Espírito universalista

José Horta Manzano

O universalismo é conceito básico de todas as correntes de pensamento socialistas, comunistas e social-democratas.


Proletarier aller Länder, vereinigt euch!
Proletários de todos os países, uni-vos!


O manifesto lançado, século e meio atrás, pelo alemão Karl Marx não conclamava os proletários alemães a se unirem. Nem mesmo os colegas europeus. Seu chamado se dirigia aos proletários de todos os países, sem exceção.

Luiz Inácio só abraçou a doutrina com meio braço. Seu espírito universalista não é amplo nem irrestrito. Está inquieto apenas pelos reféns latino-americanos. Os demais? Que se lixem!

Num surto de deslumbramento, Lula fala com o presidente de Israel como se tivesse recebido mandato dos países latino-americanos para defender seus interesses. Dado que não recebeu procuração nenhuma, soa esquisito. Dá impressão de uma forçada de barra pra se autoeleger líder regional na marra.

De outra vez, nosso presidente deve mostrar interesse por todos os reféns, sem excluir os “louros de olhos azuis”. Todos os sequestrados caíram na mesma arapuca e merecem benevolência planetária, pouco importando a cor dos olhos ou do passaporte.

Se Luiz Inácio for incapaz de alargar seu horizonte, será melhor não tocar no assunto. Melhor ainda, será falar com quem manda. Em Israel, o presidente é figura decorativa. Netanyahu, o primeiro-ministro, é quem dá as ordens.

Parece que Lula só divulgou o telefonema pra sair no jornal.

População do planeta

José Horta Manzano

Isonomia, paridade e proporcionalidade são conceitos em voga. São aplicados em muitas áreas, mas estão longe de vigorar por toda parte. A distribuição geográfica da humanidade, por exemplo, passa ao largo e não respeita nenhum desses conceitos de equilíbrio.

Por motivos complexos, a população do mundo está distribuída de forma bastante irregular e desigual. A imagem abaixo é instigante. Acredite: há mais gente vivendo dentro do círculo do que fora dele.

 

Este outro planisfério, desenhado por autor desconhecido (trabalhador abnegado, que deve ter feito muitas continhas), também é muito interessante. A população das regiões cor de abóbora somadas equivale à população das áreas brancas. Em outros termos, metade da humanidade se concentra nesses pequenos territórios coloridos.

Clique nos mapas para ampliar.

Devassa na República da Muamba

Sérgio Rodrigues (*)

As investigações da Polícia Federal ainda estão em andamento, mas já jogaram uma luz nova sobre o governo Jair Bolsonaro. Que ele tinha sido o mais indigno e mortífero da história da República já se sabia. Que fosse basicamente uma quadrilha de muambeiros ainda não estava tão claro.

Mais do que um grupo de extrema direita de viés populista e golpista – o que a turma que esteve no poder entre 2019 e 2022 também era –, emerge das investigações uma organização criminosa que lançou mão dessas tintas ideológicas para camuflar operações comuns de roubo, contrabando e mutreta. Era a República da Muamba.

E assim essa palavra brasileira de origem africana, dicionarizada desde o século 19, chegou finalmente ao primeiro escalão da vida nacional – se é que se pode chamar aquilo de primeiro escalão, a que ponto descemos.

Muamba nasceu no quimbundo, língua da família banta falada em Angola, na qual “muhamba” queria dizer em primeiro lugar “engradado de hastes e folhas de palmeiras usado em viagens, cesto, carga, carreto” (definição do dicionário Priberam). A mesma palavra designa em Angola um ensopado feito com dendê.

Foi a partir da primeira acepção, a de cesto usado para transportar carga em viagens, que muamba ganhou no Brasil os sentidos que passariam a ser os principais entre nós: primeiro, furto de mercadoria armazenada em portos; em seguida, comércio de produtos roubados e contrabando, além da própria mercadoria assim traficada. A isso se somou ainda, sempre no Brasil, uma última extensão semântica – a de fraude, velhacaria, golpe, ganho.

Um sentido mais restrito do termo entre nós é o de feitiço, bruxedo, registrado pela maioria dos estudiosos como se tivesse a mesma origem. No entanto, segundo a etnolinguista Yeda Pessoa de Castro, autora de “Camões com Dendê”, nesse caso a palavra veio do quicongo “(m)wanba”.

A muamba fez sucesso tão grande no Brasil, tanto a palavra quanto o comércio escuso que ela nomeia, que não demorou a se transformar num dos incontáveis sinônimos de cachaça. Aqui também teve um filhote, muambeiro, ou seja, contrabandista ou comerciante de mercadoria não declarada.

É curioso que, apesar de todo esse peso cultural, a muamba tenha presença tímida em nossa literatura. Registros da palavra não são fáceis de encontrar fora das obras de autores que se debruçaram mais detidamente sobre a fala das ruas, como João Antônio e Rubem Fonseca.

“Assim parado, se vendo pelo avesso e fantasiando coisas, Malagueta, velho de muito traquejo, que debaixo do seu quieto muita muamba aprontava, era apenas um velho encolhido”, escreveu o primeiro em “Malagueta, Perus e Bacanaço”, de 1963, dando à palavra o sentido menos comum de golpe, artimanha.

No conto “Botando pra quebrar”, do livro “Feliz Ano Novo”, de 1975, Fonseca emprega muamba no sentido mais consagrado. Um ex-presidiário se queixa de que ninguém lhe oferece trabalho, “só malandro como o Porquinho que estava a fim de eu ir apanhar pra ele uma muamba na Bolívia…”.

O dicionário Houaiss traz no pé do verbete “muambeiro” uma curiosa nota: “Desde 1990 a palavra vem caindo em obsolescência (…), substituída por ‘sacoleiro’”.

Se muambeiro corria mesmo risco de obsolescência – do qual admito que estou ouvindo falar pela primeira vez –, este parece ter sido definitivamente afastado pelas trepidantes trapalhadas de Mauro Cid, assistente de ordens da República da Muamba.

(*) Sérgio Rodrigues é escritor e jornalista.

