Vegetais de folhas verdes

O Globo, 21 ago 2023

José Horta Manzano

Saiu n’O Globo de hoje um primor de artigo. Ele promete revelar os alimentos milagrosos para controlar o colesterol. “Oba, vamos dar uma olhada” – pensei.

De fato, o longo texto trazia diversos subtítulos, um para cada categoria de alimento. Entre eles, o subcapítulo dos “Vegetais de folhas verdes”. Achei esquisito.

Por mais que eu me esforce, não me vem à cabeça nenhum vegetal comestível com folhas de outra cor. Não me lembro de ter comido planta de folha azul, roxa, cor-de-rosa. Foram sempre de folhas verdes.

Depois de ler o capítulo inteiro, desconfiei que a novilinguesca expressão “vegetais de folhas verdes” é provável tradução canhestra de alguma expressão inglesa.

Talvez soe natural a ouvidos modernos; a mim, não. Ainda sou do tempo em que “vegetais de folhas verdes” se chamavam verduras.

Pra regular o colesterol, prefira o original.


Naqueles que comem verdura, a saúde perdura.


Fico imaginando a mãe de Joãozinho chamando para o almoço. “Vem almoçar, filho, preparei um ensopado de “vegetais de folhas verdes” que está uma delícia!”

Será?

Caça às palavras versão Beta

José Horta Manzano

A briga é antiga. Cochila sossegada por anos até que, de repente, desperta de sobressalto, assim que algum esperto decide redescobrir o trovão e reinventar a pólvora.

O episódio que vou narrar se desenrolou no início da década de 1960. Naquela época, gramáticas e dicionários assinados pela equipe de Francisco da Silveira Bueno (1898-1989) eram adotados nas escolas oficiais. O Silveira Bueno foi precursor do Houaiss e do Aurélio.

Em meados de 1961, por iniciativa de um advogado carioca influente junto ao governo federal, uma comissão foi nomeada especialmente para avaliar a ‘perniciosidade’ de manter no dicionário Silveira Bueno certos vocábulos julgados ofensivos.

Os tempos eram outros. As preocupações não eram as de hoje. Ninguém podia prever, por exemplo, que um dia existiria a sigla LGBT e as preocupações que a acompanham. A ênfase não era posta em assuntos sexuais, como hoje. Aliás, pouco se falava de sexo, que não era assunto de salão. Ainda que, à boca pequena, se cochichassem comentários sobre certos comportamentos sexuais fora dos padrões, oficialmente dava-se de barato que todos se conformavam com a norma, sem rebeldia nem fantasia. A briga com os dicionários era de outra natureza.

Os verbetes incriminados, aqueles que podiam perturbar a “mente inocente” dos jovens que consultavam a obra, eram: judeu, judiar, negro, favela, panamá, jesuíta.

Na época, a palavra judeu era polissêmica, ou seja, tinha mais de um significado. Além de designar a religião ou a etnia, também designava um usurário, avarento, negocista – acepção pouco usual nos dias de hoje. O verbo judiar, embora bastante utilizado na linguagem de todos os dias, lembrava os maus tratos infligidos aos judeus nos tempos sombrios da Santa Inquisição.

Negro sempre simbolizou coisa infeliz, como hora negra, sorte negra, nuvens negras, sentimentos negros. A proposição da comissão era eliminar(!) do dicionário a palavra negro e substituí-la por preto. Mas os tempos mudam, senhores! Fosse hoje, a discussão talvez viesse com sinais invertidos. É que, meio século atrás, chamar alguém de “negro” podia ser tomado como xingamento pesado. O certo era dizer preto. Veja como as coisas mudam.

Favela, que também tinha a acepção de “lugar de malandros e vagabundos”, deveria ser cortada do dicionário. Panamá como sinônimo de negócio podre era outra a banir. (Essa acepção se referia à Cia. do Canal do Panamá, que faliu estrepitosamente no fim do século XIX, fato hoje caído em completo esquecimento.)

Havia mais. A comissão implicou ainda com o verbete jesuíta. (Francamente, parece que tinham fixação com religião.) De fato, entre os significados do termo, dicionários mencionavam (e ainda mencionam) finório, astuto. Segundo a comissão, a palavra podia até ficar, mas essa menção tinha de desaparecer.

Pra encurtar, não deu em nada. O presidente Jânio Quadros renunciou ao cargo poucas semanas depois, e, da comissão, ninguém mais ouviu falar. A um repórter, Silveira Bueno, o “dono” do dicionário, afirmou que, de qualquer maneira, os verbetes não seriam retirados em hipótese nenhuma. O futuro confirmou a afirmação. Estão todos lá, alguns em morte cerebral, mas de coração batendo.

São os falantes que fazem a língua, não os dicionários. Acusar o “pai dos burros” é caminho equivocado. Seria como se um internauta, desagradado com os spams que recebe, quebrasse a tela do computador. Não veria mais nada, mas as mensagens indesejáveis continuariam a se acumular em sua conta email.

Encobrir a realidade é perda de tempo e de esforço, que ela sempre acaba aparecendo. Você a expulsa pela porta, ela volta pela janela.

Igualdade de gênero antes da hora

José Horta Manzano

Nos países da Europa central, a tradição manda dar ao filho unicamente o sobrenome paterno. Durante séculos, desde que nomes de família começaram a ser atribuídos, lá pelo século 13 ou 14, é o que se costuma fazer.

Mas os tempos mudam. A tendência do “politicamente correto” e da “igualdade de sexo” (ou de gênero) impõe certas modificações. Um a um, países em que a atribuição unicamente do nome paterno era a regra vão se adaptando aos novos tempos. Atualmente, Alemanha, França, Suíça e numerosos outros países já relativizaram o rígido sistema que vigorou por séculos.

Na maior parte desses países, já é permitida a escolha entre nomear o recém-nascido unicamente com o sobrenome do pai, unicamente com o da mãe, ou ainda dar-lhe os dois sobrenomes, na ordem desejada pelos pais. Em geral, em caso de pais casados, a decisão é tomada quando nasce o primeiro filho. Feita essa escolha, os filhos(as) seguintes terão de receber o(s) mesmo(s) nome(s), na mesma ordem. É o caso da lei alemã, por exemplo.

