CPI e seus mistérios

José Horta Manzano

Nessa CPI, verdadeiro circo de absurdos montado em Brasília, saltaram ao picadeiro, na semana passada, dois misteriosos personagens. Há quem jure que formam uma dupla caipira. Mas é só impressão. Levam por sobrenome Miranda e Dominguetti.

O primeiro deles, Luís Miranda, tem um irmão que, de forma enigmática, também se chama Luís. São coisas da vida. O segundo personagem, Dominguetti, veja que coincidência, também se chama Luís. Um festival.

Miranda
É sobrenome de respeito. Tem origem no latim mirandus, que significa “que vale a pena ser admirado”. Começou a ser atribuído na Idade Média, na região das Astúrias (Espanha). De lá se espalhou pela Espanha e pelos territórios que, em algum momento, estiveram sob o domínio da coroa espanhola: Portugal, Nápoles e sul da Itália, América Latina (Brasil incluído), Filipinas.

Uma representante da grande família – Carmen Miranda – foi, durante décadas, a personagem brasileira mais popular no planeta.

Esperemos que os Luíses (Miranda) da CPI façam jus ao sobrenome e tenham comportamento admirável.

Dominguetti
Segundo a imprensa, a grafia flutua entre Dominguetti e Dominghetti. Às vezes, as duas formas se encontram dentro de um mesmo artigo.

Trata-se de sobrenome de consonância italiana. É bem possível que, depois de deixar a Itália natal, chegar ao Brasil e atravessar transcrições e adaptações conformes a nosso usos, a grafia (e o som) desse nome tenham sido alterados. O mesmo infortúnio acometeu centenas de outros nomes de imigrantes.

Não há registro da forma Dominghetti na extensa lista de sobrenomes italianos. Isso faz supor que o original possa ter sido Domenighetti, Domeneghetti, ou algum outro aparentado. São sobrenomes que derivam de formas dialetais do nome medieval Domínicus, como por exemplo Doménicus, Doménego, Domeneghini, Meneghetti. Todos se referem ao domingo, dia do Senhor. É permitido supor que o original italiano tenha sido “traduzido” para se aproximar de nosso domingo.

Resta esperar que as declarações de nosso Dominghetti sejam menos misteriosas que as origens de seu sobrenome. Essa CPI parece cada dia mais obscura, como se tivesse vindo, não pra esclarecer, mas pra confundir.

Corto cabelo e pinto

José Horta Manzano

Frases mal formuladas podem causar efeitos estranhos. O exemplo lapidar está contido nessa curiosa placa de barbearia. A foto circula na internet há anos, mas o efeito hilário continua garantido.

No caso do “Corto cabelo e pinto”, nem mesmo acrescentando uma vírgula se resolve o problema. Uma solução será: “Corto e pinto cabelo”.  Ou talvez: “Cabelo: corto e pinto”. Vi outro dia na Folha esta chamada.

Dado que eu estava, naquele momento, chegando do planeta Marte, fiquei na dúvida se o vendedor de vacinas e o líder do governo Bolsonaro eram uma só pessoa. Quê? É impossível? ¡Que va!

Nestes tempos estranhos, com o governo desregulado que é o nosso, nada mais espanta. Se um ministro do Meio Ambiente está sendo processado por ter se envolvido com contrabandistas de madeira, o líder do governo pode perfeitamente estar vendendo vacina. E faturando alto com isso. Ora, ora.

Buscando a clareza (e evitando que o freguês tenha de ler o artigo inteiro pra saber quem é quem), seria bom reformular a chamada.

Se o líder do governo e o vendedor de vacinas forem uma só pessoa, uma solução seria esta:
“CPI convoca líder do governo Bolsonaro, que vende vacinas e que denunciou propina”

Se forem duas pessoas, é melhor reformular a chamada:
“O líder do governo Bolsonaro e o vendedor de vacinas que denunciou propina são convocados por CPI”.

Assim, nenhum líder poderá botar defeito. Nenhum vendedor de vacinas também.

Para encurtar caminho

José Horta Manzano

A tendência que os falantes têm de encurtar caminho e descobrir atalhos na língua assume diferentes roupagens. Por exemplo, numerosos verbos que costumavam ser pronominais estão deixando de sê-lo.

Mais e mais frequentemente, se ouvem frases como:

“Ele não acostuma com essa vida de casado” (em vez de ele não se acostuma)

ou

“Eu não importo de ficar esperando aqui” (em vez de eu não me importo).

A atual pandemia ergueu ao palco um verbo antes menos comum: vacinar. Temos de constatar que ele também está entrando na categoria dos que vão deixando de ser pronominais.

O recorte reproduzido no início do post está aí pra provar. Diz ele que “vacinar é motivo de vergonha”. Em outros tempos, a manchete seria “tomar vacina é motivo de vergonha” ou também “vacinar-se é motivo de vergonha”. O mundo evolui, e a língua vai junto.

Mas atenção, juventude! Quem estiver mandando bilhete para a namorada pode escrever do jeito que quiser. Já quem estiver em situação mais formal é bom tomar cuidado.

Namorada dá desconto; erro em prova tira ponto!

Vacinar = dar vacina, aplicar vacina.

Vacinar-se = receber vacina, ser vacinado.