Bom-dia a cavalo

by Gerson Kauer, desenhista gaúcho

José Horta Manzano

Quem fala demais dá bom-dia a cavalo. Doutor Flávio Dino, nosso ministro da Justiça (e candidato ao STF), é homem sem dúvida inteligente. Inteligente e instruído, conjunção de qualidades raras no mundo político brasileiro atual. Mas ninguém é perfeito. Apesar das qualidades, o doutor tem um defeito: padece de uma compulsão irrefreável a manifestar sua opinião em qualquer ocasião.

A personalidade de nosso atual ministro da Justiça o leva a sentir-se obrigado a mostrar que sabe tudo, que tem resposta a tudo, em todas as ocasiões, seja qual for o assunto. Deve parecer-lhe inconcebível permitir que outra pessoa possa dar um fecho a qualquer conversa – a palavra final tem de ser dele. Essa compulsão, inofensiva e compreensível quando o ministro tem de fato opinião formada, torna-se perigosa quando ele não domina o tema.

Recentemente, o doutor andou dando bom-dia a cavalo. Distraído, esqueceu que é ministro da Justiça e decidiu comentar um vídeo meio besta que circulou pelas redes, no qual uma portuguesa insultava uma brasileira, em Portugal, e a mandava voltar para o Brasil. Coisa de gente malcriada.

Pois doutor Dino não se segurou. Passou por cima do fato de a senhora portuguesa se encontrar em estado visivelmente alterado – não se sabe se temporaria ou permanentemente. Num erro de apreciação indigno de um ministro de Estado, tomou as palavras daquela senhora como se representassem o clamor da totalidade do povo português. E fez questão de dar resposta.

Em vez de ficar quieto ou mandá-la catar coquinho, declarou que concordaria com o banimento dos brasileiros que vivem em Portugal desde que os portugueses “devolvessem o ouro que levaram de Minas Gerais”. Nessa altura, o doutor não só deu bom-dia ao quadrúpede, mas já estava batendo papo com o dito cujo.

Em primeiro lugar, fica muito feio um ministro imprudente se meter em briga de rede social. E se o bate-boca entre as duas mulheres não passasse de mise en scène, de gozação para ganhar likes? Quem é que ia passar carão, hein? Imprudência…

Além disso, o doutor deu flagrante mostra de não ter retido as aulas de História do Brasil recebidas de dona Leocádia. Na época da exploração do ouro das Gerais (século 18, anos 1700), nosso país ainda não tinha existência independente. As terras onde hoje vivemos eram as possessões portuguesas da América. Portanto, a corrida do ouro se deu em terras lusas. O “roubo” não foi roubo. Quem rouba o que já lhe pertence, a Deus convence.

Não se pode acusar os portugueses de terem levado “nosso” ouro. Não faz sentido. Quem diz isso se esquece de que seus antepassados talvez nem tivessem ainda emigrado para estas terras. Ou, quem sabe até, seus ancestrais eram os próprios portugueses que viviam na colônia. Não é impossível que o doutor seja descendente dos “ladrões” do ouro.

Só se pode falar de “nosso ouro” ou de “nossa terra” a partir da Independência, quando o Brasil passou a ter existência reconhecida pelo resto do mundo. Antes, isto aqui não passava de uma extensão de Portugal.

A meu ver, doutor Dino escorregou duas vezes. Quando se meteu em briga alheia e tomou a ofensa malcriada como se emanasse do povo português inteiro. E resvalou de novo ao considerar que o Brasil já existisse como terra independente um século antes do Grito do Ipiranga.

O discurso é prata, o silêncio é ouro. Se não… bom dia, senhor cavalo!

Le rouge et le noir

O Capital, de Karl Marx
1a. edição – 1867

José Horta Manzano

Contava-se esta historinha nos tempos da censura que nossa ditadura militar nos impôs.

Um sargento é encarregado de vasculhar um centro estudantil e de recolher todo material subversivo. Chegando lá, deu uma olhada na estante dos livros, leu o título de cada um e estancou diante de um exemplar de “Le rouge et le noir”(*), romance do francês Stendhal, publicado em 1830.

Naquela época, diferentemente de hoje, todo cidadão com ginásio completo (escola média) tinha noções básicas de língua francesa. O sargento arregalou os olhos ao ver o livro que ostentava um título ousado. “Como é que é?”, pensou ele, “Vermelho? Só pode ser comunista.” E apreendeu o volume.

Lembrei da historieta ao ler a notícia de que a Secretaria da Educação de Santa Catarina, sem expor seus motivos, mandou recolher uma dezena de títulos das bibliotecas de escolas públicas de todo o estado. A lista das obras é tão heterogênea que parece rol de lavadeira: cuecas, cachecóis e camisas sociais, tudo se mistura lá dentro.

Entre os livros banidos há um best-seller assim como um clássico como Laranja Mecânica. Lá estão também quatro obras que, desconfio, entraram no rol por causa do título (ao estilo de Le Rouge et le Noir): Coração Satânico, Demonologistas – arquivos sobrenaturais, Exorcismo, O Diário do Diabo.

Fica a impressão de que essa proibição foi apenas balão de ensaio. Pela (falta de) lógica da amostragem, a lista integral almejada pelo governo catarinense deve ser quilométrica, capaz de esvaziar todas as bibliotecas escolares do estado.

Criar um index – um repositório de obras banidas – é ideia tão velha quanto a invenção da imprensa. Aliás, é até anterior: na Idade Média, livros manuscritos já eram condenados ao Index Librorum Prohibitorum, o elenco das obras proibidas. É que, naquele tempo, quem mandava era a Igreja. Hoje não é mais assim, mas tem gente que não foi avisada.

Nesse sentido, o governo de SC não está inventando a pólvora. Inventando, não está, mas está acendendo o estopim, manobra arriscada.

Toda proibição de obra literária é sintoma palpável de que a sociedade está descambando para o autoritarismo, ladeira traiçoeira que se desce fácil mas que dificilmente se sobe sem ajuda externa.