Na Itália, até outro dia, era inconcebível alguém levar o sobrenome da mãe – exceto no caso de o pai ser desconhecido. Isso começou a mudar. Faz alguns meses, a Corte Constitucional deu um parecer pouco habitual: mostrou-se favorável à adaptação da Itália aos novos tempos.

Considerou que o costume de dar automaticamente ao recém-nascido o sobrenome paterno, deixando o materno de lado, é “discriminatório e prejudicial à identidade” da criança. Acrescentou que os pais deveriam ser autorizados a escolher o sobrenome da criança. A Corte vê com bons olhos a atribuição, aos futuros cidadãos, de sobrenome formado pelo do pai acoplado ao da mãe, na ordem que o casal preferir. Naturalmente, os pais estão livres de decidir dar apenas um dos sobrenomes, o do pai ou o da mãe.

É interessante que o costume ibérico, que prevalece na Espanha e em Portugal (e que nós herdamos) é uma moda politicamente correta de vanguarda, estabelecida muito antes das imposições atuais. De fato, na Península Ibérica, faz séculos que pai e mãe são tratados com isonomia. (Pelo menos, no momento de dar nome aos filhos.)

A pequena diferença entre os dois países é que os espanhóis colocam o sobrenome paterno primeiro, enquanto os portugueses põem o nome do pai no fim.

Na Espanha, a tradição costuma ser rigorosamente seguida; praticamente todos os espanhóis têm o sobrenome do pai primeiro, e o da mãe em seguida. É por isso que, em sobrenomes dados segundo a norma espanhola, a abreviação do nome de um indivíduo nos parece curiosa. Por exemplo, temos Fidel Castro R., em que o R. corresponde a Ruz, sobrenome materno do pranteado ditador cubano.

Em Portugal, a tradição é respeitada até hoje. Praticamente todos os portugueses têm dois sobrenomes, sendo primeiro o da mãe, em seguida o do pai. Já no Brasil, um pouco por influência das correntes migratórias de um século atrás, um pouco por desconhecimento ou por indisciplina mesmo, a regra lusa nem sempre é seguida, dando lugar a certa cacofonia.

Há brasileiros que têm os dois sobrenomes, bonitinho, na ordem certa. Há os que têm só o do pai. Há ainda cidadãos que carregam três, quatro ou mais sobrenomes, como se fossem de linhagem nobre. Sabe-se até de irmãos, filhos do mesmo pai e da mesma mãe, que têm sobrenomes diferentes.

São coisas nossas.

Minha casa, minha vida

José Horta Manzano

Durante a gestão bolsonárica, o programa de habitação popular “Minha Casa Minha Vida” esteve em hibernação. Estender a mão a quem precisa não era realmente o forte do capitão.

Lula, desde o começo do mandato versão 3.0, prometeu retomar os programas sociais que tinham dormitado por quatro anos – e que são primordiais para quem realmente precisa. Embora tenha vivido, nas últimas décadas, bem acima da carne seca, Luiz Inácio ainda se lembra da infância difícil, quando tudo faltava.

Nunca vi pessoalmente uma implantação do Minha Casa Minha Vida mas já vi fotografias. Que tristeza, minha gente! Aquelas fileiras de casas alinhadas como soldadinhos de chumbo de batalha napoleônica compõem um quadro desanimador.

As casas são todas desesperadamente idênticas. Os terrenos (se é que aquelas minúsculas parcelas podem ser chamadas de “terrenos”) têm rigorosamente a mesma metragem. Até a pintura das casinhas é de um deprimente tom branco sujo. Sujo e uniforme. Não se vê, em todo o loteamento, um arbusto, nem unzinho. Nem grama. Nem um matinho. A impressão é de que falta vida. Nem nossas roupas comuns dependuradas hão de dar jeito.

Acredito que, pra tirar esse aspecto borocoxô, três medidas simples e pouco onerosas deveriam ser tomadas.

Primeiro, que se pense em variar o colorido das casinhas. Basta escolher 5 ou 6 cores e alternar. Vai sumir esse aspecto de acampamento de refugiados.

Segundo, que se plantem árvores ou, pelo menos, arbustos antes de entregar as casas aos contemplados. Não precisa criar uma floresta (se bem que não faria mal), basta uma moita aqui, outra acolá. Com essas manchas de vegetação, o aspecto geral subiria alguns graus.

Terceiro, não é muito complicado acabar com esse aspecto de vila soviética, onde todas as casas são idênticas. Em vez de desenhar uma planta única, que os arquitetos façam o esforço de criar três ou quatro tipos de casa. Que conservem a metragem estipulada, mas que apliquem seu talento a modificar a disposição dos cômodos e os exteriores: uma janela deste lado, uma janela do outro lado, a porta de entrada aqui, a porta de entrada ali. E assim por diante. “Assim, vareia”, como diz o outro.

Não é só porque se destinam ao povão que esses loteamentos têm de ter aspecto de carregação. Vida de pobre já é triste o suficiente. Não vale a pena cultivar a desesperança.

Cúpula de Belém

José Horta Manzano

Abriu-se ontem em Belém uma reunião de cúpula, convocada por Lula, reunindo chefes de Estado dos países amazônicos. Respondem a essa qualificação os países cujo território inclui uma fração da floresta tropical. A mídia disse e repetiu que são oito os países amazônicos. Está errado, a conta não bate.

Na verdade verdadeira, os países amazônicos são nove. E por que razão todos falam de apenas oito? É porque a Guiana Francesa, território francês vizinho de parede de nosso Amapá, apesar de ter a totalidade de sua área coberta pela floresta amazônica, não enviou representantes de alto escalão.

Bem que Luiz Inácio convidou pessoalmente seu colega Emmanuel Macron (que, aliás, está de férias neste momento, descansando num forte pertencente à Marinha e situado na Côte d’Azur). Monsieur Macron não veio nem mandou nenhum de seus ministros. Preferiu enviar representantes de segundo escalão. E por quê?

Evidentemente, Paris não deu a verdadeira explicação, que a linguagem diplomática não permite. Nessas horas, apesar das férias de Macron, alega-se que há “problemas de agenda”. Aos observadores, resta especular. E não é difícil descobrir.