Na dúvida, diga: “tomar vacina”. É mais simples, resolve o problema, não tira pontos e, ainda por cima, protege contra a doença.

Cambalhotas na língua

Ruy Castro (*)

Quando escuto a primeira sílaba, meus ouvidos já entram em alerta. Alguém vai dizer a palavra “especificamente”. É um dos advérbios mais em voga no momento, e cada pessoa o acentua numa sílaba diferente. Alguns carregam no “fi”: especiFIcamente. Outros fazem a língua dar uma cambalhota e põem o peso no “pe”: esPÉcificamente. E há quem tenha de dar um salto mortal sem rede para pronunciar ÉSpecificamente. Só os puristas acentuam direito o “ci”: espeCIficamente.

Outra tendência da nova fala brasileira é a desmoralização do sujeito. Lembra-se dele nos seus tempos de cartilha? O sujeito era aquele termo da oração que formava com o verbo e o predicado uma espécie de Trio Maravilhoso Regina da língua – sabonete, água de colônia e talco. Mas parece que o sujeito, ele não é mais suficiente na frase. As pessoas, elas agora o acoplam a um pronome. O resultado, ele fica assim como você está lendo. Temo que, em breve, os escritores, eles passem a fazer o mesmo em seus textos. E, quando isso acontecer, o leitor, ele vai se dar conta da monotonia da coisa. Aliás, essa monotonia, ela acontece também na língua falada. Mas as pessoas, elas ainda não acordaram para isso.

E a palavra “robusto”? No passado, robustas eram as meninas que tomavam Toddy. Hoje, abundam robustas acusações contra os bolsonaros e não acontece nada. E quem ainda tolera o “simples assim”? Nos anos 80, só os leitores de Paulo Francis, introdutor dessa expressão na língua, a usavam. Agora qualquer pazuello faz uma cara beócia e vasovagal e a emprega para explicar que um manda e outro obedece.

Por sorte, clichês agonizantes como “reto e direto”, “sem querer interromper e já interrompendo”, “zona de conforto”, “ponto fora da curva” e “tudo junto e misturado” já saíram de moda, e só os desinformados ainda os usam.

Claro que a fala do dia a dia, ela é meio assim, tudo junto e misturado, não?

(*) Ruy Castro (1948-) é escritor, biógrafo, jornalista e colunista. Seus artigos são publicados em numerosos veículos.

Milagre?

José Horta Manzano

Num raro sincericídio cometido nas barbas de apoiadores entusiastas, Jair Bolsonaro confessou ontem que é milagre ter conseguido segurar-se no mandato até agora.

Apesar do apreço que tenho e da reverência que sinto para com o capitão, devo discordar. Peço vênia, Excelência!

Milagre, em nossa língua, é palavra reservada para acontecimentos benéficos, favoráveis e auspiciosos. É sempre usada em sentido positivo.

Tem sido assim desde os milagres bíblicos, em que paralíticos voltavam a caminhar, cegos recobravam a visão e multidões eram alimentadas com meia dúzia de peixes.

Milagre não é a faísca acidental que bota fogo na casa, mas a chuva que apaga o incêndio.

Como tem feito em frequentes ocasiões, Sua Excelência distorce a realidade a seu favor. O fato de ter-se mantido na Presidência até agora não é milagre. A língua oferece um balaio de termos que se adaptam melhor. À escolha:

maldição,
desgraça,
fatalidade,
desventura,
cataclismo,
desventura,
infortúnio,
sinistro,
catástrofe,
adversidade,
desdita,
calamidade,
desastre,
estrago.

A lista não é exaustiva, mas vou parar por aqui pra este post não ficar demais deprimente. Ai de nós!

Chué

José Horta Manzano

Quero crer que a foto foi batida no interior de um dos palácios oficiais que a República destina ao presidente: Alvorada, Planalto ou Granja do Torto. Dá pra imaginar o momento que antecedeu a imagem congelada.

De repente, o capitão se levanta e ordena a um serviçal que, de pé, assistia ao jogo, pronto pra atender a um chamado.

“Ô amizade! Pega teu telefone aí e tira uma foto de mim aí! Péra, não, você fica ali, péra um pouco, é pra mim sair na frente da tela. Deixa eu espichar o dedo. Pronto, agora, pode tirar!”

O resultado é o que se vê acima. É raro ver tanto mau gosto reunido numa só imagem. É verdade que bom gosto não é exatamente o que se espera do personagem. Assim mesmo, a gente tem sempre um fiozinho de esperança – que se esfiapa a cada vez.

A tela
Sua Excelência, aproveitando-se da exposição que o cargo lhe dá, aponta para o logo de uma emissora de televisão amiga. Ao fazê-lo, faz propaganda da empresa. Pega muito, mas muito mal. Presidente da República, justamente pela visibilidade de que dispõe, não pode exercer o papel de garoto-propaganda de empresa nenhuma. É indigno do cargo, e injusto para com as emissoras concorrentes.

Se eu fosse responsável por uma dessas emissoras que não tiveram direito a receber a bênção presidencial, entrava com pedido de ressarcimento pelo fato de minha empresa não ter sido contemplada com tratamento igual. É questão de isonomia. Ou Sua Excelência faz propaganda de meu canal também, ou exijo compensação financeira. A Justiça não ia ter como negar. E serviria de lição ao presidente descarado.