Povo atento e escolado, os catarinenses deveriam dar um basta curto e grosso a essa operação de solapamento da formação do espírito crítico da juventude. Que os jovens leitores sejam alertados para trechos obscuros de determinadas obras é boa decisão. Que eles sejam orientados para entender certos livros e analisá-los no contexto da época em que foram escritos é procedimento excelente. Agora, simplesmente esconder textos, como se esconde o pote de geleia dos guris menorzinhos, é medida contraproducente.

Os primeiros autos de fé promovidos pelo regime nazista na Alemanha tiveram lugar já em 1933. Todos sabem como terminou a aventura. Não convém seguir o mesmo caminho.

Um espirituoso poderia até argumentar que, finalmente, chegou o incentivo que faltava para fazer a criançada voltar a ler. De fato, tudo o que é proibido é mais saboroso…

Temos que abrir o olho, que com essas coisas não se deve brincar. Essa moda que começou banindo palavras do dicionário e agora se dedica a banir livros da biblioteca é perigosa. Não leva a bom porto.

(*) Stendhal nunca revelou a razão do título “Le rouge et le noir”. Muitas conjecturas já se fizeram. A mais aceita é a de que o vermelho simboliza o exército, enquanto o preto representa o clero.

Toda alusão ao comunismo que pudesse ser imputada a Stendhal seria anacrônica. De fato, quando Karl Marx publicou o primeiro volume de sua obra maior, “O Capital”, já fazia vinte e cinco anos que Stendhal havia falecido.

Jamais esquecer Bolsonaro

Ruy Castro (*)

De há algum tempo, sempre que cito Bolsonaro nesta coluna, leitores argumentam que devíamos parar de falar nele “para não promovê-lo” e que “quanto mais cedo o esquecermos, melhor.” Também me repugna manchar este espaço com tal nome, mas o raciocínio é outro. Continuo a falar de Bolsonaro porque o Brasil ainda não ajustou contas com ele. Aliás, mal começou.

Dia 31 de outubro, Bolsonaro respondeu a mais um processo por ter prostituído o 7/9 do Bicentenário para fins reeleitorais. Foi condenado de novo e teve confirmada sua inelegibilidade por oito anos. Pena que cada condenação não se acrescente às outras para chegar a um número de três algarismos. Sou capaz de conviver com isso, desde que uma manobra de algum de seus advogados de toga não decida pela supressão da pena.

Acho hoje que devemos ser gratos a Bolsonaro. Ao tentar destruí-la, ele nos ensinou o valor da democracia. Nesta, a corrupção existe e pode ser combatida. Numa ditadura, a corrupção é até em maior grau, mas não podemos sequer denunciá-la. Bolsonaro levou quatro anos martelando que em seu governo não se roubava, como se os bilhões que usou para comprar os votos da reeleição fossem filantropia. Se reeleito, isso se cristalizaria como verdade.

Engana-se quem diz que seu governo é “para esquecer”. Ao contrário, temos de lembrá-lo dia a dia, para aprendermos como se tentou armar a maior teia antidemocrática da história da República. Em 1937, Getulio impôs a ditadura na marra; em 1964, os militares botaram os tanques na rua. Já Bolsonaro costurou a dele ponto por ponto, infiltrando seus agentes nas urdiduras do Estado para amarrar cada nó.

Quando as outras nove investigações a seu respeito se completarem (e a delação de Mauro Cid não para de revelar crimes), então Bolsonaro poderá ser esquecido – num longínquo e acolhedor presídio federal.

(*) Ruy Castro (1948-) é escritor, biógrafo, jornalista e colunista. Seus artigos são publicados em numerosos veículos.

Smog in Manaus

José Horta Manzano

Às vezes, o governo brasileiro parece considerar que os “louros de olhos azuis” (= estrangeiros de países adiantados) são todos meio abobados. Ou meio tantãs, como se costumava dizer nos tempos de antigamente.

Nossos burocratas esfregam estatísticas no olho de jornalistas internacionais com números impactantes de queda do desmate da Amazônia. Proclamam que nunca antes “nesse paiz” se desflorestou tão pouco. Garantem que, no próximo par de anos, mais nenhuma árvore cairá e nenhum bicho-preguiça morrerá queimado.

De repente, a natureza resolve atrapalhar a mise en scène. A chuva pára. Sem água, as queimadas se tornam mais evidentes e, imperiais, encobrem o sol e fazem do dia, noite. De repente, um fotógrafo indiscreto bate uma chapa como esta aqui abaixo.

Smog em Manaus

Catapimba, o mundo caiu! Mas o mal está feito. A foto aparece em toda a mídia do planeta. Como se sabe, uma imagem vale mil palavras. O blá-blá-blá oficial vai pro ralo. O que fica é a prova de que a situação está cada dia pior.

E os de olhos azuis continuam a se perguntar como é possível que o governo de um país tão importante não consiga fazer cumprir a lei em seu próprio território. Se o desmate está proibido, por que é que os fora da lei continuam a agir impunes?

São mistérios tropicais, insondáveis para não iniciados.

Brasileiros em Gaza

José Horta Manzano

Até esta terça-feira 7 de novembro, nenhum brasileiro foi autorizado a deixar a Faixa de Gaza. Assim como outros milhares de estrangeiros e binacionais, nossos compatriotas são obrigados a passar privações e a continuar vivendo sob bombas até receberem permissão para deixar aquele inferno.

Os diplomatas brasileiros, com a mão nervosa e cheia de dedos, estão dando tratos à bola para entender a razão de um milhar de cidadãos de outros países já terem sido contemplados com a liberação enquanto nossos conterrâneos continuam no angustiante chá de cadeira.

A pergunta que dói é: “Por que já autorizaram tantos americanos, ingleses, franceses, alemães, e nos deixaram pra trás?”. À primeira vista, se poderia concluir que os países desenvolvidos têm preferência e os do Terceiro Mundo vêm no fim. Será?

Que há uma hierarquia entre países, parece evidente. Israel, responsável pelas autorizações, não escolhe os premiados no palitinho. Há um método, que não tem nada a ver com a oposição entre países ricos e países pobres. Para entender, há que ter em mente a própria formação do Estado de Israel.