Em primeiríssimo lugar, Macron está profundamente desapontado com a atitude de Lula diante da guerra na Ucrânia. Paris imaginava que, mais vivido e experiente que seu antecessor, Lula tivesse facilidade de compreender a mecânica do mundo. Macron pensava que Lula entendesse que, nesse conflito, há um agressor e um agredido. A obstinação de Luiz Inácio em pôr os dois beligerantes no mesmo balaio e se recusar a condenar Putin pela agressão criou um ambiente de desconfiança e desagrado. Tendo sido um dos primeiros a apoiar Lula e parabenizá-lo pela vitória, Macron decepcionou-se com o apoio que Lula deu (e continua dando) a Putin. Em Paris, a atitude de Lula soou como traição.

Em segundo lugar – e essa foi a gota d’água – a França não foi convidada a participar da cúpula de Belém como país amazônico, mas como Estado associado. Em suma, como participante de segunda classe, daqueles que a gente convida de favor. Se o chefe de Estado francês tivesse vindo, teria sido percebido como uma espécie de penetra. Diante dessa condição inaceitável, Macron não veio.

Luiz Inácio fez mal em não prestigiar o colega francês. Não se deve maltratar gratuitamente os amigos, especialmente aqueles que te deram a mão num momento difícil. Além de mostrar mau-caratismo, o descaso pode custar caro e fechar portas.

O Brics

Da Folha de São Paulo

José Horta Manzano

O clube chamado Brics não passa de fantasia sem qualquer consistência. Esse acrônimo foi bolado vinte anos atrás por um economista do banco Goldman Sachs. O rapaz teve a ideia de enfileirar a letra inicial de cada um dos países que, segundo a bola de cristal daqueles tempos, dominariam a economia global por volta de 2050. Brasil, Russia, India, China. Deu: Bric. Anos mais tarde, talvez na intenção de incluir um país africano no elenco, foi acrescentada a África do Sul (South Africa) e o acrônimo virou Brics.

Como se vê, entraram na mesma sacola países que quase nada têm em comum além do fato de serem promessas para o futuro. A Rússia tem tanto a ver com a África do Sul quanto a China tem a ver com o Brasil. No fundo, a qualidade comum aos membros do clubinho é ter uma população importante, se bem que a África do Sul nem tanto.

Dirigentes do Brics se reúnem com certa frequência e tomam decisões de pouca relevância. A heterogeneidade dos membros é tão grande que até o nome do clube flutua no entendimento de cada um. Veja a imagem reproduzida no alto deste artigo: a própria Folha de SP, que costuma ser cuidadosa nos detalhes, hesita entre “os Brics” e “o Brics”.

É verdade que aquele “s” no final parece indicar plural. Mas é só impressão. Como Mercosul, Brics é um nome coletivo, não admite plural. Quem diz “os Brics se reúnem” deveria também dizer “os Mercossuis se reúnem”. Não se deixe impressionar pelo “s” final.  O Brics é suficiente, assim como o pires e o lápis.

A associação é atualmente composta por 5 países: Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul. Desses cinco, dois são ditaduras autoritárias (China e Rússia) e um está a caminho (Índia). Pior que isso: o ditador russo está na lista vermelha da Interpol com ordem de captura emitida pelo Tribunal Penal Internacional. Para ele, é temerário botar um pé fora de suas fronteiras.

A população da Índia é 25 vezes maior que a da África do Sul. O PIB da China, pelo conceito ppp, é 3 vezes maior que o da Índia, 7 vezes maior que o do Brasil ou da Rússia, 30 vezes maior que o da África do Sul. A assimetria econômica entre os membros é paralisante.

O distinto leitor e a encantadora leitora hão de convir que, com sócios díspares e sem um objetivo comum, a associação tem chances magras de prosperar. A continuar assim, vai acabar se tornando um agrupamento de países-súditos da China.

Caso o Brics aceite novos membros nos próximos anos, a ascendência chinesa sobre todos vai se tornar ainda mais evidente. O Brasil deveria combater vigorosamente toda expansão do clube.

Não sei se o lulopetismo já se deu conta de que o preço a pagar para levar seu antiamericanismo às últimas consequências é jogar-se nos braços da China. É bom que comecem a pensar nisso com urgência porque, sabendo ou não, é o que estão fazendo.

A sabedoria popular ensina que não se deve trocar o certo pelo duvidoso.

Lítio

Visão dantesca do garimpo em Serra Pelada (Pará) – anos 1980

José Horta Manzano

O lítio é um metal de múltiplas utilidades. Com a irrupção da internet e de seus aparelhos conectados, o lítio tornou-se mais procurado. A perspectiva da fabricação maciça de carros elétricos pressionou o preço desse metal e tem excitado investidores em busca de novos negócios.

Cada vez mais precioso e mais procurado, o lítio, embora raro, é necessário na fabricação de telefones celulares, laptops, câmeras digitais, veículos elétricos, pacemakers, relógios, óculos especiais, certos tipos de cerâmica. Determinadas peças de alta tecnologia da indústria aérea, de bicicletas e de trens-bala também requerem lítio. Ar condicionado e sistemas de secagem industrial também precisam de lítio. Há ainda o uso terapêutico do lítio, usado em psiquiatria.

Na atualidade, a maior parte do lítio extraído da superfície da Terra é destinada às baterias de automóveis elétricos. Só pra ter uma ideia da necessidade desse material no futuro próximo, saiba-se que a União Europeia já proibiu a venda de carros térmicos novos (gasolina/diesel) a partir de 2035. Daí pra frente, todo carro novo terá de ser elétrico. Mais cedo ou mais tarde, o mundo inteiro virá atrás. O ano de 2035 é amanhã.

O Vale do Jequitinhonha (MG) tem chamado a atenção de investidores estrangeiros por conter lítio em suas terras e pela possibilidade de extraí-lo de forma ecológica. A etiqueta “lítio verde” promete uma extração menos agressiva para o meio ambiente.

Semana passada, uma reportagem do Estadão deu ênfase ao lítio das Minas Gerais. A empresa interessada em extrair o metal é uma certa Sigma Lithium, criada no Brasil, registrada no Canadá, inscrita na bolsa americana. Como se vê, puro sangue nacional. Enquanto isso, já outras três grandes mineradoras internacionais estão a instalar-se no mesmo Vale do Jequitinhonha, recriando, 350 anos depois, nova corrida ao “ouro” nas Gerais.

O artigo se encanta com os bilhões de dólares que serão investidos e com os milhares de empregos que serão criados.