Eu poderia fazer propaganda de quem bem entendesse, que o alcance de minhas palavras não iria muito longe. Quando são figuras públicas que se pronunciam, como o presidente da República, é diferente. Uma palavra dessa gente causa forte impacto. Vale como exemplo o gesto do jogador Ronaldo, que outro dia, numa entrevista coletiva, empurrou para o lado uma garrafa de Coca-Cola: 30 minutos depois, a marca havia perdido 4 bilhões de dólares de valor de mercado.

Qualquer dia destes, o capitão devia fazer-se fotografar em frente à tela na hora da novela. Queria ver qual é o logo que aparece no canto.

A camiseta
Pelo que entendi, a camiseta (ou camisola, como preferem nossos amigos lusos) que o presidente veste é o uniforme de um time de futebol de Santa Catarina. Uma cadeia de lojas patrocina o time, o que explica as letras de 20cm de altura. Neste caso, fica complicado falar em propaganda indevida, como no caso da emissora de tevê.

Mas não fica complicado falar do requinte de mau gosto do capitão. De fato, quem ostenta um barrigão daqueles deve abster-se de vestir camiseta justinha. Pior ainda se for de cor amarela. O homem engordou muitíssimo de um ano e meio pra cá. A boia do palácio deve ser superior ao que serviam na cantina da Câmara.

Os fios
Esta não tem muito a ver com o capitão, mas ele não deixa de ser cúmplice. Você reparou naqueles fios que saem do decodificador de tevê? Minha casa não é o Palácio da Alvorada, mas aqui os fios são mais comportadinhos. Aquela fiação pendurada que aparece na foto presidencial está mais pra gato montado pra sugar o sinal do vizinho otário que paga a assinatura.

Os objetos
Repare na coleção de objetos disparates captados pela câmera. Temos:

  • o decodificador (que ficava melhor se estivesse disfarçado dentro de um compartimento, com os fios camuflados dentro de uma canaleta ou de um conduíte);
  • um calendário (que lembra brinde de fim de ano da farmácia da esquina);
  • um objeto (que parece ser um agrupamento de cristal de rocha desses que a gente traz de lembrança de viagem);
  • um livrinho azul (que não deve ser a Constituição, pois o presidente guarda a dele religiosamente na mesinha de cabeceira, para consulta diária, como todos sabem);
  • um vaso azul.

Ah, vou contar um segredo, que talvez nem o capitão saiba. Vamos falar baixinho, que é pra ele não ouvir. Sabe o vaso de porcelana que aparece justamente entre a tela e o capitão? Vão me desculpar pela ousadia, mas é a peça de maior valor nessa imagem; vale mais que a tela e o dono da casa adicionados. Pelo alto valor, até destoa dos demais objetos expostos. Só que tem um senão: o vaso é… chinês!

Não deixem que o capitão fique sabendo, senão ele vai ter pesadelos à noite.

Chué
Faz tempo que não ouço o termo chué, que pus no título. Me pergunto se seu prazo de validade já não estaria vencido. É adjetivo e significa ordinário, à toa, reles, pífio, cafona.

É palavra de origem árabe, língua em que significa pouco, pequena quantidade. Entrou na nossa língua no tempo da ocupação da Península Ibérica pelos mouros. É interessante que tenha sobrevivido em português, mas não em espanhol nem em catalão.

Por outro caminho, o termo também chegou ao francês atual. A importação foi feita na época em que a Argélia, região onde se fala um dialeto árabe, era colônia francesa. Em francês, a palavra é usada ora como substantivo, ora como advérbio. Tem a forma chouya (pron: chuiá) e mantém o significado original de quantidade pequena, pouco.

Se ele pôr

José Horta Manzano

Tenho dificuldade em entender a razão pela qual um cidadão é obrigado a dizer a verdade sob risco de ser preso, enquanto um outro é eximido dessa responsabilidade, podendo ficar em silêncio ou até contar mentiras.

Não entendo tampouco por que razão a CPI mantém o convite a pessoas que gozam do privilégio de poder mentir sem sofrer sanções. Que valor tem um depoimento em que o arguído pode até estar mentindo?

Por último – mas não menos importante –, a conjugação dos compostos do verbo pôr é complicada. Isso acontece porque muitos falantes (e escreventes) se esquecem de detalhe importante: todos os verbos derivados se conjugam exatamente como o pai da família.

Os tempos mais comuns não apresentam dificuldade. Ela surge na hora de utilizar o futuro do subjuntivo.

      • Pôr    =  se ele puser
      • Dispor =  se ele dispuser
      • Compor =  se ele compuser
      • Repor  =  se ele repuser

e, naturalmente:

      • Depor  = se ele depuser.

Consertando a linha fina da chamada: Se depuser, ex-governador poderá ficar em silêncio e não precisará assumir compromisso de falar a verdade.

(Dizer a verdade ficaria melhor. Mas não vamos pedir demais.)

Rainha Isabel

José Horta Manzano

O aportuguesamento de nomes e sobrenomes era comum nos antigamentes. Todas as línguas procediam exatamente da mesma maneira. Há exemplos a dar com pau.