Criado por decisão da ONU, ao final da Segunda Guerra, Israel se encontrou diante da hostilidade dos vizinhos árabes desde o primeiro momento. Os 75 anos que decorreram da criação do país até aqui estão coalhados de escaramuças, conflitos e guerras de verdade. Curtos momentos de quase-paz se alternaram com erupções de violência. O povo e o governo israelense são obrigados a manter-se em estado de alerta permanente.

Um Estado que vive na angústia constante de ser atacado a qualquer momento não divide o mundo entre países ricos e países pobres. A divisão, na verdade, é entre países amigos e países inimigos. Pode-se também falar em países países amistosos vs. países inamistosos.

Em pronunciamentos feitos desde que a guerra estourou, nosso presidente deixou transparecer certa simpatia pelos palestinos, deixando os israelenses em segundo plano. Isso, sozinho, não seria suficiente para fazer o Brasil entrar na lista de países inimigos. Mas Lula foi além. Em uma ocasião, pisou mais fundo no acelerador.

Foi duas semanas atrás que, em fala solene proferida com fundo de bandeira nacional e brasão de armas da República, Lula não deixou por menos. Referindo-se ao conflito em Gaza, afirmou que aquilo “não é guerra, é genocídio”. Tropeçou feio.


To constitute genocide, there must be a proven intent on the part of perpetrators to physically destroy a national, ethnical, racial or religious group.


A palavra genocídio não se pode utilizar assim, de supetão, na hora da raiva. O termo tem definição oficial, em vigor desde 1948, quando foi adotada a Convenção do Genocídio, ratificada por praticamente todos os países do planeta.


Para constituir genocídio, deve haver uma intenção comprovada por parte dos perpetradores de destruir fisicamente um grupo nacional, étnico, racial ou religioso.


Como se vê, a definição é objetiva, restrita, autoexplicativa. Ao acusar Israel de estar praticando genocídio, Lula simplesmente acusou o país de estar tentando eliminar fisicamente o povo palestino. No exato instante em que a frase foi pronunciada, Israel transferiu o Brasil para a lista dos países inamistosos.

Não precisa procurar mais longe. Para um povo que se sente permanentemente acuado, bastou uma palavra. Enquanto Lula não se retratar (o que me parece difícil), o Brasil vai permanecer entre os países dos quais Israel desconfia.

Certos pronunciamentos levianos, além de não ajudar ninguém, atrapalham. Com tanta desgraça interna, não precisamos cavar inimizades no exterior.

O Grande Terremoto de Lisboa

José Horta Manzano

O Grande Terremoto de Lisboa está fazendo aniversário: aconteceu dia 1° de novembro de 1755, faz 268 anos. Foi exatamente no dia de Todos os Santos. Está entre os mais mortíferos, destruidores e assustadores que o planeta já conheceu.

Não há informações exatas, que naquele tempo o mundo ainda não tinha os meios que temos hoje de medir e esmiuçar esse tipo de fenômeno. Assim mesmo, estimativas têm sido feitas, que nos dão uma ideia bem próxima da realidade.

Num sismo, a terra treme durante um período curto – de 5 a 30 segundos – que já parecem uma eternidade para quem está sendo chacoalhado. No Grande Terremoto de Lisboa de 1755, o chão teria sacudido por um longo tempo (cinco a dez minutos), duração quase inacreditável. Não sei como esse tempo teria sido medido, numa época em que ninguém portava relógio, mas a estimativa está consignada em alguns documentos.

Estudos recentes indicam que o epicentro (ponto da superfície da Terra situado exatamente acima do ponto de atrito) estava situado ao largo de Lisboa, em pleno Oceano Atlântico. A magnitude do tremor teria sido entre 7,5 e 9,0 na escala Richter, uma tremenda sacudida.

Quando o chão se pôs a tremer, edifícios começaram a rachar e desmoronar. As igrejas, repletas de fiéis que celebravam o dia santo, foram as primeiras a rachar e desabar, matando milhares.

Para escapar, centenas de cidadãos se refugiaram nos descampados à beira do Rio Tejo. Não foi uma boa ideia. Minutos mais tarde, um tsunami com ondas de até 20 ou 30 metros varreu a parte baixa da cidade e engoliu gentes e bens que ali se encontravam.

Acalmado o tremor e recolhido o mar, chegou a vez dos incêndios. Fogareiros, velas e fogões espalhados por toda parte se encarregaram de atear fogo à cidade. As construções, compostas em grande parte por estruturas de madeira, aliaram-se ao material textil para oferecer o combustível necessário às chamas. O fogo se comunicou de uma casa a outra e tratou de destruir o que ainda se mantinha de pé.

Calcula-se que uma terça parte dos habitantes da cidade tenham sucumbido. Numa população de cerca de 300 mil almas, isso dá umas 100 mil vítimas mortais. Quanto às construções, 70% a 80% das edificações de Lisboa foram destruídas.

Foi o terremoto mais mortífero que jamais atingiu uma cidade europeia. Não se tem notícia de algo assim tão violento.

Calcula-se que um fenômeno dessa magnitude tende a repetir-se na mesma região em intervalos de mais ou menos 250 anos. O grande sismo anterior em Lisboa tinha acontecido em 1531, ou seja, 224 anos antes. Do grande terremoto de 1755 até hoje, já se passaram 268 anos.

Em termos estatísticos, o próximo “big one” está para ocorrer a qualquer momento. Resta esperar que as estatísticas estejam enganadas e que nada venha a ocorrer pelos próximos milênios.

Observação 1
O português luso prefere a forma “terramoto”. Em Lisboa (e no resto de Portugal), o termo “sismo” é mais usado que “terramoto”.

Observação 2
A força do tsunami não se restringiu a algumas dezenas de quilômetros em volta do epicentro. O efeito se propagou por todo o Oceano Atlântico, chegando até o litoral norte do Brasil. Há notícias esparsas, registradas em cartas de testemunhas oculares, de alguma destruição em terra brasileira. Esta colônia, então esparsamente povoada, não sofreu catástrofe comparável à de Lisboa. Assim mesmo, que haja havido algum estrago aqui mostra a força gigantesca de um fenômeno capaz de atravessar 7.000 quilômetros de oceano.

