pra trás. A vacina de RNA tem dióxido de grafeno, tá. Onde ele se acumula segundo a Pfizer que eu fui lá ver aquele trem lá, no testículo e no ovário. Eu li a bula.”

Esclarecimento
A vacina de RNA da Pfizer é uma das que estão sendo utilizadas no Brasil. Sua bula não menciona nenhum composto de grafeno.

Logo, a declaração é mentira cabeluda, daquelas de fazer o nariz crescer daqui até a esquina. Qual é a intenção do capitão? O julgamento da semana que vem tem por objeto aquele malfadado dia em que Bolsonaro convocou embaixadores do mundo todo para contar-lhes uma baciada de mentiras sobre o funcionamento das urnas brasileiras. Se o tribunal concordar com a tese de que o então presidente espalhou feiquiníus que causaram dano à imagem do país, a pena será a cassação de seus direitos políticos (não poderá votar nem ser eleito por 8 anos).

Sua burrice, por mais arraigada que seja, não o impede de perceber que está na corda bamba. Se ainda tem esperança de escapar à condenação, o mínimo a fazer seria não provocar os magistrados que vão julgá-lo.

Em vez disso, Bolsonaro deu mais um giro na morsa que lhe estrangula o futuro político. Por quê?

Tenho cá minha ideia. Talvez o capitão esteja se projetando nas eleições presidenciais de 2026. Talvez entenda que, com as correntes que arrasta, será quase impossível ser de novo eleito. Pra não passar vergonha, prefere que lhe cassem o direito de ser candidato desde já, assim permanecerá como eminência parda de seu partido, sem ter a obrigação de passar pelas urnas para demonstrar força.

Se for isso, até que não é má ideia. Vai continuar recebendo polpudo salário do partido (mais as aposentadorias que acumula), vai continuar residindo em palacete protegido e vigiado, vai continuar usufruindo as regalias de ser ex-presidente. E não precisará provar que é bom de voto. Não é um futuro de paxá?


Nova conclusão
No dia seguinte à declaração, Bolsonaro veio às redes pedir desculpas pelo que disse. Alegou que, sendo ele entusiasta do grafeno, acordou com um nó na cabeça. Acabou misturando algo de que gosta (o grafeno) com algo que odeia (a vacina). E deu no que deu.

Com a ressalva de o ex-presidente ter feito seu pronunciamento sob “efeito de medicamentos”, como já alegou no passado, a nova conclusão é inescapável: o homem é burro mesmo. De uma burrice profunda, congênita, paralisante e afligente.

Eu não imaginava que seu déficit de raciocínio chegasse a esse ponto, mas sinto que não tem jeito. O homem é de uma burrice irremediável.

O boleto

Parlamento suíço

José Horta Manzano

A firmeza de opinião não está entre as qualidades maiores do brasileiro. Em detalhes do dia a dia e em acontecimentos importantes, gente simples e gente complicada tem reações semelhantes.

Vivendo há décadas longe de Pindorama, aprendi que sim é sim, e não é não. Só que isso pode valer em determinadas regiões do mundo. No Brasil, a afirmação e a negação não são necessariamente antagônicas.

Nunca lhe aconteceu de oferecer um favor ou uma simples gentileza a alguém e receber em troca um “Ah, não precisa!”? Na verdade, é um “não” que quer dizer “sim”, o que me deixa desconcertado. Para mim, parece simples: quando a gente quer, responde que sim; quando não quer, diz que não. Ficar no meio do caminho me soa estranho.

O fenômeno permeia toda a sociedade e atinge os altos círculos das “pessoas politicamente expostas”, que é a nova denominação da classe política. Habituados a flutuar entre opiniões, políticos trocam de partido como trocam de camisa. Abrem a boca pra soltar bobagem, na certeza de que, dia seguinte, poderão consertar, deixar o dito por não dito. E segue o barco.

Acredito que Lula, ao proferir disparates sobre a Ucrânia invadida pela Rússia, estava exercendo seu direito ao arrependimento posterior: toda asnice proferida pode ser consertada mais adiante, caso seja mal recebida. Tanto é assim que suas falas se “suavizaram”, sem todavia se encaixarem nos trilhos que o mundo civilizado esperava dele.

Com essas poucas falas calamitosas, Luiz Inácio destruiu a própria imagem, aquela que lhe tinha custado anos para construir e que era admirada e respeitada no planeta. A confiança que o mundo desenvolvido depositava no velhinho “pai dos pobres” foi-se embora pelo escoadouro.

A expressão que Lula usou – Clube da Paz – pode até tornar-se realidade daqui a algum tempo, dependendo de como os combates evoluírem. Só que ele, Lula, não será chamado a organizar nem a chefiar as tratativas. Talvez nem o aceitem no Clube.