No original italiano, Cristóvão Colombo era Cristòforo Colombo. Em inglês, ficou Christopher Columbus; em espanhol, Cristóbal Colón; em francês, Christophe Colomb; em alemão, Christoph Kolumbus.

O português Fernão de Magalhães virou Fernand de Magellan em francês, Ferdinando Magellano em italiano, Fernando de Magallanes em espanhol.

Em nossa língua, o polonês Mikołaj Kopernik transformou-se em Nicolau Copérnico. Ingleses e alemães conhecem nosso D. Pedro II como Peter II, enquanto italianos dizem Pietro II e franceses preferem Pierre II.

Os espanhóis, até hoje, traduzem o nome dos membros da realeza estrangeira. Quando se referem à família real inglesa, é divertido ouvir falarem da rainha Isabel e dos príncipes Carlos, Guillermo, Henrique e Jorge. A gente precisa retraduzir mentalmente pra saber de quem estão falando.

No Brasil, hoje em dia, é raro ver nome estrangeiro traduzido ou adaptado. Mas de vez em quando escapa um. Foi o que fez o estagiário do Estadão, ao mencionar o nome daquele que (parece que) acaba de ser eleito para o cargo de presidente do Peru: Castillo virou Castilho.

Mas vamos ser justos: foi sem intenção. Na hora de escrever, o automatismo falou mais alto e os dedinhos correram soltos.

Desinformação

Folha de São Paulo

 

José Horta Manzano

Vivemos a época do “politicamente correto”. No fundo, que bicho é esse? É a arte de encontrar palavras suaves pra descrever uma realidade que a gente tenta eclipsar. É o jeito de girar em torno do objetivo pra dizer, no final, a mesma coisa. Em palavras cruas, o “politicamente correto” não deixa de ser um tipo de fingimento, de hipocrisia, de impostura.

Não é de hoje que se usam expressões politicamente corretas. Só que, antigamente, não eram a seita dominante. A gente usava sem se dar conta. Ao dizer “João é um rapaz de cor”, “Maria está conservada”, “Joana está um pouco forte de corpo”, estávamos trilhando caminhos politicamente corretos antes da moda.

Hoje é religião oficial, que nos obriga a cumprir direitinho os ritos, que é pra não ser condenado à execração pública. No entanto, adotar a religião do “politicamente correto” não implica fazer reforma integral do vocabulário a fim de eliminar palavras de sentido negativo. Não há que exagerar.

Segundo a chamada de jornal que reproduzo acima, “Bolsonaro desinforma ao dizer que as vacinas anticovid são experimentais”. Não concordo com a expressão. Não há por que recorrer a formulações suaves para traduzir o que disse o capitão. Praticar negacionismo explícito, quando uma tenebrosa pandemia está em curso, é ato grave. A meu ver, quem ajuda a abafar a realidade torna-se cúmplice do negacionismo presidencial.

A língua oferece uma dúzia de verbos que se aplicam melhor para descrever a atitude do presidente: enganar, ludibriar, engodar, falsear, enrolar e tantos outros.

Consertando a manchete, temos:

“Bolsonaro engana ao dizer que as vacinas anticovid são experimentais.”
“Bolsonaro engazupa ao dizer que as vacinas anticovid são experimentais.”
“Bolsonaro tapeia ao dizer que as vacinas anticovid são experimentais.”
“Bolsonaro engrupe ao dizer que as vacinas anticovid são experimentais.”

Etc.

Desinformar & desinformação
O verbo desinformar entrou só recentemente na linguagem de todos os dias. Nos anos 1960, não existia. O que se via às vezes era a palavra desinformação – que tinha, naquela época, o sentido de desconhecimento.

Ex: “Nota-se que, no meio estudantil, há grande desinformação quanto à recente reforma curricular”.

Foi só a partir dos anos 1970 que desinformar começou a fazer raras aparições na imprensa, já com o sentido que lhe atribuimos hoje. Um dos primeiros a usar esse verbo foi justamente o então sindicalista Luiz Inácio da Silva, o Lula, numa entrevista de julho de 1986 em que criticava a imprensa e acusava um determinado jornal de desinformar (=enganar) o público.

Como se vê, críticas à imprensa não são exclusividade de simpatizantes desta ou daquela corrente política. O expediente é velho como o mundo: quando não se aprecia a notícia, a culpa é sempre do mensageiro.

Açougueiro da Bósnia

Folha

Estadão

O Tempo

José Horta Manzano

Séculos atrás, açougue era o nome do estabelecimento onde reses eram abatidas e desmembradas para posterior consumo. A prática continua, mas o nome do estabelecimento mudou: hoje se diz matadouro. Em nossos dias, açougue designa apenas a loja que vende carne. Açougueiro, por consequência, é o indivíduo que lá prepara a mercadoria e atende aos clientes.

Em inglês é diferente. O termo butcher serve para designar tanto o funcionário do açougue quanto o do matadouro. Ao dar a Ratko Mladić a alcunha de “Butcher of Bosnia”, não o estão comparando ao açougueiro da esquina, mas a um funcionário do abatedouro, um matador, aquele cuja função é abater animais. A imagem é contundente, especialmente porque o referido senhor não era propriamente funcionário de um matadouro. Fazia por gosto. E com gente. Dá até arrepio.