Fundador de Israel propôs no Brasil devolver territórios a palestinos

Henrique Goldman (*)


Autor rememora a atmosfera de ufanismo na comunidade judaica de São Paulo depois da vitória de Israel na Guerra dos Seis Dias, em 1967, e a visita à cidade, dois anos depois, do fundador de Israel, David Ben-Gurion, que defendeu a devolução aos palestinos de territórios ocupados e compreendia que a construção da paz com os vizinhos árabes era muito mais importante que a expansão do país.


O bolo com a forma do distintivo do Santos, as minicoxinhas, quibinhos e bisnaguinhas com patê de sardinha já estavam encomendados, e o seu Aníbinha, um amigo da família que, na juventude, tinha trabalhado no circo do palhaço Arrelia, vinha fazer um show com seu boneco de ventríloquo.

Estava tudo pronto para a festinha do meu sexto aniversário e, uma semana antes, eu já estava contando ansiosamente os minutos para a chegada dos convidados. Mas, na noite antes da festa, no dia 5 de junho de 1967, meu pai chegou em casa com um ar muito assustado. Ele tinha acabado de ouvir no rádio que as Forças de Defesa de Israel haviam atacado o Egito, a Síria e a Jordânia.

Foi a deflagração do conflito que depois ficou conhecido como a Guerra dos Seis Dias, após a qual Israel passou a ocupar a Faixa de Gaza, a parte oriental de Jerusalém e a Cisjordânia. Por causa da guerra, cerca de 300 mil palestinos foram expulsos de suas terras e se refugiaram em Gaza. Outros 700 mil passaram a viver sob ocupação militar, e minha festinha de aniversário foi cancelada.

Refletindo hoje sobre aquele período, percebo que, para nós, judeus da diáspora, era como se o povo palestino ainda não existisse. Eles eram simplesmente árabes genéricos, indistintos dos egípcios, sírios, libaneses e jordanianos, e a nossa vitória sobre todos eles tinha sido realmente monumental.

Em um mágico golpe de mestre, Israel derrotou, em menos de uma semana, três países árabes. Os MiGs soviéticos da aviação egípcia tinham sido destruídos pela homérica Força Aérea israelense antes mesmo de decolar e, acima de tudo, Jerusalém estava unificada e era toda nossa.

Assistindo na escola a um documentário que mostrava os primeiros soldados israelenses chegando para rezar no Muro das Lamentações pela primeira vez, eu entendi que os judeus mortos, nus e raquíticos empilhados em valas comuns que eu via nos livros sobre o Holocausto – os pais e todos os irmãos da minha avó Augusta – tinham reencarnado em Israel como super-heróis.

Aquele ufanismo judaico hoje ressoa e se confunde na minha memória com o triunfalismo nacionalista que tomou conta do Brasil na mesma época, quando éramos o país do milagre econômico e da gloriosa conquista do tricampeonato no México, em 1970. Quem poderia ganhar de um time que tinha Pelé e Moshe Dayan jogando no ataque?

Em 1969, David Ben-Gurion, o pai fundador de Israel que tinha proclamado o estabelecimento do país em 1948 e sido primeiro-ministro por dois períodos (1948-1954, 1955-1963), visitou o Brasil. Depois de encontrar em Brasília o nosso presidente, o ditador Costa e Silva, Ben-Gurion chegou a São Paulo e foi ovacionado pela comunidade judaica em um ginásio do Ibirapuera completamente lotado.

Ouvindo o acalorado discurso do velho líder histórico, fui percebendo que sua “pièce de résistance” era aquela careca imensa e lustrosa que separava dois tufos laterais de cabelo branco sempre rigorosamente despenteados. Ben-Gurion podia muito bem ter sido um personagem daquele que era meu seriado de humor favorito, “Os Três Patetas”.

Depois de ter cantado o hino nacional de Israel com o coral da minha escola, entrei em uma fila para cumprimentá-lo. Só muitos anos depois tomei consciência de que a mão rechonchuda daquele adorável quarto pateta também estava suja de sangue. Árabes ou judeus, ninguém é líder político no Oriente Médio sem ser também um criminoso de guerra.

No dia seguinte, o seu Mendel, um nosso vizinho que era tesoureiro do Clube Israelita Macabi, participou de uma reunião a portas fechadas com Ben-Gurion e líderes da comunidade judaica. Para surpresa geral, na reunião o velho pai da nação defendeu efusivamente a devolução imediata dos territórios ocupados por Israel – com a exceção de Jerusalém Oriental e das colinas do Golã, que julgava essenciais para a defesa do país.

O nosso audacioso herói, que, no passado, tinha liderado Israel em duas guerras (1948 e 1956), já compreendia que a paz com os vizinhos árabes seria uma conquista muito mais importante que a expansão territorial.

Ele temia que ocupação militar de Gaza e da Cisjordânia iria corromper a própria essência do sionismo e ameaçar a existência do jovem país. Consternado, após a reunião o seu Mendel encontrou com meu pai na garagem do prédio e disse em ídiche: “Ben-Gurion é um grande idiota”.

Em Tel Aviv, em Washington e no Bom Retiro, poucos conseguiram enxergar a verdade.

Diz a lenda que, admirando a paisagem brasileira pela janela do avião que o levava de volta para Tel Aviv, Ben-Gurion teria se virado para a sua esposa e dito: “Não dá para entender como um país com tanta água pode ter tantos problemas!”.

Ontem em Londres: assisto ao noticiário da BBC com a minha sogra de 92 anos, que é judia, muito doce e generosa. Ela nasceu em Bagdá, na comunidade judaica que era a mais antiga do mundo.

Revolto-me vendo as imagens trágicas de um pai palestino que enterra seus dois filhos pequenos depois de mais um bombardeio israelense. Minha sogra diz que não devemos acreditar em nada daquilo. É tudo encenação e, dentro daqueles lençóis brancos, não há corpos de crianças, mas bonecos.