Quanto a mim, fico pensativo. Os “milhares de empregos” serão, em angustiante maioria, de peão de obra. Quem se lembra do afligente espetáculo da Serra Pelada da década de 1980 tem uma ideia do que pode ser a extração do lítio mineiro. Certamente o retrato vai sair melhor desta vez, com máquinas gigantescas fazendo o trabalho pesado, mas, logo atrás, vêm os auxiliares. Os “milhares de empregos” não hão de ser destinados unicamente a funcionários administrativos.

Por seu lado, fico com a desagradável impressão de que, mais uma vez, nos deslumbramos com a entrada de dinheiro fácil e deixamos de pensar no futuro. Dinheiro grosso vai entrar, naturalmente, com os investimentos. Só que o lítio não é riqueza infinita. Um dia, talvez logo, vai acabar. E aí como fica? Não teremos mais nada para atrair novos investimentos.

Me parece que este é o momento ideal de pensar em adicionar valor a esse lítio. Em vez de vendê-lo de caçamba, poderíamos beneficiá-lo e assim ganhar muito mais. O Brasil tem boa tecnologia. Para atingir o estágio de excelência em produção de baterias para telefone por exemplo, não falta muito. O BNDES ou o Banco do Brics (alô, dona Dilma!) podem perfeitamente financiar o investimento que está faltando para desenvolver essa tecnologia.

Se nada for feito agora, vamos continuar exportando matéria prima para que outros agreguem valor e enriqueçam. E vamos continuar à espera do salvador da pátria, aquele que nos erguerá ao patamar das nações justas, ricas e desenvolvidas.

O chuchu de cada um

José Horta Manzano

Artigo publicado no Correio Braziliense de 29 julho 2023

Em 1939 Carmen Miranda embarcou para os Estados Unidos. No horizonte, já assomavam sinais ameaçadores da guerra que estava para estourar. Para os serviços americanos de inteligência, estava fora de questão que o Brasil, país mais importante da América Latina, se alinhasse com as ditaduras nazi-fascistas.

Junto a outros esforços para cativar nossa simpatia, o governo de Washington decidiu importar uma artista brasileira com potencial de mostrar ao público americano uma faceta atraente e simpática de nosso país, e, ao mesmo tempo, levar os brasileiros a se orgulharem do sucesso de uma compatriota nos EUA.

A escolha recaiu sobre Carmen Miranda e ela viajou. Um ano depois de ter deixado o Brasil, voltou para apresentações no Rio de Janeiro. Não se sabe ao certo a razão – talvez por pura inveja –, a recepção a ela foi pouco calorosa. Um diz-que-diz pérfido chegou a espalhar que a artista, depois de um ano fora, tinha ganhado dinheiro mas perdido o ritmo e a graça.

Luiz Peixoto e Vicente Paiva compuseram então o samba “Disseram que eu voltei americanizada” especialmente para ela. A letra repele veementemente toda “americanização” e termina: “Enquanto houver Brasil, na hora das comidas, eu sou do camarão ensopadinho com chuchu”.

Chuchu (ou maxixe) é legume popular. Na cabeça de pobre, “rico não come chuchu” (embora nem sempre seja verdade). O fato é que, lançada a música, Carmen logo recuperou os fãs ressabiados. O povão voltou a se identificar com a cantora, que, mesmo enricada, continuava comendo chuchu.

Antes de chegar à Presidência, o jovem Jânio Quadros teve ascensão fulgurante. Em pouco mais de dez anos foi vereador, deputado estadual, prefeito, deputado federal e governador. Desde muito cedo, frequentou palácios, recepções e banquetes. Na base de seu eleitorado, porém, estavam pessoas simples, de parco poder aquisitivo. Não ficava bem que imaginassem o “político que varria a bandalheira” levando vida de rico, longe do quotidiano das massas.

Para desfazer essa impressão, Jânio sempre cuidou sua aparência quando discursava em comício. Vinha desgrenhado e com caspa no ombro. Lá pelas tantas, tirava do bolso um sanduíche de mortadela já mordido e explicava ao auditório que não tinha tido tempo de almoçar (ou jantar, conforme o caso). Era sua maneira de mostrar que continuava comendo chuchu.

Logo no início de sua gestão, Jair Bolsonaro foi um dia apanhado comendo lagosta com um embaixador estrangeiro. Em 2021, enquanto brasileiros empobrecidos substituíam carne por ovo, foi fotografado exibindo a embalagem do prato de resistência de seu almoço daquele Dia das Mães: picanha de R$ 1.799 o quilo. Pegou mal.

Decerto aconselhado por algum assessor, o então presidente resolveu mostrar humildade. Um dia, deixou-se filmar enquanto comia, junto a uma barraquinha de rua, uma porção de frango com farofa. Com as mãos, sem talher. Era sua maneira de dizer que continuava comendo como o povão. Só que, desastrado, emporcalhou-se todo, espalhando farofa na calça e na calçada. A emenda ficou pior que o soneto. Seu chuchu não convenceu.

No quesito viagens internacionais, Lula 3 começou a todo vapor. Em seis meses, tinha visitado uma dúzia de países distribuídos por três continentes. Um luxo. Mas o partido em que ele militou a vida toda (PT) prega, em teoria, um mundo de desigualdades sociais aplainadas. Assim, não fica bem o presidente, só porque presidente é, ser recebido por figuras principescas, participar de banquetes e comer do bom e do melhor sem ao menos trazer um pratinho de doces para os catadores.

Um assessor mais atento – ah, esses assessores! – talvez tenha chamado a atenção do chefe para esse contrassenso. Luiz Inácio resolveu remediar. Ao retornar de recente viagem à França e à Itália, queixou-se publicamente das refeições que lhe costumam oferecer no exterior. Disse que, quando viaja, não tem ocasião de comer do que gosta, na quantidade que lhe apraz. Afirmou que, nos banquetes, “as porções são minúsculas”, é “tudo pequenininho”, não tem uma” bandejona pra gente se servir”. Dia seguinte, a mídia francesa e a italiana não perdoaram a gafe.

É interessante perceber que as quatro figuras aqui descritas encontraram na comida o escudo contra acusações de elitismo. Esses quatro não devem ser os únicos. O mundo é vasto e cada um tem sua maneira de dizer que adora comer chuchu.

Zé Gotinha e a vacinação

José Horta Manzano

Desde a Antiguidade até meados do século passado, a poliomielite (paralisia infantil) fez muito estrago. Trata-se de doença infecciosa e contagiosa causada por um vírus específico aos humanos. Em suas formas mais benignas, deixa sequelas de deformação ou paralisia dos membros inferiores; suas formas mais agressivas podem até levar à morte do paciente.