Ao traduzir “Butcher of Bosnia” por “Açougueiro da Bósnia”, toda a dramaticidade da expressão inglesa se perde. Mais adequada será dar-lhe a alcunha de “Carniceiro da Bósnia”.

Butcher
A palavra inglesa é a adaptação fonética do francês boucher. Na Idade Média, quando foi importado, o termo designava o homem que abatia reses para, em seguida, vender a carne no varejo. Um serviço completo, do pasto ao prato.

No francês atual, a palavra corresponde a nosso açougueiro. Em inglês, todavia, butcher mantém os dois sentidos – o homem que abate e o que vende são designados pelo mesmo termo.

Eis por que, em inglês, faz sentido dizer que nosso gentil personagem é um “butcher”. No Brasil, para guardar o mesmo impacto, temos de dizer “carniceiro”.

Nota final
Um genocidário não perde por esperar. A justiça acaba por alcançá-lo, nem que seja um quarto de século depois.

Imunidade de rebanho

Imunidade coletiva

José Horta Manzano

Depois que os integrantes de hordas não-bolsonaristas resolveram chamar os integrantes de hordas bolsonaristas de gado, os termos que se referem à pecuária devem ser utilizados com muito cuidado, especialmente quando aplicados a humanos.

Dizer que, com a aceleração da vacinação, a imunidade de rebanho será logo alcançada, pode melindrar espíritos mais sensíveis. Talvez os integrantes das hordas bolsonaristas apreciem o elogio, talvez reclamem da implicância. Quanto aos integrantes das hordas não-bolsonaristas, certamente detestarão a expressão, justamente por não admitirem ser confundidos com gado. Gado, como sabemos, são sempre os outros.

Para não ofender nem uns nem outros, a língua – generosa – oferece diversas opções. Eis algumas:

    • Imunidade de grupo
    • Imunidade gregária
    • Imunidade de comunidade
    • Imunidade coletiva
    • Imunidade de população
    • Imunidade de massa

Está vendo? Pra evitar mal-entendidos, fuja da duvidosa imunidade de rebanho. Quando se fala em eliminar febre aftosa, a expressão que convém é exatamente imunidade de rebanho. Para gente, mais vale evitar polêmica.

Imunidade
A palavra deriva do adjetivo latino immunis (=imune), formado pela partícula in (negação) + munem (de munus = obrigação, dever). Na origem, tinha o sentido que hoje damos a isento. Quando determinados cidadãos estavam desobrigados de pagar uma taxa, por exemplo, dizia-se que estavam imunes.

Até hoje, as bagagens do diplomata passam a alfândega sem inspeção, em virtude da imunidade diplomática. Por seu lado, eleitos do povo são protegidos pela imunidade parlamentar.

O sentido que a palavra imunidade adquiriu em medicina é bem mais recente. Só apareceu no século 19, com a popularização da vacina antivariólica. O primeiro registro é da edição de 1865 do Dicionário Médico Littré-Robin (=immunité). De lá, passou às demais línguas.

Membra

José Horta Manzano

De vez em quando, a gente hesita na hora de especificar o gênero gramatical de certas palavras. Quando a palavra termina em o (ou a), é quase certo que seja masculina (ou feminina). No entanto, se acabar em e, aí pode complicar.

Em certos casos, os falantes oscilam entre os dois gêneros, o que leva a Academia, num rasgo de magnanimidade, a admitir ambos. É o que acontece com as estrangeiras omelete e fondue. De fato, segundo os dicionários, tanto o omelete quanto a omelete são formas legítimas. O mesmo vale para fondue.

Nossa língua não é a única a sofrer esse tipo de engasgo. Em francês, há um caso curioso. Para designar a parteira, usa-se o termo sage-femme, onde sage=sábio(a) e femme=mulher. Portanto, ao pé da letra, mulher-sábia. Acontece que, estes últimos anos, alguns homens têm escolhido essa profissão. Fazem o curso, recebem o diploma e podem exercer. Como chamá-los? Sage-homme? Depois de certa hesitação e muita discussão, ficou sage-femme mesmo. Não deixa de ser peculiar um homem exercer a profissão de mulher-sábia.

O inglês também tem um caso semelhante. As enfermeiras, tradicionalmente mulheres, foram chamadas com uma palavra francesa: nurse. Trata-se da adaptação à fonética inglesa do francês nourrice (=ama de leite). A palavra transmite a ideia de alguém que cuida. Como no caso das parteiras, um dia homens começaram também a escolher essa profissão. Como chamá-los? O inglês optou por male-nurse (male = macho, masculino).

Há um caso curioso também em Portugal. Naquele país, a diarista (empregada doméstica que não mora no emprego) é chamada de mulher-a-dias. A prosperidade dos últimos anos atraiu importante corrente imigratória formada por indivíduos sem formação profissional. Na falta de outra opção, homens também têm procurado emprego de diarista. Como chamá-los? Homens-a-dias? O martelo ainda não foi batido. O futuro dirá que solução foi adotada.

Em português, há palavras que, por mais que a gente não queira, só admitem um gênero. É o caso de ídolo, por exemplo. Nada de “minha ídola”. Falando de uma mulher, fica: “Aquela atriz é meu ídolo”. O mesmo rigor se aplica a membro. Dizer “ela é membra do Conselho Olímpico” dói no ouvido. Diferentemente do que decidiu o estagiário ao redigir a chamada estampada acima, mais vale manter a pose: “Ela é membro do Conselho Olímpico”. Fica melhor.