Eu tento explicar para ela que civis palestinos são inocentes como eram inocentes as vítimas do Hamas em Israel. Ninguém merece essa desgraceira. Quando argumento que a maioria dos habitantes de Gaza são descendentes de refugiados e que os israelenses tomaram as terras de suas famílias, ela me interrompe consternada e diz: “Eu tinha oito anos quando fui expulsa do Iraque com a minha família! Os árabes ficaram com a nossa casa! Ninguém teve pena de nós e eu não vou ter pena deles”.

Cerca de 900 mil judeus foram expulsos de países árabes a partir de 1948. Eu não sei como responder. Só dá vontade de chorar.

(*) Henrique Goldman (1961-) é cineasta, produtor e conferencista.

Fantasia de Halloween

José Horta Manzano

France Inter, estação de rádio pública francesa, apresenta um programa variado, todas as manhãs das 7h às 10h. Inclui um jornal falado a cada hora, entrevistas, um pouco de música e alguns quadros fixos. No fim de semana, a programação se altera um pouco mas mantém o ritmo variado.

Entre os quadros fixos, está uma rápida crônica de Guillaume Meurice, cômico francês. O rapaz geralmente tece sua fala de um ou dois minutos em torno de um assunto da atualidade.

Domingo passado, no meio de outras gracinhas, ele disse textualmente:


“Halloween está chegando e todo o mundo começa a procurar uma fantasia para assustar. Neste momento, a fantasia de Netanyahu está vendendo bem. É uma espécie de nazista, mas sem prepúcio”.


Os presentes no estúdio da rádio riram, mas houve gente que não achou graça nenhuma. Esse paralelo traçado entre o primeiro-ministro israelense e o nazismo caiu mal na comunidade judaica.

A comparação foi qualificada de “abjecta” por Madame Horvilleur, rabina francesa. “Prepúcio ou não”, ironizou ela, “eu sugeriria que o tempo das crônicas desse senhor fosse circuncidado”. Diversas outras personalidades também manifestaram repúdio à fala do cômico. Algumas vozes lembraram que a comparação havia sido pronunciada numa emissora pública, o que piora a ofensa.

A polêmica cresceu tanto que o ministro francês da Segurança Pública achou bom se manifestar no dia seguinte. Lembrou que, desde os ataques terroristas do Hamas contra Israel, 819 ocorrências antisemitas já foram registradas na França.

Não disse isso para minimizar as palavras do cômico, mas para ressaltar que, sem querer, o país está sendo envolvido na guerra do Oriente Médio. Um conflito por procuração, em suma.

Nesse particular, o Brasil até que está saindo bem na foto. Os ecos do conflito nos chegam bastante atenuados.

Legalização do aborto

Anos 1970
Simone Veil apresenta sua PEC à Assembleia Nacional (Paris)

José Horta Manzano

A legalização do aborto é tema sensível em numerosas sociedades, especialmente por roçar proibições de caráter religioso. Até cem anos atrás, a interrupção voluntária de gravidez não estava legalizada em nenhum país.

A hoje extinta União Soviética (Rússia) foi a pioneira. Já em 1920, Lenin suprime a penalização do aborto voluntário. Poucos anos mais tarde, em 1936, Stalin, o novo ditador, ressuscita a antiga proibição. Foi somente após sua morte, vinte anos mais tarde, que o aborto voluntário voltou a ser aprovado, para pôr freio à mortandade decorrente dos milhares de abortos clandestinos praticados a cada ano.

Timidamente, outros países foram acompanhando o movimento, autorizando a interrupção de gravidez em casos específicos (estupro, ameaça à saúde da mãe, risco de malformação do feto).

Em 1971, o presidente francês Giscard d’Estaing encarregou Simone Veil, sua ministra da Saúde, de defender a legalização diante do Parlamento. A defesa feita pela ministra foi tão veemente que as câmaras aprovaram o texto por folgada maioria. A nova lei, aprovada em caráter experimental por quatro anos, foi confirmada em 1975 e, com algumas adaptações, está em vigor até hoje.

O governo francês tem acompanhado com preocupação a saga vivida estes últimos anos pelos Estados Unidos nesse campo, com retrocessos fomentados pela Suprema Corte e acatados por estados mais conservadores. Para blindar a lei francesa e evitar que o retrocesso americano aconteça na França no futuro, o presidente Macron está atualmente propondo uma solução preventiva.

Trata-se de um projeto de alteração da Constituição (o que nós chamamos PEC – Projeto de Emenda à Constituição). A intenção é inscrever o direito ao aborto voluntário na Constituição, o que servirá como garantia de perenidade.

Enquanto isso, em nosso país, o casamento entre pessoas do mesmo sexo não está nem ao menos escrito em lei. Nem em lei nem muito menos na Constituição.

Até hoje, a coisa funciona com base num arreglo patrocinado pelas autoridades judiciárias. Os parlamentares, eleitos para fazer as leis, preferiram se esquivar e deixar que a Justiça resolva por eles. Enquanto isso, se queixam do STF, a quem acusam de “ativismo”. Vá entender.

Suas Excelências, os parlamentares, não têm tempo para gastar com essas minúcias. Cada um deles continua preferindo se dedicar em tempo integral a encontrar novos meios de cavar dinheiro público para sua própria paróquia.

Por que há guerras?

José Horta Manzano

Artigo publicado no Correio Braziliense de 28 outubro 2023

Apesar de soar meio infantil, a pergunta “Por que há guerras?” também pode ser feita pelos adultos que somos. Por que é que o Homo sapiens continua a escolher o tacape para resolver suas pendengas? Em princípio, a parafernália de que hoje dispomos para nos comunicar deveria ser suficiente para os humanos se entenderem e resolverem conflitos pelo diálogo. É desconcertante constatar que, na hora agá, ainda se opta pela força bruta.

Para nós que, do outro lado do oceano, vivemos distantes do palco dos acontecimentos, essa guerra entre Israel e o Hamas não faz sentido. Por que razão o braço armado do partido Hamas lançou um ataque terrorista e sangrento contra civis israelenses? Imaginavam varrer o país do mapa com foguetes imprecisos, tomada de reféns e golpes de facão?