Não se sabe ao certo por que razão, essa doença recrudesceu a partir da urbanização e da industrialização. Desde o início do século 20, surtos de poliomielite passaram a assombrar o mundo, principalmente as grandes cidades. A ciência se debruçou sobre o problema e passou a buscar uma imunização.

Nos anos 1950, as primeiras vacinas eficazes apareceram no mercado americano. Chegaram em boa hora pois, só no ano de 1955, a paralisia infantil tinha contagiado 60 mil crianças americanas. Logo no ano seguinte, teve início a primeira campanha de vacinação, com aplicação da vacina desenvolvida pela equipe do doutor Jonas Salk.

Estranhamente, a adesão popular foi mais baixa do que se esperava. Principalmente entre os meninos: apenas 0,6% deles espicharam o braço. Medo da picada? É bem capaz.

Foi quando o governo americano pensou num estratagema. O artista do momento era Elvis Presley, ídolo de todos os jovens, especialmente dos meninos. O cantor foi convidado a se apresentar no Ed Sullivan Show, popular programa de televisão da época. Um terço dos americanos largaram tudo pra assistir ao show. Quem é que havia de perder uma passagem na tevê de um Elvis na flor de seus 20 anos?

Só que o artista não tinha vindo para cantar, mas para tomar a vacina contra a pólio, ao vivo, diante do país boquiaberto. Sem luvas, como se fazia à época, um médico aplicou a injeção no galã. Seis meses depois, a adesão dos meninos à vacina subiu a 80%.

Em nossa terra, em questão de vacina, Bolsonaro refugou. Mas o Lula, que parece não ter tanto medo de picada, podia aproveitar a ideia. Reforçar o Zé Gotinha com ídolos da garotada (e das mães da garotada também). Elvis Presley já se foi, mas hoje temos um vasto leque de possibilidades. Há “influencers”, cantores, atores de novela, futebolistas.

A proteção da população contra doenças infecciosas passa pela vacina, quando há. É interesse de todos que a meninada cresça com saúde. Traz alegria e alivia os gastos com o SUS.

Os falantes são os donos da língua

Eduardo Affonso (*)

A Câmara Municipal de Belo Horizonte aprovou Projeto de Lei que proíbe o uso de linguagem neutra nas escolas do município. Pura perda de tempo e falta do que fazer.

A lei é inconstitucional (o STF já deixou claro que diretrizes e bases da educação são de competência da União). E tentar proibir que se adote a linguagem neutra, como propõem os milicianos do idioma, é tão inútil quanto querer enfiá-la goela abaixo, como pretendem os guerrilheiros da causa.

Lei similar já foi derrubada em Rondônia e logo será também no Paraná e em Santa Catarina bem como em Manaus e Porto Alegre. Igual destino terão os projetos em tramitação em cinco estados, cinco capitais e no Distrito Federal.

Qualquer ação para impor entraves ou transformações no idioma por meio de decreto será ineficaz. Pelo simples motivo de que não é assim que a coisa funciona. A língua não muda de fora para dentro ou de cima para baixo: ela muda porque nós, os falantes, mudamos. Nada impedirá a língua de fluir (não há barragem capaz de contê-la); nada a desviará arbitrariamente de seu curso. (Reforma ortográfica é outro departamento.)

Será que alguém acredita que professorus e alunes passarão, todes juntes, a se expressar de uma forma artificial, contraintuitiva, só porque paladinos da justiça resolveram embaralhar gênero biológico e gênero gramatical? Escolas do Brasil inteiro tentam, há décadas, sem sucesso, ensinar que a conjugação na primeira pessoa do singular do futuro do subjuntivo do verbo “ver” é “quando eu vir”. Que há quatro porquês. Que não existem “menas” ou “houveram problemas”. Que vocativo leva vírgula. E… nada.

Sim, a língua mudará. Na nossa geração, trocamos chofer por motorista, menu por cardápio, perdemos a vergonha de começar frases com pronome oblíquo. “Não sou alegre nem sou triste:/sou poeta”, escreveu Cecília Meireles, numa época em que o usual era dizer “poetisa”. Poeta, de dois gêneros, causaria estranheza a nossos avós: para nós, soa naturalíssimo. Assim como “a travesti”, que durante muito tempo foi ignorada, apesar de aplicável.

Diz Caetano Galindo em seu ótimo “Latim em pó”:

— As línguas mudam. O tempo todo surgem modos alternativos de dizer alguma coisa, formas mais velhas vão desaparecendo, destronadas por novas variantes. E essa mudança, assim que começa a ocorrer, é sempre percebida como um desvio, como aberração a ser evitada a qualquer custo.

Os nobres edis e parlamentares, ocupados em imobilizar a língua, e estus abnegades ativistes, empenhades em expurgar do idioma um suposto laivo machista, precisam conhecer o grande dr. Castro Lopes, que, no final do século XIX, fez o que pôde para expulsar do português os estrangeirismos (futebol, turista, abajur, greve) substituindo-os por neologismos puro-sangue (ludopédio, ludâmbulo, lucivelo, operinsurreição). Não rolou.

Em compensação, ele emplacou calçada, cogumelo, retroagir, postar, cardápio. Sem lei obrigando ou proibindo: apenas porque fizeram sentido para os falantes.

“O povo é o inventalínguas”, escreveu Haroldo de Campos. E língua não tem cabresto. Nem nunca terá.

(*) Eduardo Affonso é arquiteto, colunista do jornal O Globo e blogueiro.

Cadeia pra quem xingar

José Horta Manzano

Essa história de o governo arquitetar projeto de lei aumentando para 40 anos a pena de prisão para quem for condenado por ter “atacado” o presidente ou algum ministro do STF ou o chefe de uma casa do Legislativo me deixou encafifado.

Em princípio, não se deve legislar na rabeira de um escândalo recente. Em geral, passado o clamor popular, percebe-se que a lei foi longe demais, por ter sido feita sob medida como resposta a um determinado delito. Nem sempre é adequada para todas as situações do mesmo espectro.

A recente agressão denunciada pelo ministro Alexandre de Morais contra sua família num aeroporto de Roma gerou uma onda de reprovação na República. Fica evidente o elo entre o projeto do Executivo e o desassossego criado pelo episódio do aeroporto. Não faz sentido propor uma lei no calor da emoção.