Observação 1
O VOLP (Vocabulário editado pela Academia Brasileira de Letras) não admite o feminino membra. O Houaiss, no entanto, abona o verbete, especificando que é forma pouco usada. Devia ter dito também que é forma não recomendada. Pelo menos, por enquanto. Mas a língua evolui. Amanhã, talvez.

Observação 2
O recorte de jornal me foi enviado por Aldo Bizzocchi, linguista e atento leitor. Fica aqui meu agradecimento.

Leva eu!

 

 

 

José Horta Manzano

Nos anos 1960, um grupo vocal de nove componentes ficou bastante conhecido. Era Nilo Amaro com seus Cantores de Ébano, nome que fazia referência ao fato de serem todos negros. O som do conjunto era afinado e harmônico. O maior sucesso deles foi a toada Leva eu, sodade.

Cada vez que ouço ou leio a informação de que Fulano vai ao STF ou que afiliados ao Partido Não Sei das Quantas vão ao STF, me lembro da música. A letra era assim:

Ô leva eu, minha sodade,
Que eu também quero ir, minha sodade,
Quando chego na ladeira, tenho medo de cair
Leva eu, leva eu, minha sodade.

Já que eles vão (ao STF), eu também quero ir, ora. Leva eu!

Falando sério, que falta de imaginação, não? Com tanto verbo à disposição, repetem sempre o mesmo. De tanto usar, vai gastar.

Caso um dia o distinto leitor tenha de redigir um artigo informando que, digamos, os deputados “vão” ao STF, aqui ficam algumas sugestões. É pra variar um pouco.

Os deputados apelam para o STF
Os deputados invocam o STF
Os deputados dirigem-se ao STF
Os deputados recorrem ao STF
Os deputados buscam o STF
Os deputados procuram o STF

Se for feriado, que é dia de vestir roupa bonita, há formas que dão o recado com maior elegância.

Os deputados acodem-se do STF
Os deputados valem-se do STF
Os deputados socorrem-se do STF

Procure escapar do verbo ir. Um pouco de variedade não faz mal a ninguém.

CPI aguarda explodir?

Chamada O Globo, 27 mai 2021

José Horta Manzano

“Witzel é bomba contra o Planalto que CPI aguarda explosão”

É o que diz a chamada do jornal. Frase esquisita, não? A gente até que entende o que o estagiário quis dizer, mas o título parece meio torto.

Consertar é fácil. É até curioso que o autor da frase não tenha pensado nisso. Basta mudar uma palavra. Quer ver?

“Witzel é bomba contra o Planalto, que CPI aguarda explodir

Pronto. Explodir no lugar de explosão, e o problema está resolvido.

Só que tomei o cuidado de acrescentar uma vírgula. Nesse caso, faz diferença. Sem ela, dá-se o recado de que a CPI está aguardando a explosão do Planalto. Cruz-credo! Os senadores estão exaltados, mas não a esse ponto. Enfim, acredito que não.

Paralelismo

José Horta Manzano

Muitas palavras têm sido criadas desde que a pandemia se instalou. É normal. Atos e fatos novos tendem a ser descritos por palavras novas. Em alguns casos, termos antigos que andavam esquecidos no dicionário se reabilitam e ressurgem pimpões e empertigados.

A própria palavra pandemia é um bom exemplo. De uso pra lá de restrito nos tempos de antigamente, voltou a circular com vigor assim que esse novo coronavírus se alastrou pelo planeta.

A palavra aparece em francês (pandémie), na altura dos anos 1750. Com pequenas adaptações, foi pouco a pouco adotada pelas demais línguas. É interessante notar que a língua inglesa, embora também conte com a palavra pandemia, dá preferência a pandemic, que é adjetivo na origem, mas substantivado nesse caso (pandemic disease = doença pandêmica).

Em nossa língua, uma palavra que andava meio fora de circulação e que ressurgiu agora é o adjetivo presencial. Ouve-se falar em aulas presenciais, por oposição a aulas à distância. É curioso constatar que ninguém, que eu tenha visto, ousou utilizar o antônimo natural de presencial, que é distancial.

É verdade que o adjetivo distancial não está dicionarizado. Mas não vejo razão pra esperar que apareça no Aurélio ou no Houaiss. Dicionários não impõem nem abolem palavras; eles só registram o que estiver em uso.

Por mim, se a aula (ou a conferência, a consulta, a conversa) não for presencial será distancial. Paralelismo não faz mal.

Rápido como um raio

José Horta Manzano

No dia 23 de maio de 2021, participou da macabra “motociata”(*) promovida pelo Presidente da República em algumas cidades do país para comemorar os cerca de 500 mil mortos vítimas da covid. O ato – inspirado no passeio de moto promovido pelo líder fascista Benito Mussolini em 1933 para impressionar a população – ajudou a causar aglomerações por onde passou e a disseminar a doença entre mais brasileiros. A foto de Tarcísio na garupa da moto do Presidente foi destaque no jornal britânico The Guardian, que classificou o evento como “obsceno”.