Tampouco faz sentido os israelenses sufocarem e invadirem a Faixa de Gaza com forças de terra, mar e ar. Pretendem varrer todos os gazeus do mapa a rajadas de metralhadora? No burburinho das vielas, como vão reconhecer os terroristas? Vão abordar cada homem e exigir que prove não ser membro do Hamas?

Como se vê, visto daqui, esse morticínio não faz sentido, por nos parecer dar voltas em torno da questão sem resolvê-la. Fica a impressão de que, por mais que haja matança e destruição, os combates hão de se esgotar um dia e a situação regredirá ao “statu quo ante bellum”, ou seja, ao ponto exato em que estava antes da guerra. Terá sido um enfrentamento inútil.

Os observadores situados longe de Israel e da Palestina não estão necessariamente familiarizados com os fluxos e refluxos da política da região, que funciona na base do ódio mútuo, difuso, antigo e encruado. Isso faz que os espectadores esporádicos que somos não captemos a realidade do terreno, o que nos leva a dar nosso apoio a este ou àquele lado seguindo considerações subjetivas e alheias ao contexto.

Uma vista d’olhos nas análises publicadas estes últimos dias em importantes veículos da imprensa internacional confirma a coexistência de apreciações disparates, que variam muito, sempre baseadas em critérios distantes da realidade local.

O Financial Times considera que “a corrida do Ocidente para dar respaldo a Israel corrói o apoio que os países em desenvolvimento dão à Ucrânia”. Em suma, os esforços feitos durante quase dois anos para convencer países mais pobres a apoiar a Ucrânia estariam sendo jogados no lixo em poucas semanas. O Brasil é apontado como um dos que levantaram objeções ao apoio a Israel.

Outros veículos, como Le Monde, vão pela mesma trilha. O diário francês sublinha a sinuca em que se meteram os países do dito “Sul Global”, que não sabem mais a qual dos lados dar seu apoio. O hong-konguês South China Morning Post ressalta que o presidente Ramaphosa, da África do Sul, apareceu outro dia numa manifestação pública portando nos ombros uma faixa com as cores da Palestina. Outros órgãos da mídia evidenciam detalhes, contudo sem roçar o cerne da questão.

Uma análise do historiador israelense Yuval Harari, publicada no Washington Post e repicada em diversos veículos internacionais, me parece particularmente sagaz. Harari está convencido de que o Hamas, ao desencadear essa guerra, sabia muito bem o que estava fazendo e aonde pretendia chegar. A organização terrorista não tem interesse na paz, visto que só tem chance de sobreviver se a região se mantiver em estado permanente de beligerância.

O objetivo maior do Hamas é destruir Israel e estabelecer na região um califado regido pela xaria, o direito islâmico. Com o ataque de 6 de outubro, venceu batalhas importantes. Ofuscou a guerra na Ucrânia e desviou as atenções do planeta para a região palestina. Abriu nova clivagem entre as nações, que ora se dividem entre as que apoiam Israel e as que defendem a causa palestina.

Nesta altura dos acontecimentos, já temos algumas certezas. A normalização das relações entre Israel e a vizinhança árabe, encetada havia meses, entra em hibernação. A sensação de relativa segurança que reinou estes últimos anos em Israel se dissipou. A paz na região está mais distante do que nunca.

Por que há guerras? A resposta é complicada, mas uma coisa é certa: o pogrom lançado pelo Hamas marcou os espíritos e vai ecoar por décadas.

O combate às milícias

José Horta Manzano

Não sou grande conhecedor do mundo das milícias. Pelo que tenho lido, são organizações paramilitares especializadas em negócios escusos, como por exemplo achaque à população civil a fim de extorquir dinheiro de cidadãos indefesos, extorsão feita sob ameaça de retaliações. Entendo também que são muitos e que estão especialmente presentes na cidade e no estado do Rio de Janeiro.

Às vezes chego a acreditar que jornalistas também possam estar enfronhados nesses assuntos, tal é a familiaridade com que falam do “Abelha”, do “Zinho”, do “Faustão” e de outros milicianos de alto coturno. Como é que se faz pra conhecer o nome dos integrantes de um bando de elementos fora da lei?

Há suspeitas de que nosso ex-presidente Bolsonaro e seus filhos tenham ligações bastante chegadas com milicianos. Nada foi ainda provado, mas a desconfiança permanece. Talvez nunca se venha a saber. Quando figurões estão envolvidos, mais vale uma bela mentira que a feia verdade.

Há mais do que suspeitas da existência de ligações promíscuas entre milicianos, políticos e até militares.Testemunhos reforçam essas conexões. Volta e meia, os próprios fatos se encarregam de corroborar esse convívio – contra a natureza, diga-se – entre delinquentes e os que, em tese, deveriam dar-lhes voz de prisão.

Estes dias, após o assassinato pela milícia de um grupo de médicos que visitavam o Rio para um congresso profissional, a população sentiu o tranco. Enquanto as vítimas são pobretões de quem se extorque uma “comissão” pelo direito de usar água ou eletricidade, a boa sociedade olha para o outro lado e faz que não viu. No dia em que quatro doutores são abatidos com rajadas de metralhadora na porta de um hotel estrelado, a coisa muda.

O governo Lula estuda enviar a tropa para “erradicar” milicianos da paisagem carioca. É permitido, desde já, apostar todas as fichas no fracasso da missão. Não faz sentido.

Em primeiro lugar, tropa não é polícia. Militares são formados para defender nossas fronteiras e para operar na selva, longe do habitado. Resolver crises urbanas não é especialidade deles.

Em segundo lugar, até os mosaicos de pedra portuguesa de Copacabana sabem que será impossível “erradicar” as milícias enquanto elas estiverem contaminadas (e protegidas) por políticos politiqueiros e policiais indignos do uniforme que vestem.