A impressão que me dá é que o lulopetismo está aproveitando o clima de indignação, já levantado pelo 8 de janeiro e agora reforçado pelo ataque ao ministro, para avançar algumas casas na implantação do projeto autoritário do partido.

Se há um ponto em que as ideologias petista e bolsonarista se dão as mãos é exatamente este: a fantasia de um chefe supremo forte, autoritário, inatacável, seguido fiel e cegamente pela totalidade dos súditos. Me parece claro que o objetivo do projeto de lei é, em primeiríssimo lugar, blindar o presidente da República, o chefe soberano.

Com a nova lei, que o protege mesmo de ataques verbais, ele estará tranquilo durante todo o mandato e até depois. A extensão das mesmas garantias aos membros do STF e aos chefes do parlamento parece mero afago a essas instituições.

É precipitado e desnecessário entrar com esse projeto imediatamente. O Brasil tem outros problemas mais sérios a resolver.

A legislação que temos é suficiente para intimidar cidadãos que se dispuserem a atacar figurões de primeira linha. Basta aplicar a lei. Se os três agressores de Roma imaginassem qual seria a repercussão e quais seriam as consequências de seus atos, certamente teriam passado reto pelo ministro, sem ao menos fixá-lo nos olhos.

Esses comportamentos exaltados e incivis fomentados por Jair Bolsonaro estão em nítido declínio. Se ainda pipocam aqui e ali, é por inércia. Mais um pouco de paciência e irão para o baú do esquecimento, lá fazer companhia a seu criador.

Se nossos congressistas estiverem alerta, essa lei não passa. Suas segundas intenções são demais evidentes. Vamos ver se são espertos.

Hitler & Mussolini

José Horta Manzano

Giorgia Meloni é a primeira-ministra da Itália. Afiliada a um partido de extrema-direita, já chegou a ser acusada de enaltecer o fascismo – denúncia que ela hoje rejeita. Chegou à chefia do governo italiano pelo fato de sua coligação ter obtido maioria nas últimas eleições parlamentares.

Em princípio, o que se espera de um governante alinhado com a direita extrema é um distanciamento com relação à guerra na Ucrânia, no estilo que Lula vem adotando. Espera-se uma posição dúbia, hesitante, hipócrita, “em cima do muro” – como o posicionamento de Luiz Inácio, que vem embaçando a lucidez que se espera do governante de um grande país como o nosso.

Pois pasmem! Signora Meloni mostrou que, apesar de seu metro e sessenta, tem coragem pra dar e vender. Na cúpula UE-Celac desta semana,  ao dirigir-se ao plenário, falou da guerra de Putin. Disse que, durante as reuniões da cúpula, ouviu muito falar de “paz”, mas que é importante dar a cada palavra seu verdadeiro significado. Mandou:


“A palavra paz não pode ser confundida com a palavra invasão.”


E continuou, com clareza:


“Considero que a guerra na Ucrânia, além de ser nova guerra colonial, é também uma guerra declarada contra os mais frágeis. E constatamos isso com a não-renovação do acordo de exportação de cereais ucranianos.”


Isso é que é uma fala clara, contundente. A primeira-ministra, apesar de depender do gás russo, posicionou-se nitidamente em favor da pobre Ucrânia. Preferiu o lado civilizado da História.

Está passando da hora de Luiz Inácio meditar sobre a catástrofe humana que ele está apoiando. Seu erro é tão brutal quanto teria sido Getúlio Vargas errar de lado e declarar apoio a Hitler e Mussolini.

Vargas escapou por pouco, mas Lula não fugirá ao veredicto da posteridade.

A dimensão bolsonárica de Lula

José Horta Manzano

Ainda na série “Barbaridades pronunciadas por presidente em viagem ao exterior”, vamos comentar hoje mais uma (grave) patacoada dita por Luiz Inácio quando de seu mais recente passeio no estrangeiro.

Foi esta semana, em entrevista coletiva concedida em Bruxelas ao final da cúpula UE–Celac. Instado a dar sua visão da agressão sofrida pelo ministro Alexandre de Moraes no aeroporto de Roma, Lula mandou ver:


“Nós precisamos punir severamente as pessoas que ainda transmitem ódio, como o cidadão que agrediu o ministro Alexandre de Moraes.”


Até aí, Lula emitiu julgamento severo. Mas não deixou de mostrar esperança de que as coisas mudem, ao se referir aos que “ainda” transpiram ódio. Falou do ódio transmitido por certas pessoas como se falasse de um modismo passageiro. Antes fosse.

Continuou:


“Um cidadão desses é um animal selvagem, não é um ser humano.”


Aí, Luiz Inácio se enrolou. O cidadão é, sim, um ser humano – daí a gravidade do fato. Um animal selvagem age por instinto, não tem noção do bem e do mal. Chamar o cidadão de “animal selvagem” é ofensivo a todos os animais selvagens.

Logo em seguida, veio o pior:


“Essa gente que renasceu no neofascismo colocado em prática no Brasil tem que ser extirpada.”


Extirpada, Luiz Inácio? Extirpada? Será que vosmicê conhece o significado do verbo extirpar? É arrancar, abolir, suprimir, eliminar, extinguir, acabar com – uma imagem de extrema violência. Equivale a “Precisa fuzilar a petralhada!”, frase de triste memória pronunciada por Bolsonaro.

Com esses sentimentos violentos, Lulinha, vosmicê está se equiparando aos “neofascistas” cujo renascimento o incomoda. Está mostrando que, neste triste momento que o Brasil atravessa, as duas pontas da polarização são farinha do mesmo saco, ambas encharcadas de violência e loucas pra acabar com o adversário.

Caro presidente, um conselho: procure diminuir o ritmo de suas viagens ao exterior. Depois de seu posicionamento sobre a invasão russa da Ucrânia, seu Nobel da Paz está perdido de qualquer maneira. Seu brilho pessoal empalideceu. Suas excursões, sempre acompanhadas de suas palavras estranhas, não fazem bem ao Brasil.

Deixe a política externa para profissionais, fique por aqui e procure amenizar os graves problemas que temos internamente. Dá mais certo.