A prova? Pois ontem às 14h (hora da Europa Central), os parlamentares suíços se empertigaram para ouvir o discurso de Volodimir Zelenski, que falava ao vivo, diretamente de Kiev, por vídeo em telão.

A Suíça é país tradicionalmente neutro. Assim, o presidente ucraniano evitou tocar em temas militares (armas ou munições). Em vez disso, agradeceu pelos bons serviços que a Suíça tem prestado (acolhida de refugiados, assistência médica aos feridos).

E aproveitou para detalhar seu próprio plano de paz. Sua ideia é reunir a expertise de diferentes chefes de Estado, cada um contribuindo com sua experiência em áreas como: questões nucleares, remoção de minas, proteção de crianças (milhares de crianças ucranianas foram deportadas para a Rússia contra sua vontade).

Zelenski fez um único pedido. Convidou a Suíça a organizar “uma cúpula sobre a paz mundial”. E acrescentou: “É justamente nesse ponto que a Suíça é especializada”. Foi ovacionado de pé.

Como o distinto leitor e a graciosa leitora podem perceber, Lula e seu “Clube da Paz” estão desde já descartados. A língua ferina e principalmente o raciocínio de Luiz Inácio, aprisionado em ressentimentos que lhe cristalizaram a alma, já fez seu efeito e já passou fatura. Não dá mais pra voltar atrás. Agora, o jeito é pagar o boleto. Sem chance de mudar de ideia.

Mais um privilégio

José Horta Manzano


Em princípio, o que não for proibido é permitido, concorda?


Vamos aos fatos. Na calada da noite de ontem para hoje, a Câmara Federal votou e aprovou um projeto de lei que estabelece punição para quem discriminar políticos. Especificamente, a nova regra coloca instituições bancárias num sapato apertado.

Cometerá crime todo aquele estabelecimento que recusar abrir conta bancária, negar concessão de empréstimo ou ainda bloquear a prestação de outros serviços financeiros a políticos e pessoas “politicamente expostas”. Contraventores arriscarão condenação a penas privativas de liberdade. Dado que não se pode mandar banco para a cadeia, seus diretores sofrerão as consequências do novo crime.

Por um lado, é óbvio que os parlamentares estão legislando em causa própria, o que, em si, já é uma indecência. Por outro, a nova lei quebra a igualdade de tratamento a que todos os brasileiros têm direito, sejam eles políticos, agricultores, doutores ou mascates.

Difícil será demonstrar que, na hora de abrir conta em banco, “pessoas politicamente expostas” tenham mais necessidade de amparo que profissionais de outros ramos. Pelo contrário, o bom senso ensina que um político está mais preparado que um sorveteiro a enfrentar qualquer problema na hora de se entender com a diretoria do banco.

A lei cria uma categoria especial de cidadãos, os “politicamente expostos”, que têm direito a proteção legal para enfrentar estabelecimentos bancários. É mais um privilégio para uma categoria que já tem tantos outros. Nesse sentido, pode-se afirmar sem medo que o novo regramento é discriminatório. Se bancos são obrigados a abrir conta para esses cidadãos, têm de ser obrigados a fazer o mesmo para qualquer cidadão.

Talvez seja pedir muito, mas as excelências que põem regras em nossa vida bem que podiam, por um instante, esquecer conchavos e falcatruas, e pensar no bem do povo e na felicidade geral da nação. No próprio âmbito bancário, há muita lei que está pedindo para ser criada.

Na França, é proibido pagar salário em dinheiro. Todo salário tem de ser depositado na conta do funcionário. Isso descarrega a Justiça. Desaparecem querelas do tipo “Ele não me pagou!”, “Paguei sim, foi em notas de R$20!”. Por que não implementar sistema idêntico no Brasil? Como? Nem todo o mundo tem conta bancária? Ué, mas se a nova lei obriga estabelecimentos bancários a abrir conta para políticos, por que razão não os obrigaria a fazer o mesmo para todos os que solicitassem?

Outra esquisitice brasileira: pagamentos em “dinheiro vivo”. Experimente, em qualquer país europeu, fazer um pagamento de montante importante em “dinheiro vivo”. Dependendo da situação, o distinto pode terminar na delegacia dando explicações: origem, dono do dinheiro, destino, razão do pagamento. Com toda certeza, um inquérito seria aberto. Pagar imóvel com dinheiro vivo? Nem em sonho!

Por que nossas excelências não introduzem essa prática entre nós? He, he… Acho que a resposta é tão evidente, que dispensa explicação.