O melhor caminho para a erradicação de grupos milicianos começa pelo combate à promiscuidade que os envolve com políticos de baixa extração e policiais sem caráter. É menos vistoso e bem mais complicado que mandar recrutas, mas é esse o caminho. Sem isso, o envio da tropa será apenas inócua ação de fachada para impressionar a galeria.

Lista telefônica

José Horta Manzano


Será que os mais jovens já viram uma lista telefônica?


Era um livro gordão, pesado, de capa mole, com a lista dos assinantes do serviço telefônico de uma determinada região.

De criança, eu gostava de ler lista telefônica. Passatempo bizarro, né? Podia passar horas folheando aquele calhamaço. Falando nisso, faz tempo que não vejo uma, será que ainda publicam? Hoje, com a praticidade de internet e google na palma da mão, não faz mesmo mais sentido distribuir um catálogo que, ao ser impresso, já está desatualizado.

Numa época em que não havia internet, a lista era ferramenta indispensável. Sem ela, como saber o número de telefone de alguém? Cada assinante de uma linha fixa (todas as linhas eram fixas) tinha direito a um exemplar. Todo ano, vinha um funcionário da companhia telefônica trazer a nova lista e recolher a antiga. Não sei por que razão recolhiam a anterior. Era obrigatório, não deixavam ninguém guardar o volume do ano anterior. Seria pra recuperarem uns centavos com a venda de papel velho?

Nas grandes cidades, havia duas listas de particulares: a de nomes e a de endereços. A primeira trazia os assinantes por ordem alfabética do sobrenome, começando com a família Aadyl e terminando com o clã Zwingli. A segunda lista era organizada por nome de rua, casa por casa, seguindo a ordem numérica. Nas cidades maiores, havia também as “páginas amarelas”, que listavam empresas, lojas e profissionais. Eram organizadas por atividade profissional.

Eu gostava daqueles livrões gordos, rechonchudos, de centenas de páginas impressas em papel-bíblia com letrinhas miúdas.

Eram tempos menos violentos, em que praticamente ninguém se opunha a ver seu nome, endereço e n° de telefone publicados, à vista de todos, à mercê de qualquer mal-intencionado. Figuravam na lista nossos parentes, professores e colegas, mas também políticos, jornalistas, personagens do rádio e da tevê, gente conhecida.

Hoje, isso deve parecer conto da carochinha. Vivemos atualmente num mundo em que figuras conhecidas são obrigadas a viver cercadas de seguranças. Até o cidadão comum, que não dispõe de milhões de seguidores em rede nenhuma, é obrigado a se proteger da criminalidade: mora em casa com aparência de jaula ou em prédio ornado de guarita, sistema de alarme e câmeras de vigilância. E, se puder, manda blindar o carro.

A violência permeia nossa existência. Me pergunto até que ponto o passar das décadas melhorou a vida de todos. Hoje viajamos mais rápido e conversamos (de longe) com montões de amigos. Por seu lado, ninguém mais sabe o que é uma pitanga; para andar a pé, tem de subir na esteira da academia porque na rua é perigoso; o celular tem mil utilidades, mas é melhor não sacá-lo na rua, porque periga ser levado por alguém.

Me pergunto se não se vivia melhor no tempo das listas telefônicas.

Uma rara história feliz

José Horta Manzano

A mídia nacional não deu grande importância à história que vou contar. Pode ser que o preconceito tenha atrapalhado, não sei. Encontrei o relato em numerosos veículos estrangeiros, todos baseados num despacho da AFP – Agência Francesa de Notícias.

É a história de Dyhan Cardoso, 19 anos, preto e pobre. O jovem vive com os pais e uma irmã em Aglomerado da Serra, uma das maiores favelas de Belo Horizonte. Desde criancinha, inexplicavelmente, se encantou pela dança clássica. É verdade que favelado e bailarino clássico são termos que não costumam aparecer juntos.

Conseguiu uma bolsa e se inscreveu numa escola de balé. Enfrentou preconceito. “Nas aulas, sempre fui o único menino, o único preto e o único pobre. Confortável não era, mas eu não ligava” – foi o que declarou o jovem. É preciso muita coragem e determinação para enfrentar tal situação, especialmente quando se é adolescente.

Dyhan nunca se deixou desanimar. Nem piadas maliciosas, nem associações de dança com “as elites” conseguiram abalá-lo. “Se você tem um sonho, tem que ir atrás e conquistá-lo”, é o que afirma.

A escola de dança fica situada “na parte rica” da cidade. O rapaz conseguiu ser admitido por intermediação de uma cliente do restaurante onde sua mãe é cozinheira.

Mês passado, Dyhan se apresentou para um teste de dança em BH. Sua intenção era só ficar sabendo quais eram seus defeitos e como devia se exercitar para evoluir. A vida lhe reservava uma surpresa.

“Será que estou sonhando?”, foi sua reação ao ouvir a tradução dos elogios feitos a ele, em inglês, por um senhor estrangeiro. Seu físico esguio e privilegiado lhe permite fazer passos muito difíceis com qualidade e beleza estética fora do comum.

Menos de um mês depois, veio o convite. A companhia americana Atlanta Ballet, do estado da Geórgia (EUA), fez uma proposta a Dyhan para integrar seu corpo de bailarinos.

Ele partiu outro dia para os Estados Unidos. Foi com os olhos cheios de estrelas e, no bolso, uma passagem de ida simples, sem data para voltar.

Entrevista de 2 min. concedida pelo jovem bailarino à AFP.

No topo do mundo

O Globo online, 20 out° 2023

José Horta Manzano

Quando li o título da chamada, quase caí da cadeira. Com que então, 1.300 brasileiros estão entre os melhores pesquisadores do mundo? Que notícia estupenda! Nossos complexos de inferioridade logo estarão redimidos.

No entanto, uma curiosidade me fazia cosquinhas: quantos pesquisadores aparecem na lista geral? No finzinho do artigo, vem a resposta.

A lista integral contém exatamente 210.198 cientistas. Fazendo as continhas, os 1.297 brasileiros representam uma porcentagem magrinha: são apenas 0,6% do total.

Ainda não chegou a hora de estourar champanhe.