Smörgåsbord

José Horta Manzano

Não conheço esse evento que, imodesto, se autodenomina “o maior festival de gastronomia de rua do mundo”. Por seu lado, percebo que seu nome, Smorgasburg, é uma brincadeira com o original smörgåsbord, termo de origem sueca. O final da palavra que dá título ao festival foi alterado para “burg”, provavelmente para evocar hambúrguer.

Nem todos sabem que, além de reis como Pelé e Roberto Carlos, o Brasil tem uma rainha – monarca de verdade, de manto e coroa. É Silvia, rainha da Suécia. Sua Majestade é brasileira pelo direito do sangue dado que sua mãe, Alice Soares de Toledo, era paulista de quatro costados. Além de ter mãe brasileira, a rainha Silvia viveu no Brasil entre os 4 e os 14 anos de idade. Fala nossa língua como nós.

Só mencionei isso porque me ocorreu agora. O assunto de hoje é o “maior festival de comida de rua do mundo”. Não faço ideia de como se apresentará esse festim, mas imagino que não tenha muito a ver com o original sueco. O smörgåsbord original passa longe do que entendemos por “comida de rua”.

Por razões de convivialidade, o sueco aprecia particularmente uma mesa de pratos variados, em geral servidos em temperatura ambiente, da qual cada um pode se servir e levar o prato para comer onde lhe agradar. É um misto de bufê, piquenique e festa de criança. Se alguém o convidar para um smörgåsbord, vá na fé que é refeição de alto padrão.

Smörgås significa sanduíche aberto (smör = manteiga). Bord é mesa. Mas um smörgåsbord é bem mais que uma mesa atapetada de sanduíches abertos. Sobre a mesa, não podem faltar fatias fininhas de salmão marinado, talvez filé de arenque, batatas cozidas (servidas frias ou mornas). Camarão (cozido e descascado) e outros mariscos aparecem frequentemente assim como embutidos fatiados, queijo duro, queijo cremoso e obrigatoriamente queijo azul. A escolha de pães deverá incluir o pão sueco (fino e crocante) e o pão de centeio. O resto fica por conta da imaginação (e das posses) de quem convida.

O princípio de uma refeição preparada apenas para um grupo de amigos é idêntico ao de uma imensa mesa preparada para centenas de convivas, como um bufezão de navio de cruzeiro.

Tecnicamente, o smörgåsbord difere de um bufê ou de nosso restaurante “por quilo” (= por peso). Em geral, no bufê e no restaurante por peso se enche o prato uma vez só. Já na refeição sueca, usam-se pratos menores e os convivas só se servem de pequena quantidade a cada vez; em seguida, voltam buscar mais. O vaivém incessante de comensais faz parte do espetáculo.

Se vosmicê quiser surpreender seus amigos com um smörgåsbord, é melhor adaptá-lo ao gosto nacional. Filé de arenque sobre uma fatia de pão de centeio, além de custar caro, pode não agradar ao distinto público. No fundo, o que conta é que seja bom de gosto e bonito de ver.

Vamos ver se o “Festival Smorgasburg” realmente se parece com o festim do qual tomou emprestado o nome. Tenho cá minhas dúvidas.

Fominha

by Sam Jovana, desenhista mineira

José Horta Manzano

Como é sabido, chefe de Estado (ou de governo) em passeio fora do país é um perigo. É em ocasiões assim que ele costuma “falar abobrinha”. Não sei qual é o mecanismo que leva dirigentes a se comportarem assim, nem cabe aqui discutir a origem: o fato é que assim é.

Mais uma vez Lula comprovou o perigo dessa tradição. Na viagem à Bélgica, que se conclui nesta quarta-feira, o presidente usou e abusou da liberdade que sente quando está longe da pátria. Vamos falar de um desses deslizes e deixar o outro para uma próxima ocasião.

Na hora de redigir o comunicado final conjunto da cúpula UE-Celac, Luiz Inácio ameaçou não assinar caso o documento mencionasse a Rússia. Diante de sua inflexibilidade, o comunicado foi peneirado para excluir o nome daquele país. Ficou meio sem graça, mas não havia outro jeito.

Gabriel Boric, presidente do Chile, não apreciou a prepotência de Lula e ousou exprimir sua discordância. Como todos os quase 30 países europeus e diversos latino-americanos, ele também achava que o documento devia trazer uma firme condenação da Rússia em razão da invasão da Ucrânia.

Ao saber da reclamação de Boric, Luiz Inácio tomou o ar mais paternalista que conseguiu e desancou o colega chileno. Tratou-o de jovem inexperiente, chamou-o de fominha, explicou que, com o tempo, a experiência virá e que ele se acalmará.

Foi muito feio tratar o colega dessa maneira. Lula mostrou que não consegue conviver com o contraditório. Se alguém não estiver inteiramente de acordo com ele, é porque o outro está errado: Luiz Inácio não erra nunca. Foi um acesso de agressividade em público, pra quem quisesse ouvir.

Com a maior cara de pau, nosso presidente voltou a sacar sua “narrativa” favorita para encerrar qualquer conversa sobre a invasão da Ucrânia. Disse que as hostilidades têm de cessar; só então será possível conversar sobre a paz. “Enquanto tiver tiro, não tem conversa” – voltou a bater na tecla.

A falsidade de nosso guia é comovente. Ele sabe perfeitamente que a Rússia invadiu a Ucrânia e se apropriou de 20% do território. É legítimo e compreensível que o país invadido combata para expulsar o invasor e recobrar o território perdido. Cessar o combate significaria concordar em entregar uma quinta parte do território da pátria ao inimigo.

Qualquer um consegue entender que a guerra não pode tomar essa direção. Qualquer um, menos o Lula. Sua hipocrisia é imensa quando prega um cessar-fogo, que significaria entregar à Rússia boa parte do território da Ucrânia. É como se o Brasil fosse invadido e viesse um país estrangeiro sugerir que os brasileiros parassem de combater e entregassem um naco do território nacional aos invasores. Podia ser o Sul, o Sudeste, o Nordeste. Como se diz, pimenta nos olhos dos outros é colírio.

Lula e seus assessores não podem ser tapados a ponto de não entenderem a situação. O ódio que sentem pelos EUA não parece ser grande a ponto de explicar o raciocínio oficial do governo brasileiro. Ou será?