O parágrafo acima não saiu da minha fábrica. Foi acrescentado às pressas, de ontem para hoje, na biografia de doutor Tarcísio Gomes de Freitas na Wikipédia. Carioca de 1975, o biografado é ministro da Infraestrutura do governo Bolsonaro. Sua carreira política começou quando foi nomeado diretor executivo do DNIT, no governo Dilma Rousseff. Militar da reserva, aderiu ao governo Bolsonaro e agora é apresentado como possível candidato do capitão ao governo de São Paulo. Como se vê, notícia ruim corre o mundo rápido como um raio.

Neologismos
(*)Motociata é termo ultrarrecente. Até outro dia, para fazer contraponto a “carreata”, usava-se “motociclata”. São todos neologismos. A palavra carreata já está dicionarizada; as outras duas, ainda não.

Carreata me parece termo simpático e de formação legítima (carro + [e]ata). Já motociata, além de lembrar negociata, é de formação esquisita.

Para seguir o modelo de carreata (carro + [e]ata), precisava ser moteata (moto + [e]ata), palavra que também soa mal.

Assim, melhor mesmo é conservar motociclata (motociclo + ata). Soa bem e diz o que quer dizer.

Mas isso é só minha opinião. Se o povo consagrar motociata, vamos de motociata. É gaiata, mas… que remédio?

Beijo planetário

Eduardo Affonso (*)

Volta e meia alguém olha atravessado quando escrevo “leiaute”, “becape” ou “apigreide” – possivelmente uma pessoa que não se avexa de escrever “futebol”, “nocaute” e “sanduíche”.

Deve se achar um craque no idioma, me esnobando sem saber que “craque” se escrevia “crack” no tempo em que “gol” era “goal”, “beque” era “back” e “pênalti” era “penalty”. E possivelmente ignorando que esnobar venha de “snob”.

Quem é contra a invasão das palavras estrangeiras (ou do seu aportuguesamento) parece desconsiderar que todas as línguas do mundo se tocam, como se falar fosse um enorme beijo planetário.

As palavras saltam de uma língua para outra, gotículas de saliva circulando em beijos mais ou menos ardentes, dependendo da afinidade entre os falantes. E o português é uma língua que beija bem.

Quando falamos “azul”, estamos falando árabe. E quando folheamos um almanaque, procuramos um alfaiate, subimos uma alvenaria, colocamos um fio de azeite, espetamos um alfinete na almofada, anotamos um algarismo.

Falamos francês quando vamos ao balé, usamos casaco marrom, fazemos uma maquete com vidro fumê, quando comemos um croquete ou pedimos uma omelete ao garçom; quando acendemos o abajur pra tomar um champanhe reclinados no divã ou quando um sutiã provoca um frisson.

Falamos tupi ao pedir um açaí, um suco de abacaxi ou de pitanga; quando vemos um urubu ou um sabiá, ficamos de tocaia, votamos no Tiririca, botamos o braço na tipoia, armamos um sururu, comemos mandioca (ou aipim), regamos uma samambaia, deixamos a peteca cair. Quando comemos moqueca capixaba, tocamos cuíca, cantamos a Garota de Ipanema.

Dá pra imaginar a Bahia sem a capoeira, o acarajé, o dendê, o vatapá, o axé, o afoxé, os orixás, o agogô, os atabaques, os abadás, os babalorixás, as mandingas, os balangandãs? Tudo isso veio no coração dos infames “navios negreiros”.

As palavras estrangeiras sempre entraram sem pedir licença, feito um tsunami. E muitas vezes nos pegando de surpresa, como numa blitz.

Posso estar falando grego, e estou mesmo. Sou ateu, apoio a eutanásia, gosto de metáforas, adoro bibliotecas, detesto conversar ao telefone, já passei por várias cirurgias. E não consigo imaginar que palavras usaríamos para a pizza, a lasanha, o risoto, se a máfia da língua italiana não tivesse contrabandeado esse vocabulário junto com a sua culinária.

Há, claro, os exageros. Ninguém precisa de um “delivery” se pode fazer uma “entrega”, ou anunciar uma “sale” se se trata de uma “liquidação”. Pra quê sair pra night de bike, se dava tranquilamente pra sair pra noite de bicicleta?

Mas a língua portuguesa também se insinua dentro das bocas falantes de outros idiomas. Os japoneses chamam capitão de “kapitan”, copo de “koppu”, pão de “pan”, sabão de “shabon”. Tudo culpa nossa. Como o café, que deixou de ser apenas o grão e a bebida, para ser também o lugar onde é bebido. E a banana, tão fácil de pronunciar quanto de descascar, e que por isso foi incorporada tal e qual a um sem-fim de idiomas. E o caju, que virou “cashew” em inglês (eles nunca iam acertar a pronúncia mesmo).

“Fetish” vem do nosso fetiche, e não o contrário. “Mandarim”, seja o idioma, seja o funcionário que manda, vem do portuguesíssimo verbo “mandar”. O americano chama melaço de “molasses”, mosquito de “mosquito” e piranha, de “piranha” – não chega a ser a conquista da América, mas é um começo.