Lula em Bruxelas – II

José Horta Manzano

Pronto, Lula já discursou na Cúpula Celac-UE. Quem aguardava gesticulação tipo político fazendo comício em cima de trio elétrico saiu desapontado. O palavreado foi meio chocho. O Lula entusiasmado e expressivo só aparece em falas de improviso, quando ele costuma dar uma escorregadela aqui, chutar uma bola fora ali, cometer alguma ofensa à cartilha do politicamente correto acolá.

Lula leu o discurso inteirinho, da primeira à última página. O texto soou por vezes artificial, recheado de expressões inabituais na boca do presidente: “combater ilícitos cibernéticos”, “perpetuação da assimetria” e outras tecnicidades geralmente banidas do repertório de todo populista que se preze. Foi uma fala, por assim dizer, pasteurizada.

Diferentemente do que havia anunciado, não deu uma palavra sobre inteligência artificial. Muito menos tocou no tema da Nicarágua e seus perseguidos políticos encarcerados. Talvez volte a fazê-lo em alguma reunião bilateral, mas é de duvidar. O que de importante tivesse de ser posto à mesa já teria sido dito na reunião plenária desta segunda-feira.

O discurso, de pouco mais de 10 minutos, foi composto de platitudes e de generalidades. Nada de novo foi anunciado. Não foi feita menção a nenhuma das pautas sensíveis da atualidade. Nicarágua, Venezuela e Ucrânia ficaram de fora.

A discurso protocolar, aplausos protocolares. Bem diferente da ovação que se costuma reservar a discursos que realmente mexem com a plateia.

Pra se abalar de Brasília a Bruxelas – com tudo o que isso representa de logística, combustível, gastos com a comitiva, segurança, alojamento em hotel de alto luxo e outros detalhes – acredito que não tenha valido a pena. O acordo Mercosul-UE, que aguarda há duas décadas sua finalização, não andou um milímetro.

Se Luiz Inácio tivesse passado estes dois dias descansando no Torto, teria sido mais proveitoso. E uns bons milhões de nosso dinheiro teriam sido poupados.

Lula em Bruxelas

by Gilmar Fraga (1968-), desenhista gaúcho

José Horta Manzano

Neste momento, domingo à tarde (na Europa) ou domingo de manhã (no Brasil), acompanho o voo do Aerolula. O aviãozinho, que leva o presidente a bordo cercado de sabe-se lá quantos assessores e penetras, está a meia hora de aterrissar em Bruxelas. Nessa cidade, Luiz Inácio se juntará a uma trintena de chefes de Estado ou de governo latino-americanos e caribenhos. Vão todos participar de uma cúpula entre a União Europeia e a Celac (Comunidade de Estados Latino-americanos e do Caribe).

A cimeira se realizará na segunda e na terça-feira. Não haverá tempo útil para debater, pela enésima vez, o acordo comercial UE – Mercosul, que se encontra há mais de 20 anos enredado na burocracia. O máximo que os integrantes das comitivas presidenciais dizem esperar, além de um passeio pela capital da Europa, é “estreitar os laços que unem os países participantes”. É pouco, mas é o que temos para hoje.

Lula espera ser a maior atração da cúpula. Visto que é a figura mais conhecida entre todos os colegas latino-americanos e caribenhos, é de apostar que monopolizará as atenções. Suas palavras serão seguidas com interesse.

Luiz Inácio faz questão de abordar um assunto pelo qual ninguém imaginava que ele fosse se interessar: IA. Se o discurso realmente sair, esse dia periga entrar para a história da humanidade.

Além de falar de IA, Lula deseja também abordar a situação na Nicarágua. Lembremos que o papa lhe pediu, poucas semanas atrás, que interviesse junto ao ditador Ortega para obter a libertação de prelados católicos que mofam nas masmorras do país.

Vai ser interessante acompanhar as falas de nosso Lula nacional. Vamos ver que piruetas vai dar pra falar em liberar prisioneiros políticos e ao mesmo tempo negar que sejam prisioneiros políticos. Prepare-se para um exercício explícito de “cara-de-pauíce” e de contorcionismo verbal.

Pra lá de interessante vai ser sua palestra sobre inteligência artificial. Será que ele vai ler um discurso escrito por… IA? Quem viver verá.

Nota
Nesse vaivém, o Aerolula pousou.

Você já entregou hoje?

Ruy Castro (*)


No Brasil, cada vez mais tentamos falar português em inglês


No próximo programa de esportes a que assistir, tente acompanhar quantas vezes ouvirá o verbo entregar. “Fulano não entregou o que o treinador esperava.” “Beltrano entrega mais como meia do que como volante.” “Jogar com o nome não basta, tem que entregar.” “Nunca vi esse time entregar tão pouco.” “Sicrano não entrega no Lá Vai Bola o que entregava no Arranca-Toco.” Entregar, no caso, é uma apropriação do verbo “to deliver”, que, entre muitos outros sentidos em inglês, significa desempenhar, render, ser eficiente.

“Entregar”, em sua nova acepção, é um produto do dialeto farialimer, uma espécie de português versão Herbert Richers, usado por economistas, executivos, corretores da Bolsa e outros profissionais que compram suas gravatas em Nova York. De lá, espraiou-se entre os humildes e chegou ao futebol. É comum, ao fim de uma partida, ouvir até dos jogadores mais xucros: “A gente sabe que não entregou o que devia, o time deles é muito qualificado, quando acordamos já estava 5 a 0, mas agora é levantar a cabeça porque quarta-feira tem outro jogo e vamos entregar mais.”

Nada contra esta nova acepção de “entregar”. É somente mais uma utilidade de um verbo que já nos presta tantos serviços: entregar [algo a alguém], entregar alguém à polícia [alcagüetá-lo], entregar-se [dizer sem querer algo que não devia], entregar-se [dedicar-se] a alguém, entregar-se [doar-se] a uma causa e entregar-se [ceder] à bebida ou ao desânimo. No próprio futebol, entregar já teve outro significado: “Não foi frango! O goleiro é que entregou!” [entregou o jogo, vendeu-se, deixou-se subornar].

No Brasil, onde cada vez mais tentamos falar português em inglês, “entregar”, no sentido de “to deliver”, é só um exemplo. O cômico é que, agora, já não usamos o verbo para pedir que nos entreguem em casa algo que compramos na rua ou pela internet.

Hoje pedimos delivery.

(*) Ruy Castro (1948-) é escritor, biógrafo, jornalista e colunista. Seus artigos são publicados em numerosos veículos.