Tudo isso é a propósito do 5 de maio, Dia da Língua Portuguesa(1), cada vez mais inculta e nem por isso menos bela. Uma língua viva, vibrante, maleável, promíscua – vai de boca em boca, bebendo de todas as fontes, lambendo o que vê pela frente.

Mais de oitocentos anos, e com um tesão de vinte e poucos.

(1) Texto preparado para um 5 de maio.

(*) Eduardo Affonso é arquiteto, colunista do jornal O Globo e blogueiro.

Inocular

José Horta Manzano

Assisti com estes olhos que a terra há de comer. Sou testemunha ocular da história!

Todo o mundo sabe que ocular tem a ver com olho. Pra confirmar, estão aí o oculista, o binóculo e os óculos. Ah! Já que falamos de óculos, atenção, juventude! É bom lembrar que óculos é substantivo plural. Assim, o artigo vai sempre para o plural: os óculos. O óculo (no singular) existe, mas é outra coisa: uma luneta de alcance, que serve para observar com um olho só. Mas vamos voltar ao assunto do dia.

Nesta hora em que todos procuram se vacinar, circula também outro termo aparentado: inocular. Que se saiba, ninguém jamais tomou vacina no olho. Qual é, então, a relação entre a inoculação e os olhos?

De origem antiga, a palavra descende de um latim tardio inoculare. Descreve uma técnica de enxerto de roseira, em que um broto é seccionado da planta-mãe e atado ao caule que vai receber o transplante. A operação serve para desenvolver novas variedades de rosas. O broto, que tem forma arredondada, lembra um olho, daí o nome da técnica.

No início dos anos 1800, começou a popularizar-se o princípio da vacina, novidade para a época. Consistia em injetar pequena quantidade do vírus da varíola para imunizar as pessoas. Para dar nome à nova técnica, a medicina tomou emprestado o verbo latino. Os ingleses, pioneiros nesse campo, passaram a utilizar o verbo to inoculate (= inocular), seguindo a imagem de introduzir um corpo estranho, exatamente como os jardineiros fazem com as roseiras. As outras línguas acompanharam o raciocício.

Fui inoculado? Não! O que é inoculado é a vacina, não a pessoa.

Fica assim:
O enfermeiro inocula a vacina e imuniza o paciente.
A vacina foi inoculada e o paciente ficou imunizado.

O felino de nome estropiado

José Horta Manzano

George-Louis Leclerc, conde de Buffon (1707-1788) foi um naturalista, biólogo, cosmólogo, matemático, filósofo e escritor francês. Brilhante intelectual, viveu numa época estimulante em que quase tudo estava ainda por descobrir e inventar. Era um tempo em que o conhecimento não estava à disposição de todos, como hoje. Sem internet e sem Wikipedia, quem buscasse o saber tinha de suar camisa.

A obra do conde sugere que ele tenha sido grande viajante, daqueles que deram a volta ao mundo. É impressão. Tirando o país natal, só viajou à Inglaterra e à Itália. Estudo, observação e talento fizeram o resto.

Buffon conseguiu a proeza de descrever espécimes exóticos da fauna mundial sem ter nunca saído da Europa. Assim foi com a onça-parda, espécie difusa em todo o continente americano, do Canadá à Patagônia. Conforme a língua, o nome do felino varia. O termo espanhol – puma – foi adotado pela maioria das línguas. Já o francês e o inglês seguiram caminho diferente. E é esse caminho que tem a ver com nosso conde francês.

A história marca que os primeiros europeus a terem contacto com a onça-parda foram os portugueses. Como é o caso de muitos animais da nova terra, os europeus recolheram e adotaram o nome indígena, que era suçuarana. Foi com esse nome que o felino chegou ao conhecimento de Buffon. Só que, nesse ponto, houve um probleminha de grafia.

Diferentemente de quase todas as outras, a língua portuguesa tem cê cedilha. Por falta de familiaridade, a cedilha é muitas vezes esquecida pelo caminho. Assim como os Gonçalves, quando deixam a terra natal, costumam virar Goncalves, o nome da onça foi mutilado. Naqueles longínquos anos 1500, o nome suçuarana (mais provavelmente çuçuarana) chegou à França como cuguacuarana, devido à perda da cedilha e à confusão das consoantes s, c e g.

À medida que os séculos passaram, o comprido nome do bicho foi sendo podado e corroído até desembocar no couguar do francês atual. Em algum ponto do caminho, os britânicos tomaram a forma emprestada e ainda reduziram um bocadinho mais. Ficou cougar, palavra utilizada até hoje em inglês pra dar nome ao bicho. Até que ficou elegante e, principalmente, mais fácil de pronunciar do que o original tupi. O termo soa tão bem que já foi usado até pra nome de modelo de automóvel (Mercury Cougar); aliás, um carro com certa presença.

Trata-se de um dos numerosos casos em que uma palavra exótica, transportada pelo português, veio enriquecer outras línguas europeias.

Eu somos?

Chamada Estadão

José Horta Manzano

À primeira vista, a frase parece correta. Na releitura, dá pra perceber que algo está fora de lugar. E está.

O verbo tem de concordar com o sujeito. Sujeito no singular exige verbo também no singular. E vice-versa.

O sujeito da frase é desinformação, que está no singular; portanto, o verbo também tem de estar.

Retificando:
Desinformação nas redes sociais inflama conflito israelense-palestino.